Papéis dos livros

Papéis dos livros

À Clara Goldfarb, cujos sonhos foram muitas vezes os meus.

… Quantos livros tem o mundo/e não saciam meu apetite profundo:/quantos consumi e ainda morro de jejum (Tommaso Campanella)

Pule de dez. Os assuntos preferidos de qualquer roda de bar, nos remotos anos 70, eram Marshall McLuhan e filmes impenetráveis da Nouvelle Vague. O canadense nos inundava com novidades como “o meio é a mensagem” e “aldeia global”. Não havia manual de marxismo convencional que desse conta desses conceitos, que, olhando em retrospecto, anteciparam a era da internet. Hectolitros de chope foram consumidos sem que se chegasse a grandes conclusões. Hoje, só mesmo em circuitos acadêmicos McLuhan deve ser lembrado.

Pois foi nele que pensei quando li matéria sobre o cenário atual dos livros. Antes de qualquer comentário, faço um registro para os autos. Sou fascinado por livros em seu formato impresso. Tenho a necessidade tátil, a história precisa ser tocada, e não apenas pela imaginação. O papel, seus aroma e textura, complementam meu diálogo com o escritor. Quantas vezes me surpreendi ao comprar um livro usado, com dedicatória, que desdobro em cenários e novos protagonistas! Nessas horas, fecho os olhos e acaricio as páginas, pele generosa que me abraça.

Bem, de volta à cena do crime. Cai-me o queixo ao saber que o livro físico (detesto essa expressão) virou fetiche. Não por conteúdos revolucionários ou incensos reveladores. Nada a ver com o que disse Saramago sobre seu ofício: “Vivo desassossegado, escrevo para desassossegar”. É uma razão um tanto mcluhaniana. Ao invés de portador do conhecimento e da sensibilidade, meio de humanização, a mensagem corrompida do livro-meio passa a ser a da vulgaridade hedonista e da parlapatice vaidosa. As editoras mencionam o “fator selfie”, ou seja, tirar fotos com um livro, mesmo que o indivíduo não tenha lido uma linha sequer, multiplica likes. Cerca de 15% dos adultos (!) compram livros pelas capas. Neste território medíocre, elas precisam ser instagramáveis. É a forma virtual de sair na rua com uma abóbora pendurada no pescoço.

Uma senhora francesa, com milhões de seguidores no Instagram, recomendou que pessoas comprassem livros falsos para compor cenários de fotos. Por um terço do preço das edições reais, há apenas capas, sem texto dentro. É a atualização de um velho conhecido: o comprador de livros a metro, que simulava ser intelectual.

Nessa triste inversão de valores, vale tudo. Já há livros para armazenar perfume, outros com efeitos holográficos. Um consultor de marketing fez o lance definitivo. Disse que, para despertar interesse, o livro precisa ser sexy. Viajo até um antigo filme do Woody Allen, dividido em episódios. Num deles, o ótimo Gene Wilder descobre estar apaixonado por uma ovelha e leva a paixão às últimas consequências. Conseguem imaginar um casal formado por um livro sexy e seu consumidor, em lua de mel numa cabana charmosa? O romance só não pode ficar tórrido, sob pena de um dos cônjuges virar cinza.

Há resistência a esse mundo de aparências. Minha neta querida se habituou a frequentar livrarias desde cedo. Adora o ambiente. Perguntei o que desperta sua curiosidade num livro. Ela respondeu que vê, sim, a capa, mas já sabe que um pequeno resumo da história está na contracapa. Não se deixa subornar por um design sedutor. Mais esperança nos teus passos do que tristeza nos meus ombros, copio de Cora Coralina.

Se assim continuar caminhando a Humanidade, em que buraco vamos nos meter? Uma empresa de telecomunicações desenvolveu uma simulação do que pode se tornar o ser humano no próximo milênio. Claro que uma projeção tão ambiciosa está sujeita a alvoroços e solavancos, mas os resultados não parecem inverossímeis. Quais seriam as características deste homo tecnologicus? Radicalizando tendências já visíveis, nosso descendente seria quase corcunda (pelo uso constante de computadores), com pescoço grosso (para suportar o esforço permanente de olhar para monitores de todos os tamanhos) e mãos em forma de garra (a mesma que já observamos para segurar celulares). O aumento de exposição à luz artificial poderá tornar o crânio mais grosso e o cérebro menor. Não vi nesse exercício futurológico a possibilidade da mão espalmada, que segura, ampara, ressalta, acaricia o livro. Sem a companhia deste condensador de sensibilidades, os homens, além de corcundas, pescoções e mãos-de-garra, terão uma alma amputada.

Abraço. E coragem.

