Lutamos por vossa e nossa liberdade, por vossa e nossa honra humana, social e nacional… Viva a fraternidade do sangue e das armas da Polônia em luta. Viva a liberdade! (documento da ZOB – Organização Combatente Judaica, distribuído no gueto de Varsóvia em abril de 1943)
Oitenta anos depois de amanhã. Era o início do Pessach, 19 de abril de 1943. Começava a insurreição dos judeus remanescentes do gueto de Varsóvia contra o extermínio final executado pelos nazistas. Nasci poucos anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial e o impacto da Solução Final, nome fantasia que os nazistas alemães deram ao plano de aniquilar os judeus europeus, ainda era enorme. Era raro encontrar uma família de emigrantes judeus que não tivesse algum parente ou amigo assassinado durante a guerra. Foi uma hecatombe sem precedentes, planejada e executada com frieza burocrática, eficiência tecnocrática e crueldade hedionda. Ao final dela, cerca de um terço de todo o povo judeu havia sido eliminado.
O gueto de Varsóvia, para o qual foi escorraçada toda a população judaica da capital polonesa e de alguns arredores (cerca de 450 mil indivíduos), formou-se em outubro de 1940. Área superlotada, com densidade habitacional média de 7 pessoas por quarto, onde grassavam fome sistêmica e epidemias letais. As rações de comida foram reduzidas a 10% do que seria o normal. Antes da guerra, a taxa de mortalidade dos judeus em Varsóvia era de 500 mensais. No gueto, esse número decuplicou.
Por trás da asfixia, havia uma complexa rede de diversionismo e mediações ilusórias. Os nazistas instituíram a Judenrat, administração formada por judeus e que mediava os contatos com os alemães. Na prática, seu poder era quase nenhum. Mesmo com boa fé e na expectativa de diminuir o sofrimento dos prisioneiros do gueto, a Judenrat serviu apenas para dar uma sensação ilusória de normalidade. Também foi criada uma polícia judaica, cujos integrantes, em nome da autossobrevivência, reprimiam todo tipo de contrabando para dentro do gueto (comida, por exemplo) e colaboraram ativamente quando começou o processo de deportação em massa para os campos de extermínio. Eram odiados pelos prisioneiros.
Em julho de 1942, os nazistas iniciaram, em ritmo acelerado, o esvaziamento do gueto, deportando os judeus remanescentes para campos de extermínio. Em cerca de 8 semanas, foram 300 mil deportados. A partir desse momento, consolidou-se a sensação do genocídio iminente, que, até então, vinha sendo praticado em doses “moderadas”. Grupos que tinham militância política antes da guerra (comunistas, socialistas, sionistas de esquerda) começam entendimentos para unificar um programa de ação, na perspectiva de uma reação armada contra os nazistas. Isso conduziu à formação, em outubro de 1942, da ZOB – Organização Combatente Judaica.
Com a ajuda vital da resistência polonesa não-judaica de fora do gueto, algumas armas chegaram à ZOB. A direção do grupo refletiu uma unidade impossível na realidade comunitária judaica do pré-guerra. Comunistas ligados ao partido polonês e socialistas do Bund, antissionistas estruturais, trabalharam com as organizações juvenis sionistas, quase todas de orientação à esquerda.
No dia 19 de abril de 1943, iniciou-se a revolta, com uma emboscada contra um destacamento nazista. O desequilíbrio de forças era esmagador. Contra uma máquina de guerra poderosa e bem treinada, cerca de 600 combatentes (algumas fontes citam 750) sem qualquer experiência militar e mal armados (2 carabinas automáticas,100 rifles comuns, centenas de pistolas e revólveres, um número indefinido de coquetéis molotov).
Contra todas as expectativas, o levante durou quase um mês. Ao final, poucos rebeldes sobreviveram, escapando pela rede de esgotos varsovianos. Seguindo ordens de Himmler, o gueto foi completamente destruído, transformando toda a área numa montanha de ruínas. A intenção era varrer da memória a existência daquele lugar e da luta antinazista.
O Levante do Gueto de Varsóvia fertilizou revoltas em outros guetos e campos de extermínio. Rebelaram-se Sobibor, Bialistok, Auschwitz, Treblinka, entre outros, em maior ou menor escala e em condições objetivas inimagináveis.
