Venceremos!

Biden será o próximo presidente dos Estados Unidos, isto já ficou claro, é apenas uma questão de tempo para que os votos finais sejam contados e o anúncio seja feito. Não existe a menor chance de que Trump seja reeleito.

Algumas lições da eleição americana podem servir para as eleições no Brasil em 2022. A mais importante delas é que mesmo o maior fascista dos tempos modernos pode ser derrotado. Nem todas as Fake News disparadas, todo o dinheiro investido numa campanha milionária e a soberma megalomaníaca de Trump foram capazes de sustentar sua candidatura a reeleição.

A segunda delas, é de que quando as pessoas saem para votar e não se eximem da participar da eleição, o bem vence o mal maior. Sem entrar no mérito de que Biden é parte do mainstream americano, o importante a ser dito é de que ele é um mal imensamente menor do que Trump.

A terceira delas diz respeito as pesquisas. Inicialmente se imaginou que elas estavam mais uma vez equivocadas e que Trump, contrariando todas elas, seria reeleito. Os fatos mostraram que desta vez elas acertaram no que importa: Biden venceu. As pesquisas recuperaram a credibilidade perdida na eleição de Trump quando davam como certa a vitória de Hillary Clinton.

O fascismo sofre uma grande derrota, ou melhor dito, nós antifascistas tivemos uma grande vitória. Se o maior deles na atualidade foi derrubado, o caminho está aberto para que o mesmo aconteça em outros países. Um a um, eles todos serão devolvidos ao esgoto de onde nunca deveriam ter saído.

A eleição para a presidência dos EUA não é exatamente democrática. Numa democracia, como acontece em todo o mundo, cada cidadão representa um voto. A maioria dos votos em determinado candidato aponta o vencedor, simples assim. Não nos EUA, lá ocorre uma eleição em cada um dos estados que determina um número de delegados para um colégio eleitoral que é quem de fato elege o presidente. Em cada estado, um vencedor diferente, e os delegados dele vão todos votar nele. Isto faz com que um presidente possa ser eleito com menos votos recebidos pela população. Em outras palavras não é necessário obter o voto da maioria dos cidadãos, mas apenas vencer nos estados que possuam mais delegados.

Cada estado organiza sua eleição, não existe um órgão central para administrar o processo. Diferentes meios de votação são empregados, fazendo com que cada estado tenha sua própria forma de aferir os resultados. Eles se consideram a maior democracia do mundo.

Estamos diante de um grande acontecimento. Mesmo com a pandemia batendo forte, o país fez a sua eleição. Nos últimos dias o número de novos infectados bate recordes nos EUA. A população preferiu votar pelos correios, principalmente os que votam em Biden. Estes votos são os que estão sendo contados agora e que Trump tenta sem sucesso impedir.

Bolsonaro perdeu seu mestre e mentor. Não terá as bênçãos que imaginava receber no futuro. Perde sua bússola, e com ela o Ministério das relações Exteriores fica sem rumo não tendo mais como se alinhar automaticamente. Nossa submissão ficou momentaneamente órfã.

Ainda resta muito que se fazer. O fascismo sofre um grande golpe, mas continua vivo no Brasil. Precisamos unir forças e continuar na luta, ele será derrotado aqui também. Bolsonaro está com seus dias contados se todas as forças progressistas entrarem unidas na próxima eleição. Precisamos construir uma Frente Ampla.

Hoje vamos nos permitir saborear a vitória numa importante batalha. Amanhã novas batalhas nos aguardam.

 

 

Eleições não bastam, mas ajudam

A democracia na América está doente e, como era sabido, o remédio convencional das eleições não será suficiente para a curá-la. Num corpo político e social com fraturas intransponíveis, sem espaço de diálogo, compromisso e portanto de consenso, é praticamente impossível afirmar valores morais, princípios republicanos, e até legitimidade baseados na vontade popular. Os 4 anos de Trump provocaram uma crise crescente de confiança nas instituições, com uma parte da população convencida de que a democracia é apenas um artifício dos políticos.

O espetáculo lamentável que assistimos não é a velha clivagem entre esquerda e direita, entre progressismo e conservadorismo, é a oposição entre a decência e a falta de escrúpulo, entre a mentira e a verdade. Se a democracia hesita nesta escolha, é porque se tornou uma banal formalidade.

Em 2016, a América elegeu Donald Trump com a sensação de que a democracia liberal se tornara uma farsa. Em 2020, voltou a lhe dar mais de 67 milhões de votos por acreditar que essa farsa continua.

A vitória anunciada de Joe Biden permite acreditar numa convalescença longa e penosa; a reeleição de Trump confirmaria provavelmente a sua agonia.

Se os americanos elegeram há 4 anos um fanfarrão, demagogo e despreparado, suspeitava-se que o fizeram por raiva ou por protesto contra a sua adversária, representante da política tradicional. Mas como diz o editorial do jornal Público, de Lisboa, “se tantos americanos insistiram em Trump em 2020, depois de anos de erros, de mentiras, de logros, de falsas promessas, de perturbações e ameaças, de cumplicidade com a guerra racial e cultural, de falta de transparência em questões cruciais como os impostos, é porque a democracia se tornou uma moeda de escasso valor facial.”

Trump despreza a democracia. Prova disso, nessas eleições voltou a se comportar como um líder autoritário numa democracia liberal. Transformou a Casa Branca em sede de campanha. Quebrou uma antiga tradição: o vencedor espera que o derrotado reconheça a derrota, antes de proclamar vitória. É este desprezo pela democracia, pelas suas regras e pelos seus rituais que torna o resultado tão cheio  de consequências.

