por Mauro Nadvorny | 21 nov, 2020 | Brasil, Comportamento, Opinião
O que aconteceu nas dependências do Carrefour Zona Norte, em Porto Alegre, foi a expressão mais cruel de uma barbárie. Uma morte imperdoável, mas três famílias destruídas. Uma tragédia brasileira onde o racismo é endêmico.
Eu fui parte da história que culminou na lei antirracismo 7.186, de 5 de janeiro de 1989. Foi com base nela que mais tarde alcançamos a condenação de Siegfried Elwanger, um neonazista dono da Editora Revisão que publicava exclusivamente livros de autores antissemitas. Quando o Movimento Popular Antirracismo, do qual fui um dos fundadores e militante, começou sua luta contra Elwanger, a única lei que poderia condená-lo era da ditadura, a Lei de Segurança Nacional.
O Brasil possuía uma lei antirracista desde 1951, conhecida como Lei Afonso Arinos, promulgada por Getúlio Vargas, tratava o racismo como crime de contravenção. A lei de 1989 foi mais clara, mais ampla e também mais objetiva punindo os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.
Uma coisa é a existência da lei, outra é a sua aplicação. Todos os dias são cometidos crimes de racismo, mas as autoridades policiais tendem a ser complacentes alegando tratar-se de discussões acaloradas, coisas ditas no calor da emoção, palavras fortes sem a intenção de ofender, injúria racial etc.
A lei prevê penas de prisão de até 5 anos e o pagamento de multa, mas desconheço quem esteja cumprindo prisão por crime de racismo no território nacional. Existem condenações em primeira instância, mas todos aguardam em liberdade por recursos interpostos por seus defensores.
O racismo no Brasil é conhecido. A população brasileira é composta por 50% de negros e pardos, mas sua representatividade política é inexpressiva. Dois em cada três detentos, são negros ou pardos. Socialmente encontram-se majoritariamente nas classes C e D. Foi somente com a criação das cotas nas universidades que o país começou a saldar, minimamente, uma dívida histórica com aqueles que escravizou e explorou.
O crime do Carrefour foi cometido por dois seguranças brancos de uma empresa terceirizada, nenhum deles era funcionário do supermercado. A empresa imediatamente rescindiu o contrato com a empresa de segurança, condenou o fato e se colocou ao lado da vítima. Ao que parece, nada disso foi suficiente e toda raiva incontida por anos de humilhação, se voltou contra a empresa.
Neste momento, nada está sendo racional, se fosse assim, o povo indignado estaria se perguntando onde está a condenação oficial do ocorrido pelo presidente, aquele que declarou que o peso de quilombolas se mede em arrobas. Seu vice já disse que não existe racismo no Brasil.
A morte de João Alberto Freitas é a consequência da falta de políticas sociais a favor dos negros e pardos brasileiros, da falta de educação contra o preconceito nas escolas, da aplicação das penas previstas na lei antirracista e principalmente devido a eleição de um presidente preconceituoso que se elegeu com os votos dos oprimidos.
Atacar as lojas do Carrefour pode dar vazão momentânea a esta raiva por tudo o que está acontecendo, mas no dia seguinte, a consequência disso será mais famílias atingidas pelo desemprego. Funcionários que vão pagar por um crime que não cometeram e que muito provavelmente, em sua grande maioria, senão na sua totalidade, são solidários a vítima.
Até aqui, uma família em luto e mais duas, a dos agressores, que perderam seu sustento, sem falar nos demais funcionários da empresa de segurança que também vão ser despedidos pela perda do contrato. A tragédia do racismo não se restringe apenas aos envolvidos diretamente, ela é uma tragédia nacional.
O Carrefour não é o nosso inimigo. Quem é responsável pelo que aconteceu é a falta de punição exemplar ao presidente do país que explicitamente e sem nenhum pudor, expõe seu preconceito contra as minorias, antes e depois de eleito. O inepto que governa um país jogado ao acaso da pandemia, que pouco se importa com as vítimas que já chegam a 170.000, que insiste em seu devaneio de que no Brasil todos tem a mesma cor. O exemplo de um ser desprezível que governa para a Casa Grande.
Enquanto permanecerem voltados para o Carrefour, a Casa Grande agradece. Entregam um anel, mas mantém os dedos. Amanhã tudo volta ao normal, eles seguem no poder e nós continuamos convivendo com o racismo nosso inimputável de cada dia.
por Mauro Nadvorny | 17 nov, 2020 | Brasil, Comportamento, Opinião, Política
Há vários instrumentos físicos que podem nos fornecer referenciais para orientação. Por exemplo, temos a bússola, que indica o norte magnético da Terra, algo que varia muito pouco, e serve como referência para navegação aérea, marítima e terrestre. Por outro lado, temos a biruta de aeroporto, que indica a direção do vento, algo que com frequência altera um plano de pouso ou decolagem, independentemente do que aponta a bússola magnética.
Os debates sobre orientação ideológica que tenho visto no Brasil parecem mais guiados por birutas do que por bússolas.
Ora, qual o referencial de hoje para dizermos o que é “esquerda” e “direita”?
Tenho para mim que o marco referencial para o debate nacional é a Carta Magna. Ela é o “centro”, e as diferentes vertentes devem ser confrontadas com o seu espírito.
Ocorre que a nossa Carta, em relação ao que predominou no Brasil no século XX é um texto social democrata, que no grande espectro histórico se coloca na centro-esquerda. Privilegia o bem-estar social, a função social da propriedade, a distribuição de riqueza, as liberdades fundamentais e garantias individuais, a socialização da saúde pública, da educação, entre outros princípios distributivos.