Creio que todas as perguntas sobre a resistência armada judaica contra o extermínio sistemático já foram feitas. Há muitas tentativas de resposta, nenhuma delas definitiva. Emerge sempre uma certa indignação quando se lembra a demora em reagir contra o genocídio. Como disse, há muitas possíveis respostas, mas, tal como acontece com presos políticos torturados que não resistem ao suplício e delatam companheiros, gosto de lembrar uma observação da escritora norte-americana Marie Syrkin: “Aqueles que nunca foram submetidos a teste similar deveriam se abster de julgamentos morais”.
Não faz muito sentido continuar homenageando apenas ritualmente os que preferiram morrer com honra, de armas na mão, do que se submeter ao jugo de carrascos implacáveis. É preciso aprender, ao menos, algumas lições básicas e atemporais. Cito apenas duas.
Enquanto houver alguém escravizado, explorado, discriminado e oprimido, não importa em que meridiano, será necessário resistir. Cada grupo, em cada época e dadas as condições objetivas e subjetivas, encontrará a forma mais adequada de resistência. Os revoltosos do gueto mostraram os limites da convivência e da conciliação com o opressor. Valeu há oitenta anos, continua valendo hoje.
Tomo emprestada de Primo Levi a segunda lição. Disse o químico turinês, partisan que sobreviveu a Auschwitz: “Há Auschwitz, portanto não pode haver Deus”. O conformismo religioso foi, certamente, um dos obstáculos ao enfrentamento do nazismo e fonte de imobilismo séculos afora. Muitos religiosos, fincados no sobrenatural, diziam que, embora inexplicável, aquela era a vontade de Deus. Por “aquela” entenda-se o assassinato em escala industrial, incluindo crianças e gestantes que sequer tinham tido “oportunidade de pecar”. Um Deus cruel, omisso e, portanto, cúmplice de atrocidades. Há herdeiros dessa estupidez, que preferem repetir indignidades a fazer uma reflexão honesta sobre crenças insensatas. A promiscuidade entre religião, campo do irreal e da fé, e o jogo real da vida, com suas explicações complexas e suas interrogações intermináveis, deve-se combater sempre.
Aos que tiveram a coragem de enfrentar a morte com dignidade e percepção de futuro, dedico esta passagem da lindíssima canção Sentinela, composta por Milton Nascimento e Fernando Brant: Longe, longe, ouço essa voz/Morte, vela, sentinela sou do corpo/Desse meu irmão que já se foi/Revejo nessa hora tudo que aprendi/Memória não morrerá.
Quem quer morar num lugar onde tem tiro todos os dias? (lojista da Praça Seca, região da Grande Jacarepaguá, no Rio de Janeiro)
A pergunta podia parecer uma bobagem. Como fui eu mesmo que a fiz, não visto a carapuça. Onde será que eu moro? De verdade, não apenas pelo carimbo do CEP. Desde minha entrada triunfal, na falecida maternidade Arnaldo de Moraes, até meus passos hesitantes de hoje, jamais morei em outra cidade que não fosse o Rio de Janeiro. Passei por bairros das zonas norte e sul, em alguns com longas permanências. No entanto, volto a perguntar: onde eu moro? O que significa pertencer a uma cidade? Não me refiro apenas às coleções nostálgicas que enfeitam nossas raízes mais antigas.
João Cabral de Melo Neto, no intervalo entre uma aspirina e outra, era um andarilho. Nas cidades onde serviu como diplomata, gostava de andar livremente. Em Sevilha, que adorava e à qual dedicou inspirados poemas, podia caminhar horas entre as ruas, tirando o delicado véu que escondia a identidade mais profunda do lugar. Flanar livremente. É assim na cidade onde caminho? Ainda existirão andarilhos como o João do Rio e o Nássara, que encarnavam um tipo de carioca que, suspeito, está em fase avançada de extinção?
Como posso dizer que moro no Rio se, em boa parte dele, sequer posso pisar, sob pena de ser abatido por bala perdida, ou pior, desaparecer para sempre, como num episódio do Além da Imaginação? Vou contar um pequeno caso. Pouco antes da pandemia, descobri o endereço onde funcionou o consultório dentário do Grande, em Vigário Geral. Constava de um velho Diário Oficial, registrando multa por falta de autorização para pendurar placa externa do consultório.
