por Mauro Nadvorny | 22 out, 2020 | Brasil, Comportamento, Mundo, Opinião, Política
Após ter sido uma vez mais vítima do terrorismo islâmico, a França vive em estado de choque. Desta vez, ao contrário dos atentados de 2015, não foram os grandes números de mortos que abalaram a população. Foi apenas um morto, o que de certa forma tornou o ato ainda mais simbólico. Um homem foi decapitado; um professor de história, acusado por seus carrascos de ter dado uma aula sobre a liberdade de expressão.
Um jovem russo, de origem chechena, de 17 anos de idade, com estatuto de refugiado, cortou-lhe a cabeça em plena rua da pacata cidade de Conflans-Sainte-Honorine. Ele não conhecia o homem que assassinou. Até alguns dias antes nunca ouvira o nome de Samuel Paty. Mas fundamentalistas islâmicos, fichados nos serviços de segurança por serem radicalizados, chamaram sua atenção. O professor, como fazia todos os anos, teria cometido o “crime” de mostrar aos alunos as caricaturas de Maomé numa aula de Cidadania, a propósito da liberdade de expressão. Teve o cuidado de advertir os alunos muçulmanos para que pudessem sair da sala de aula se quisessem. Mesmo assim, alguns pais de alunos, islâmicos integristas, se insurgiram nas redes sociais, alegando blasfêmia. O pai de uma menina, que nem sequer era aluna de Paty, colocou nas redes sociais um vídeo em companhia de um conhecido islamista, denunciando o professor e exigindo sanções. Em um outro vídeo, o agitador afirmava que o professor havia mostrado fotos de um homem nu, simbolizando o profeta. Mentira.
As caricaturas em questão já tinham sido usadas como desculpa para o atentado ao Charlie Hebdo cinco anos antes (12 mortos) e à recente agressão a dois jornalistas, apunhalados em frente ao antigo prédio do jornal.
A França é tida como o país que mais leva a sério a questão da laicidade, baseada na estrita separação entre o Estado e o divino e na liberdade religiosa, dentro do respeito individual. Laicidade é um dos pilares da République Française. Respeita-se o direito de cada indivíduo praticar ou não uma religião.
Em nome desse respeito, ao contrário do que acontece em outros países, na França a blasfêmia não é punida. Aliás, a sátira não é reservada ao fundamentalismo islâmico. Não passa uma semana sem que Charlie ou o Canard Enchainédesacate indiferentemente um rabino, Moisés, um monge budista, Sidarta, Jesus, o papa.
O problema é que uma minoria de islâmicos radicalizados (nada a ver com a imensa maioria da população muçulmana francesa) se nega a obedecer as leis do país. Defende uma espécie de separatismo (termo utilizado por Emmanuel Macron), e exige que a charia, a lei islâmica, seja superior à Constituição.
Certos imãs pregam a desobediência civil e a violência contra os infiéis, em nome da leitura de uma versão radical e polêmica do Alcorão. Isso fez com que algumas mesquitas fossem fechadas.
Na verdade, o tema da radicalização islâmica foi ignorado por governos anteriores, abandonado entre as mãos da extrema-direita, cuja propaganda fazia um nauseabundo amálgama entre o fundamentalismo e a comunidade muçulmana como um todo, para desembocar na condenação generalizada da imigração. Para evitar entrar no jogo de Marine Le Pen, optaram por fechar os olhos. Consequência: o tumor cresceu e criou metástase.
Mas verdade seja dita: não foi só a radicalização islâmica que decapitou Samuel Paty. Embora quem apontou para o alvo tenha sido os agitadores, acompanhados dos pais mais ofendidos com a exibição das caricaturas, é preciso levar em conta que vivemos num mundo onde os conteúdos de ódio se tornaram virais. A violência, ao extremo da decapitação, é resultado e causa, num círculo vicioso.
Como escreve a economista Maria João Marques no jornal Público, de Lisboa: “Não é a primeira vez que as palavras de incentivo ao ódio levam a atos de violência e a mortes.”
As Nações Unidas, em seu boletim ONU Info do mês de fevereiro, foi categórico: “La haine sur les médias sociaux contribue directement à la hausse des crimes de haine contre les minorités”, em tradução livre O ódio nas redes sociais contribui diretamente ao aumento dos crimes de ódio contra as minorias.
Muitas vezes, a violência se limita às campanhas de assédio e ódio online. Em outras porém, as palavras de ódio frutificam. Jovens fragilizados e pessoas fanatizadas, prontas a endeusar mitos, se deixam enredar em ideologias promotoras de violência, tomam como ordens o ódio vomitado por terceiros, frequentemente por líderes populistas da hiperdireita como Trump e Bolsonaro.
Em agosto, em meio a protestos por um homem negro ter sido alvejado pelas costas pela polícia americana, um adolescente armado, de 17 anos, matou duas pessoas e feriu uma terceira. Ele tinha viajado do Illinois ao Wisconsin, onde ocorriam os protestos, para impor a ‘lei e ordem’ – o mantra de Trump contra os Black Lives Matter.
