No meio de todo o transtorno que vivemos por força da pandemia de COVID-19, uma estranha linha de pensamento se avoluma nos meios sociais. Tal linha advoga que o debate sobre o COVID-19 está “politizado”, “partidarizado” ou “polarizado”. A questão é que há claramente um vício de entendimento do cenário, que leva a esta percepção (falsa) de polarização. Mais precisamente, uma ilusão, própria dos que tem um repertório restrito do entendimento da realidade e suas complexidades. Vivemos em um mundo pós-iluminismo, construído sobre alicerces racionalistas, cartesianos, reforçados pelas colunas do estado moderno que desde a sua concepção luta para crescer e viver afastando-se progressivamente do despotismo, do autoritarismo e para aproximar-se de um cenário onde haja equilíbrio e liberdade para um debate permanente e continuamente auto aprimorado. Assim, quando a defesa da ciência e seu ferramental, que foram desenvolvidos neste espírito há pouco descrito e que justamente existe e prepondera sobre o atávico desejo imperialista de apropriação da verdade e conhecimento, é encarada como posição partidária ou ideológica, temos um problema. Um grande problema. Quem é capaz de tal formulação, é simetricamente incapaz de se aperceber do mundo onde vive, de seus sustentáculos filosóficos, éticos, políticos e sociais. Vivemos (ainda) sob a égide dos grandes contratos sociais expressos em constituições, legislação ordinária e eventuais discricionaríssimos autorizados pela representação democrática, todos eles construídos sobre a lógica e o racionalismo, que são plenamente incorporados à nossa linguagem (ao arrepio de Nietzsche) mas que literalmente galvanizam nossas relações sociais e políticas em todos os níveis. Certamente o universo dos conhecimentos não alcançáveis pela metodologia científica é muito maior do que aquele das coisas que podemos dividir por partes examinando-as individualmente ou em pequenos arranjos. O conhecimento sobre o cérebro talvez seja o exemplo mais marcante à mão, no imediato. Mas moramos em edifícios concretos e abstratos construídos com essas substâncias igualmente concretas e abstratas. Pretender classificar, portanto, a defesa do universo da ciência como divergência política ou partidária é esta sim, escancaradamente uma posição política “per se”, que só pode ser fruto de um autoritarismo vulgar e rasteiro, ou de profunda ignorância (real ou dissimulada), de um transtorno mental delirante, ou da combinação de tudo isso em ordens e proporções as mais variadas, e certamente associada a propósitos não alcançáveis no campo da legalidade, da ética e da civilização tal qual a conhecemos. Se prosseguirmos na aceitação do argumento “partidário” aplicado a quem defende a ciência e todos os valores sobre os quais nossa civilização (ou o pedaço dela) estaremos sob o risco de perder nossa bússola. E sem ela, seremos em tempo próximo incapazes de saber onde viveremos. Ou, se viveremos. A ameaça às instituições nunca foi tão grave.
Terminada a eleição no Chile me deparei com mais uma comunidade judaica votando em sua maioria em um candidato de direita, ou melhor, de extrema direita. E não só isso, o cara é filho de um nazista. Sim, ninguém tem culpa de ser descendente de um nazista, mas este em especial seguiu em tudo os passos do pai. Para quem não entendeu: houve judeus que votaram em um nazista!
Na eleição brasileira, a maior parte da comunidade judaica votou em Bolsonaro. A parte que não votou nele, eu incluído, avisou com todas as letras se tratar de um fascista. Nada adiantou e até hoje encontramos quem prefira lembrar do que ele disse dentro da Hebraica, não o que escutou de nós fora dela.
Tanto no Chile como no Brasil escutei de boa parte dos que votaram nos candidatos de extrema direita que o faziam porque eles eram simpáticos a Israel, ou por demonstrações do candidato progressista de que eram contra Israel. Isto é uma falácia, ou se preferirem, um sofisma!
Para deixar bem claro, falácia um é argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade, que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta, na realidade, uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa. Sofisma é um argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade, que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta, na realidade, uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa. Em resumo, a razão deles para justificar o seu voto não passa de uma cortina de fumaça para esconder o que realmente são: racistas, misóginos, homofóbicos e indiferentes ao sofrimento humano.