Guardo viva a memória do local, pequeno sobrado na lateral de uma pracinha, à qual se tinha acesso por uma rua de terra batida. De posse do endereço, pesquisei imagens atuais das redondezas. Lá estava a pracinha, com grama maltratada, e o sobrado. Bateu uma vontade irresistível de botar os pés naquele território congelado em lembranças ternas. Quem sabe, fotografar algum fantasma desgarrado, esquecido da tarefa de assombrar?
Consultei um taxista conhecido, Vigário Geral lhe era familiar. Desaconselhou-me o passeio. A área é hoje dominada por bandos criminosos, e uma pessoa estranha, flagrada tirando fotos, podia ser confundida com um batedor de bandos rivais da gangue dominante. Eu estaria frito. Lembrou-me do que havia acontecido em agosto de 1993. Dezenas de policiais encapuzados invadiram a favela local e trucidaram 21 moradores, uma das piores chacinas da história da cidade. Ação de vingança pela morte de 4 policiais por traficantes da região. Ali, em suma, é parte da cidade em guerra permanente, da qual só tenho notícias longínquas, através do jornal e da mídia virtual.
O Rio tem quase 800 favelas, onde vivem, de acordo com o Censo de 2010, 1,4 milhão de pessoas. Junto com um grande amigo, visitei uma delas, a Ladeira dos Tabajaras, em meados dos anos 70. Era quase uma vila rural, muito pobre, com molequinhos batendo bola e Marias com lata d’água na cabeça. Sobe o morro e não se cansa, pelas mãos leva a criança… Uma visão meio romântica, à la Orfeu do carnaval (filme chatíssimo, mas com imagens preciosas da cidade nos anos 50). Hoje, não me atreveria. Não sou candidato a Tim Lopes. Pra resumir a encrenca: meu acesso está vetado, de cara, a um quarto da população da cidade.
A zona oeste não tem roteiro diferente. Cerca de meio milhão de moradores da Grande Jacarepaguá estão no meio do fogo cruzado entre traficantes, milicianos e policiais. Como num país ocupado por exército estrangeiro, lá vigora toque de recolher, portões e janelas não podem ser trancados (os criminosos alegam que não podem ter obstáculos no caso de confrontos).
Aqui e ali vejo jipes especiais levando turistas para os Favelas tours(!). O que será que procuram? Cabrochas se esgueirando pelas vielas com samba nos pés? O exotismo de uma pobreza idealizada? “Histórias de superação e empreendedorismo”? Não sei. O que posso garantir é que não conhecerão nada do cotidiano tenso, limitante, violento, segregador, das periferias do Rio. Será, provavelmente, um passeio pela “cidade cenográfica” dos agentes.
Com tantos e aflitivos impedimentos, o máximo que posso dizer é que moro numa pequena porção da cidade, na zona sul. Sou, por assim dizer, um zonasulrioca. Com batismo entre os tijucariocas. O Rio, com suas histórias, seus personagens, seus quintais, seus mistérios, é um projeto de vida. Que, infelizmente e à minha revelia, acho que não conseguirei realizar.
A liberdade, como a vida, só a merece/quem deve conquistá-la a cada dia! (J. W. Goethe)
No caminho para a entrevista, ele olhou, deslumbrado, para aqueles marcos urbanos tão diferentes da sua Belém. Do obelisco na avenida Rio Branco, onde a gauchada amarrou seus cavalos em 1930, ao relógio da Mesbla, no lindo edifício Art Déco, passando pela elegância do edifício Serrador e a imponência eclética do Palácio Monroe. Tudo abraçado pelo mar que ajudava a azular a paisagem.
Na hora marcada, ainda mexido por tanta novidade, foi chamado pela entrevistadora. Não, senhora, não sou daqui do Rio. Vim do Pará, tenho poucos recursos para terminar meus estudos. Comer no Calabouço é um preço que posso pagar, vai ajudar muito. Ela olhou para o adolescente, que não disfarçava a timidez, e não pôde evitar uma lembrança antiga, final dos anos 40, quando tinha a mesma idade do rapazinho e ouvia sempre a rádio Nacional. Em silêncio, cantarolou Caymmi: Peguei um ita no norte, pra vim pro Rio morar, adeus meu pai, minha mãe, adeus Belém do Pará. A memória radiofônica criou uma comunhão instantânea. A autorização para frequentar o restaurante do Calabouço foi dada.
