por Mauro Nadvorny | 24 out, 2020 | Brasil, Comportamento, Política
Quando olhamos para o passado e voltamos ao presente, vemos o quanto evoluímos desde que descemos das árvores e começamos a andar. Não foi um caminhar fácil, as vezes limitado, mas sempre em frente. Chegamos aos dias de hoje muito melhor preparados para enfrentar os desafios da sobrevivência.
Eu gostaria de que o mundo tivesse se desenvolvido por igual, que não existissem fronteiras, que as únicas cores que importassem fossem as do arco-íris, que não houvesse mais fome e todos tivessem garantidos saúde e educação. Um mundo com justiça social, igualitário e solidário. Um mundo mais humano onde o amor e a felicidade fossem a base do sistema, um planeta aberto as religiões, mas que acima de tudo incentivasse a ciência. Sonhar é preciso.
Evoluímos muito, é verdade, mas não chegamos a tanto. O ser humano continua praticando crimes contra outros seres humanos, e apesar de conhecer a Declaração dos Direitos Humanos, mesmo depois de duas grandes guerras mundiais, nossa situação como raça é lamentável. As guerras ainda existem.
A pandemia continua nos desafiando dia a dia. Ela vai e vem em ondas. Em um dia achamos que estamos livres, para no outro ver ela ressurgindo como uma Phoenix. O vírus parece rir de nossas ações para exterminá-lo.
O que já se sabe é que ele surge devagar, se propaga rapidamente. Combatido diminui sua presença para ressurgir em uma nova onda. Uma pior do que a outra nos países que ainda insistem em manter a economia funcionando, mesmo que parcialmente. A China é um exemplo disso. Onde o vírus dá as caras, é Lockdown no restrito significado da palavra. Lá onde tudo começou o número de óbitos é de um país mediano, e se comparado pelo número de habitantes, fica na base da tabela.
Agora estamos assistindo a segunda onda bater na Europa. Em seguida vai bater nas Américas. Os números são assustadores. Da noite para o dia milhares de novos casos de infectados brotam em todo lado na Espanha, Itália, França, Alemanha , Inglaterra etc. Países que reabriram criteriosamente suas economias com o maior cuidado. Não adiantou.
Muita coisa ainda está sendo estudada sobre o vírus, mas numa coisa todos concordam, ele é transmitido pelo contato entre pessoas infectadas. Se um único doente estiver em uma sala com outras pessoas sadias, provavelmente todos naquela sala vão ficar doentes. Dito de outra forma, a única maneira de impedir a propagação do vírus é impedindo o contato das pessoas pelo período do ciclo de vida dele. É o que faz a China.
A boa notícia é que estamos no limiar da chegada das vacinas. Eu sou do tempo em vacina era dada no braço com um agulhão que deixava uma marca por alguns anos. Era fácil de saber quem já havia sido vacinado para determinada doença, quem não, só olhar quem tinha a “marca”. E havia também o método alternativo para resolver o problema das doenças que não tinham vacina. A gente era levado para ficar na companhia de quem estava doente com a finalidade de pegar a doença. Era sabido que nós crianças enfrentávamos com mais facilidade. Melhor sofrer pouco enquanto criança, do que muito quando adulto.
A vacina só é eficaz para aqueles que são vacinados. Parece o óbvio, mas existe uma corrente que prega o contrário e diz que as vacinas fazem mal, que é a própria doença, que as crianças vão ficar autistas ou ter outras sequelas. Tudo isso sem nenhuma base científica contrariando anos de sucesso com doenças graves como a Poliomielite (paralisia infantil) e a Varíola, por exemplo.
Se vacinar é um ato de amor a si mesmo e ao próximo, especialmente contra o Covid-19, já que a doença também pode ser fatal em pessoas jovens e perfeitamente saudáveis. Não se vacinar é um ato de extremo egoísmo e insensatez.
Crianças e adultos dependentes não podem ficar a mercê de adultos que atentam contra a sociedade impedindo com que sejam vacinados. A vacina tem de ser obrigatória, ela salva vidas que são preservadas e permite com que todos possam retomar suas rotinas com o restabelecimento da economia. Escolas podem ser reabertas, assim como o comércio em geral e a cultura sem riscos. Podemos voltar a ter uma vida normal outra vez.
