por Richard Klein | 26 dez, 2020 | Brasil, Comportamento, Crônica, Opinião
Quem passava o verão em Porto Seguro eram turistas convencionais do Brasil inteiro. A gente estava ali para se juntar à malucada de Ajuda e Trancoso, por isso dois dias depois estavamos de saida. Só que o retorno foi decepcionante. O paraíso de dois anos atrás parecia um outro lugar. Agora a principal atividade era o turismo. A temida luz elétrica já havia chegado e, com uma balsa melhor, havia carros estacionados por tudo quanto é canto. A vila estava abarrotada e tinha se tornado muito mais estruturada com bares mais elegantes, restaurantes e pousadas exclusivas. É claro que a inflação de vinte procento ao mês tinha chegado lá também e tudo estava mais caro. Cheguei a perguntar por pescadores que conhecia e descobri com tristeza que a maioria tinha deixado o vilarejo depois de vender seus barcos e suas casas a preço de banana.
Para mim, a santidade do lugar estava sendo ofendida pelo clima semi urbano e por cortes de cabelo estilo anos 1980 e a maquiagem gótica que alguns visitantes – e até mesmo alguns jovens da terra – estavam usando . Não queria ter contato com a maioria das pessoas ali e o sentimento parecia mútuo.
Para piorar as coisas, comecei a reparar que a agenda do Pedro na viagem era a de se enturmar com o pessoal mais “interessante”, leia-se mais abonado, ligado às artes, à neo-sofisticação mística-zen e em produtos alternativos. Essa turma era mais velha e com vidas estáveis. No geral estavam o mesmo circuito que a gente, só que de carro e parando em pousadas confortáveis.
Em Ajuda havia agora uma hierarquia ditando que aquele grupo era melhor que o resto. Eles alimentavam esta percepção se isolando em pousadas exclusivas e em praias afastadas, igual ao que o Gabeira tinha feito a dois verões passados. Para Pedro, seu público alvo era uma porta de entrada para um mundo de conforto financeiro e de sucesso profissional. Não que tivesse qualquer coisa contra aquelas pessoas, mas amizades por interesse não tinham nada a ver com o que estava fazendo ali.
À noite, com todos relaxados pelos dias mágicos daquelas praias, as pessoas se juntavam em rodas de violão num espírito mais comunal. Afinal de contas, esse sentimento era o motivo pelo qual todos tinham viajado de tão longe. Nessas horas, ficava claro que todos estavam atrás de uma experiência parcida com a que eu tinha tido na primeira vez, só que para mim aquela energia já tinha alçado voo.
Contudo, a magia eterna da música continuava viva e com esforço e sinceridade dava para fazê-la presente de novo. Naquele segundo verão em Ajuda, já tocava faziam cinco anos. Tinha melhorado a técnica e tinha incluído um monte de músicas e estilos novos no repertório. Também estava começando a dominar as manhas de cativar o público, algo aprendido em rodas e festinhas da escola e agora da faculdade. Quando um pequeno público se juntava a volta, era com o maior prazer que tocava noite à fora. Com alguns bares agora pagando músicos amplificados, as sessões aconteciam na praia onde a luz elétrica ainda não tinha chegado. Era comum encontrar um ou outro cara com um instrumento. A gente saía tocando e o pessoal ia se chegando. Se rolasse o clima certo, saía cantando.
Começava com músicas mais intimistas e psicodélicas como Terra, de Caetano Veloso, Caravana, de Geraldo Azevedo e Chão de Giz, de Zé Ramalho. Conforme a atenção ia aumentando, tocava algumas do Milton Nascimento, do Beto Guedes, dos Secos e Molhados, do Fagner e do Belchior. Depois de estabelecer o clima, introduzia uns clássicos da bossa nova como Wave e Garota de Ipanema. Do início suave, engrenava numa parte mais ritmada: músicas dos Novos Baianos e do Djavan, forrós de Luiz Gonzaga, algum rock nacional da Rita Lee e do Raul Seixas. Animado e cantando junto, o pessoal estava pronto para sucessos mais ritmados do Gilberto Gil e do Caetano Veloso. Com todos em ritmo de festa, mandava canções carnavalescas de Alceu Valença e de Moraes Moreira e para fechar a noite recorria ao Jorge Ben.
Havia vários músicos na area. Às vezes, não era eu no volante e quando isso ocorria fazia o mehor para adicionar lenha à fogueira música para que a magia acontecesse e que Ajuda voltasse a ser Ajuda. Era uma alegria sentir as pessoas serem maiores do que a aura negativa tomando conta do pais, voltando a ser elas mesmas e curtindo junto sob o céu estrelado.
