por Richard Klein | 16 jan, 2021 | Brasil, Comportamento, Crônica, Livro
Capítulo27
“...Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar.”
Dia Branco, Geraldo Azevedo
A próxima parada foi Aracajú, a capital de Sergipe. Apesar do nome bonito e de uma música inspirada do Caetano exaltando a cidade, o lugar não desceu bem. Chegamos a noite e de cara pareceu uma cidadezinha de interior sem charme com ruas desertas e quase sem comércio. Sabiamos onde queriamos ir: praia da Coroa do Meio, um bairro de classe media alta com uma praia legal indicada por um amigo de Salvador. Nos sentindo como astronautas num planeta estranho, saimos perguntando como chegar lá e nos deparamos com um povo reservado que nos via como extra terrestres certamente por causa do ar largado, das roupas mal tratadas e das mochilas.
Conseguimos finalmente chegar no nosso destino mais sem graça do que o esperado. A única coisa que curtimos era que dava para acampar na praia deserta. Quando armamos a barraca já era por volta das nove e meia. Olhamos em volta e vimos que apesar da discreta elegância da vizinhança tudo parecia fechado. Apesar disso, a fome nos fez esquecer o risco de deixar as tralhas ali e saimos à cata de um lugar aberto. Depois de uns dez minutos achamos um bar aberto. Ele era de frente para a praia e parecia ser movimentado durante o dia, mas parecia vazio. Subimos para a esplanada e um garçom de uniforme sujo nos recebeu e nos conduziu a uma mesa. Tlavex para nos agradar, ele nos colocou ao lado da única outra mesa ocupada, a de duas beldades que pareciam de fora. Elas sorriram e começamos a papear. Elas eram paulistas pertencentes ao “público alvo” de Pedro: trinta e poucos anos, cultas, bem de vida e interessadas em espiritualidade oriental. Depois que a comida e as cervejas vieram, tentando disfarcar a fome entre garfadas e goles de cerveja, descobrimos que uma delas levava o Rajneesh tão a sério que tinha gasto uma pequena fortuna para passar uma temporada no seu Ashram no Oregon. Contamos o que estavamos fazendo ali e conquistamos a sua simpatia Uma delas se engraçou tanto com o Pedro que depois de pagarmos a conta, partiu com ele para a barraca a fim de aprender seu “caminho para a sabedoria”. Naquela altura, já havia me acostumado a ver ele se dando bem e levava minha desgraça com bom humor.
Embora a outra também fosse atraente, não rolou química nenhuma. Isso não impediu que fossemos para um passeio pela praia onde matamos uma ponta generosa que tinha guardado. Depois de um papo desconfortavel e seco, voltamos para o bar onde ela decidiu manter seu “eu interior” para si mesma e retornou ao hotel.
Sozinho naquela noite menos que interessante de Aracajú fiquei esperando que liberassem a barraca. Do nada, como num filme surrealista, apareceu um grupo de lésbicas bêbadas que saiu debochando do garçom, falando um monte de besteiras e rindo alto na maior sarração e beijação. Certamente eram as únicas mulheres abertamente homossexuais no estado inteiro.
No meio da confusão apareceu um cara local de visual esquisito que sentou-se na mesa ao lado, colocou os pés em outra cadeira e saiu puxando conversa.
“Caralho, meu irmão! Fumei uma maconha boa pra caralho! tô viajando legal!” Ele virou para mim e perguntou. “E você? tá doidão também?”
Aquilo foi estranho. Tudo me dizia que o sujeito não estava chapado coisa nenhuma. O bigode mexicano, os sapatos brilhantes e a camisa engomada para dentro da calça me diziam que pertencíamos a tribos diferentes. “Não, tô legal aqui, curtindo a noite.”
“Porra! Eu quero ficar mais doidão ainda! Apresenta aê um do bom para a gente fumar!”
“Desculpa, mas não fumo essa coisa.” Pela reação quase hostil, deu para ver que ali tinha problema.
“Porra, cara! Senti que tu tem! Vai enrustir?” e deu uma risada forçada.
Eu já tinha desmascarado o cara, mas se era para jogar seu joguinho resolvi sacanear. “Chapado como? Tipo um ferro quente? Não estou entendendo.”
O cara insistiu. “Você é carioca, não é? Tou doido para experimentar a de lá, aperta um para a gente!”
“Sou do Espirito Santo, amigo! Apertar o quê? Tem alguma coisa frouxa nessa mesa?” Dei uma balançada nela. “Não… Ela está firme. Não estou entendendo.”
A conversa continuou até o cara resolver sair sem perder a pose. “Não vai apresentar, né brother? Tá bom, vou nessa. ” Ele tirou o pé da mesa, ajeitou o cinto, arrumou a camisa e desceu do platô piscando para mim e mandando um sinal de legal.
Depois que foi embora, o garçom veio falar comigo. “O senhor fez muito bem em não dar trela para aquele sujeito. Ele é capitão da polícia. Tava doido para morder uma grana do senhor.”
