por Richard Klein | 31 dez, 2020 | Brasil, Crônica
Capítulo 26
“No Farol da Barra, o encontro é pouco
A conversa é curta, tudo é tão rápido como
se furta”
Farol da Barra - Novos Baianos
A próxima parada era Salvador onde iríamos ficar na casa de uma amiga com quem tinha tido um caso em Mauá. Rochele era mignon e uma gata, seu jeito inocente e sua voz suave escondia um lado selvagem e irresistível. O tom marrom da sua pele e suas feições possivelmente árabes a faziam parecer indiana. Por estar na moda, ela realçava o look usando vestidos soltos e batas e deixava seus cabelos escuros, longos e encaracolados nas pontas fazerem o resto.
Rochele estava hospedada num apartamento perto do Farol da Barra, a Ipanema de Salvador . O bairro era bonito e tinha uma das praias mais bem frequentadas de cidade, o Porto da Barra, o posto nove de lá. Tambem tinha o Farol com vista para a lindíssima e enorme Baía de Todos os Santos. A rapaziada mais antenada sempre ia ali para curtir o pôr do sol. Em frente, havia um espaço livre e grande onde, durante o verão havia shows carnavalescos gratuitos que atraiam multidões. Aquela maravilha ficava a um quarteirão de onde a gente ia ficar.
O endereço perfeito não era o único motivo de estarmos ansiosos para chegar depois de um dia inteiro pulando de um caminhão em caminhão. Além de nos vermos livres dos mosquitos, teríamos um banheiro decente, camas de verdade e ar condicionado. Para mim, ainda havia a possibilidade de reviver o caso e passar noites em companhia feminina para aliviar a seca de Trancoso.
Só que quando batemos na porta, não foi a a Rochele quem atendeu, foi um cara com sotaque francês e jeito de almofadinha.
“Sim, posso ajudarr em alguma coisa?”
Não acreditei, tinha conferido o endereço várias vezes com ela antes de sair do Rio e nenhum francês havia sido mencionado. Por outro lado, a conhecia o suficiente bem para saber que de jeito nenhum estaria morando com um estrangeiro em Salvador.
Decepcionado respondi: “Desculpa, devo ter batido na porta errada.”
Quando o cara estava para fechar a porta, coçei a cabeça e antes de aceitar que a danada tinha me dado o endereço errado de propósito, por via das dúvidas, perguntei: “Por acaso você sabe se no prédio tem uma garota carioca com cara de indiana, baixinha? O nome dela é Rochele. Talvez seja uma vizinha.”
“Ah, a Rochelle!” Ele me corrigiu com o sotaque “certo”. “Si, ela é a irrmã da Bebelle, minha namorrada, está morrando com a gente.”
Ele abriu a porta um pouco mais, mediu a gente dos pés à cabeça e sem parecer muito impressionado, perguntou: “Quem devo anunciarr?”
Me segurando para não corrigir a pronúncia de Bebel, respondi: “Rique, um amigo do Rio, este é Pedro meu camarada de carona.”
“Um momento.”
Ele fechou a porta na nossa cara sem cerimônia. No corredor, a gente ficou olhando um para a cara do outro sem saber se caía na gargalhada ou se chorava. Nem foi preciso dizer um para o outro que a gente tinha achado o cara babaca. Digerindo o ocorrido em silêncio ouvimos o francês bater numa porta. “Rochelle!! Teim uns carras do Rio lá forra parra falarr com você.”
Demorou um pouco, a porta se abriu e a gente ouviu a Rochele responder com voz de sono: “Quem era?”
“Um deles falou que erra teu amigo, Rique.”
A gente ouviu os passos dela chegando e quando abriu porta lá estava ela com o cabelo desarrumado pela soneca me dando um sorriso amarelo. Ela perguntou para o francês, Alain, se a gente podia entrar.
“Clarro, clarro, por favorr, podeim entrrar.”
O arcondicionado na sala estava uma delícia e fazia tempo que a gente não sentava num sofá tão confortável. Depois de reparar na decoração afro-baiana de bom gosto e voltamos a prestar atenção no Alain. “A Bebel foi darr uma volta com umas amigas. Posso oferecerr uma cerrveja? Vinho?”
A cerveja não dissipou o desconforto. Deu para reparar direto que não tinha lugar para a gente ali. Era um sala e dois quartos apertadíssimo. Dava para ver que o quarto da Rochele era mínimo. Mesmo se estivesse sozinho, duvido muito que ele tivesse liberado, ainda mais que não teria motivo para tal. Assim que ficou claro o motivo da nossa visita, ele falou na hora que não dava. Ele tinha razão, o apartamento era organizadinho demais para servir de base para dois malucos. Tinha outra coisa, pelo menos eu não estava com a menor vontade de encarar a frescurada que devia rolar ali. Contudo, nosso anfitrião se revelou mais gente boa que a gente esperava quando percebeu o que a cagada da irmã da namorada.
