Incas Venusianos no planeta Brasil

Incas Venusianos no planeta Brasil

Parecia ter nascido com pijama e chinelo. Rosto esculpido em tristeza, vagava sozinho pelo cimento fecundo da vila. Às vezes, dava as caras sua mulher, gêmea da Mãe Chucruts (quem leu Sobrinhos do Capitão sabe de quem estou falando),  sempre de avental, cabeça baixa, sorriso raro. O filho, recruta do exército, igualmente silencioso e triste, usava o corte de cabelo reco que todos replicávamos à força. A família do seu Gama, de rotina opaca e destino penoso, acompanhou palmo a palmo minha meninice. Era assim que as coisas deveriam ser?

Ouvia falar de futuros pela voz autorizada do astrólogo Omar Cardoso, oráculo dos sem futuro. O bordão “todos os dias, sob todos os pontos de vista, vou cada vez melhor” não combinava com o que o Menino via. Seu Gama e sua tribo melancólica, “tia” Marília, sempre à espera de uma relação amorosa que nunca vinha, o demitido pela fábrica de margarina, desempregado crônico, a mãe solteira que consolava o filho com gravações de um pai ausente. Cada vez melhor? Seria uma conspiração cósmica dos astros contra as interpretações do Cardoso? Andaria embaçada a lupa premonitória do feiticeiro?

Nunca apelei para simpatias, leitura de mãos, cartas, búzios, borra de café, ervas milagrosas, vidas passadas. Não sei se já repararam, mas o léxico dos futurólogos é uma declaração de crença incondicional, e tola, na natureza humana. As “previsões”, recentemente rebatizadas como “tendências”, não nos enxergam como seres complexos, portadores de sentimentos antagônicos em luta permanente. Seríamos o adiamento cotidiano e necessário de virtudes que precisam apenas ser liberadas. Onde é que já se viu um horóscopo antevendo, por exemplo, que os fulanos do signo tal vão, em massa, aproveitar uma oportunidade e esganar o vizinho barulhento e inconveniente? Ou incinerar o cãozinho pigmeu, ameba quadrúpede, que não para de latir? Ou ainda retaliar demissões injustas jogando pó-de-mico em cadeiras patronais? Quem sabe, numa homenagem póstuma ao Carlos Heitor Cony, darão a pista para, finalmente, se descobrir os ossos da Dana de Teffé?

Omar Cardoso, Zora Yonara, a turma que enfeita os postes dando garantia de que “traz seu amor de volta em três dias”, são românticos contadores de histórias perto dos pretensiosos que, hoje, dão verniz “científico” às previsões. Há de tudo, a cada minuto, homessa!, nasce um otário.

Fiz um pequeno teste. Sei que nasci numa sexta-feira. Certa senhora que assina coluna semanal em jornal de grande tiragem, falando sobre “espiritualidade”, fez uma lista de características comuns a pessoas que nascem em cada um dos sete dias da semana. O que coube a mim e aos milhões de sexta-feirinos neste latifúndio astral? Primeiro, a grande revelação. Somos de Vênus. O que isso quer dizer? Que sou uma parte extraviada, Auíca!, dos Incas Venusianos? Ou uma vastidão inóspita, imprópria para respirar, vazia de impulsos vitais? Adiante. Minhas cores indicadas são verde e rosa. Protesto! Sou portelense. Lá também diz que adoro festas, tenho bom humor imbatível, só me engajo nas melhores ações. Para tanto acacianismo, tenho uma coisa a declarar: errou de A a Z.

A Terra já tem 8 bilhões de habitantes. Só posso atribuir à insegurança, a mesma dos nossos ancestrais nas cavernas, a crença em patacoadas astrológicas. É duro não saber de onde viemos e para onde vamos. Vejam vocês, entre os 8 bilhões de terráqueos, há cerca de 1 bilhão vivendo em favelas. Pois nossos valorosos adivinhadores/intérpretes garantem que, por terem nascido em determinado dia e horário, o favelado do Buraco Quente tem a mesma perspectiva existencial do burguês da Vieira Souto. Influência das condições materiais, das condições históricas de exploração do trabalho humano, das alternâncias na política? Para com isso, ô materialista antipático. Deixa a gente se iludir um pouquinho. Só um pouquinho…

Pensando bem, pelo menos uma das características reveladas pela, como direi, espiritualista, faz algum sentido. Em certas e mui especiais ocasiões, tenho bom humor. Por isso, encerro citando Millôr Fernandes, profissional do ramo (não do espiritualismo, mas do humor e da fina ironia): “Quando eu era criança, o futuro ia ser radioso, o futuro ia ser limpo, o futuro ia ser feliz, o futuro ia ter televisão, que seria uma maravilha. Agora o futuro é a ameaça da bomba, a ameaça da fome, a ameaça da superpopulação e da poluição. Não se faz mais futuros como antigamente”.