“Eu percebi na hora. Obrigado.” Deu vontade de perguntar porque ele não tinha me avisado logo. Agora era fácil. De qualquer forma continuei no bar, tentando me certificar que o policial tinha desaparecido. Lá pelas tantas, o Pedro apareceu para me dizer que ia dormir no hotel.
“Porra, Richard! Como é que tu não ficou com a outra? Tu não viu que ela tava dando mole?”
Sem saber se ele estava me sacaneando ou não, respondi: “Tu não sabe que sou uma merda nisso?”
Ele deu uma risada. “A minha falou que ela tinha gostado de você, mas que você nao fez nada. Meu irmão, tu paga para vacilar!”
Depois que sairam felizes da vida fui para dar uma volta na beira do mar e fiquei pensando naquilo. Quando desencanei, talvez por estar relaxado de novo, a chapação voltou com o vento noturno. Depois de um tempo, tomei corajem e voltei para a barraca ainda receoso que o cara do bar fosse lá me acordar no meio da noite para me levar. Quando entrei, deitei deixei a porta da barraca aberta para ficar apreciando a noite gostosa la fora. Com a visão das ondas quebrando no escuro, seu barulho e a tranquilidade em volta, bateu uma paz ímpar. Talvez se não existessem humanos naquele lugar e aquelas casas sem-graça, Aracajú seria um lugar gostoso. Fiquei pensando na paulista, se ela tinha me dado mole ou não, e quando e se curtiria transar com uma mulher mais velha. Com aquilo rodando na cabeça acabei pegando no sono e dormi bem.
No dia seguinte, o Pedro veio me acordar cedo. Apesar do dia sem uma nuvem no céu, o sofrimento continuou: a praia era terrível, as pessoas eram feias e a comida incomível. Era hora de voltar para a estrada.
*
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por Mauro Nadvorny | 16 jan, 2021 | Brasil, Comportamento, Opinião, Política
Não há como não ficar horrorizado diante do que acontece em Manaus. Da mesma forma, sejamos honestos, diante de um país sem governo, fatos como este não são mais uma surpresa. O que sim surpreende a mim e ao mundo é como o brasileiro ainda se permite um presidente como este.
Está mais do que claro a regressão econômica, trabalhista, ética e moral do país. Voltamos ao mapa da fome! Indústrias estão abandonando o país depois de todos os benefícios que usufruíram por anos sem pestanejar. Brasileiros são motivo de piada mundo afora.
Qualquer cidadão sabe quando está acabando seus mantimentos, ou qualquer outro item de primeira necessidade que precisa ser reposto antes que termine de vez. Da mesma maneira, qualquer estoquista sabe quando estão finalizando itens importantes para manter a fábrica em funcionamento. Programas de computador avisam com antecedência os hospitais da necessidade de adquirir suprimentos que vão findar com muita antecedência.
O oxigênio que falta em Manaus é a consequência nefasta de um sistema que não se importa com a vida. De um país sem gerenciamento de crise, que contrariando o mundo inteiro distribui vermífugos como tratamento preventivo ao Covid-19. Seria motivo de riso, não fosse responsável por milhares de mortes de cidadãos convencidos de que haviam se tornado imunes ao vírus.
Um avião da Azul foi preparado para buscar dois milhões de doses de vacinas na Índia. Esqueceram de combinar com o governo indiano a disponibilidade delas. Como é que um país que está começando a hercúlea tarefa de vacinar 1,4 bilhão de pessoas vai se permitir enviar para fora as vacinas que necessita para salvar a sua população?
Resta aos brasileiros as vacinas que estão sendo produzidas pelo Butantan. Será uma briga de foice para quem irá receber primeiro. O governo federal sem outra solução já exige que sejam suas, enquanto o governo de São Paulo diz que são eles quem tem direito. Obvio que o caso vai parar na justiça, como é óbvio a falta total de planejamento que deixou o Brasil sem suprimento de vacinas.
O país se tornou terra arrasada. Primeiro negaram o vírus, agora negam a vacina. Enquanto mais de mil mortes ocorrem ao dia, vermicidas inundam as redes sociais com suas teorias conspiratórias. Uma presidente foi derrubada com a desculpa de pedaladas fiscais que se provaram inexistentes. Um genocida permanece na presidência com toda sua inépcia e verborreia exposta diariamente nas mídias.
Apontar este governo como fascista, nazista, ou ambos é pouco. Eles sequer têm a capacidade de compreenderem o que estas ideologias significam. Dizer que são conservadores, neoliberais é atribuir a eles uma inteligência que não possuem. Considerá-los milicianos é admitir que possuam alguma forma de organização, que sabemos, não existe. Este governo é o nada, é um buraco negro. É morte e destruição.
A Manaus de hoje é o retrato do Brasil de amanhã. Junto com cada amazonense estão sendo enterrados os valores de um Brasil que não existe mais. Em cada cova jaz agora a solidariedade, o pleno emprego, a plena educação, a segurança, a alegria do povo e a fartura. Na porta do cemitério uma placa com a frase: “Aqui está enterrado o Futuro”.