On the road

On the road

Acordei de um sonho estranho/Um gosto, vidro e corte (da música San Vicente, de Fernando Brant e Milton Nascimento)

Ressaca das boas. Depois de roçar o Apocalipse, a gente começa a curar a dor de cabeça e recuperar cordas vocais. Os olhos, no desábito da luz, tentam entender os escombros que se espalham por todo canto. Numa esquina penumbrosa, a placa trincada avisa que o terreno é minado. Há rachaduras, cianetos, miragens, cantos de sereia, miasmas, areias movediças.

Gosto amargo andar pelas ruínas. O cenário evoca Blade runner, rostos sem face, luzes trêmulas, medo em gotas. Lembra quando os encontros de amigos e familiares implodiram, em rachas metastáticos? O que muitas vezes merecia conversa e entendimento, virou aversão e ruptura. O choque de perceber que existiam algumas personas fascistas escondidas em cápsulas cordiais levou a generalizações equivocadas.

Na calçada escorregadia, apanho um recorte de jornal molhado. Um comentarista escreve sobre o apoio do Neymar ao Bolsonaro. Esculhamba, indigna-se. Compreendo a revolta, sou racionalmente solidário a ela. No entanto, vejo um outro ângulo. Com aparente déficit cognitivo, Neymar já demonstrou ser incapaz de elaborar um raciocínio complexo. É um reprodutor patético de clichês e, nessa qualidade, duvido que perceba a dimensão do bolsonarismo. Chamá-lo de fascista é inútil, ele e seus parças não fazem ideia do que é isso. Talvez achem que se trata de um videogame com vestimentas negras.

Sigo em frente, desviando-me dos estilhaços da cultura despedaçada, das cinzas da floresta consumida, dos gritos da ciência violentada. Os rachas fizeram aflorar uma tentação perigosa. A do monocromatismo. Casagrande e Felipe Mello são realidades contrastantes e, respeitado um diálogo civilizado, não merecem cancelamento. O combate vem pela saliva, não pela arminha. Tenho minha preferência, mas ela não implica banimentos. Jane Fonda, a Hanoi Jane, tinha contrapartida em John Wayne. Representavam alternativas de comportamento e posição política. Que disputassem preferências, sem guilhotinas. A gente precisa retomar o prazer da discussão, do argumento, do convencimento pelo duelo de ideias.

Fumaça negra se espalha no horizonte. São pneus queimados por alucinados que obedecem aos zurros do infame. O espectro de Saint-Saëns, irônico, vê ali a mistura azeda do Carnaval dos Animais com a Dança Macabra. Em cima de um caixote precário, Angela Machado perora contra os nordestinos, aplaudida por seu marido, presidente do Flamengo. A torcida vermelho-e-preto passa ao largo, celebrando troféus e soltando rojões indiferentes. É atropelada pelos Gaviões da Fiel e a Galoucura, que espantaram a zica, escorraçaram os quizumbeiros e mostraram como se reage aos seguidores do fascio.  “Mano, que país é esse? A polícia cruza os braços, e torcida organizada que tem que resolver a parada”, Marcelo D2 dixit.

A noite no Monte Calvo parece não ter fim. Eis que ouço um som familiar. Vem de uma sobreloja acanhada, luz tímida, insegura. Chego perto e reconheço violão, cavaquinho, pandeiro, vozes emocionadas. Subo os poucos degraus e esbarro numa multidão de milhões. Reconheço vivos e mortos naquele mar agitado. Alguém me oferece a mão, a vontade e a esperança. Os versos nos envolvem numa película vital. No pequeno palco, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola, Monarco, Manacéia, toda a Velha Guarda da Portela, Nelson Sargento, Cartola, Ivone Lara, Bide, Marçal, Mano Décio da Viola, Clementina de Jesus. Movimentam-se em perfeita harmonia. As palavras são as do Juízo Final, mas oferecem a Aurora Inicial. O Sol há de brilhar mais uma vez/A luz há de chegar aos corações/Do mal será queimada a semente/O amor será eterno novamente.

Vamos saindo aos poucos. Os escombros e a escuridão estão lá. Uma névoa macia envolve a multidão, que, abraçada, ouve Nelson Cavaquinho apontar o caminho. É o juízo final/A história do bem e do mal/Quero ter olhos pra ver/A maldade desaparecer. Bússola policromática, ninguém sabia o final do caminho. A única certeza era a fraternidade espontânea que nos movia. Uma camaradagem generosa, que já começava a varrer o entulho e aceitava adesões pela estrada.

Alguém gritou, mostrando uma pequena brecha que se abriu no horizonte nublado. E o imenso bloco de sujos reiniciou a longa jornada.

Abraço. E coragem.

Elegia a Lorenzo

Elegia a Lorenzo

Neste mês,as cigarras cantam

E os trovões caminham por cima da terra,

agarrados ao sol.