Não foi tampouco por acaso que o número de assassinatos explodiu no Brasil de Bolsonaro, apesar da pandemia.
O ódio alimenta a violência dos islamistas radicais bem como da extrema-direita hipernacionalista e retrógrada. Ambos partilham ideias e ódios. São visceralmente contra a modernidade, a inclusão, a liberdade sexual. Usam a religião – muçulmana num caso, evangélica no outro – como forma de organizar cruzadas, que via de regra nada têm a ver com os valores religiosos.
A este título, o exemplo da ministra Damares no recente episódio da menina grávida, de 10 anos de idade, estuprada pelo tio, foi exemplar. Apesar do direito ao aborto ser reconhecido pela lei e pela Justiça, a ministra da goiabeira insistiu em levar a gravidez até o fim, tratou o médico e a menina de assassinos e, em total ilegalidade, divulgou o nome e o paradeiro da criança para a então bolsominion Sara Winter, formada por neonazistas ucranianos do movimento militar Azov e líder do grupo supremacista 300 do Brasil.
Esse ódio é o mesmo partilhado pelos fundamentalistas islâmicos e radicais de direita em relação aos gays, às feministas, aos transexuais, aos negros, aos democratas, enfim, a toda e qualquer alma que seja diferente da sua e não queira viver na Idade Média. É o ódio que mata e decapita.
por Mauro Nadvorny | 20 out, 2020 | Brasil, Comportamento, Mundo, Opinião, Política
Nas últimas semanas tivemos episódios talvez inéditos, envolvendo publicações científicas que expressaram em seus editoriais e artigos opiniões políticas e sobre a política, no contexto da pandemia de COVID-19, que certamente só causou até agora o volume de danos e perdas pelas omissões e ações de governos irresponsáveis e desumanos, na saga negacionista em relação à ciência, à história e mesmo aos mais evidentes fatos.
A iniciativa dos periódicos Lancet, New England Journal of Medicine e Nature foi contundente. Em pelo menos um caso, o da revista Lancet, uma forte reação de dois grupos de médicos brasileiros protestou contra o que foi rotulado como uma “intromissão política indevida” para um periódico científico, que nos dois casos foi literalmente instado a não manifestar-se sobre isso.
Um dos subscritores da reação à Lancet é amigo pessoal deste autor, e ocupa posição destacada no meio científico médico brasileiro, e desta amizade de longa data surgiu então um intenso debate sobre a polêmica. De um lado, penso que em um ambiente onde a ciência é negada, atacada e negligenciada enquanto fonte de informação para ações políticas em saúde pública que venham a proteger governados, cabe sim a reação dos veículos legitimadores do conhecimento médico científico. Afinal, se a ciência não tiver como objeto o progresso da humanidade e seus frutos não se transformarem em fomento técnico de bem-estar e segurança pela instrumentação política, estará decretado o seu fim, bem ao gosto do neofascimo hoje à beira da institucionalização. No outro lado, meu velho amigo impugnando a resposta política da ciência, insistindo em uma separação total dos territórios, com uma visão de mundo que isola a ciência da vida real e cotidiana e a coloca em um verdadeiro altar onde os dados e números são de pureza absoluta e totalmente desarticulados do universo político. Tudo se passa como se a carreira acadêmica máxima que fez em instituição pública bem como as verbas que recebeu para suas pesquisas no ambiente da universidade pública nada tivessem a ver com a atividade política ou com a visão de estado daqueles que tomam as decisões sobre os investimentos. Tudo também se passa como se a ciência não necessitasse do processo de debate político para que seus conhecimentos sejam incorporados à vida do cidadão comum, às mudanças de práticas e hábitos, à formulação de leis e políticas de estado.
Paul Feyerabend, falecido professor de filosofia em Berkeley deixou uma vultosa obra que nos clarifica de forma paralisante o mundo onde a ciência tomou o lugar da religião seguindo hoje como verdadeira fonte de poder econômico e…político! Ele nos adverte sobre o tipo de conhecimento que a ciência vem desenvolvendo principalmente no mundo ocidental e capitalista, em um círculo vicioso de financiamento/empoderamento e formação de monopólios de saber que literalmente estão ditando os rumos da humanidade. Não bastasse isso, para aquele autor a ciência reclama permanentemente a si mesma a chancela do conhecimento, criando barreiras a qualquer outra forma de apreensão e compreensão do mundo e da vida que não passe pelo crivo cartesiano. Vale a leitura de suas obras “Como proteger a sociedade da ciência” e “Adeus à razão”.
Meu amigo parece não aperceber-se de que sua (entre outras tantas) vida está condenada em um mundo onde a ciência é atacada, não por aqueles que como Feyerabend possuem uma visão crítica necessária a uma revisão sobre o lugar, o poder e as dimensões da ciência na sociedade moderna, mas por aqueles que certamente não têm alcance mental para compreender o que é ciência e muito menos para fazer uma crítica qualificada. O ataque vem das sombras, das trevas, dos saudosos de tempos de ódio e barbárie, e se não defendido pela ciência, será vitorioso, como mostra a tragédia da pandemia atual.