Bons tempos em o maior crime que se poderia atribuir a um político era se locupletar roubando os cofres públicos. Quando eles apenas tiravam o dinheiro destinado de obras e ações sociais para si mesmos. Hoje eles roubam o dinheiro destinado a salvar vidas. Se não fosse suficiente, dão sustentação ao genocida que retribui com cargos para que continuem desfrutando das benesses dos amigos do poder. Uma mão lavando a outra e o tão sonhado Impeachment se tornando a cada dia mais distante de acontecer.
Se o povo não se rebelar, não levantar sua voz, não exigir a mudança, as coisas vão continuar piorando cada vez mais. Faltando dois anos para as próximas eleições, o que vai restar do país? Eu mesmo respondo, nada. Nada do que fomos um dia. O Brasil daqui a dois anos pode ser qualquer coisa, menos o Brasil onde nasci.
Indigne-se, direcione sua indignação para organizar formas de pressionar o Congresso pelo Impeachment. Exija dos congressistas que ainda possuem um pingo de patriotismo, que comecem o processo imediatamente, não percam mais tempo. Não permita que na próxima vala seja enterrada também a esperança.
por Mauro Nadvorny | 11 jan, 2021 | Brasil, Mundo, Opinião, Política
Entre momentos de insônia e pesadelos, eu e mais alguns bilhões de pessoas pelo mundo vivemos horas de extrema tensão na noite de quarta, 6, para quinta-feira, 7 de janeiro de 2021. No meu devaneio, em primeiro plano, as imagens do Capitólio, em Washington, desfilavam a uma velocidade estonteante, sobrepondo-se umas às outras, para desembocar nos porões da ditadura civil-militar brasileira, onde as cenas de tortura deixaram Vlado e tantos outros sem vida.
Pela manhã, sonado, soube da morte de quatro pessoas na invasão do Congresso americano. Dois dias depois, somadas à de um policial. Que insanidade!
Por que milhares, senão milhões de pessoas, seguem cegamente um maluco capaz de por fogo no circo, sem perceber que este nunca olhou para além de seu próprio umbigo?
Trump, o homem dos cabelos platinados, não enterrou a democracia americana, mas ao apagar as luzes de seu mandato mostrou quão frágil ela é. Aquela democracia liberal, que muitos acreditavam capaz de superar todos os obstáculos graças à força de suas instituições, mostrou ser um gigante de pés de barro.
A invasão do seu símbolo máximo, o Congresso, se deu aos olhos do planeta, estarrecido, deixando gravada a imagem de um policial correndo pelas escadarias para fugir dos extremistas alucinados, sob ordens do fascista mor, que talvez acreditasse estar ali revertendo uma fraude que nunca existiu.
O mundo reagiu, se indignou, se deu conta de que, como disse George Walker Bush (aquele que inventou armas de destruição em massa para justificar o capítulo 2 da guerra do Iraque), os Estados Unidos tinham se transformado numa república de bananas.
Os chefes de Estado e de Governo se manifestaram contra aqueles atos de suicídio político. Todos denunciaram, salvo um, o amigo capitão, que revelou sua fidelidade ao amor descoberto tardiamente. Lembram-se do I love you?
Em se tratando do presidente brasileiro, nunca se sabe se agiu “só” porque é louco, ignorante, fascista, ou se foi também por estratégia política. Com ele, tudo se mistura. Não há dúvida de que foi tudo ao mesmo tempo.
Logo após o episódio do Capitólio, o ocupante do Alvorada veio à público ameaçar a idoneidade das presidenciais de 2022. Disse que se o voto eletrônico for mantido, o Brasil viverá cenas ainda piores que as vistas em Washington. Em termos de sofisma foi um golpe de mestre. Bolsonaro sempre criticou o sistema eleitoral, alegando a possibilidade de fraude, muito embora todos os especialistas o considerem muito mais seguro que as cédulas. Se ele não for reeleito, como esperam todos os democratas, alegará manipulação de hackers a serviço dos comunistas. Se vingar o voto em papel, a fraude será maciça (do seu próprio campo) e ele terá razões de sobra para reclamar a nulidade do voto.
Portanto, sairá vencedor dessa batalha.
O x da questão é que o Brasil não é os Estados Unidos, nossas instituições são muito mais frágeis que as norte-americanas, sem falar das forças armadas, que servem a Constituição.
Vale aqui citar a atitude do chefe do Estado Maior das Forças Armadas dos Estados Unidos, Mark Milley, que pediu desculpas públicas por ter participado de uma encenação polêmica do presidente Donald Trump, ocorrida no dia 1º de junho de 2020. “Eu não devia estar lá; disse o general. Minha presença naquele momento e por todo o ambiente criado deram uma percepção de que os militares estavam envolvidos em política doméstica.”
