A CAIXA DE PANDORA ABRE E ESPALHA UM CHEIRO FÉTIDO
As máscaras começam a cair. Ao determinar o bloqueio imediato das contas do Partido da Causa Operária (PCO) nas plataformas Twitter, Instagram, Facebook, Telegram, YouTube e Tik Tok, em razão de postagens em que a legenda pede a dissolução do Supremo e acusa o TSE de ataque à liberdade de expressão e tentativa de fraudar as eleições, o ministro Alexandre de Moraes abriu a caixa de Pandora. E o que pode sair de dentro cheira mal, muito mal.
A decisão foi tomada no âmbito do inquérito das fake news, em andamento no STF. Para o ministro, há fortes indícios de que o partido esteja utilizando dinheiro público para fins ilícitos, como a disseminação em massa de ataques às instituições democráticas e ao próprio Estado de Direito, em desrespeito aos parâmetros constitucionais que protegem a liberdade de expressão. O Partido exige a dissolução do Supremo e acusa os ministros de estarem preparando um golpe eleitoral.
“O que se verifica”, aponta o ministro do Supremo, “é a existência de fortes indícios de que a infraestrutura partidária do PCO, partido político que recebe dinheiro público, tem sido indevida e reiteradamente utilizada com o objetivo de viabilizar e impulsionar a propagação das declarações criminosas, por meio dos perfis oficiais do próprio partido, divulgados em seu site na internet”.
Como sempre faz, o Partido respondeu de maneira chula, acusando a Corte de agir como o Tribunal da Inquisição.
Mas quem frequentou certa plataforma que se diz de esquerda e já duelou com Rui Costa Pimenta, o presidente do PCO, como eu, não se surpreende. Afinal, Pimenta é um costumeiro criador de fake news e, como stalinista que é, não tem compromisso ideológico algum, navegando alegremente de um lado para o outro. Pimenta está mais próximo de Jair Bolsonaro que de Lula. Aliás, declarou em entrevista à Folha, ao defender o ex-apresentador Monark, que seu partido pode atuar em conjunto com o bolsonarismo.
A verdade, porém, é que o PCO já é um aliado do presidente fascista, como demonstra o jornalista Mauro Lopes em um artigo publicado na Revista Forum. Além de defender o fechamento do STF, Pimenta alinha-se a Bolsonaro nas seguintes teses: investida contra as urnas eletrônicas, defesa do voto impresso, defesa da liberação do uso de armas, negacionismo na pandemia, ataques às vacinas, críticas ao STF pela condenação de Daniel Silveira, defesa do futebolista Robinho, condenado por estupro coletivo, luta pela liberdade de expressão plena, inclusive dos racistas e pela criação de um partido nazista no Brasil, sem falar nas constantes investidas contra os movimentos indígena, antirracista, feminista e judeus.
Rui da Costa Pimenta tem um viés Olavista e não esconde que prefere Bolsonaro à Alckmin.
E, no entanto, o líder deste “partido”, que não tem sequer um vereador eleito, é querido nos meios stalinistas representados em certas plataformas que ousam se dizer de esquerda e são alérgicas aos direitos humanos e à democracia.
No dia seguinte à decisão de Alexandre de Moraes, os colunistas bravejaram contra o ministro, ecoando o pedido de fechamento do Supremo.
Se o que vai sair da caixa de Pandora cheira mal é porque vários pseudo-esquerdistas que transitam pelas mesmas redes que Rui Pimenta continuam a ocupar horas e horas do espaço mediático. Um deles se chama Pepe Escobar, que é líder de audiência e, portanto, representa um maná para quem o tem como colunista, pomposamente intitulado analista internacional.