Diante da desfaçatez do governo brasileiro, que divulgou ontem um estudo dando conta da “eficácia da Nitazoxamida” no combate ao COVID-19 sem apresentar uma única estatística ou debate, provoquei o meu amigo novamente, instando-o a mandar uma carta para o Ministério da Ciência e Tecnologia protestando contra a intromissão de políticos no mundo da ciência, em situação absolutamente simétrica à que ele denunciou antes. A resposta foi de causar frouxos de riso. Para ele, não é papel dele fazer esta reclamação, mas sim dos políticos profissionais, mostrando de forma pornográfica a sua visão fragmentada de mundo, de ciência, de cidadania, de médico e do complexo universo onde vivemos.
Destas conversas que se estenderam por dias, resta a visão de que o meu romântico mundo cultivado durante tantos anos desde o meu ingresso na faculdade de medicina pariu muitos filhos que voluntariamente se puseram na condição de órfãos. O que é verdadeiramente assustador.
A revista Nature, talvez encerrando o episódio, publica na semana que passou um statement: “Está cansado da negação da ciência? Pois abrace a política!”.
Que alívio.
NELSON NISENBAUM
por Mauro Nadvorny | 20 out, 2020 | Brasil, Comportamento, Opinião, Política
Ainda há aqueles que, como o presidente do PSDB (outrora um partido de aparência respeitável), defendem o diálogo com o capitão, em nome da concórdia. Como se isso fosse possível. Conversar seriamente com Bolsonaro é o mesmo que negociar com o Estado Islâmico, como havia proposto Dilma Rousseff, na tribuna da ONU.
O presidente é a encarnação do mal, pelo que faz, pelo que não faz, pelo que diz, pelo que silencia.
O papel do presidente da República não é apenas fazer, ou seja propor reformas através da lei. Longe disso. A comunicação talvez seja hoje ainda mais importante.
A respeito, todos os líderes populistas, de Trump a Bolsonaro, passando por Modi, Orban, Salvini, Le Pen, não se comunicam pelas regras clássicas. Ignoram os canais tradicionais para se dirigir diretamente ao povo, ou melhor ao seu eleitorado, sobretudo através das redes sociais. O pior é que dizem tudo o que lhes vêm à cabeça. E temos aí um problema seríssimo. Por que? esqueçamos por um minuto Bolsonaro, hors concours. Falemos de Trump. O presidente dos USA, tempos atrás, lançou uma ideia que lhe veio à cabeça no meio de uma coletiva de imprensa: injetar desinfetante no corpo para limpar os pulmões do coronavírus. Lembram-se? Dois dias depois, vendo que a loucura que disse afetava a sua campanha eleitoral, voltou à público dizer que se tratava de “sarcasmo”. Pois bem, nesse meio tempo, muitos americanos, acreditando no presidente, tomaram desinfetante; houve inúmeras internações em hospitais (que já estavam abarrotados) para salvar os seguidores cegos de Trump.
Isso mostra o grau de responsabilidade de um presidente da República. Ele não é um cidadão comum, não tem o direito de dizer o que lhe vem à cabeça, sua palavra não tem o mesmo peso da palavra dos polemistas de mesa de bar. Sua palavra, como os seus atos, tem enorme valor simbólico. Governa-se através deles.
Em bom português, um presidente da República não pode colocar nas redes sociais um vídeo de “golden shower“. Não é que ele não deva, ele não pode, não tem esse direito. Não tem o direito de dizer que para combater o aquecimento climático vamos fazer cocô um em cada dois dias. Ele não pode mandar publicar no Diário Oficial um ato com assinatura que não seja a sua. Ele não pode dar banana para os jornalistas, mandar a imprensa calar a boca, dizer que tal jornalista é gay, ameaçar enchê-lo de porrada, fazer brincadeira de cunho sexual com uma jornalista, nem colocar os jornalistas num cercadinho disputando a palavra com os seus apoiadores. Simplesmente não pode, pois agindo dessa maneira desrespeita uma instituição – a imprensa – sem a qual a democracia não existe. E assim, desrespeita a Nação. Um presidente não pode escolher quais os veículos que participam das coletivas nem reservar a publicidade oficial para os amigos do rei. Não pode transformar uma mídia de serviço público em estatal a serviço do Planalto. Isso é, sim, violação da liberdade de imprensa.
Não pode atacar o Congresso nem a Corte Suprema, a quem deve respeito e obediência, afinal o STF, como bem disse Rui Barbosa, é a última autoridade com direito a errar.