Edson, então, juntou-se às centenas de estudantes que frequentavam o bandejão honesto todos os dias. Gente de algures, alhures e nenhures, que vinha morar no antigo Distrito Federal para fazer e refazer vidas. Ali, naquele canto penumbroso do refeitório, o cearense José Tarcísio sonhava com artes plásticas. Mais adiante, Carlos Celso, do Acre profundo, tinha todas as marcas do choque com a cidade grande.
O país amordaçado por uma ditadura buscava espaços de resistência. Edson começou a participar do movimento estudantil. Lutava pela melhoria da qualidade do Calabouço e sua consciência política evoluía rapidamente. No dia 28 de março de 1968, mal completados dezoito anos, ele jantava ali, junto com 300 estudantes. A Polícia Militar do Rio de Janeiro invadiu o local e atirou covardemente. Edson, atingido no peito, morreu instantaneamente. A morte estúpida provocou grande comoção e uma multidão acompanhou o féretro pelas ruas da cidade. Edson Luis de Lima Souto se somou a uma das muitas veredas por onde andou o movimento estudantil na luta contra a ditadura. Três meses após seu assassinato, sua figura pairou na avenida Rio Branco, a mesma que o deslumbrara, durante a Passeata dos Cem Mil.
Como terá recebido a notícia da morte de Edson a assistente social que o entrevistara? Não sei. Ela própria havia enfrentado o autoritarismo, só que no terreno doméstico. Vinha de uma geração em que o machismo era a regra. Onde já se viu mulher “trabalhar fora”, ou seja, ter uma carreira, fugir da máquina Singer, do pano de prato, da enceradeira, da gordura de coco Carioca, dos bobes e laquês? Trabalhar para a União Metropolitana dos Estudantes, que administrava o Calabouço, foi um gesto libertário. Lilia Gruman enfrentou os demônios de seu tempo com as armas possíveis. Do seu jeito, bateu asas e voou.
Estamos às vésperas do Pessach, quando os judeus lembram o fim de seu cativeiro no Egito dos faraós. Sempre me perguntei para quê repetir todos os anos o mesmo ritual, por mais forte que seja a mensagem original. No caso, a importância da liberdade. Há muitas respostas possíveis. Duas, no entanto, estão dentro da própria Agadá, o roteiro tradicional que descreve o processo de libertação. A primeira diz que, em cada geração, cada um de nós deve sentir como se tivesse, pessoalmente, saído do Egito. É uma forma de dizer que somos herdeiros de uma vontade coletiva, de um projeto que não admite a servidão como natural. Edson e Lilia rechaçaram os decretos autoritários dos faraós contemporâneos e se fizeram ex-cativos.
A segunda reconhece que a versão oficial do Pessach (desacreditada, em muitos aspectos, por arqueólogos, antropólogos, historiadores e estudiosos da Bíblia) pode ser modificada. Autoriza-se, e isso é um fato espantoso em assuntos da tradição religiosa, complementá-la, atualizá-la. Aliás, é mais do que isso. Fazer essa atualização seria uma mitsvá, ou seja, uma boa ação, implementada para aprimorar o Homem.
Edson e Lilia enfrentaram faraós poderosos. Construíram, pelo pensamento e pela ação, o caminho de sua liberdade. Não precisaram de forças sobrenaturais, nem de mitológicas lideranças fortes. Escreveram uma Agadá dos tempos modernos, onde a liberdade é matéria cada vez mais necessária. Cumpriram, sem sabê-lo, uma linda mitsvá.