Quando um presidente diz que não vai obrigar ninguém a se vacinar, e que sequer vai comprar vacinas de determinado país, deixando a população a mercê de seus infames intempestivos desígnios, ele coloca todo o país de joelhos e ameaça a sobrevivência de toda a nação.
Bolsonaro é um desastre sob todas as óticas, mas agora se trata de preservar vidas e o país como nação viável e independente. Até quando vamos suportar este inepto?
por Mauro Nadvorny | 22 out, 2020 | Brasil, Comportamento, Mundo, Opinião, Política
Após ter sido uma vez mais vítima do terrorismo islâmico, a França vive em estado de choque. Desta vez, ao contrário dos atentados de 2015, não foram os grandes números de mortos que abalaram a população. Foi apenas um morto, o que de certa forma tornou o ato ainda mais simbólico. Um homem foi decapitado; um professor de história, acusado por seus carrascos de ter dado uma aula sobre a liberdade de expressão.
Um jovem russo, de origem chechena, de 17 anos de idade, com estatuto de refugiado, cortou-lhe a cabeça em plena rua da pacata cidade de Conflans-Sainte-Honorine. Ele não conhecia o homem que assassinou. Até alguns dias antes nunca ouvira o nome de Samuel Paty. Mas fundamentalistas islâmicos, fichados nos serviços de segurança por serem radicalizados, chamaram sua atenção. O professor, como fazia todos os anos, teria cometido o “crime” de mostrar aos alunos as caricaturas de Maomé numa aula de Cidadania, a propósito da liberdade de expressão. Teve o cuidado de advertir os alunos muçulmanos para que pudessem sair da sala de aula se quisessem. Mesmo assim, alguns pais de alunos, islâmicos integristas, se insurgiram nas redes sociais, alegando blasfêmia. O pai de uma menina, que nem sequer era aluna de Paty, colocou nas redes sociais um vídeo em companhia de um conhecido islamista, denunciando o professor e exigindo sanções. Em um outro vídeo, o agitador afirmava que o professor havia mostrado fotos de um homem nu, simbolizando o profeta. Mentira.
As caricaturas em questão já tinham sido usadas como desculpa para o atentado ao Charlie Hebdo cinco anos antes (12 mortos) e à recente agressão a dois jornalistas, apunhalados em frente ao antigo prédio do jornal.
A França é tida como o país que mais leva a sério a questão da laicidade, baseada na estrita separação entre o Estado e o divino e na liberdade religiosa, dentro do respeito individual. Laicidade é um dos pilares da République Française. Respeita-se o direito de cada indivíduo praticar ou não uma religião.
Em nome desse respeito, ao contrário do que acontece em outros países, na França a blasfêmia não é punida. Aliás, a sátira não é reservada ao fundamentalismo islâmico. Não passa uma semana sem que Charlie ou o Canard Enchainédesacate indiferentemente um rabino, Moisés, um monge budista, Sidarta, Jesus, o papa.
O problema é que uma minoria de islâmicos radicalizados (nada a ver com a imensa maioria da população muçulmana francesa) se nega a obedecer as leis do país. Defende uma espécie de separatismo (termo utilizado por Emmanuel Macron), e exige que a charia, a lei islâmica, seja superior à Constituição.
Certos imãs pregam a desobediência civil e a violência contra os infiéis, em nome da leitura de uma versão radical e polêmica do Alcorão. Isso fez com que algumas mesquitas fossem fechadas.
Na verdade, o tema da radicalização islâmica foi ignorado por governos anteriores, abandonado entre as mãos da extrema-direita, cuja propaganda fazia um nauseabundo amálgama entre o fundamentalismo e a comunidade muçulmana como um todo, para desembocar na condenação generalizada da imigração. Para evitar entrar no jogo de Marine Le Pen, optaram por fechar os olhos. Consequência: o tumor cresceu e criou metástase.
Mas verdade seja dita: não foi só a radicalização islâmica que decapitou Samuel Paty. Embora quem apontou para o alvo tenha sido os agitadores, acompanhados dos pais mais ofendidos com a exibição das caricaturas, é preciso levar em conta que vivemos num mundo onde os conteúdos de ódio se tornaram virais. A violência, ao extremo da decapitação, é resultado e causa, num círculo vicioso.