Nem todos apreciavam a este experiência. Ficar ouvindo um violeiro acústico era considerado ultrapassado por muitos, principalmente pelos mochileiros heavy metal acampados no mesmo terreno baldio onde outrora tinha dividido a cabana com as brasilienses. Durante o dia, o clima era horrível: a praia vivia lotada e barulhenta. Gente das cidades vizinhas chegava de carro e, para se mostrar, ligavam o som nas alturas colocando música para lá de brega. Na vila, havia muita gente agressiva, ninguém se conhecia direito e o pessoal da terra estava antipático e dinheirista. O Arraial d’Ajuda estava estragado e queria ir embora. Trocar Ipanema por aquilo não fazia sentido.
Não era possível que Trancoso fosse dar tanta decepção. A eletricidade ainda não tinha chegado lá e o acesso continuava difícil. Mesmo se esbaldando em encostar no monte de gente “interessante” passando o verão em Ajuda – que eram as pessoas que mais gostavam do que eu tocava – Pedro também estava de saco cheio de ser tratado como um turista. Foi fácil convencê-lo de que se trocassemos de vila, a experiência seria mais autêntica, mais em conta e haveria um número igual ou talvez maior de pessoas “interessantes” para conhecer.
*
Dessa vez não foi necessário cruzar rios profundos no meio do nada e no escuro, afinal tínhamos uma barraca que montamos num canto do quadrado assim que chegamos. Contudo, as coisas haviam mudado em Trancoso também. Não encontrei ninguém conhecido e até o dono do bar havia mudado: Seu Manuel tinha sido substituído por um sujeito sizudo e antipático de Eunápolis.
Em nossa primeira noite tivemos uma introdução à nova realidade. Estava dormindo e o Pedro me cutucou: “Aê, Rique, tu ouviu isso? ”
Confuso e meio puto por ter sido acordado perguntei: “O que?”
Ele sussurrou: “Tem alguém mexendo com as nossas paradas lá fora.” Fiquei alerta na hora. “Shhh, abre a barraca quietinho e vamos pegar esse merda agora.”
Segurei no zíper da barraca e abri o mais rápido e mais silencioso possível, só que o cara ouviu, tomou um susto e saiu correndo. Quando conseguimos sair da barraca já era tarde demais. O louro falso de cabelos encaracolados e de shorts já estava longe, correndo protegido pela luz da lua.
O Pedro ainda gritou: “Volta aqui, ladrão filho da puta!”
A gente tinha dormido com nossas carteiras dentro da barraca por precaução. De qualquer forma, fomos checar as mochilas e foi um alívio ver que ainda estava tudo lá. No dia seguinte, vimos o ladrãozinho na praia todo enturmado jogando vôlei com a moçada. Como não podíamos provar nada, a única coisa ao nosso alcance foi ficar encarando ele com a cara fechada, o que ele fingiu ignorar.
Tomar cuidado para não roubarem minhas coisas não foi a única coisa que aprendi naquela noite. Quando começou a clarear me dei conta que os mosquitos de Trancoso usavam as barracas dos campistas como centros de convenções. A claridade revelou um tapete deles cobrindo as paredes de nylon. Da outra vez, não tinha sido assim no barraco no meio do mato, devia ser o abafado quente que os atraía. Depois de ver aquilo não dava mais para dormir ali dentro. A única maneira de conseguir algum alívio foi sair com o saco de dormir, se deitar na sombra de uma casa e deixar que o vento os levasse.
*
Ao contrário de mim, um vara pau desengonçado em quem se podia contar as costelas e com cara de viajandão, Pedro tinha o corpo de um jogador de polo aquático. Com olhos pequenos e maliciosos, voz grave, pele cor de caramelo e cabelos encaracolados meio louros, ele fazia sucesso com o sexo oposto. Com um talento natural para aquilo, era supertranquilo, ia direto ao ponto e sabia as palavras certas e a hora certa de dizê-las.
Depois de uma semana e pouco no Sul da Bahia, os insetos e os ladrões não eram as únicas coisas me incomodando: minha falta de sucesso com as mulheres comparada com os triunfos dele estava difícil de digerir.
À noite, enquanto ele se dava bem, quando não estava tocando e todos estavam se divertindo perto de fogueiras, ocasionalmente a seriedade da minha situação fora dali tomava conta de meus pensamentos. Como seria o futuro naquela faculdade que não era para mim? O que aconteceria com a crise econômica cada vez pior e com a idade do meu pai avançando? Onde estava a namorada que se importava comigo e que gostava das mesmas coisas que eu? O quanto as coisas teriam que piorar até que elas começassem a melhorar?
Me sentia como se tivesse alcançado o topo de uma montanha em meio a uma linda paisagem para descobrir que do outro lado havia um depósito de lixo. Aqueles problemas eram como a parede de mosquitos na barraca: podia espantá-los temporariamente, mas eles voltariam não importa o que eu fizesse.