“Se vocês quiserrem, non vejo prroblema em vocês deixarrem as coisas aqui.” Vendo a decepção ainda estampada nas nossas caras, foi mais adiante. “Podem até vir tomarr banho e cozinharr. Mas vocês eston vendo; o aparrtamento é pequeno demais parra cinco pessoas. Desculpe.”
Depois de um papo estranho no qual poupamos a Rochelle, que não parecia muito arrependida, aceitamos deixar as coisas ali e agradecemos. Depois, descemos com a barraca para ver onde a gente podia acampar ali por perto. Exploramos a área e ficou claro que a única maneira para continuar naquele lugar privilegiado, perto da moleza de ter um chuveiro, uma latrina limpa e um lugar para cozinhar, era dormir no palco.
Por ser o auge do verão, havia shows quase todas as noites ali, o que significava que teríamos que esperar até que todos fossem embora para subir no palco e passar a noite ali.
Foi isso que fizemos. Naquela primeira noite, por volta das duas da manhã subimos lá, desenrolamos os sacos de dormir no piso de madeira e , cansados da viagem, caímos no sono. Para nossa apreensão descobrimos horas mais tarde que não estávamos sós; havia uns mendigos dormindo embaixo do palco. Nunca interagimos, a não ser numa manhã quando um deles, visivelmente de ressaca, saiu para praticar a rotina de ginástica mais esdrúxula que tínhamos visto na vida.
A solução acabou sendo melhor que o esperado. O lugar se revelou seguro, retivemos as mordomias do apartamento do Alain e continuamos num dos melhores pontos da cidade. Talvez por não ter conseguido ficar zangado com a Rochelle, tivemos uma recaída e quebrei o jejum que estava me incomodando. Além disso, as pessoas achavam graça quando a gente explicava onde estava dormindo o que ajudava a quebrar o gelo nas conversas.
*
No segundo dia saímos para explorar a cidade.
No início dos anos 1980 Salvador ainda estava alguns anos atrás do Rio. Mesmo assim, os efeitos nefastos a nova década já estavam começando a aparecer. A era do trio elétrico estava ficando obsoleta e novos gêneros de músicas de carnaval estavam aparecendo. Nos bairros populares, o reggae havia tocado os ouvidos, corações e mentes da comunidade culturalmente dominante na cidade: a afrodescendente. Nela, uma nova forma nova e adaptada de se tocar o ritmo jamaicano tinha surgido misturando o samba e o reggae, o samba-reggae. Esse genero dominava a cidade e onde quer que passassemos, quiosques, vendas, carrinhos ambulantes e pessoas comuns tocavam essa música alto para que todos pudessem ouvir, seja em rádios ou em toca-fitas .
O maior expoente do gênero era o Olodum, uma banda do Pelourinho, o bairro mais antigo de todo o país e um ícone da cultura afro-brasileira. No passado, as autoridades usavam sua praça central para punir publicamente escravisados mal comportados, fugidos ou revoltosos. Existem relatos de homens recebendo mais de cem chibatadas, molhando o poste de sangue e suor e depois tendo sal esfregado em suas feridas. Ao contrario do que acontecia em outras cidades pelo mundo onde os casarões das suas partes históricas eram habitados por cidadãos abastados, agora, os descendentes daqueles mesmos escravos moravam nas casas dos antigos opressores. A Unesco tinha inclusive tombado a área como patrimônio histórico mundial em 1985. O Olodum galvanizava essa herança em forma de música com orgulho das suas raíses africanas. Seu som reverberava por toda Salvador. Mais tarde, o a banda ganharia atenção internacional ao gravar com Paul Simon e Michael Jackson.
Por outro lado havia a novidade musical das bandas mais voltadas para o público branco e bem de vida que usavam teclados eletrônicos, caminhões futurísticos, aparelhagem de ultima geração e dançarinos performáticos numa tentativa de reinventar o trio elétrico. Elas eram bregas até dizer chega, tocando uma mistura facilmente digerível de salsa, soca e outros ritmos caribenhos. Fiquei aliviado ao saber que o Trio Elétrico de Dodô e Osmar e blocos afros e de afoxé como o Ilê Aye e o Filhos de Gandhi ainda estivessem ativos. Tivemos a oportunidade de vê-los juntamente com o Olodum e outros blocos tradicionais em eventos pré-Carnavalescos. Só que nenhum deles chegava aos pés do encontro dos trios que tinha presenciado quando fui com o Maurício.
*
por Mauro Nadvorny | 26 dez, 2020 | Brasil, Direitos Humanos, Justiça
Senhores e Senhoras, não foi assassinada uma Juíza (isso é equívoco, é mentira!), mas uma mulher que atuava como Juíza. Uma mulher foi morta por ser mulher, não por ser Juíza. No Brasil, a Constituição clama pela igualdade entre homens e mulheres, e há legislação sobre misoginia, porque o Brasil não é apenas machista, mas, sobretudo, misógino.