Neste mês, ao cair da tarde, a chuva corre pelas montanhas,

E depois a noite é mais clara,

E o canto dos grilos faz palpitar o cheiro molhado do chão

Mas tudo é inútil.

Porque os teus ouvidos estão como conchas vazias,

E a tua narina imóvel

Não recebe mais notícias

Do mundo que circula no vento

(Cecília Meirelles)

Das inúmeras versões das fábulas de Dafne, que calcula-se ter surgido na Grécia na segunda metade do século II a.C, por mais variações que tenha adquirido ao longo do tempo, possui uma mesma sequência narrativa. Apolo, filho de Leto e Zeus, irmão gêmeo de Artêmis, tem aquelas qualidades que a gente não encontrará jamais nos usuários do Tinder. Lindíssimo, há quem diga ser o mais bonito de todos os deuses, toca lira divinamente, exímio conhecedor da medicina, ele é o sol, a luz, a juventude, a poesia. Sabemos da fama de seu pai e obviamente ele e a irmã foram uma pulada de cerca do deus dos deuses. Hera, a patroa oficial de Zeus, tomada por ciúmes, ao descobrir a traição ordenou que Píton, uma gigantesca cobra nascida da lama e do dilúvio, fosse catar a amante do marido onde quer que estivesse e acabasse com a raça daquela “vagabunda” (palavras de Hera). Apolo porém, o boy delícia, com flechadas certeiras matou a serpente.

Apolo, por esse feito, recebeu fama e como consequência, foi tomado pela vaidade. Eros, enciumado, resolve aplicar-lhe uma lição. Lançou-lhe uma flecha de ouro e o fez apaixonar-se pela Ninfa Dafne. Fez o mesmo com ela, porém arremessou-lhe uma flecha de chumbo. Resultado: Enquanto Apolo foi tomado por uma paixão profunda, Dafne tomou horror do deus, uma verdadeira repulsa. Apolo tentou de tudo para aproximar-se da ninfa, mas acabou por ser condenado a um amor dilacerante não correspondido. Cego pelo sentimento, passou a persegui-la. Ela, desesperada, fugiu e pediu ao próprio pai, Peneu, que desse a ela uma forma para que ninguém se apaixonasse. O pai a metamorfoseou em um loureiro e Apolo então anunciou ser essa a sua planta favorita, decidindo dar coroas de louro a todos aqueles que realizassem atos de heroísmo. Tanto na Grécia, quanto em Roma, a coroa de louros era o principal símbolo de glória para gregos e romanos.

O que adoro nesse mito, e isso tem a ver com toda a carga de humanidade que os deuses gregos possuem, é que até o fodão dos deuses sofreu por amor não correspondido. Foi assim comigo, o meu primeiro amor, aquele ser que tocou fundo minha alma infantil. Que me deixava sem respirar. Quero explicar que criança tem outro padrão estético. Nelson Rodrigues, por exemplo, aos seis anos de idade, achava uma das mulheres mais lindas do mundo a lavadeira de sua casa, uma negra gorda com um bócio enorme. O objeto de minha devoção era um caçador de cabeças maori (e que acabou sendo caçado) dentro de um frasco de formol, no Museu Nacional. Passei muitos anos visitando-o, desde a mais tenra idade até passado os meus trinta anos, Estão impressas na minha memória cada linha das tatuagens de seu rosto. Aqui confesso, despida de todo e qualquer pudor, que ao ver o incêndio terrível do Museus Nacional, com tudo que implicou, inclusive ver minha infância virar cinzas, chorei muito por ele. Por esse amor de uma vida inteira. E o pior, sem a menor possibilidade de reencontro.

Toda essa introdução é para falar dessas últimas semanas. Foi confusa, difícil, o que não faltou foi gente chorando de tristeza porque não terá mais o Genocida no comando do país. Mas não quero julgar. Antes do Exalta Samba lançar seu sucesso “Me Apaixonei pela Pessoa Errada”, o Maníaco do Parque já era o maior campeão de missivas de amor no presídio. O que me incomodou mais que tudo, nem foi a Kate Marrone de Ribeirão Preto de arma em punho perseguindo um negro na véspera do pleito (até porque no frigir dos ovos ela e o Bob Jeff fizeram mais pela eleição do Lula que o Janones), nem o Bozo no último debate falando em problema de “prosta” e usando a palavra mioma no lugar de bioma natural, mostrando que foi aluno aplicado do coach Sergio Moro. O que me pirou nem foi a tentativa de golpe ridícula de travar as estradas, muito menos o Bozo e seu manifesto de 2 minutos e alguns segundos, depois do silêncio de dois dias. Se ele for assim transando com a Micheque, usando o papo de “desculpa amor, é porque vc é muito gostosa”, irmã, melhor pedir pra Damares fazer uma terapia de conversão sexual no Agostinho, pelo menos ele vai te maquiar, te botar lá em cima e te levar para umas baladas bem dignas. O que me importunou não foi ver a tia do zap ajoelhada na Esplanada dos Ministérios, com as raízes dos cabelos pretos e o resto amarelo gema, vertendo lágrimas e rímel preto escorrendo pela cara, porque querida, se num comprou uma maquiagem à prova d’água é que a coisa não tá tão bem assim, né minha consagrada ? Nesses 4 anos perdi pessoas de VERDADE, por conta da irresponsabilidade desse pilantra e claro que fiquei mexida com os bozoafetivos botando fotinho de Luto porque o Capetão vai embora. Mas aí é só usar a minha liberdade de expressão, mandar pra casa do caralho e seguir. O que me pegou mesmo, na veia, nesses dias subsequentes e anteriores a eleição transformam esse suco Brasil estragado  numa grande bobajada.