Muitas pessoas estavam na mesma situação: essa era uma geração de classe média órfa da prosperidade e da ideologia libertária e igualitária dos anos 70.Agora estava desprotegida da crise econômica e despreparada para lidar com ela. Alguns nos viam como um nicho de mercado. Um dos exploradores era Rajneesh, atualmente Osho, um guru indiano radicado nos Estados Unidos. Em Trancoso, só se falava dele. Baseando-se na psicologia ocidental e em filosofias orientais, ele pregava que o caminho para a iluminação espiritual era através da aniquilação do ego por meio da exaustão da libido. Criador de uma seita mundial em torno dessas teorias, suas terapias tinham forte conotação sexual, algo que duvidava ser autêntico na sociedade tradicional hindú. Naquele verão havia inclusive vários iniciados e iniciadas usando camisa/uniformes laranjas e carregando um colar de contas com a sua foto. Cheguei a ler alguns do seus livros; eram tão bem escritos que cheguei a ficar tentado a participar – muitas gostosas estavam fazendo isso – mas o preço exorbitante dos encontros e estadias nos seus Ashrams me convenceu a ficar de fora.
Havia paralelos entre a filosofia do mestre indiano com o discurso do Gabeira. Os dois pregavam mudanças pelo uso do corpo. A diferença era que o ex-exilado estava interessado em se promover como autor e como político enquanto a seita era voltada para tirar dinheiro dos seguidores. Encontramos pessoas que tinham chegado a conhecer Rajneesh, ou o Bagwan, pessoalmente no seu centro gigantesco no estado do Oregon, nos Estados Unidos, um caro privilégio. Elas falavam em cair aos prantos ao ver seu olhar “penetrante e amoroso” que havia “libertado suas almas”.
*
As praias de Trancoso continuavam maravilhosas, bem mais tranquilas do que as de Ajuda. Igual ao que tinha acontecido na minha ida anterior, todos frequentavam de dia. Ficávamos sentados – a maioria brancos de centros urbanos – conversando, olhando para o horizonte azul claro e curtindo a brisa suave nos refrescando enquanto balançava as árvores e o verde logo atrás. Num flagrante contraste com minha primeira visita, ao invés de falar das maravilhas do aqui e agora, o assunto principal eram os livros daquele guru estrangeiro, velho e barbudo e as suas terapias tântricas para alcançar a iluminação espiritual. Nas cabeças daquelas pessoas ele era o único que, por uma quantia fixa, podia deixá-los em um estado de paz semelhante ao que tinha sentido apenas por estar sentado ali há dois verões atrás. Para começar um quebra-pau ou se tornar impopular com a galera, era só lembrar que ele estava desfrutando o seu sucesso em outro país, sendo conduzido de Rolls Royce no seu Ashram dando tchauzinho para seus seguidores que pagavam uma pequena fortuna para estar ali.
Eu ficava na minha, pensando que esse era “o” produto que todos queriam: se desligar da realidade num orgasmo infinito. Isso não era novidade. Vender uma ficção reconfortante como um refugio de uma realidade hostil já era – e ainda é – feito pelas grandes religiões há séculos. Já tinha problemas suficientes com a minha para brigar com os outros por causa disso.
Era compreensível que em um lugar com Trancoso, ninguém quisesse falar sobre suas angústias naqueles tempos sombrios, mas para que ficar falando o tempo todo sobre o Rajneesh? Meu instinto me dizia que as infelicidades, como as daquele momento, estavam além do nosso controle, da mesma forma que as bênçãos que havíamos recebidos nos bons tempos. Tínhamos o poder de decidir como reagir aos contratempos, mas nenhum guru ou pílula mágica poderia abrandar o que o destino tinha guardado para nós. Podíamos tentar transformar a realidade. Deixar a realidade nos transformar? Para mim, nunca!
…
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por Mauro Nadvorny | 26 dez, 2020 | Brasil, Comportamento, Opinião
E chegamos ao final de 2020, um ano para ficar na história da humanidade. O ano que todos querem esquecer que existiu. Como nos elevadores de certos prédios americanos que pulam do 12º para o 14º, talvez alguns calendários no futuro também pulem este ano.
Ninguém previu a pandemia. Não tivemos adivinhas com suas previsões mirabolantes que sequer tivessem mencionado o que estava por vir. O que passamos neste ano pegou a todos de surpresa, surpreendeu até mesmo os pessimistas de plantão.
Diferentemente de todos os anos a retrospectiva desde que passou será basicamente de perdas. Entre conhecidos e desconhecidos, o mundo já perdeu 1.750.000 seres humanos. Não fosse o avanço da medicina e a chegada da vacina, este número continuaria subindo.