Milley, pediu desculpas por participar de uma caminhada, ao lado do presidente Donald Trump, da Casa Branca até a Praça Lafayette, onde o republicano tirou uma foto com a Bíblia em frente a uma igreja que tinha sido danificada por manifestantes durante atos antirracismo pela morte de George Floyd, asfixiado por um policial branco, em Minneapolis.
Essa atitude mostrou que as forças armadas americanas pouco têm a ver com as brasileiras.
Atualmente, mais de 3 mil militares ocupam cargos no primeiro, segundo e terceiro escalões do governo, em lugar de pessoas muito mais qualificadas para as funções. Na verdade o Brasil é governado por uma comunidade civil-militar, exatamente como durante os anos negros da ditadura.
A liderança das nossas forças armadas, quando questionada, afirma que os militares respeitam e respeitarão a Constituição. Resposta vista como a garantia de que não teremos um golpe militar. No entanto, em nenhum momento, foi dito que as forças armadas intervirão para evitar um eventual putsch. O militares se negam a falar sobre o assunto.
Além disso é útil lembrar que o capitão tem em mãos o controle de fato da Polícia Militar em vários Estados, da Polícia Federal, das forças armadas, dependentes do Ministério da Defesa, dos militares de pijama e da ativa membros do governo (que não vão querer perder a mamata), dos Serviços de Informação e dos milicianos próximos do 01, 02 e 03.
Isso para dizer que Bolsonaro, caso perca a eleição, apelará para as acusações de fraude e chamará para as ruas os seus torcedores fanatizados, que por muito menos já quiseram invadir o Congresso. Ao contrário de Trump no entanto, estará em situação de força para tentar o golpe. Não tenho dúvidas de que fará o impossível para permanecer na presidência. A roupa de ditador lhe cai como uma luva. Caso não consiga, irá negociar a anistia para todos os crimes que ele, sua família e acólitos cometeram.
A estratégia está montada ou, melhor dizendo, já está em andamento. Definitivamente, Jair Messias Bolsonaro não é apenas um louco, um ignorante, um fascista. É também um estrategista do mal.
por Richard Klein | 9 jan, 2021 | Brasil, Comportamento
Nas praias de Salvador, assim como nas das outras cidades por onde passariamos no Nordeste, haviam figuras há muito desaparecidas nas do Rio: vendedores de caranguejos carregando pencas deles ainda vivos e amarrados a um pedaço de pau, vendedores de queijo coalho derretido na hora, carroças oferecendo sorvete caseiro, vendedores de abacaxi, além das tradicionais baianas vendendo acarajé e outras delícias locais. Separando a linha da costa dos intermináveis calçadões, uma infinidade de quiosques de madeira cobertos de palha vendiam cerveja, água de coco e iguarias da cozinha baiana preparadas com frutos do mar da área. Nas praias afastadas, assim como no Posto seis de Copacabana, ainda havia pescadores com suas redes e barcos de madeira remanescentes de um passado em que a elite sequer sonhava em expor suas peles brancas ao sol e, Deus o livre, pegar um bronze.
Como no Rio, a praia era o coração do verão. Na segunda visita a Salvador já conhecia as praias certas. As melhores, Piatã e Itapuã eram distantes. Até fomos lá uma ou duas vezes mas a viagem de õnibus era longa e desconfortável. Por isso, adotamos o Porto da Barra que ficava do lado de onde estávamos dormindo. Ela tinha um clima parevido com o do Posto Nove em Ipanema. Localizada um pouco antes da saída da Baía de Todos os Santos, apesar de não ser oceânica as correntes se encarregavam de deixar o mar limpo. Sua água calma e morna era uma delícia e o grande número de pequenos barcos de pesca ancorados em frente davam um charme único ao lugar. Podíamos nadar até eles, pular para dentro e desfutar o luxo de relaxar flutuando sob o sol escaldante.
A hora certa para se chegar era depois do almoço, a hora certa de sair de sair era bem depois do pôr do sol, que volta e meia iamos ver atrás do Farol. Igual ao Posto Nove, aquela praia atraía a moçada em busca curtição, música, amigos novos e interessantes e, é claro, sexo. Talvez até amor. Nao demorou muito para Pedro e eu começarmos a conhecer o pessoal da terra. Em Salvador, como em todo o Nordeste, a rapaziada gostava de ser vista com pessoas de fora e convites para festas eram frequentes e sempre bem-vindos.
“Hoje à noite vai ter um som porreta na casa de Capilé. O lugar é massa; um casarão antigo na Ribeira. Apareçam lá! Peguem o endereço.”
As festas eram sempre excelentes, com baseados circulando em todos os cômodos, gente jovem e bonita de todas as cores, muito riso e muito charme. Sendo os baianos poetas natos, havia muitas discussões coloridas e acaloradas acerca de cultura, musica, política e filosofia. Havia também o atrativo, quase inconfessável, de oferecerem comida e bebida de graça e de não se importarem com gente passando a noite e dormindo nos cantos. Teve uma festa que a gente foi que durou o fim de semana inteiro.