Para me fazer entendida, convido-os a voltar a República Velha e seu último presidente. O presidente On The Road. Washington Luis, o homem que acreditava que as estradas eram o caminho do progresso do Brasil, não a toa, chamada de “Estradeiro”. Nasceu em Macaé, no Rio, em 1900, mas toda a sua carreira política foi feita em São Paulo. Cidade de que conhecia mesmo, não tarcisicamente falando. Passou três décadas na vida pública e, pelo que apurei, trabalhando mesmo. Basta falar que enquanto parlamentar atuou de forma exemplar na epidemia da gripe espanhola.

Assumiu a presidência da República em 15 de novembro de 1926. Sobre sua vida pessoal, apesar de casado e com filhos, era muito mais animada que a nossa. Era chamado de “Rei da Fuzarca” e um aficcionado por marchinhas de carnaval. Dois fatos importantes em sua vida em 1928: Foi baleado pela amante, uma marquesa italiana jovem e formosa ,Elvira Vishi Maurich, no Copacabana Palace. Foi internado e a versão oficial era de que havia  tido uma crise de apendicite. Quatro dias depois a nobre italiana foi encontrada morta pela polícia, motivo: Suicídio. Ah tá. E agora vem outra ação da sua parte nesse mesmo ano: CRIAÇÂO DA POLÍCIA RODOVIÁRIA FEDERAL. Em 1930 foi deposto, uma Junta Militar assumiu a presidência, entregando-a a Getúlio Vargas. Como bom escorpiano, na despedida do Palácio do Catete, planejou vingacinha contra Getulão. Pediu ao mordomo que escondesse a faixa presidencial, símbolo delegado pelo povo. O mordomo foi tão eficiente nessa função, chegando a escondê-la no próprio corpo, que Getúlio nem viu a cor da faixa. Esta só chegou as mãos de GV em 1934, quando ele assumiu o cargo após a eleição constituinte.

Pois bem, vamos agora a Polícia Rodoviária Federal. Segundo a Constituição, seu papel é o patrulhamento ostensivo e preventivo das rodovias federais, para evitar as ocorrências de atividades criminosas que se utilizam destas rodovias, como o tráfico de drogas. É vedado a ela investigação criminal, caso identifique um crime, seu papel é registrar e repassar para a PF. Daí o meu espanto ao ver que na manhã do dia 24 de maio desse ano, uma operação conjunta com a PM e a Polícia Rodoviária Federal deixou um rastro de 23 mortos na Vila Cruzeiro, a segunda incursão mais letal desde a do Jacarezinho ,que ceifou a vida de 28 pessoas. As desculpas dadas ,de roubo de carga , para justificar a presença da PRF, não se sustentaram. O presidente Bolsonaro, como de praxe, chamou os policiais de “bravos guerreiros”. Mesmo a Defensoria Pública munida de provas contundentes que houve execução sumária, que moradores que não tinham nada a ver com o babado foram mortos, o Corno Mor da Nação , que faz seus asseclas apresentarem projetos de leis que não responsabilizam os policiais, parabenizou os assassinos de farda , por neutralizarem os “marginais”.

