Samba Perdido – Capítulo 24 – parte 02

Ficamos sem entender nada e, meio envergonhados, os dois se levantaram para vir falar com a gente afastados da mesa.

“Pois é, meu irmão, os veados convidaram a gente para ir lá e falaram que vão pagar um jantar para nós quatro.”

Já eram dez da noite. Cansado da praia e da viagem, doido para dormir, falei: “Já comemos um hambúrguer, tamos na boa.” Cocei a cabeça e disse: “Aê, não dá para a gente dormir no quarto de empregada e deixar a chave com o porteiro amanhã de manhã?”

O Fernando respondeu: “Meu amigo, não me leve a mal, mas a gente mal conhece vocês, eu tô na responsabilidade do apartamento do meu tio e não dá para deixar vocês lá sozinhos.”

“Porra, mas a gente não está numa de comer veado.” O Pedro era menos diplomata que eu.

O Luiz já tinha entendido o problema. “Já falei com eles, vocês não precisam fazer nada, só precisam ir no restaurante e serem bem-educados. Depois a gente vai para o apartamento deles, vocês fazem uma salinha, vão dormir na sala de estar e a gente faz o resto. Já falei com eles. Pode ficar tranquilo, é só isso.”

O Fernando emendou: “Mesmo que vocês já tenham comido uns hambúrgueres, eles vão levar a gente para um restaurante de moqueca bonzão. Cês vão gostar.”

Me segurando para não fazer uma piada com comida, não acreditando que a gente estivesse naquela situação, me lembrei. “E amanhã? A gente vai ter que pegar as nossas coisas para pegar a estrada.”

O Fernando olhou para o Luiz também esperando uma resposta, dava para ver que ele estava menos entusiasmado com a coisa toda.

O Luiz respondeu: “Deixa comigo, vou convencer eles a passar em casa antes da gente ir para o reastaurante.” Ele deu um sorriso maroto e emendou. “Ainda por cima vou conseguir que te levem para a estrada amanhã, quer ver?”

Apesar de não gostar daquilo, naquela altura do campeonato não havia muita escolha. A barriga também estava interessada em experimentar a famosa moqueca capixaba. Saímos do passeio, nos apertamos dentro do carro das “amigas”. O Luiz explicou o problema e fomos todos ao apartamento para pegar nossas coisas. Quando viram o violão, “uma” virou para “outra” e disse.

“Nossa, que meninos talentosos, olha esse violão!”

“Ai, eu adoro cantar! Vocês vão fazer uma serenata pra gente?”

Respondi com um sorriso amarelo: “De repente… se rolar um clima.”

Esperando uma festa quentíssima mais tarde, a dupla gay levou todo mundo para o tal restaurante de moqueca. Bebemos vinho e a comida estava deliciosa, tudo por conta deles e em troca fomos educados e rimos das suas piadas. A “loura” era de fato muito engraçada.

“Tudo o que eu queria ser era o Papa. Aquela bicha é chiquérrima, não acham!? Eu ia me vestir toda de seda e ficar sentada naquele trono podre de chique mandando as bichas pobres limpar meus quadros.”

Após a sobremesa, o aperitivo e a conta, o próximo passo era ir para o ninho de amor. A “loura” morava num apartamento de dois quartos com varanda, mas sem vista. “Ela” era pintora e espírita e as paredes eram cheias de quadros da cara de um Jesus Cristo em cores gritantes e rodeado de pétalas.

“Essa é a entidade que me vem em sonhos para me proteger. Aposto que vocês não acreditam nessas coisas.”

A “morena”, que era mais recatada, mas que ria de tudo que a “loura” dizia, falou com orgulho. “Ela é muito talentosa, pintou todos estes quadros, não são lindos?”

O Luiz concordou: “Nossa, são lindos!”

A “loura” respondeu:“Obrigada, lindo, mas essa neguinha está sendo falsa, só gosta de quadros como aquele. ” Ele apontou para uma foto artística em preto e branco de um cara bem-dotado numa pose erótica. Daí ela se virou para mim.

“E você? Não vai tocar pra gente? Eu adoro bolero e música antiga. Aliás pode me chamar de Maysa.”

O Pedro e eu não aguentamos e caímos na gargalhada, me recompus e respondi: “Sabe o que é? A viola está desafinada.”

“Então afina ela, menino!”

Todo mundo, até o Pedro me pressionou.

“Beleza então.” Tirei a viola, que já estava afinada. “E então, Maysa, conhece essa? A noite do meu bem?”

A “Maysa” só faltou me agarrar. Ela até que cantava bem. Toquei essa e mais duas e depois guardei o violão.

“Muito bem carioca! A gente adorou!” O Luiz estava a ponto de soltar a franga também.