Se você não tivesse a sorte de estar transando no banheiro – quando o Pedro sumia já sabia onde ele estava – o melhor lugar era a cozinha, onde os convidados compartilhavam a animação com o dono da casa. Havia sempre um quarto ou uma varanda com pessoas reuniadas em torno de um violonista de talento. A qualidade é a quantidade deles era impressionante. Nunca consegui entender como nunca alcançariam sucesso enquanto tantas bandas ruins estourariam no Rio e São Paulo nos anos 1980.
Às vezes, também tocava, mas logo percebi que para causar uma boa impressão em Salvador, tinha que me ater ao rock que ninguém se sentia à vontade para tocar por ser fácil demais. Um local passaria vergonha depois de alguém tocar suas próprias músicas ou de exalar talento interpretando uma de Caetano Veloso, Gilberto Gil e dos Novos Baianos. Só que como nunca conseguiria competir com o que faziam de melhor, descobri que um carioca tocando rock ou reggae era uma novidade bem-vinda, principalmente se cantasse em inglês. Eu conseguia impressionar com Bob Marley, Jimi Hendrix, Pink Floyd e Rolling Stones, algo que muitos nunca tinham ouvido tocado em inglês “legitimo”.
*
A farra, a praia, conhecer pessoas novas, tocar violão e tentar – e, às vezes, conseguir – transar eram apenas um lado da nossa aventura de verão. Nosso meio de transporte, as caronas, eram um dos pontos altos da nossa turnê Nordestina. A rotina para pegá-las era sempre a mesma: chegar de ônibus até um posto de gasolina na rodovia e lá ir de caminhão em caminhão pedindo uma carona para nosso próximo destino. Muitos dos motoristas mandavam a gente ir embora na hora, mas alguns até apreciavam nossa companhia inofensiva e, talvez, interessante.
A malha ferroviária brasileira é quase inexistente e apesar de 80% da população do país viver perto ou junto à costa, ninguém parece ter tido a ideia de transportar mercadorias por navio. Pelo contrário, quase todo o transporte entre as vastas distâncias é feito por estradas, motivo pelo qual havia um exército de motoristas de caminhão. Como qualquer outra categoria de trabalhadores, eram explorados, dormindo muito pouco e viajando dias a fio pelas estradas malconservadas do país. Faziam isso correndo o risco de serem vítimas de assaltantes e de policiais corruptos. Mesmo assim, os caminhoneiros que conhecemos eram pessoas espetaculares que possuíam sua própria cultura e um forte senso de camaradagem. Eles conheciam todas as curvas, saliências e buracos à frente, bem como os bons e maus lugares em termos de segurança, comida, diversão e mulheres. Todos tinham grandes histórias para contar e as famosas namoradas, ou até mesmo famílias, em cada parada.
Na maioria das vezes, íamos com o camioneiro na cabine. Normalmente havia uma cama de bom tamanho atrás do banco onde podíamos nos revezar para um cochilo. Outras vezes tínhamos que ir na carroceria, vivendo a liberdade mágica da BR trazida pelo ar livre, pelo céu aberto, pelos barulhos e pelo vento. À noite, viamos os faróis passando voados, as cidades na distância e as estrelas cadentes sobre montanhas enluaradas. Durante o dia, o sol forte trazia o cheiro doce da cana-de-açúcar que vinha das plantações ao lado da estrada.
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por Mauro Nadvorny | 3 jan, 2021 | Brasil, Imprensa, Opinião
No Jornal da Cultura de ontem (1/1/2021) o jornalista Leonardo Sakamoto, ao tentar desenvolver o tema do descontentamento de setores da sociedade com a imprensa na medida em que esta faz “oposição” (aspas propositais) aos diferentes governos, incomodando assim os partidários de governos a, b ou c. Para tentar clarificar, usou a máxima de Millôr Fernandes, cuja postura em relação ao papel da imprensa era de absoluta intolerância com a imprensa que não se dispusesse a priori ao papel de oposição. “Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”, dizia o respeitável mestre, que nesta equação estabelece um ponto no qual não me resta opção senão a da oposição que ele tanto pede, no caso, completamente distópica, pois não sou jornalista nem imprensa.
Não. Não concordo que é papel primário da imprensa o de se opor ao que quer que seja. Tenho o claro entendimento que a função de análise crítica é completamente diferente da crítica sem análise, e mais diferente ainda daquela postura que muda a sua escala de valores de acordo com a oportunidade. Se consigo imaginar – nos meus ideais – uma função social da imprensa, esta que jamais foi definida com limites precisos por qualquer código, até por que a limitação precisa desta função já criaria por si paradoxos insuperáveis, vejo nela uma atividade social que pretende trazer ao seu consumidor informação e condições de formação de opinião através do confronto entre os inúmeros elementos factuais de uma dada narrativa com um conjunto de valores minimamente estáveis, ainda que sempre insuficientes para que se vislumbre isenção plena, mas cuja uniformidade permita que pelo menos se vislumbre uma vontade de isenção.