É importante salientar que em 2020, o então diretor geral da PRF, Adriano Furtado, foi demitido. Seu erro: Publicar nota de pesar pelo falecimento de um membro da corporação de covid, naquele momento que Bozo era muito criticado pela condução dada a pandemia. Em maio de 2021, justamente no momento da carnificina da Vila Cruzeiro, Silvinei Vasques, amigo pessoal de Flavio Bolsonaro, foi premiado com o cargo. Ou seja, se a PRF já emitia sinais de alinhamento com o bolsonarismo, a ascensão de Vasques só intensificou esse processo. Segundo o Globo “Durante o atual governo a corporação foi contemplada com recursos para a construção de novas sedes, aquisição de helicópteros, etc. Também passou a ser utilizada em investigações , ampliando a sua função para além da fiscalização das estradas”. Não podemos esquecer o protagonismo que a PRF ganhou com episódios que beiram as técnicas nazistas, como GENIVALDO DE JESUS SANTOS, morto por asfixia no porta-malas de uma viatura da PRF, no litoral de Sergipe, em julho desse ano. Ele foi parado por agentes e, ao reclamar da abordagem e estar sem capacete, foi jogado à força num compartimento de trás do carro , onde foi atirado gás lacrimogênio, criando uma câmara de gás. Só para perversidade da situação assumir nível máximo, a família recebeu, três meses depois da morte do rapaz, uma correspondência da Corporação. Até acreditaram inocentemente que era um pedido de desculpas. Por estar sem capacete naquele dia, sem habilitação e de sandálias, Genivaldo foi punido: recebeu quatro multas da PRF. O valor total: R$ 1800.

O fato é que não foram mudanças legislativas que determinaram essas novas atribuições. Uma portaria do Ministro da Justiça, estabeleceu que a Polícia Rodoviária Federal pode ir além das suas funções. Sobre os bloqueios dos “ditos” caminhoneiros e de mais um papel vergonhoso na condução dessa corporação, a imprensa tem falado exaustivamente sobre. O que posso afirmar é que o confronto de Bolsonaro com a PF, relacionado a aumentos salarias não concedidos para a categoria, foi o caminho para que a PRF se tornasse a sua guarda pretoriana.

Vamos aqui ao que realmente me deixou muito mal. No dia 27 de novembro, três dias antes da eleição, o agente rodoviário federal Bruno Vanzan, foi assassinado numa tentativa de assalto na Transolímpica, no Rio de Janeiro. Então foram helicópteros da PRF, homens da corporação, sobrevoando e procurando os meliantes em todo o entorno. Através de uma denúncia anônima, ficaram sabendo que o carro do policial estava no Complexo do Chapadão. Óbvio que chegaram tocando o terror. Não é o presidente deles que diz que na favela só moram marginais ?  Lá, apreenderam dois menores e neutralizaram o segundo, alegando que o menino era do tráfico.

O “neutralizado” se chamava Lorenzo Dias Palinhas. Tinha 14 anos. Segundo seu avô e outras testemunhas, um dos policiais abordou ele, revistou, mandou que subisse na moto e, ao subir, foi alvejado na cabeça, de costas. Execução sumária. Lorenzo ajudava a mãe fazendo entregas de sanduíches na favela. Morreu com dez reais numa mão e um guaravita na outra. Estudava. Os moradores, como sempre ocorre quando se trata de um inocente, se mobilizaram. A PRF ainda tentou mandar o caô que foi bala perdida, mas as testemunhas, que não são poucas, desmentem essa versão. Como muitos meninos carentes, seu sonho era ser jogador de futebol e aguardava ansioso o jogo para vaga nas Libertadores,

Iniciei essa crônica falando do mito de Dafne e Apolo. A etimologia do nome Lorenzo vem de: ”aquele natural de Laurento”, que foi uma das mais importantes cidades do Lácio, no Antigo Império Romano. Laurento vem do latim laurus, louro e Lorenzo significa: ”coroado de louros”. Foi negada a Lorenzo a alegria de um primeiro amor. Ele não vai, como Apolo (e todos nós em maior parte) sofrer pela dor do amor não correspondido. Ele sequer viu o tão esperado jogo do Flamengo. Vi a imagem de seu avô, um vigia, quase da minha idade, e de sua mãe, inconsoláveis no enterro e só consegui chorar. Por todas as vítimas desse Governo Fascista deixo aqui o nome do Lorenzo, que ao invés de uma coroa de louros, simbolizando a vitória por terminar um curso, iniciar uma profissão, recebeu uma coroa de flores de defunto, para ser enterrado. O Chapadão é um complexo que tem um dos IDHs mais baixos do país e um número gigantesco de evasão escolar. No dia que pararmos de identificar como nossos as crianças que se parecem com nossos filhos, brancos e de classe média e percebermos que independente de qualquer coisa o filho de uma é o filho de todas, talvez seja o pontapé para uma mudança. Todo o meu sentimento, meu abraço apertado na família de Lorenzo. E sim, o tamanho dessa dor é imensurável. Que se faça justiça. Era só isso mesmo.

Ficar e lutar

Ficar e lutar

Migrar é morrer um pouco (Alejandro Iñárritu, cineasta mexicano)

Nunca é fácil. Quando a família Gruman decidiu sair da Bessarábia, no início do século passado, havia muito a perder. Raízes nutridas durante gerações seriam cortadas, relações interrompidas, memórias afetivas engessadas.

