por Richard Klein | 14 nov, 2020 | Brasil, Comportamento, Crônica
O destino daquelas férias era a encantadora capital da Bahia, Salvador. Não dava para ir de Blues Boy, a viagem de 1.200 quilômetros seria puxada demais para um fusca antigo além de muito mais cara do que a passagem de ônibus. Também, dirigir aquela distância em uma pista simples seria um desafio grande demais para minha recém adquirida habilidade automobilística. A opção que sobrou foi encarar 30 horas de ônibus, e foi assim que fui conhecer a cidade pela qual tinha me apaixonado nos livros de Jorge Amado e na música dos Novos Baianos.
Meu companheiro de viagem dessa vez foi o Maurício, aquele do joelho machucado na Casa Rosa. Ele tinha virado ainda mais careta que o Davi e sequer era chegado em correr atrás de mulher. O negócio dele era se provar em assuntos chatos: contas, problemas de matemática e física e outras questões teóricas.
Talvez devido a esses atributos, o cara tinha uma tendência à histeria quando ficava nervoso, o que era frequente. Seu corpo franzino não era propício a tais arroubos, já que não garantiria sua integridade fisica caso alguém reagisse com a mesma intensidade da gritaria. A sua sorte era que esses episódios pegavam os incautos de surpresa que ficavam se perguntando que porra era aquela. Os conhecidos já sabiam que não era para levar a sério.
Na segunda parada do ônibus, não deu outra, o caixa se equivocou no troco do sanduíche e isso causou um surto.
“O troco é dois e setenta, e não dois e vinte!!” o Maurício já estava com a cara toda contorcida.
“Ih, é mesmo seu moço! Deixa eu pegar os outros cinquenta centavos aqui.”
“Está querendo me roubar, né seu marginal!? Isso é inaceitável!!” Os gritos já chamando a atenção de todo mundo.
“Desculpa, doutor! Os cinquenta centavos estão aqui.” Disse o cara já arrependido de ter acordado naquele dia.
Isso, por alguma razão, fez o Maurício ficar com ainda mais raiva. “Desculpa o caralho, seu ladrão safado!! não tem desculpa! Cadê o gerente desse estabelecimento!! Gerente!!! Gerente!!” No canto do olho espiei um sujeito com pinta de gerente colocar a cabeça para fora da porta da cozinha e, depois de ver a encrenca, voltar para dentro.
“Cadê o gerente!? Não tem gerente nessa porcaria!!?? Eu quero a polícia aqui para prender esse ladrão agora.”
A essa altura, a parada do ônibus inteira estava presenciando o mico, chocada. Ainda que não desse para se acostumar, já conhecia esse lado do meu amigo e tive que ir lá para acalmar a situação.
“Aê Maurício, o ônibus já tá saindo, o motorista tá esperando. Deixa isso para lá, vamos embora!”
“Eu não saio daqui antes de prenderem esse marginal!!” O tom ainda não tinha baixado.
“Maurício, são cinquenta centavos, o cara já admitiu que estava errado e te ofereceu o troco certo.”
“Mas ele é um marginal! Tem que ir preso!” O tom dessa vez baixou e aquela foi só para mim, embora todos também tivessem ouvido.
“É, mas até acharem o gerente, chamarem a polícia, você prestar depoimento e tudo mais, o ônibus já vai ter partido e a gente não vai ter como chegar a Salvador. Você já mandou o teu recado. Duvido que o cara faça isso de novo.”
Essa finalmente o sossegou, mas antes de sair vieram os argumentos conclusivos. “É por isso que este país não vai para frente! Um vagabundo desses tenta me roubar e fica todo mundo do lado dele!!”
O Maurício era um cara bem-intencionado, mas era difícil. Nossos país eram amigos, nossas irmãs eram amigas, ele também era sócio do Paissandu e vivíamos jogando bola juntos até depois que tinha me juntado à “esquadrilha da fumaça”. Havia um fio de lealdade inquebrável depois de anos de amizade. Entretanto, só esperava que aquele constrangimento não fosse o presságio de umas férias pesadelo.
*
Chegamos a Salvador esperando um dos melhores – senão o melhor – carnaval no mundo. De minha parte, estava doido para ver o trio elétrico. Ainda nos seus dias de glória, esse era um gênero musical que, de acordo com os baianos, foi o pioneiro mundial no uso da guitarra elétrica. Nos anos 1940, dois músicos, Dodô e Osmar, descobriram que colocar cera de baleia ao redor dos captadores permitia que amplificassem cordas de aço num braço de bandolim sem causar microfonia. Foi assim que criaram o “pau elétrico” e quando viram que o som caía bem com frevo, foram para o carnaval de rua e o estilo virou febre. Já no fim dos anos 1960, com a chegada do rock, os trios adicionaram mais instrumentos e percussão para dar mais peso às suas performances, os instrumentos melhoraram, as influências mudaram e o som se tornou mais afiado.
Durante o carnaval, caminhões apinhados de aparelhagem de som e de alto-falantes percorriam as ruas de paralelepípedos da parte histórica da cidade com os músicos se equilibrando para não cair enquanto tocavam. As milhares de pessoas acompanhando essas fortalezas musicais se lançavam num frenesi semelhante ao de uma procissão hindu misturada com um show de punk rock.