Não é plausível que um brasileiro judeu ou um chileno judeu não se importe com a saúde, a segurança, a economia, a educação etc. de seu respectivo país. Estas coisas que no dia a dia fazem toda a diferença na vida em sociedade e devem constar de um programa de governo. Cada candidato na corrida final tinha o seu. Haddad e Boric com programas de inclusão social e Bolsonaro e Kast com seu Neoliberalismo. Os primeiros preocupados em dividir o bolo com todos, os segundos em ter o bolo somente para quem merece.
Nós judeus somos um povo como qualquer outro. Temos nossos Prêmios Nobel e nossos ladrões, estupradores e assassinos. Temos quem faz e deseja o bem, e os aproveitadores que vivem de fazer o mal. Assim é em todos os países onde nos encontramos como parte da sociedade em geral.
Estes que deixaram de votar em Boric no Chile para votar em um nazista são a expressão máxima de que nós humanos e os judeus em especial não aprendemos nada com a história e que somos capazes de continuar fazendo o mal para outros seres humanos preocupados somente com nós mesmos.
Em um vídeo de uma entrevista em 2019, Boric teria dito na parte do vídeo, onde apresentador lhe pergunta: “Você disse que Israel é um estado genocida, você o mantém? Eu mantenho (…) Todos os países que estão violando tratados internacionais como Israel, China, Arábia Saudita ou Turquia têm que cumprir as regulamentações internacionais, portanto … não importa quanto poder esse país tem. Temos que defender os princípios dos direitos humanos internacionalmente a todo custo, independentemente do governo que esteja no país que é questionado. ”
Fica claro que ele se refere a todos os países que não defendem os direitos humanos. Em outras entrevistas ele inclui Cuba e Venezuela para total desconforto da esquerda, o que motivou uma carta aberta do neto de Allende para ele o criticando neste sentido.
Neste último ano novo judaico, a comunidade chilena enviou para todos os parlamentares um cartão contendo uma mensagem relacionada a sociedade chilena com um pote de mel, símbolo do novo ano. Boric publicou em seu Twitter uma foto da mensagem com o seguinte texto: A Comunidade Judaica no Chile me envia um pote de mel para o Ano Novo Judaico, reafirmando seu compromisso com “uma sociedade mais inclusiva, solidária e respeitosa.” Agradeço o gesto, mas eles poderiam pedir a Israel que devolva o território palestino ocupado ilegalmente. Foi o que bastou para ser taxado de antissemita.
Eu pessoalmente como defensor de um Estado Palestino, me solidarizo com o que pensa Boric, mas vamos convir que sua postagem não foi muito educada, diria até que deselegante para quem recebe um presente e completamente fora de lugar, afinal de contas chilenos não representam Israel, nem mesmo os chilenos judeus.
Com esta mensagem ele deu a boa parte da comunidade judaica chilena a desculpa de que precisavam para votar em um nazista e criou para eles aquela cortina de fumaça que mencionei antes.
Vejam que Boric poderia ter dito qualquer coisa relacionada ao Chile, como um pedido para que os chilenos judeus participem mais ativamente da vida política no pais, que ajudem na construção de uma sociedade mais inclusiva, solidária e respeitosa, mencionada na mensagem. Poderia até mesmo ter aproveitado o momento para desejar um Feliz Ano Novo e pedir votos.
A extrema direita judaica chilena usou das palavras dele para esconderem o fato de que são parte dos chilenos que saúdam Pinochet e tudo o que ele representou, que não se importam com o povo trabalhador e com políticas sociais, são contra direitos iguais para as minorias e acreditam que lugar de mulher é na cozinha. Nem inclusivos e nem solidários, este é o pensamento dos que votaram em Kast.
A extrema direita judaica brasileira vai utilizar argumentos semelhantes para justificarem o que são e os valores que representam. Vão trazer de volta o fato de que Lula ao visitar Israel (o primeiro presidente do Brasil que o fez), teria se recusado em visitar o túmulo de Hertzl (para muitos considerado o pai do sionismo). Não existiu recusa, na verdade a ida ao túmulo não faz parte do protocolo de chefes de estado em visitas a Israel. Nem Trump esteve lá em sua visita ao país
Também vão trazer novamente a tona uma Fake News de que ele mandou dinheiro para o Hamas. O dinheiro foi enviado para a ONU que o utilizou, juntamente com contribuições de outros países para administrar ajuda ao povo palestino de Gaza.