Existiam, no entanto, motivos para tanta e tamanha aventura. Iedenitz não era dos lugares mais promissores. Pobreza grudada na rotina. Preconceitos antigos que reduziam, por exemplo, o horizonte educacional (o numerus clausus, usado à larga em grandes áreas da Europa Oriental, limitava o número de judeus nos cursos superiores e, em certas áreas do conhecimento, sequer eram admitidos). Pogroms eram sempre uma possibilidade. Nas famílias, contavam-se muitas histórias sobre estes massacres. À luz de velas, sempre pareciam mais assustadoras. As crianças ficavam apavoradas quando ouviam falar sobre o cossaco Bogdan Chmielnicki, herói para os ucranianos, algoz antissemita. Durante a revolta contra os poloneses, no século XVII, centenas de pequenas comunidades judaicas foram dizimadas pelas hordas chmielnickianas. Os mortos contaram-se às dezenas de milhares. Muitos só conseguiram sobreviver à custa de conversões forçadas ao cristianismo.

Já contei um pouco da história da dispersão da minha família, não vou repeti-la. Há mais de um século, meus avós paternos e futura tia acabaram desembarcando no Brasil. Primeiro em Salvador, depois no Rio. Paisagem, cores, língua, cultura, céu, temperatura, radicalmente diferentes. Certamente nunca tinham visto negros, que muitos imigrantes da Europa Oriental associavam a cacau e chocolate. Talvez também a alguma música exótica. Personagens de todos os shteitlach ancestrais transitaram para o álbum de fotografias. Moishe Tshotshkes, o maluco beleza. Der Narisher Haim, o sapateiro. Teivl Kaputnik, o cantor litúrgico. Berl Langue Noz, o professor implacável do heder. Shulem Shpekalingumaleh, o clarinetista da banda klezmer. Itzik Schlemiel, o casamenteiro. Como eram mesmo os nomes do mohel  e do shoihet?

Sem saber, escaparam da morte certa. Tivessem ficado, a asa negra do nazismo os teria alcançado.

Por que lembro justo agora destas fontes queridas? De uns tempos para cá, flagrei-me pensando na hipótese de mudar de país. Foi apenas uma imagem fugaz, inspirada na tristeza de ver o Brasil abrir as portas para o que há de mais reacionário, odioso, desumano, desalentador, obscurantista. Alimentar o pesadelo teocrático. Quando leio os noticiários, vejo pairar o espectro do general fascista espanhol Millán-Astray, que gritava para as falanges franquistas: “Abajo la inteligencia! Viva la muerte!”. Tudo indica que cerca de metade da população brasileira concorda, em algum grau, com essa bestialidade. Se não concorda, prefere virar o rosto e simular indiferença. Por oportunismo, preconceito de classe, ignorância.

Pudesse conversar com minha tia Molca, que chegou ao Rio em 1921, e meu tio Burach, cabeças lúcidas e progressistas, tenho certeza de que me diriam o que já sei. Que concordam com José Eduardo Agualusa: não existem fascistas gentis. Que a extrema-direita vai desembocar, inevitavelmente, em antissemitismo. Está em seu DNA tanto quanto todos os outros tipos de preconceito. Os judeus que dão de ombros para isso são vítimas de um grave autoengano. Que não adianta sonhar com portos “seguros” neste mundo cada vez mais seduzido não pela última flor do Lacio, inculta e bela, mas pelo velho cactus do Fascio, inculto e horrendo.

Como perguntaria Vladimir Ilitch Ulianov: o que fazer? Molca e Burach não hesitariam. Não somos religiosos, mas lembre-se, taiere quind, daquela passagem do Pessach que diz: Mekadesh hazmanim. Ou seja: Santifique os Tempos. Tempos que nos ensinaram a farejar ameaças, tempos que nos ensinaram que lutar é o melhor caminho. Como lutaram os que resistiram ao fascismo e a todas as formas de opressão.

O Mal espreitava no subsolo brasileiro. Emergindo, mostrou sua face deformada e, não tenho ilusões, vai continuar entre nós. À luta, pois.

Abraço. E muita coragem.

Heróis?

Heróis?

Talvez tenham sido as histórias em quadrinhos. Os heróis eram modelos perfeitos. Quando não impenetráveis, podiam atirar com a mesma arma dezenas de vezes sem recarregá-la, entrar numa briga sem amarrotar a camisa, nem deixar o chapéu cair. Dominavam povos colonizados e nações altivas, sem que os leitores se perturbassem ou questionassem a arrogância. Bastava colocar uma pequena máscara para ficarem incógnitos. Jamais se identificava a origem da riqueza dos abonados. Um deles, sovina contumaz e parasita evidente, atribuía a fortuna a um amuleto. E a gente acreditava.