Carlos era um menino de dez anos, adorava livros e estudava em um colégio judaico. Um colégio com muitas árvores, pátios, um ginásio de esportes e uma bela biblioteca. Desde muito cedo se acostumou a ler graças ao seu pai e principalmente ao seu avô. Na verdade, o avô era chamado Zeide, em ídiche, pois ele tinha nascido na Polônia, numa pequena aldeia onde moravam muitos judeus. O avô tinha estudado numa escola de rabinos, uma Yeshivá, e conhecia muito o Tanach, o Velho Testamento, e outros livros da sabedoria judaica. Quando Carlos tinha oito anos ganhou um pequeno livro, o Pirkê Avot (Ética dos Pais), e aprendeu as frases e histórias dos sábios de dois mil anos.
O único problema de Carlos era ser o mais pobre de sua turma na escola. Seus colegas vinham com pastas bonitas, uniformes muito bem passados; já ele não, tudo era muito simples. Na saída da escola os pais vinham buscar os filhos em grandes carros, e ele ia caminhando para sua casa. Um dia, Bernardo perguntou-lhe por que o seu pai não vinha buscá-lo de carro, e Carlos disse que sua família não tinha carro. Bernardo não quis acreditar, riu do seu colega, e logo contou aos demais.
Interessante que no futebol esse menino pobre se destacava, pois se empenhava nas partidas, correndo atrás da bola com entusiasmo. Um dia Carlos trouxe um pequeno livro preto de capa dura e despertou o interesse de vários colegas, e alguém que lhe perguntou:
– Que livrinho é esse?
– É o Pirkê Avot.
– Pirkê Avot? O que é isso? – logo vários perguntaram.
– Ética dos Pais. É o livro mais popular da sabedoria judaica.
– E o que tem nele de tão especial?
– Os principais sábios judeus expõem lições de vida através de comentários da vida.
– Conte alguma – disseram alguns colegas curiosos.
– Começo com Hilel, o único a ser chamado de sábio dos sábios no Povo Judeu.
– Como mesmo é o nome dele? – perguntaram.
– Hilel, que de tão importante é chamado de sábio dos sábios. Por exemplo, ele disse uma frase famosa mais ou menos assim: “Não faças aos outros o que não queres que façam a ti”. Contam que ele teve influência até em Jesus Cristo.
A essa altura o grupo de colegas que rodeava Carlos já tinha aumentado, e estavam todos surpresos. Não imaginavam o colega pobre, que vinha ao colégio com roupas amarrotadas e que seu pai não tinha carro, saber tanto sobre os sábios judeus.
– Conte mais sobre Hilel.
– Tem três frases famosas que gosto muito: “Se eu não for por mim, quem será por mim”; “Se eu for apenas por mim, o que será de mim?; “Se não for agora, quando?”. Meu avô, o Zeide, me explicou várias vezes que cada um deve cuidar de si, mas também devemos nos ocupar dos demais, e, quando temos algo para fazer, devemos fazer e não sempre postergar para amanhã.
Disse, por fim, que entre as qualidades de Hilel estavam a paciência e a capacidade de pensar coisas novas que até hoje são úteis. Existem no mundo escolas com o nome de Hilel. Concluiu:“Nunca mais alguém do Povo Judeu foi chamado de sábio dos sábios”.
– Carlos, tu és o amigo dos sábios – disse Bela.
A partir daquele dia ele passou a ser chamado de amigo dos sábios.Todos estavam estupefatos, o menino que tinha ironizado Carlos por seu pai não ter carro e ele ser pobre ficou envergonhado. Agora, via uma riqueza e um conhecimento no colega. Pediu para ele contar mais do Pirkê Avot, em especial de Hilel. Entretanto, já havia batido e o recreio terminado. Os demais colegas, a partir daquele dia, passaram a tratar Carlos de outra forma. A turma soube na prática o que é um dos valores do Judaísmo e da Sabedoria universal, que é o hakarat hatov (reconhecer o bem) – elogiar as qualidades de seus semelhantes e falar bem dos outros.
P.S. Essa é a única história que escrevi para crianças no livro “Contos e reencontros” com vários autores, editado pelo Colégio Israelita Brasileiro nos seus 95 anos, que agora está completando cem anos. Fui aluno e professor do CIB a quem agradeço sempre.
Quem leu O grande mentecapto, do Fernando Sabino, talvez lembre. Geraldo Viramundo, peregrino delirante nas Minas Gerais, foi parar num hospício. Feliz como um menino, Viramundo sentiu-se em casa. Rodopiou, riu, sapateou, conversou com aquela gente interessante. “Criaturas de minha refinada estirpe”, pensou.