Abraço. E coragem.

Boleiros do Além

Boleiros do Além

Terminada a Copa e sepultado o ufanismo histérico dos locutores. Sei que parece café requentado, mas ainda quero comentar um dos aspectos da atual geração de jogadores brasileiros. Não vou cair na tentação barata de olhar para os cabelos platinados, nem para a proteína dourada de uns quantos deslumbrados. Também não vou “focar”, ô palavrinha danada!, na hipocrisia recorrente do Neymar. Depois de se declarar “destruído psicologicamente” após a derrota para a Croácia, que ia “doer por muuuuito tempo”, caiu na farra menos de 48 horas depois. Todos queremos saber o que ele anda fumando ou bebendo para ter uma recuperação mental tão fulminante! Não, meus amigos, não entrarei nesse jogo. Meu desejo é destacar uma febre tóxica que é bem mais geral e contagiosa: a da religiosidade artificial que lobotomiza multidões de players.

A Folha de S. Paulo reuniu declarações de nove jogadores, avaliando as razões do fiasco ante os croatas. Todos atribuem ao Além, a forças sobrenaturais, tudo o que deu errado. Seleciono quatro delas.

Neymar: “O Brasil merecia vencer. Mas essa não era a vontade de deus (..) Obrigado por tudo, meu deus, me destes tudo e eu não posso reclamar de nada. Só agradecer por cuidar de mim”. Weverton: “A vontade de deus é boa, perfeita e agradável. Eu te amo, deus, e te agradeço por tudo”. Éder Militão: “Fizemos o nosso melhor dentro de campo, mas ainda não foi da vontade de deus”. Vinícius Jr.: “Os planos de deus são maiores que os nossos”. Os outros vão na mesma linha de conformismo e alienação da realidade.

Nada tenho contra a fé alheia. Neste caso, porém, farejo o uso extensivo de um artifício pueril para evitar o sofrimento e renunciar à autocrítica. Qualquer analista de botequim sabe que o início de elaboração de uma perda é reconhecê-la e procurar formas de compreendê-la. Na medida em que identificam um poder inacessível como agente do sofrimento, os jogadores se sentem aliviados. Se o juiz é implacável e seus desígnios insondáveis, ninguém além dele pode ser responsável pelos acontecimentos. Muito simples … e conveniente.

Futebol é território rico em folclore e superstições. João Saldanha dizia que “se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano acabaria empatado”. Pai Santana, folclórico massagista do Vasco da Gama, discordaria. Cansou de fazer “trabalhos” contra os adversários. Certa vez, foi flagrado depositando objetos suspeitos perto do campo do Flamengo. É também do Vasco a história do sapo de Arubinha, que já contei por aqui. O clube da Colina passou longo sufoco, atribuído ao anfíbio de pele rugosa.

O Flamengo, garantem os mais crentes, tem um santo protetor. É São Judas Tadeu. Entre 1944, ano em que fora tricampeão, e 1953, o rubro-negro amargou jejum de títulos. Em 1953, o pároco da Igreja de São Judas Tadeu foi até a Gávea celebrar uma missa com o time. Pediu que os jogadores acendessem uma vela e a dedicassem ao santo. Batata! O Flamengo foi campeão naquele ano e nos dois seguintes. Ninguém questionou a razão do poder do santo ter parado em 1955 (o time só voltou a ser campeão em 1963). As más línguas, não sem uma dose de razão, atribuem a conquista do campeonato de 1955 ao fato do zagueiro Tomires ter quebrado a perna do atacante Alarcon, do América, no jogo decisivo. Naquela época, não havia substituições e os diabos rubros jogaram com dez a maior parte do tempo.