Mas, uma vez colocada como nosso grande contrato social, ela passa a ser o centro. Opiniões mais contrárias às liberdades privadas e ao capital seriam à esquerda da nossa Carta. Opiniões mais anti-estado, mais favoráveis às desregulamentações e liberdades individuais, privilégios ao capital, são à direita da Carta. Uma extrema esquerda seria algo que romperia com o conceito de propriedade privada ainda que por meios de ruptura institucional. Uma extrema direita, no sentido oposto, promoveria a ruptura dos compromissos sociais e das regulações do estado pelos meios autoritários e violentos.
Assim, no contexto atual, ser CONSERVADOR no Brasil significa PRESERVAR os valores de nossa Carta, o que no contexto global geográfico e histórico significa ser PROGRESSISTA e de centro-esquerda. Sim parece um paradoxo, mas não é.
Tudo isso para se explicar que as forças que se definem hoje como “conservadoras” não são conservadoras, e sim, REACIONÁRIAS, pois querem retroagir nossa vida ao período pré-constituição de 1988. São foças retrógradas e violentas, pois praticam a política de rupturas institucionais e pregam contra as instituições democráticas e sociais tal qual definidas na nossa Carta. A própria tentativa de se definirem como “conservadoras” já caracterizam uma CORRUPÇÃO ideológica e filosófica, pois tentam se definir como algo que não são.
E tudo isso para explicar, que o que se chama atualmente de CENTRO, não é centro, é DIREITA, pois vai na direção do capital e do poder individual em detrimento do coletivo e social.
É claro que na complexidade de nossa Carta há pequenos devaneios ora de esquerda, ora de direita, dado que foi um instrumento construído de forma muito plural, com qualidades e defeitos intrínsecos. Assim, o exegeta pode, como na leitura da Bíblia, “puxar a sardinha” um pouco para lá ou para cá, sem fugir do campo democrático de debate, já que neste campo as janelas são retangulares, e o Sol, redondo. O dia é claro, e a noite, escura. Não há a corrupção dos significados, esta que vem sendo a ferramenta fundamental da extrema direita, que depende disso para atacar a ciência e confundir incautos.
Acertem, portanto, suas bússolas para não ficarem tontos com as birutas.
Nelson Nisenbaum
por Richard Klein | 14 nov, 2020 | Brasil, Comportamento, Crônica
O destino daquelas férias era a encantadora capital da Bahia, Salvador. Não dava para ir de Blues Boy, a viagem de 1.200 quilômetros seria puxada demais para um fusca antigo além de muito mais cara do que a passagem de ônibus. Também, dirigir aquela distância em uma pista simples seria um desafio grande demais para minha recém adquirida habilidade automobilística. A opção que sobrou foi encarar 30 horas de ônibus, e foi assim que fui conhecer a cidade pela qual tinha me apaixonado nos livros de Jorge Amado e na música dos Novos Baianos.
Meu companheiro de viagem dessa vez foi o Maurício, aquele do joelho machucado na Casa Rosa. Ele tinha virado ainda mais careta que o Davi e sequer era chegado em correr atrás de mulher. O negócio dele era se provar em assuntos chatos: contas, problemas de matemática e física e outras questões teóricas.
Talvez devido a esses atributos, o cara tinha uma tendência à histeria quando ficava nervoso, o que era frequente. Seu corpo franzino não era propício a tais arroubos, já que não garantiria sua integridade fisica caso alguém reagisse com a mesma intensidade da gritaria. A sua sorte era que esses episódios pegavam os incautos de surpresa que ficavam se perguntando que porra era aquela. Os conhecidos já sabiam que não era para levar a sério.
Na segunda parada do ônibus, não deu outra, o caixa se equivocou no troco do sanduíche e isso causou um surto.
“O troco é dois e setenta, e não dois e vinte!!” o Maurício já estava com a cara toda contorcida.
“Ih, é mesmo seu moço! Deixa eu pegar os outros cinquenta centavos aqui.”
“Está querendo me roubar, né seu marginal!? Isso é inaceitável!!” Os gritos já chamando a atenção de todo mundo.
“Desculpa, doutor! Os cinquenta centavos estão aqui.” Disse o cara já arrependido de ter acordado naquele dia.
Isso, por alguma razão, fez o Maurício ficar com ainda mais raiva. “Desculpa o caralho, seu ladrão safado!! não tem desculpa! Cadê o gerente desse estabelecimento!! Gerente!!! Gerente!!” No canto do olho espiei um sujeito com pinta de gerente colocar a cabeça para fora da porta da cozinha e, depois de ver a encrenca, voltar para dentro.
“Cadê o gerente!? Não tem gerente nessa porcaria!!?? Eu quero a polícia aqui para prender esse ladrão agora.”
A essa altura, a parada do ônibus inteira estava presenciando o mico, chocada. Ainda que não desse para se acostumar, já conhecia esse lado do meu amigo e tive que ir lá para acalmar a situação.
“Aê Maurício, o ônibus já tá saindo, o motorista tá esperando. Deixa isso para lá, vamos embora!”
“Eu não saio daqui antes de prenderem esse marginal!!” O tom ainda não tinha baixado.
“Maurício, são cinquenta centavos, o cara já admitiu que estava errado e te ofereceu o troco certo.”
“Mas ele é um marginal! Tem que ir preso!” O tom dessa vez baixou e aquela foi só para mim, embora todos também tivessem ouvido.