Sua carreira começou na mídia brasileira, nos anos 80, como crítico de cultura, terminando de forma conturbada por causa de inúmeros casos de plágio e matérias falsas. Pepe Escobar foi demitido em 1987 da Folha de S. Paulo após a publicação de um artigo sobre o disco Let’s Dance, de David Bowie, inteiramente copiado da revista Rolling Stone. Este e outros plágios foram identificados e denunciados pelo jornalista André Singer. Na ocasião, Pepe Escobar explicou que se tratava de uma homenagem ao “jogo de espelhos” de Jorge Luis Borges. A explicação não pegou, assim como não colaram as explicações dadas aos chefes da revista Bizz sobre o plágio de uma entrevista com Brian Ferry. No Estadão, inventou de A a Z uma entrevista com o cineasta Roman Polanski, o que lhe valeu uma nova demissão.
Foi então que o pseudo jornalista decidiu iniciar uma nova vida como correspondente internacional.
Pepe Escobar saiu do Brasil, mas não mudou.
Assim por exemplo, durante a pandemia, fez comentários elogiosos sobre o infectologista francês Didier Raoult, citado por negacionistas do mundo inteiro por defender a hidroxicloroquina como remédio para a COVID-19. “Ninguém conhece mais sobre doenças transmissíveis no mundo do que ele [Raoult]. Se ele está dizendo que [a cloroquina] funciona, você pode aplicar isso no mundo inteiro”, afirmou Escobar em artigo publicado originalmente no Asia Times e traduzido pelo Brasil 247.
Ele sugeriu inclusive que a França, país de Raoult, estaria propositadamente “escondendo uma cura barata e testada para o vírus” (a hidroxicloroquina).”
Raoult foi punido pela Câmara de disciplina do Colégio de Médicos por não se basear em “dados confirmados” ao promover o medicamento. E foi obrigado a reconhecer que a hidroxicloroquina não reduz mortes relacionadas à doença.
Quanto à Pepe Escobar, banido do Facebook por espalhar notícias de cunho negacionista, criou um grupo de notícias no Telegram e seguiu postando conteúdo similar.
Por fim, o jornalista também escreveu textos insinuando que os Estados Unidos seriam a origem do vírus da COVID-19, que teria saído do Instituto de Pesquisa Médica de Doenças Infecciosas do Exército dos EUA, em Fort Detrick, Maryland, sendo posteriormente levado à China nos Jogos Mundiais Militares de Wuhan de 2019.
Em outra ocasião dramática, afirmou ter sérios indícios, nunca revelados, de que os serviços secretos israelenses estariam atrás dos ataques do 11 de setembro.
Escobar foi citado nominalmente em documentos internos do Departamento de Estado dos Estados Unidos, que o ligam a um “ecossistema de fake news do governo russo de Vladimir Putin, com fortes conexões com a extrema-direita mundial. A ideia por trás de tal rede seria influenciar o cenário internacional com opiniões pró-Rússia e anti-Ocidente, fazendo uso de técnicas da chamada pós-verdade como as notícias falsas e a infiltração em massa de robôs em redes sociais. Para isso, a rede faria uso de estrangeiros (não-russos) que tenham penetração na mídia internacional, notadamente aquela que publica em inglês, como é o caso do brasileiro.”
O primeiro documento em que Escobar é referenciado, chamado Pilaras of Russia’s Disinformation and Propaganda Ecosystem (‘Pilares do Ecossistema Russo de Desinformação’), é uma análise detalhada do esquema desinformacional e propagandístico russo, suas principais mídias e participantes – incluindo Escobar, que é citado quatro vezes. Dos sites de análise geopolítica citados no dossiê como propagadores de mentiras à mando do Kremlin – The Strategic Culture Foundation, Global Research, News Front, South Front,Katehon, Geopolitica.ru e New Eastern Outlook -, Escobar escreve, já escreveu ou é republicado em seis deles.
Ainda de acordo com o mapeamento feito, narrativas falsas seriam geradas pelo governo russo, em publicações financiadas pelo Kremlin como Sputnik e Ru, nos quais Escobar também é citado. A análise é corroborada pelo Centre for the Analysis of the Radical Right (Centro de Análises da Direita Radical).