Há ainda muitos causos, como a jamais subestimada alma supersticiosa dos botafoguenses (“há coisas que só acontecem com o Botafogo…”), que já depositaram no Biriba, cãozinho vira-lata, a sorte nos gramados. Entre torcedores, nem o céu é o limite. Tudo, no entanto, sempre correu num clima leve, de zoações com as hostes adversárias. Jamais institucionalizado ou apropriado por interesses comerciais.

O que acontece hoje é muito diferente. Começou com as comemorações padronizadas, dedinhos para o alto, vez por outra joelhos para o chão, numa comunicação tão circunspecta quanto falsa. Os dedinhos automáticos me lembram uma sátira do grupo uruguaio de murgas Agarrate Catalina. O narrador pergunta: se deus é onipresente, por que se olha somente para o céu quando se quer falar com ele?

Por que se intensifica o desfile de carolas entre jogadores? Arrisco uma interpretação. Existem pesquisas que mostram queda na confiança dos brasileiros na ciência. Quase 30% confiam pouco ou nada nas informações de cientistas. Resumo da ópera: a razão está em baixa, o desvario e o obscurantismo dão drible da vaca. Junto disso, vai o ambiente estelar das celebridades, que obedece a padrões de moral cínica. O bom marqueteiro orienta apresentar ao público uma imagem pia, de contrição religiosa, para equilibrar as cenas frequentes de ostentação, arrogância e ambição selvagem. Nada, portanto, sugere uma prática religiosa consciente, sincera. É apenas, com possíveis exceções, simulação de gestos, com interesses bem profanos.

Saudade das comemorações espontâneas, da separação radical entre esporte e religião, da alegria sempre improvisada nas grandes conquistas. Do futebol como fenômeno lúdico e apaixonante.

Abraço. E coragem.

Foi um Rio que passou

Foi um Rio que passou

Rio de Janeiro: antiga cidade brasileira, hoje desaparecida (Millôr Fernandes)

Visitei a feira anual do MST, no Largo da Carioca. Uma exposição de alimentos orgânicos, publicações e pequenos artesanatos dos assentamentos Brasil afora. Aproveitei para comprar algumas garrafas da cachaça Lula e dá-las de presente aos amigos livreiros do centro da cidade.

Flanar pelo centro do Rio, um grande prazer em várias etapas da vida, virou quase um exercício de ficção científica. A impressão é devastadora. Como se Mefisto tivesse jogado um quebranto e feito desaparecer inúmeras e longevas referências. Foram para o limbo, junto com os antigos frequentadores de botecos, que paravam nos balcões para um cafezinho amigo. Xícara tirada da água fervente, açúcar em grandes potes de vidro com tampa metálica, sem opção de adoçante. O slurp vinha com muito cuidado para não queimar a língua. Vida sem pressa.

Assombrado por escombros da memória, cheguei à livraria Folha Seca, que já vai para 25 anos. Fazia mais de três anos que não encontrava o Rodrigo Ferrari, criador do local e bravo resistente. O abraço apertado escondeu por instantes a tristeza do que se vê ao redor. Poucas vezes senti o Rodrigo tão abatido. Contou que vão colocar um piano na rua para comemorar um quarto de século, com roda de samba e tudo. No entanto, tá difícil garantir estrutura para todo mundo que vai aparecer. A Toca do Baiacu, ponto tradicional vizinho à Folha, anda borocoxô, o dono só abre quando se sente ensolarado, a fim de tomar uma cerveja com os raros frequentadores. Na despedida, saí com a sensação amarga de que um farol potente pode estar rateando. No que depender de mim, o que não é muito, continuará iluminando caminhos pela noite dos tempos.

Na terra arrasada, pirilampos. A Leiteria Mineira, mais de século no lombo, segue oferecendo mingau e canja como se as eras não houvessem passado. Rio que já foi de tantas leiterias, pretextos lácteos para encontros e desencontros. A Numismática Vieira, octogenária, Robinson Crusoé na rua do Rosário às moscas. A Confeitaria Itajaí, cuja filial em Laranjeiras abasteceu durante décadas a família Gruman com pizzas e bolas de rum. As filas dominicais, no mais puro estilo carioca, pareciam o caos das antigas Bolsas de Valores. A Casa Nair de materiais esportivos, pequena loja na hoje fantasmagórica avenida Marechal Floriano. Aqui e ali, farmácias, como tem hipocondríaco nesta cidade!, vão colonizando a outrora diversidade comercial.