Assim, como tentou fazer Sakamoto sobre o ombro de Millôr, comparar o tipo de oposição que a imprensa fez aos governos populares de 2003-2016 com o tipo de oposição que faz ao governo atual, corremos o sério risco de validar toda a formulação que estruturou o golpe contra a democracia que culminou no estado de coisas atual. Se sequer imaginarmos que o conjunto de valores utilizado contra os governos populares é o mesmo do qual se utiliza agora para combater um governo ignorante, obscurantista, violento e autoritário, estaremos incorrendo em sérios sofismas.
Para tanto, vamos examinar um caso, o do historiador (e tido como jornalista) Marco Antônio Villa, que talvez condense na sua atuação de forma bem didática os elementos que quero trazer ao debate. Villa exerceu crítica cáustica aos governos populares fazendo acusações gravíssimas e sem provas, especialmente ao Presidente Lula, a quem se dirigia como “o bandido de São Bernardo”, “chefe da maior quadrilha que já houve no Brasil”, usando e abusando de sua titulação acadêmica para arrebanhar seguidores como provocador corajoso e polêmico, o que certamente encorajou tantos outros ao mesmo comportamento ou pior. O problema é que Bolsonaro “nasceu” muito antes de Lula, e toda a sua atuação na vida pública (juntamente aos seus filhos) pautou-se, até o quanto se sabe no momento, por atitudes, vontades e atividades que rebaixariam o seu alvo predileto à condição de amador desorientado. Status hierárquico que jamais foi reavaliado pelo respectivo autor.
Engrossando o caldo de Villa com as grandes corporações como Estadão, Globo, Veja, Folha, Jovem Pan, Isto É, entre outros, vemos hoje todas essas mídias cumprindo as metas de Millôr Fernandes não mais baseados nos valores pretendidos por Millôr (que aqui contesto) mas sim em um ato de desespero pela preservação de uma democracia que eles em conjunto contribuíram para destruir.
Bingo. Se analisarmos friamente os fatos, não é difícil concluir que sob o pretexto de se praticar uma oposição a priori a grande imprensa e seus atores causaram um imenso prejuízo à sociedade. E não poderia ser diferente. Se como imprensa eu assumo um papel primário de oposição, certamente só poderei fazer isso com um imenso poder de censura sobre os dados da realidade, condensando no meus discursos os pontos negativos de um determinado governo e omitindo sistematicamente tudo – ou quase tudo – o que poderia ser usado ao seu favor. É este o papel da imprensa? Penso que não, pois no meu entendimento isto não tem como dar certo pelas simples razões aqui apresentadas.
Tudo isso não exime o dever de uma imprensa responsável de fazer sim oposição uma vez que identifique ações de governos que atentem contra uma escala de valores compartilhada entre o conjunto da sociedade, explícitos (como por exemplo no texto constitucional), e os elementos éticos da boa prática jornalística, igualmente explícitos ou não.
Se em algum momento nossa grande imprensa, sob uma suposta defesa de Sakamoto, fez o que fez em tributo a Millôr Fernandes, não fez mais do que contribuir para a sua degradação, reforçada ainda por uma exigência de “autocrítica” por parte do PT, esta que nas questões mais fundamentais não é exigida sob os mesmos pesos e medidas de quem se arroga a este direito.
Por fim, ressalto que minha visão aqui é a de consumidor e cidadão, visão esta pessoal, não se tratando, de forma alguma de intromissão em seara alheia e que de forma nenhuma tem a pretensão de ser impositiva, deixando as questões aqui tratadas abertas ao debate, mas deixando explícita minha frustração pessoal com a visão de Sakamoto exposta em seu comentário no Jornal da Cultura.
por Mauro Nadvorny | 2 jan, 2021 | Brasil, Comportamento, Opinião, Política
Algumas notícias para começar o ano:
- A Argentina (aquele país odioso e primitivo que tem Oscar, tem Papa, tem Nobel, tem imposto sobre grandes fortunas, e teve Maradona) agora tem aborto legal. O monstro desqualificado que outros 57 milhões de desqualificados colocaram no poder, neste paraíso chamado Brasil, criticou a medida, sob o surrado argumento de ser a favor da vida. Diz apiedar-se dos embriões. Trata-se da mesma pessoa que, no ano recém findo, não apenas causou a morte, por ação e omissão, de dezenas de milhares de brasileiros, como debochou acintosamente delas (as mortes e as pessoas) e das famílias enlutadas.
- O jornal O Estado de São Paulo, cúmplice proativo, explícito e protagonista, dos desmandos, ilegalidades e arbitrariedades que atiraram o país ao abismo em que está metido, começa seu editorial de hoje, 01/01/2021, dizendo que os brasileiros contam as horas para o final do governo Bolsonaro, tido pelo centenário periódico conservador como, de longe, o pior da história do Brasil.