O presidente não pode dizer que a facada que levou deve ser investigada e a morte da Marielle não; não tem o direito de defender milicianos, cuja atividade é ilegal; não pode nomear um nazifascista para ministro da Cultura nem um ministro da Saúde que não entende nada do assunto em plena pandemia; não pode tecer elogios rasgados ao general Pinochet, Alfredo Stroessner, nem a Carlos Brilhante Ustra. A apologia à ditadura militar é crime no Brasil, previsto na famigerada Lei de Segurança Nacional (Lei 7.170/83), na Lei dos Crimes de Responsabilidade (Lei 1.079/50) e no próprio Código Penal (artigo 287).
O presidente não pode responder E daí, dando de ombros, quando é indagado sobre a escolha, para diretor geral da PF, de um amigo do filho que está sendo investigado; não pode indicar para o Supremo um farsante plagiador recomendado pelo mesmo filho; não pode ignorar que a primeira-dama recebeu em sua conta dinheiro suspeito; não pode dizer que a pandemia é um resfriadinho, porque os seus apoiadores incondicionais passam a desrespeitar o isolamento correndo soltos rumo ao risco de morte; não pode mostrar desprezo para com os mortos da Covid 19.
Esses e centenas de outros atos e palavras de Bolsonaro tiveram e continuam tendo enorme influência na vida das pessoas, na forma delas pensarem e agirem. Isso também é governar. Ele cometeu e comete diariamente atos de violação à Constituição. O exemplo que dá é o pior possível, menosprezando a exemplaridade, que faz parte da governança. Assim como os ritos, que foram jogados na lata do lixo.
Por que o problema, meu amigo, é que milhões de pessoas acreditam nele, se identificam com ele e saem por aí, em nome dele desrespeitando a lei, promovendo a desobediência civil, o Estado de Direito e as regras básicas da vida em sociedade. Essas pessoas dizem – e com certa razão – Se o presidente pode, eu posso.
– Se o presidente da Fundação Palmares pode chamar o movimento negro de “escória maldita”, eu também posso ser racista.
– Se o general Heleno pode lançar apelo ao golpe, eu posso defender a ditadura.
-E se o general Mourão pode defender o torturador Ustra, eu posso sair por aí distribuindo porradas.
Acontece que o capitão e seus asseclas cometem crimes cotidianos, até agora impunidos. Enquanto o cidadão comum corre o risco de ser seriamente sancionado.
Bolsonaro considera que só tem de prestar contas ao seu eleitorado cativo. Também acredita que membros nomeados de seu governo, servidores públicos, deputados e senadores eleitos em sua esteira devem lealdade a ele, e não ao país. Para tanto, conta com um cúmplice de peso na pessoa do Procurador Geral da República, fiel dentre os fiéis.
Hoje temos no Brasil dois lados: um movido a fanatismo e ódio, outro a angústia e desespero. Perdemos a racionalidade. Estamos num vale-tudo, que pode nos levar ao abismo. Nesse Brasil enclausurado só há uma porta, que indica a saída, o mais rapidamente possível, desse descerebrado chamado Jair Messias Bolsonaro que, apesar do nome, como ele próprio indicou, não faz milagres. O importante é que vá embora o quanto antes e que assim possamos tentar salvar a democracia. Se assim não for, como parece que não será, que ao menos seja derrotado, de preferência fragorosamente, daqui a dois anos. É o mínimo que os democratas, inclusive de direita, devem esperar. Mas será que em 2022 o capitão, os militares, os evangélicos, a bancada da bala e do boi, os milicianos largarão o osso por uma simples questão matemática do número de votos nas urnas?
É sempre bom lembrar que o poder tem gosto de mel e quem se lambuza fica viciado.
por Mauro Nadvorny | 18 out, 2020 | Brasil, Justiça, Opinião
Moralidade sexual, termo que foi usado pela Advocacia Geral da União – AGU, para cobrar do STF respostas sobre a decisão de junho de 2019, que enquadra atos de homofobia e transfobia, como crimes de racismo.
A AGU se pauta em bases medievais para argumentar sobre esse tema, trazendo dúvidas sobre a legitimidade da Constituição Federal de 1988, que concede igualdade de direitos entre todos os cidadãos brasileiros, e também a liberdade religiosa, sem ressalvas, sem parênteses, sem dubiedades, apenas, liberdade e direitos iguais para todos!
Diante das informações acima, faço-me uma pergunta: de onde vem o respaldo para esse tipo de colocação? Quando começamos a mergulhar no obscurantismo? Quando deixamos de ser um Estado laico?
Estabelecer ou restringir leis com bases teocráticas é um terreno deveras perigoso, pois não sabemos o que isso pode acarretar. O Brasil é um país com uma cultura diversificada, e com diversas vertentes religiosas, e sendo assim, estabelecer direitos e deveres baseados em uma só tendência religiosa, por mais que ela seja maioria, será uma ferida aberta na nossa tão valiosa constituição. Atualmente estamos assistindo um festival de horrores no Brasil, são tantos acontecimentos esdrúxulos, que já não sabemos como administrar de forma racional, e diante disso, volta a pergunta, de onde veio tudo isso? Quando foi aberta a porta do inferno? O que tornou possível esse tipo de colocação de um órgão tão importante como a AGU?