Mia Couto escreveu O vendedor de passados. No livro, um angolano exerce um estranho ofício. Vende passados falsos. De um modo geral, os clientes são ex-colaboradores do regime colonial português, tentando apagar os rastros de seus numerosos malfeitos. Claro que nem tudo vai bem, a memória não é material tão plástico, cobra taxas ao ser invocada.

Pensei no Mia enquanto andava por aquela região. O que acontece quando uma cidade vê sua memória despedaçada? É possível construir uma identidade cultural e urbana destruindo sistematicamente referências visuais, olfativas, gustativas, afetivas?

Não estou reivindicando uma volta impossível ao Rio de Marc Ferrez. Ao tlec-tlec do vendedor de casquinha e pirulito cônico de açúcar caramelizado. Tampouco um retorno triunfal dos concursos de Miss Elegante Bangu e do bonde São Januário. Sei que foram definitivamente silenciados os apitos da fábrica de tecidos Confiança, em Vila Isabel, e da cervejaria Brahma, na Tijuca. O leiteiro que deixava garrafas de leite CCPL nas portas das residências e as carrocinhas da Kibon estão irremediavelmente aposentados.

No curto prazo, a tendência é desanimadora. Nada a ver com o entusiasmo do poeta Mário Pederneiras, que, lá por mil e oitocentos e lá vai fumaça, viu o Rio como “uma explosão de espanto e pasmo”. Os espaços públicos desembarcando na cobiça dos interesses privados. A arquitetura curvilínea e as múltiplas heranças visuais, debochadas como entraves ao “progresso”. O silêncio e a introspecção encarados como taras antissociais. Há como consertar? Não tenho a menor ideia. Espero que as próximas gerações de cariocas se interessem pela história da cidade e, a partir dela, ajudem a torná-la mais amigável e digna do mito do cidadão boa praça, boa ginga, gente boa.

Amigos de vida inteira

Amigos de vida inteira

Nós, os viciados em livros, morreremos endividados. Temos livros que sonhamos em ler e não lemos, e autores que planejamos estudar. O engraçado é que são boas essas dívidas, mas que alegria é pagar algumas. Há uns trinta e cinco anos fiquei feliz em ler a “Ilíada” e a “Odisséia”, os livros que abrem as portas da Cultura Ocidental junto a Bíblia. Já outra dívida comecei a pagar só agora com o escritor Ernst Hemingway, pois só havia lido o “O Velho e o mar” e “Por quem os sinos dobram”.
O ano passado busquei saber se Otto Maria Carpeaux havia escrito sobre o escritor americano. Logo comprei o “Hemingway: Tempo, Vida e Obra” dele numa edição de 1971, letras miúdas, páginas amareladas. Comecei a ler uma, duas vezes, e desisti, até que minha neta Sara da Itália me disse que precisava fazer um trabalho sobre o livro “O Velho e o Mar”. Então li todo o livro do Carpeaux, que sentiu sua morte como se fôsse a de um amigo da vida inteira. Foi aí que entendi o quanto sou amigo de vida inteira do Carpeaux e quem sabe venha a ser de Hemingway pela transferência.
Ser amigo da vida inteira de escritoras como Clarice Lispector, de Guimarães Rosa, Tchekov, Kafka, Drmmond entre tantos, faz muito bem. Sempre há o que se aprender com esses artistas de talento e sabedoria.
Talvez as novas gerações tenham se distanciado de Carpeaux, ele foi leitura obrigatória por décadas. Ensaísta e jornalista autor da “Historia da Literatura Ocidental” em oito volumes. Escreveu muito sobre politica a partir do golpe de 64, foi um opositor da ditadura, o mais culto dos brasileiros. Lendo seu livro sobre Hemingway percebi que estava com muitas saudades do velho sábio. Seu pequeno livro sobre o escritor que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1954 é uma delícia. Recorda como o escritor fugiu de casa aos 17 anos para ser repórter e um ano depois viajou à Itália para ser motorista da Cruz Vermelha onde foi ferido. Esteve também na Guerra Civil Espanhola do lado republicano contra o facismo, e foi reporter na Segunda Guerra Mundial. Suas aventuras de vida envolvem caçadas na África e pescarias no Caribe e estão em seus livros. Foi também um talentoso contista, ao lado dos melhores da literatura. Um exemplo são os contos “A alma dos rios I e II”, em que revela sua paixão pela natureza, as montanhas e rios. Agora quem era mesmo Hemingway?
Muitos biógrafos vem escrevendo sobre ele nos últimos anos, mas Carpeaux no finzinho do ensaio fez sua melhor definição: “Ernst Hemingway definiu como ninguém a solidão que é elemento essencial de todas as suas obras e vida: foi como jornalista, correspondente no extrangeiro, homem solitário entre gente estranha; descreveu a solidão do desertor, vendo-se de repente limitado ao seu esforço de homem que abandonou tudo e está abandonado; a solidão do amor em que duas criaturas se fundem e ficam, no entanto, impenetráveis um para o outro, separados para sempre até no momento da união total; a solidão do pescador nas montanhas ou em alto mar; a solidão do matador que, na presença da inumerável massa humana, enfrenta sozinho o touro e a morte; enfim a solidão em que cada um de nós terá de morrer, pois neste caminho para baixo ninguém nos acompanhará”. Conclui assim: “Hemingway foi um homem de vitalidade enorme, é especificamente o escritor, quase eu diria, o poeta da morte”.
Desde adolescente com 16 anos ao fugir de casa e não mais retornar conviveu com altos riscos de vida. Namorou com a morte inúmeras vezes, com sequelas de acidentes aéreos e sendo um alcoolista crônico, já com dificuldade de escrever, decidiu tirar sua vida com um tiro de escopeta.
Hemingway nos legou três livros de contos, novelas incríveis, uma vida de aventuras.
A expressão de Carpeaux de amigos da vida inteira me fez pensar não só em escritores amigos.
Creio que devemos ser amigos da vida inteira, aumentar nossa união para ajudar Lula e o governo a reconstruir o país da assustadora devastação sofrida. É chegada a hora, é mais que chegada a hora, de
A turma da vassoura