Como escreve a economista Maria João Marques no jornal Público, de Lisboa: “Não é a primeira vez que as palavras de incentivo ao ódio levam a atos de violência e a mortes.”
As Nações Unidas, em seu boletim ONU Info do mês de fevereiro, foi categórico: “La haine sur les médias sociaux contribue directement à la hausse des crimes de haine contre les minorités”, em tradução livre O ódio nas redes sociais contribui diretamente ao aumento dos crimes de ódio contra as minorias.
Muitas vezes, a violência se limita às campanhas de assédio e ódio online. Em outras porém, as palavras de ódio frutificam. Jovens fragilizados e pessoas fanatizadas, prontas a endeusar mitos, se deixam enredar em ideologias promotoras de violência, tomam como ordens o ódio vomitado por terceiros, frequentemente por líderes populistas da hiperdireita como Trump e Bolsonaro.
Em agosto, em meio a protestos por um homem negro ter sido alvejado pelas costas pela polícia americana, um adolescente armado, de 17 anos, matou duas pessoas e feriu uma terceira. Ele tinha viajado do Illinois ao Wisconsin, onde ocorriam os protestos, para impor a ‘lei e ordem’ – o mantra de Trump contra os Black Lives Matter.
Não foi tampouco por acaso que o número de assassinatos explodiu no Brasil de Bolsonaro, apesar da pandemia.
O ódio alimenta a violência dos islamistas radicais bem como da extrema-direita hipernacionalista e retrógrada. Ambos partilham ideias e ódios. São visceralmente contra a modernidade, a inclusão, a liberdade sexual. Usam a religião – muçulmana num caso, evangélica no outro – como forma de organizar cruzadas, que via de regra nada têm a ver com os valores religiosos.
A este título, o exemplo da ministra Damares no recente episódio da menina grávida, de 10 anos de idade, estuprada pelo tio, foi exemplar. Apesar do direito ao aborto ser reconhecido pela lei e pela Justiça, a ministra da goiabeira insistiu em levar a gravidez até o fim, tratou o médico e a menina de assassinos e, em total ilegalidade, divulgou o nome e o paradeiro da criança para a então bolsominion Sara Winter, formada por neonazistas ucranianos do movimento militar Azov e líder do grupo supremacista 300 do Brasil.
Esse ódio é o mesmo partilhado pelos fundamentalistas islâmicos e radicais de direita em relação aos gays, às feministas, aos transexuais, aos negros, aos democratas, enfim, a toda e qualquer alma que seja diferente da sua e não queira viver na Idade Média. É o ódio que mata e decapita.
por Mauro Nadvorny | 20 out, 2020 | Brasil, Comportamento, Mundo, Opinião, Política
Nas últimas semanas tivemos episódios talvez inéditos, envolvendo publicações científicas que expressaram em seus editoriais e artigos opiniões políticas e sobre a política, no contexto da pandemia de COVID-19, que certamente só causou até agora o volume de danos e perdas pelas omissões e ações de governos irresponsáveis e desumanos, na saga negacionista em relação à ciência, à história e mesmo aos mais evidentes fatos.
A iniciativa dos periódicos Lancet, New England Journal of Medicine e Nature foi contundente. Em pelo menos um caso, o da revista Lancet, uma forte reação de dois grupos de médicos brasileiros protestou contra o que foi rotulado como uma “intromissão política indevida” para um periódico científico, que nos dois casos foi literalmente instado a não manifestar-se sobre isso.
Um dos subscritores da reação à Lancet é amigo pessoal deste autor, e ocupa posição destacada no meio científico médico brasileiro, e desta amizade de longa data surgiu então um intenso debate sobre a polêmica. De um lado, penso que em um ambiente onde a ciência é negada, atacada e negligenciada enquanto fonte de informação para ações políticas em saúde pública que venham a proteger governados, cabe sim a reação dos veículos legitimadores do conhecimento médico científico. Afinal, se a ciência não tiver como objeto o progresso da humanidade e seus frutos não se transformarem em fomento técnico de bem-estar e segurança pela instrumentação política, estará decretado o seu fim, bem ao gosto do neofascimo hoje à beira da institucionalização. No outro lado, meu velho amigo impugnando a resposta política da ciência, insistindo em uma separação total dos territórios, com uma visão de mundo que isola a ciência da vida real e cotidiana e a coloca em um verdadeiro altar onde os dados e números são de pureza absoluta e totalmente desarticulados do universo político. Tudo se passa como se a carreira acadêmica máxima que fez em instituição pública bem como as verbas que recebeu para suas pesquisas no ambiente da universidade pública nada tivessem a ver com a atividade política ou com a visão de estado daqueles que tomam as decisões sobre os investimentos. Tudo também se passa como se a ciência não necessitasse do processo de debate político para que seus conhecimentos sejam incorporados à vida do cidadão comum, às mudanças de práticas e hábitos, à formulação de leis e políticas de estado.