Contrabalançando a loucura amplificada dos trios, havia blocos rústicos que desfilavam a pé. Tocavam o ritmo afro-brasileiro mais suave do afoxé. Contando apenas com seus tambores e vozes para contagiar a multidão, faziam com que ela respondesse de uma maneira mais calma, mas com a mesma intensidade aos cantos que faziam linha direta com o continente Africano. Dentre eles estavam os Filhos de Gandhi, um grupo originado de trabalhadores da estiva. Eles saiam de túnicas brancas e nos seus desfiles paravam para fazer passos ensaiados, puxavam refrões familiares ao povo – muitos do Candomblé – e passavam sua mensagem de paz baseada nos ensinamentos e na filosofia de Mahatma Gandhi.
O palco para essa folia especial eram os sobrados e as calçadas de uma das primeiras metrópoles do continente americano, a primeira capital do Brasil. Os blocos percorriam suas ruas num caminho em forma de um oito. Na junção central, onde as duas voltas se encontravam, ficava a Praça Castro Alves, o epicentro do Carnaval. Nosso hotel ficava logo depois da esquina. As bandas paravam lá para permitir que a multidão engrossasse e então tocavam seus maiores sucessos. Era comum duas bandas vindas de direções opostas chegarem na praça juntas. Esse fenômeno era chamado de encontro dos trios. Quando isso acontecia, as bandas se intercalavam e competiam pelo apreço da multidão enlouquecida. Quem saía ganhando eram as dezenas, às vezes centenas, de milhares de foliões pulando na praça.
Por uma sorte incrível, estava lá no encontro entre a realeza do carnaval de Salvador – os Novos Baianos de um lado e o Trio Elétrico de Dodô e Osmar do outro. O primeiro, a minha banda preferida de todos os tempos e o segundo, os criadores do trio elétrico que contavam com o melhor guitarrista do gênero, Armandinho Macedo, filho de Osmar. Depois de se instalarem nas extremidades da Praça Castro Alves, os dois trios deram uma pequena pausa enquanto os músicos e a multidão se preparavam para o que eles sabiam ser um dos pontos altos do Carnaval daquele ano.
Quem pegou primeiro no microfone foi Paulinho Boca de Cantor, vocalista dos Novos Baianos, que saudou a massa.
“Boa tarde, Salvador!”
Não teve uma alma na praça que não tenha ido à loucura.
“Como é bom estar aqui nessa praça, na nossa terra e tocando para a nossa gente. Viva Salvador e viva o Carnaval da Bahia!” Novamente a massa foi ao delírio.
” Queria aproveitar para mandar um abraço para o Moraes, o nosso irmão Moraes Moreira, que está do outro lado da praça com o trio de Dodô e Osmar.” Moraes tinha saído dos Novos Baianos e no Carnaval ele cantava com o trio “rival”. “Fala Moraes!! Fala Armandinho, Dodô e Osmar! A Bahia saúda vocês!!”
Quando a gritaria baixou, o Moraes respondeu: “Fala meu querido Paulinho! Um abraço e muito carinho para meus irmãos dos Novos Baianos!” Depois, ele se voltou para a multidão. “Fala Salvador! Fala Bahia!! Muito amor e muita paz para todos vocês!”
Com noção de timing, Moraes continuou. “Há cinquenta anos atrás, Osmar aqui do meu lado e Dodô começaram o trio elétrico e fizeram do Carnaval da Bahia o melhor do mundo. Esta música e uma homenagem a eles. Viva Dodô e Osmar!”
Ele olhou para a banda, deu o sinal e a guitarra baiana do Armandinho rasgou o ar da praça. Depois do solo curto, mas espetacular, o resto da banda veio atrás.
Dodô! Dodô!
Antes do gringo a guitarra ele inventou,
Osmar! Osmar!
O Carnaval veio o trio eletrizar.
Viva Dodô e Osmar!
Com a música veio o deleite, era como se a energia do Carnaval estivesse jorrando do céu e se espalhando pela praça. Depois da primeira música, os Novos Baianos retrucaram com uma marcha de Carnaval do Caetano Veloso.
A praça Castro Alves é do povo,
Como o céu é do avião,
Um frevo novo, eu peço um frevo novo,
Todo mundo na praça
E muita gente sem graça no salão…
Em toda e qualquer música a galera reunida parecia estar celebrando uma vitória incessante de Copa do Mundo. A energia irresistível parecia fazer a multidão se fundir num ente único.
*
Eu ia sozinho. O Maurício se recusava a se misturar com o povão, ele odiava multidões e gente esbarrando nele. Eu não queria perder aquela energia por nada nesse mundo. Assim, enquanto mergulhava a fundo no Carnaval de rua que não parava durante os quatro dias de festa, ele ia para bailes de Carnaval em clubes que eram uma escolha mais sensata, mas completamente sem graça.