A turma da vassoura

Colocava sal num pedaço de pano, transformando-o num saquinho amarrado com barbante. Fechava os olhos e, murmurando palavras incompreensíveis, movimentava o saquinho ao redor da cabeça do Menino. Em seguida, acendia o fogão e queimava aquilo que, pelo ritual, teria atraído todo o mau-olhado porventura lançado contra o peladeiro tímido e dentuço que eu era. As cinzas comprovavam o sucesso da mandinga e a vida, meus olhos suplicavam, torceria por mim.

A avó trouxera esta defesa sobrenatural da Polônia profunda, do shtetl que a viu nascer. Posso compreender o apego ao incompreensível. Cá pra nós: a realidade, o cotidiano nada amável, as prisões existenciais e das tradições machistas, os preconceitos ao redor, tudo conspirava a favor de respostas fantasiosas a tantos e tamanhos problemas. Naquele mundo, o delírio poderia dar num gênio que o aproveitava como arte, como Chagall, ou no meshuguene da aldeia, prisioneiro do universo paralelo.

Uma notícia recente me transportou, mal e mal, para as profundezas de sombras, charlatanismo e, por que não?, medo. Perto dela, meu querido pássaro de Makow-Mazowiecki não passava de aprendiz dos desejos impossíveis. Esta notícia reflete um estado surpreendente de inanição cognitiva, de empulhação, de ofensa a tudo o que o Homem descobriu em séculos de observação e estudo da Natureza.

Ao lê-la, vá lá otimista, cheguei a pensar numa possível onda nostálgica, dessas que marqueteiros usam para requentar velharias e ganhar uns trocados. Vontade de reeditar as histórias de Alceia e Memeia, as bruxas trapalhonas das historietas da Luluzinha? Quem sabe bateu saudade coletiva de rever Elizabeth Montgomery, no delicioso seriado A feiticeira, que a televisão exibiu nos míticos anos 60?

As razões podiam, entretanto, ser menos inocentes. Crescimento da popularidade do scratch bruxista que nos atormentou nos últimos 4 anos? Olhem só o onze das Magas Patalogicas: Cássia Kiss, Regina Duarte, Damares Alves, Carla Zambelli, Mayra Capitã Cloroquina Pinheiro, Nise Yamaguchi, Ana Paula do Volei, Janaína Paschoal, Bia Kicis, Lindora PGR Araújo e Glória Perez. Um time tresloucado, com tática peculiar: ninguém joga no setor esquerdo do campo, território, claro, dominado por comunistas. A notícia teria a ver com essa assombração?

