Samba Perdido – Capítulo 24 – parte 01

Capítulo 24

 

“...  E passo aos olhos nus,
Ou vestidos de luneta
Passado, presente, particípio
Sendo o mistério do paneta”

Novos Baianos - Mistério do Planeta

 

No final do primeiro ano da faculdade, Pedro e eu já éramos melhores amigos e tidos como a malandragem da sala. Com a chegada do verão, deteminados a ser mais fortes que a tempestade, resolvemos dar uma volta pelo Nordeste. O orçamento desta vez seria muito mais curto devido às condições. Não havia feito nada de extraordinário naquele ano, os negócios estavam difíceis e, farto do meu distanciamento do “mundo real”, Rafael se recusou a financiar a viagem. Do lado do Pedro, sua mãe viúva também não tinha muito para colocar na mesa. Para tornar a coisa viável, tive que vender meu querido Blues Boy e ele teve que pegar parte do dinheiro que seu pai havia lhe deixado. Mesmo assim, pelos nossos cálculos, só teríamos o suficiente para ir de ônibus até Vitória, e a partir de lá, tentaríamos chegar o mais ao norte possível pegando carona e acampando.

Apesar do prejuízo e dos possíveis contratempos, não queríamos outra coisa. Seria uma oportunidade de viver um sonho de mochileiro hippie, além de um alívio imprescindível da crise na cidade grande.  Enquanto o ônibus atravessava a ponte Rio-Niterói rumo ao Nordeste, não via a hora de chegar naquele Brasil idílico onde poderia voltar a ser eu mesmo.

Sabendo que as coisas só esquentariam depois que chegássemos na Bahia, não íamos ficar muito tempo em Vitória. Sem pertencer ao Sul nem ao Nordeste, a cidade não era nem moderna o bastante para a gente curtir a balada, nem exótica o suficiente para ser empolgante. O plano era acampar na praia por uns dois dias e de lá começar a fase de caronas e chegar à Bahia o mais rápido possível.

Assim que chegamos por volta do meio dia, pegamos um ônibus rumo ao bairro da Praia do Canto onde achamos logo um quiosque na beira da areia para deixar nossas mochilas. Foi lá que rolou nosso primeiro contratempo. O dono da barraca, um mulato magro de cabelo parafinado vestindo uma roupa de surfista e com óculos escuros coloridos, nos explicou que existia uma lei que proibia acampar em qualquer lugar da costa da cidade.

“Tiveram uns malucos que tentaram acampar aqui há duas semanas atrás. A polícia chegou a noite, tirou eles à força e ainda ficaram com a barraca. Se vocês quiserem tentar, tentem, mas está avisado.”

“É só aqui ou em Vitória inteira?”

“É proibido acampar na orla inteira, se vocês quiserem montar a barraca com os mendigos na praça é com vocês.” O cara encerrou com um sorriso irônico, já preocupado com outros fregueses que tinham acabado de chegar.

Virei para o Pedro. “Cara, e agora? A gente vai dormir aonde?”

“Sei lá, depois a gente vê. Não estressa, estamos de férias!”

Aceitei a sugestão. Depois que os clientes foram embora, trocamos de roupa rapidamente atrás do balcão. De sunga, numa cidade estranha, com o oceano aberto em frente e o sol forte, não pensei mais no assunto. O que queríamos era curtir o dia e curar o desconforto de uma viagem de 15 horas. No final do dia, com o pôr do sol chegando, a pergunta sobre onde dormiríamos naquela noite voltou à tona.

“Aê, de repente o cara falou aquilo só para assustar, vai ver que ele não quer ninguém acampado perto do quiosque.”

“Pode crer, também achei o cara meio mané.”

“De qualquer maneira, é melhor a gente ficar esperto, se a polícia chegar e levar a barraca vai ser foda!”

“E se de repente a gente armar a barraca naquele gramado ali em cima das pedras no final da praia?”

“Cara, tu tá maluco? Se não deixam acampar aqui, tu acha que vão liberar ali num parque público?”

“Então vamos para a casa do estudante universitário de Vitória? Não coloquei na lista, mas deve ter uma.” A gente olhou para o balcão e ele já estava começando a arrumar as coisas para ir embora.

“Tá muito tarde para isso, mas dá um guenta aê, que vou pegar as coisas lá no quiosque que o cara está fechando.”

Quando voltei, o Pedro estava conversando com um sujeito alto e desengonçado que tinha acabado de sair da água com uma máscara e um arpão.

Pedro, cujo pai tinha sido mergulhador, estava falando sobre mergulho genuinamente interessado. “Lá no Rio o mar é mais claro, mas volta e meia fica sujo assim também. Quando mergulhava com meu velho a gente chegou até a ver polvo.”

“Conheço o Rio, mas nunca mergulhei lá. O mar é mais frio, né? A água aqui é mais barrenta, mas até que dá para ver uns peixes. O Luiz lá dentro pegou um polvo no ano passado, mas foi em Guarapari.”

A conversa foi interrompida quando o tal do Luiz saiu da água e tirou a máscara de mergulho para vir falar com a gente. “E aí? Beleza? Luiz.”  O cara estendeu a mão e apertamos.

Depois ficamos  sentados na praia já semivazia conversando. Me surpreendi com o conhecimento do Pedro sobre o assunto, embora desconfiado de que a metade do que estava dizendo era mentira. Nao sabia nada de mergulho e enquanto o papo continuava, voltei a ficar ansioso por não ter ideia de onde ia dormir naquela noite.

A uma certa altura o assunto finalmente mudou. “Somos de BH e estamos na casa do tio do Fernando aqui, e vocês?”