Estava ciente do que poderia acontecer se deixássemos nossas diferenças crescerem mais do que já estavam. Já tinha quase perdido a amizade do Davi e não queria repetir isso com o Maurício. A única coisa que a gente fazia junto era comer e sair de dia para descobrir as praias de Salvador. Por isso, na última noite de Carnaval, concordei em fazer alguma coisa juntos. Decidimos entrar de penetra no baile mais exclusivo de Salvador, o do requintado Clube Baiano de Tênis. Este era um clube frequentado pela elite da cidade onde poucas pessoas realmente jogavam tênis, mas onde muita gente gostava de ter seu home associado a um esporte britânico considerado chique.
A segurança na porta estava pesada, mas os muros que cercavam o clube eram baixos e fáceis de pular. Não tardou muito para nos juntarmos a alguns passantes que haviam tido a mesma ideia que a gente. O Maurício foi um dos primeiros a pular o muro – e um dos poucos a obter sucesso. Antes da minha vez, a polícia chegou correndo e a gente teve que se dispersar. Eu e alguns dos meus camaradas de fuga achamos uma outra parte mais afastada do muro, discreta e igualmente fácil. Pulamos e caímos no meio das quadras de tênis. Assim que pusemos os pés no chão, enormes cães vieram correndo em nossa direção. Sem pensar duas vezes, subimos o muro de volta com uma rapidez de desenho animado. Depois disso desisti. Voltei ao hotel tão desanimado que nem tive vontade de me juntar a folia pegando fogo a meia quadra de distância. O Carnaval de Salvador tinha terminado para mim.
O Maurício voltou de madrugada. Como era de se esperar, não tinha comido ninguém. Esse também tinha sido o meu caso em Salvador, mas pelo menos tinha vivenciado um dos melhores encontros de trios da história.
…
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por Mauro Nadvorny | 14 nov, 2020 | Brasil, Comportamento, Opinião
Que país é este onde o presidente chama o povo de “Maricas”? Diz que não suporta o cargo e se nega a cumprimentar o vencedor das eleições americanas que derrotou seu mentor. Este é o país onde tudo isso e muito mais acontece como se não fosse nada de mais, vida que segue.
A passividade do brasileiro é realmente digna de estudos sociológicos e antropológicos, nada o abala. Seu presidente faz propaganda política proibida em sua “Live”, mas nada acontece de fato. Seu comportamento envergonha o país e mesmo assim, se falar em Impeachment é cair no vazio. Ele continua se sustentando politicamente enquanto mantiver as boas normas de um bom miliciano.
O Brasil vai ter eleições e nada será mais admirável do que ver os mesmos nomes da velha política vencerem em seus currais eleitorais. O brasileiro não vota com a razão, vota com a onda, vota para onde sopra o vento. Se deixam enganar coniventemente por promessas vazias e em sua grande maioria nem sequer lembram em quem votaram quatro anos atrás. Elegem bandidos que nunca viram na vida, ou dão seu voto aos mesmos de sempre.
Aqui fora, quando digo que sou brasileiro, escuto o famoso clichê, “um pais com tamanho potencial” em tom de lamento. Uma verdade que dói sempre. Quantas chances o Brasil perdeu de se tornar uma grande nação ao nível de qualquer país europeu, ou até mesmo dos EUA? Incontáveis vezes que nos trouxeram a situação em que nos encontramos hoje. Uma desigualdade social abissal que atrasa nosso desenvolvimento e nos condena a ser uma nação medíocre entre as nações.
Nenhum país do mundo se desenvolveu sem educação, nenhum. Mesmo países que eram considerados subdesenvolvidos e pobres, conseguiram sair de seu atraso com educação. Países arrasados por guerras se recuperaram investindo na educação. Ela é o pilar de qualquer civilização em qualquer momento da história. A educação é toda a diferença entre a barbárie e a civilização.
O Brasil teve seu maior investimento em educação durante os governos do PT. Nunca antes, e principalmente depois se viu tal preocupação. Foi graças a ela que a vida de milhões de brasileiros mudou para melhor. O caminho que parecia traçado para levar o país ao pleno desenvolvimento foi interrompido por um golpe dado pelas elites que viram o perigo que isto representava para elas.
A educação abre mentes, ela ensina a pensar e o pensamento não tem grilhões, ele é livre. Um povo bem educado se desenvolve em harmonia. O crime se reduz naturalmente, a economia gira e o bem estar social com a diminuição das desigualdades leva o país para frente. O mundo está cheio de exemplos de nações que trilharam este caminho.
Infelizmente no Brasil ainda temos uma elite retrógada e poderosa que sobrevive da desigualdade. Quanto maior o número de pobres, quanto menor o salário mínimo, mais elas enriquecem e se satisfazem. A boa educação é reservada para elas. Ao povo em geral a ignorância e o trabalho braçal. Este modo de vida precisa ser preservado a qualquer custo, onde cada um sabe o seu lugar na sociedade e nele precisa permanecer.
Este equilíbrio de aparências é a fotografia do Brasil. Em nome dele vale uma ditadura militar, vale um AI-5, vale um golpe político contra uma presidente, e as favas com todos os escrúpulos de consciência, como disse Jarbas Passarinho, vale uma família fascista miliciana no poder.