“É, mas até acharem o gerente, chamarem a polícia, você prestar depoimento e tudo mais, o ônibus já vai ter partido e a gente não vai ter como chegar a Salvador. Você já mandou o teu recado. Duvido que o cara faça isso de novo.”
Essa finalmente o sossegou, mas antes de sair vieram os argumentos conclusivos. “É por isso que este país não vai para frente! Um vagabundo desses tenta me roubar e fica todo mundo do lado dele!!”
O Maurício era um cara bem-intencionado, mas era difícil. Nossos país eram amigos, nossas irmãs eram amigas, ele também era sócio do Paissandu e vivíamos jogando bola juntos até depois que tinha me juntado à “esquadrilha da fumaça”. Havia um fio de lealdade inquebrável depois de anos de amizade. Entretanto, só esperava que aquele constrangimento não fosse o presságio de umas férias pesadelo.
*
Chegamos a Salvador esperando um dos melhores – senão o melhor – carnaval no mundo. De minha parte, estava doido para ver o trio elétrico. Ainda nos seus dias de glória, esse era um gênero musical que, de acordo com os baianos, foi o pioneiro mundial no uso da guitarra elétrica. Nos anos 1940, dois músicos, Dodô e Osmar, descobriram que colocar cera de baleia ao redor dos captadores permitia que amplificassem cordas de aço num braço de bandolim sem causar microfonia. Foi assim que criaram o “pau elétrico” e quando viram que o som caía bem com frevo, foram para o carnaval de rua e o estilo virou febre. Já no fim dos anos 1960, com a chegada do rock, os trios adicionaram mais instrumentos e percussão para dar mais peso às suas performances, os instrumentos melhoraram, as influências mudaram e o som se tornou mais afiado.
Durante o carnaval, caminhões apinhados de aparelhagem de som e de alto-falantes percorriam as ruas de paralelepípedos da parte histórica da cidade com os músicos se equilibrando para não cair enquanto tocavam. As milhares de pessoas acompanhando essas fortalezas musicais se lançavam num frenesi semelhante ao de uma procissão hindu misturada com um show de punk rock.
Contrabalançando a loucura amplificada dos trios, havia blocos rústicos que desfilavam a pé. Tocavam o ritmo afro-brasileiro mais suave do afoxé. Contando apenas com seus tambores e vozes para contagiar a multidão, faziam com que ela respondesse de uma maneira mais calma, mas com a mesma intensidade aos cantos que faziam linha direta com o continente Africano. Dentre eles estavam os Filhos de Gandhi, um grupo originado de trabalhadores da estiva. Eles saiam de túnicas brancas e nos seus desfiles paravam para fazer passos ensaiados, puxavam refrões familiares ao povo – muitos do Candomblé – e passavam sua mensagem de paz baseada nos ensinamentos e na filosofia de Mahatma Gandhi.
O palco para essa folia especial eram os sobrados e as calçadas de uma das primeiras metrópoles do continente americano, a primeira capital do Brasil. Os blocos percorriam suas ruas num caminho em forma de um oito. Na junção central, onde as duas voltas se encontravam, ficava a Praça Castro Alves, o epicentro do Carnaval. Nosso hotel ficava logo depois da esquina. As bandas paravam lá para permitir que a multidão engrossasse e então tocavam seus maiores sucessos. Era comum duas bandas vindas de direções opostas chegarem na praça juntas. Esse fenômeno era chamado de encontro dos trios. Quando isso acontecia, as bandas se intercalavam e competiam pelo apreço da multidão enlouquecida. Quem saía ganhando eram as dezenas, às vezes centenas, de milhares de foliões pulando na praça.
Por uma sorte incrível, estava lá no encontro entre a realeza do carnaval de Salvador – os Novos Baianos de um lado e o Trio Elétrico de Dodô e Osmar do outro. O primeiro, a minha banda preferida de todos os tempos e o segundo, os criadores do trio elétrico que contavam com o melhor guitarrista do gênero, Armandinho Macedo, filho de Osmar. Depois de se instalarem nas extremidades da Praça Castro Alves, os dois trios deram uma pequena pausa enquanto os músicos e a multidão se preparavam para o que eles sabiam ser um dos pontos altos do Carnaval daquele ano.
Quem pegou primeiro no microfone foi Paulinho Boca de Cantor, vocalista dos Novos Baianos, que saudou a massa.
“Boa tarde, Salvador!”
Não teve uma alma na praça que não tenha ido à loucura.
“Como é bom estar aqui nessa praça, na nossa terra e tocando para a nossa gente. Viva Salvador e viva o Carnaval da Bahia!” Novamente a massa foi ao delírio.
” Queria aproveitar para mandar um abraço para o Moraes, o nosso irmão Moraes Moreira, que está do outro lado da praça com o trio de Dodô e Osmar.” Moraes tinha saído dos Novos Baianos e no Carnaval ele cantava com o trio “rival”. “Fala Moraes!! Fala Armandinho, Dodô e Osmar! A Bahia saúda vocês!!”
Quando a gritaria baixou, o Moraes respondeu: “Fala meu querido Paulinho! Um abraço e muito carinho para meus irmãos dos Novos Baianos!” Depois, ele se voltou para a multidão. “Fala Salvador! Fala Bahia!! Muito amor e muita paz para todos vocês!”
Com noção de timing, Moraes continuou. “Há cinquenta anos atrás, Osmar aqui do meu lado e Dodô começaram o trio elétrico e fizeram do Carnaval da Bahia o melhor do mundo. Esta música e uma homenagem a eles. Viva Dodô e Osmar!”