Essa rede teria grande influência em narrativas desenvolvidas no campo político da extrema-direita mundial. Refletindo essa ligação, Escobar tornou-se amigo pessoal do filósofo ultradireitista, Aleksander Dugin (que foi próximo de Olavo de Carvalho), conselheiro do mandatário russo Vladimir Putin e principal ideólogo da anexação da Crimeia e do recente expansionismo russo.
Apesar disso e de muito mais, Pepe Escobar finge ser de esquerda e conta as suas mentiras em plataformas ditas independentes e nas redes sociais.
“ É uma cova grande pra tua carne pouca
Mas à terra dada, não se abre a boca
É a conta menor que tiraste em vida
É a parte que te cabe deste latifúndio
É a terra que querias ver dividida
Estarás mais ancho que estavas no mundo
Mas à terra dada, não se abre a boca.”
(João Cabral de Melo Neto, “Funeral de um Lavrador”)
Desde 2016, em vertiginosa e despudorada aceleração, as esquinas do país expõem vitrines e mais vitrines de famélicos: com cartazes toscos escritos à mão em papelão de mercado, com limões para emular malabares e com suas figuras dos “Retirantes” de Portinari, os miseráveis retratam o Brasil pós golpe.
Em setembro de 2014, em Roma, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) divulgou relatório no qual informava que, por critérios de medição por ela adotados há mais de 50 anos, o Brasil havia saído do Mapa Mundial da Fome. Indicou-o, por isso, como exemplo de País a ser seguido. “De 2002 a 2013, caiu em 82% a população de brasileiros considerados em situação de subalimentação.” (Revista Globo Rural, edição de 16/09/2014).
O deliberado retorno da produção da miséria teve início com a emenda constitucional do teto de gastos, promulgada por Michel Temer já nos seus primeiros meses no poder. A isso seguiram-se, com metódica e macabra sistemática, outras medidas de desmonte, agravadas ainda mais pelo desgoverno necropolítico de Bolsonaro e o ultraliberalismo de seu ministro Paulo Guedes. Dentre elas, destacam-se, o aumento do desemprego e a precarização do trabalho (“reforma trabalhista”), a diminuição dos valores do Bolsa Família em relação à inflação, e a extinção da política de valorização do salário mínimo.
Segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, no final de 2021, como consequência das altas taxas de desemprego e do cancelamento das políticas públicas focadas no tema, o número de brasileiros vivendo abaixo da linha de pobreza triplicou, atingindo cerca de 27 milhões de pessoas. Isso produziu o pior cenário da miséria no Brasil, nos últimos dez anos. (CNN Brasil, 31/10/2021).
No seu discurso de posse de 2003 o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez do combate à fome a principal prioridade de seu governo, convocando todo o povo brasileiro a um mutirão cívico contra aquele flagelo, e em defesa da dignidade humana.
Tal propósito foi levado a cabo através de um conjunto de políticas públicas estratégicas que resultaram, em apenas uma década, na saída do país do Mapa da Fome da ONU.
Mesmo que fosse só por isso – e não é! – o voto precisa ser Lula, já no primeiro turno.
LULA JÁ.
“Os boias-frias… sonham com bife à cavalo, batata frita e a sobremesa”
(João Bosco e Aldir Blanc, “O rancho da goiabada”).
Normalmente, um documento prospectivo tem por objeto partir do presente para se projetar no futuro, tentar elaborar diversos cenários e encontrar as respostas mais apropriadas para cada um deles. É um estudo que começa no presente e continua avançando no tempo, uma abordagem de compreensão do futuro antecipado que considera a dinâmica de todas as forças – técnicas, científicas, sociais e econômicas, bem como as interações entre fatores sociais, ou seja, a totalidade de variáveis que agem sobre o desempenho dos sistemas sociais ao longo do tempo.
A prospecção é “um meio de enfocar o futuro, imaginando-o a partir das deduções extraídas do presente”. Michel Godet, em Prospecção no Setor de Defesa no Brasil: O Caso do Exército Brasileiro (1991), define a prospecção como sendo “um panorama dos futuros possíveis, isto é, dos cenários que não são improváveis, tendo em conta os determinismos do passado e a confrontação dos projetos dos atores. Cada cenário (representação coerente de hipóteses) da prospecção pode ser objeto de uma apreciação numérica, ou seja, de uma previsão”.