A gente explicou a situação torcendo que fosse rolar um convite. Luiz, um cara com toda pinta de soldado e com ar de mandão, virou para o Fernando.

“E aí? Não dá para eles ficarem no quarto de empregada?” Ele se voltou para nós e perguntou.  “É só por uma noite, né?”

 Nem precisou a gente se consultar, acenamos a cabeça na hora dizendo que sim. O plano era passar duas noites em Vitória, mas dadas as circunstâncias uma já bastava.

Sem entusiasmo, o Fernando pensou um pouquinho. “É verdade, tem o quarto de empregada. Olha, é apertado e quente pra caralho, mas é melhor que ficar dormindo na rua que nem vagabundo.”

A gente não estava numa posição de escolher. “Pô, obrigadão, pode deixar que é por uma noite só, a gente vai pegar a estrada amanhã.”

O Luiz levantou impaciente. “Então tá decidido, a casa é aqui pertinho. Vamo nessa? Fiquei com fome depois desse mergulho.”

O Fernando, ainda um pouco relutante levantou também. “Vamo nessa. Essas aí são as tralhas de vocês?”

Pegamos as mochilas, a barraca e a viola e saímos atrás deles. O conjugado ficava num prédio alto e antigo em uma das ruas de trás. Era apertadíssimo. Depois de nos acomodarmos e tomarmos um banho estávamos prontos para o rango. Quando o Luiz falou que não tinha nada na geladeira, entendemos que a gente devia pagar uma janta para os caras em retribuição. Só que se não tínhamos grana nem para uma refeição boa para nós dois, quanto mais para dois marmanjos a mais.

Pedro também não falou nada e ficou subentendido que não ia rolar. O clima ficou esquisito mas pegamos o que estava na geladeira e devoramos uns sanduíches de queijo. A fome não passou e resolvemos ir de ônibus para a zona boêmia de Vitória, Vila Velha.

Duros, com a barriga roncando, ficamos andando pelo passeio feito uma matilha de cães. Acabamos num lugar que parecia um parque de diversões noturno, cheio de trailers vendendo comes e bebes e tocando música a todo volume. Na confusão, alguém viu uma mesa vazia cheia de petiscos e de garrafas de cerveja intocadas. O Luiz, já chefe de nós todos, fez um sinal para a gente parar e ficar esperando.  Passamos uns dez minutos vigiando. como os donos nunca voltatam, chegamos junto e discretamente tomamos conta.

Fui direto numa garrafa de cerveja já aberta, mas cheia. Assim que o gelado desceu, ouvi uma voz masculina afeminada me chamando de atrevido. Olhei para o lado e não era o Pedro de brincadeira nem um dos outros dois, era uma bicha loura alta com purpurina cintilando nos cabelos e na barba, olhando para mim com os lábios hidratados.

Quase cuspi a cerveja fora. “Desculpa, a gente pensou que não tinha ninguém na mesa, daí…”

“Menino, essa cerveja tem dono.  Eu e minha amiga estávamos dando uma volta e deixamos as coisas aqui. Será que não dá para fazer isso numa noite de domingo!?”

“Olha, desculpa mesmo, quanto custa uma cerveja? Te pago uma nova.”

O cara não parecia incomodado. “Deixa de ser bobo, garoto, senta aí e bebe com a gente.”

Quando olhei para o lado e vi a “amiga” dele, um moreno também coberto de purpurina com maquiagem nos olhos e se derretendo para cima do Luiz, a ficha caiu: havíamos caído na armadilha da dupla. Estava claro que eles queriam muito mais que cervejas novas e nossas desculpas. De qualquer maneira, como os dois mergulhadores pareciam mais confortáveis com a situação, Pedro e eu saímos de fininho e deixamos o problema com eles.

Rindo do acontecido, resolvemos deixar de ser pão duros e fomos comprar uns hambúrgueres e uns refrigerantes numa das barracas. Depois fomos dar uma volta. Não demorou muito para a coisa começar a ficar chata. Estávamos cansados e voltamos à mesa para ver quando iríamos embora. A novidade era que os quatro haviam se tornado íntimos e voltar para o apartamento não estava mais nos planos.

A “loura” foi a porta voz da decisão. “A gente ficou muito amiga desses dois moços e vai levar eles para conhecer a minha casa. Se vocês quiserem vir com a gente será um enorme prazer.”

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O contágio do bem

Um ano de Covid-19 e finalmente estamos prestes a receber a vacina. Tudo o que desejamos é ter de volta nossa vida de antes. Neste caso lamento informar, mas nada será como antes, nossas vidas mudaram e precisamos aceitar.

Uma das piores consequências da pandemia for ter transformado a vida de milhões de famílias comuns, normais, ativas em um inferno da noite para o dia. Algumas afetadas  pela perda de entes queridos, outras pela falência de seus negócios e muitas pelo desemprego.

Muitas delas  tiveram a sorte de serem acolhidas por seus familiares, mas existem aquelas que não tiveram esta sorte e não importam as razões para isso, mas o fato em si. Pessoas que de repente se viram sem nenhum provento. Como pagar o condomínio, como pagar a escola das crianças, a operadora da TV, a operadora da linha de celular, a gasolina do carro, etc. Como pagar a conta no supermercado para ter o que comer?

Esqueçam o cinema, comer fora, um sorvete, um vinho, um show, uma viagem, tudo acabou. Sem emprego, começaram a consumir as reservas, depois a venderem o que era possível vender, até que chegaram ao fim da linha. Não há mais por onde. Começaram a fazer dívidas e logo isto virou uma bola de neve. Logo estouraram os limites da conta no banco, do cartão de crédito e começaram a chegar as ligações dos cobradores.