Paul Feyerabend, falecido professor de filosofia em Berkeley deixou uma vultosa obra que nos clarifica de forma paralisante o mundo onde a ciência tomou o lugar da religião seguindo hoje como verdadeira fonte de poder econômico e…político! Ele nos adverte sobre o tipo de conhecimento que a ciência vem desenvolvendo principalmente no mundo ocidental e capitalista, em um círculo vicioso de financiamento/empoderamento e formação de monopólios de saber que literalmente estão ditando os rumos da humanidade. Não bastasse isso, para aquele autor a ciência reclama permanentemente a si mesma a chancela do conhecimento, criando barreiras a qualquer outra forma de apreensão e compreensão do mundo e da vida que não passe pelo crivo cartesiano. Vale a leitura de suas obras “Como proteger a sociedade da ciência” e “Adeus à razão”.
Meu amigo parece não aperceber-se de que sua (entre outras tantas) vida está condenada em um mundo onde a ciência é atacada, não por aqueles que como Feyerabend possuem uma visão crítica necessária a uma revisão sobre o lugar, o poder e as dimensões da ciência na sociedade moderna, mas por aqueles que certamente não têm alcance mental para compreender o que é ciência e muito menos para fazer uma crítica qualificada. O ataque vem das sombras, das trevas, dos saudosos de tempos de ódio e barbárie, e se não defendido pela ciência, será vitorioso, como mostra a tragédia da pandemia atual.
Diante da desfaçatez do governo brasileiro, que divulgou ontem um estudo dando conta da “eficácia da Nitazoxamida” no combate ao COVID-19 sem apresentar uma única estatística ou debate, provoquei o meu amigo novamente, instando-o a mandar uma carta para o Ministério da Ciência e Tecnologia protestando contra a intromissão de políticos no mundo da ciência, em situação absolutamente simétrica à que ele denunciou antes. A resposta foi de causar frouxos de riso. Para ele, não é papel dele fazer esta reclamação, mas sim dos políticos profissionais, mostrando de forma pornográfica a sua visão fragmentada de mundo, de ciência, de cidadania, de médico e do complexo universo onde vivemos.
Destas conversas que se estenderam por dias, resta a visão de que o meu romântico mundo cultivado durante tantos anos desde o meu ingresso na faculdade de medicina pariu muitos filhos que voluntariamente se puseram na condição de órfãos. O que é verdadeiramente assustador.
A revista Nature, talvez encerrando o episódio, publica na semana que passou um statement: “Está cansado da negação da ciência? Pois abrace a política!”.
Que alívio.
NELSON NISENBAUM
por Mauro Nadvorny | 20 out, 2020 | Brasil, Comportamento, Opinião, Política
Ainda há aqueles que, como o presidente do PSDB (outrora um partido de aparência respeitável), defendem o diálogo com o capitão, em nome da concórdia. Como se isso fosse possível. Conversar seriamente com Bolsonaro é o mesmo que negociar com o Estado Islâmico, como havia proposto Dilma Rousseff, na tribuna da ONU.
O presidente é a encarnação do mal, pelo que faz, pelo que não faz, pelo que diz, pelo que silencia.
O papel do presidente da República não é apenas fazer, ou seja propor reformas através da lei. Longe disso. A comunicação talvez seja hoje ainda mais importante.