Há mais de dois anos estamos vendo um enxurrada de acontecimentos dantescos no Brasil, e não adianta alguém querer fazer a defesa do indefensável, pois o atual mandatário da nação, desde sua campanha, sempre fez questão de vomitar impropérios dos mais inusitados, e com isso, fez surgir uma legião de “cidadãos de bem”, que são providos de hipocrisia, e se acham donos de uma verdade absoluta e particular.
Qualquer pessoa que tenha um mínimo de conhecimento sabe que todo absolutismo é danoso, a liberdade é fundamental para a alma humana, sem isso, não conseguimos viver, no máximo, sobrevivemos. É chegado o momento de darmos um basta nessa sanha conservacionista do povo brasileiro, vamos dizer NÂO a instalação de um Estado teocrático neopentecostal, vamos elevar a nossa voz de indignação, e lutar com todas as nossas forças para manter a nossa Constituição, vamos gritar, vamos fazer o que for possível para manter a democracia e o direito a liberdade de ser e estar aonde se queira, independente de etnia, credo ou ideologias!
por Richard Klein | 17 out, 2020 | Brasil, Opinião, Política
Capítulo 20
“E vou cantar entre os cristais azuis do tempo e perceber
A terra longe, longe a se perder.”
Som Imaginário
O vestibular, a prova que definiria nosso futuro e o nosso valor para a sociedade, estava esperando na esquina. Esse rito de passagem preocupava até os mais inveterados membros da “esquadrilha da fumaça” do Colégio Andrews. Apesar do nervosismo na escola e em casa e além da obrigação de justificar o dinheiro gasto na nossa educação, nos perguntávamos onde iríamos parar depois que passássemos por aquele portal se passássemos. A sensação era que Molloch, o deus monstruoso do aparato militar industrial capitalista, retratado por Allen Ginsberg no seu genial poema Howl, estaria nos esperando do outro lado, vampiresco e impessoal, escravizador e envenenador de tudo e a todos com seu piche de enquadramento e resignação.
Era como estivéssemos enjaulados aguardando ser soltos para um futuro de animais de elite adestrados, sangue novo num ciclo de oferecer força vital em troca de mercadorias desnecessárias. Como engolir a máxima arbeit macht frei – o trabalho constrói a liberdade – escrita nos portões de Auschwitz e enraizada no pensamento ocidental, martelada em nossas cabeças por professores, mídia, filmes e, acima de tudo, por nossos pais?
Embora não fossem, de forma alguma, nazistas, nossos educadores acreditavam que a única maneira de escapar à injustiça inerente ao mundo era trabalhar duro para se tornar uma peça bem remunerada de Molloch. Como nas histórias de vampiros, sabíamos que no momento em que nos tornássemos “um deles”, não haveria volta e reproduziríamos o servilismo de dezenas de gerações passadas. Por mais que nos esforçássemos, o dinheiro ganho jamais compraria nem liberdade nem felicidade. Os únicos que teriam direito a isso seriam os que nem precisariam se esforçar ou se preocupar já que fortunas familiares lhes garantiriam blindagem.
Sem dúvida, num país onde o acesso às universidades era um privilégio de poucos, essas opiniões eram resultado de uma mistura de educação sofisticada com tempo disponível para ler e refletir. Contudo, esta situação confortável propiciava uma distância necessária para discernir claramente a máquina que movia o mundo. Ela estava ali nos esperando, sólida e impassível e mostraria suas garras assim que ingressássemos no mercado de trabalho. Embora o vestibular não fosse a parada final, era o portal para um posto avançado. A vida depois dali viraria séria, em outras palavras estaríamos seriamente ferrados. Isso se passássemos, se não passássemos, a humilhação da ineptitude para servir Molloch seria insuportável.
A versão oficial sobre o que estava do outro lado do portal, era a de um mundo desfrutando a vitória do bem sobre o mal, onde as forças democráticas e socialistas haviam esmagado o nazismo. Nele, a humanidade estava a caminho de um lugar melhor, livre, repleto de avanços tecnológicos que garantiriam prosperidade a todos, a despeito da indevida oposição do comunismo totalitário.
O que tentavam ocultar desse mundo era a locomotiva que o guiava; as grandes corporações. Estas eram as provedoras dos bens e dos serviços que o caracterizavam. Para que a máquina funcionasse a seu jeito, demandavam governos que lhes passassem um cheque em banco. Governos voltados para o bem-estar de todos não interessavam.