Some-se a isso a hipermidiatização da figura de Donald Trump. Praticamente toda a eleição se fez em torno das suas afirmações e da sua personalidade. Houve um grau de personalização do debate político digno de um regime ditatorial. As ideias políticas de Donald Trump, apesar de incoerentes e perigosas, foram amplamente divulgadas, contestadas ou ridicularizadas, mas nunca desprezadas a ponto de não ganhar espaço. Trump foi onipresente, dentro e fora dos EUA. O mesmo não se pode dizer de Joe Biden. A personalidade e ideias políticas do candidato democrata foram, quase sempre, transmitidas como uma vaga boa alternativa ideológica e moral às ideias e à personalidade execrável de Trump.

Por enquanto, a única conclusão segura é que os Estados Unidos continuarão a ser um país profundamente dividido. “Depois de um choque econômico e de saúde pública, depois de quatro anos de drama exasperante, depois do impeachment, os americanos não rejeitaram de forma enfática nem Donald Trump, nem o trumpismo”, escreveu Janan Ganesh no Financial Times.

Não sou daqueles que acham que Biden e Trump são dois lados da mesma moeda. A vitória de Biden será fundamental, pois saberemos então que é possível derrotar a ignorância, o desprezo, a mentira, a desonestidade, a discriminação, o elogio do racismo e da supremacia branca, as violações quotidianas dos direitos humanos. Em outras palavras que é possível barrar a ascensão do populismo nacionalista e  retrógrado da extrema-direita. Os Estados Unidos não mudarão radicalmente, o futuro presidente continuará a pregar o America First, mas nós, democratas, compreenderemos que o tempo da pós-verdade não é inelutável. E isso já é muito. Enfim, vamos respirar.

Será preciso também tirar um ensinamento óbvio do trumpismo, o de que não há democracia na desigualdade extrema. Num país onde os habitantes dos subúrbios empobrecem e 1% dos americanos controla 40% da riqueza nacional, a tolerância acaba, a revolta cresce e a democracia se degrada.

É neste pântano que nascem fenômenos como Trump. Ele não é um mero acidente.

Guerra de Civilizações, Guerra de Religião

Via de regra, com exceção de pessoas geniais, como Orson Welles, que virou capa da revista Visão, uma entrevista vale por uma ou duas declarações. O resto são banalidades. Foi o caso da exclusiva que fiz com o aiatolá Khomeini, dias antes dele embarcar para Teerã como líder inconteste da maior revolução da segunda metade do século 20.  Após quinze minutos de frases feitas recheadas de citações do Alcorão, desqualificando o xá e seu regime corrupto, o velho de barbas brancas, olhos negros profundos, frieza siberiana, sentiu-se à vontade para falar. Sei lá eu por quê. Após um silêncio constrangedor, olhou nos meus olhos e em um tom pausado e solene declarou:

“Nós não estamos apenas transformando o Irã, não estamos só fundando uma República Islâmica, estamos mudando o mundo. Conosco o islã irá se tornar a religião global. A Revolução Islâmica está destinada a ter um “caráter universal”, a se alastrar para muito além das fronteiras iranianas, para os países muçulmanos obviamente, mas também para o resto do mundo. A existência de um “califado planetário” está prevista no Alcorão. Caberá a nós construí-lo, em nome do profeta, “por todos os meios”.

“Alahu Akbar ! Alá é grande!”

Quatro expressões – revolução islâmica, caráter universal, califado planetário e por todos os meios – me deram calafrios, muito embora na época eu fosse incapaz de compreender a dimensão do que acabara de ser dito. Não podia alcançar, nem intuir, a importância daquelas palavras ameaçadoras. Estava longe de imaginar que naquele instante, naquele vilarejo de Neauphle-le-Château, a 30 quilômetros de Paris, debaixo de uma tenda desconfortável plantada em direção da Meca, meu gravadorzinho de fita cassete estivesse registrando o que viria a ser uma estratégia geopolítica expansionista e sangrenta, que entraria no século 21 e  germinaria a jihad, a guerra santa islâmica.

Hoje, passados 41 anos, olho para trás e compreendo que aquele momento marcou uma transformação profunda e duradoura; mudou o mundo muçulmano e deu início a uma nova cruzada, em que o nome do Jesus da Idade Média foi substituído pelo de Maomé. O islã, com todas as suas vertentes ideológicas, se lançou num projeto de poder. Dentro e fora do espaço muçulmano, como anunciara o aiatolá. No plano “interno”, a cisão entre as diferentes correntes – xiitas e sunitas – transformou-se em guerra aberta, liderada pelas potências regionais, Arábia Saudita e Irã, com a inclusão recente da Turquia. O objetivo é claro: criar espaços de influência em torno do Mediterrâneo.

O terrorismo faz parte dessa estratégia geopolítica. Teerã e Riad ontem, Ancara hoje, foram – e são – os grandes financiadores dos atentados que ensanguentam o mundo.

Num determinado momento, os palestinos foram usados  como justificativa para a violência. Depois, foram abandonados, jogados no lixão do esquecimento. Hoje, os palestinos são ignorados e até desprezados pelos países árabes.

Tanto o Irã como a Arábia Saudita e a Turquia, têm se unido a países ocidentais interessados nas riquezas da região e não hesitam em combater uns aos outros em teatros como a Síria, Líbano, Líbia ou Iêmen.