Esta é a situação de milhares de pessoas que hoje precisam de ajuda. E por incrível que seja, algumas sequer sabem como pedir, ou pior, não conseguem superar a vergonha de fazê-lo, como se a culpa fosse delas. Acham que pedir ajuda é uma humilhação.

No mundo inteiro, milhares de empregos desapareceram. Tudo que está ligado ao Turismo e ao Entretenimento sofreu um golpe violento. As quarentenas acabaram com muitos negócios de rua e nos Shopping Centers. Nem todos tiveram como manter seus comércios permanecendo fechados por longos períodos. Terrível.

Mas existe um outro fenômeno que chegou com o Covid-19, o da solidariedade. Aqui também, milhares de pessoas se organizaram para montar grupos de ajuda, para recolher doações e as encaminhar para os mais necessitados. Sem esta ajuda, o mapa da fome não pararia de crescer.

Aqui se revela a face mais humana da nossa sociedade. Doar é uma ação de fórum íntimo. A maioria o faz no anonimato. Não importa o valor, se em dinheiro ou se em uma ação social, doar é um ato de altruísmo. Muitos dos que doam, são justamente os que recebem algum tipo de ajuda e as dividem com outros mais necessitados. Da mesma forma, muitos dos que recebem ajuda, nunca fizeram uma doação antes. São as lições da vida.

Eu administro um grupo no FB com cerca de 6000 membros. As consequências do desemprego também podem ser vistas lá. Sabemos que alguns membros deixaram o grupo em silêncio quando não puderam mais pagar a conta da Internet. Mas conseguimos identificar os que precisam de ajuda e montar um grupo voluntário de apoio.

Solicitamos doações e elas começaram a chegar. Cada um ajuda como pode, em dinheiro ou profissionalmente. Tudo se soma e esta ajuda vai chegando onde é preciso, aliviando assim, o sofrimento que até então era silencioso. Agora não mais, com muito respeito e com muita humildade é possível contribuir com o próximo.

Se você chegou até aqui, seja um doador. Procure quem está organizado e doe o que puder, sua ajuda vai ajudar a minimizar a situação de alguém e vai te fazer se sentir bem.

Doar é contagiante, um contágio do bem. Se deixe contagiar por este sentimento.

Samba Perdido – Capítulo 23

Capítulo 23

 

“Meus heróis morreram de overdose
Meus inimigos estão no poder
Ideologia,
Eu quero uma pra viver.”
Cazuza – Ideologia

 

Pedro também caiu de paraquedas no curso de Economia da UFRJ. No vestibular, tinha dado a sorte de se sentar ao lado de um amigo de infância “Caxias”. Sem ter que insistir muito, o amigo deixou a sua folha de respostas a mostra e foi assim que ele entrou para o curso. Ele não era o cara típico de círculos acadêmicos. Morava fora da Zona Sul, tinha pele mais escura, cabelo enrolado e por ser da equipe de polo aquático do Fluminense, era sarado. Não demorou muito para que engatássemos numa firme amizade, comigo sendo seu passaporte para festas na Zona Sul e com ele me ajudando na cultura de rua.

Economia e Administração de Empresas, Comunicação (Jornalismo e Publicidade) e Psicologia eram as três faculdades no campus da Praia Vermelha. Nosso curso era o mais prestigioso e ficava no prédio mais suntuoso, o que abrigava o famoso Teatro de Arena. O diretório central dos estudantes era lá e usava aquele anfiteatro como palco para bandas alternativas, muitas delas excelentes, como Premeditando o Breque, Diana Pequeno, Luli e Lucinha, entre outros.

Por essas e outras, os alunos de Economia se achavam um degrau acima, acreditando lidar com questões mais difíceis e importantes. Para nós, os estudantes dos outros cursos estudavam matérias fáceis e superficiais. Em contrapartida, ainda que impuséssemos um certo respeito, eles nos viam como riquinhos nerds metidos a besta.

Pedro e eu não estávamos interessados nesses estereótipos. Em vez disso, saímos explorando o campus, fazendo amizade com os estudantes de Comunicação – eles sabiam das melhores festas – e com os de Psicologia – a grande maioria era de mulheres, muitas delas bonitas e pareciam dispostas a experimentar coisas novas.

De qualquer forma, passamos a fazer parte de uma turma universitária mais madura que possuía vida social própria. As festas que começamos a frequentar refletiam esse novo status universitário. Nelas, além da nossa turma de calouros, havia estudantes de anos mais avançados, jovens professores, suas namoradas, esposas e seus amigos, todos inteligentes e muito mais sofisticados do que a maioria das pessoas com as quais estávamos acostumados a nos relacionar.

Minha habilidade no violão operava milagres e éramos convidados para as melhores festas, organizadas pelos membros mais conceituados do corpo acadêmico, muitas nos melhores endereços da cidade. A elite era de esquerda e vários chegariam a posições importantes em agências governamentais, nos negócios e mesmo na política. A maior parte vinha de famílias tradicionais e conceituadas, e alguns dos pais eram envolvidos nas cúpulas dos recém-legalizados partidos de oposição.

Num tempo de renascimento político esses círculos apreciavam a aura descontraída de um violonista, versado no estilo de vida alternativo encontrado em Visconde de Mauá e Trancoso. Durante um breve tempo, tanto Pedro como eu fomos cortejados pela elite estudantil, mas a novidade desbotou logo e nos deixaram de lado devido às notas baixas, o contexto familiar inadequado e a falta de base e de interesse nos assuntos sérios que todos deveriam estar focando.