Dava para ver que ele ia ficar com a “Maysa” e o Fernando com a “morena”. O papo foi ficando tenso e depois de uma sessão de insinuações e evasivas, chegou a hora do vamos ver. Conforme combinado, cada um dos mergulhadores foi para um quarto com suas respectivas, enquanto a gente foi para a sala de estar para tentar dormir um pouco.

As luzes se apagaram, os casais fecharam suas portas e nós ficamos na sala, deitados em camas improvisadas e rindo feito dois idiotas.

“O Luiz deve estar perguntando para o barbudinho; você pinta como eu pinto?”

“Barbudinho! Hahahaha! ”

“Cara, ri mais baixo senão os caras não vão conseguir se concentrar.” Estava inspirado para falar besteira. “Tu reparou que o moreno é a cara do Little Richard. Brincadeira! O Fernando vai mandar ele abaixar para amarrar os sapatos e ficar só no wop bop a loo bop a lop ba!”

“Hahahahaha!”

Cerca de uma hora depois, uma das portas se abriu e fingimos estar dormindo. O Fernando estava para sair do apartamento e ouvimos ele dizer: “Desculpa, mas não estava inspirado essa noite.” Quase me levantei para perguntar se a gente podia ir junto, mas não deu tempo.

Depois que saiu, o apartamento ficou em silêncio, mas a porta do quarto permaneceu aberta e a luz acesa. Dava para sentir a energia inquieta do moreno.  Alguns minutos depois ouvimos passos vindo em nossa direção. Com meus olhos fechados, comecei a pensar comigo mesmo: “Xiii, vai dar merda!”

Aí ouvi o Pedro dizer: “Meu irmão, tira a mão daí porra!!!”

Após alguns segundos, o mesmo aconteceu comigo e dispensei o cara e a sua mão boba. Depois disso, o moreno baixinho saiu do apartamento batendo a porta e dizendo:

“Seus brochas mal-agradecidos, vocês deveriam estar dormindo na rua!”

No dia seguinte, o outro casal nos acordou num astral muito melhor. A “Maysa” estava felicíssima vestindo um robe de seda lilás já bastante maquiada. Agarrada no pescoço do Luiz, ela disse: “Bom dia, meninos”. Daí olhou com carinho para a cara do Luiz, ainda meio sem graça com a gente. “Esse bruto roubou minha virgindade ontem à noite, vocês acreditam?”

Sentamos para conversar em volta da mesa e acabamos descobrindo que a “morena” insatisfeita era o vizinho de cima. Ele era o dono do carro que a gente tinha andado e que possivelmente ia nos levar até a BR. Ficamos conversando, esperando que descesse para o café. Quando chegou, estava mal-humorada e, por vingança, disse:

“Olha, o carro está sem gasolina e tenho um monte de coisas para fazer hoje de manhã, não vai dar para ir até a estrada.”

A “Maysa” estava do nosso lado.

“Deixa de ser amarga, neguinha, hoje é um dia novo e você vai achar um lindinho tão gostoso como esse para você. E não seja mentirosa, enchi o tanque do teu carro ontem e o salão está fechado hoje.”

O outro tentou protestar, mas a nossa ”amiga” emendou:  “Somos duas moças de família e vamos fazer o que prometemos para esses cariocas, depois vamos dar uma volta com esse bofe.”

Tomamos café juntos e não demorou muito para o moreno melhorar seu humor. De barriga cheia, fomos os cinco até um posto de gasolina fora da cidade. Ainda meio atordoados por conta daquela primeira noite maluca, agradecemos e nos despedimos.

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Desculpas Iaiá

Quando eu era pequeno, eu tinha uma babá. O nome dela era Maria, mas eu a chamava de Iaiá e o nome acabou pegando.

A foto da qual eu mais me lembro dos meus primeiros anos sou eu aos dois anos dentro do mar, acho que em Santos, o barrigão pra fora, um enorme sorriso malandro no rosto — e a Iaiá no fundo, de vestido, até os joelhos dentro do mar. Nessa idade, eu dividia o quarto com o meu irmão e lá só tinham as nossas duas camas. Quando eu ficava doente, a Iaiá deitava no chão pra me colocar pra dormir e estava lá caso eu chorasse no meio da noite.

Assim começou a prédica do último dia 4 do rabino Rogério Cukierman, da Congregação Israelita Paulista, um Racista em Desconstrução.

No sermão da sexta-feira à noite, início do Shabat, ele falou de si mesmo, ao lembrar que aos 5 anos de idade, em 1976, passou na televisão a novela “Escrava Isaura”, contando a história  de uma escrava por quem o senhor da fazenda se apaixona. Isaura era branca, mas todos os outros escravos retratados na trama eram pretos; pretos assim como a Iaiá.

“Vendo aquela realidade e o que acontecia na minha casa, eu logo entendi qual era a regra do jogo. Fui conversar com a minha mãe e, muito sério, pedi pra ela que, quando chegasse a hora de dar a alforria pra Iaiá, ao invés disso, ela desse a Iaiá pra mim.”