A elite sozinha não é capaz de fazer seus candidatos se elegerem, ela precisa dos votos do andar de baixo. É preciso alimentar a ignorância e para isso se utilizam da religião. Igrejas Neopentecostais fazem o trabalho sujo. Pastores de araque, bispos de fantasia, todos unidos no mesmo propósito de enriquecerem as custas de suas ovelhas com a promessa de uma vida melhor no Céu.
Sem educação, com uma religião magnânima, uma pitada de Fake News é a cereja do bolo. Quem imaginaria que notícias sem o menor bom senso, verdadeiras piadas ou histórias da carochinha seriam tomadas como verdades inexoráveis. Mas este é o efeito delas em pessoas desprovidas de pensamento crítico, ou dos que estão no andar de cima as propagando.
O Brasil está sendo espoliado de suas riquezas, e seu povo da sua autoestima em prol de uma minoria cujo reinado quere, ver mantido a qualquer preço. Ela é o inimigo a ser combatido, com ela nunca teremos um país que oferece as mesmas oportunidades a todos, vamos continuar sendo a pátria da meritocracia neoliberal.
Paulo Freire estava com toda razão quando disse que a educação não muda o mundo, mas muda as pessoas. Antes dele o filósofo grego Epictelo, (55 DC a 135 DC) já dizia que só a educação liberta.
Domingo quando for votar, olhe para cima e lembre-se que tem alguém mal educado ali gritando: “Maricas”.
por Richard Klein | 7 nov, 2020 | Brasil, Comportamento, Crônica
Capítulo 21
“Sagrado e profano
O Baiano é
Carnaval!”
Chame Gente – Moraes Moreira
Meu status em casa saltou para as alturas depois do sucesso no vestibular. Como prêmio, Rafael resolveu me dar um Fusca 1973 azul claro, que apelidei de Blues Boy. Ainda que barato e velho era um carro e, que me lembre, amigos de lares muito mais prósperos tinham recebido apenas um tapinha nas costas por não fazer mais do que sua obrigação.
Li esse gesto como uma tentativa de reconciliação dele com um filho incompreensível que se recusava a ouvi-lo e que fugia da sua companhia. Nosso convívio era difícil. De gerações completamente diferentes, nascidos em mundos opostos, havia um fosso nos separando em termos de perspectivas, de familiaridade com o que estava à nossa volta e do que buscávamos da vida.
Num mundo longe das minhas descobertas, a realidade do Rafael estava difícil. Já beirando os 80 anos, lutando bravamente contra os problemas normais da idade avançada, haviam dificuldades imprevistas com o presente. Apesar do patrimônio acumulado, o Brasil tinha se revelado uma decepção. Quanto mais convivia com o “jeitinho brasileiro” nos negócios e com autoridades tortas, menos gostava do país. Com os dias do milagre econômico num passado distante, quase três décadas depois da sua chegada, o país estava em queda livre e havia uma nova política de restrição às importações. Essas duas pancadas atingiram seus negócios em cheio. Mesmo que achasse desnecessário expressar suas angústias, elas estavam sempre à flor da pele.
No meio das suas preocupações estava o meu futuro. Apesar da predileção indisfarçada pela Sarah, talvez o seu único verdadeiro amor na vida, Rafael silenciosamente queria que eu chegasse a alturas que o seu passado o havia barrado; a respeitabilidade de um diploma universitário e a estabilidade de uma profissão.
O destino e o instinto de sobrevivência haviam dirigido a sua vida, ao passo que eu tinha escolhas, ou pelo menos achava que tinha na altura. Diferente dele na sua juventude, tinha a liberdade de me misturar com todos a minha volta e de curtir sem ser vítima de preconceitos e sem ter medo de passar necessidade. Talvez por isso, para ele, a tempestade existencial na qual tentava conciliar o mundo de fora de casa com o que se passava dentro dela, era algo que escapava à sua compreensão e ao seu respeito. Talvez agora, comigo na faculdade de economia, essa bobagem iria acabar e os estudos a sério poderiam ser a salvação de uma personalidade mimada e egoísta.
*
Sem se importar com os conflitos mudos em casa, o verão carioca estava no auge, e com ele a temporada de curtição. Agora pré-universitário, sem a paranoia do vestibular, só queria saber de praia e de aproveitar as outras maravilhas que minha cidade tinha para oferecer. Meu querido Blues Boy prometia ser uma grande ferramenta para essa tarefa, porém, antes de ganhar as chaves, havia a barreira da carteira de motorista.
A ideia da minha pessoa no volante causava arrepios em casa. Isso era devido a uma aula de direção que Renée havia resolvido me dar em Teresópolis quando adolescente. A caixa de câmbio do carro da família, um Opala bege, era manual e saía da coluna de direção. Logo na primeira tentativa, embaralhei as instruções e ao invés de sair devagar em primeira, acelerei o carro em marcha à ré. Se minha mãe não houvesse tido o instinto de puxar o freio de mão na hora, teríamos caído em um despenhadeiro bem atrás da gente. O valor cômico da cena não foi captado pelo meu pai de 77 anos que estava nos observando fora do carro e ele passou mal. Nunca houve outra aula.