Enfim, a mesma tática de se esconder por trás de uma suposta adoração a Israel, de chamar todo antissionista, ou cidadão favorável a um Estado Palestino de antissemita, como desculpa para seu voto em um novo candidato da direita. No entanto a eleição é no Brasil e são as soluções para os problemas brasileiros que estão sendo discutidos. Manifestações relacionadas a Israel estão fora de propósito.
Independentemente do voto da extrema direita brasileira, Lula vai ser eleito presidente em 2022.
(Oy vey é uma expressão em ídiche que expressa consternação ou exasperação. Também escrito oy vay, oy veh ou oi vey, pode ser traduzida como “oh, ai!” ou “ai de mim!)
A notícia de que Bolsonaro afirmou em uma Live que pessoas no Reino Unido estavam contraindo AIDS depois de receberem duas doses da vacina contra covid-19. “Recomendo que leiam a matéria. “Não vou ler aqui porque posso ter problemas com a minha live”, disse o presidente, foi manchete hoje no site de um dos maiores jornais aqui de Israel, o Maariv.
A notícia fala da recomendação da CPI e agora da determinação do STF em investigar o presidente em vista de tal descalabro. O jornal ainda menciona que Bolsonaro foi o único líder do G-20 a comparecer ao encontro sem estar vacinado. Só faltou dizer que Bolsonaro está sendo chamado de “Noivinha do Aristides”.
Tudo o que já se disse sobre Bolsonaro ainda não explica como ele recebeu 57 milhões de votos. Será que temos esta quantidade de imbecis na população? Podemos crer que toda esta gente acredita nestas baboseiras e por isso o elegeram? Temos mesmo este déficit de inteligência e bom sendo em tanta gente? Sim e não.
Sim, não foi por falta de aviso. Eu e milhares de outros brasileiros esbravejamos nas redes sociais quem era a figura. Fiz um vídeo sobre a civilização e a barbárie que viralizou. Escrevi artigos e postei vários vídeos desenhando quem era Bolsonaro. Outros tantos fizeram a mesma coisa e até mais do que eu. Tudo que ele representava e tudo o que ele faria está lá publicado. Quem votou nele sabia em quem estava depositando seu voto.
Não, nem todo mundo que votou no inepto acreditava no que ele seria capaz. Se o sujeito foi um deputado medíocre, na presidência seria do mesmo naipe e pelo menos a esquerda não voltaria a governar o país. Melhor uma besta de direita do que um professor de esquerda, pensaram muitos deles. E assim foi.
Muito bem, posso aceitar que muita gente se enganou. Não leu tudo o que foi exposto aos quatro ventos. Pensou que não era sério tudo o que estavam apregoando sobre o homem. Confiavam que no poder ele seria comedido nas ações e nas palavras. Fizeram coro com as Fake News e assim chegamos ao que temos hoje como presidente.
Da Internet trago a seguinte adaptação de uma fábula.
Não Discuta com um Burro O burro disse ao tigre:
– ′′A grama é azul.”.
O tigre respondeu:
– ′′Não, a grama é verde.”.
A discussão aqueceu, então, ambos decidiram buscar um parecer do leão que era o juiz da floresta.
Antes mesmo de chegar aonde o leão estava, o burro começou a gritar de tal modo, que despertou o interesse do gado que insatisfeito comia a grama verde, enquanto assistia aquela cena patética:
– ′′Sua excelência, não é verdade que a grama é azul?!”.
O leão respondeu:
– ′′Certamente, a grama é azul.”.
O burro se apressou e continuou tentando argumentar, porque afinal de contas era burro e seu vocabulário tinha poucas palavras:
– ′′O tigre discorda de mim, me contradiz e me incomoda. Quero que ele se cale e seja castigado!”.
O leão declarou:
– ′′O tigre será punido com 5 anos de silêncio.”.
O burro deu um salto e saiu dali seguido pelo gado eufórico que gritava:
– ′′A grama é azul, a grama é azul!”.
O tigre aceitou a sua punição, mas perguntou ao leão:
– ′′Excelência, por que fui castigado se a grama é verde?”.