Se nos atemos em entender o que é e quais são os objetivos de um estudo prospectivo é porque assim se define o PROJETO DE NAÇÃO do Instituto Sagres, um think tanks militar, sob a coordenação do general Luiz Eduardo Rocha Paiva e da professora Maria Verônica Korilio Campos, sua vice-presidente. Limitemo-nos ao general Paiva: foi presidente do grupo Terrorismo Nunca Mais, a ONG do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, mais famoso torturador da ditadura citado pelo então deputado Jair Bolsonaro no voto pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff; Bolsonaro o nomeou membro da Comissão da Anistia, do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos; em 2021, foi autor da nota “Aproxima-se o ponto da ruptura”, divulgada pelo Clube Militar após a anulação dos processos do ex-presidente Lula na Lava Jato. Um currículo que dispensa comentários…
Como se necessário fosse, a Sagres se somou na elaboração do « estudo » ao Instituto General Villas Bôas, presidido pelo militar que ameaçou o Supremo Tribunal Federal, em 2018, durante o julgamento do habeas corpus que daria liberdade a Lula; e ao Instituto Federativo, cuja filosofia social consiste em defender a caridade, que seria « a mais poderosa força de transformação do mundo ».
Foram esses os autores do famoso documento que se intitula erroneamente prospectivo e que foi lançado com alarde em presença do vice-presidente da República, general Hamilton Mourão.
Por que erroneamente? Porque eles não partem da realidade, de dados confiáveis, para então se projetar no futuro. Não, eles partem de uma visão ideológica do mundo, fascista, baseada na pós-verdade, para chegar onde eles pretendem, isto é na ditadura. Este é o projeto que vem sendo imposto subrepticiamente aos brasileiros pelas diferentes vertentes do governo Bolsonaro: lideranças evangélicas fundamentalistas, membros de seitas obscuras, ruralistas, armamentistas, antiglobalistas Olavistas, saudosistas da ditadura, hiper-conservadores, anti-ciência, discriminadores e preconceituosos de todo tipo, e sobretudo militares, que ocupam milhares de cargos civis do primeiro, segundo e terceiro escalões. Eram 1.934 membros das Forças Armadas nestes postos do Executivo federal em 2018; 2.765 em 2019; dois anos depois, 6.157.
Segundo um relatório do Tribunal de Contas da União, militares ocupam quase 20% dos 14,6 mil cargos comissionados em 70 órgãos no governo Bolsonaro; sendo que mais de 75% são da ativa. Estes militares são responsáveis por grande parte da burocracia estatal em áreas que vão muito além do Ministério da Defesa, incluindo Meio Ambiente, Economia, Saúde e até Educação.
A pergunta que não quer calar foi colocada pela revista Carta Capital:
– Qualquer pessoa de bom-senso se pergunta como uma parcela tão importante dos militares brasileiros chegou ao ponto de conceber e levar adiante um governo militarizado e aliado a grupos e pessoas movidas por reacionarismo religioso e fanatismo econômico e ideológico ultrapassados, todos “escondidos” atrás de um personagem grotesco e um “mau soldado”, como Jair Bolsonaro foi qualificado por Ernesto Geisel.
O grande problema que se coloca hoje, três anos e meio anos após a eleição Moro-fraudada do ex-capitão, é que esses militares, que tiveram seus salários dobrados, não querem perder a mamata e decidiram permanecer no poder pelo menos até 2035, como mostra o tal Projeto de Nação, assim escrito com todas as letras.
O documento parte do pressuposto que os cidadãos brasileiros, em sua maior parte, identificam-se como conservadores evolucionistas, no campo psicossocial, e liberais na economia. Em outras palavras, seríamos majoritariamente o retrato do início do governo Bolsonaro: hiper conservador como Steve Bannon e liberal como Paulo Guedes.