Do Judiciário, uma mulher foi morta e, dele, também, um Juiz (é preciso dizer seu nome: Rodrigo de Azevedo Costa), falando como homem, deixou claro seu desprezo pela Lei Maria da Penha. Ele, esse estúpido Juiz (cargo do qual é indigno), compõe o cenário de machistas ou de imbecis que preparam a antessala da misoginia.
Mulheres, que são putas, negras, brancas, religiosas, irreligiosas, profissionais, não profissionais, mães, filhas, Advogadas, Promotoras, Delegadas, Juízas, Médicas, Trabalhadoras Domésticas, Taxistas, Freiras, Judias, Católicas, Evangélicas, Muçulmanas, Candomblecistas, Umbandistas, Kardecistas, Atéias, Garçonetes, Recepcionistas, Psicólogas, Atrizes, Cantoras, Musicistas, Professoras, Estudantes, Comunistas, Capitalistas, Socialistas, Liberais, Anarquistas, ou em qualquer outra situação, são mortas. São mortas porque são mulheres. Em alguns casos, são assassinadas duas vezes: porque são mulheres e negras, porque são mulheres e comunistas…
No Brasil, os homens não apenas odeiam e matam mulheres, mas são capazes de eleger um machista, misógino, racista, preconceituoso e genocida como Presidente da República!
por Richard Klein | 26 dez, 2020 | Brasil, Comportamento, Crônica, Opinião
Quem passava o verão em Porto Seguro eram turistas convencionais do Brasil inteiro. A gente estava ali para se juntar à malucada de Ajuda e Trancoso, por isso dois dias depois estavamos de saida. Só que o retorno foi decepcionante. O paraíso de dois anos atrás parecia um outro lugar. Agora a principal atividade era o turismo. A temida luz elétrica já havia chegado e, com uma balsa melhor, havia carros estacionados por tudo quanto é canto. A vila estava abarrotada e tinha se tornado muito mais estruturada com bares mais elegantes, restaurantes e pousadas exclusivas. É claro que a inflação de vinte procento ao mês tinha chegado lá também e tudo estava mais caro. Cheguei a perguntar por pescadores que conhecia e descobri com tristeza que a maioria tinha deixado o vilarejo depois de vender seus barcos e suas casas a preço de banana.
Para mim, a santidade do lugar estava sendo ofendida pelo clima semi urbano e por cortes de cabelo estilo anos 1980 e a maquiagem gótica que alguns visitantes – e até mesmo alguns jovens da terra – estavam usando . Não queria ter contato com a maioria das pessoas ali e o sentimento parecia mútuo.
Para piorar as coisas, comecei a reparar que a agenda do Pedro na viagem era a de se enturmar com o pessoal mais “interessante”, leia-se mais abonado, ligado às artes, à neo-sofisticação mística-zen e em produtos alternativos. Essa turma era mais velha e com vidas estáveis. No geral estavam o mesmo circuito que a gente, só que de carro e parando em pousadas confortáveis.
Em Ajuda havia agora uma hierarquia ditando que aquele grupo era melhor que o resto. Eles alimentavam esta percepção se isolando em pousadas exclusivas e em praias afastadas, igual ao que o Gabeira tinha feito a dois verões passados. Para Pedro, seu público alvo era uma porta de entrada para um mundo de conforto financeiro e de sucesso profissional. Não que tivesse qualquer coisa contra aquelas pessoas, mas amizades por interesse não tinham nada a ver com o que estava fazendo ali.
À noite, com todos relaxados pelos dias mágicos daquelas praias, as pessoas se juntavam em rodas de violão num espírito mais comunal. Afinal de contas, esse sentimento era o motivo pelo qual todos tinham viajado de tão longe. Nessas horas, ficava claro que todos estavam atrás de uma experiência parcida com a que eu tinha tido na primeira vez, só que para mim aquela energia já tinha alçado voo.
Contudo, a magia eterna da música continuava viva e com esforço e sinceridade dava para fazê-la presente de novo. Naquele segundo verão em Ajuda, já tocava faziam cinco anos. Tinha melhorado a técnica e tinha incluído um monte de músicas e estilos novos no repertório. Também estava começando a dominar as manhas de cativar o público, algo aprendido em rodas e festinhas da escola e agora da faculdade. Quando um pequeno público se juntava a volta, era com o maior prazer que tocava noite à fora. Com alguns bares agora pagando músicos amplificados, as sessões aconteciam na praia onde a luz elétrica ainda não tinha chegado. Era comum encontrar um ou outro cara com um instrumento. A gente saía tocando e o pessoal ia se chegando. Se rolasse o clima certo, saía cantando.
Começava com músicas mais intimistas e psicodélicas como Terra, de Caetano Veloso, Caravana, de Geraldo Azevedo e Chão de Giz, de Zé Ramalho. Conforme a atenção ia aumentando, tocava algumas do Milton Nascimento, do Beto Guedes, dos Secos e Molhados, do Fagner e do Belchior. Depois de estabelecer o clima, introduzia uns clássicos da bossa nova como Wave e Garota de Ipanema. Do início suave, engrenava numa parte mais ritmada: músicas dos Novos Baianos e do Djavan, forrós de Luiz Gonzaga, algum rock nacional da Rita Lee e do Raul Seixas. Animado e cantando junto, o pessoal estava pronto para sucessos mais ritmados do Gilberto Gil e do Caetano Veloso. Com todos em ritmo de festa, mandava canções carnavalescas de Alceu Valença e de Moraes Moreira e para fechar a noite recorria ao Jorge Ben.