Durante anos, os conflitos no Oriente Médio giraram em torno de um fator comum: a rivalidade entre Irã e Arábia Saudita. Esse antagonismo inflamou a violência em áreas já devastadas pela guerra e acabou por criar novos campos de batalha, onde anteriormente existia uma relativa paz.

São estratégias de poder hostis que se digladiam. Neste contexto, o combate a Israel, que outrora serviu de pretexto para alicerçar a unidade árabe,  tornou-se uma questão subalterna, como provam os recentes acordos de retomada das relações diplomáticas entre Tel Avive, Cartum, Abu Dhabi e Manama, e o desinteresse pelo conflito israelo-palestino. A própria Arábia Saudita, através de seu príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, já reconheceu oficiosamente o direito à existência de Israel em paz e segurança. Só não o fez abertamente porque, como sede dos principais locais sagrados do Islã, isso simbolizaria a normalização das relações de Israel com todo o mundo muçulmano. E tanto o xiismo como parte do sunismo ainda não estão prontos a dar o passo.

Por outro lado, na briga entre as duas vertentes do Islã, o Irã se coloca como o grande defensor dos xiitas na luta pela hegemonia muçulmana. Não nega esforços nesta direção, seja atuando diretamente na guerra síria, seja  armando militar e ideologicamente movimentos terroristas como o Hamas e o Hezbollah.

A Turquia entrou na luta pela conquista regional mais recentemente, a partir do momento em que houve uma tentativa de golpe contra Recep Erdogan (real ou imaginária ?) e que o líder turco fez uma verdadeira purga nas forças armadas, nos tribunais, na polícia  e na sociedade civil em geral, prendendo meio milhão de pessoas e acabando com toda contestação. Conquistou assim a fidelidade do exército e instaurou uma ditadura político-islâmica, lançando-se na busca de seu grande sonho, a refundação do império otomano. Além da influência no Oriente Médio, voltou-se para o Mediterrâneo, criando zonas de conflito com a União Europeia e o norte da África. Para tanto, não hesitou em traçar um estranho diálogo com Vladimir Putin, ora amigo ora adversário,  e desafiar a Aliança Atlântica, da qual a Turquia faz parte. De quase membro, passou a espicaçar a União Europeia.

Erdogan pôs um ponto final no país secular de Kemal Atatürk, inventor da Turquia moderna, para tornar-se um verdadeiro sultão.

Nos três casos, a religião é colocada a serviço da política, da geopolítica e do devaneio de seus líderes. No Irã, a principal autoridade é o chefe dos Guardiães da Revolução, no caso da Arábia Saudita é o príncipe herdeiro, no da Turquia, o presidente-sultão-ditador.  Não há espaço para a separação entre a Igreja e o Estado.

O ocidente e até a China de Xi Jinping são peças nesse xadrez geopolítico, bem como outros grandes países muçulmanos, como o Paquistão. Os Estados Unidos são ao mesmo tempo o Grande Irmão de Riad e o Satanás de Teerã, a Europa (e a França em particular) o infiel dentre os infiéis, a China um possível futuro amigo, ou ao menos aliado.

Se de um lado o mundo muçulmano nem sequer dialoga entre si, de outro os instrumentos para exportar seus projetos de poder são cada dia mais limitados. O fracasso da Primavera Árabe jogou a Irmandade Muçulmana no ostracismo e cada país caminhou numa direção. Os grandes movimentos que alimentavam a violência expansionista – Al Qaeda, Daesh, Al Qaeda do Magreb Islâmico – foram derrotados militarmente e tentam dificilmente se reconstruir para existir através do terror.

Diante desse quadro, uma parcela dos muçulmanos da diáspora voltaram-se para os valores tradicionais. Enquanto os países exportadores da teoria de Khomeini, numa atitude dúbia, passaram a alimentar o ódio aos infiéis, através de uma enorme rede de mesquitas e de associações culturais, esportivas e outras, a exemplo dos evangélicos no Brasil. Optaram por se implantar nos subúrbios dos centros urbanos europeus, onde prosperam conjuntos habitacionais desumanos que com frequência se transformam em guetos, abandonados pelo Estado, onde vivem populações magrebinas.  Semearam em terreno fértil, onde já reinava a xenofobia e a islamofobia plantadas pela extrema-direita. A mesma Europa, que abriu as portas a milhões de refugiados das guerras fraticidas, transformou-se no principal palco, porém não único, da violência islamita.

A respeito, é mister abrir um parêntese para assinalar um erro crasso e frequente dos “analistas” da imprensa brasileira, que se auto-intitulam “experts” em assuntos internacionais. Ao criticar o discurso de Emmanuel Macron após a decapitação do professor Samuel Paty, confundem o termo Islamita, islamiste em francês, com muçulmano. Islamiste não significa muçulmano e sim extremista islâmico, aquele que se radicalizou. Erram ao confundir os dois termos, talvez por ignorância; acabam escorregando num amálgama mal odorante.

Necessário sublinhar para que não haja dúvida: a violência vem dos islamitas e não da comunidade muçulmana, cujos representantes a denunciam sistematicamente.

O terrorismo faz parte do projeto de poder e pouco tem a ver, por exemplo, com as caricaturas de Maomé. Até o século 16, as imagens do profeta, hoje proibidas pelos extremistas sunitas, integravam a iconografia islâmica. Centenas de quadros magníficos, representando Maomé, embelezam até hoje as paredes do Palácio Topkapi, de Istambul. A proibição veio de uma reescrita do Alcorão pela seita radical. E é polêmica até hoje entre os estudiosos do islã.