Graças a ciência, o mundo pode receber em tempo recorde a injeção da esperança. A vacina vai salvar vidas e nos devolver parte da vida que tivemos antes. Parte, porque nada será como antes.
Na minha retrospectiva deste ano que vai passar, recordo os tradicionais desejos de saúde e dinheiro no bolso que escutamos na virada de ano. Nunca antes estes desejos foram tão importantes. Saúde foi a maior das bênçãos e dinheiro no bolso, a maior dádiva. Que os digam os que tiveram a doença e os que tudo perderam por causa dela.
Está chegando ao fim, 2021 já bate a nossa porta e desta vez os desejos de um ano bom, são os mais sinceros possíveis. Um ano com saúde, muita saúde e que vacinados possamos recomeçar outra vez.
Passado o pesadelo, vamos lembrar dos que apostaram na vida e dos que apostaram na mentira de uma gripezinha. De todos os males, a falta de atitude de Bolsonaro na prevenção e contenção da doença não vão ser esquecidos. Sua inépcia foi diretamente responsável pela morte de milhares de brasileiros. O Brasil nunca teve um gabinete de notáveis para conduzir o enfrentamento a pandemia.
Bolsonaro jogou o Brasil de volta ao mapa da fome e a economia do país vai levar anos para se recuperar. O abismo que separa ricos e pobres se tornou intransponível. Quem está lá embaixo não tem como subir e não existe planejamento para que isto aconteça. A ideia é de manter a Casa Grande bem suprida e quem estiver do lado de fora no seu lugar.
O ano que vai chegar será um ano de enfrentamentos. Agora o Brasil terá de derrotar a barbárie, não existe outra alternativa. A civilização precisa ressurgir e se impor, ou pior do que a pandemia, a miséria vai tomar conta do país como nunca antes visto. Os primeiros sinais estão aí com grandes empresas abandonando o Brasil. O capital tem um bom faro para apostas e o Brasil não é mais desejável.
O mundo inteiro foi atingido por uma doença, ninguém escolheu receber o vírus em seu território. Ele foi chegando e se impôs. Antes do Covid-19 o Brasil elegeu um verme para presidir a nação. Foi uma escolha democrática, uma decisão que só tornou o pior, muito pior. De uma forma sórdida, com o uso de mecanismos obscuros, com uma tática alienadora, a barbárie impôs seu candidato, de todos o mais impróprio.
A civilização não estava preparada para o que aconteceu. Não soube como enfrentar a guerra de difamações, da mesma forma que a ciência não tinha meios para enfrentar a pandemia. A democracia foi de uma ingenuidade angelical. A ciência achou que podia tratar o mal com aspirina.
Agora temos o conhecimento necessário para solucionar os dois problemas. A ciência já está fazendo o seu papel para derrotar a pandemia, resta os brasileiros despertarem para um 2021 de recuperação da sua dignidade e derrotar a barbárie.
Que 2021 seja o ano da Ciência e da Civilização. Feliz Ano Novo!
por Mauro Nadvorny | 19 dez, 2020 | Brasil, Comportamento, Opinião, Política
Reações alérgicas (hipersensibilidade) como asma, reações leves a moderadas que potencialmente afetam a pele, o trato respiratório, o trato gastrintestinal e o sistema cardiovascular, com sintomas tais como erupções na pele (rash cutâneo), urticária, inchaço (edema), coceira (prurido), rinite, congestão nasal, alterações cardiorrespiratórias e, muito raramente, reações graves, como choque anafilático;
Eu não sei quem de vocês, toma remédio prescrito, ou não, por médicos. Não precisa ser nada de muito especial, nem com tarja preta, pode ser um simples remédio para dor de cabeça. Vamos pegar uma Aspirina, algo que todos estão acostumados.
Com certeza, 99% dos que estão lendo este artigo nunca leram a bula da Aspirina. Bem, o primeiro parágrafo aí em cima, apesar de muitos acharem que fosse sobre as vacinas contra o Covid-19, se refere exatamente as reações adversas que uma simples Aspirina pode causar. Eis outra: ” Comprometimento dos rins e alteração da função dos rins (insuficiência renal aguda)“.
A verdade é que a bula de qualquer remédio vai conter advertências que fariam qualquer um desistir imediatamente dele. No entanto, são eles que salvam vidas e os responsáveis por fazer com que a nossa expectativa de vida chegasse nos dias de hoje aos 100 anos.
As advertências se referem a casos que podem ser definidos como raríssimos, mas precisam constar. Os casos adversos normalmente possuem tratamento, mas as consequências de não se medicar, provavelmente não.
O mesmo se pode dizer sobre as vacinas. Foram elas que acabaram com as mais graves doenças que vitimavam milhares de seres humanos ao longo da nossa história. Muitas levando ao óbito e outras deixando sequelas por toda a existência.