Porém, na época em que ganhei o fusca, o que os dois não sabiam era que seu filho já tinha começado uma carreira secreta de motorista. Ela tinha começado no dia em que decidi colocar um anúncio no jornal oferecendo aulas de violão. Com a mesada definhando devido aos problemas nos negócios, precisava de dinheiro para manter o nível de farra e essa foi a melhor ideia que veio à cabeça.
Dois dias depois o telefone tocou. A voz dela era rouca, algo que sempre me deu um certo tesão. Enquanto processava isso, a cabeça já estava “Caralho, uma aluna!!”
Tentei soar profissional. “Sim, as aulas são particulares para iniciantes. Também dou aulas de bossa nova para alunos mais avançados.”
“Ai, adoro bossa nova, mas nunca toquei violão. Quanto tempo você acha que levaria para aprender?”
“Bom, isso vai depender da tua habilidade e do teu esforço. Por que você não tenta uma aula, e daí a gente avalia?”
“Ah, não sei, esse número é de Ipanema. É muito longe. Eu moro na Tijuca, conhece?”
Menti. “Conheço, claro. Posso ir aí, mas como disse no anúncio são vinte e cinco cruzeiros na casa do aluno.”
“Não dá para fazer a primeira aula de graça? Só para eu sentir se vou gostar ou não?”
Considerei as coisas, mesmo se aquela a voz no telefone fosse a de uma deusa a Tijuca era longe demais. “Olha, não dá, principalmente porque fica tão longe.”
Para minha surpresa, ela concordou. “Então, está bem. Que dias você pode vir? Só posso nos fins de semana.”
Blefei. “Um instante, deixa eu ver minha agenda.” Esperei um pouco e respondi. “Tenho uma abertura no sábado à tarde da semana que vem, às três, pode ser?”
“Para mim está ótimo.”
Animado, peguei o endereço e depois de desligar comecei a planejar as aulas. Ia imitar o Romualdo. Primeiro, exercícios para fortalecer os dedos, depois acordes e depois as primeiras músicas fáceis. Só isso já daria quatro ou cinco aulas, cem cruzeiros no meu primeiro mês como professor… nada mal.
No sábado seguinte, lá estava eu, violão em punho, sacrificando um dia ensolarado de praia na linha 464 rumo à Tijuca para dar minha primeira aula na vida. Me senti bem dando os primeiros passos para ganhar meus primeiros trocados. Pedi para o motorista me avisar quando o ponto chegasse. Quando desci, segui as informações e consegui achar o prédio. Estava na hora e, nervoso, apertei o botão do apartamento no porteiro eletrônico. Depois de um tempinho ela atendeu e mandou subir.
O apartamento era apertado. A sala era decorada com móveis de fórmica organizados em torno de uma televisão enorme, uma cortina feia cobrindo a janela de alumínio e fotos de família penduradas na parede. A aluna, Marineide, foi uma decepção. Parecendo tonta demais para aprender o instrumento, era mais nova que eu, maquiada mas com um bigodinho mal disfarçado, cheirando a perfume barato, unhas pintadas e com uma blusa semitransparente cobrindo o corpo roliço, ela me convidou para entrar. Em pé na sala, confuso, senti vontade de sair correndo daquela roubada mas me segurei e fui profissional.
Tentando parecer sério, perguntei: “O teu violão?” Depois de um silêncio inconfortável sob seu olhar extra terrestre, continuei. “Você disse que ele está todo desafinado. Posso dar uma olhada?”
“Ah, claro!” Ela voltou a estar presente, mas parecia nervosa. “Ele está no meu quarto. Se importa em dar a aula lá?”
Com uma estranha desconfiança de que o motivo que ela tinha me chamado ali não tinha nada a ver com aprender violão, entrei no quarto apertadíssimo e exageradamente arrumado. O violão estava fora da capa, na cama.
“Tem um banquinho para me sentar aqui no quarto? Prefiro dar aula vendo o que o aluno está fazendo.”
“Claro! Tem um banquinho na cozinha; serve?”
“Serve, claro. Obrigado” Enquanto ela foi para cozinha, tirei meu violão da capa e saí afinando o dela sentado na cama.
Ela voltou com um copo d’agua gelado, mas sem o banquinho. Eu já tinha afinado o violão.
Bebi a agua e toquei uns acordes nele. “Nossa! Tá todo afinado! Ai, estou doida para aprender, você acha ele bom para o meu tamanho?”
“Ele é pequeno, mas vai servir.”
Ela se sentou do meu lado na cama. “Posso experimentar?” Ela passou as unhas afiadas, que eu ia ter que pedir para ela cortar, nas cordas. “Viu? Não sei tocar nada.”
A fim de começar a aula e sair dali o mais rápido possível eu perguntei: “E o banquinho?”
“Você tem certeza de que precisa do banquinho?”
“Sim, não vai dar para te ensinar nada sem sentar de frente.”
“Tá bom, vou trazer, mas posso ouvir você tocar uma música antes de ir lá pegar?” Achei estranho, talvez quisesse me testar, por isso toquei Aquarela do Brasil num arranjo complicado que impressionava.
Quando terminei, dava para ver que ela estava impressionada. “Nossa, gato, como você toca bem!”