A despeito do sucesso econômico durante a reconstrução dos países arrasados pela guerra, teóricos liberais, os sacerdotes de Molloch, se rebelaram. Estes diziam que o estado estava se metendo demais na economia e impedindo que a locomotiva funcionasse direito. Eles se esforçavam – e ainda se esforçam – para provar que os interesses das grandes fortunas e os das populações eram a mesma coisa. Sua lógica de mão única afirmava que sucesso do capital privado era fundamental para o bem-estar da população. O inverso não era verdade; o bem estar “em excesso” da enorme maioria seria nocivo ao bom funcionamento da economia. Baseado nessa premissa, quando havia descontentamento ou quando grandes interesses eram contrariados, a ordem estabelecida, detentora exclusiva do direito à violência, recorria à força. Vista dessa ótica, a democracia liberal era uma ilusão onde todos achavam que tinham escolhido viver em submissão.
Talvez por aprenderem de primeira mão sobre a brutalidade que seus pais e avôs sofreram em duas guerras mundiais na luta pela liberdade e pelos ideais democráticos, talvez por presenciarem diretamente as escolhas decepcionantes feitas pelas lideranças vencedoras na reconstrução de seus países, a geração que se seguiu, a dos babyboomers, viu além da versão oficial. Contando com mais gente cursando ou formada em universidades do que qualquer outra geração anterior, ela carregou o bastão da luta pela democracia verdadeira.
A luta agora era para prevenir que o triunfo dos aliados levasse no longo prazo a um servilismo sem questionamento, quase voluntário. Apesar do crescimento econômico forte durante a reconstrução, ficou claro onde os frutos mais suculentos iriam parar quando aquele ciclo terminasse: no andar de cima. No fundo, nada tinha mudado. Era preciso desmascarar a farsa e sacudir as estruturas para que um mundo realmente melhor viesse depois da carnificina das guerras. Para essa geração ficou claro que planeta inteiro sofria dos mesmos problemas. O mal ia muito além de ideologias, países ou raças pintados como adversários. O mal estava na maneira como a estrutura tinha sido montada e era gerida e nas manipulações que faziam com que a humanidade aceitasse, sem nenhum questionamento ou resistência, que uma ínfima minoria se impusesse.
Este questionamento se espalhou como fogo pela juventude educada. As possibilidades que eles vislumbravam nas suas preferências para reconstruir o mundo poderiam ser a rota de saída de um legado de guerras, ditaduras, perseguições, fome, genocídio e outras coisas horríveis deixado por múltiplas gerações.
Na América Latina e em outros países do Terceiro Mundo a situação no pós guerra era mais complicada ainda. O discurso de que o triunfo dos aliados significou uma vitória contra a injustiça e a tirania, encorajou a luta contra o imperialismo, e revoltas populares como a Revolução Cubana. No entanto, ao sul do Equador, a contradição entre o discurso e a prática dos aliados criou vários absurdos onde as elites apoiavam ditaduras em nome do chamado “mundo livre”.
Naquela nossa mistura de consciência com inocência acreditávamos que ainda era possível pegar a saída para o mundo descrito por John Lennon em sua música Imagine, onde todos viveriam em função do presente, sem fronteiras e sem diferenças. A saída apontando para o vestibular e o que seguiria depois era o portal para um pesadelo.
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por Richard Klein | 10 out, 2020 | Brasil, Comportamento, Crônica
Depois de uma longa espera sozinho na arquibancada, uma voz grave e formal surgiu nos alto-falantes anunciando as bandas e o patrocinador do evento. Depois disso, apagaram as luzes e o estádio ficou parecendo uma caverna gigante cheia de morcegos por causa dos milhares de assobios. Alguns segundos mais tarde, o palco se acendeu e o Weather Report começou tocando Birdland, uma de nossas favoritas, com a lenda viva, Jaco Pastorius, fazendo o solo inicial.
Aquele momento pareceu seguro para acender a preciosidade. Duas garotas bonitas que estavam sentadas ao meu lado pediram um “pega”. Não recusei e o espetáculo começou a parecer promissor.
Na metade da segunda música, em êxtase harmônico, notei o policial de uma entrada sair caminhando para falar com um colega na outra. Ele foi beirando a arquibancada, mas quando chegou na minha frente, começou a subir abrindo caminho pelos espectadores.
Quando vi aquilo, pensei: “Caralho! O cara está vindo me prender!!”
A única coisa que consegui fazer foi tentar me livrar do baseado com um movimento rápido de dedos. Não fui muito feliz e ele acabou se quebrando ao meio. Uma parte voou longe mas um pequeno pedaço caiu perto do meu pé. O policial chegou na hora H, pegou o flagrante, me algemou e saímos desfilando pela multidão até o lado de fora da arena.
Na saída do anel do ginásio, nervoso, com raiva e chapado como estava, ouvi a besteira sair da minha boca como se outra pessoa estivesse falando por mim.
“Meu irmão, tu tá fodido porque esse flagrante não é nada e não tenho grana nenhuma para te dar.”
O policial ouviu mas não se deu o trabalho de responder. Ele continuou a me empurrar por um longo corredor cheio de outros guardas até que chegamos numa sala grande e iluminada. Lá, a polícia militar já detinha mais de quarenta pessoas. Logo que entramos, ele me deu um forte murro na barriga.