Escutar nos dias de hoje, diante de uma epidemia que já vitimou cerca de 3 milhões de pessoas, que está destruindo economias, arruinando negócios e causando uma onda de pesar internacional, da boca de um presidente da nação de que não vai tomar a vacina porque ela pode “transformar” a pessoa em um Jacaré, é de virar do avesso a Terra Plana.
Tive de assistir ao vídeo mais de uma vez para me certificar de que não se tratava de uma Fake News. Na primeira vez tive certeza de que era um daqueles vídeos alterados para parecer que o presidente estava dizendo algo que não era real. Assisti mais uma vez e procurei confirmar nos portais de notícias mais conhecidos, e pqp, ele realmente disse isso com estas palavras: “Se tomar vacina e virar jacaré não tenho nada a ver com isso“.
Por alguns instantes fiquei atônico e incrédulo com tamanha bizarrice. A seguir percebi um certo sarcasmo que estava fluindo em minha mente. Talvez a fala dele cause uma seleção natural no Brasil. Dentro em breve o Covid-19 só vai poder infectar os que não se vacinarem, os que seguem esta coisa que está presidindo o país, sem nenhum questionamento. Vai ficar fácil saber quem é bolsonarista, basta o cara se infectar.
Logo me veio a lembrança de que alguns cientistas diziam de que em uma hecatombe nuclear só sobreviveriam as baratas, e eu logo imaginei que no nosso caso, vão sobreviver somente os Jacarés.
Claro que não desejo a morte de ninguém por tamanha estupidez. Nem o gado merece tal destino. Estamos diante da luz no fim do túnel. As vacinas são o nosso passaporte para retomar nossas vidas, uma chance de um novo recomeço.
Em todo lugar estamos vendo os presidentes e primeiros países dos países que estão iniciando a vacinação sendo os primeiros da fila para darem o exemplo. Algo importante que transmite confiança e que deveria ser a norma, menos no Brasil, onde o presidente se nega a tomar a vacina e faz questão de colocar dúvidas a eficácia delas.
Sua postura vai condenar milhares de brasileiros a se infectarem com muitos deles indo a óbito. É de uma ignorância desprezível. Não fosse a certeza de que é exatamente isso que vai acontecer, ficaria sendo mais uma de tantas bobagens saídas de sua boca. No entanto e para espanto geral, vai ficar por isso mesmo.
Só me resta apelar aos meus amigos: na história do Brasil recente sejam lembrados como Jacarés.
por Richard Klein | 12 dez, 2020 | Brasil, Comportamento, Conto, Crônica, Livro
Ficamos sem entender nada e, meio envergonhados, os dois se levantaram para vir falar com a gente afastados da mesa.
“Pois é, meu irmão, os veados convidaram a gente para ir lá e falaram que vão pagar um jantar para nós quatro.”
Já eram dez da noite. Cansado da praia e da viagem, doido para dormir, falei: “Já comemos um hambúrguer, tamos na boa.” Cocei a cabeça e disse: “Aê, não dá para a gente dormir no quarto de empregada e deixar a chave com o porteiro amanhã de manhã?”
O Fernando respondeu: “Meu amigo, não me leve a mal, mas a gente mal conhece vocês, eu tô na responsabilidade do apartamento do meu tio e não dá para deixar vocês lá sozinhos.”
“Porra, mas a gente não está numa de comer veado.” O Pedro era menos diplomata que eu.
O Luiz já tinha entendido o problema. “Já falei com eles, vocês não precisam fazer nada, só precisam ir no restaurante e serem bem-educados. Depois a gente vai para o apartamento deles, vocês fazem uma salinha, vão dormir na sala de estar e a gente faz o resto. Já falei com eles. Pode ficar tranquilo, é só isso.”
O Fernando emendou: “Mesmo que vocês já tenham comido uns hambúrgueres, eles vão levar a gente para um restaurante de moqueca bonzão. Cês vão gostar.”
Me segurando para não fazer uma piada com comida, não acreditando que a gente estivesse naquela situação, me lembrei. “E amanhã? A gente vai ter que pegar as nossas coisas para pegar a estrada.”
O Fernando olhou para o Luiz também esperando uma resposta, dava para ver que ele estava menos entusiasmado com a coisa toda.
O Luiz respondeu: “Deixa comigo, vou convencer eles a passar em casa antes da gente ir para o reastaurante.” Ele deu um sorriso maroto e emendou. “Ainda por cima vou conseguir que te levem para a estrada amanhã, quer ver?”
Apesar de não gostar daquilo, naquela altura do campeonato não havia muita escolha. A barriga também estava interessada em experimentar a famosa moqueca capixaba. Saímos do passeio, nos apertamos dentro do carro das “amigas”. O Luiz explicou o problema e fomos todos ao apartamento para pegar nossas coisas. Quando viram o violão, “uma” virou para “outra” e disse.