Estava pronto para começar a aula. Ela levantou, mas em vez de ir pegar o banco e sem pedir licença, ela se ajoelhou na minha frente se apoiando nas minhas pernas.
“Sabe o que é? É que sou apaixonada por violeiros e quando eu ouvi tua voz no telefone, achei ela tão gostosa que senti que tinha que te conhecer pessoalmente.”
Fiquei sem resposta e sem ação. Depois daquilo, me deu uma olhada safada, tirou o violão da frente, abriu minha braguilha e colocou a mão dentro. As “joias da família” reagiram no ato. Sem pedir permissão, ela baixou meus jeans e aplicou seus talentos. A aula estava encerrada.
Feia, não muito inteligente e deveras comum, a Marineide não fazia o meu tipo mas era safadíssima e só saí de lá tarde da noite. Houve mais “aulas” e, viciado no que estava me dando, atravessei as barreiras de minha vida social esquizoide e acabei a apresentando aos amigos de baseados e de música.
Foi aí que o carro entrou em cena. Num fim de semana prolongado, minha ex-possível aluna tornada amante, colocou o carro do pai dela à disposição para a galera ir para Mauá. Como ela não tinha ideia de como usá-lo, confiou na minha habilidade inexistente como motorista. O entusiasmo levou a melhor sobre o medo O paraíso hippie ficava a quatro horas de carro, duas horas e meia rodando pela rodovia mais importante do país, a Via Dutra, que liga São Paulo ao Rio, e o resto subindo por estradas de terra entre as montanhas e resolvi encarar aquilo sem carteira de habilitação, contando com o pouco conhecimento adquirido com minha mãe em Teresópolis e pelo que tinha ouvido falar. .
Quando o dia chegou, passei a noite na casa dela e partimos bem cedo para a casa de Kristoff para apanhar ele e o resto da galera. Tive sorte, porque de madrugada não havia nem trânsito nem policiamento. Depois de atravessar vários sinais vermelhos, Marineide, que até então não tinha dado um pio, gritou apavorada.
“Rique!!! Você vai entrar numa contramão!”
“Cacete! É mesmo!”
Não pensei duas vezes e virei totalmente o volante. À toda, o carro começou a derrapar, mas os pneus obedeceram, conseguindo evitar por poucos centímetros um poste que pareceu ter passado pela nossa frente em câmera lenta. Por um milagre chegamos no Leblon e pegamos a galera, todos achando graça em segredo da minha garota bigoduda, mas também contentes com a independência de poder viajar de carro. De lá fomos rumo à avenida Brasil e saímos da cidade. Como chegamos em Mauá sem um arranhão permanece um mistério, mas ao sair do carro com as pernas ainda bambas tinha aprendido a dirigir.
Sem nem imaginar a possibilidade dessa aventura, Rafael insistiu que eu pegasse aulas de direção em vez de comprar uma habilitação no departamento de trânsito, o Detran, como todos faziam. O teste que aplicavam era quase impossível de passar; a ideia era forçar a propina. Como estava prestes a viajar de férias, chegamos a um consenso: eu pegaria as aulas e eles pagariam um preço mais baixo para comprar a habilitação sem a prova, em vez de pagar mais caro para que recebesse uma carteira sem nunca ter sentado em frente a um volante.
Depois de duas semanas de aulas, fui à central de testes onde entrei no carro com o dono da autoescola e dois examinadores que mais pareciam membros do esquadrão da morte.
Sem olhar para mim, um dos inspetores virou para trás e perguntou: “Esse pagou?”
O dono curso respondeu afirmativamente.
Depois disso, tive somente que dar uma volta no quarteirão para receber um certificado que me deixaria “preparado” para o trânsito maluco do Rio de Janeiro.
*
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por Mauro Nadvorny | 7 nov, 2020 | Brasil, Comportamento, Mundo, Opinião
Biden será o próximo presidente dos Estados Unidos, isto já ficou claro, é apenas uma questão de tempo para que os votos finais sejam contados e o anúncio seja feito. Não existe a menor chance de que Trump seja reeleito.
Algumas lições da eleição americana podem servir para as eleições no Brasil em 2022. A mais importante delas é que mesmo o maior fascista dos tempos modernos pode ser derrotado. Nem todas as Fake News disparadas, todo o dinheiro investido numa campanha milionária e a soberma megalomaníaca de Trump foram capazes de sustentar sua candidatura a reeleição.
A segunda delas, é de que quando as pessoas saem para votar e não se eximem da participar da eleição, o bem vence o mal maior. Sem entrar no mérito de que Biden é parte do mainstream americano, o importante a ser dito é de que ele é um mal imensamente menor do que Trump.
A terceira delas diz respeito as pesquisas. Inicialmente se imaginou que elas estavam mais uma vez equivocadas e que Trump, contrariando todas elas, seria reeleito. Os fatos mostraram que desta vez elas acertaram no que importa: Biden venceu. As pesquisas recuperaram a credibilidade perdida na eleição de Trump quando davam como certa a vitória de Hillary Clinton.