Ele olhou para a banda, deu o sinal e a guitarra baiana do Armandinho rasgou o ar da praça. Depois do solo curto, mas espetacular, o resto da banda veio atrás.
Dodô! Dodô!
Antes do gringo a guitarra ele inventou,
Osmar! Osmar!
O Carnaval veio o trio eletrizar.
Viva Dodô e Osmar!
Com a música veio o deleite, era como se a energia do Carnaval estivesse jorrando do céu e se espalhando pela praça. Depois da primeira música, os Novos Baianos retrucaram com uma marcha de Carnaval do Caetano Veloso.
A praça Castro Alves é do povo,
Como o céu é do avião,
Um frevo novo, eu peço um frevo novo,
Todo mundo na praça
E muita gente sem graça no salão…
Em toda e qualquer música a galera reunida parecia estar celebrando uma vitória incessante de Copa do Mundo. A energia irresistível parecia fazer a multidão se fundir num ente único.
*
Eu ia sozinho. O Maurício se recusava a se misturar com o povão, ele odiava multidões e gente esbarrando nele. Eu não queria perder aquela energia por nada nesse mundo. Assim, enquanto mergulhava a fundo no Carnaval de rua que não parava durante os quatro dias de festa, ele ia para bailes de Carnaval em clubes que eram uma escolha mais sensata, mas completamente sem graça.
Estava ciente do que poderia acontecer se deixássemos nossas diferenças crescerem mais do que já estavam. Já tinha quase perdido a amizade do Davi e não queria repetir isso com o Maurício. A única coisa que a gente fazia junto era comer e sair de dia para descobrir as praias de Salvador. Por isso, na última noite de Carnaval, concordei em fazer alguma coisa juntos. Decidimos entrar de penetra no baile mais exclusivo de Salvador, o do requintado Clube Baiano de Tênis. Este era um clube frequentado pela elite da cidade onde poucas pessoas realmente jogavam tênis, mas onde muita gente gostava de ter seu home associado a um esporte britânico considerado chique.
A segurança na porta estava pesada, mas os muros que cercavam o clube eram baixos e fáceis de pular. Não tardou muito para nos juntarmos a alguns passantes que haviam tido a mesma ideia que a gente. O Maurício foi um dos primeiros a pular o muro – e um dos poucos a obter sucesso. Antes da minha vez, a polícia chegou correndo e a gente teve que se dispersar. Eu e alguns dos meus camaradas de fuga achamos uma outra parte mais afastada do muro, discreta e igualmente fácil. Pulamos e caímos no meio das quadras de tênis. Assim que pusemos os pés no chão, enormes cães vieram correndo em nossa direção. Sem pensar duas vezes, subimos o muro de volta com uma rapidez de desenho animado. Depois disso desisti. Voltei ao hotel tão desanimado que nem tive vontade de me juntar a folia pegando fogo a meia quadra de distância. O Carnaval de Salvador tinha terminado para mim.
O Maurício voltou de madrugada. Como era de se esperar, não tinha comido ninguém. Esse também tinha sido o meu caso em Salvador, mas pelo menos tinha vivenciado um dos melhores encontros de trios da história.
…
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por Mauro Nadvorny | 14 nov, 2020 | Brasil, Comportamento, Opinião
Que país é este onde o presidente chama o povo de “Maricas”? Diz que não suporta o cargo e se nega a cumprimentar o vencedor das eleições americanas que derrotou seu mentor. Este é o país onde tudo isso e muito mais acontece como se não fosse nada de mais, vida que segue.
A passividade do brasileiro é realmente digna de estudos sociológicos e antropológicos, nada o abala. Seu presidente faz propaganda política proibida em sua “Live”, mas nada acontece de fato. Seu comportamento envergonha o país e mesmo assim, se falar em Impeachment é cair no vazio. Ele continua se sustentando politicamente enquanto mantiver as boas normas de um bom miliciano.
O Brasil vai ter eleições e nada será mais admirável do que ver os mesmos nomes da velha política vencerem em seus currais eleitorais. O brasileiro não vota com a razão, vota com a onda, vota para onde sopra o vento. Se deixam enganar coniventemente por promessas vazias e em sua grande maioria nem sequer lembram em quem votaram quatro anos atrás. Elegem bandidos que nunca viram na vida, ou dão seu voto aos mesmos de sempre.
Aqui fora, quando digo que sou brasileiro, escuto o famoso clichê, “um pais com tamanho potencial” em tom de lamento. Uma verdade que dói sempre. Quantas chances o Brasil perdeu de se tornar uma grande nação ao nível de qualquer país europeu, ou até mesmo dos EUA? Incontáveis vezes que nos trouxeram a situação em que nos encontramos hoje. Uma desigualdade social abissal que atrasa nosso desenvolvimento e nos condena a ser uma nação medíocre entre as nações.
Nenhum país do mundo se desenvolveu sem educação, nenhum. Mesmo países que eram considerados subdesenvolvidos e pobres, conseguiram sair de seu atraso com educação. Países arrasados por guerras se recuperaram investindo na educação. Ela é o pilar de qualquer civilização em qualquer momento da história. A educação é toda a diferença entre a barbárie e a civilização.
O Brasil teve seu maior investimento em educação durante os governos do PT. Nunca antes, e principalmente depois se viu tal preocupação. Foi graças a ela que a vida de milhões de brasileiros mudou para melhor. O caminho que parecia traçado para levar o país ao pleno desenvolvimento foi interrompido por um golpe dado pelas elites que viram o perigo que isto representava para elas.