A respeito, todos os líderes populistas, de Trump a Bolsonaro, passando por Modi, Orban, Salvini, Le Pen, não se comunicam pelas regras clássicas. Ignoram os canais tradicionais para se dirigir diretamente ao povo, ou melhor ao seu eleitorado, sobretudo através das redes sociais. O pior é que dizem tudo o que lhes vêm à cabeça. E temos aí um problema seríssimo. Por que? esqueçamos por um minuto Bolsonaro, hors concours. Falemos de Trump. O presidente dos USA, tempos atrás, lançou uma ideia que lhe veio à cabeça no meio de uma coletiva de imprensa: injetar desinfetante no corpo para limpar os pulmões do coronavírus. Lembram-se? Dois dias depois, vendo que a loucura que disse afetava a sua campanha eleitoral, voltou à público dizer que se tratava de “sarcasmo”. Pois bem, nesse meio tempo, muitos americanos, acreditando no presidente, tomaram desinfetante; houve inúmeras internações em hospitais (que já estavam abarrotados) para salvar os seguidores cegos de Trump.
Isso mostra o grau de responsabilidade de um presidente da República. Ele não é um cidadão comum, não tem o direito de dizer o que lhe vem à cabeça, sua palavra não tem o mesmo peso da palavra dos polemistas de mesa de bar. Sua palavra, como os seus atos, tem enorme valor simbólico. Governa-se através deles.
Em bom português, um presidente da República não pode colocar nas redes sociais um vídeo de “golden shower“. Não é que ele não deva, ele não pode, não tem esse direito. Não tem o direito de dizer que para combater o aquecimento climático vamos fazer cocô um em cada dois dias. Ele não pode mandar publicar no Diário Oficial um ato com assinatura que não seja a sua. Ele não pode dar banana para os jornalistas, mandar a imprensa calar a boca, dizer que tal jornalista é gay, ameaçar enchê-lo de porrada, fazer brincadeira de cunho sexual com uma jornalista, nem colocar os jornalistas num cercadinho disputando a palavra com os seus apoiadores. Simplesmente não pode, pois agindo dessa maneira desrespeita uma instituição – a imprensa – sem a qual a democracia não existe. E assim, desrespeita a Nação. Um presidente não pode escolher quais os veículos que participam das coletivas nem reservar a publicidade oficial para os amigos do rei. Não pode transformar uma mídia de serviço público em estatal a serviço do Planalto. Isso é, sim, violação da liberdade de imprensa.
Não pode atacar o Congresso nem a Corte Suprema, a quem deve respeito e obediência, afinal o STF, como bem disse Rui Barbosa, é a última autoridade com direito a errar.
O presidente não pode dizer que a facada que levou deve ser investigada e a morte da Marielle não; não tem o direito de defender milicianos, cuja atividade é ilegal; não pode nomear um nazifascista para ministro da Cultura nem um ministro da Saúde que não entende nada do assunto em plena pandemia; não pode tecer elogios rasgados ao general Pinochet, Alfredo Stroessner, nem a Carlos Brilhante Ustra. A apologia à ditadura militar é crime no Brasil, previsto na famigerada Lei de Segurança Nacional (Lei 7.170/83), na Lei dos Crimes de Responsabilidade (Lei 1.079/50) e no próprio Código Penal (artigo 287).
O presidente não pode responder E daí, dando de ombros, quando é indagado sobre a escolha, para diretor geral da PF, de um amigo do filho que está sendo investigado; não pode indicar para o Supremo um farsante plagiador recomendado pelo mesmo filho; não pode ignorar que a primeira-dama recebeu em sua conta dinheiro suspeito; não pode dizer que a pandemia é um resfriadinho, porque os seus apoiadores incondicionais passam a desrespeitar o isolamento correndo soltos rumo ao risco de morte; não pode mostrar desprezo para com os mortos da Covid 19.
Esses e centenas de outros atos e palavras de Bolsonaro tiveram e continuam tendo enorme influência na vida das pessoas, na forma delas pensarem e agirem. Isso também é governar. Ele cometeu e comete diariamente atos de violação à Constituição. O exemplo que dá é o pior possível, menosprezando a exemplaridade, que faz parte da governança. Assim como os ritos, que foram jogados na lata do lixo.
Por que o problema, meu amigo, é que milhões de pessoas acreditam nele, se identificam com ele e saem por aí, em nome dele desrespeitando a lei, promovendo a desobediência civil, o Estado de Direito e as regras básicas da vida em sociedade. Essas pessoas dizem – e com certa razão – Se o presidente pode, eu posso.