O Projeto tem como base a criação de um Centro de Governo, que seria uma espécie de governo bis, um órgão independente da administração federal que cuidaria de elaborar e implantar os projetos de Nação, sem ser afetado pelas mudanças de governo resultantes do processo eleitoral. Pelo qual, portanto, o Brasil se transformaria numa mera democracia de fachada.
O Centro de Governo retiraria da mão dos eleitores, portanto dos civis, a possibilidade de alternância do poder. Seria uma estrutura dentro do governo federal, porém totalmente independente da própria Presidência da República, com poderes para administrar todos os Ministérios.
Isso seria, de acordo com o antropólogo Guilherme Lemos, da Universidade Federal de São Carlos, que pesquisa o papel das Forças Armadas no Brasil, citado pelo UOL, “a cristalização do projeto político que os militares vêm pensando desde pelo menos 2014, quando Bolsonaro começa a fazer campanha dentro da AMAN (Academia Militar das Agulhas Negras)”.
Seria por acaso um novo e sofisticado gabinete do ódio?
Aliás, é de se perguntar se este Centro de Governo já não existe, na medida em que o estudo em questão salienta que graças à sua implantação o Brasil viria a ingressar na OCDE, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, em meados de 2022. Ora, entra semana sai semana, um ministro brasileiro vai à Paris bater às portas da OCDE.
O Projeto de Nação é a materialização do pensamento militar atual, a emanação do pensamento do Exército para voltar ao Poder, de onde, acreditam ops autores, nunca deveriam ter saído. Seu propósito é legar um Brasil melhor aos nossos filhos e netos, e manter o Bolsonarismo pelos próximos 13 anos. Sua obsessão, o combate ao comunismo, confundido com o globalismo, seu inimigo mortal. Seu objetivo, acabar com a ideologização, onipresente na sociedade, nas escolas, nas universidades. Necessário para tanto “desideologizar” os currículos, privilegiar os conteúdos teóricos e práticos, reforçar os valores considerados morais e cívicos, acabar com a “nefasta” autonomia universitária e tornar o ensino superior pago, da mesma forma que o SUS, Sistema Único de Saúde, que hoje salva os brasileiros mais necessitados, considerados por eles como um peso.
Com relação à Amazônia, os militares propõem a flexibilização das legislações referentes à exploração de minérios, a regulamentação da participação do capital estrangeiro nessas atividades, o fim das restrições hoje impostas pela legislação nas áreas indígena e ambiental, o livre acesso ao agronegócio à floresta, sinônimo de mais desmatamento.
Tudo isso seria implementado por decreto, sem passar pelo Congresso.
Seria, portanto, é salutar insistir, o enterro da democracia e o advento de uma era de trevas, da qual o Brasil levaria décadas e décadas para se reerguer.
Este é o Brasil que eles, os militares, querem des…construir. É o Brasil dos milicianos, dos policiais que matam indiscriminadamente, que implantaram a pena de morte em chacinas sob aplausos do Planalto, é o Brasil do policial rodoviário que transforma o camburão numa câmara de gás, é o Brasil que destrói o sonho emancipador da mulher negra Marielle Franco, o Brasil da morte de tantos ianomâmis. É o Brasil da discriminação das minorias, de todas as minorias, de todos os racismos. É o Brasil da falta de cultura, de educação, o Brasil da boçalidade, que enche os quartéis de viagra e os hospitais de cloroquina. É o Brasil da tortura como método de governo, o Brasil da antidemocracia e da anti-verdade, o Brasil da lei da força, da desobediência à Justiça, do golpe continuado, o Brasil da barbárie, do genocídio.
É o Brasil da tristeza, o Brasil que não queremos para os nossos filhos e netos, o Brasil infecto de Bolsonaro.
Nós como brasileiros, de todas as cores e religiões, “brancos, pretos, mulatos, lindos como a pele macia de Oxum”, nós como judeus que acreditamos na supremacia dos direitos humanos, exigimos a restituição do nosso país, do país do SUS e da vacina, do país que sonhou com igualdade e justiça social, do país sem fome nem miséria, do país com mais Chico Buarques e menos Sérgio Reis. Amanhã voltaremos a sorrir sem medo. Temos direito de ter orgulho e não vergonha. Não, o futuro não será fascista. NUNCA MAIS!