A acolhida nos outros cursos foi mais durável. Choviam convites para festas e levadas de som. Conhecemos garotas sensacionais e fizemos boas amizades. Imersos na farra e com um status elevado em casa, foi fácil esquecer a realidade econômica sombria pairando sobre nossas cabeças, bem como os esforços requeridos por uma das melhores faculdades do país.

*

Com a contrarrevolução neoliberal veio a caça às bruxas. Pessoas que não haviam colhido os frutos do milagre econômico dos anos 1970 ou que não tinham participado da festa, quer por proibição dos pais, quer por dedicação aos estudos ou repúdio àquela postura, pareciam estar ajustando as contas e festejavam a desgraça do inimigo.

O que antes era curtição, passou a ser visto com maus olhos, o que havia sido revolucionário agora era considerado idiotice e o que antes era aproveitar a vida se tornou a causa de doenças sexuais e mentais. A jornada de uma geração que havia lutado contra uma ditadura e que mais tarde presenciou a volta da democracia foi relevada. O sentimento de irmandade que tinha surgido naqueles dias se dissipou. Tudo parecia de cabeça para baixo: o que o senso comum havia considerado até então como egoísta e detestável, agora era aplaudido como a coisa certa a fazer.

O choque econômico também trouxe novidades na maneira de se “fazer a cabeça”. A cocaína passou a substituir a maconha. Não nos encontros dos radicais chiques de esquerda do curso de Economia onde muitos nem fumavam, mas nas outras rodas que frequentávamos. O comando do tráfico carioca percebeu que o pó branco era mais fácil de transportar, mais difícil de rastrear, mais viciante, mais caro e, enfim, muito mais lucrativo do que a herva, uma tradição de séculos. O submundo se profissionalizou em torno da novidade. Passaram a criar longos períodos de escassez de cannabis, enquanto o fornecimento de pó era abundante e barato. Logo, logo, os antigos maconheiros estavam caindo de napa nos espelhos do Rio de Janeiro. Muitos passaram a ver a maconha como uma lembrança ruim, um entretenimento para hippies fracassados e outros perdedores.

A Brizola – o nome do ex-exilado e futuro governador do Rio de Janeiro e por alguma razão o apelido da cocaína – era mais agressiva e mais nociva. Essa mudança de preferência era ilustrava bem o que estava acontecendo por causa do choque neoliberal. Ao invés de trazer a tona o lado contemplativo e artístico das pessoas, a cocaína deixava o raciocínio rápido e o ego inflado. Depois de se tornar popular, é claro que o tráfico aumentou o preço e fez com que seu consumo se tornasse um peso no orçamento. Por ser necessário consumir muito para manter a onda, em tempos de crise econômica muita gente acabou tomando caminhos à margem da lei para manter o hábito.

No começo, não gostava do clima superficial nem do egocentrismo que as linhas brancas traziam, mas a onda era tão forte que acabei entrando na onda junto com a galera mais chegada. A ilusão de autoconfiança conferida compensava as pancadas da recessão econômica. Àquela altura, a realidade lembrava um caminhão desgovernado vindo a toda em nossa direção mas com a Brizola tinhamos a impressão de correr mais rápido que ela.

No entanto, a implacável verdade era que o Brasil tinha se tornado um país assolado pela hiperinflação e pela recessão. Com uma crise à solta, havia muito desespero e mesmo suicídios, alguns próximos de nós. A saída era “cada um por si e Deus contra todos”, nas palavras de Mário de Andrade em seu livro Macunaíma. A válvula de escape para os abastados era a autodestruição através do excesso, para os mais pobres, era o crime e a violência. Histórias trágicas começaram a pipocar nos jornais; um aumento assustador no número de sequestros e assassinatos de um lado e justiceiros matando suspeitos do outro.

Dentro do meu círculo social o desânimo era generalizado. Na inocência de achar que resistíamos ao sistema, quando os dias ruins chegaram – algo que nunca imaginamos que pudesse acontecer – percebemos o quanto estávamos presos a tudo que achávamos que havia de errado no mundo. Moloch era muito maior que pensávamos. Ao contrário do que ditava a lógica, a crise o fortaleceu.

Todos sentiam que isso era apenas o começo de um longo caminho no escuro. Ao final de meu primeiro ano na universidade, os efeitos do caos eram profundos. A crise tinha pego todos de surpresa e ninguém sabia como reagir. Éramos como prisioneiros inocentes em estado de choque. Tentei me convencer de que podia lidar com o que viesse e de que era impossível que as coisas pudessem piorar. Estava errado.

…

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O fascismo judaico existe e nós lutamos contra ele

Pelo visto, para parte da comunidade judaica no Brasil as eleições para prefeitos e vereadores no Brasil, virou um caso diplomático. Uma parte da comunidade acha que os problemas de suas cidades não são nada se comparados ao que acontece com relação a Israel. A questão não é saúde, educação e segurança, isso tudo fica em segundo plano. O que interessa a eles é o que pensam os candidato com relação a Israel. E não apenas eles, seus partidos, os membros dos seus partidos e todos que um dia passaram por ele.

Umberto Eco, intelectual italiano, romancista e filósofo, autor de “O pêndulo de Foucault” e “O Nome da Rosa”, morreu em 19 de fevereiro, aos 84 anos, mas nos deixou uma fabulosa contribuição para identificar o fascismo e seus apoiadores no texto “Ur-Fascismo”, produzido originalmente para uma conferência proferida na Universidade Columbia, em abril de 1995, numa celebração da liberação da Europa. São 14 características que em parte, ou na sua totalidade, nos permitem compreender que ele está batendo a porta, ou já entrou.