– Se o presidente da Fundação Palmares pode chamar o movimento negro de “escória maldita”, eu também posso ser racista.
– Se o general Heleno pode lançar apelo ao golpe, eu posso defender a ditadura.
-E se o general Mourão pode defender o torturador Ustra, eu posso sair por aí distribuindo porradas.
Acontece que o capitão e seus asseclas cometem crimes cotidianos, até agora impunidos. Enquanto o cidadão comum corre o risco de ser seriamente sancionado.
Bolsonaro considera que só tem de prestar contas ao seu eleitorado cativo. Também acredita que membros nomeados de seu governo, servidores públicos, deputados e senadores eleitos em sua esteira devem lealdade a ele, e não ao país. Para tanto, conta com um cúmplice de peso na pessoa do Procurador Geral da República, fiel dentre os fiéis.
Hoje temos no Brasil dois lados: um movido a fanatismo e ódio, outro a angústia e desespero. Perdemos a racionalidade. Estamos num vale-tudo, que pode nos levar ao abismo. Nesse Brasil enclausurado só há uma porta, que indica a saída, o mais rapidamente possível, desse descerebrado chamado Jair Messias Bolsonaro que, apesar do nome, como ele próprio indicou, não faz milagres. O importante é que vá embora o quanto antes e que assim possamos tentar salvar a democracia. Se assim não for, como parece que não será, que ao menos seja derrotado, de preferência fragorosamente, daqui a dois anos. É o mínimo que os democratas, inclusive de direita, devem esperar. Mas será que em 2022 o capitão, os militares, os evangélicos, a bancada da bala e do boi, os milicianos largarão o osso por uma simples questão matemática do número de votos nas urnas?
É sempre bom lembrar que o poder tem gosto de mel e quem se lambuza fica viciado.
por Mauro Nadvorny | 17 out, 2020 | Comportamento, Mundo, Opinião
As Fake News já se tornaram uma indústria. Podem ser encomendadas de acordo com a necessidade do cliente. Em breve vamos ter aplicativos que por um valor mensal, o cliente ganha o direito de utilizá-lo criando suas próprias notícias. Provavelmente até templates vão estar disponíveis, o que numa situação curiosa, será possível receber a mesma notícia falsa de campos ideológicos diferentes e em vários idiomas.
Esta semana, o presidente americano retuitou uma mensagem onde informava que o Bin Laden, morto em maio de 2011, era um dublê e que naquela ação, Obama e Biden teriam escondido a morte de 6 Seals, uma tropa de elite da marinha estadunidense que de fato matou o verdadeiro Bin Laden sem nenhuma baixa.
A notícia é tão bizarra, que até mesmo os canais de mídia favoráveis a Trump se arrepiaram. O presidente, confrontado, disse que apenas retuitou e que cabe as pessoas decidirem se acreditam, ou não.
O papel aceita qualquer coisa, quem nunca escutou isto? Todo dia milhares de currículos são manipulados para terem mais peso. Quem faz isso cria uma informação falsa para maquiar sua vida pregressa. O fazem desde o mais simples dos cidadãos, passando por profissionais renomados chegando a nomeados para assumirem uma cadeira no STF. Seria o caso de as pessoas decidirem se acreditam ou não?
As teorias conspiratórias sempre existiram, não são nenhuma novidade, a Internet deu a elas a visibilidade que antes era restrita a poucos idiotas. Agora todos tem acesso a todo tipo de conspiração secreta, e quanto mais secreta, ou seja, não ser divulgada pela mídia tradicional, mais verdadeira ela se torna. Assim, o homem nunca pisou na Lua, a Terra é Plana, os Judeus dominam o mundo, Soros é dono do Partido Democrata Americano, os Maçons estão por trás de grandes eventos, os Templários existem até hoje e por aí vai.
Eu sou da época em que os primeiros computadores eram do tamanho de um elefante. Lembro da IBM, um símbolo da indústria de computadores que não acreditavam em computadores caseiros. Ken Olson que presidia a Digital Equipment Corp em 1977 dizia então “Não há nenhuma razão para alguém querer um computador em casa”. Ainda bem que alguns jovens usando a garagem de suas casas pensaram diferente.