Milton Blay, do coletivo Judias e Judeus Sionistas de Esquerda
Só se fala nisso. O cara resolveu chutar o pau da barraca e num ato já há muito planejado, indultou um criminoso condenado pelo STF. Usou de uma prerrogativa esquecida da Constituição de 88, o ato de “Graça”, um tipo de perdão presidencial.
Todos conhecemos os famosos indultos de Natal. Ato do presidente da república em favor de presos, geralmente condenados pela primeira vez por crimes menores e há poucos anos. Uma forma de aliviar o espaço nas penitenciárias e ao mesmo tempo dar uma segunda chance aos condenados.
O que fez Bolsonaro foi algo nunca visto na história do Brasil. Ele usou de sua prerrogativa presidencial para indultar um condenado, sem trânsito em julgado, ainda cabendo apelação, quando a tinta da pena ainda não havia secado no papel. Sua ousadia é uma afronta ao Estado de Direito e uma declaração de guerra ao poder judiciário.
Normalmente os crimes cometidos por cidadãos percorrem um longo caminho na justiça. Os políticos acharam que por serem cidadãos de uma outra categoria, mereciam serem julgados em fórum especial. Existem os crimes de responsabilidade e até mesmo os crimes políticos. Eles podem ter seus mandatos cassados, se tornarem inelegíveis e até mesmo serem presos. Políticos são julgados por seus pares e/ou pelo STF.
Os poderes da república têm seu papel definido pela constituição. Temos o executivo, na pessoa do presidente, o judiciário, representado pela suprema corte e o legislativo representado pelo Congresso Nacional. Cada poder tem sua atuação limitada ao seu papel na democracia e suas decisões precisam ser respeitadas.
Quando um dos poderes não acata as decisões de outro, o processo democrático sofre uma cisão. Nestes casos o impasse merece tratamento urgente para que o problema não se transforme em um impasse e cause uma ruptura democrática de consequências imprevisíveis.
A atitude de Bolsonaro abriu o caminho para um confronto direto com o STF. Ao conceder o indulto, sem mais delongas, ele abriu caminho para a possibilidade de um presidente da república perdoar pessoas específicas de acordo com a sua vontade, independentemente do crime que cometeram e da pena que receberam. Neste caso, aos amigos as benesses do poder, e aos inimigos o rigor da lei.
O que vamos assistir na semana que entra é um embate sobre a constitucionalidade do ato. Se ele pode ser utilizado na forma e no tempo em que foi promulgado. São questões levantadas por diversos juristas e tudo ainda está no campo teórico, justamente pelo ineditismo do ato em si.
Independentemente do resultado, já podemos contabilizar o resultado dele. Se continuar valendo, mesmo assim o criminoso continua com seus direitos políticos cassados, não podendo concorrer nas próximas eleições. Para alguns juristas, a multa imposta terá de ser paga. De toda maneira o precedente abre uma brecha na lei para proteção de criminosos condenados ao sabor da vontade presidencial. Em tese, ele pode, desde já, se auto indultar por futuras condenações que possa sofrer, e ato contínuo indutar seus familiares e amigos.
Se a promulgação for declarada ilegal, estamos diante de um crime de responsabilidade cometido pelo presidente da república contra o Estado de Direito numa afronta ao país. O que acontece a seguir? Quem obedece a quem? Quem tem a palavra final?
O que está por vir vai mudar a história do Brasil, vai influenciar diretamente no processo eleitoral e vai determinar a saúde do regime democrático vigente. As instituições estão diante da corda esticada ao máximo e próxima da ruptura. Os lados vão rebentar a corda, ou vão se aproximar para uma solução intermediária?