A educação abre mentes, ela ensina a pensar e o pensamento não tem grilhões, ele é livre. Um povo bem educado se desenvolve em harmonia. O crime se reduz naturalmente, a economia gira e o bem estar social com a diminuição das desigualdades leva o país para frente. O mundo está cheio de exemplos de nações que trilharam este caminho.
Infelizmente no Brasil ainda temos uma elite retrógada e poderosa que sobrevive da desigualdade. Quanto maior o número de pobres, quanto menor o salário mínimo, mais elas enriquecem e se satisfazem. A boa educação é reservada para elas. Ao povo em geral a ignorância e o trabalho braçal. Este modo de vida precisa ser preservado a qualquer custo, onde cada um sabe o seu lugar na sociedade e nele precisa permanecer.
Este equilíbrio de aparências é a fotografia do Brasil. Em nome dele vale uma ditadura militar, vale um AI-5, vale um golpe político contra uma presidente, e as favas com todos os escrúpulos de consciência, como disse Jarbas Passarinho, vale uma família fascista miliciana no poder.
A elite sozinha não é capaz de fazer seus candidatos se elegerem, ela precisa dos votos do andar de baixo. É preciso alimentar a ignorância e para isso se utilizam da religião. Igrejas Neopentecostais fazem o trabalho sujo. Pastores de araque, bispos de fantasia, todos unidos no mesmo propósito de enriquecerem as custas de suas ovelhas com a promessa de uma vida melhor no Céu.
Sem educação, com uma religião magnânima, uma pitada de Fake News é a cereja do bolo. Quem imaginaria que notícias sem o menor bom senso, verdadeiras piadas ou histórias da carochinha seriam tomadas como verdades inexoráveis. Mas este é o efeito delas em pessoas desprovidas de pensamento crítico, ou dos que estão no andar de cima as propagando.
O Brasil está sendo espoliado de suas riquezas, e seu povo da sua autoestima em prol de uma minoria cujo reinado quere, ver mantido a qualquer preço. Ela é o inimigo a ser combatido, com ela nunca teremos um país que oferece as mesmas oportunidades a todos, vamos continuar sendo a pátria da meritocracia neoliberal.
Paulo Freire estava com toda razão quando disse que a educação não muda o mundo, mas muda as pessoas. Antes dele o filósofo grego Epictelo, (55 DC a 135 DC) já dizia que só a educação liberta.
Domingo quando for votar, olhe para cima e lembre-se que tem alguém mal educado ali gritando: “Maricas”.
por Mauro Nadvorny | 7 nov, 2020 | Comportamento
“Ao meu pai, pela sua verve combativa, por seu amor pelos filho e netos, por nos ensinar a nunca fechar os olhos a injustiça”
Quando eu tinha uns 4 anos de idade, minha alegria eram os finais de semana que meu pai ia pintar, me dava tintas, pincéis e telas e me deixava fazer minha arte, ao lado dele, enquanto ele fazia arte de verdade (deixa me gabar um pouquinho…papai é psiquiatra, trabalhou desde sempre com Dra. Nise, foi Diretor do Museu Imagens do Inconsciente e junto com Mario Pedrosa escolhia os melhores trabalhos para catálogos. Para quem não sabe, o Sr. Mario Pedrosa foi um dos maiores críticos de arte do Brasil. E amava os desenhos do meu pai). Pouco tempo atrás fui achar semelhanças entre os desenhos de papai e os de Harry Clarke, o melhor ilustrador dos livros de Edgar Allan Poe.
Desenhos com algo sombrio, muitos feitos a nanquim, com detalhes que sempre me fascinaram. Haja elaboração! rs.
Eis a alegria de uma garotinha de 4 anos.
Um dia papai adoeceu. Muito. Teve uma hepatite quase mortal e acabou ficando isolado de mim, na casa dos meus avós. Só que aos 4 anos eu já era eu. E NUNCA ia deixar o meu pai sozinho. Lembro do desespero da minha mãe, dos receios da minha avó, mas fui impávida, não teve quem me dissuadisse, levando comigo meu talismã, meu cachorrinho de rodas e boné, o Xereta, brinquedo da década de setenta, que eu puxava com uma cordinha.
Alguns dias meu pai estava melhor, outros dias não, uma cor amarela que eu nunca vi, muitas vezes minha avó me colocava perto do meu avô, que ria de me ver correndo com meu cachorrinho pela casa. Quase perdi meu pai. QUASE. Ele conseguiu vencer a doença, e está aqui, até hoje. Brigamos muito. Porque somos dois geniosos. Mas mesmo sem o Xereta, nunca deixei de acompanhá-lo nos momentos complicados. Passou por outras situações, deu a volta por cima e está com a saúde melhor que a minha, se duvidar.
Ah, porque estou falando disso??? Impulsividade é fogo. E ao mesmo tempo existe uma enorme vontade de repartir o vivido. Pessoas muito próximas sabem. Mas é a primeira vez que me abro dessa forma.
Como alguns sabem, em 2014 o pai da minha filha, meu marido, teve um derrame. Coisa séria. Mais séria ainda foi como as coisas caminharam. Não interessa aqui, nesse momento,falar. O fato é que minha filha tinha 8 pra 9 anos. E podem acreditar, NINGUEM sofreu mais que ela. Um dia estava sendo mimada pelo pai, no outro dia só sabia que ele estava num lugar chamado UTI. Só que diferente de mim, que sou de choro fácil, Alice é cedro do Líbano, como escreveu Miguel Torga. Não me mostrava as emoções porque via como eu estava mal. Sumindo. Pesando menos de 45 quilos. Sem força. Sem acreditar que tudo aquilo tinha acontecido. Eu só sabia que ela sofria através do colégio. Um choro, um abraço. O banheiro, chorando na cozinheira da escola que ela adorava. Soube disso muito depois, porque acho que nem as pessoas tinham coragem de me contar devido ao meu estado.