O fascismo sofre uma grande derrota, ou melhor dito, nós antifascistas tivemos uma grande vitória. Se o maior deles na atualidade foi derrubado, o caminho está aberto para que o mesmo aconteça em outros países. Um a um, eles todos serão devolvidos ao esgoto de onde nunca deveriam ter saído.
A eleição para a presidência dos EUA não é exatamente democrática. Numa democracia, como acontece em todo o mundo, cada cidadão representa um voto. A maioria dos votos em determinado candidato aponta o vencedor, simples assim. Não nos EUA, lá ocorre uma eleição em cada um dos estados que determina um número de delegados para um colégio eleitoral que é quem de fato elege o presidente. Em cada estado, um vencedor diferente, e os delegados dele vão todos votar nele. Isto faz com que um presidente possa ser eleito com menos votos recebidos pela população. Em outras palavras não é necessário obter o voto da maioria dos cidadãos, mas apenas vencer nos estados que possuam mais delegados.
Cada estado organiza sua eleição, não existe um órgão central para administrar o processo. Diferentes meios de votação são empregados, fazendo com que cada estado tenha sua própria forma de aferir os resultados. Eles se consideram a maior democracia do mundo.
Estamos diante de um grande acontecimento. Mesmo com a pandemia batendo forte, o país fez a sua eleição. Nos últimos dias o número de novos infectados bate recordes nos EUA. A população preferiu votar pelos correios, principalmente os que votam em Biden. Estes votos são os que estão sendo contados agora e que Trump tenta sem sucesso impedir.
Bolsonaro perdeu seu mestre e mentor. Não terá as bênçãos que imaginava receber no futuro. Perde sua bússola, e com ela o Ministério das relações Exteriores fica sem rumo não tendo mais como se alinhar automaticamente. Nossa submissão ficou momentaneamente órfã.
Ainda resta muito que se fazer. O fascismo sofre um grande golpe, mas continua vivo no Brasil. Precisamos unir forças e continuar na luta, ele será derrotado aqui também. Bolsonaro está com seus dias contados se todas as forças progressistas entrarem unidas na próxima eleição. Precisamos construir uma Frente Ampla.
Hoje vamos nos permitir saborear a vitória numa importante batalha. Amanhã novas batalhas nos aguardam.
por Mauro Nadvorny | 31 out, 2020 | Brasil, Comportamento, Direitos Humanos
“Agora eu virei ‘boiola’. Igual maranhense, é isso?. Guaraná cor-de-rosa do Maranhão aí, quem toma esse guaraná aqui vira maranhense“.
Este é o presidente do Brasil fazendo o que mais sabe, emitir preconceitos na forma do que ele chama de “brincadeira”, algo para não se levar a sério. Sem o menor constrangimento ele segue sendo o que sempre foi e fazendo exatamente o que disse que faria como presidente, nenhuma novidade nisso.
Quando li a notícia, além da vergonha nacional e internacional que isso representa para mim como brasileiro vivendo no exterior, me lembrei das razões pelas quais limpei minha lista de amigos durante as eleições, incluídos nela parentes e conhecidos virtuais.
Tem gente que sempre fez este tipo de comentário, mas a gente achava que era só uma brincadeira, como diz o presidente, até que não mais. Houve um tempo para se perceber o quão errado e impróprio são estes comentários. Quem cresceu e percebeu isso, imediatamente parou de fazê-los. Quem continua não está mais fazendo uma “brincadeira”, está destilando ódio e preconceito contra as minorias. Não os quero próximos.
Nas últimas eleições, a despeito de todos os avisos e alarmes, a barbárie venceu a civilização. O Brasil vive um retrocesso civilizatório sem precedentes na sua história. Nem na ditadura o país teve um milico parecido com este presidente em termos de comportamento inconveniente. O único episódio do qual me recordo foi em 1978 quando o General Figueiredo que viria a se tornar presidente, disse preferir o cheiro de cavalo ao cheiro de povo. Na verdade o fato ocorreu assim: um repórter perguntou se o futuro presidente gostava do “cheiro do povo”, ao que ele respondeu “o cheirinho do cavalo é melhor (do que o do povo)”.
A barbárie social já assola o Brasil há tempos, o crime tomou conta das ruas. A fome voltou e milhares de brasileiros não tem o que comer. Se isso não fosse o suficiente, a pandemia deixou milhões desempregados. Milhares de pequenos negócios faliram.
Grupos supremacistas brancos, nazistas, os camisas verdes Integralistas e todo tipo de aberração racista vieram a público. Saíram do esgoto e agora andam a céu aberto propagando seu ódio sem serem molestados. O país conhecido pelo samba, futebol e seu povo hospitaleiro ficou na lembrança. Agora somos apontados como a terra do presidente idiota que permite a queima das florestas e que não acredita na existência do Covid-19.
Esta semana teremos eleições nos EUA, e talvez um dos maiores expoentes desta corrente fascista que chegou ao poder em muitos países, esteja sendo mandado para casa. Trump não deve se reeleger deixando órfão seu maior admirador no Brasil, o único presidente do mundo a bater continência saudando a bandeira americana.