Num canto do pátio, viu um camarada com o ouvido colado à parede. Shhh, disse-lhe o sujeito, com o dedo entre os lábios. Em seguida, convidou o novo companheiro: Quer ouvir também? Viramundo encostou o ouvido na parede. Nada, silêncio total. Ainda ficou um tempo ali, aguardando um sonzinho que fosse.
Finalmente, desistiu. Não estou ouvindo nada, avisou ao outro. Sem tirar o ouvido da parede, este, com olhar malandro, sorriu de boca fechada e arrematou: Eu também não. E está assim há mais de doze horas!
Por razão que desconheço, esta passagem me transportou para uma cena antiga e recorrente numa sinagoga. O condutor das orações, incomodado com a algazarra do público, batia duro no púlpito central e clamava a bom som: Shtil, idn, shtil! Silêncio, judeus, silêncio! Com um pouco de sorte, as vozes aquietavam e a necessária introspecção se instalava. Silêncio.
Seria o silêncio apenas a ausência de ruído? O nada? Quem deitou no divã ou encarou sentado o terapeuta sabe que o sumiço temporário das palavras pode ser perturbador. Lembra as histórias em quadrinhos, quando o personagem ficava aflito e de sua cabeça voavam pingos de suor. Raramente, no entanto, significa o vácuo. É uma pausa necessária para polir sentimentos ou fazer contato com o que Clarice Lispector chamava de “o delicado abismo da desordem”. Em qualquer caso, carrega sementes potencializadoras de diálogo.
Um dos momentos mais comoventes da história do cinema apareceu no filme A noite que durou 12 anos. Na cena, presos políticos uruguaios eram transferidos de cárcere tendo ao fundo a música The sound of silence. Cantada por Silvia Pérez Cruz, creio que a cappella. Faço aqui uma confissão pública. Chorei, solucei, verti abundantes gotinhas salgadas. Meio acabrunhado, criado que fui sob a máxima menino não chora. E o que diz a letra da música? Pessoas que ouvem sem escutar. De longe a pior forma de silêncio. Popularmente conhecida como indiferença.
O que dizer do silêncio dos invisíveis, dos oprimidos, dos descartáveis? O Talquei Imbecil se referia aos quilombolas com desprezo e violência. Para ele, era uma não-gente, que só servia para perturbar a paz dos cemitérios que tanto lhe agradava. Pois há mais de 6 mil quilombos no Brasil, onde vivem quase 400 mil quilombolas. Descendentes das comunidades negras que resistiram ao colono português, que estuprava, amputava, castigava, desumanizava. Hoje, fazem parte da luta por regularização da posse da terra e do acesso a equipamentos básicos de saúde e educação. São praticamente invisíveis para a maioria da população. Sua voz é abafada, sua cultura de resistência é ignorada. Silêncio.
Os meus silêncios sempre beliscaram a alma. Muitas conversas desejadas jamais chegaram. Outras, por insensibilidade e alguma arrogância, não ofereci. Certa vez, num fim de tarde pré-histórico, eu estava reunido com um grupo que se encontrava aos sábados. O cenário, a área externa do Museu de Arte Moderna. O convidado era um jovem psicanalista de São Paulo. Estávamos sentados e ele em pé. Alguém pediu que ele definisse(!) o que via em cada um de nós. Chegada a minha vez, o ilustre paulistano ficou uns segundos em silêncio e, ainda em silêncio, abaixou-se até ficar de cócoras na minha frente. Nossos olhos na mesma altura. Não houve palavras, apenas um olhar solidário. Talvez tenha sido a mensagem mais eloquente que recebi na vida, enviada num momento de incertezas e unhas roídas.
E eis que chego aqui, quebrando pedras, digo, silêncios…
Tudo na vida quer tempo e medida (Dito popular brasileiro)
Fazia tempo que a gente não se via. Dessas separações que a pandemia provocou. Não foi fácil dar conta da demanda reprimida logo no reencontro. Entre tantos assuntos que hibernaram durante a Peste, voltou um de difícil trato. O amigo tem uma história cortante de relação com o pai. As memórias são dolorosas, de silêncio muito e afeto pouco. Prefere não tocar no assunto, mas resolvi avançar um passo. Perguntei-lhe se não há ao menos uma lembrança, um lampejo, um trinado, que lhe traz conforto.