Assim, as caricaturas verdadeiras de Maomé (veja o texto sobre as falsas caricaturas, no final) publicadas inicialmente na Dinamarca e depois no France Soir e finalmente Charlie Hebdo entre outros jornais europeus, são apenas a parte visível do iceberg. Servem de bode expiatório, na medida em que os integristas precisam de uma razão para explicar às suas comunidades atos que não tem nenhuma. Se as caricaturas são tão provocadoras a ponto de explicar a decapitação de um professor, como entender a degola de um sacristão, a morte a facadas de uma dançarina brasileira ou a morte a tiros de várias pessoas diante de uma sinagoga em Viena só para citar os ataques mais recentes? como compreender os atentados islamitas cometidos no Reino Unido, na Alemanha, na Holanda, na Itália, na Noruega, na Espanha e até na longínqua e pacífica Nova Zelândia? como aceitar que os islamitas tenham lançado, via redes sociais, ameaças de morte à comunidade asiática de Paris, sob o argumento de que os chineses, além de terem criado o corona vírus, cometem as piores atrocidades contra os uigures (muçulmanos sunitas de Xian Jiang), escravizando, assassinando, estuprando?

As caricaturas não podem ser usadas como justificativa. A violência como resposta é falta de argumento. Aliás, o jovem que feriu dois jornalistas em frente à antiga sede do Charlie, no final de setembro, confessou a amigos nunca ter visto as tais caricaturas, nem sabia que o jornal satírico tinha mudado de endereço após o massacre de sua redação, cinco anos antes.

Vingar-se da França colonialista? tampouco. Os autores dos recentes atentados são chechenos, paquistaneses, afeganes. Apenas um era de origem tunisiana. O que não exime o país de uma mais que necessária autocrítica, que, diga-se de passagem, está sendo feita, embora tardiamente.

Por que então fazer da França ou de outros países europeus alvos privilegiados do terrorismo islâmico? Porque os atentados cometidos contra populações muçulmanas em países muçulmanos, embora muitíssimo mais numerosos,  não viram notícia na grande imprensa internacional. A repercussão da tentativa de morte da menina Malala, que cometeu o crime de querer estudar, é exceção, apesar da quantidade incontável de Malalas.

O que explica o terrorismo islâmico é o projeto de poder de Erdogan, bin Salman, aiatolá Ali Khamenei pela supremacia no mundo islâmico. Os atentados só são possíveis graças a uma extraordinária e eficaz rede de associações religiosas ou não, instaladas na Europa e financiadas sobretudo por essas três potências islâmicas, mais o Qatar e o Paquistão. Várias mesquitas instaladas em solo europeu, dirigidas por imanes originários e pagos por esses países, defendem abertamente a xaria, a lei islâmica, em detrimento da Constituição local. Nelas, legitima-se desde o casamento forçado de crianças de 10 anos até a morte por apedrejamento de homossexuais ou de mulheres adúlteras. Os frequentadores são instigados a matar os infiéis. Acabam se radicalizando, alguns matando.

Mila, uma estudante adolescente de 16 anos, viu sua vida virar de cabeça para baixo no dia 18 de janeiro, quando publicou um vídeo criticando o islã para se defender do ataque homofóbico de um rapaz muçulmano, que a chamou de “lésbica asquerosa”. Seguiu-se então uma das maiores ondas de mensagens insultantes jamais vista na história da internet na França. Foram cerca de duzentas por minuto nos dias que se seguiram. Desde então Mila recebe ameaças de morte diárias, já foram mais de 35 mil, está sob proteção policial e foi obrigada a deixar de frequentar a escola.

Contra sua vontade, Mila tornou-se um ícone do partido  xenófobo Rassemblement pour la République, de Marine Le Pen, que defende a expulsão de todos os estrangeiros.

Para a divulgação das mensagens hediondas, nada melhor que as redes sociais divulgadoras do ódio, islamita como neofascista.

Face a esse quadro, alguns politólogos europeus não hesitam em falar em guerra de civilizações, enquanto outros veem aí uma guerra de religião. Estamos diante de uma cruzada em que o futuro da democracia e dos direitos humanos está em risco. Se os governos não adotarem uma atitude firme de combate a todas as discriminações, a todos os fundamentalismos – islamita, judaico, cristão – dentro das regras de respeito ao Estado de Direito, a extrema-direita ocupará o espaço. O tempo é agora, se já não for tarde demais.  A pandemia abre uma janela de oportunidade, que se não for aproveitada fará com que a saída do confinamento marque a vitória do populismo fascista e transforme o velho mundo iluminista na antessala do inferno dantesco.  Se abandonarmos nossos valores, expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, estaremos dando razão aos integristas de todas as religiões e ideologias.

                AS FALSAS CARICATURAS QUE INCENDIARAM O MUNDO

Num texto sobre a história das caricaturas, a jornalista Caroline Fourest, ex-Charlie, conta:

“Em 30 de setembro de 2005, o Jyllands-Posten, principal diário conservador dinamarquês, publicou doze desenhos sobre Maomé nas páginas de cultura, sob o título “Os rostos de Maomé”. Não por provocação gratuita, mas para denunciar uma forma de censura. Meses antes, um autor dinamarquês de esquerda, alérgico ao fundamentalismo, Kare Blutgen, não conseguiu encontrar um só desenhista que aceitasse ilustrar um álbum para crianças contando a vida de Maomé. O horror do assassinato do cineasta de extrema-direita Théo Van Gogh, degolado por um islamita marroquino, em 2004, ainda estava na cabeça de todos.