“Nossa, que meninos talentosos, olha esse violão!”
“Ai, eu adoro cantar! Vocês vão fazer uma serenata pra gente?”
Respondi com um sorriso amarelo: “De repente… se rolar um clima.”
Esperando uma festa quentíssima mais tarde, a dupla gay levou todo mundo para o tal restaurante de moqueca. Bebemos vinho e a comida estava deliciosa, tudo por conta deles e em troca fomos educados e rimos das suas piadas. A “loura” era de fato muito engraçada.
“Tudo o que eu queria ser era o Papa. Aquela bicha é chiquérrima, não acham!? Eu ia me vestir toda de seda e ficar sentada naquele trono podre de chique mandando as bichas pobres limpar meus quadros.”
Após a sobremesa, o aperitivo e a conta, o próximo passo era ir para o ninho de amor. A “loura” morava num apartamento de dois quartos com varanda, mas sem vista. “Ela” era pintora e espírita e as paredes eram cheias de quadros da cara de um Jesus Cristo em cores gritantes e rodeado de pétalas.
“Essa é a entidade que me vem em sonhos para me proteger. Aposto que vocês não acreditam nessas coisas.”
A “morena”, que era mais recatada, mas que ria de tudo que a “loura” dizia, falou com orgulho. “Ela é muito talentosa, pintou todos estes quadros, não são lindos?”
O Luiz concordou: “Nossa, são lindos!”
A “loura” respondeu:“Obrigada, lindo, mas essa neguinha está sendo falsa, só gosta de quadros como aquele. ” Ele apontou para uma foto artística em preto e branco de um cara bem-dotado numa pose erótica. Daí ela se virou para mim.
“E você? Não vai tocar pra gente? Eu adoro bolero e música antiga. Aliás pode me chamar de Maysa.”
O Pedro e eu não aguentamos e caímos na gargalhada, me recompus e respondi: “Sabe o que é? A viola está desafinada.”
“Então afina ela, menino!”
Todo mundo, até o Pedro me pressionou.
“Beleza então.” Tirei a viola, que já estava afinada. “E então, Maysa, conhece essa? A noite do meu bem?”
A “Maysa” só faltou me agarrar. Ela até que cantava bem. Toquei essa e mais duas e depois guardei o violão.
“Muito bem carioca! A gente adorou!” O Luiz estava a ponto de soltar a franga também.
Dava para ver que ele ia ficar com a “Maysa” e o Fernando com a “morena”. O papo foi ficando tenso e depois de uma sessão de insinuações e evasivas, chegou a hora do vamos ver. Conforme combinado, cada um dos mergulhadores foi para um quarto com suas respectivas, enquanto a gente foi para a sala de estar para tentar dormir um pouco.
As luzes se apagaram, os casais fecharam suas portas e nós ficamos na sala, deitados em camas improvisadas e rindo feito dois idiotas.
“O Luiz deve estar perguntando para o barbudinho; você pinta como eu pinto?”
“Barbudinho! Hahahaha! ”
“Cara, ri mais baixo senão os caras não vão conseguir se concentrar.” Estava inspirado para falar besteira. “Tu reparou que o moreno é a cara do Little Richard. Brincadeira! O Fernando vai mandar ele abaixar para amarrar os sapatos e ficar só no wop bop a loo bop a lop ba!”
“Hahahahaha!”
Cerca de uma hora depois, uma das portas se abriu e fingimos estar dormindo. O Fernando estava para sair do apartamento e ouvimos ele dizer: “Desculpa, mas não estava inspirado essa noite.” Quase me levantei para perguntar se a gente podia ir junto, mas não deu tempo.
Depois que saiu, o apartamento ficou em silêncio, mas a porta do quarto permaneceu aberta e a luz acesa. Dava para sentir a energia inquieta do moreno. Alguns minutos depois ouvimos passos vindo em nossa direção. Com meus olhos fechados, comecei a pensar comigo mesmo: “Xiii, vai dar merda!”
Aí ouvi o Pedro dizer: “Meu irmão, tira a mão daí porra!!!”
Após alguns segundos, o mesmo aconteceu comigo e dispensei o cara e a sua mão boba. Depois disso, o moreno baixinho saiu do apartamento batendo a porta e dizendo:
“Seus brochas mal-agradecidos, vocês deveriam estar dormindo na rua!”
No dia seguinte, o outro casal nos acordou num astral muito melhor. A “Maysa” estava felicíssima vestindo um robe de seda lilás já bastante maquiada. Agarrada no pescoço do Luiz, ela disse: “Bom dia, meninos”. Daí olhou com carinho para a cara do Luiz, ainda meio sem graça com a gente. “Esse bruto roubou minha virgindade ontem à noite, vocês acreditam?”