Depois do México, a Argentina disse não ao neoliberalismo. Agora a Bolívia se recuperou do golpe e disse sim ao socialismo. Os chilenos disseram sim por uma nova constituinte e assim vão se livrar das leis draconianas que dividiram o povo em duas classes sociais, os muito ricos e os muito pobres.
Os regimes de exclusão social chegaram ao fim para estes irmãos latino-americanos. Quando é que este gigante chamado Brasil vai acordar? Quando é que esta família miliciana será escorraçada e devolvida para o inferno?
Levanta Brasil!
por Mauro Nadvorny | 24 out, 2020 | Brasil, Comportamento, Política
Quando olhamos para o passado e voltamos ao presente, vemos o quanto evoluímos desde que descemos das árvores e começamos a andar. Não foi um caminhar fácil, as vezes limitado, mas sempre em frente. Chegamos aos dias de hoje muito melhor preparados para enfrentar os desafios da sobrevivência.
Eu gostaria de que o mundo tivesse se desenvolvido por igual, que não existissem fronteiras, que as únicas cores que importassem fossem as do arco-íris, que não houvesse mais fome e todos tivessem garantidos saúde e educação. Um mundo com justiça social, igualitário e solidário. Um mundo mais humano onde o amor e a felicidade fossem a base do sistema, um planeta aberto as religiões, mas que acima de tudo incentivasse a ciência. Sonhar é preciso.
Evoluímos muito, é verdade, mas não chegamos a tanto. O ser humano continua praticando crimes contra outros seres humanos, e apesar de conhecer a Declaração dos Direitos Humanos, mesmo depois de duas grandes guerras mundiais, nossa situação como raça é lamentável. As guerras ainda existem.
A pandemia continua nos desafiando dia a dia. Ela vai e vem em ondas. Em um dia achamos que estamos livres, para no outro ver ela ressurgindo como uma Phoenix. O vírus parece rir de nossas ações para exterminá-lo.
O que já se sabe é que ele surge devagar, se propaga rapidamente. Combatido diminui sua presença para ressurgir em uma nova onda. Uma pior do que a outra nos países que ainda insistem em manter a economia funcionando, mesmo que parcialmente. A China é um exemplo disso. Onde o vírus dá as caras, é Lockdown no restrito significado da palavra. Lá onde tudo começou o número de óbitos é de um país mediano, e se comparado pelo número de habitantes, fica na base da tabela.
Agora estamos assistindo a segunda onda bater na Europa. Em seguida vai bater nas Américas. Os números são assustadores. Da noite para o dia milhares de novos casos de infectados brotam em todo lado na Espanha, Itália, França, Alemanha , Inglaterra etc. Países que reabriram criteriosamente suas economias com o maior cuidado. Não adiantou.
Muita coisa ainda está sendo estudada sobre o vírus, mas numa coisa todos concordam, ele é transmitido pelo contato entre pessoas infectadas. Se um único doente estiver em uma sala com outras pessoas sadias, provavelmente todos naquela sala vão ficar doentes. Dito de outra forma, a única maneira de impedir a propagação do vírus é impedindo o contato das pessoas pelo período do ciclo de vida dele. É o que faz a China.
A boa notícia é que estamos no limiar da chegada das vacinas. Eu sou do tempo em vacina era dada no braço com um agulhão que deixava uma marca por alguns anos. Era fácil de saber quem já havia sido vacinado para determinada doença, quem não, só olhar quem tinha a “marca”. E havia também o método alternativo para resolver o problema das doenças que não tinham vacina. A gente era levado para ficar na companhia de quem estava doente com a finalidade de pegar a doença. Era sabido que nós crianças enfrentávamos com mais facilidade. Melhor sofrer pouco enquanto criança, do que muito quando adulto.
A vacina só é eficaz para aqueles que são vacinados. Parece o óbvio, mas existe uma corrente que prega o contrário e diz que as vacinas fazem mal, que é a própria doença, que as crianças vão ficar autistas ou ter outras sequelas. Tudo isso sem nenhuma base científica contrariando anos de sucesso com doenças graves como a Poliomielite (paralisia infantil) e a Varíola, por exemplo.
Se vacinar é um ato de amor a si mesmo e ao próximo, especialmente contra o Covid-19, já que a doença também pode ser fatal em pessoas jovens e perfeitamente saudáveis. Não se vacinar é um ato de extremo egoísmo e insensatez.
Crianças e adultos dependentes não podem ficar a mercê de adultos que atentam contra a sociedade impedindo com que sejam vacinados. A vacina tem de ser obrigatória, ela salva vidas que são preservadas e permite com que todos possam retomar suas rotinas com o restabelecimento da economia. Escolas podem ser reabertas, assim como o comércio em geral e a cultura sem riscos. Podemos voltar a ter uma vida normal outra vez.
Quando um presidente diz que não vai obrigar ninguém a se vacinar, e que sequer vai comprar vacinas de determinado país, deixando a população a mercê de seus infames intempestivos desígnios, ele coloca todo o país de joelhos e ameaça a sobrevivência de toda a nação.
Bolsonaro é um desastre sob todas as óticas, mas agora se trata de preservar vidas e o país como nação viável e independente. Até quando vamos suportar este inepto?