No mesmo Jyllands-Posten, um humorista escreveu: não tem problema urinar na Bíblia na frente das câmeras, mas eu não faria o mesmo com o Alcorão.

Em Londres, após os atentados de 7 de julho na capital britânica (52 mortos e mais de 700 feridos), o diretor da Tate Gallery anulava uma exposição satírica, já programada, sobre o Talmud, a Bíblia e o Alcorão. Na Suécia, meses antes, o museu de Goteborg anulou uma exposição sobre símbolos sexuais e citações do Alcorão.

Foi nesse contexto de autocensura que o editor de Cultura do jornal dinamarquês teve a ideia de realizar um concurso de desenhos sobre a imagem de Maomé.

A maioria dos desenhos apresentados mostrou um profeta estilizado e poético. Alguns satirizavam o jornal. Dois deles eram mais duros: um mostrava Maomé com um facão em companhia de duas mulheres vestindo burca. O outro, um Maomé severo com um turbante em forma de bomba. Era uma forma de denunciar o terrorismo cometido em nome do profeta.”

Até que um grupo islamita paquistanês colocou a cabeça dos desenhistas a prêmio. Mas não por causa das caricaturas publicadas no jornal dinamarquês e sim por causa de falsas charges.

Como assim? eis aqui a verdadeira história, pouco conhecida: com o intuito de colocar ainda mais lenha na fogueira, Abou Laban e Ahmed Akkari, dois paquistaneses de grande prestígio, levaram para uma reunião com líderes do Egito, Turquia, Líbano, Síria e Golfo Pérsico um dossiê contendo caricaturas publicadas em sites fascistas na internet, que nada tinham a ver com aquelas do Jyllands-Post. Dentre elas, uma acusando Maomé de pedófilo, outra mostrando um homem com cabeça de porco, outra ainda com Maomé sendo sodomizado por um cachorro.

Foram estas caricaturas que incendiaram o mundo muçulmano, provocando protestos violentos por multidões no mundo muçulmano e uma onda de atentados, inclusive contra embaixadas da Dinamarca, Áustria, Noruega e França no Oriente Médio.  Furioso, o ministro egípcio das relações exteriores, Ahmed Aboul Gheit, presente à tal reunião, entrou com um projeto de resolução na ONU pedindo a proibição de todo ataque às religiões.

A xaria contra as caricaturas estava lançada.

 

Samba Perdido – Capítulo 20 – Parte 03

Haviam mais contradições. Em alguns finais de semana, deixava de lado a pretensão hippie, arrumava o cabelo, colocava uma camisa com colarinho, sapatos de couro brilhantes, cinto e calça social para ir às gafieiras. Resquícios dos dias de glória do samba nos anos 1930 e 1940, a maioria ficava em torno da Praça Tirandentes, na Lapa. Não era apenas a arquitetura que permanecia intacta, as orquestras de samba que tocavam ali também. Elas eram autênticas, lideradas por sambistas da antiga encantados por estar virando moda de novo tanto na Zona Norte quanto na Zona Sul.

Ainda mantinha a amizade com o Davi e com a galera “brima” e ia com eles. Mas quem dizia que ia lá pela dança ou pela experiência autêntica estava mentindo. Para nós, a atração maior era o monte de mulheres bonitas provenientes do lado “errado” da Floresta da Tijuca, algumas novas na cidade, interessadas em jovens do lado “certo” da cadeia de montanhas. Depois das danças de rosto colado sob luzes imitando as de discotecas havia as cervejas, os beijos introdutórios e as trocas de números de telefones. Vindos de mundos diferentes, o anonimato protegia ambos os lados e permitia casos rápidos sem a pressão dos círculos sociais mais chegados. Era raro sair de lá sem resultados. Seguindo a mentalidade da época, estávamos fazendo o que se esperava de machos latino-americanos e por mais frio que possa parecer, era isso que as atraía.

Apesar dasses sucessos, ser tímido com as garotas que interessavam e corajoso com as que não, nunca levaria a uma vida afetiva saudável. O esforço para criar uma aura bacana na esperança de atrair uma garota à altura dos meus sonhos não estava dando certo. Talvez por não ser sincero o bastante, não ter a familia suficientemente rica ou por ser esquisito demais, ou talvez por pura impaciência, o que eu queria não se materializava. Ainda por cima, havia um demônio subversivo me dizendo que a felicidade num relacionamento resultando em casamento e familia era uma fantasia que só existia na cabeça de burgueses.

*

A pressão em torno do vestibular estava aumentando exponencialmente.  A um mês da prova, a música e as festas teriam que ficar em segundo plano. Se não colocasse trabalho duro na equação, nada de universidade boa nem de tolerância em casa. Isso pedia medidas radicais e por isso fui para Teresópolis para passar duas semanas me preparando isolado.

No dia da primeira prova, acordei de madrugada. Sem conseguir pegar de novo no sono, fui para a praia para me acalmar. O nascer do sol estava espetacular e o mar estava calmo e convidativo. Mergulhei, nadei, peguei umas ondas e relaxei. Quando saí, percebi um homem na passarela olhando para mim. Parecia um Zé Pilintra vestindo um terno de linho branco, chapéu. Ele era alto, usava um bigode curto, e na hora me veio em mente Alec, meu avô por parte de mãe. Aquele encontro bizarro me deu calafrios na espinha, mas o encarei como um bom presságio.