Havia vários músicos na area. Às vezes, não era eu no volante e quando isso ocorria fazia o mehor para adicionar lenha à fogueira música para que a magia acontecesse e que Ajuda voltasse a ser Ajuda. Era uma alegria sentir as pessoas serem maiores do que a aura negativa tomando conta do pais, voltando a ser elas mesmas e curtindo junto sob o céu estrelado.
Nem todos apreciavam a este experiência. Ficar ouvindo um violeiro acústico era considerado ultrapassado por muitos, principalmente pelos mochileiros heavy metal acampados no mesmo terreno baldio onde outrora tinha dividido a cabana com as brasilienses. Durante o dia, o clima era horrível: a praia vivia lotada e barulhenta. Gente das cidades vizinhas chegava de carro e, para se mostrar, ligavam o som nas alturas colocando música para lá de brega. Na vila, havia muita gente agressiva, ninguém se conhecia direito e o pessoal da terra estava antipático e dinheirista. O Arraial d’Ajuda estava estragado e queria ir embora. Trocar Ipanema por aquilo não fazia sentido.
Não era possível que Trancoso fosse dar tanta decepção. A eletricidade ainda não tinha chegado lá e o acesso continuava difícil. Mesmo se esbaldando em encostar no monte de gente “interessante” passando o verão em Ajuda – que eram as pessoas que mais gostavam do que eu tocava – Pedro também estava de saco cheio de ser tratado como um turista. Foi fácil convencê-lo de que se trocassemos de vila, a experiência seria mais autêntica, mais em conta e haveria um número igual ou talvez maior de pessoas “interessantes” para conhecer.
*
Dessa vez não foi necessário cruzar rios profundos no meio do nada e no escuro, afinal tínhamos uma barraca que montamos num canto do quadrado assim que chegamos. Contudo, as coisas haviam mudado em Trancoso também. Não encontrei ninguém conhecido e até o dono do bar havia mudado: Seu Manuel tinha sido substituído por um sujeito sizudo e antipático de Eunápolis.
Em nossa primeira noite tivemos uma introdução à nova realidade. Estava dormindo e o Pedro me cutucou: “Aê, Rique, tu ouviu isso? ”
Confuso e meio puto por ter sido acordado perguntei: “O que?”
Ele sussurrou: “Tem alguém mexendo com as nossas paradas lá fora.” Fiquei alerta na hora. “Shhh, abre a barraca quietinho e vamos pegar esse merda agora.”
Segurei no zíper da barraca e abri o mais rápido e mais silencioso possível, só que o cara ouviu, tomou um susto e saiu correndo. Quando conseguimos sair da barraca já era tarde demais. O louro falso de cabelos encaracolados e de shorts já estava longe, correndo protegido pela luz da lua.
O Pedro ainda gritou: “Volta aqui, ladrão filho da puta!”
A gente tinha dormido com nossas carteiras dentro da barraca por precaução. De qualquer forma, fomos checar as mochilas e foi um alívio ver que ainda estava tudo lá. No dia seguinte, vimos o ladrãozinho na praia todo enturmado jogando vôlei com a moçada. Como não podíamos provar nada, a única coisa ao nosso alcance foi ficar encarando ele com a cara fechada, o que ele fingiu ignorar.
Tomar cuidado para não roubarem minhas coisas não foi a única coisa que aprendi naquela noite. Quando começou a clarear me dei conta que os mosquitos de Trancoso usavam as barracas dos campistas como centros de convenções. A claridade revelou um tapete deles cobrindo as paredes de nylon. Da outra vez, não tinha sido assim no barraco no meio do mato, devia ser o abafado quente que os atraía. Depois de ver aquilo não dava mais para dormir ali dentro. A única maneira de conseguir algum alívio foi sair com o saco de dormir, se deitar na sombra de uma casa e deixar que o vento os levasse.
*
Ao contrário de mim, um vara pau desengonçado em quem se podia contar as costelas e com cara de viajandão, Pedro tinha o corpo de um jogador de polo aquático. Com olhos pequenos e maliciosos, voz grave, pele cor de caramelo e cabelos encaracolados meio louros, ele fazia sucesso com o sexo oposto. Com um talento natural para aquilo, era supertranquilo, ia direto ao ponto e sabia as palavras certas e a hora certa de dizê-las.
Depois de uma semana e pouco no Sul da Bahia, os insetos e os ladrões não eram as únicas coisas me incomodando: minha falta de sucesso com as mulheres comparada com os triunfos dele estava difícil de digerir.