- O nosso Ministério da Saúde, liderado pelo maior especialista em logística do mundo, atravessou o ano da maior tragédia sanitária global, em um século, mais perdido do que cego em tiroteio. É o mais atrasado do planeta. Não sabe qual vacina utilizará, não se sabe quando vai possuir alguma, e, muito embora disponha da mais completa, sofisticada e experiente infraestrutura de vacinação do mundo, não tem a menor ideia de como imunizará nossa população contra o vírus. Deixou vencerem, sem utilizar, vários milhões de testes diagnósticos de COVID-19, arma sabidamente eficaz no manejo da pandemia. Fármaco e dinheiro foram pro lixo. Para não deixar cair a peteca, e fechar o ano com chave de outro, fracassou miseravelmente na tentativa de simples compra de seringas. O pregão, destinado a adquirir 330 milhões delas, não comprou sequer 10 milhões. Não dá nem pra vacinar a população da cidade de São Paulo.
Estou tentando heroica e estoicamente encontrar palavras com as quais possa construir uma reflexão minimamente coerente em relação ao contexto capaz de gerar semelhantes fatos. Deixo ao(à) eventual leitor(a) a tarefa de, se quiser, também pensar sobre o respectivo significado e os desdobramentos, tanto independentes, de cada um deles, como do conjunto interconectado.
Confesso que pra mim está muito difícil. Chegamos a um ponto em que a barbárie foi naturalizada de tal forma que desconfio que se um brasileiro comum se deparar com um cão de duas cabeças e seis patas, na rua, não vai achar nada de mais.
Afinal, pouco se lhe importa a hipocrisia demagógica de um presidente que, ao tempo em que mata diariamente milhares de pessoas, vem a público, movido pela conveniência política mais abjeta, afirmar-se a favor da vida.
Tampouco se apercebe, nosso prezado concidadão, da manipulação canalha a que é submetido pela mídia oligárquica todo santo dia. Culpado direto, doloso e premeditado da própria existência de Bolsonaro, o Estadão agora, ao condená-lo, adota o tom de um terceiro desinteressado. No que, aliás, não é nenhuma exceção.
Igualmente, não faz cócegas intelectuais ao brasileiro comum a inépcia colossal justamente das autoridades mais importantes no dia de hoje, para o destino da sua vida e da dos seus. Lé é lé, cré é cré, e tudo bem.
Lembro-me com impressionante nitidez do terror que me tomou de assalto no momento exato em que soube da eleição de Donald Trump.
Aquilo era simplesmente inconcebível. Como podia ser? Uma caricatura de ser humano, cuja simples figura era um atentado civilizatório, iria liderar o mundo? Como poderíamos ser tão imbecis, tão irresponsáveis, tão inconsequentes? Qual destino nos aguardava?
A mesma sensação, agora multiplicada ao infinito (seja porque dizia respeito direto ao meu dia-a-dia como brasileiro, seja porque a repetição poderia indicar uma tendência), sobreveio na proclamação da vitória de Bolsonaro, este uma caricatura daquela caricatura. Uma perplexidade sem limite, sem medida, sem explicação.
Felizmente estamos prestes a nos livrar do primeiro, muito embora não tenha decepcionado no que tange aos estragos que causou, cujos efeitos custarão gerações para serem amenizados.
O segundo, porém, ainda está aí. E tampouco decepciona. Ao contrário. Não apenas concretiza todo o horror que previmos (nós, os milhões que não o elegemos), como se esmera todos os minutos de todas as horas de todos os dias em piorá-lo ao limite do intolerável.
Nós, os milhões que não elegemos esse monstro, sabíamos que ele o era. O que, diga-se, não constitui nenhum mérito, porque ele jamais teve a menor preocupação em esconder ou mesmo disfarçar a sua monstruosidade. Ao contrário, ostentou-a sempre com o orgulho de um sociopata ordinário.
É preciso admitir, porém, que nem o mais realista, ou o mais pessimista, poderia imaginar que chegaríamos tão fundo, sob o nariz apalermado de um povo incapaz de qualquer reação.
E assim aporto à única reflexão que me é possível.
O Brasil carece de pessoas de caráter em posições decisórias.
A serpente que hoje o devora não é fruto de geração espontânea ou de maldição divina. Ela nasceu de um ovo que foi posto, gestado e chocado à vista de todos.
E que poderia ter sido aniquilado em todas as suas etapas evolutivas, antes de dar o mal puro à luz.
À História caberá, com o necessário distanciamento temporal, compreender e explicar as razões pelas quais não o foi.
Arrisco, entretanto, algumas hipóteses.
O povo brasileiro, manipulado, enganado, cegado e manietado pelas elites e seus fantoches midiáticos, foi reduzido a uma patética impotência, ou tangido à destruição de moinhos de vento.
Os políticos de todo o espectro ideológico jamais foram capazes de dar uma resposta minimamente digna porque jamais tiveram a decência de olhar um centímetro além de seus próprios umbigos.
Restavam os juízes. Alguns analistas, escorados nos precedentes históricos, nunca apostaram neles um níquel furado; outros eram menos céticos.