Com a chegada dos computadores alguém teve a ideia de interligá-los e nascia a Internet. Agora era possível interagir com outras pessoas e receber de graça o que antes era pago: a informação. Quem desejava se manter informado precisava ler os jornais, agora não mais, a informação chegava em tempo real. O que antes era somente possível pela TV ou pelo rádio, agora se tornava livre.
Junto com os computadores, chegaram os vírus de computador. É impressionante, mas a popularização da computação trouxe consigo uma nova maneira de prejudicar as pessoas. Os vírus de então simplesmente se multiplicavam ocupando todo o HD, acabando por travar a máquina. Era preciso chamar um técnico para “desinfetar” e ter de volta o espaço perdido. As pragas de então se proliferavam através de disquetes infectados que passavam de máquina para máquina. Logo surgiram os antivírus profissionais para ajudar a combater este mal, que se antes eram apenas uma diversão de alguns nerds, se tornou hoje uma indústria de extorsão. As Fake News de hoje são a nova praga da vez.
Tudo vem com preço. A informação, mais do que nunca, se tornou manipulável de acordo com os interesses de quem as divulga. E não se trata de perspectiva, quando um mesmo fato pode ser explicado de maneiras diferentes de acordo com a perspectiva de cada um. Se trata de intencionalmente distorcer, ou mesmo criar do zero, informações que vão se tornar notícias e viralizarem nas redes sociais. Usando inicialmente robôs, logo a seguir os idiotas de sempre, vão se propagando.
E elas são disseminadas até mesmo por presidentes de países como o Brasil e os EUA. Se um presidente está divulgando, deve ser verdade, afinal de contas um presidente é uma pessoa de conduta exemplar. E eles fazem isso quase que de maneira articulada. Desta maneira podemos a mesma notícia falsa de que a “oposição de esquerda” é composta de pedófilos, aqui, nos EUA, em Israel, na Hungria, na Polônia etc. É a universalização criminosa das Fake News vinda do mais alto escalão de cada país.
O custo desta nova indústria é coberto por figuras ligadas a extrema direita. Eles possuem bilhões de dólares a sua disposição e fazem uso deste capital com propósitos muito claros. Difamar, demonizar a esquerda e abrir caminho para os neoliberais se acomodarem, tomarem de assalto as grandes empresas nacionais pagando muito menos do que valem. Assim eles vão se “adonando” do petróleo, da energia, das aposentadorias, da saúde, da educação e da água. O que antes era patrimônio do povo, agora é patrimônio de poucos.
A verdade é que o Covid-19 é uma criação deliberada dos neoliberais para estancarem as economias mundiais reduzindo o valor das empresas governamentais. Com a economia arrasada elas vão sendo adquiridas por valores irrisórios. Eles pagaram milhões de dólares para um laboratório chinês criar o vírus. De quebra, vão ganhar bilhões com a venda das vacinas.
Atenção: este parágrafo acima é uma Notícia Falsa! Mas é assim que eles as criam. Uma boa notícia falsa é composta de um fato verdadeiro, de uma meia verdade e da mensagem mentirosa que se deseja passar.
O Covid-19 está tirando vidas, mas os neoliberais com suas Fake News estão matando o futuro. A vacina é o voto na esquerda!
por Mauro Nadvorny | 12 out, 2020 | Comportamento, Mundo, Opinião, Política
O que poderia salvar Donald Trump do desastre eleitoral anunciado? Os analistas dos grandes jornais do mundo e universitários “experts” em política norte-americana tentam, nesta reta final, identificar um acontecimento extraordinário capaz de inclinar a balança a favor do presidente. Em vão. A diferença apontada nas mais recentes pesquisas, 12%, é tal que só mesmo algo inimaginável poderia tirar a vitória de Joe Biden no próximo dia 3.
A situação seria diferente de 4 anos atrás, já que Trump é dado como perdedor no cômputo geral, mas também nos decisivos swing states. Numa eleição “normal”, diríamos que a sorte está lançada e que os democratas voltarão ao poder após os anos mais estranhos da história recente dos Estados Unidos, em que a democracia foi colocada em cheque como nunca e só não soçobrou graças à força das instituições e dos contra-poderes representados pela sociedade civil. Acontece que esta não é uma eleição “normal”.