À noite, enquanto ele se dava bem, quando não estava tocando e todos estavam se divertindo perto de fogueiras, ocasionalmente a seriedade da minha situação fora dali tomava conta de meus pensamentos. Como seria o futuro naquela faculdade que não era para mim? O que aconteceria com a crise econômica cada vez pior e com a idade do meu pai avançando? Onde estava a namorada que se importava comigo e que gostava das mesmas coisas que eu? O quanto as coisas teriam que piorar até que elas começassem a melhorar?
Me sentia como se tivesse alcançado o topo de uma montanha em meio a uma linda paisagem para descobrir que do outro lado havia um depósito de lixo. Aqueles problemas eram como a parede de mosquitos na barraca: podia espantá-los temporariamente, mas eles voltariam não importa o que eu fizesse.
Muitas pessoas estavam na mesma situação: essa era uma geração de classe média órfa da prosperidade e da ideologia libertária e igualitária dos anos 70.Agora estava desprotegida da crise econômica e despreparada para lidar com ela. Alguns nos viam como um nicho de mercado. Um dos exploradores era Rajneesh, atualmente Osho, um guru indiano radicado nos Estados Unidos. Em Trancoso, só se falava dele. Baseando-se na psicologia ocidental e em filosofias orientais, ele pregava que o caminho para a iluminação espiritual era através da aniquilação do ego por meio da exaustão da libido. Criador de uma seita mundial em torno dessas teorias, suas terapias tinham forte conotação sexual, algo que duvidava ser autêntico na sociedade tradicional hindú. Naquele verão havia inclusive vários iniciados e iniciadas usando camisa/uniformes laranjas e carregando um colar de contas com a sua foto. Cheguei a ler alguns do seus livros; eram tão bem escritos que cheguei a ficar tentado a participar – muitas gostosas estavam fazendo isso – mas o preço exorbitante dos encontros e estadias nos seus Ashrams me convenceu a ficar de fora.
Havia paralelos entre a filosofia do mestre indiano com o discurso do Gabeira. Os dois pregavam mudanças pelo uso do corpo. A diferença era que o ex-exilado estava interessado em se promover como autor e como político enquanto a seita era voltada para tirar dinheiro dos seguidores. Encontramos pessoas que tinham chegado a conhecer Rajneesh, ou o Bagwan, pessoalmente no seu centro gigantesco no estado do Oregon, nos Estados Unidos, um caro privilégio. Elas falavam em cair aos prantos ao ver seu olhar “penetrante e amoroso” que havia “libertado suas almas”.
*
As praias de Trancoso continuavam maravilhosas, bem mais tranquilas do que as de Ajuda. Igual ao que tinha acontecido na minha ida anterior, todos frequentavam de dia. Ficávamos sentados – a maioria brancos de centros urbanos – conversando, olhando para o horizonte azul claro e curtindo a brisa suave nos refrescando enquanto balançava as árvores e o verde logo atrás. Num flagrante contraste com minha primeira visita, ao invés de falar das maravilhas do aqui e agora, o assunto principal eram os livros daquele guru estrangeiro, velho e barbudo e as suas terapias tântricas para alcançar a iluminação espiritual. Nas cabeças daquelas pessoas ele era o único que, por uma quantia fixa, podia deixá-los em um estado de paz semelhante ao que tinha sentido apenas por estar sentado ali há dois verões atrás. Para começar um quebra-pau ou se tornar impopular com a galera, era só lembrar que ele estava desfrutando o seu sucesso em outro país, sendo conduzido de Rolls Royce no seu Ashram dando tchauzinho para seus seguidores que pagavam uma pequena fortuna para estar ali.
Eu ficava na minha, pensando que esse era “o” produto que todos queriam: se desligar da realidade num orgasmo infinito. Isso não era novidade. Vender uma ficção reconfortante como um refugio de uma realidade hostil já era – e ainda é – feito pelas grandes religiões há séculos. Já tinha problemas suficientes com a minha para brigar com os outros por causa disso.
Era compreensível que em um lugar com Trancoso, ninguém quisesse falar sobre suas angústias naqueles tempos sombrios, mas para que ficar falando o tempo todo sobre o Rajneesh? Meu instinto me dizia que as infelicidades, como as daquele momento, estavam além do nosso controle, da mesma forma que as bênçãos que havíamos recebidos nos bons tempos. Tínhamos o poder de decidir como reagir aos contratempos, mas nenhum guru ou pílula mágica poderia abrandar o que o destino tinha guardado para nós. Podíamos tentar transformar a realidade. Deixar a realidade nos transformar? Para mim, nunca!
…
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por Mauro Nadvorny | 26 dez, 2020 | Brasil, Comportamento, Opinião
E chegamos ao final de 2020, um ano para ficar na história da humanidade. O ano que todos querem esquecer que existiu. Como nos elevadores de certos prédios americanos que pulam do 12º para o 14º, talvez alguns calendários no futuro também pulem este ano.
Ninguém previu a pandemia. Não tivemos adivinhas com suas previsões mirabolantes que sequer tivessem mencionado o que estava por vir. O que passamos neste ano pegou a todos de surpresa, surpreendeu até mesmo os pessimistas de plantão.