Seria, talvez, quantificação de homenagem ao Noel Rosa e seu Feitiço da Vila? Desagravo extemporâneo à caça às bruxas no macartismo? Solidariedade aos que sofrem de bruxismo? Pânico da vassoura-de-bruxa nas plantações de cacau? Assalto revisionista às sentenças dadas às Bruxas de Salem? Reivindicação das massas por uma pós-graduação para o Aprendiz de feiticeiro, com grife Paul Dukas?

De que notícia, afinal, estou falando? Um economista americano, analisando dados de 95 países, descobriu que cerca de 40% da população global acredita em bruxaria. O Brasil, oh meu mulato inzoneiro, ficou acima desta média, cravando 51%. Trocando em miúdos. Mais de metade do Brasilzão, o nunca demasiadamente louvado país do futuro, estacionou na Idade Média. Ciência? Quem precisa disso, se uma boa simpatia resolve qualquer abacaxi? Um em cada dois brazucas tende a acreditar mais em bruxas e suas mezinhas diabólicas do que nos cientistas que, por exemplo, fotografaram um buraco negro no meio da Via Láctea, a 27.000 anos-luz de distância da Terra (1 ano-luz equivale quase 10 trilhões de quilômetros). Sem apelo à mágica, usando conhecimento acumulado por milhares de pesquisadores de todas as épocas. Trabalho árduo, sem abracadabra. É isso mesmo?

No mesmo dia em que a imprensa publicou essa notícia espantosa, e desanimadora, uma certa senhora que mantém coluna fixa em jornal de grande circulação divulgou, finalmente, a grande panaceia universal. Se todos dedicarmos um minuto diariamente para “colocar o amor a serviço do mundo”, enviando energias positivas (sic) sabe-se lá pra onde, tudo será possível. Assim mesmo: tudo! Detalhe: há que se fazer isso pontualmente ao meio-dia. Taí, bruxaria moderna não se faz com a varinha da Alceia, mas com clichês patéticos. Tudo ao gosto do imediatismo esterilizador que empobrece neurônios e culturas.

Não à toa fica difícil trabalhar com a ideia de que só o povo construirá sua própria história, que o poder vem de sua organização e disposição para o combate. Trabalho árduo, demorado, sem garantia de que o coelho sairá da cartola. É mais fácil levantar os dedinhos para o céu, evocar a força de todas as superstições e clamar “pelos poderes de Grayskull!”.

Abraço. E coragem.

Indivíduo e História

Indivíduo e História

Se as coisas são inatingíveis… ora!/Não é motivo para não querê-las…/Que tristes os caminhos, se não fora/A presença distante das estrelas! (Mário Quintana)

Revi Inferno no Pacífico, filme de 1968, dirigido por John Boorman e magnificamente interpretado por Lee Marvin e Toshiro Mifune. Dois atores então no auge da maturidade artística. É um filme rico em detalhes, que ultrapassa tempo e circunstâncias da história que conta. Vou usá-lo como referência para refletir sobre uma questão, digamos, trivial: os limites da ação do indivíduo nas correntezas da História. Fácil, não? Para isso, acrescentarei na receita do bolo um querido personagem de histórias em quadrinhos. Vamos ver no que dá.

Breve reconstituição do roteiro. Durante a Segunda Guerra Mundial, um avião militar americano é abatido e o piloto acaba dando numa pequena ilha do Pacífico. Ali já estava um oficial da marinha japonesa, igualmente sobrevivente de batalha. No primeiro momento, desempenham o papel que suas sociedades lhes delegaram: eram inimigos e, como tal, deviam aniquilar-se. Partem para o tudo ou nada, mesmo não havendo, na praia paradisíaca, qualquer base material para tanto ódio. Eram prisioneiros da História, dos sentimentos, interesses e posturas sociais de terceiros.

Passado algum tempo, e apesar da incomunicabilidade verbal, vão percebendo que a sobrevivência era a grande prioridade. Comer, acumular água de chuva em reservatório improvisado, fazer fogo, escapar da ilha. Encontram formas de colaboração. Fabricam uma jangada rudimentar e aventuram-se pelo mar. A cooperação, acima dos espectros do Imperador e do Presidente, vencera o primeiro round.