O rabino confessa que a história da Iaiá o envergonha e que está ciente de que precisa assumí-la se quiser ter o direito de sonhar com um país diferente. “Eu conto essa história porque não quero mais me reconhecer na conduta daquele menino e para isso é necessário um profundo processo de t’shuvá.”

O termo quer dizer “retorno” e representa o esforço para retornarmos à melhor versão de nós mesmos, de corrigirmos nossas ações quando erramos, repararmos os erros que causamos e garantirmos que eles não voltem a acontecer. No começo de todo processo de t’shuvá está o reconhecimento do erro, que talvez seja a parte mais difícil.

O futuro rabino amava a Iaiá profundamente , mas ele se nega a se  esconder atrás desse amor e dizer que ela era como se fosse da família, porque ela não era. “Quando íamos jantar fora, ela não ia; quando viajávamos, ela só era convidada se fosse para tomar conta de mim; quando eu ia soprar a velinha do bolo de aniversário, ela nunca esteve lá na frente, junto com meu pai e minha mãe. A Iaiá era uma babá querida, cuja subjetividade foi muitas vezes negada, que foi objetificada, mas esses erros nunca foram reconhecidos sob a desculpa de que ela ‘era quase da família’.”

Iaiá é o resultado do racismo estrutural em que vivemos e no qual fomos criados, em que as moças pretas que moravam em casa eram sujeitadas ao preconceito banalizado pela cultura.

A história de Iaiá e do rabino nos questiona e nos obriga.

Quem de nós, da classe média paulistana, não teve a sua Iaiá, na figura de uma babá ou de uma doméstica, que mais corretamente deveria ser chamada de escrava? Quem não viveu essa história e pode dizer que nunca tinha ouvido nada igual?

Eu tive a “minha” Cida, que entrou em casa ainda menina, menor de idade, e saiu depois de casada. Ela morava no andar de baixo, ao lado da área de serviço e do quintal, separada do resto por uma porta de vidro que devia ser trancada à noite. Dividia o quarto e o banheiro com a cozinheira.  Tivemos várias, mas não me lembro dela ter sido consultada para dizer se a coabitação era satisfatória. Cida não reclamava, nunca.

Lembro-me da cena, quando ela pediu para ver minha mãe com o namorado, que já era conhecido da família. Os três foram à copa, sentaram-se em torno da mesa de fórmica vermelha e ele, nitidamente intimidado, pediu a mão da Cida à minha mãe. Como se ela fosse da família…

Sua mãe, a verdadeira e única, não estava sequer a par do pedido de casamento. Cida achava que a patroa sabia melhor que a própria mãe o que era melhor para ela.

Hoje, temos a chance de nos olharmos no espelho e vermos que o resultado nem sempre é satisfatório. Individualmente e como sociedade, a imagem que reflete é ruim, é feia, é a imagem da injustiça racial.

Se não formos ativamente antirracistas, estaremos sendo coniventes com a propagação do ódio, estaremos sendo racistas também.

Por isso  eu, você e todos aqueles que conheceram Iaiá, Cida e suas histórias temos a obrigação de ser como rabino Cukierman, Racistas em Desconstrução.

Desculpas Iaiá, desculpas Cida.

Samba Perdido – Capítulo 24 – parte 01

Capítulo 24

 

“...  E passo aos olhos nus,
Ou vestidos de luneta
Passado, presente, particípio
Sendo o mistério do paneta”

Novos Baianos - Mistério do Planeta

 

No final do primeiro ano da faculdade, Pedro e eu já éramos melhores amigos e tidos como a malandragem da sala. Com a chegada do verão, deteminados a ser mais fortes que a tempestade, resolvemos dar uma volta pelo Nordeste. O orçamento desta vez seria muito mais curto devido às condições. Não havia feito nada de extraordinário naquele ano, os negócios estavam difíceis e, farto do meu distanciamento do “mundo real”, Rafael se recusou a financiar a viagem. Do lado do Pedro, sua mãe viúva também não tinha muito para colocar na mesa. Para tornar a coisa viável, tive que vender meu querido Blues Boy e ele teve que pegar parte do dinheiro que seu pai havia lhe deixado. Mesmo assim, pelos nossos cálculos, só teríamos o suficiente para ir de ônibus até Vitória, e a partir de lá, tentaríamos chegar o mais ao norte possível pegando carona e acampando.

Apesar do prejuízo e dos possíveis contratempos, não queríamos outra coisa. Seria uma oportunidade de viver um sonho de mochileiro hippie, além de um alívio imprescindível da crise na cidade grande.  Enquanto o ônibus atravessava a ponte Rio-Niterói rumo ao Nordeste, não via a hora de chegar naquele Brasil idílico onde poderia voltar a ser eu mesmo.