Eco os convencionou “Ur-Fascismo”, fascismo eterno. Eu adaptei estas características para as convencionar de  “J-Fascismo”. Veja a seguir estes pontos que identificam parte da comunidade judaica como fascista, aquela que apoia o governo Bolsonaro. São eles:

1.   A primeira característica de um “J-Fascismo” é o culto da tradição. Os fascistas judeus são apegados  a uma Israel que um dia no passado distante reinou nas duas margens do Rio Jordão. Um reino há muito desaparecido que permanece vivo no seu imaginário. Nesta Israel, não existe lugar para o Povo Palestino e a própria existência da Jordânia é contestada.

2. O tradicionalismo implica a recusa da modernidade. Esta parte da comunidade, vive do passado e do que foi um dia Israel e da sombra permanente do Holocausto. Não se importam com nada além da fantasia de que o mundo é antissemita, e quem for a favor de um estado Palestino, é contra a existência do Estado de Israel.

3. O irracionalismo depende também do culto da ação pela ação. Estes judeus chamam os demais judeus de traidores, de comunistas e até de antissemitas.  Nas palavras de Eco fazem uso  frequente de expressões como “Porcos intelectuais”, “Cabeças ocas”, “Esnobes radicais”, “As universidades são um ninho de comunistas”. Por isso, agem de maneira atabalhoada, intempestiva e açodada.

4. Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar críticas. Ninguém pode criticar o Estado de Israel, nem mesmo a ONU. Eles são incapazes de aceitar a crítica, mesmo que construtiva ou vinda daqueles que se dizem amigos de Israel. Toda crítica é uma forma de traição e todo inimigo deve ser tratado como tal.

5. O desacordo é, além disso, um sinal de diversidade.  São solenemente contra a diversidade, preconceituosos convictos. A comunidade precisa ser uníssona e rezar a sua cartilha. As vozes discordantes são consideradas de desgarrados da comunidade e sua identidade judaica é colocada em dúvida.

6. O “J-Fascismo” provém da frustração individual ou social. Os fascistas judeus em boa parte são excluídos sociais da sociedade, seja por sua fé incompreendida, por sua cor, por sua etnia e em muitos casos por sua condição econômica nos dois extremos, muito pobres, ou muito ricos. Seu mundo é a sua comunidade e só ela importa. Em algum momento de suas vidas foram chamados de judeus de maneira ofensiva e isto os marcou para sempre.

7. Privação de qualquer identidade social. Se dizem brasileiros patriotas, mas se identificam com Israel e com tudo que esteja relacionado a este país. Assim sendo, qualquer pessoa, incluindo especialmente candidatos a cargos eletivos, precisa declarar explicitamente seu apoio incondicional a Israel. Uma xenofobia exacerbada  que torna seu inimigo quem não o fizer.

8. Os adeptos devem sentir-se humilhados pela riqueza ostensiva e pela força do inimigo. O fascismo judaico é doentio na sua contradição sociológica. O fato de existirem judeus integrados na sociedade onde vivem, de se importarem com suas comunidades e se identificarem com ela, faz deles traidores de seu povo original, algo inaceitável, principalmente quando se dizem não sionistas, ou pior, antissionistas.

9. Para o “J-Fascismo” não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”. Pacifismo é coisa de maricas. Eles acreditam que a batalha pela vida é uma luta diária contra o antissemitismo que assola o mundo e está a espreita em cada esquina pronto para atacar. Todo candidato de esquerda em uma eleição é um inimigo a ser combatido juntamente com seus apoiadores, especialmente se forem judeus.

10. O elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária, enquanto fundamentalmente aristocrática. Para os “J-Fascistas”, aqueles judeus que não se identificam com a sua causa, são a escória da comunidade. Eles sequer tem o direito de se intitularem como judeus, não sendo dignos de pertencerem a elite.

11. Nesta perspectiva, cada um é educado para tornar-se um herói. Para o “J-Fascismo”, Israel é motivo de idolatria permanente. Todo israelense é um herói que luta pela sobrevivência do país para que os judeus tenham um lar nacional e um porto seguro onde chegar quando o antissemitismo vingar. Sendo assim, defender Israel é uma razão para viver e para morrer.

12. Como tanto a guerra permanente como o heroísmo são jogos difíceis de jogar, o “J-Fascista” transfere sua vontade de poder para questões sexuais. Como os “Ur-Fascistas”, eles também são misóginos e sentem prazer em atacar as judias de esquerda. Machistas, não aceitam as mulheres da comunidade que lutam por igualdade social e direitos humanos.

13. O “J-Fascismo” baseia-se em um “populismo qualitativo”. A comunidade judaica precisa ter um formato monolítico onde o pensamento é único, o deles. Não podem existir diferenças e a imagem que deve ser passada é aquela de uma comunidade que comunga dos mesmos ideais. Com o advento da Internet e das mídias sociais, isto tornou-se impossível, portanto os grupos dissonantes precisam ser combatidos.

Por fim, transcrevo na íntegra a última característica, apenas substituindo o “Ur-Fascismo”, por “J-Fascismo”.

14. O “J-Fascismo” fala a “novilíngua”. A “novilíngua” foi inventada por Orwell em 1984, como língua oficial do Ingsoc, o Socialismo Inglês, mas certos elementos de “J-Fascismo” são comuns a diversas formas de ditadura. Todos os textos escolares nazistas ou fascistas baseavam-se em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico. Devemos, porém estar prontos a identificar outras formas de novilíngua, mesmo quando tomam a forma inocente de um talk-show popular.