A meu ver, a História, essa dama implacável, dará razão aos primeiros.
Todos os olhos conscientes deste país viram quando a elite, pela enésima vez, colocou as mangas de fora para abortar um incipiente e insignificante processo de equalização da cidadania brasileira.
Impune, sentiu-se encorajada para levá-lo adiante, nas barbas passivas dos que podiam evitar.
Nem nós nem a História esqueceremos que os Ministros do STF ficaram desgostosos quando Dilma lhes negou indecente aumento salarial.
Tampouco esqueceremos que, mesmo instados a agir, pelos meios próprios, eles ficaram inertes diante do boicote liderado por Eduardo Cunha nas pautas-bomba do Congresso.
O Brasil jamais deixará de sentir o impacto que sofreu quando os representantes da mais putrefata dessa elite escancararam a cumplicidade dos ministros da Suprema Corte no acordo espúrio “com Supremo com tudo” para atirar as instituições – e com elas, a democracia – no esgoto.
Nós cobraremos, em algum momento, a comprovação desse processo escabroso pela omissão criminosa do STF em decidir que não havia crime de responsabilidade a embasar o impeachment. O processo é político, mas a base que o sustenta é jurídica.
O judiciário é – ou deveria ser – o último refúgio da cidadania. Ela a ele acorre quando tudo o mais não a socorreu.
Os juízes do STF tinham nas mãos, naquele momento, o destino do Brasil. Mas lavaram-nas.
Tinham o poder, e mais, o dever, de impedir o conluio, a trama, o golpe. O crime de responsabilidade, único evento capaz de gerar o impedimento de um presidente da república, está definido na Constituição. É, portanto, uma figura jurídica, cuja existência no caso concreto depende de exame e interpretação. Ambos cabem, privativamente, ao Supremo Tribunal Federal.
Entretanto, provocado inúmeras vezes, ele nunca o fez. Jamais se pronunciou se crime houve, tal como previsto, ou não. Omitiu-se. Tinha poder de mudar a História, e não o fez. Abriu mão desse poder, em nome de interesses menores e mesquinhos.
Tiraram o corpo fora. E ali selaram nossos destinos. O ovo da serpente, ainda frágil, estava exposto a céu aberto. Quem poderia destruí-lo esquivou-se. Permitiu que fosse chocado. Como a boa e velha História não se cansa de ensinar, sempre se sabe quando e como um golpe contra o Estado de Direito começa, mas nunca quando ou como termina. Hoje, diante do caos que provocaram, tratam do assunto como se não tivessem nada com isso.
Já nem falo das lavajatos da vida, conduzidas num nível primário por notórios fraudadores, obscurantistas, fundamentalistas e retrógrados adoradores da barbárie.
Porém não poderemos, nós e a História, esquecer-nos de que também tais aberrações só puderam florescer e adquirir peso capaz de influir nos destinos da Nação, à sombra das mesmas omissões de quem deveria coibi-las.
Afinal, se a presidência da república é tão frágil que pode ser mortalmente ferida por quase nada, ao sabor de conveniências de ocasião, qual o problema de fraudar uma eleição através de lawfare, para ali colocar um “amigo” e impedir o acesso a um inimigo?
Tanto problema não há, que foi feito despreocupadamente. E com absoluto sucesso.
Mas nem mesmo a consumação do dano formidável foi capaz de sacudir a letargia. Na semana que vem completar-se-ão nada menos do que 19 meses da vinda à luz, através do site The Intercept Brasil, daquela que é possivelmente a maior e mais grave fraude judiciária da história mundial, e até agora não houve absolutamente nenhuma consequência.
Alguns Ministros do STF até se escandalizaram e deram declarações contundentes reconhecendo a falcatrua jurídica. O mais notável foi Gilmar Mendes, que, entre muitas outras coisas, cunhou a expressão irônica “Direito Penal de Curitiba”, e invocou o Espírito Santo para que, se não pudesse fornecer aos Ministros um pouco de senso de justiça, que ao menos lhes preservasse o senso de ridículo.
Mas mesmo assim…nada. A escancarada e escandalosa parcialidade do julgador em inúmeros casos ainda não foi sequer apreciada. Nem um único dos processos viciados pelo conúbio criminoso entre juiz e procuradores foi anulado. Periga de tudo simplesmente cair no esquecimento.
Moro continua sem sofrer uma punição sequer. Ao contrário, leve e fagueiro, acaba de subir na vida. Dallagnol, idem.
E lá se vão dezenove meses. Dezenove!
Não nos enganemos, portanto. Enquanto povo, temos culpa, sim. A pequenez e o mau caráter de nossa classe política, também.
Mas não olvidemos os Ministros do Supremo Tribunal Federal. Eles, como ninguém, tiveram o destino do Brasil na mão, e o jogaram aos lobos.
A História, Excelências, esconde-se logo ali, dobrando a esquina, e está de olho em vocês. Ela sabe o que vocês fizeram no verão passado.