Contou-me de uma remota Sexta-Feira Santa. As rádios costumavam respeitar o clima solene da data programando apenas músicas sacras da tradição cristã. Ouvia-se melodias graves, que evocavam dor e escuridão, na casa do meu amigo, então um pirralho. Como sempre, uma barreira invisível o separava do adulto pouco acolhedor e distante. Mundos sem diálogo.
De repente, o inesperado fez uma surpresa (obrigado, Johnny Alf). O velho o chama para compartilhar o sofá. Desconfiado, sobe naquele móvel exclusivo da adultice e se acomoda, sem encostar no pai, que parece a anos-luz dali. Ficam juntos, sem conversar, mas unidos por uma estranha e efêmera sensação de pertencimento. A invasão do território desconhecido foi tão potente que criou raízes que sobreviveram até o momento em que, involuntariamente, as evoquei. Um pouco naquilo que Mia Couto definiu como a voz do poeta: um fio de silêncio costurando o tempo. Não apagam a ausência, as cobranças indevidas, a violência insinuada, mas as anestesiam levemente. A mostrar que os espectros mais assustadores podem conviver com uma doce passagem e recontar, transformando-a, parte da história. Com a assessoria dos filósofos Monsueto Menezes e Arnaldo Passos, que recomendavam, carnavalesca e sabiamente, não rimar amor e dor.
Breve parênteses. O Menino torcia o nariz não somente para as músicas sacras, túnel de passagem para um mundo repleto de severidade, culpa e castigo, mas também para os filmes bíblicos e de inspiração religiosa, que andaram na moda durante a meninice. Ben-Hur, blockbuster nos anos 50, não passava de catequese cristã, disfarçada de mensagem edificante. Sansão e Dalila, com Hedy Lamarr e o canastrão montado em músculos Victor Mature, mereceu um comentário sarcástico do Groucho Marx. “É o único filme em que o mocinho tem os peitos maiores do que a mocinha”, disparou. Grande Julius Henry!
De volta para o futuro, digo, para este papo. Zissi me proporcionou muitos momentos memoráveis. O Grande, com seu jeitão discreto, sabia cativar sem espalhafato. Podia ser apenas passando ao Menino o suplemento infantil dominical do Correio da Manhã ou dando uma carona inesperada para a escola no heroico Morris Oxford, de saudosa memória. No entanto, houve também comigo, tal como para o meu amigo, um momento especial.
Ocorreu que um tio de segundo grau foi hospitalizado com câncer. Na época, era sentença de morte. Num domingo, planejou-se uma visita a ele. Zissi rebelou-se. Posso imaginar por quê. O tal tio era totalmente ausente, parece que não se esforçava para criar intimidade conosco. Então, et pour cause, ficou decidido. Não iria ao nosocômio (ainda existe essa palavra?). E me estendeu a liberação. Pode parecer maldade, mas fiquei feliz. Para uma criança, ambiente hospitalar é tão desejável quanto beber Emulsão de Scott ou tomar injeção.
Não se tratou apenas de garantir uma tranquila tarde de domingo. Zissi adiou, sem premeditar, meu primeiro contato com a Morte. Ela, a Indesejada das Gentes, já estava à espreita e levaria meu velho alguns anos depois.
Sou solidário ao meu amigo e a todos os que conservam pendências com relações antigas cheias de conflitos, mágoas, rancores. Não é nada fácil lidar com estas assombrações. Do pouco que aprendi peleando com meus espectros, sei como é importante não ficar na espuma do ódio e das acusações. Fantasmas detestam luz e, por isso, é desejável expô-los com toda a sua complexidade. Sua história, seus leva-e-traz, seus bumba meu boi, seus isso e aquilo. Talvez se consiga perceber, em algum canto pálido da arena, um aspecto subestimado ou desprezado. Somos todos, sem exceção, frágeis, e a fragilidade pode gerar monstros, fantasias e solidões. Cabe a cada um negociar com esses muitos dançarinos, que tanto podem nos levar para o Monte Calvo como para o teatro Bolshoi.