Como podemos observar o fascismo judaico, por mais absurdo e contraditório que seja, existe e está presente na comunidade judaica brasileira. Onde nas manchetes da semana escreveram sobre os rachas de grupos judaicos em favor e contra o voto em Boulos, leia-se, os esclarecimentos a sociedade brasileira sobre a existência de fascistas judeus que em nada se diferenciam de seus congêneres não judeus.

A esquerda judaica brasileira está presente nestas eleições apoiando os candidatos progressistas. Estamos engajados em eleger Boulos em SP e Manu em Porto Alegre. Aos fascistas, judeus e não judeus a mesma mensagem: Não Passarão!

Somo a voz dissonante, aquela com um raciocínio complexo e crítico. Somos a luz do judaísmo humanista, orgulho de nossos profetas. Aqueles que lutam por um mundo melhor, por uma sociedade mais justa e combate o fascismo onde ele estiver.

Maradona para quem merece Maradona e Pelé para quem merece Pelé

por Jean Goldenbaum

Nós, quando moleques, fanáticos por futebol, crescemos com aquela interminável questão: quem é o melhor de todos os tempos? Pelé ou Maradona? Ah, para nós brasileiros era fácil: Pelé era incomparável. E já dizia algum “filósofo do futebol”, que ele era o número um e Maradona e era o número cinco, afinal números dois, três e quatro simplesmente não havia. Que orgulho era para nós assistir aos vídeos do Rei do Futebol, do Atleta do Século. Era um deleite para os olhos observar os gols que fez e também os que não fez, na Copa de 70. Até mesmo sua parceria musical com Jair Rodrigues nos soava tão bem aos ouvidos… É, o homem tinha três corações mesmo e nós tínhamos ele em nossos.

Em minha visão ingênua e pequena de menino era simples: Pelé era um ícone, um herói, e Maradona era um vilão, um cocainômano, alcoólatra e envolvido com a máfia napolitana. E ainda por cima havia trapaceado no gol de mão de 1986!

Ok. Ainda bem que este tempo em minha existência já passou. Diferentemente de Drummond que tinha saudades dos seus oito anos e da aurora de sua vida, e de Chico que cantava a saudade ingrata dos seus 12 anos, eu fico feliz por ter crescido. Não tenho saudades alguma daquelas épocas, mas isto é outra história. O que importa aqui é dizer que hoje me sinto feliz em ser consciente e sabedor de coisas. E também sabedor de que não sei muitíssimas coisas ainda. Ah, também cabe dizer que parei de assistir futebol há muito tempo, afinal a máquina capitalista simplesmente destroçou o antes saudável esporte, transformando-o em mero “entretenimento-pop-enlatado-multibilionário”.

Mas voltemos ao propósito deste breve artigo: Maradona, que hoje sei, é o verdadeiro ícone e herói, faleceu ontem e este texto é dedicado à sua memória. É dedicado à sua incontestável posição política socialista, à sua convicção ideológica e ao seu desejo de sempre externar tudo isto. É dedicado à sua camiseta de Che, à sua tatuagem de Fidel, à sua camisa da Seleção com o nome de Lula. E é também – por que não – uma celebração ao seu “gol roubado”, que gerou a melhor resposta da história dos esportes, quando o argentino foi perguntado se assumia que o tento foi feito com a mão. Sim, hermano de Lanús, foi mesmo com la mano de Dios.

Já Pelé, fui compreender depois, era a pessoa que aceitou com “imensa satisfação a honrosa missão de representar o ilustre governo” ditatorial brasileiro em 1970. Tais palavras estão contidas em uma carta do atleta ao militar Emílio Médici, ao qual ele se dirige como “muito digno Presidente” (história publicada em 2014 pelo jornalista Lúcio Castro no portal da ESPN Brasil).

Pelé era também a pessoa que não reconheceu sua falecida filha legítima, a vereadora Sandra Regina Machado. Como se justifica algo assim?…

Compreendi também que aquela fala aos prantos após seu milésimo gol no Maracanã, “Vamos proteger as criancinhas necessitadas”, era só demagogia mesmo. O tempo provou. Este sempre foi o caminho de Pelé: pensar somente nele mesmo e se alinhar àqueles que detêm o poder. Desde 1970, quando a famosa a foto erguendo a Jules Rimet ao lado de Médici foi tirada, só poderíamos esperar dele isso que vemos em 2020: o cidadão sujando a camisa do Santos Futebol Clube com o mais nefasto nome da história da política brasileira. Simplesmente asqueroso e vergonhoso, da mesma forma que provou ser o patético Neymar e tantos outros neymares que existem por aí.

Maradona, ao contrário, ao invés de falar à imprensa mainstream sobre “as criancinhas”, decidiu falar diretamente ao Papa João Paulo II, lembram-se? E que “enquadrada”, hein? Ele próprio depois explicou a discussão:

“Discuti com ele porque estava no Vaticano e vi todos aqueles tetos dourados e depois ouvi o Papa dizer que a Igreja estava preocupada com o bem-estar das crianças pobres. Venda seu teto, amigo, faça alguma coisa!”

Por fim, cabe ainda lembrar que Maradona se pronunciava sobre a causa do povo palestino, sobre o conflito das Malvinas e era muito consciente sobre as questões políticas em seu próprio país e na América Latina como um todo.