A invasão da Ucrânia pela Rússia vai deixar feridas profundas na esquerda brasileira, que certamente demorarão a cicatrizar. Após um momento de rara unanimidade no enfrentamento ao nazifascismo bolsonarista, como houve anteriormente nas manifestações das « Diretas já », vivemos uma divisão radical das esquerdas, de grande violência. Chegou a haver manifestações de ódio entre campos adversos.
A guerra pediu posicionamentos claros e os militantes de esquerda não se esquivaram. Assim, formaram-se, grosso modo, dois grandes campos: o dos prós e o dos anti Putin.
O primeiro abandonou os valores de esquerda para se jogar de corpo e alma num antiamericanismo cego, defendendo a intervenção militar russa sob o argumento do combate ao imperialismo estadunidense. Houve aplausos estridentes a Putin, que enfim ousou desafiar a OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte – e consequentemente Washington e seus aliados europeus, chamados de lacaios. O anti-imperialismo serviu de justificativa à guerra e até as atrocidades onipresentes nos conflitos armados, como a destruição de hospitais, escolas, orfanatos, padarias e sapatarias, deixando um rastro de morte.
Putin deu a este grupo de « torcedores » uma outra justificativa de peso, embora mentirosa: a desnazificação da Ucrânia. Não que se negue a existência de milícias armadas neonazistas na Ucrânia, que aliás se especializaram em formar combatentes estrangeiros. Eu mesmo publiquei em livro a história do Batalhão Azov e do Previi Sektor, duas milícias que deixaram suas marcas no grupo dos 300 liderado por Sara Winter, que acampou nas proximidades do Palácio presidencial, em Brasília, e atirou fogos de artifício contra a fachada do STF. Mas é preciso também falar dos neonazistas russos, como o Bataljon Sparta, unidade acusada de vários crimes de guerra e que luta no Donbass.
A mentira da pretensa desnazificação vem da extrapolação da acusação para a Ucrânia como um todo. O país não sendo nazista não há porque desnazificá-lo. Mas como fazia com maestria Goebbels, o ministro da Propaganda de Hitler, a mentira contada milhares de vezes torna-se verdade na cabeça daqueles que ouvem e até mesmo daqueles que a inventaram. Assim sendo, essa parcela da esquerda engoliu a fraude, mesmo sabendo que se tratava de um argumento falacioso, pois servia aos seus interesses.
A referência à desnazificação, mesmo que mentirosa, não pode ser entendida sem uma referência histórica. Quando os alemães atacaram a URSS, em 1941, o movimento nacionalista liderado por Stepan Bandera proclamou, sob a autoridade dos nazistas, a Ucrânia independente. Só que a situação atual nada tem a ver com essa história, manipulada por Vladimir Putin. A Ucrânia de hoje não é a Ucrânia da época de Bandera,aliás citado com uma insistência doentia.
O roteiro esquerdista estava escrito: a invasão era a « desculpa » tão esperada para combater os Estados Unidos e a Europa e, paralelamente, com uma pitada de saudosismo socialista soviético, criar uma Rússia « ideal », que pouco (ou nada) tem a ver com a atual. A realidade é outra, a Rússia de hoje é de extrema-direita, vive sob um regime ditatorial, em que não reina o primado do Direito, a violação dos direitos humanos é sistemática, não há liberdade de expressão, nem justiça social, nem igualdade de gênero. A palavra de ordem vem do Kremlin e de seus oligarcas. Vladimir Putin é o maior financiador dos partidos europeus de extrema-direita. Ele é nazifascista, mas isso tampouco importa, pois essa esquerda está presa à Guerra Fria e se coloca a favor do « czar » por ser ele, supostamente, antiamericano. « O inimigo do nosso inimigo é nosso amigo ». Trata-se de uma esquerda velha, que o Coordenador do Observatório da Extrema-Direita, David Magalhães, chama de « paleozoica ». É uma esquerda que não se oxigenou, que mescla nacionalismo com esquerdismo e que vê em Putin uma força para enfraquecer a posição dos Estados Unidos no mundo. E isso basta.