Leitor voraz dos gibis, é impossível que o Menino não tenha absorvido ao menos parte desse modo de funcionamento das coisas e pessoas. Especialmente no quesito heroísmo. Como, por exemplo, supor qualquer falha de caráter em Clark Kent? Ou intenções inconfessáveis do Mandrake? Quem é que se importava com nuances nas personalidades do Charada, do Pinguim, do Coringa, dos Irmãos Metralha, do Imperador Ming ou do Lex Luthor? Era um mundo perfeitamente dividido, imóvel, cada macaco no seu galho. Como na lenda do Fantasma, o Espírito que Anda, a estrutura era reproduzida de geração em geração. Tal qual a obscena “Guerra do Bem contra o Mal” do Brasil damarizado.

Atravessei um Rubicão zangado para turbilhonar a herança infantil. Foi com o balãozinho da exclamação – ou seria o da interrogação? – que comecei a ler um livro sobre a relação do Isaac Bashevis Singer, prêmio Nobel de Literatura em 1978, com seu filho Israel Zamir. Edição americana caprichada. Jamais poderia supor nada diferente da revelação de um pai generoso, semeador do interesse por histórias, presente e estimulante. Afinal de contas, em certa medida ele estava no meu panteão de heróis. Confundi o escritor, personagem ideal, intelectual sensível, Quixote da língua ídish, construção que fiz inconscientemente, com o homem real, que eu não conhecia. O que me contou Zamir?

Em meados dos anos 30, ainda em Varsóvia e num bairro pobre, Singer abandonou mulher, Runia, e filho, Israel Zamir, então com 5 anos, e foi morar em New York. Prometeu trazê-los assim que conquistasse estabilidade no novo país. Jamais cumpriu a promessa. Cinco anos depois, casou-se novamente, sem comunicar nada a Runia. Ela e Israel passaram por grandes privações. Fugiram da Polônia, estiveram brevemente na União Soviética e na Turquia, até se radicarem na antiga Palestina, em 1938. Pai e filho ficaram sem se ver por vinte anos. Em 1955, por iniciativa de Israel, os dois se reencontraram em New York, numa tentativa difícil de criar algum tipo de laço afetivo. Bashevis Singer era uma espécie de workaholic, considerava cuidados com filhos um embaraço para seu ofício.

Mulherengo, Singer, mesmo casado, jamais parou de colecionar casos com mulheres. Alegava ter uma espécie de alma solteira (!) e precisar das histórias narradas por elas para desenvolver seus personagens. Tinha grande poder de sedução pelas palavras e, por isso, foi considerado um dos 10 homens mais sexies dos Estados Unidos. Um Eros salivar. Me fez lembrar de Antônio Maria, que reconhecia não ter uma estampa atraente. Sua mágica vinha do verbo.

Ainda não terminei o livro, mas deu kryptonita no herói. Nada que mexa na minha admiração por livros inesquecíveis, como “No tribunal do meu pai”. O modelo, entretanto, caiu na real. É possível acampar na mesma barraca o criador admirável e o pai indiferente, o prêmio Nobel e o companheiro duvidoso, de “alma solteira” e descompromisso com relacionamentos formais.

A gente constrói uma imagem romântica da figura paterna, muito comum em tradições religiosas (os deuses como Pais eternos, misericordiosos, protetores). Aos poucos, vemos que essa muleta só servia quando nossas maiores preocupações eram conseguir o bambu ideal para fazer uma pipa, o dinheiro para comprar o pulôver de ban-lon, o gumex para não fazer feio no arrasta-pé, o telefone da ruivinha sardenta. Passada a fase e deposto o xerife que resolvia os problemas mais cabeludos, descobrimos que não dá para terceirizar a vida, nem transferir responsabilidades. É aí que, invertendo a história, o Super-Homem se transforma em Clark Kent, que precisa trabalhar, descobrir desejos, dar mamadeira para o bebê, criar sentidos para a vida. O homem comum, com suas sombras e lusco-fuscos, é o verdadeiro herói.

Abraço. E coragem.

Ela de novo

Ela de novo

Ao Carlos Telles, amigo e camarada, que, vivo fosse, estaria na mesma trincheira do que eu, lutando por um mundo mais justo e fraterno.

Uma vez descartada a hipótese do suicídio, só nos resta o otimismo. (Albert Camus)

Desde segunda-feira passada ando meio descadeirado. Todos os assuntos fora da eleição presidencial parecem pigmeus sonolentos e isso me empurra a escrever novamente sobre ela. Serei inevitavelmente um tanto repetitivo, mas considero relevante fazer perguntas incômodas e lembrar fatos idem. É um momento opaco, de transição para o que não se sabe e, como disse sabiamente Gramsci, “o velho mundo agoniza, um novo mundo tarda a nascer, e, nesse claro-escuro, irrompem os monstros”. O que pode ser o novo? Que monstros nos assombram e assombrarão?