Fui para casa, tomei banho e café da manhã e saí para pegar o ônibus rumo a uma velha escola primária no final do Leblon. Quando saltei me juntei às centenas de outros estudantes esperando no portão. depois de uns dez minutos, funcionários vestidos em jalecos vieram para nos deixar entrar. O primeiro passo era ver a sala onde deveríamos ir em um quadro de avisos. Achei a minha, entrei e fui me sentar no fundo numa cadeira escolar com braço dobrável, a parte de baixo cravejada de velhos pedaços de chiclete.

Quando deu nove horas, os portões fecharam e os inspetores, todos na faixa dos vinte anos, passaram pelas carteiras nos entregando lápis e borracha. Um pouco depois, alguém mais graduado entrou, fez a chamada e nos colocou a par das regras: nada de cola, nada de conversa e quando dissessem que o tempo acabou todos teriam que entregar as provas imediatamente. Depois disso, nos deram grossos envelopes de tamanho A4 contendo as provas e um cartão onde deveríamos marcar as respostas de múltipla escolha.

Os exames eram divididos em quatro dias. Confesso que nas provas de física e química, fui com algumas fórmulas importantes anotadas na parte de baixo das minhas calças, mas nas outras, português, matemática, línguas, história, biologia e geografia, joguei limpo.

*

Com medo do pior, no fim de semana quando os resultados seriam anunciados nos jornais, Kristoff e eu fugimos para Mauá. Acampamos perto da Maromba onde a única ligação com o mundo exterior era o telefone pago de uma pousada. No domingo que saíram os resultados, seria mais seguro ficar sabendo da notícia à distância. O plano era ligar para a Sarah que tinha passado pelo mesmo processo e não me julgaria tanto caso tivesse me dado mal.

Quando atendeu o telefone, ela já tinha procurado por meu nome. Para a absoluta surpresa de todos, eu havia passado para a UFRJ, a Universidade Federal do Rio de Janeiro, no primeiro semestre do seu conceituado curso de Economia, considerado o melhor do Rio e um dos melhores do país. A teoria de ser contra tudo que o vestibular representava evaporou na hora.

“Caralho, mana! Tu tá falando sério!? UFRJ, primeiro semestre??!!!”

“É, seu cagão, e ainda vai ter a moleza de estudar na Urca. ” Ela tinha cursado a mesma universidade mas no Fundão do lado do aeroporto. Mas na hora aquilo não importava, ela tinha deixado de lado sua distancia e estava contente.

“E os velhos?”

“Estão nas nuvens. Não acreditaram também. Tu é muito sortudo, mano! Um dia você ainda vai me explicar como você conseguiu essa façanha depois de tanta vagabundagem.”

“Ah, quem tem os genes da Dona Renée consegue qualquer coisa, ela nunca te contou?”

A gente riu um pouquinho. “Eles saíram para Teresópolis faz uma meia hora, ficaram esperando você ligar, mas acabaram desistindo.”

“Foi o que eu calculei.” Demos mais risadas. “Obrigadão mana, um beijo.”

“Um beijo e parabéns mano. Pode curtir à vontade aí e aguarde uma recepção de gala na volta.”

Antes de desligar, o Kristoff me deu uma cutucada e me lembrei: “Você também procurou pelo nome do Kristoff?”

“Procurei, passa o telefone para ele que eu quero dar a notícia eu mesma.”

Ele tirou o telefone da minha mão apressadamente, “Fala Sarah, tudo bem?”

A reação dele foi uma risada alta. “Ha, ha, ha, nem dá para acreditar!” Ele tinha passado para biologia para a mesma UFRJ, um dos cursos mais difíceis de se entrar, com 20 estudantes por vaga.

*

Depois daquele telefonema estávamos os dois nas nuvens. Para comemorar a ocasião especial, a gente resolveu experimentar a mais recente coqueluche alucinógena da galera: chá de cogumelos. Mauá era conhecida por tê-los e o clima estava perfeito para que brotassem, ensolarado após alguns dias de chuva pesada.

Corremos para as pastagens próximas, mas não encontramos nada. Nossas esperanças se reascenderam quando alguém nos disse que certamente encontraríamos alguns nas pastagens de Campo Alegre, um vilarejo a 40km. O problema era que o nosso único meio de transporte era nossos pés, mas tínhamos bastante obstinação para sair numa caminhada de quase um dia inteiro para colher nossos fungos dourados.

Fomos na hora. A caminhada exaustiva valeu a pena: encontramos um campo cheio deles e colhemos o que conseguimos sob o olhar ameaçador do touro dono do pedaço. Tínhamos que ser cuidadosos: havia duas espécies parecidas de cogumelos nas pastagens. Os dois eram do mesmo tamanho e com o mesmo formato. O que queríamos tinha listas pretas na parte de baixo, o outro tinha listas brancas e era venenoso. Quando terminamos, depois de um momento de euforia, caímos na real e lembramos de que ainda tínhamos a longa caminhada de volta pela frente.

De volta ao acampamento, cansados, aproveitamos os últimos minutos de sol para um mergulho merecido no rio. Quando estávamos prontos para a noitada, resolvemos não fazer um chá já que daria trabalho demais, simplesmente abrimos a bolsa, dividimos a colheita, três para cada um, e os comemos. Eram parecidos com cogumelos comuns só que tinham um sabor mais marcante. Contudo, naquela altura o aspecto culinário era irrelevante.