O leão respondeu:
– ′′De fato, a grama é verde “.
O tigre insistiu, respeitosamente:
– ′′Então, por que fui punido?”.
O leão respondeu:
– ′′Isso não tem a ver com a grama ser azul ou verde. O castigo aconteceu, porque não é possível que uma criatura inteligente como você, perca tempo discutindo com um burro e, ainda por cima, venha me incomodar com essa pergunta insana.”.
Moral dessa narrativa:
Jamais perca tempo em discussões que não fazem sentido. A pior perda de tempo é discutir com um tolo que não se importa com a verdade, mas apenas com a vitória de suas crenças e ilusões acima de tudo.
Há pessoas que não têm capacidade para compreender, mesmo que muitas evidências e provas lhes sejam apresentadas. Por estarem cegas pelo ego, ódio, vaidade etc., a única coisa que desejam é ter razão acima de todos, mesmo que não a tenham.
Quando a ignorância grita, a inteligência cala. Acredite, a sua paz e tranquilidade valem muito mais.”
Um dos sinais de inteligência, como disse o Leão na Fábula, é não discutir com um burro. Nada o fará mudar de ideia. Não existem argumentos, bom senso e apelos científicos que demovam um burro de acreditar no que quiser. Portanto, esperar de Bolsonaro uma luz a razão, um lampejo de raciocínio, um cintilar de humildade e reconhecimento de algum erro, é crer no impossível, ou seja, é discutir com um burro.
Bolsonaro é o Papai Noel de uma imensa parcela de brasileiros. Eles acreditam que ele seja bondoso, que vai trazer presentes e fazer a vida parecer melhor. Seus filhos são as renas que puxam sua carruagem e ajudam o bom presidente a chegar em todas as casas de seus apoiadores.
Assim como não se pode tapar o sol com uma peneira, a realidade não pode ser escondida de todos. Os fatos falam por si e a popularidade de Bolsonaro é a pior de um presidente em toda história da República. Seus apoiadores já são cerca de 30%, aqueles que rezam sua cartilha e são fascistas de carteirinha. Gente que acha que a TFP – Tradição Família e Propriedade é uma instituição comunista, como comunista são tudo e todos que atacam o presidente.
Na verdade nem é preciso acrescentar mais nada ao que já se sabe de Bolsonaro. Basta deixar o cara falar e ele vai se enforcando sozinho. Raros líderes mundiais lhe cumprimentam. Um pária com quem somente os garçons de eventos internacionais conversam por força da profissão.
Por outro lado, superando todas as adversidades, todas as mentiras, perdas familiares e injustiças, um ex-presidente ressurge para liderar o Brasil. O único nome capaz de trazer o Brasil de volta para o seio das nações respeitadas. Aquele que ainda nem foi eleito, mais já é recebido como chefe de Estado.
O burro, digo, Bolsonaro bem que tentou, mas não conseguiu matar a esperança. Lula vem aí!
Finalmente pude assistir ontem ao filme. Não há como deixar de voltar no tempo e recordar os anos que vivi durante a ditadura. Quando aconteceu o golpe eu tinha apenas 6 anos, minha militância começou a partir dos anos 70.
Minha única lembrança viva do golpe militar é de correr com minha mãe para casa. Por alguma razão, nos encontrávamos na rua e ela agarrou minha mão, entrou em um Bonde. Da janela eu lembro de ver aglomerações de pessoas de um lado para outro. Descemos e fomos direto para casa.
Já na adolescência eu frequentava um movimento juvenil judaico sionista socialista. Todo nosso material didático havia sido escondido depois de informações de que o Dops poderia bater na nossa porta. O material era de pensadores judeus socialistas e sobre os Kibutz, fazendas coletivas socialistas de Israel. Ninguém achava que eles iriam entender, e que bastaria verem a palavra socialismo escrita para levar todo mundo em cana.
A gente tinha pleno conhecimento do que estava acontecendo, da censura e dos desaparecimentos de militantes. Naquele tempo estas conversas só podiam acontecer entre amigos. Eu frequentava um grupo de resistência secundarista que se reunia em uma sala cedida pelo então MDB na Assembleia Legislativa do RS, o IEPS – Instituto de Estudos Políticos e Sociais do MDB.