Infelizmente Maradona sofreu sempre com problemas de drogas e de alcoolismo e certamente isso contribuiu para que partisse muito antes da hora certa. Termino este breve tributo ao maior personagem da história do futebol com as palavras de quem dispensa apresentações, Presidente Lula:

“O Maradona, além de ser um grande futebolista, era um grande político. Falava de política, de soberania, de América Latina, em defesa dos pobres, em defesa da vida. O Maradona tinha palpite para quase todas as coisas que aconteciam no mundo que prejudicavam o povo trabalhador e o povo humilde. E quero dizer ao povo argentino: poucas vezes vi um jogador de bola parar de jogar e não parar. Porque Maradona parou, mas continuou jogando. Continuou jogando em pensamento, em suas opiniões políticas, em suas críticas, e continuou jogando para o povo pobre do mundo inteiro.”

Valeu, Pibe de Oro! Realmente você e Pelé são mesmo incomparáveis. Saudações da Resistência daqui da Terra aí ao Céu.

O Capitão é Racista, o General é Racista e o Brasil é Racista

Racismo? Não existe, é pura invenção.

Na visão do capitão-presidente e de seu vice, que obviamente só poderia ser um general, a existência de racismo no Brasil é uma falácia criada por traidores da pátria. Jair Bolsonaro deixou isso muito claro na reunião dos líderes do G20, no final de novembro, ao comentar os protestos contra a discriminação racial  após o assassinato do negro João Alberto Freitas, por seguranças de um supermercado Carrefour no Rio Grande do Sul. Espancado até a morte, Beto Freitas ficou como triste exemplo, na véspera do Dia da Consciência Negra, de como os negros continuam a ser os maiores alvos da violência no Brasil.

Como de hábito, o capitão não achou necessário prestar solidariedade à família da vítima, ignorando assim, pela enésima vez, o papel de um chefe de Estado. Desavergonhadamente, jogou a responsabilidade dos protestos sobre aqueles que querem “colocar a divisão entre raças” no Brasil. “Aqueles que instigam o povo à discórdia, fabricando e provocando conflitos, atentam contra a nação e contra a nossa própria história”.

Do seu ponto de vista, o presidente tem razão, já que para ele não apenas inexiste racismo no Brasil como tudo não passa de uma montagem com o objetivo de desestabilizá-lo. Obra de comunista, claro. Numa publicação no Facebook defendeu que “o Brasil tem uma cultura diversa”, um “povo miscigenado”, “uma única família”, mas “há quem queira destruí-la e colocar em seu lugar o conflito, o ressentimento, o ódio e a divisão entre classes”.

Para o chefe de Estado brasileiro, “problemas como o da violência são vivenciados por todos, de todas as formas” e quem pretende dividir “o sofrimento do povo brasileiro” com questões de raça, apenas quer jogar uns contra os outros, porque “um povo vulnerável é mais fácil de ser controlado”.

“Como homem e como Presidente, sou daltónico: todos têm a mesma cor. Não existe uma cor de pele melhor do que as outras. Existem homens bons e homens maus”, garantiu.

Jair Bolsonaro pode ser acusado de todos os males do mundo, mas não de ser opaco. Foi, é e sempre será transparente. Ninguém tem a desculpa de dizer que não sabia quem era o personagem ao apertar a tecla 17 da urna eletrônica. Durante uma entrevista no programa Roda Vida, da TV Cultura, o então candidato, num caso exemplar de revisionismo histórico, chegou a negar a responsabilidade do homem branco no passado escravocrata do país; amenizou o papel de Portugal e responsabilizou os próprios negros pelo tráfico negreiro que perdurou do século 16 ao 19, levando de forma forçada cerca de 12 milhões de africanos às Américas, mais de 4,8 milhões dos quais para o Brasil.

“O português nem pisava na África,  disse Bolsonaro. Foram os próprios negros que entregavam os escravos”.

Ao ser indagado pelo diretor da ONG Educafro, Frei David, sobre a política de cotas raciais, o candidato se declarou contra, argumentando que as cotas visavam “dividir o Brasil entre brancos e negros”. Foi questionado sobre de que forma pretendia reparar a dívida histórica existente diante da escravidão, no que respondeu: “Que dívida? Eu nunca escravizei ninguém na minha vida”.

Dias antes da entrevista, Jair Bolsonaro comparou os negros que vivem nos quilombos a gado e disse que eles não servem nem para procriar.

Ao contrário do presidente, o vice Hamilton Mourão chegou a lamentar a morte de  Beto Freitas, mas atribuiu-a apenas ao despreparo dos seguranças e não ao fato da vítima ser negra, até porque, como ele próprio sublinha, não há racismo no Brasil. “Eu digo para você com toda a tranquilidade: não tem racismo aqui”, sublinhou o general em declarações à imprensa. “Não, para mim no Brasil não existe racismo. Isso é uma coisa que querem importar, isso não existe aqui.”

O vice continuou então dizendo que racismo existe em outros países, como nos Estados Unidos. Acrescentou ter morado naquele país na década de 1960 e, com base nessa experiência, pode concluir que não existe um problema racial no Brasil.

Acontece que Mourão, a exemplo de seu chefe, é racista.

Após conversar com jornalistas ao desembarcar no aeroporto de Brasília, às vésperas do primeiro turno da eleição presidencial, o general elogiou seu neto, afirmou que ele representava o “branqueamento da raça”. “Gente, deixa eu ir lá que meus filhos estão me esperando. Meu neto é um cara bonito, viu ali. “Branqueamento da raça”, afirmou no fim da conversa, dando gargalhada.