Já estava escuro quando voltamos para a estrada, dessa vez com os instrumentos debaixo do braço. Tivemos sorte de pegar uma carona. O dono do carro era um casal mais velho de paulistas procurando uma pousada depois da Maromba. Eles estavam ansiosos para saber se tinhamos dicas de bons restaurantes bons e lugares para conhecer na área. No banco de trás, olhando pela janela, tentando responder suas perguntas, comecei a sentir a cabeça ficar leve. Quando saímos e vimos as luzes do carro se distanciar no escuro da estrada de terra, já nos encontrávamos em território psicodélico.

Estávamos na praça da Maromba – um quadrado de terra delineado por poucas casas, um armazém, um bar e uma igreja. Para não sair numa tangente incontrolável, tivemos o bom senso de ir ao bar. Sendo o único nas redondezas, era o lugar onde a malucada se encontrava à noite para levar um som. As únicas outras luzes ao redor vinham do armazém no outro lado do terreno baldio.  O pessoal da terra se reunia lá para beber bebida barata em torno de uma mesa de sinuca. Os dois grupos respeitavam o espaço do outro. Uns completamente chapados de um lado e os outros igualmente passados por uma mistura fatal de cachaça com o famoso mel da região do outro.

Já havia dois caras sentados na mesa principal do nosso bar dedilhando alguma coisa no violão. Perguntamos se podíamos afinar com eles e saímos tocando. Com quatro pessoas tocando o pessoal foi chegando. Depois de um tempo, Leandro, a estrela musical da nossa turma, que mais tarde se tornaria o guitarrista predileto do Cazuza e que chegou a tocar com Roberto Carlos, apareceu e fez o som decolar para as alturas. Mais tarde, autointitulado padrinho dos músicos de Mauá, o lendário e veterano Serginho do Mel, também apareceu do nada pedindo para gente fazer uma levada de blues. Mais pessoas foram se juntando e no final, deveria ter uns sete ou oito músicos captando o que os espíritos tinham a dizer sobre a beleza das montanhas e o que a lua prateada e as estrelas acima dela estavam achando daquela noite.

A população de doidos da Maromba acabou comparecendo em peso e, eufórica, se juntou participando com o que quer que pudesse aumentar a energia – cantando versos improvisados, batendo palmas, batucando nas mesas e nas paredes frágeis do bar ou simplesmente dançando. Como num quadro louco de Van Gogh, a música, o lugar e as pessoas se misturaram num transe que durou horas.

Não me lembro como aquela explosão de psicodelismo terminou e nem onde dormi. Só sei que de manhã, quando fomos tomar nossa dose diária de leite tirado da vaca e quase todos da noite passada estavam lá na fila. Enquanto esperávamos a coitada da vaca dar seu leite para aquela malucada, todos comentavam o quanto o som tinha sido bom. Aos poucos fomos descobrindo que todos os músicos tinham comido cogumelos, mas não sabiam que os outros também tinham e isso virou a piada da cidade.

Passamos o resto do dia curando nossas ressacas no escorrega, um tobogã aquático natural que ficava depois da Maromba, se espatifando na água gelada depois de pegar velocidade nas pedras. Aqueles choques térmicos nos trouxeram de volta à vida normal e à lembrança de que tínhamos deixado o pesadelo do vestibular para trás com uma vitória.

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O preconceito nosso de cada dia

“Agora eu virei ‘boiola’. Igual maranhense, é isso?. Guaraná cor-de-rosa do Maranhão aí, quem toma esse guaraná aqui vira maranhense“.

Este é o presidente do Brasil fazendo o que mais sabe, emitir preconceitos na forma do que ele chama de “brincadeira”, algo para não se levar a sério. Sem o menor constrangimento ele segue sendo o que sempre foi e fazendo exatamente o que disse que faria como presidente, nenhuma novidade nisso.

Quando li a notícia, além da vergonha nacional e internacional que isso representa para mim como brasileiro vivendo no exterior, me lembrei das razões pelas quais limpei minha lista de amigos durante as eleições, incluídos nela parentes e conhecidos virtuais.

Tem gente que sempre fez este tipo de comentário, mas a gente achava que era só uma brincadeira, como diz o presidente, até que não mais. Houve um tempo para se perceber o quão errado e impróprio são estes comentários. Quem cresceu e percebeu isso, imediatamente parou de fazê-los. Quem continua não está mais fazendo uma “brincadeira”, está destilando ódio e preconceito contra as minorias. Não os quero próximos.

Nas últimas eleições, a despeito de todos os avisos e alarmes, a barbárie venceu a civilização. O Brasil vive um retrocesso civilizatório sem precedentes na sua história. Nem na ditadura o país teve um milico parecido com este presidente em termos de comportamento inconveniente. O único episódio do qual me recordo foi em 1978 quando o General Figueiredo que viria a se tornar presidente, disse preferir o cheiro de cavalo ao cheiro de povo. Na verdade o fato ocorreu assim: um repórter perguntou se o futuro presidente gostava do “cheiro do povo”, ao que ele respondeu “o cheirinho do cavalo é melhor (do que o do povo)”.

A barbárie social já assola o Brasil há tempos, o crime tomou conta das ruas. A fome voltou e milhares de brasileiros não tem o que comer. Se isso não fosse o suficiente, a pandemia deixou milhões desempregados. Milhares de pequenos negócios faliram.

Grupos supremacistas brancos, nazistas, os camisas verdes Integralistas e todo tipo de aberração racista vieram a público. Saíram do esgoto e agora andam a céu aberto propagando seu ódio sem serem molestados. O país conhecido pelo samba, futebol e seu povo hospitaleiro ficou na lembrança. Agora somos apontados como a terra do presidente idiota que permite a queima das florestas e que não acredita na existência do Covid-19.