Sentamos para conversar em volta da mesa e acabamos descobrindo que a “morena” insatisfeita era o vizinho de cima. Ele era o dono do carro que a gente tinha andado e que possivelmente ia nos levar até a BR. Ficamos conversando, esperando que descesse para o café. Quando chegou, estava mal-humorada e, por vingança, disse:
“Olha, o carro está sem gasolina e tenho um monte de coisas para fazer hoje de manhã, não vai dar para ir até a estrada.”
A “Maysa” estava do nosso lado.
“Deixa de ser amarga, neguinha, hoje é um dia novo e você vai achar um lindinho tão gostoso como esse para você. E não seja mentirosa, enchi o tanque do teu carro ontem e o salão está fechado hoje.”
O outro tentou protestar, mas a nossa ”amiga” emendou: “Somos duas moças de família e vamos fazer o que prometemos para esses cariocas, depois vamos dar uma volta com esse bofe.”
Tomamos café juntos e não demorou muito para o moreno melhorar seu humor. De barriga cheia, fomos os cinco até um posto de gasolina fora da cidade. Ainda meio atordoados por conta daquela primeira noite maluca, agradecemos e nos despedimos.
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por Mauro Nadvorny | 12 dez, 2020 | Comportamento, Mundo
Muito em breve o mundo vai conhecer uma nova divisão de classes sociais, a dos vacinados e a dos não vacinados para o Covid-19. Isto nunca aconteceu antes, e as consequências por enquanto são meramente especulativas, mas nem por isso, menos estarrecedoras.
Em Israel, a vacinação deve começar antes do final do ano. A estimativa, pelo menos o desejo do governo, é de vacinar 60.000 pessoas por dia. Se for assim, em 150 dias toda a população estará protegida. Como nem todos precisam se vacinar, e nem será alcançado um número tão grande de vacinações diárias, fica elas por elas e em aproximadamente 5 meses a pandemia será história num país com 9 milhões de habitantes.
Aqui já se fala que os vacinados vão receber uma espécie de passaporte verde. Uma licença para andar livre pelas ruas, poder frequentar cinemas e teatros, rezar nos seus templos, viajar etc. Em outras palavras, se transportar de volta para 2019, ou para quando o vírus pertencia somente aos filmes de ficção.
Israel é um país pequeno, nem todos os países vão poder vacinar toda a população em poucos meses. Então na maioria das nações vamos ter convivendo ao mesmo tempo aqueles que estão livres para voltar a nova normalidade, junto com aqueles que ainda vão ter de usar máscaras, manter a higiene e o distanciamento social. Imaginem isto nas ruas. Complicado.
Em teoria, quem não se vacinou, por qualquer razão que seja, precisa se manter dentro das regras. Por um período de tempo estas pessoas serão cidadãos de segunda categoria. Vão continuar não podendo frequentar os mesmos lugares dos demais e terão restringidos seus movimentos, mais ou menos como estamos neste momento.
Vamos ter numa mesma família vacinados e não vacinados. O mesmo nas empresas, nas escolas, no transporte público etc. Por um período de tempo a convivência ainda será apartada e nem todos vão poder voltar a receber beijos e abraços de seus entes queridos. Muita paciência nesta hora.
As vacinas não vão chegar em todos os lugares e para todos ao mesmo tempo. Obviamente que para proteger toda a população serão necessários no mínimo alguns anos. E se a vacina for como a da gripe, será necessário fazer isso anualmente. Enquanto uns ainda nem receberam a primeira dose, outros vão estar precisando se revacinar. A logística para isso é sem precedentes.
No momento existem dois tipos de vacinas, a desenvolvida pela Pfizer e Moderna com uma nova tecnologia, e as tradicionais como a Sputnik. As primeiras exigem duas doses, as outras uma só. A da Pfizer necessita ficar armazenada em -70º C, o que complica muito sua chegada em países mais pobres com pouca estrutura. O desafio para vacinar toda a população da Terra é enorme.
Infelizmente o Covid-19 ainda vai permanecer vivo e ativo em nosso planeta por muito tempo fazendo vítimas. O bom é que deixará várias lições para serem estudadas e aprendidas. Foram muitos erros e poucos acertos até aqui. Cada país lidou com a ameaça a sua maneira. Necessitamos que sejam criados protocolos internacionais para futuras ameaças. A contenção terá de ser imediata e a reação não vai poder levar o tempo que levou, as perdas em vidas e econômicas ainda estão sendo contadas.
Mas sejamos otimistas, uma luz surgiu no fim do túnel com a chegada das vacinas. Depois de tantas perdas neste ano trágico, este é o melhor presente de Natal de todos os tempos.