Estamos diante de um fenômeno com uma carga passional quase patológica. Por isso, um pouco de prudência não faria mal a ninguém. Há 4 anos, sempre é bom lembrar, os analistas diziam que Hillary estava eleita. De qualquer forma, repito, esta não é uma eleição normal.
Como escreve Thomas B. Esdall no New York Times, “Em ambos os campos, muitos encaram estas eleições em termos apocalípticos: elas decidirão do sucesso ou do fracasso dos Estados Unidos. Para a extrema-esquerda, uma vitória de Trump abriria caminho a uma ascensão do fascismo. Para extrema-direita, a vitória de Biden e Kamala Harris significaria a “ascensão do comunismo e a anarquia.”
Na visão do historiador português José Pacheco Pereira, a fratura eleitoral mais aguda nos EUA nessas eleições de 2020 é a que separa os eleitores brancos sem escolaridade de todos os outros. Para os “deploráveis”, há aqui duas perdas: ser branco e já não ter os privilégios de o ser, face aos negros, aos latinos e a todos os “não americanos”; e ser trabalhador manual, não ter um diploma e por isso ser marginal na sociedade, estar fora da elite.
Eles, os brancos sem diploma e raiva de todos os demais, que formam o fiel eleitorado de Trump, são capazes de segui-lo cegamente na pior das aventuras.
Face ao cenário atual, o ocupante da Casa Branca se nega a descartar a opção do péssimo, a tentação de lançar o país no caos. Não é impossível que na madrugada do dia 4 tenhamos dois candidatos anunciando a vitória. Até agora Donald Trump agiu como um piromaníaco, recusando-se, ao contrário do seu adversário, a dizer se acatará o resultado das urnas e denunciando uma tentativa democrata de preparar uma enorme fraude eleitoral, através do voto por correspondência. Se perder, não garante uma transição pacífica.
Nesse tempo de pandemia, grande número de americanos prefere votar por correspondência, evitando assim a ida aos colégios eleitorais. A maioria destes, atualmente em quarentena, vota Biden. Por isso, ele imputa ao voto por correspondência a tentativa de fraude.
Uma abstenção recorde seria a derradeira esperança de Trump.
Não se deve descartar uma derradeira jogada de Trump, pois dele pode se esperar tudo, a começar pelo menos recomendável. Em caso de vitória democrata por pequena margem, ele poderá se autoproclamar vencedor, desacreditando a legitimidade da vitória de Biden, do processo eleitoral e da própria democracia americana.
“Se o vencedor não for imediatamente claro, o país mergulhará em semanas ou meses de incerteza”, prevê a revista Time, ao advertir: “Devemos estar preparados para um cenário de caos”.
O jornalista Barton Gellman escreveu um ensaio, publicado no jornal The Atlantic, em que faz previsões apocalípticas: “The election that could break América” – A eleição que pode fraturar a América, em tradução livre.
Donald Trump sabia que para recuperar terreno precisaria evitar que o final da campanha ficasse centrado na pandemia; assim, ficaria de mãos livres para atacar seu adversário no terreno escorregadio das fake news. Mas foi o inverso que aconteceu. Após 215 mil mortos, ficou difícil negar sua responsabilidade na condução da guerra contra o coronavírus. Trump, é claro, não a reconheceu e, assim como seu grande amigo Bolsonaro, tentou jogar o fardo dos mortos sobre os ombros dos governadores. Mas a maioria dos americanos não engoliu a insistente minimização do risco.
Infectado, o candidato à reeleição não pode escapar do assunto e, como quase sempre quando pressionado, cometeu várias gafes monumentais ao encorajar a população: “Não tenham medo da covid.”
Como se o vírus pudesse ser combatido e derrotado pela simples determinação do doente, pela força da vontade. Quis vender a imagem de um herói invencível, passou a impressão de um sujeito desesperado e risível. Ficou refém da pandemia.
A imagem que deixou foi tragicômica. Falando para a sua “base”, Trump subiu à varanda da Casa Branca, num ato político retirou a máscara diante dos apoiadores e imitou a pose de Benito Mussolini com cara de imperador romano e ar de mau. Insensato, prometeu fornecer de graça aos velhos seu remédio milagroso. E para concluir, recusou-se a participar de um segundo debate online: “Não sou contagioso”; disse o charlatão, dando-se ares de especialista em corona.
Foi patético.