Chegam a um pequeno conjunto de ilhas, onde encontram os escombros de uma base militar abandonada. Não se sabe se americana ou japonesa. Numa cena arrepiante, cortam suas barbas e se enxergam sem a marca física do isolamento. São apenas homens, de cara limpa, felizes por estarem vivos. Confraternizam com uma garrafa de saquê descoberta num velho armário. Riem, descontraídos. Sem máscaras.

O álcool vai destravando línguas. O japonês folheia uma edição da revista Life jogada num canto. Horroriza-se com fotos de conterrâneos humilhados e massacrados pelo inimigo ianque. O americano solta uma parte dos preconceitos que o treinamento militar e a pedagogia colonialista lhe passaram. É verdade que vocês não acreditam em deus, Jesus Cristo?, pergunta, já meio agressivo. Como falam línguas diferentes, o diálogo é impossível. Entendem apenas o tom violento das palavras. A delicada relação, construída em solavancos, se rompe, substituída pelo silêncio, pela desconfiança, pela sombra da Morte. Sem se despedirem, vão para lados opostos. O ódio aprendido vence o segundo round. Nocaute.

Estaremos condenados à desintegração, à prevalência do egoísmo e da solução violenta para os conflitos? O ser histórico não pode superar a maldição do que herda de tempos passados? Chamo para a pista o simpático Shmoo, criado por Al Capp no final dos anos 1940, coadjuvante em histórias do Li’l Abner (Ferdinando Buscapé).

O Shmoo era um bichinho fofo, que tinha duas características: reproduzia-se rapidamente e tinha prazer em se imolar para atender os desejos das pessoas. Transformava-se, por exemplo, num imenso pernil se um faminto cruzasse seu caminho. Seus olhos podiam prover de botões a camisa velha de um pobre. Sua pele servia para calçar os descalços. Ferdinando e a namorada Violeta encontram uma família de shmoos num vale remoto e a trazem para Brejo Seco (Dogpatch no original), lugarejo miserável, onde o dono do armazém explorava a pobreza vendendo alimentos com preços extorsivos.

Em pouco tempo, os shmoos são milhares e a fome é eliminada, as necessidades básicas do povo atendidas, sem qualquer custo. O comerciante, desesperado pela falência iminente, recorre às autoridades federais, que enviam a Brejo Seco um esquadrão de mercenários para eliminar a ameaça “comunista”. Os bichinhos são fuzilados sem piedade. A paz da miséria e da infelicidade volta a reinar, o comerciante ganancioso está radiante.

Quando tudo parece se encaminhar para um final melancólico, vemos Ferdinando e Violeta caminharem furtivamente nos arredores do lugarejo, com um saco de pano nas mãos. Tinham salvo do massacre um casal de shmoos. Ferdinando os devolve para o vale de onde tinham saído e arremata, com o sotaque caipira que Al Capp reproduzia genialmente nos balõezinhos: “Ainda não estamos preparados para conviver com os shmoos. Na verdade, eles são o nosso próprio planeta, que, se for bem tratado, fornecerá em abundância tudo o que precisamos”. Um ecologista avant la lettre.

Filtrando a maçaroca. Não há um destino manifesto quando nascemos. Certo, em cada época há uma estrutura social, relações sociais e de produção da vida material determinadas por um trajeto histórico que impõe limites imediatos. No entanto, isso é apenas o pequeno quadro de um longa-metragem que está em movimento. Para ficar no exemplo mais elementar, as nações são produto da História, não existiram desde sempre e já dá para perceber os indícios de que, em algum momento, desaparecerão. Os nacionalismos, que geraram guerras e supremacias falaciosas, não são perpétuos.

Como indivíduos, isolados e conformados, não seremos agentes de transformações. Quem transforma a História é o agente coletivo. As guerras particulares entre o japonês e o americano e as desventuras do Shmoo-planeta são possíveis em sociedades que produzem e reproduzem valores egoístas, sovinas, exclusivistas, belicosos, predatórios, sem os quais elas entrariam em colapso. É na luta por mudança estrutural dessas sociedades, com a invenção de novos valores, generosos e fraternos, que se encontra a intervenção possível de cada um de nós. Que cada um encontre o seu espaço e navegue nele, sem pretensões imediatistas. A História, disse Galeano, é uma senhora caprichosa, não aceita aceleração dos tempos. Nesse barco estou desde a adolescência e vou nele até o fim.

Abraço. E coragem.