Naquele tempo a gente se dividia entre porras loucas e alienados. Os porras loucas eram os que achavam preciso combater a ditadura militar e devolver a democracia para o país. Os alienados eram aqueles que não se envolviam com política, viviam e deixavam viver sem se importar com nada. Eu era um daqueles porra loucas.
O filme me trouxe várias lembranças, mas uma em especial. Corria o ano de 1974, o ano do fim da luta armada no Araguaia e da Copa do Mundo. Junto com a copa a maior epidemia de Meningite que a censura procurava esconder da população. Em dias de jogo do Brasil os porras loucas torciam contra, os alienados a favor do Brasil.
Na minha cabeça era incompreensível que alguém pudesse se importar com um jogo de futebol enquanto dezenas de brasileiros eram torturados até a morte ao som da narração dos jogos. E eles eram a maioria da população.
Quando Marighella morreu eu estava fazendo 11 anos de idade. Só fui saber de sua luta muitos anos depois já na militância contra a ditadura. Sua trajetória era uma inspiração. Eu sabia que a luta armada não tinha a menor chance de dar certo, mas resistir de todas as formas era a minha maneira de humildemente honrar aquele que foi um herói brasileiro e todos que deram suas vidas para libertar o Brasil da ditadura militar.
O filme também é grandioso ao mostrar cenas comedidas de tortura sem fazer delas o ponto principal. No entanto, são suficientes para mostrar o erro colossal que foi anistiar torturadores. Todos eles cometeram terrorismo de estado e crimes contra a humanidade. Sua impunidade é uma ferida aberta que jamais irá cicatrizar.
A cena final do filme é enigmática. Não vou fazer spoiler, mas é uma cena onde a falta de um personagem e o cântico dos demais, entrelaçados e abraçados, do Hino Nacional, nos comove como brasileiros e patriotas. Eu me senti agradecido, como se aqueles que pereceram na luta estivessem dizendo “Muito Obrigado” porras loucas.
Marighella não foi o único herói a enfrentar a ditadura. Ainda precisamos contar a história de tantos outros patriotas que deram suas vidas por um Brasil livre e que diante do quadro atual devem estar dando voltas em suas sepulturas. A história de outro Calos também precisa ser contada, Carlos Lamarca.
Mês que vem completo 70 anos. Vivi todo o período da ditadura militar brasileira. Em 1964, quando ela começou, eu estava na pré-adolescência, e pouco compreendi do que ocorria. Mas dois anos depois já estava na rua, combatendo-a. Fiz isso de muitas maneiras, com variados graus de consciência e informação, e em diversos graus de intensidade, durante todo o tempo em que ela durou.
Seu fim coincidiu com o nascimento de meu filho caçula, a quem dei, em hebraico, o nome equivalente a “amanhecer”.
Minha militância – que permanece até hoje, e na mesma direção ideológica – não incluiu, sequer em cogitação, pegar em armas. A uma porque pouca luta armada se deu no Paraná, onde sempre atuei. E a duas porque, desde que pude refletir a respeito, alinhei-me entre aqueles que a consideravam equivocada.
Não me entendam mal. Não houve, jamais, qualquer tipo de avaliação moral. Naquela época eu me considerava um revolucionário, e como tal, jamais descartei, em teoria, a violência revolucionária como instrumento de luta pelo fim da opressão. O julgamento era, e sempre foi, político. Ou seja, relativo à adequação e eficácia dessa ferramenta dentro da conjuntura real na qual se situava concretamente nossa luta. Nós a julgávamos, naquele tempo e contexto, inadequada e ineficaz.
Ontem, após dois anos, voltei a uma sala de cinema. Fui assistir “Marighella”.
Tive três camadas de reação, todas muito fortes.
Não restou em meu corpo um único pelo em repouso. Senti-me dentro do filme. Sou parte –pequena, talvez insignificante mesmo, mas ainda assim, parte – daquela história. Vivi aquele tempo, debati aqueles temas no calor dos próprios momentos. Ainda que em outra trincheira, travei o mesmo combate, e, o que é mais importante, do mesmo lado em que estavam os personagens da obra.
Carlos Marighella foi, sem dúvida, um herói do Brasil, e a História já está lhe fazendo a merecida justiça. Como ele, foram heróis todos aqueles brasileiros que colocaram a própria vida na linha de tiro, em defesa da liberdade e contra a tirania. Admiro-os a todos, e a cada um.