Sabendo que as coisas só esquentariam depois que chegássemos na Bahia, não íamos ficar muito tempo em Vitória. Sem pertencer ao Sul nem ao Nordeste, a cidade não era nem moderna o bastante para a gente curtir a balada, nem exótica o suficiente para ser empolgante. O plano era acampar na praia por uns dois dias e de lá começar a fase de caronas e chegar à Bahia o mais rápido possível.

Assim que chegamos por volta do meio dia, pegamos um ônibus rumo ao bairro da Praia do Canto onde achamos logo um quiosque na beira da areia para deixar nossas mochilas. Foi lá que rolou nosso primeiro contratempo. O dono da barraca, um mulato magro de cabelo parafinado vestindo uma roupa de surfista e com óculos escuros coloridos, nos explicou que existia uma lei que proibia acampar em qualquer lugar da costa da cidade.

“Tiveram uns malucos que tentaram acampar aqui há duas semanas atrás. A polícia chegou a noite, tirou eles à força e ainda ficaram com a barraca. Se vocês quiserem tentar, tentem, mas está avisado.”

“É só aqui ou em Vitória inteira?”

“É proibido acampar na orla inteira, se vocês quiserem montar a barraca com os mendigos na praça é com vocês.” O cara encerrou com um sorriso irônico, já preocupado com outros fregueses que tinham acabado de chegar.

Virei para o Pedro. “Cara, e agora? A gente vai dormir aonde?”

“Sei lá, depois a gente vê. Não estressa, estamos de férias!”

Aceitei a sugestão. Depois que os clientes foram embora, trocamos de roupa rapidamente atrás do balcão. De sunga, numa cidade estranha, com o oceano aberto em frente e o sol forte, não pensei mais no assunto. O que queríamos era curtir o dia e curar o desconforto de uma viagem de 15 horas. No final do dia, com o pôr do sol chegando, a pergunta sobre onde dormiríamos naquela noite voltou à tona.

“Aê, de repente o cara falou aquilo só para assustar, vai ver que ele não quer ninguém acampado perto do quiosque.”

“Pode crer, também achei o cara meio mané.”

“De qualquer maneira, é melhor a gente ficar esperto, se a polícia chegar e levar a barraca vai ser foda!”

“E se de repente a gente armar a barraca naquele gramado ali em cima das pedras no final da praia?”

“Cara, tu tá maluco? Se não deixam acampar aqui, tu acha que vão liberar ali num parque público?”

“Então vamos para a casa do estudante universitário de Vitória? Não coloquei na lista, mas deve ter uma.” A gente olhou para o balcão e ele já estava começando a arrumar as coisas para ir embora.

“Tá muito tarde para isso, mas dá um guenta aê, que vou pegar as coisas lá no quiosque que o cara está fechando.”

Quando voltei, o Pedro estava conversando com um sujeito alto e desengonçado que tinha acabado de sair da água com uma máscara e um arpão.

Pedro, cujo pai tinha sido mergulhador, estava falando sobre mergulho genuinamente interessado. “Lá no Rio o mar é mais claro, mas volta e meia fica sujo assim também. Quando mergulhava com meu velho a gente chegou até a ver polvo.”

“Conheço o Rio, mas nunca mergulhei lá. O mar é mais frio, né? A água aqui é mais barrenta, mas até que dá para ver uns peixes. O Luiz lá dentro pegou um polvo no ano passado, mas foi em Guarapari.”

A conversa foi interrompida quando o tal do Luiz saiu da água e tirou a máscara de mergulho para vir falar com a gente. “E aí? Beleza? Luiz.”  O cara estendeu a mão e apertamos.

Depois ficamos  sentados na praia já semivazia conversando. Me surpreendi com o conhecimento do Pedro sobre o assunto, embora desconfiado de que a metade do que estava dizendo era mentira. Nao sabia nada de mergulho e enquanto o papo continuava, voltei a ficar ansioso por não ter ideia de onde ia dormir naquela noite.

A uma certa altura o assunto finalmente mudou. “Somos de BH e estamos na casa do tio do Fernando aqui, e vocês?”

A gente explicou a situação torcendo que fosse rolar um convite. Luiz, um cara com toda pinta de soldado e com ar de mandão, virou para o Fernando.

“E aí? Não dá para eles ficarem no quarto de empregada?” Ele se voltou para nós e perguntou.  “É só por uma noite, né?”

 Nem precisou a gente se consultar, acenamos a cabeça na hora dizendo que sim. O plano era passar duas noites em Vitória, mas dadas as circunstâncias uma já bastava.

Sem entusiasmo, o Fernando pensou um pouquinho. “É verdade, tem o quarto de empregada. Olha, é apertado e quente pra caralho, mas é melhor que ficar dormindo na rua que nem vagabundo.”