Aí num sábado eu deitei. Tinha comida pra ela. O computador estava no nosso quarto. Eu sabia que ela estava lá. Morávamos as duas num apartamento no Recreio. Ela me oferecia comida, eu não conseguia engolir. Eu não conseguia levantar. Passei dois dias ali, catatônica, inerte. E então, minha pequena hebreia, como apelidou para sempre um amigo meu, disse: CHEGA. Me levou o pior Nescafé que tomei na vida. Me deu o comprimido de antidepressivo que eu passei aqueles dias sem tomar. Escolheu um vestido azul pra mim, que julgara bonito. E foi me carregando, eu trôpega, para o banheiro. Ligou o chuveiro. Me deu um banho. Me enxugou. Me ajudou a me vestir. Viu que eu estava febril (passei por três pneumonias até saber que era artrite), abriu as janelas da sala e ligou pra quem? Pra o vovô. Acho que meu pai nunca fez um percurso tão rápido da Freguesia para o Recreio. Fomos ao hospital. Sim, outra pneumonia , aliada a depressão e lá foi ele, de mala e cuia, cuidar de nós duas. Minha mãe estava longe, são 4 filhos, 5 netos, ela viajou um pouco mais tarde. E me deram comida na boca. E me fizeram beber todo o líquido possível do mundo. Fiquei boa, apesar de nos momentos complicados os dedos ainda entortarem de dor.
Durante um bom tempo tive vergonha disso. Fui confidenciar a história da minha filha para uma pessoa que achava amiga e hoje não suporto, falei dessa situação da Alice ter me dado banho, me arrastando ate o banheiro, naquele momento de fraqueza e ela, que não é e nunca será a melhor mãe do mundo, falou: ”Coisa horrorosa! Vc é uma irresponsável! Vê se sua filha ainda pequena, sofrendo ,tem que fazer esse papel. Quem é a mãe na história??? Coisa mais horrorosa trocar de papéis”. Nem vou entrar no mérito do que ela deixou o filho passar, senão fica pesado e a gente tem que manter longe. Aquilo me deixou mais culpada ainda. Que mãe horrorosa que eu devo ser???
Eu me torturava. Como deixei minha filha me ver daquele jeito? Como mostrei essa fraqueza quando deveria ser forte? Só passei a contar isso para os mais íntimos quando li isso do Almodóvar, numa resenha, sobre seu filme Julieta (que ainda não tive tempo de ver e sei que vai mexer por demais comigo):
“Talvez o mais comovedor de Julieta seja como são descritas, com poucos traços, as relações entre mãe e filha quando o pior, seja a doença ou a loucura, está presente. Bastam apenas alguns segundos focados em um rosto, o da atriz Susi Sánchez, ou um gesto, o de uma menina dando banho em sua mãe deprimida, numa cruel inversão de papéis. Almodóvar recorda que vem de um lugar onde isso é comum: as filhas cuidam das mães, as mulheres cuidam de outras mulheres. Essa raiz manchega está presente no filme…”
A única pessoa que não me julgou: Meu pai.
Alice não tinha um Xereta, mas de certa forma, muitos anos atrás, também invertemos os papéis. E isso nada mais é que amor
PS: Esse texto foi escrito para o meu pai no Dia dos Pais, em 2016.Trata-se de algo pra lá de intimo e durante 4 anos permaneceu escondido no Facebook, só os muito próximos tiveram acesso a ele. O tempo porém é o melhor remédio e decidi dividi-lo com vocês. O pai da Alice continua muito mal, mas não é sobre isso que quero falar. E sim sobre quando a vida passa uma rasteira na gente, e mostramos o que somos. Demasiadamente humanos. Hoje estamos caminhando, levando nossas vidas, aquela menina se transformou numa mocinha altiva e meu pai, que muitos aqui conhecem , o Dr Bahiense, continua firme.
por Richard Klein | 7 nov, 2020 | Brasil, Comportamento, Crônica
Capítulo 21
“Sagrado e profano
O Baiano é
Carnaval!”
Chame Gente – Moraes Moreira
Meu status em casa saltou para as alturas depois do sucesso no vestibular. Como prêmio, Rafael resolveu me dar um Fusca 1973 azul claro, que apelidei de Blues Boy. Ainda que barato e velho era um carro e, que me lembre, amigos de lares muito mais prósperos tinham recebido apenas um tapinha nas costas por não fazer mais do que sua obrigação.
Li esse gesto como uma tentativa de reconciliação dele com um filho incompreensível que se recusava a ouvi-lo e que fugia da sua companhia. Nosso convívio era difícil. De gerações completamente diferentes, nascidos em mundos opostos, havia um fosso nos separando em termos de perspectivas, de familiaridade com o que estava à nossa volta e do que buscávamos da vida.
Num mundo longe das minhas descobertas, a realidade do Rafael estava difícil. Já beirando os 80 anos, lutando bravamente contra os problemas normais da idade avançada, haviam dificuldades imprevistas com o presente. Apesar do patrimônio acumulado, o Brasil tinha se revelado uma decepção. Quanto mais convivia com o “jeitinho brasileiro” nos negócios e com autoridades tortas, menos gostava do país. Com os dias do milagre econômico num passado distante, quase três décadas depois da sua chegada, o país estava em queda livre e havia uma nova política de restrição às importações. Essas duas pancadas atingiram seus negócios em cheio. Mesmo que achasse desnecessário expressar suas angústias, elas estavam sempre à flor da pele.