Ao nível da emoção, portanto, “Marighella” foi uma redenção catártica. Saí do cinema impactado, abalado e, principalmente, consolado. Convencido de ter estado sempre no lado certo da História.
Em segundo lugar, o filme como tal. Cinema no estado da arte. Não sou técnico no assunto, mas, como espectador experiente e exigente, fui excepcionalmente bem servido. Já li o livro que baseou o roteiro, e entendo que um está à altura do outro. É uma obra audiovisual belíssima, em forma e conteúdo. Cada detalhe se sobressai.
Acho relevante destacar, nesta parte, dois deles. Refiro-me à pertinência, a meu ver, de duas peculiaridades do filme que ouso classificar como licenças poéticas. Marighella não era negro, mas mulato, filho de pai italiano de pele branca, e mãe negra, filha de escravos. Se, porém, sua pele era clara e seus traços amplamente caucasianos, o fato é que, como bem frisou sua neta Maria Marighella (que é branca), preta era a cor de sua luta!
Por isso, a escalação de um negro retinto para representá-lo na telona não poderia ter sido mais feliz, não apenas do ponto de vista artístico (Seu Jorge, aliás, está soberbo no papel), mas também do simbólico.
A segunda licença poética está no antagonista. O policial Lúcio (Bruno Gagliasso, igualmente magistral) na verdade se chamava Sérgio. Por que a mudança? Não sei, mas minha opinião é a de que Wagner Moura, o diretor, não quis dar ibope para um dos mais execráveis brasileiros que já viveu. Se é assim, acertou também.
Por fim a terceira camada, a histórica. Nela, minha identificação fica com Jorge Sales, o do Partidão, personagem de Herson Capri, outro destaque.
A primeira cena dele com Marighella me representa por completo. A luta armada, naquele contexto, era não apenas uma aventura, mas uma aventura suicida. A realidade é a medida da razão. E a História é a juíza dos juízes.
São inúmeros os exemplos. Se a revolução cubana tivesse fracassado, Fidel e Che não passariam de vilões. Outros que tentaram o mesmo, mas sem sucesso, terminaram como notas de rodapé históricas.
É impossível prever quem vai ganhar ou perder. Mas a vida é implacável. Quem aposta e ganha, se consagra. Quem perde, paga caro. Um ótimo exemplo é a campanha de Galípoli, na Primeira Guerra Mundial, que só não custou a carreira política de Winston Churchill porque ele era realmente um gigante, e ainda porque, em 1940, ficou no centro de uma combinação anormal e extraordinária de fatores. Mas na ocasião viu-se frente a frente com o opróbio.
No Brasil de 1968 havia abundantes indícios, todos calcados em análises abalizadas e desapaixonadas, de que a aposta na resistência armada era um erro. Tanto que muitos guerreiros incontestes do povo brasileiro (como, por exemplo, Salomão Malina, herói da Segunda Guerra Mundial, Giocondo Dias, combatente na Revolução Constitucionalista, Dinarco Reis e Roberto Morena, heróis da Guerra Civil Espanhola, e tantos outros, que poderiam ser acusados de tudo, menos de covardia) se posicionaram contra essa orientação. A discussão, então, nada tinha de romântica. Era pura política.
Portanto, Marighella apostou errado. E não apenas ele. Lamarca e o PCdoB (no Araguaia), também. E outros. A realidade crua é a de que, malgrado o heroísmo pessoal, a intenção virtuosa, e, mais que tudo, o desperdício de inúmeras vidas, a resistência armada foi ampla e completamente derrotada pelo regime. O fato, duro mas real, é que fracassou. Do ponto de vista histórico, sua influência no sucesso da luta democrática foi nula. Sob um ângulo de abordagem não totalmente inválido, pode-se inclusive entender que a atrasou, ao acirrar a linha-dura militar.
Ao final, revelou-se correta a linha traçada desde o início pelo Partido que Marighella acusou de covarde. A ditadura foi posta de joelhos e derrotada pela luta política (muitas vezes traduzida no embate eleitoral, mesmo dentro dos limites arbitrários por ela impostos), travada em conjunto por todas as forças que a ela se opunham. A democracia foi conquistada através da conscientização, mobilização e organização das massas, feita com paciência de formiguinha, nas ruas, nos debates, no enfrentamento realizado dia-a-dia, todos os dias.