A gente não estava numa posição de escolher. “Pô, obrigadão, pode deixar que é por uma noite só, a gente vai pegar a estrada amanhã.”

O Luiz levantou impaciente. “Então tá decidido, a casa é aqui pertinho. Vamo nessa? Fiquei com fome depois desse mergulho.”

O Fernando, ainda um pouco relutante levantou também. “Vamo nessa. Essas aí são as tralhas de vocês?”

Pegamos as mochilas, a barraca e a viola e saímos atrás deles. O conjugado ficava num prédio alto e antigo em uma das ruas de trás. Era apertadíssimo. Depois de nos acomodarmos e tomarmos um banho estávamos prontos para o rango. Quando o Luiz falou que não tinha nada na geladeira, entendemos que a gente devia pagar uma janta para os caras em retribuição. Só que se não tínhamos grana nem para uma refeição boa para nós dois, quanto mais para dois marmanjos a mais.

Pedro também não falou nada e ficou subentendido que não ia rolar. O clima ficou esquisito mas pegamos o que estava na geladeira e devoramos uns sanduíches de queijo. A fome não passou e resolvemos ir de ônibus para a zona boêmia de Vitória, Vila Velha.

Duros, com a barriga roncando, ficamos andando pelo passeio feito uma matilha de cães. Acabamos num lugar que parecia um parque de diversões noturno, cheio de trailers vendendo comes e bebes e tocando música a todo volume. Na confusão, alguém viu uma mesa vazia cheia de petiscos e de garrafas de cerveja intocadas. O Luiz, já chefe de nós todos, fez um sinal para a gente parar e ficar esperando.  Passamos uns dez minutos vigiando. como os donos nunca voltatam, chegamos junto e discretamente tomamos conta.

Fui direto numa garrafa de cerveja já aberta, mas cheia. Assim que o gelado desceu, ouvi uma voz masculina afeminada me chamando de atrevido. Olhei para o lado e não era o Pedro de brincadeira nem um dos outros dois, era uma bicha loura alta com purpurina cintilando nos cabelos e na barba, olhando para mim com os lábios hidratados.

Quase cuspi a cerveja fora. “Desculpa, a gente pensou que não tinha ninguém na mesa, daí…”

“Menino, essa cerveja tem dono.  Eu e minha amiga estávamos dando uma volta e deixamos as coisas aqui. Será que não dá para fazer isso numa noite de domingo!?”

“Olha, desculpa mesmo, quanto custa uma cerveja? Te pago uma nova.”

O cara não parecia incomodado. “Deixa de ser bobo, garoto, senta aí e bebe com a gente.”

Quando olhei para o lado e vi a “amiga” dele, um moreno também coberto de purpurina com maquiagem nos olhos e se derretendo para cima do Luiz, a ficha caiu: havíamos caído na armadilha da dupla. Estava claro que eles queriam muito mais que cervejas novas e nossas desculpas. De qualquer maneira, como os dois mergulhadores pareciam mais confortáveis com a situação, Pedro e eu saímos de fininho e deixamos o problema com eles.

Rindo do acontecido, resolvemos deixar de ser pão duros e fomos comprar uns hambúrgueres e uns refrigerantes numa das barracas. Depois fomos dar uma volta. Não demorou muito para a coisa começar a ficar chata. Estávamos cansados e voltamos à mesa para ver quando iríamos embora. A novidade era que os quatro haviam se tornado íntimos e voltar para o apartamento não estava mais nos planos.

A “loura” foi a porta voz da decisão. “A gente ficou muito amiga desses dois moços e vai levar eles para conhecer a minha casa. Se vocês quiserem vir com a gente será um enorme prazer.”

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O contágio do bem

Um ano de Covid-19 e finalmente estamos prestes a receber a vacina. Tudo o que desejamos é ter de volta nossa vida de antes. Neste caso lamento informar, mas nada será como antes, nossas vidas mudaram e precisamos aceitar.

Uma das piores consequências da pandemia for ter transformado a vida de milhões de famílias comuns, normais, ativas em um inferno da noite para o dia. Algumas afetadas  pela perda de entes queridos, outras pela falência de seus negócios e muitas pelo desemprego.

Muitas delas  tiveram a sorte de serem acolhidas por seus familiares, mas existem aquelas que não tiveram esta sorte e não importam as razões para isso, mas o fato em si. Pessoas que de repente se viram sem nenhum provento. Como pagar o condomínio, como pagar a escola das crianças, a operadora da TV, a operadora da linha de celular, a gasolina do carro, etc. Como pagar a conta no supermercado para ter o que comer?

Esqueçam o cinema, comer fora, um sorvete, um vinho, um show, uma viagem, tudo acabou. Sem emprego, começaram a consumir as reservas, depois a venderem o que era possível vender, até que chegaram ao fim da linha. Não há mais por onde. Começaram a fazer dívidas e logo isto virou uma bola de neve. Logo estouraram os limites da conta no banco, do cartão de crédito e começaram a chegar as ligações dos cobradores.