Esta semana teremos eleições nos EUA, e talvez um dos maiores expoentes desta corrente fascista que chegou ao poder em muitos países, esteja sendo mandado para  casa. Trump não deve se reeleger deixando órfão seu maior admirador no Brasil, o único presidente do mundo a bater continência saudando a bandeira americana.

Depois do México, a Argentina disse não ao neoliberalismo. Agora a Bolívia se recuperou do golpe e disse sim ao socialismo. Os chilenos disseram sim por uma nova constituinte e assim vão se livrar das leis draconianas que dividiram o povo em duas classes sociais, os muito ricos e os muito pobres.

Os regimes de exclusão social chegaram ao fim para estes irmãos latino-americanos. Quando é que este gigante chamado Brasil vai acordar? Quando é que esta família miliciana será escorraçada e devolvida para o inferno?

Levanta Brasil!

 

 

 

Vacinar é preciso

Quando olhamos para o passado e voltamos ao presente, vemos o quanto evoluímos desde que descemos das árvores e começamos a andar. Não foi um caminhar fácil, as vezes limitado, mas sempre em frente. Chegamos aos dias de hoje muito melhor preparados para enfrentar os desafios da sobrevivência.

Eu gostaria de que o mundo tivesse se desenvolvido por igual, que não existissem fronteiras, que as únicas cores que importassem fossem as do arco-íris, que não houvesse mais fome e todos tivessem garantidos saúde e educação. Um mundo com justiça social, igualitário e solidário. Um mundo mais humano onde o amor e a felicidade fossem a base do sistema, um planeta aberto as religiões, mas que acima de tudo incentivasse a ciência. Sonhar é preciso.

Evoluímos muito, é verdade, mas não chegamos a tanto. O ser humano continua praticando crimes contra outros seres humanos, e apesar de conhecer a Declaração dos Direitos Humanos, mesmo depois de duas grandes guerras mundiais, nossa situação como raça é lamentável. As guerras ainda existem.

A pandemia continua nos desafiando dia a dia. Ela vai e vem em ondas. Em um dia achamos que estamos livres, para no outro ver ela ressurgindo como uma Phoenix. O vírus parece rir de nossas ações para exterminá-lo.

O que já se sabe é que ele surge devagar, se propaga rapidamente. Combatido diminui sua presença para ressurgir em uma nova onda. Uma pior do que a outra nos países que ainda insistem em manter a economia funcionando, mesmo que parcialmente. A China é um exemplo disso. Onde o vírus dá as caras, é Lockdown no restrito significado da palavra. Lá onde tudo começou o número de óbitos é de um país mediano, e se comparado pelo número de habitantes, fica na base da tabela.

Agora estamos assistindo a segunda onda bater na Europa. Em seguida vai bater nas Américas. Os números são assustadores. Da noite para o dia milhares de novos casos de infectados brotam em todo lado na Espanha, Itália, França, Alemanha , Inglaterra etc. Países que reabriram criteriosamente suas economias com o maior cuidado.  Não adiantou.

Muita coisa ainda está sendo estudada sobre o vírus, mas numa coisa todos concordam, ele é transmitido pelo contato entre pessoas infectadas. Se um único doente estiver em uma sala com outras pessoas sadias, provavelmente todos naquela sala vão ficar doentes. Dito de outra forma, a única maneira de impedir a propagação do vírus é impedindo o contato das pessoas pelo período do ciclo de vida dele. É o que faz a China.

A boa notícia é que estamos no limiar da chegada das vacinas. Eu sou do tempo em vacina era dada no braço com um agulhão que deixava uma marca por alguns anos. Era fácil de saber quem já havia sido vacinado para determinada doença, quem não, só olhar quem tinha a “marca”. E havia também o método alternativo para resolver o problema das doenças que não tinham vacina. A gente era levado para ficar na companhia de quem estava doente com a finalidade de pegar a doença. Era sabido que nós crianças enfrentávamos com mais facilidade. Melhor sofrer pouco enquanto criança, do que muito quando adulto.

A vacina só é eficaz para aqueles que são vacinados. Parece o óbvio, mas existe uma corrente que prega o contrário e diz que as vacinas fazem mal, que é a própria doença, que as crianças vão ficar autistas ou ter outras sequelas. Tudo isso sem nenhuma base científica contrariando anos de sucesso com doenças graves como a Poliomielite (paralisia infantil) e a Varíola, por exemplo.

Se vacinar é um ato de amor a si mesmo e ao próximo, especialmente contra o Covid-19, já que a doença também pode ser fatal em pessoas jovens e perfeitamente saudáveis. Não se vacinar é um ato de extremo egoísmo e insensatez.

Crianças e adultos dependentes não podem ficar a mercê de adultos que atentam contra a sociedade impedindo com que sejam vacinados. A vacina tem de ser obrigatória, ela salva vidas que são preservadas e permite com que todos possam retomar suas rotinas com o restabelecimento da economia. Escolas podem ser reabertas, assim como o comércio em geral e a cultura sem riscos. Podemos voltar a ter uma vida normal outra vez.

Quando um presidente diz que não vai obrigar ninguém a se vacinar, e que sequer vai comprar vacinas de determinado país, deixando a população a mercê de seus infames intempestivos desígnios, ele  coloca todo o país de joelhos e ameaça a sobrevivência de toda a nação.

Bolsonaro é um desastre sob todas as óticas, mas agora se trata de preservar vidas e o país como nação viável e independente. Até quando vamos suportar este inepto?