É salutar abrirmos um parêntese: A tese do “branqueamento” teve origem na segunda metade do século XIX e na primeira metade do século XX, quando vigoraram em várias partes do globo as teses eugenistas, que defendiam um padrão genético superior para a “raça” humana. Argumentava-se que o homem branco europeu tinha o melhor padrão de saúde, beleza e maior “competência civilizacional” em comparação às demais “raças”: amarela, referindo-se aos asiáticos, vermelha, relativa aos povos indígenas, e a negra, africana.

Foi então que intelectuais brasileiros incorporaram essas teses e delas derivaram outra, aplicável ao contexto do continente americano: a “tese do branqueamento”, que partia da ideia de que, dada a realidade do processo de miscigenação na história brasileira, os descendentes de negros passariam a ficar progressivamente cada dia mais brancos.

O antropólogo e médico carioca João Baptista de Lacerda foi um dos expoentes da tese do branqueamento, tendo participado, em 1911, do Congresso Universal das Raças, em Londres. Esse congresso reuniu intelectuais do mundo todo para debater o tema do racialismo e da relação das raças com o progresso das civilizações. Baptista levou ao evento o artigo “Sur les métis au Brésil” – Sobre os mestiços no Brasil, em que defendia o fator da miscigenação como algo positivo no caso brasileiro, por conta da sobreposição dos traços da raça branca sobre as outras, a negra e a indígena.

Em um trecho do artigo, ele afirmava: “A população mista do Brasil deverá ter pois, no intervalo de um século, um aspecto bem diferente do atual. As correntes de imigração europeia, aumentando a cada dia mais o elemento branco desta população, acabarão, depois de certo tempo, por sufocar os elementos nos quais poderia persistir ainda alguns traços do negro.”

A partir dessa teoria, felizmente desmentida, temos condições de saber quem é de fato o general Hamilton Mourão.

O Brasil é racista. Talvez, como disse a ex-consulesa da França no Brasil, Alexandra Loras, em debate na Flip de Paraty com a antropóloga Lilia Schwarcz, seja um dos países mais racistas do mundo. Ela conta que nas recepções dadas em sua casa, os convidados sistematicamente a confundiam com a empregada doméstica.

A realidade se apresenta em números. De acordo com os dados do Atlas da Violência 2020, os assassinatos de negros no Brasil aumentaram 11,5% na última década, enquanto as de não negros caíram 12,9%. Em 2018, 75,7% das pessoas assassinadas no Brasil eram negras.

Na pandemia, a cada dez brancos que morrem vítimas da Covid-19 no Brasil, morrem 14 pretos e pardos, que representam a categoria de brasileiros negros. Os dados são resultados de uma análise da reportagem da CNN com base nos boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde. No caso das internações pela doença, há um equilíbrio: negros representam 49,1% dos internados, enquanto brancos representam 49%. Mas na análise das mortes, o descompasso aparece, pretos e pardos representam 57% dos mortos pela doença enquanto brancos são 41% dos mortos.

“As pessoas negras são maioria no mercado de trabalho informal, tendo muito mais dificuldade de procurar os serviços de saúde no tempo adequado, já chegando em condições piores. São pessoas que também têm uma localização geográfica que não favorece a busca por hospitais, ficando geralmente em pronto socorros e serviços de saúde periféricos, que vão ter o maior tempo de espera para a transferência para uma vaga de UTI, por exemplo, além desses serviços serem serviços de qualidade inferior”, segundo a médica Denize Ornelas.

Outro fator que os especialistas afirmam poder explicar esses números é o perfil de quem está na linha de frente e tem contato direto com os infectados pela doença. “Dentre os profissionais de saúde, com exceção  dos médicos, os auxiliares de enfermagem e técnicos de enfermagem  são majoritariamente pessoas negras e isso também os coloca em maior risco de contaminação, adoecimento e óbito”, diz Alexandre da Silva, professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí.

Entre os profissionais de enfermagem brasileiros, 42,3% são brancos e 53% pretos e pardos, de acordo com a Pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasil, de 2013, feita pela Fiocruz em parceria com o Conselho Federal de Enfermagem.

Em São Paulo, apenas um em cada dez alunos de escolas privadas (via de regra melhores que as públicas) é negro.

E a diferença salarial entre brancos e negros, é de 45%, de acordo com a Pnad, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, de 2019.

Essa diferença não pode ser atribuída apenas à falta de oportunidade de formação para pessoas negras. Segundo cálculo do Instituto Locomotiva, a diferença continua a ser significativa, de 31%, mesmo quando comparados os salários de brancos e negros com ensino superior. Sobra apenas a cor da pele; diz um artigo do jornal Folha de S. Paulo, de 6 de janeiro de 2020.

“Trata-se de uma desigualdade persistente que só pode ser explicada pelo racismo estrutural. Por um lado, ele se expressa no preconceito racial. Por outro, no maior capital social dos brancos: o famoso ‘quem indica’ um branco é outro branco que está em um cargo alto”, afirma Renato Meirelles, presidente do Locomotiva.

Apesar da realidade fria dos números, apenas 5% dos brasileiros consideram que o racismo é um problema no país. Entre estes não estão os membros do governo civil-militar liderado pelo capitão.

Como escreveu Fernanda Mena, mestre em sociologia e direitos humanos pela London School of Economics e doutora em Relações Internacionais, “os protestos antirracistas em algumas capitais do país indicam que, assim como muitos americanos diante do caso George Floyd, muitos brasileiros não estão mais dispostos a se calar sobre as violências que ceifam vidas negras no país. Se os protestos são o início de uma onda, só o tempo o dirá, mas parece cada vez mais difícil fechar os olhos para o fato de que o racismo finalmente caminha para ser compreendido como um problema de todos.”