Boas festas!
por Mauro Nadvorny | 9 dez, 2020 | Brasil, Comportamento, Direitos Humanos
Quando eu era pequeno, eu tinha uma babá. O nome dela era Maria, mas eu a chamava de Iaiá e o nome acabou pegando.
A foto da qual eu mais me lembro dos meus primeiros anos sou eu aos dois anos dentro do mar, acho que em Santos, o barrigão pra fora, um enorme sorriso malandro no rosto — e a Iaiá no fundo, de vestido, até os joelhos dentro do mar. Nessa idade, eu dividia o quarto com o meu irmão e lá só tinham as nossas duas camas. Quando eu ficava doente, a Iaiá deitava no chão pra me colocar pra dormir e estava lá caso eu chorasse no meio da noite.
Assim começou a prédica do último dia 4 do rabino Rogério Cukierman, da Congregação Israelita Paulista, um Racista em Desconstrução.
No sermão da sexta-feira à noite, início do Shabat, ele falou de si mesmo, ao lembrar que aos 5 anos de idade, em 1976, passou na televisão a novela “Escrava Isaura”, contando a história de uma escrava por quem o senhor da fazenda se apaixona. Isaura era branca, mas todos os outros escravos retratados na trama eram pretos; pretos assim como a Iaiá.
“Vendo aquela realidade e o que acontecia na minha casa, eu logo entendi qual era a regra do jogo. Fui conversar com a minha mãe e, muito sério, pedi pra ela que, quando chegasse a hora de dar a alforria pra Iaiá, ao invés disso, ela desse a Iaiá pra mim.”
O rabino confessa que a história da Iaiá o envergonha e que está ciente de que precisa assumí-la se quiser ter o direito de sonhar com um país diferente. “Eu conto essa história porque não quero mais me reconhecer na conduta daquele menino e para isso é necessário um profundo processo de t’shuvá.”
O termo quer dizer “retorno” e representa o esforço para retornarmos à melhor versão de nós mesmos, de corrigirmos nossas ações quando erramos, repararmos os erros que causamos e garantirmos que eles não voltem a acontecer. No começo de todo processo de t’shuvá está o reconhecimento do erro, que talvez seja a parte mais difícil.
O futuro rabino amava a Iaiá profundamente , mas ele se nega a se esconder atrás desse amor e dizer que ela era como se fosse da família, porque ela não era. “Quando íamos jantar fora, ela não ia; quando viajávamos, ela só era convidada se fosse para tomar conta de mim; quando eu ia soprar a velinha do bolo de aniversário, ela nunca esteve lá na frente, junto com meu pai e minha mãe. A Iaiá era uma babá querida, cuja subjetividade foi muitas vezes negada, que foi objetificada, mas esses erros nunca foram reconhecidos sob a desculpa de que ela ‘era quase da família’.”
Iaiá é o resultado do racismo estrutural em que vivemos e no qual fomos criados, em que as moças pretas que moravam em casa eram sujeitadas ao preconceito banalizado pela cultura.
A história de Iaiá e do rabino nos questiona e nos obriga.
Quem de nós, da classe média paulistana, não teve a sua Iaiá, na figura de uma babá ou de uma doméstica, que mais corretamente deveria ser chamada de escrava? Quem não viveu essa história e pode dizer que nunca tinha ouvido nada igual?
Eu tive a “minha” Cida, que entrou em casa ainda menina, menor de idade, e saiu depois de casada. Ela morava no andar de baixo, ao lado da área de serviço e do quintal, separada do resto por uma porta de vidro que devia ser trancada à noite. Dividia o quarto e o banheiro com a cozinheira. Tivemos várias, mas não me lembro dela ter sido consultada para dizer se a coabitação era satisfatória. Cida não reclamava, nunca.
Lembro-me da cena, quando ela pediu para ver minha mãe com o namorado, que já era conhecido da família. Os três foram à copa, sentaram-se em torno da mesa de fórmica vermelha e ele, nitidamente intimidado, pediu a mão da Cida à minha mãe. Como se ela fosse da família…
Sua mãe, a verdadeira e única, não estava sequer a par do pedido de casamento. Cida achava que a patroa sabia melhor que a própria mãe o que era melhor para ela.
Hoje, temos a chance de nos olharmos no espelho e vermos que o resultado nem sempre é satisfatório. Individualmente e como sociedade, a imagem que reflete é ruim, é feia, é a imagem da injustiça racial.
Se não formos ativamente antirracistas, estaremos sendo coniventes com a propagação do ódio, estaremos sendo racistas também.
Por isso eu, você e todos aqueles que conheceram Iaiá, Cida e suas histórias temos a obrigação de ser como rabino Cukierman, Racistas em Desconstrução.
Desculpas Iaiá, desculpas Cida.