E a pior de todas as consequências foi que Marighella e tantos outros heróis de nosso povo não viveram para conquistá-la, desfrutá-la e, mais que tudo, melhorá-la. Quanto seríamos, hoje, um país mais civilizado, se todos eles pudessem ter contribuído com o aperfeiçoamento da nossa vida, quando a liberdade chegou? O quanto teríamos um Brasil mais próximo da justiça, fraternidade, e solidariedade, se a serviço dessas causas generosas tivessem estado corpos, almas e mentes dessas pessoas excepcionais, que nelas tanto acreditavam, e por elas pereceram inutilmente?
Infelizmente, não sabemos. E não saberemos. Mas que fizeram – e fazem – falta, isso não se discute.
No momento em que vários países da Europa com boa situação vacinal experimentam o maior “boom” da pandemia, com recordes de casos, o Brasil segue em queda sustentada de casos. O que será que explica a nossa “salvação”?
Tenho as minhas teorias, que já deixo bem claro, não tem valor científico, mas penso serem razoáveis e plausíveis. Vamos lá.
Desde antes do início da vacinação eu defendia que a plataforma da Coronavac seria superior pela sua composição de “vírus inteiro”, em contraposição a todas as outras, que independente da plataforma entregam apenas o antígeno “spike” ao nosso organismo. Este antígeno é o que forma a ponte entre o vírus e nossas células. Ocorre que é justamente este antígeno o que mais sofreu mutações ao longo da pandemia, o que poderia explicar que muitas pessoas com duas doses adquiriram a doença, ainda que com redução de gravidade e mortes em aproximadamente 90%. Os países onde a Coronavac está em alta não receberam Coronavac ou outra vacina de vírus inteiro, ao passo que o Brasil, Uruguai, Chile e Argentina (sem falar da China, obviamente!) usaram a vacina em larga escala. Como os anticorpos e células de defesa induzidos pela Coronavac dirigem-se a vários antígenos ao mesmo tempo, ficaríamos mais protegidos das mutações da proteína Spike. Claro que a Coronavac mostrou fragilidade entre os mais idosos, mas sem dúvida, quando usada em massa produz um bom “escudo imunológico” que protege a todos, inclusive os idosos, e os números mostram isso com clareza.
O segundo ponto, é que quando a nossa vacinação começou, já havia disseminação em massa do vírus em todo o país, especialmente a variante gama, que certamente em meados de março já havia batido em 100 milhões de brasileiros. Mas como fazer esse cálculo? Não é tão simples e nem tão complicado. Basta ter como parâmetro o fato de esta doença ter uma mortalidade “bruta” de 1% ou menos dos infectados. Como a nossa mortalidade chegou a 4,5% dos notificados em alguns momentos, fica claro que há cerca de um ano a subnotificação era em torno de 80%, em números arredondados. Assim, quando a vacinação começou de fato e em ritmo adequado, pelo menos metade dos brasileiros já tinha uma “dose” da vacina, que era a infecção prévia, fazendo com que esta primeira dose funcionasse de fato como segunda, e por sua vez, a segunda, como terceira. Assim, o verdadeiro “escudo imunológico” já estava em formação quando a vacinação começou, colocando o Brasil em uma situação incomparável com a de outros países, onde o vírus não circulou tanto. Isto confirmaria o “sucesso” do projeto de Bolsonaro, que foi o de construir imunidade de rebanho por disseminação do vírus, ao custo de 609.000 mortos pelos números oficiais de hoje. Que fique claro que o termo “sucesso” foi usado aqui em tom de fria ironia.
Nos meus cálculos, neste momento, o vírus já infectou pelo menos 75% da nossa população, principalmente nos grandes centros como a cidade de São Paulo, que experimenta no momento mortes diáirias na escala da unidade, e números de casos na casa de poucas centenas em trajetória de queda, o que só se explica, diante da potência da variante delta exibida em outros países, por uma imunidade coletiva muito forte, que somente a conjugação infecção+vacina poderia explicar.
Que venham os cientistas e testem as minhas teorias.