No meio das suas preocupações estava o meu futuro. Apesar da predileção indisfarçada pela Sarah, talvez o seu único verdadeiro amor na vida, Rafael silenciosamente queria que eu chegasse a alturas que o seu passado o havia barrado; a respeitabilidade de um diploma universitário e a estabilidade de uma profissão.
O destino e o instinto de sobrevivência haviam dirigido a sua vida, ao passo que eu tinha escolhas, ou pelo menos achava que tinha na altura. Diferente dele na sua juventude, tinha a liberdade de me misturar com todos a minha volta e de curtir sem ser vítima de preconceitos e sem ter medo de passar necessidade. Talvez por isso, para ele, a tempestade existencial na qual tentava conciliar o mundo de fora de casa com o que se passava dentro dela, era algo que escapava à sua compreensão e ao seu respeito. Talvez agora, comigo na faculdade de economia, essa bobagem iria acabar e os estudos a sério poderiam ser a salvação de uma personalidade mimada e egoísta.
*
Sem se importar com os conflitos mudos em casa, o verão carioca estava no auge, e com ele a temporada de curtição. Agora pré-universitário, sem a paranoia do vestibular, só queria saber de praia e de aproveitar as outras maravilhas que minha cidade tinha para oferecer. Meu querido Blues Boy prometia ser uma grande ferramenta para essa tarefa, porém, antes de ganhar as chaves, havia a barreira da carteira de motorista.
A ideia da minha pessoa no volante causava arrepios em casa. Isso era devido a uma aula de direção que Renée havia resolvido me dar em Teresópolis quando adolescente. A caixa de câmbio do carro da família, um Opala bege, era manual e saía da coluna de direção. Logo na primeira tentativa, embaralhei as instruções e ao invés de sair devagar em primeira, acelerei o carro em marcha à ré. Se minha mãe não houvesse tido o instinto de puxar o freio de mão na hora, teríamos caído em um despenhadeiro bem atrás da gente. O valor cômico da cena não foi captado pelo meu pai de 77 anos que estava nos observando fora do carro e ele passou mal. Nunca houve outra aula.
Porém, na época em que ganhei o fusca, o que os dois não sabiam era que seu filho já tinha começado uma carreira secreta de motorista. Ela tinha começado no dia em que decidi colocar um anúncio no jornal oferecendo aulas de violão. Com a mesada definhando devido aos problemas nos negócios, precisava de dinheiro para manter o nível de farra e essa foi a melhor ideia que veio à cabeça.
Dois dias depois o telefone tocou. A voz dela era rouca, algo que sempre me deu um certo tesão. Enquanto processava isso, a cabeça já estava “Caralho, uma aluna!!”
Tentei soar profissional. “Sim, as aulas são particulares para iniciantes. Também dou aulas de bossa nova para alunos mais avançados.”
“Ai, adoro bossa nova, mas nunca toquei violão. Quanto tempo você acha que levaria para aprender?”
“Bom, isso vai depender da tua habilidade e do teu esforço. Por que você não tenta uma aula, e daí a gente avalia?”
“Ah, não sei, esse número é de Ipanema. É muito longe. Eu moro na Tijuca, conhece?”
Menti. “Conheço, claro. Posso ir aí, mas como disse no anúncio são vinte e cinco cruzeiros na casa do aluno.”
“Não dá para fazer a primeira aula de graça? Só para eu sentir se vou gostar ou não?”
Considerei as coisas, mesmo se aquela a voz no telefone fosse a de uma deusa a Tijuca era longe demais. “Olha, não dá, principalmente porque fica tão longe.”
Para minha surpresa, ela concordou. “Então, está bem. Que dias você pode vir? Só posso nos fins de semana.”
Blefei. “Um instante, deixa eu ver minha agenda.” Esperei um pouco e respondi. “Tenho uma abertura no sábado à tarde da semana que vem, às três, pode ser?”
“Para mim está ótimo.”
Animado, peguei o endereço e depois de desligar comecei a planejar as aulas. Ia imitar o Romualdo. Primeiro, exercícios para fortalecer os dedos, depois acordes e depois as primeiras músicas fáceis. Só isso já daria quatro ou cinco aulas, cem cruzeiros no meu primeiro mês como professor… nada mal.
No sábado seguinte, lá estava eu, violão em punho, sacrificando um dia ensolarado de praia na linha 464 rumo à Tijuca para dar minha primeira aula na vida. Me senti bem dando os primeiros passos para ganhar meus primeiros trocados. Pedi para o motorista me avisar quando o ponto chegasse. Quando desci, segui as informações e consegui achar o prédio. Estava na hora e, nervoso, apertei o botão do apartamento no porteiro eletrônico. Depois de um tempinho ela atendeu e mandou subir.
O apartamento era apertado. A sala era decorada com móveis de fórmica organizados em torno de uma televisão enorme, uma cortina feia cobrindo a janela de alumínio e fotos de família penduradas na parede. A aluna, Marineide, foi uma decepção. Parecendo tonta demais para aprender o instrumento, era mais nova que eu, maquiada mas com um bigodinho mal disfarçado, cheirando a perfume barato, unhas pintadas e com uma blusa semitransparente cobrindo o corpo roliço, ela me convidou para entrar. Em pé na sala, confuso, senti vontade de sair correndo daquela roubada mas me segurei e fui profissional.