“Tá pensando que tu pode me comprar, seu babaca! Quero ver você dizer a mesma coisa quando vierem para te enrabar na cela!”
O estômago sempre havia sido meu ponto fraco em brigas, mas devido à adrenalina, não senti nada. Segurando o cassetete na minha cara, o policial vasculhou meus bolsos mas não encontrou nada. Porém, ele ficou com minha carteira de identidade e a entregou para seu superior.
“Sargento, peguei esse jovem fumando maconha no estádio. Também houve desacato à autoridade.”
“Tem flagrante?”
O policial passou a mini ponta já desfeita. Era ridículamente pouco para levar alguém preso, mas os caras eram campeões em fabricar provas. Atrás de uma escrivaninha, o sargento me encarou, examinou o documento e preencheu um formulário. Depois, colocou a ponta num saquinho de plástico, grampeou junto com os papéis e me olhou de novo.
“Sabe o que isso aqui significa? Cana!”
Engoli a seco, e não querendo dizer o mesmo tipo de besteira que tinha falado antes, respondi olhando para baixo:
“Sim senhor.”
“Me explica o desacato, cabo. ”
“O infrator deu a entender que eu aceitaria propina para que não fosse detido.”
O sargento continuou me olhando impassível. “Bom serviço, cabo, agora volte ao seu trabalho.”
O mulato magro, de bigode, com uma cara invocada saiu da delegacia improvisada. O sargento se voltou para mim. “Vai lá e fica com os outros, a gente só vai levar vocês depois que o show acabar.”
Com as palavras “levar vocês” ecoando na cabeça, fui me juntar aos meus novos companheiros espalhados pela sala. Conversando com outro detido, descobri que havia três tipos de pessoas lá dentro: os que tinham sido pegos pulando para a plateia, maconheiros e dois assaltantes. Era evidente quem eram; eles estavam algemados e sentados no chão junto a um grupo de policiais. De vez em quando, um se virava e lhes dava um chutão violento com as botas de couro antes de retomar à conversa como se nada tivesse acontecido. O resto de nós ficou fazendo de conta que aquilo não estava acontecendo enquanto quebrávamos a cabeça para encontrar uma saída para a situação.
Aquela era uma jurisdição diferente da Zona Sul. Mesmo que tivesse alguma grana, os policiais não estavam com cara de quem aceitariam suborno e até a sugestão poderia ser um erro grave, como já tinha percebido.
Após uma meia hora ali, um argentino magro com um cavanhaque desgrenhado começou a puxar conversa com um novo sargento que tinha vindo render o que tinha me colocado ali.
“Sargiento, con todo o respecto, o señor acha corecto que yo tenga vindo desde Argentina para ver un show de música e me quedar preso en otro país por una cosa tán banal?”
Apreensivos pela integridade física do argentino, ficamos surpresos não só porque o sargento, um sujeito grisalho, mas em forma, respondesse educadamente, mas com inteligência. “Meu caro, eu tenho um filho da tua idade. Acredito que ele não fume maconha, mas espero que se saia tão inteligente e educado como você. Para falar a verdade, acharia errado ele estragar o seu futuro por causa de uma decisão errada. Mas veja bem, a gente não pode fazer uma exceção. A lei vale para todos. Se a gente deixar vocês irem, o mesmo vai ter que valer para um monte de marginais.”
“Mas e se o señor descobrisse que su filho fosse un alcoólatra, piensaria diferente?”
“Boa pergunta, mas uma coisa não tem nada a ver com a outra. Beber álcool, por pior que seja, não é contra a lei. Mas para te responder, tentaria entender o que levou meu filho a ficar assim e quem sabe o levaria a uma clínica. Mas entendo o que você quis dizer. Não posso comentar sobre a lei porque não sou eu que a fiz. Mas acho que a gente gasta recursos demais para reprimir jovens como vocês. Isso acaba muitas atitudes erradas dentro da corporação.” Quase não dava para acreditar no que a gente estava ouvindo.
Uma roda tinha se juntado em torno do sargento gente fina. Um brasileiro que parecia da Zona Sul se meteu na conversa, talvez precipitadamente.
“Então o senhor acha certo prenderem a gente?”
“Filho, veja bem, você conhece a lei em torno da cannabis?” O cara balançou a cabeça dizendo que sim. “Então me diz aí, o que diz a lei?”
O cara, meio pego de surpresa e meio sem jeito, teve que responder. “Ela diz, por razões incomprovadas e erradas, que fumar maconha é um crime.”
“Viu!? Você disse tudo sem eu precisar explicar. Vocês cometeram um crime, independentemente dos estudos e mesmo da verdade. O nosso dever é reprimir o crime e é por isto que vocês estão aqui. Quem resolve não cumprir a lei tem que arcar com as consequências, você não acha?”
O argentino respondeu. “E se a lei está errada, como vamos a cambiar esto?”