A paixão política, ao lado de um saudável envolvimento com desejos coletivos, traz nas entranhas um adversário formidável. Durante décadas participei ativamente de uma instituição judaica progressista no Rio. Experiência fértil, formadora, reconstituinte. Sou muito grato pela oportunidade que tive. Na sala de reuniões da diretoria, ficava uma galeria com fotos de ex-diretores e ativistas. Uma delas era de uma mulher com olhar triste. Ou seria desiludido? Os mais antigos diziam que ela havia se suicidado após as revelações sobre os crimes e desvios stalinistas, no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1956. Idolatria, excesso de poder individual, substituição da política como prática transformadora pela “genialidade inatacável” do líder. Livrar-nos destes espectros, hoje como então, é um processo de educação cultural e política, que esperamos continuar desenvolvendo sem a ameaça do garrote fascista.

Estou convencido de que a extrema-direita veio para ficar. Não apenas como força legislativa, mas com potencial para se transformar em movimento de massa, competindo com a esquerda pela conquista dos espaços extra-parlamentares. Esquerda, aliás, que, na oportuna expressão de Florestan Fernandes, tem mimetizado com frequência os partidos da ordem. É cada vez mais claro que, mesmo Bolsonaro perdendo a eleição, sua herança repelente, desagregadora, mentirosa, belicosa e negacionista continuará abraçada por dezenas de milhões de brasileiros. Alienar-se ou ridicularizar esta realidade será o primeiro passo para o desastre.

Para tentar vencer, Lula aderna cada vez mais para o centro. No limite, ficará com uma identidade esponjosa. Guilherme Boulos assegurou, por exemplo, que a revogação da reforma trabalhista e a taxação de grandes fortunas serão implementadas. Pelo andar da carruagem e o formato do ornitorrinco, não sou tão otimista. Assumindo compromissos com forças heterogêneas, o companheiro ex-metalúrgico terá que dançar no óleo quente para não se engessar geral. Ganhando, usará seu capital político para mobilizar a população em torno de um programa mínimo de reformas? Tenho minhas suspeitas, mas, como disse o Camus aí em cima, resta, oi vei!, o otimismo.

Ainda Boulos: “Acho que nossa campanha vai ter que dialogar com eleitores que apostaram na terceira via”. É bom que uma liderança de importante movimento popular tenha dito isso. Não foi o que ouvimos de muitos companheiros durante a campanha do primeiro turno. Quantas vezes li e ouvi, vozes e letras carregadas de ódio, que todos os que não votavam em Lula eram fascistas? Uma visão sectária, descolada da realidade, perigosa para o pragmatismo eleitoral.

Por fim, a promiscuidade religião-Estado-política. Em determinados momentos da campanha, parecia que tínhamos desembarcado num feudo medieval, dominado por senhores da terra e seus aliados clericais. Era espanta diabo pra cá, guerra do Bem contra o Mal pra lá, glória a deus pracolá. A fé popular, muito explorada por velhacos, precisa ser respeitada. Ao invés de desprezá-la ou querer apropriar-se dela de forma oportunista/eleitoral, a militância progressista deve aproximar-se dela para compreender sua visão do mundo e informá-la de seus direitos cidadãos, que não dependem de sacripantas travestidos de profetas. Ficar à distância, menosprezando a vivência de tantos brasileiros, é arrogância. Aqui, mais uma vez, deve entrar o trabalho político, a intervenção no cotidiano, rica tradição da esquerda revolucionária e de setores esclarecidos de segmentos religiosos.

Dia 30, claro, vou de Lula para exorcizar o fantasma do Monstro do Lago Paranoá. Já é tarefa de bom tamanho. Antes de encerrar, uma notícia, e uma lição, do Uruguai, país porreta que não me canso de admirar. Dois ex-presidentes orientales, de espectros ideológicos antagônicos, se reuniram para um papo que durou mais de dez horas. José Pepe Mujica, do Movimento de Participação Popular, e Julio Maria Sanguinetti, do Partido Colorado, conversaram sobre democracia, capitalismo, socialismo, economia de mercado, arte e ciência, tecnologia, esportes, drogas, família, amor, vida e morte. Convergiram, divergiram, sobretudo dialogaram. O resultado vai virar livro em breve. Mujica resumiu assim o encontro: “Não quero um Uruguai que dê um espetáculo de política partida. Tem gente que se confunde, que acha que em política é preciso andar aos murros.” Quem sabe um dia o Brasil cresça e apareça, como seu vizinho ao sul?

Abraço. E muita coragem.