Esta é a situação de milhares de pessoas que hoje precisam de ajuda. E por incrível que seja, algumas sequer sabem como pedir, ou pior, não conseguem superar a vergonha de fazê-lo, como se a culpa fosse delas. Acham que pedir ajuda é uma humilhação.

No mundo inteiro, milhares de empregos desapareceram. Tudo que está ligado ao Turismo e ao Entretenimento sofreu um golpe violento. As quarentenas acabaram com muitos negócios de rua e nos Shopping Centers. Nem todos tiveram como manter seus comércios permanecendo fechados por longos períodos. Terrível.

Mas existe um outro fenômeno que chegou com o Covid-19, o da solidariedade. Aqui também, milhares de pessoas se organizaram para montar grupos de ajuda, para recolher doações e as encaminhar para os mais necessitados. Sem esta ajuda, o mapa da fome não pararia de crescer.

Aqui se revela a face mais humana da nossa sociedade. Doar é uma ação de fórum íntimo. A maioria o faz no anonimato. Não importa o valor, se em dinheiro ou se em uma ação social, doar é um ato de altruísmo. Muitos dos que doam, são justamente os que recebem algum tipo de ajuda e as dividem com outros mais necessitados. Da mesma forma, muitos dos que recebem ajuda, nunca fizeram uma doação antes. São as lições da vida.

Eu administro um grupo no FB com cerca de 6000 membros. As consequências do desemprego também podem ser vistas lá. Sabemos que alguns membros deixaram o grupo em silêncio quando não puderam mais pagar a conta da Internet. Mas conseguimos identificar os que precisam de ajuda e montar um grupo voluntário de apoio.

Solicitamos doações e elas começaram a chegar. Cada um ajuda como pode, em dinheiro ou profissionalmente. Tudo se soma e esta ajuda vai chegando onde é preciso, aliviando assim, o sofrimento que até então era silencioso. Agora não mais, com muito respeito e com muita humildade é possível contribuir com o próximo.

Se você chegou até aqui, seja um doador. Procure quem está organizado e doe o que puder, sua ajuda vai ajudar a minimizar a situação de alguém e vai te fazer se sentir bem.

Doar é contagiante, um contágio do bem. Se deixe contagiar por este sentimento.

Catástrofe no STF

Na semana passada, o presidente do STF, Min. Luiz Fux, protagonizou, em harmonia com todas as formas de degradação moral, ética, filosófica, política e mental que o país empreende neste período indizível de nossa história, duas cenas horripilantes. Certamente os fatos não tiveram a devida repercussão nas grandes mídias, ressalva feita ao jornalista Reinaldo Azevedo, que em sua magistral aparição no programa “O é da coisa” edição de 27/11 verdadeiramente pontificou sobre a tragédia moral daquele ínclito cidadão ora comandando o maior tribunal da América do Sul.
Da mesma forma que Bolsonaro, Luiz Fux nunca escondeu quem é e o que é. A mais que famosa e emblemática entrevista que voluntariamente concedeu a Mônica Bérgamo na Folha de S.Paulo há alguns anos revela candidamente o tipo de sangue que corre naquelas veias de um ser rastejante e pobre de espírito, ainda que o seu cinismo possa denunciar alguma característica filogenética superior compatível com certos mamíferos de quatro patas.
Em evento do meio jurídico, Fux fez alusão ao “silêncio de muitos” que permitiu os horrores do Holocausto, colocando isto no mesmo nível que o “silêncio de muitos outros” que permite que a corrupção campeie nas planícies da República. Sim, o deplorável ministro colocou no mesmo nível o melhor exemplo de mal absoluto que a humanidade já perpetrou com a gatunagem vulgar mais que arraigada em todos os governos de todas as repúblicas. Comparou assim, propina com genocídio em massa orientado. Faltam palavras para descrever tamanho descalabro, tamanho sofisma, tamanha afronta à dignidade humana, aos milhões de mortos pelo nazismo. E o pior de tudo: Fux é judeu, e como tal, tem o dever moral, ético e intelectual de saber distinguir entre as categorias de corrupção que não são dirigidas a nenhum grupo e que não são específicas de qualquer categoria ou nação, que sempre estão ao alcance da lei – desde que o poder judiciário assim queira, de forma imparcial e democrática – e as categorias de corrupção fundadas na ação de estado e dirigidas e acumpliciadas pelo seu respectivo poder judiciário e que condena povos à morte da forma mais brutal que se possa imaginar.
Se não bastasse isso, Fux prega que “não vai tolerar ataques à Lava-a-Jato”, como se esta “grife” sórdida que se vende como combate à corrupção já não houvesse confessado de forma suficiente seus desvios e pecados que levaram a soberania do Brasil à banca rota. Agindo desta forma, Fux atinge diretamente colegas seus de tribunal que sabidamente posicionam-se há muito tempo contra os abusos de Sergio Moro, Dallagnol e outros, sobre quem a cada dia pairam seríssimos questionamentos sobre sua conduta ética, legal, e sobre a constitucionalidade de seus atos. É sabido que muitas vezes o STF dividiu-se em 6 a 5 sobre questões envolvendo direta e indiretamente os feitos da Lava-a-Jato. Com todo esse voluntarismo, Fux joga gasolina na fogueira que ainda está longe de esgotar seu combustível natural. Este comportamento de “juiz de condenação”, como bem descreveu Reinaldo Azevedo apenas consolida a visão da Lava-a-Jato como uma das mais distorcidas iniciativas jurídicas de nossa história. Novamente, recorrendo à sua origem judaica que com ele compartilho, para a minha vergonha no caso específico, comporta-se Fux de forma alheia à tradição ética talmúdica que serve a tantos grandes juristas como fonte de formação, informação e debate, mas acima de tudo, como fonte de parâmetros éticos para que os julgamentos sejam corretos, isentos, e baseados em princípios humanísticos.
Em certa medida, o Fux revelado na famosa entrevista não decepciona quase nunca, construindo assim pelo menos uma certa “segurança” que dá previsibilidade ao seu comportamento. Mas, infelizmente, seus comportamentos concernentes ao STF desde antes de sua indicação só fazem aumentar a percepção clara da tragédia que se constrói no STF desde a sua posse, e que só fará aumentar ao longo do tempo, até que alguma outra tragédia tire o “brilho” desta que é Fux, já que tudo indica que apenas um fim trágico pode interromper a trajetória deste ser tão detestável e envergonhante.