Diferentemente de todos os anos a retrospectiva desde que passou será basicamente de perdas. Entre conhecidos e desconhecidos, o mundo já perdeu 1.750.000 seres humanos. Não fosse o avanço da medicina e a chegada da vacina, este número continuaria subindo.
Graças a ciência, o mundo pode receber em tempo recorde a injeção da esperança. A vacina vai salvar vidas e nos devolver parte da vida que tivemos antes. Parte, porque nada será como antes.
Na minha retrospectiva deste ano que vai passar, recordo os tradicionais desejos de saúde e dinheiro no bolso que escutamos na virada de ano. Nunca antes estes desejos foram tão importantes. Saúde foi a maior das bênçãos e dinheiro no bolso, a maior dádiva. Que os digam os que tiveram a doença e os que tudo perderam por causa dela.
Está chegando ao fim, 2021 já bate a nossa porta e desta vez os desejos de um ano bom, são os mais sinceros possíveis. Um ano com saúde, muita saúde e que vacinados possamos recomeçar outra vez.
Passado o pesadelo, vamos lembrar dos que apostaram na vida e dos que apostaram na mentira de uma gripezinha. De todos os males, a falta de atitude de Bolsonaro na prevenção e contenção da doença não vão ser esquecidos. Sua inépcia foi diretamente responsável pela morte de milhares de brasileiros. O Brasil nunca teve um gabinete de notáveis para conduzir o enfrentamento a pandemia.
Bolsonaro jogou o Brasil de volta ao mapa da fome e a economia do país vai levar anos para se recuperar. O abismo que separa ricos e pobres se tornou intransponível. Quem está lá embaixo não tem como subir e não existe planejamento para que isto aconteça. A ideia é de manter a Casa Grande bem suprida e quem estiver do lado de fora no seu lugar.
O ano que vai chegar será um ano de enfrentamentos. Agora o Brasil terá de derrotar a barbárie, não existe outra alternativa. A civilização precisa ressurgir e se impor, ou pior do que a pandemia, a miséria vai tomar conta do país como nunca antes visto. Os primeiros sinais estão aí com grandes empresas abandonando o Brasil. O capital tem um bom faro para apostas e o Brasil não é mais desejável.
O mundo inteiro foi atingido por uma doença, ninguém escolheu receber o vírus em seu território. Ele foi chegando e se impôs. Antes do Covid-19 o Brasil elegeu um verme para presidir a nação. Foi uma escolha democrática, uma decisão que só tornou o pior, muito pior. De uma forma sórdida, com o uso de mecanismos obscuros, com uma tática alienadora, a barbárie impôs seu candidato, de todos o mais impróprio.
A civilização não estava preparada para o que aconteceu. Não soube como enfrentar a guerra de difamações, da mesma forma que a ciência não tinha meios para enfrentar a pandemia. A democracia foi de uma ingenuidade angelical. A ciência achou que podia tratar o mal com aspirina.
Agora temos o conhecimento necessário para solucionar os dois problemas. A ciência já está fazendo o seu papel para derrotar a pandemia, resta os brasileiros despertarem para um 2021 de recuperação da sua dignidade e derrotar a barbárie.
Que 2021 seja o ano da Ciência e da Civilização. Feliz Ano Novo!
por Richard Klein | 20 dez, 2020 | Brasil, Crônica
Capítulo 25
"..Não me amarra dinheiro não
Mas os mistérios."
Caetano Veloso - Beleza Pura
O barulho dos carros em alta velocidade indo em direção à Bahia naquela manhã quente e ensolarada prometia. Depois daquela noite bizarra, o que estaria nos aguardando estrada acima? Tínhamos dois meses de aventura pela frente. Animados, fomos de caminhão em caminhão pedindo carona para nosso próximo destino, Porto Seguro. Em pouco tempo conseguimos uma na traseira de um caminhão transportando carne seca.
“Podem deixar as coisas aqui na cabine, mas a viagem vai ter que ser lá em cima com os outros.”
Largamos as tralhas com um cara bem vestido ao lado do motorista e fomos para a traseira. Para subir, colocamos um pé no pneu, as mãos nas cordas grossas que prendiam a carga e num impulso paramos em cima. Lá, no plástico grosso que cobria a mercadoria, nos juntamos a um grupo de trabalhadores. Logo depois de nos acomodamos, o motor ligou e o caminhão partiu para a estrada.
Sem entender o que estávamos fazendo ali, nossos companheiros deram umas boas-vindas desconfiadas. Usando roupas rasgadas e chinelos pré-históricos nos pés calejados, pareciam extras num filme sobre revolução na América Central. O caminhão pegou velocidade, ficamos todos curtindo em silêncio o vento da rodovia, eles segurando seus chapéus de palha e seus bonés para que não votassem.
Viajar sem proteção em cima de um caminhão além de ser perigoso era ilegal. De repente, o cara bem vestido da cabine abriu a porta, inclinou-se para fora e gritou: “Polícia!”