Pouco importa se o guru do chefe do Kremlin, Aleksander Duguin (que deu nascimento no Brasil ao movimento de extrema-direita Nova Resistência), professa a ideologia antiglobalista e o antimarxismo cultural do Olavismo, base do bolsonarismo e da Alt-Right mundial. Pouco importa se o lema do Duguismo, emprestado de Trump, é « A Rússia grande de novo ». Nada disso conta.
Para essa esquerda, diz Magalhães, tanto se lhe dá se Putin é um déspota e tem uma agenda hiper-relacionaria. O essencial está na crítica do império americano ao mesmo tempo que minimiza o império russo. Esquerdistas desta ala não hesitam em ressuscitar o termo « democracia relativa » do general-ditador Ernesto Geisel para explicar que Putin não é um autocrata nem a Rússia uma ditadura.
É uma esquerda sob a influência das teorias conspiratórias divulgadas pela mídia moscovita, a começar por Sputnik e RT, frequentemente citados na mídia independente brasileira. O antiamericanismo é o valor absoluto que serve como visão de mundo. É o modelo que explica e justifica tudo, até mesmo alianças com Jair Bolsonaro, defendidas despudoradamente. O antissemitismo é o complemento desta receita explosiva.
Essa é a esquerda brasileira representada por José Dirceu e o PCO.
Em contrapartida há, dentro do próprio PT, uma outra esquerda, a do ex-chanceler Celso Amorim, cabeça pensante de Lula em política internacional.
É uma esquerda que não hesita em condenar o expansionismo da Aliança Atlântica, mas que não cede ao conspiracionismo e defende os valores humanistas: democracia, Estado de Direito, Direitos Humanos, Justiça Social, não discriminação de minorias. Essa outra esquerda, que inclui o ex-presidente Lula, denuncia todos os imperialismos, sejam eles americanos ou russos. Em nome da defesa dos direitos humanos, não aceita fazer aliança com regimes nazifascistas, é favorável à autodeterminação dos povos, de todos os povos na Ásia como nas Américas, na Europa, no Oriente Médio e contra a invasão de um país por seu vizinho.
Essa outra esquerda, da diplomacia, não aceita o argumento russo de que o simples interesse ucraniano em ingressar na OTAN justifica uma intervenção, mesmo porque a Aliança Atlântica havia descartado a adesão nos curto e médio prazos e que Emmanuel Macron e Olaf Scholz estavam mediando o diálogo. Não havia, portanto, risco imediato que explicasse a necessidade premente da guerra. Além disso é preciso lembrar que a invasão aconteceu à revelia do Direito Internacional, já que apenas as operações militares avalizadas pela ONU são consideradas legais, salvo quando se trata de legítima defesa. E ao que se saiba a Rússia não foi atacada. A eventual legitimidade não significa legalidade. A invasão foi, nas palavras de Amorim, uma violação grave do direito internacional, um erro. Moscou não consultou a ONU em nenhum momento.
É verdade que a esquerda esteve dividida com frequência, o que sempre foi muito claro no Partido dos Trabalhadores, mas a Guerra da Ucrânia deixou as veias abertas, plagiando Eduardo Galeano. Para uns, Putin é herói, para outros não passa de um ditador sanguinário, um criminoso de guerra que deve ser julgado pelo Tribunal Penal Internacional, que não hesitou em lançar seus tanques contra uma escola em Beslam e matar 156 crianças, nem em fornecer armas químicas à Baschar el-Assad, nem por fim invadir a Ucrânia.
Isto dito, a postura anti-OTAN na América Latina e no Brasil em particular é compreensível e justificável, na medida em que há um traumatismo histórico pela influência imperialista americana na região.
O problema é que o diálogo entre as esquerdas ficou quase impossível, na medida em que a questão central envolve valores fundamentais e que os dois lados acreditam ter razão; não parecem nem um pouco dispostos a abrir mão de suas posições, nem avançar em direção do outro.
A apenas alguns dias do anúncio oficial da chapa Lula-Alckmin, momento em que o ex-presidente precisa da unidade de todas as suas forças, as esquerdas estão divididas, mais do que nunca. Que não seja de forma irremediável…