“Se ela está errada ou não, não é da minha nem da tua alçada, a lei está aí para ser cumprida.” Ele deu um sorriso inteligente. “Já imaginou se todo mundo resolvesse desrespeitar a lei e os prejudicados fossem vocês? Para onde vocês iam correr? Para a polícia! Estamos aqui para isso, para fazer a lei ser cumprida.”
A discussão continuou. Ele aceitou os argumentos de que os cigarros também eram tóxicos – talvez muito mais – porém circulavam livremente porque traziam milhões a seus fabricantes. O mesmo valia para bebidas alcoólicas. No entanto, os argumentos dele sempre voltavam à ladainha de que conhecíamos a lei perfeitamente bem e que nosso dever era respeitá-la. Chegou uma hora que até o argentino, certamente preocupado em se safar de ser preso em um país estrangeiro, percebeu que ganhar o argumento levaria a nada. O importante era manter a sua simpatia para sair dali o mais rápido possível.
Enquanto isso, podíamos ouvir o som abafado do show do outro lado da parede. Depois de algumas horas, os aplausos e o barulho pararam e o clima dentro da sala se tornou apreensivo. Um oficial de patente mais alta chegou e se sentou atrás da escrivaninha enquanto o sargento nosso amigo saiu. Depois de alguns minutos tensos, sem sequer olhar para nós, ele se virou para o seu assistente.
“Cabo, os infratores que foram pegos pulando para as cadeiras especiais podem ir para casa, o resto vai passar a noite na décima terceira.”
Meu coração chegou a parar. Já podia ver os policiais ligando para que meus pais fossem me tirar da cadeia e fiquei imaginando a sua decepção deles e as medidas draconianas. Depois que saíram, os que ficaram para trás sentaram no chão deprimidos, esperando o pior.
Depois de uma silenciosa meia hora que pareceu uma noite inteira, o oficial chamou seu assistente e também sem olhar para ninguém, falou.
“Cabo, pode dizer para essa cambada de maconheiro veado que eles podem ir para casa também.”
A gente não acreditou nem pensou duas vezes. Nos levantamos e fomos em direção à saída. Um dos policiais que estava dando bico nos ladrões, um baixinho metido a piadista, abriu a porta para a gente e falou: “Bonecas, é melhor sair batido antes que o capitão mude de ideia. ”
O capitão virou para os ladrões já cheios de hematomas. “Esses aí ficam, pode chamar a viatura.”
Quando cheguei no ponto de ônibus, me lembrei da carteira de identidade. Procurei nos bolsos e ela não estava lá. Entrei em pânico. “Seu imbecil!! Como é que você deixa a porra da carteira com a polícia!?”
Embora fosse estupidez demais para ser verdade, tive que voltar. Depois de perguntar um monte e passar por centenas de policiais, cães, carros e caminhões de transporte, finalmente achei a sala onde tinha ficado. Me sentindo um retardado, fui forçado a explicar a situação constrangedora.
O guarda que estava ali ouviu incrédulo. “Tem certeza, playboy? A gente nunca fica com os documentos.”
“A carteira não está comigo, a única possibilidade é que ela tenha ficado aqui.”
Meio sem paciência ele perguntou: “Você pelo menos se lembra do nome do oficial de plantão?”
“Acho que ouvi alguém chamando ele de Teixeira, mas não tenho certeza.”
“Ah, o Capitão Teixeira! Não sei se ele já foi, deixa eu ver se acho.”
Fiquei esperando na sala vazia por mais uns quinze minutos com um mistura de apreensão e de auto-aversão. Acabou que tinha lembrado certo. O capitão Teixeira, um cara grande, bronzeado, de cabelo raspado e com cara de traficante colombiano, entrou na sala e fez questão de me olhar de em cima a baixo com desprezo.
“Então, jovem, esqueceu a carteira de identidade aqui?”
“É, desculpa o incômodo.”
O capitão ignorou o comentário. “Não me lembro de ter deixado nenhuma carteira identidade aqui. Deixa eu ver.” Ele pegou uma chave e abriu a gaveta. “É, não tem nada aqui dentro e a gente não levou nada. Tem certeza que não está no teu bolso? Procurou direito?”
“Procurei, não está lá.”
“Procura de novo para eu ver.” O cara falou com uma autoridade que não dava para dizer não.
Procurei de novo e não é que a carteira estava lá!
“Achou?”
Envergonhado, tive que admitir o óbvio. “É, está aqui.”
O capitão não achou graça nem ficou puto, só virou para o cabo que estava com ele e disse. “Viu porque é que eu digo que fumar maconha faz mal? Dá uns troços desses aí.”
Ele virou para mim e pediu para cheirar meus dedos. “Não tem cheiro de nada nem deve ter flagrante, mas deixa de fumar essa merda, garotão! Isso só dá problema! Teus pais sabem?”
Eu respondi que não. Antes de me liberar ele me encarou e avisou: “Pensa bem no que eu vou te dizer. Dessa vez a gente só não levou vocês porque tinha gente demais. Na próxima, talvez você não tenha tanta sorte.”
…
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