Todos tivemos que nos esconder embaixo do plástico engordurado por dez minutos enquanto ouvíamos o cara conversar com os policiais. Quando o caminhão partiu, ficamos deslizando sobre a carne escorregadia por mais cinco, até ele gritar dizendo que podíamos sair novamente. De volta a parte de cima do plástico passamos a fazer parte da galera. Para se fazer ouvir tínhamos que falar alto.
“Ó xente! Cês foi assaltado? Tão pegando carona por quê?”
“Estamos viajando sem grana pelo Nordeste, vamos subir até o Ceará.”
“Ceará?! Mas esse caminhão só vai até Feira de Santana!”
“A gente tá sabendo. Vamos descer em Eunápolis e de lá vamos para Porto Seguro.”
“Ah Porto Seguro, cês são sabido, terra de visitante bacana e de mulher bonita. Nós também vamo sair antes.”
Um outro se juntou na conversa. “Nóis trabaia no frigorífico que fez essa carne seca. É fora de Vitória. Tamo voltando para casa depois de um mês.”
Um terceiro interrompeu: “Nós mora em Santa Maria do Paré, já ouviu falar?”
Respondi: “Não, nunca ouvi falar.”
“Ô Chico, esse carioca nunca ouviu falar de nossa cidade, passa a garrafa da cachaça de lá.”
A garrafa sem rótulo chegou em dois toques. “Essa cachaça é de lá, de alambique, é a mió dessa região toda.”
Um outro riu e gritou lá de trás: “Fala que é a mió do mundo!!”
O que tinha começado a falar com a gente disse: “Zeca, mostre a eles como que nóis bebe da garrafa. Num podi encostá na boca.”
As tremidas do caminhão e o vento forte faziam a manobra difícil. Depois dos três que estavam com a gente darem um gole, passaram a garrafa. “Beba aí, carioca!”
O Pedro foi primeiro e foi na manha, não caiu um pingo e ele sorriu para a galera tirando uma onda.
“Muito bem, carioca! Agora é você!”
Comigo não teve jeito, o caminhão deu uma sacolejada e a cachaça caiu fora da boca, escorreu até o pescoço e todos caíram na gargalhada.
Depois que a cana brava tinha passado pelas mãos de todos, outros se juntaram. A garrafa terminou logo mas apareceu outra. Quand a gente se deu conta ja estavamos bêbados e falando bobagem também.
“Meu irmão, essa carne seca foi a coisa mais fedida em que eu já deitei.”
“Minha mulher cheira mal assim, mas é de peixe!”
Após algumas horas subindo a BR aos solavancos e já com três garrafas de cachaça jogadas para o mato, o caminhão pegou uma estrada de terra e parou num bar no meio do nada. Todos saltamos e fomos para o balcão daquela cabana rústica. Nossos novos amigos fizeram questão de nos dar mais cachaça e nos ofereceram uma iguaria local: um órgão assado de um animal desconhecido, escuro, forte e em forma de um disco.
“Isso aí é ruela de boi, vai te curar da cachaça.” Orgulhoso por nós sentirmos nojo, continuou: “Isso é uma dilícia e aínda faz o cabra dar cinco sem tirar de dentro.”
“Isso é o saco do boi amassado, não é não? Deixa eu cheirar esse negócio.” O cheiro só não fedia mais do que a carne seca debaixo do plástico quente misturada com bafo de cachaça.
Um deles pegou o pedaço dele, entornou um gole de cachaça, arrancou uma metade, mastigou um pouco e engoliu. “É assim que a gente come, come aí!”
Nosso orgulho nos forçou a fazer o mesmo. Estávamos embriagaos demais para ficar com nojo. Quando coloquei a coisa na boca, o sabor era tão ruim que curou a bebedeira na hora.
O cara bem vestido que tinha nos avisado da polícia – provavelmente um administrador – veio nos dizer que o caminhão já estava de saída e que o motorista estava a nossa espera. Ele e a rapaziada iam ficar ali até que o ônibus deles passasse e os levasse para casa. Nos despedimos da moçada e voltamos para o caminhão.
Dessa vez fomos na cabine e descemos em Eunápolis. Agora, estávamos apenas a uma uma hora de ônibus de Porto Seguro. Chegamos lá exaustos, mas com a sensação de que tínhamos cumprido a primeira missão. Foi fácil encontrar um camping perto da praia. Depois de montar a barraca, fomos curar a cachaça e limpar o fedor na água salgada curtindo o visual de fim de dia na praia cercada de coqueiros. A noite caiu rápido, achamos um chuveiro, tomamos banho e fomos dormir um sono merecido.
Passamos o dia seguinte nos esbaldando no sol e na água azul clara do sul da Bahia, curtindo a paz pela qual estávamos ali. A noite, fomos conhecer a vida noturna de Porto Seguro. Apesar de pequena e colonial, a cidade tinha muito charme e era quase urbana. O lugar era animado. O pessoal da terra enchia seus quintais com luzes coloridas, colocava mesas e cadeiras do lado de fora, entupia as geladeiras de cerveja, ligava o som no máximo e pronto, suas casas viravam lambaterias.