Samba Perdido – Capítulo 23

Capítulo 23

 

“Meus heróis morreram de overdose
Meus inimigos estão no poder
Ideologia,
Eu quero uma pra viver.”
Cazuza – Ideologia

 

Pedro também caiu de paraquedas no curso de Economia da UFRJ. No vestibular, tinha dado a sorte de se sentar ao lado de um amigo de infância “Caxias”. Sem ter que insistir muito, o amigo deixou a sua folha de respostas a mostra e foi assim que ele entrou para o curso. Ele não era o cara típico de círculos acadêmicos. Morava fora da Zona Sul, tinha pele mais escura, cabelo enrolado e por ser da equipe de polo aquático do Fluminense, era sarado. Não demorou muito para que engatássemos numa firme amizade, comigo sendo seu passaporte para festas na Zona Sul e com ele me ajudando na cultura de rua.

Economia e Administração de Empresas, Comunicação (Jornalismo e Publicidade) e Psicologia eram as três faculdades no campus da Praia Vermelha. Nosso curso era o mais prestigioso e ficava no prédio mais suntuoso, o que abrigava o famoso Teatro de Arena. O diretório central dos estudantes era lá e usava aquele anfiteatro como palco para bandas alternativas, muitas delas excelentes, como Premeditando o Breque, Diana Pequeno, Luli e Lucinha, entre outros.

Por essas e outras, os alunos de Economia se achavam um degrau acima, acreditando lidar com questões mais difíceis e importantes. Para nós, os estudantes dos outros cursos estudavam matérias fáceis e superficiais. Em contrapartida, ainda que impuséssemos um certo respeito, eles nos viam como riquinhos nerds metidos a besta.

Pedro e eu não estávamos interessados nesses estereótipos. Em vez disso, saímos explorando o campus, fazendo amizade com os estudantes de Comunicação – eles sabiam das melhores festas – e com os de Psicologia – a grande maioria era de mulheres, muitas delas bonitas e pareciam dispostas a experimentar coisas novas.

De qualquer forma, passamos a fazer parte de uma turma universitária mais madura que possuía vida social própria. As festas que começamos a frequentar refletiam esse novo status universitário. Nelas, além da nossa turma de calouros, havia estudantes de anos mais avançados, jovens professores, suas namoradas, esposas e seus amigos, todos inteligentes e muito mais sofisticados do que a maioria das pessoas com as quais estávamos acostumados a nos relacionar.

Minha habilidade no violão operava milagres e éramos convidados para as melhores festas, organizadas pelos membros mais conceituados do corpo acadêmico, muitas nos melhores endereços da cidade. A elite era de esquerda e vários chegariam a posições importantes em agências governamentais, nos negócios e mesmo na política. A maior parte vinha de famílias tradicionais e conceituadas, e alguns dos pais eram envolvidos nas cúpulas dos recém-legalizados partidos de oposição.