Tentando parecer sério, perguntei: “O teu violão?” Depois de um silêncio inconfortável sob seu olhar extra terrestre, continuei. “Você disse que ele está todo desafinado. Posso dar uma olhada?”
“Ah, claro!” Ela voltou a estar presente, mas parecia nervosa. “Ele está no meu quarto. Se importa em dar a aula lá?”
Com uma estranha desconfiança de que o motivo que ela tinha me chamado ali não tinha nada a ver com aprender violão, entrei no quarto apertadíssimo e exageradamente arrumado. O violão estava fora da capa, na cama.
“Tem um banquinho para me sentar aqui no quarto? Prefiro dar aula vendo o que o aluno está fazendo.”
“Claro! Tem um banquinho na cozinha; serve?”
“Serve, claro. Obrigado” Enquanto ela foi para cozinha, tirei meu violão da capa e saí afinando o dela sentado na cama.
Ela voltou com um copo d’agua gelado, mas sem o banquinho. Eu já tinha afinado o violão.
Bebi a agua e toquei uns acordes nele. “Nossa! Tá todo afinado! Ai, estou doida para aprender, você acha ele bom para o meu tamanho?”
“Ele é pequeno, mas vai servir.”
Ela se sentou do meu lado na cama. “Posso experimentar?” Ela passou as unhas afiadas, que eu ia ter que pedir para ela cortar, nas cordas. “Viu? Não sei tocar nada.”
A fim de começar a aula e sair dali o mais rápido possível eu perguntei: “E o banquinho?”
“Você tem certeza de que precisa do banquinho?”
“Sim, não vai dar para te ensinar nada sem sentar de frente.”
“Tá bom, vou trazer, mas posso ouvir você tocar uma música antes de ir lá pegar?” Achei estranho, talvez quisesse me testar, por isso toquei Aquarela do Brasil num arranjo complicado que impressionava.
Quando terminei, dava para ver que ela estava impressionada. “Nossa, gato, como você toca bem!”
Estava pronto para começar a aula. Ela levantou, mas em vez de ir pegar o banco e sem pedir licença, ela se ajoelhou na minha frente se apoiando nas minhas pernas.
“Sabe o que é? É que sou apaixonada por violeiros e quando eu ouvi tua voz no telefone, achei ela tão gostosa que senti que tinha que te conhecer pessoalmente.”
Fiquei sem resposta e sem ação. Depois daquilo, me deu uma olhada safada, tirou o violão da frente, abriu minha braguilha e colocou a mão dentro. As “joias da família” reagiram no ato. Sem pedir permissão, ela baixou meus jeans e aplicou seus talentos. A aula estava encerrada.
Feia, não muito inteligente e deveras comum, a Marineide não fazia o meu tipo mas era safadíssima e só saí de lá tarde da noite. Houve mais “aulas” e, viciado no que estava me dando, atravessei as barreiras de minha vida social esquizoide e acabei a apresentando aos amigos de baseados e de música.
Foi aí que o carro entrou em cena. Num fim de semana prolongado, minha ex-possível aluna tornada amante, colocou o carro do pai dela à disposição para a galera ir para Mauá. Como ela não tinha ideia de como usá-lo, confiou na minha habilidade inexistente como motorista. O entusiasmo levou a melhor sobre o medo O paraíso hippie ficava a quatro horas de carro, duas horas e meia rodando pela rodovia mais importante do país, a Via Dutra, que liga São Paulo ao Rio, e o resto subindo por estradas de terra entre as montanhas e resolvi encarar aquilo sem carteira de habilitação, contando com o pouco conhecimento adquirido com minha mãe em Teresópolis e pelo que tinha ouvido falar. .
Quando o dia chegou, passei a noite na casa dela e partimos bem cedo para a casa de Kristoff para apanhar ele e o resto da galera. Tive sorte, porque de madrugada não havia nem trânsito nem policiamento. Depois de atravessar vários sinais vermelhos, Marineide, que até então não tinha dado um pio, gritou apavorada.
“Rique!!! Você vai entrar numa contramão!”
“Cacete! É mesmo!”
Não pensei duas vezes e virei totalmente o volante. À toda, o carro começou a derrapar, mas os pneus obedeceram, conseguindo evitar por poucos centímetros um poste que pareceu ter passado pela nossa frente em câmera lenta. Por um milagre chegamos no Leblon e pegamos a galera, todos achando graça em segredo da minha garota bigoduda, mas também contentes com a independência de poder viajar de carro. De lá fomos rumo à avenida Brasil e saímos da cidade. Como chegamos em Mauá sem um arranhão permanece um mistério, mas ao sair do carro com as pernas ainda bambas tinha aprendido a dirigir.
Sem nem imaginar a possibilidade dessa aventura, Rafael insistiu que eu pegasse aulas de direção em vez de comprar uma habilitação no departamento de trânsito, o Detran, como todos faziam. O teste que aplicavam era quase impossível de passar; a ideia era forçar a propina. Como estava prestes a viajar de férias, chegamos a um consenso: eu pegaria as aulas e eles pagariam um preço mais baixo para comprar a habilitação sem a prova, em vez de pagar mais caro para que recebesse uma carteira sem nunca ter sentado em frente a um volante.
Depois de duas semanas de aulas, fui à central de testes onde entrei no carro com o dono da autoescola e dois examinadores que mais pareciam membros do esquadrão da morte.
Sem olhar para mim, um dos inspetores virou para trás e perguntou: “Esse pagou?”
O dono curso respondeu afirmativamente.
Depois disso, tive somente que dar uma volta no quarteirão para receber um certificado que me deixaria “preparado” para o trânsito maluco do Rio de Janeiro.
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