A decoração e as pistas de dança pareciam com a de festas escolares, mas depois de convidar as garotas locais para dançar, logo se via que o jeito delas se esfregarem nas nossas coxas não tinha nada a ver com brincadeiras de recreio. Havia lugares mais caros e refinados abertos por pessoas que tinham se mudado das cidades grandes para lá, mas mesmo ali, não era surpresa sentir uma galinha bicar seu pé enquanto dançava.
O engraçado é que, partindo dessa origem modesta, as lambaterias logo se espalhariam pelo país e seu sucesso ecoaria até mesmo na Europa.
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por Mauro Nadvorny | 19 dez, 2020 | Brasil, Comportamento, Opinião, Política
Reações alérgicas (hipersensibilidade) como asma, reações leves a moderadas que potencialmente afetam a pele, o trato respiratório, o trato gastrintestinal e o sistema cardiovascular, com sintomas tais como erupções na pele (rash cutâneo), urticária, inchaço (edema), coceira (prurido), rinite, congestão nasal, alterações cardiorrespiratórias e, muito raramente, reações graves, como choque anafilático;
Eu não sei quem de vocês, toma remédio prescrito, ou não, por médicos. Não precisa ser nada de muito especial, nem com tarja preta, pode ser um simples remédio para dor de cabeça. Vamos pegar uma Aspirina, algo que todos estão acostumados.
Com certeza, 99% dos que estão lendo este artigo nunca leram a bula da Aspirina. Bem, o primeiro parágrafo aí em cima, apesar de muitos acharem que fosse sobre as vacinas contra o Covid-19, se refere exatamente as reações adversas que uma simples Aspirina pode causar. Eis outra: ” Comprometimento dos rins e alteração da função dos rins (insuficiência renal aguda)“.
A verdade é que a bula de qualquer remédio vai conter advertências que fariam qualquer um desistir imediatamente dele. No entanto, são eles que salvam vidas e os responsáveis por fazer com que a nossa expectativa de vida chegasse nos dias de hoje aos 100 anos.
As advertências se referem a casos que podem ser definidos como raríssimos, mas precisam constar. Os casos adversos normalmente possuem tratamento, mas as consequências de não se medicar, provavelmente não.
O mesmo se pode dizer sobre as vacinas. Foram elas que acabaram com as mais graves doenças que vitimavam milhares de seres humanos ao longo da nossa história. Muitas levando ao óbito e outras deixando sequelas por toda a existência.
Escutar nos dias de hoje, diante de uma epidemia que já vitimou cerca de 3 milhões de pessoas, que está destruindo economias, arruinando negócios e causando uma onda de pesar internacional, da boca de um presidente da nação de que não vai tomar a vacina porque ela pode “transformar” a pessoa em um Jacaré, é de virar do avesso a Terra Plana.
Tive de assistir ao vídeo mais de uma vez para me certificar de que não se tratava de uma Fake News. Na primeira vez tive certeza de que era um daqueles vídeos alterados para parecer que o presidente estava dizendo algo que não era real. Assisti mais uma vez e procurei confirmar nos portais de notícias mais conhecidos, e pqp, ele realmente disse isso com estas palavras: “Se tomar vacina e virar jacaré não tenho nada a ver com isso“.
Por alguns instantes fiquei atônico e incrédulo com tamanha bizarrice. A seguir percebi um certo sarcasmo que estava fluindo em minha mente. Talvez a fala dele cause uma seleção natural no Brasil. Dentro em breve o Covid-19 só vai poder infectar os que não se vacinarem, os que seguem esta coisa que está presidindo o país, sem nenhum questionamento. Vai ficar fácil saber quem é bolsonarista, basta o cara se infectar.
Logo me veio a lembrança de que alguns cientistas diziam de que em uma hecatombe nuclear só sobreviveriam as baratas, e eu logo imaginei que no nosso caso, vão sobreviver somente os Jacarés.
Claro que não desejo a morte de ninguém por tamanha estupidez. Nem o gado merece tal destino. Estamos diante da luz no fim do túnel. As vacinas são o nosso passaporte para retomar nossas vidas, uma chance de um novo recomeço.
Em todo lugar estamos vendo os presidentes e primeiros países dos países que estão iniciando a vacinação sendo os primeiros da fila para darem o exemplo. Algo importante que transmite confiança e que deveria ser a norma, menos no Brasil, onde o presidente se nega a tomar a vacina e faz questão de colocar dúvidas a eficácia delas.
Sua postura vai condenar milhares de brasileiros a se infectarem com muitos deles indo a óbito. É de uma ignorância desprezível. Não fosse a certeza de que é exatamente isso que vai acontecer, ficaria sendo mais uma de tantas bobagens saídas de sua boca. No entanto e para espanto geral, vai ficar por isso mesmo.
Só me resta apelar aos meus amigos: na história do Brasil recente sejam lembrados como Jacarés.