Num tempo de renascimento político esses círculos apreciavam a aura descontraída de um violonista, versado no estilo de vida alternativo encontrado em Visconde de Mauá e Trancoso. Durante um breve tempo, tanto Pedro como eu fomos cortejados pela elite estudantil, mas a novidade desbotou logo e nos deixaram de lado devido às notas baixas, o contexto familiar inadequado e a falta de base e de interesse nos assuntos sérios que todos deveriam estar focando.

A acolhida nos outros cursos foi mais durável. Choviam convites para festas e levadas de som. Conhecemos garotas sensacionais e fizemos boas amizades. Imersos na farra e com um status elevado em casa, foi fácil esquecer a realidade econômica sombria pairando sobre nossas cabeças, bem como os esforços requeridos por uma das melhores faculdades do país.

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Com a contrarrevolução neoliberal veio a caça às bruxas. Pessoas que não haviam colhido os frutos do milagre econômico dos anos 1970 ou que não tinham participado da festa, quer por proibição dos pais, quer por dedicação aos estudos ou repúdio àquela postura, pareciam estar ajustando as contas e festejavam a desgraça do inimigo.

O que antes era curtição, passou a ser visto com maus olhos, o que havia sido revolucionário agora era considerado idiotice e o que antes era aproveitar a vida se tornou a causa de doenças sexuais e mentais. A jornada de uma geração que havia lutado contra uma ditadura e que mais tarde presenciou a volta da democracia foi relevada. O sentimento de irmandade que tinha surgido naqueles dias se dissipou. Tudo parecia de cabeça para baixo: o que o senso comum havia considerado até então como egoísta e detestável, agora era aplaudido como a coisa certa a fazer.

O choque econômico também trouxe novidades na maneira de se “fazer a cabeça”. A cocaína passou a substituir a maconha. Não nos encontros dos radicais chiques de esquerda do curso de Economia onde muitos nem fumavam, mas nas outras rodas que frequentávamos. O comando do tráfico carioca percebeu que o pó branco era mais fácil de transportar, mais difícil de rastrear, mais viciante, mais caro e, enfim, muito mais lucrativo do que a herva, uma tradição de séculos. O submundo se profissionalizou em torno da novidade. Passaram a criar longos períodos de escassez de cannabis, enquanto o fornecimento de pó era abundante e barato. Logo, logo, os antigos maconheiros estavam caindo de napa nos espelhos do Rio de Janeiro. Muitos passaram a ver a maconha como uma lembrança ruim, um entretenimento para hippies fracassados e outros perdedores.

A Brizola – o nome do ex-exilado e futuro governador do Rio de Janeiro e por alguma razão o apelido da cocaína – era mais agressiva e mais nociva. Essa mudança de preferência era ilustrava bem o que estava acontecendo por causa do choque neoliberal. Ao invés de trazer a tona o lado contemplativo e artístico das pessoas, a cocaína deixava o raciocínio rápido e o ego inflado. Depois de se tornar popular, é claro que o tráfico aumentou o preço e fez com que seu consumo se tornasse um peso no orçamento. Por ser necessário consumir muito para manter a onda, em tempos de crise econômica muita gente acabou tomando caminhos à margem da lei para manter o hábito.

No começo, não gostava do clima superficial nem do egocentrismo que as linhas brancas traziam, mas a onda era tão forte que acabei entrando na onda junto com a galera mais chegada. A ilusão de autoconfiança conferida compensava as pancadas da recessão econômica. Àquela altura, a realidade lembrava um caminhão desgovernado vindo a toda em nossa direção mas com a Brizola tinhamos a impressão de correr mais rápido que ela.

No entanto, a implacável verdade era que o Brasil tinha se tornado um país assolado pela hiperinflação e pela recessão. Com uma crise à solta, havia muito desespero e mesmo suicídios, alguns próximos de nós. A saída era “cada um por si e Deus contra todos”, nas palavras de Mário de Andrade em seu livro Macunaíma. A válvula de escape para os abastados era a autodestruição através do excesso, para os mais pobres, era o crime e a violência. Histórias trágicas começaram a pipocar nos jornais; um aumento assustador no número de sequestros e assassinatos de um lado e justiceiros matando suspeitos do outro.

Dentro do meu círculo social o desânimo era generalizado. Na inocência de achar que resistíamos ao sistema, quando os dias ruins chegaram – algo que nunca imaginamos que pudesse acontecer – percebemos o quanto estávamos presos a tudo que achávamos que havia de errado no mundo. Moloch era muito maior que pensávamos. Ao contrário do que ditava a lógica, a crise o fortaleceu.

Todos sentiam que isso era apenas o começo de um longo caminho no escuro. Ao final de meu primeiro ano na universidade, os efeitos do caos eram profundos. A crise tinha pego todos de surpresa e ninguém sabia como reagir. Éramos como prisioneiros inocentes em estado de choque. Tentei me convencer de que podia lidar com o que viesse e de que era impossível que as coisas pudessem piorar. Estava errado.

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