por Richard Klein | 7 fev, 2021 | Brasil, Conto, Opinião
Se os primos da Francesca suspeitavam que éramos gay, assim que o tio do Pedro botou o olho na gente, ele teve certeza. Depois que sua esposa nos mostrou o quarto com cama de casal de cara fechada, a hostilidade ficou clara quando nosso anfitrião jogou a comida no meu prato ao invés de me servir. Que eu lembre, nunca desmunhequei nem usei roupas de hippie fresco mas aos seus olhos eu era uma bicha comunista e maconheira levando o filho jovem e saudável do seu finado irmão para um caminho de subversão, drogas e perversão homossexual. Já imaginou o que ele faria se soubesse que além daquilo tudo ainda era judeu?
Naquele tempo, naquela parte do mundo, os mesmos caras que gastavam seu dinheiro com amantes, prostitutas e álcool e que batiam em suas esposas, consideravam a juventude do sul degenerada. Não podia deixar de pensar na sua reação se visse o Luiz de Vitória, saindo do quarto com a “Maysa” pendurada em seu pescoço e dizendo que havia perdido a virgindade. De qualquer forma, de um ponto de vista antropológico, a situação trouxe o entendimento de como as coisas eram para gerações anteriores em outras partes do mundo.
Aquele mundo claustrofobico, corrupto e canalha havia sido construído em torno da sua classe dominante ancestral. Além de controlar tudo e todos à sua volta desde o seu início, ela odiava qualquer novidade que ameaçasse seu domínio. Para qualquer pessoa com um cérebro funcional que proporcionasse visão crítica, a vida ali era opressiva. Se não pertencessem aos círculos tradicionais, pior ainda.
Apesar do clima pesado em casa, gostamos Fortaleza. Era uma das capitais mais ricas do Nordeste e tinha uma vibração cosmopolita. O clima quente e seco, as praias imensas, o vento e as largas avenidas faziam com que a cidade parecesse a capital de um país moderno no Oriente Médio, tal como Tel Aviv ou Beirute. Talvez a postura do tio de Pedro fosse uma exceção, já que os cearenses tinham a fama de serem espertos e engraçados, dando ao Brasil alguns de seus maiores humoristas, como Chico Anysio, Tom Cavalcanti e Renato Aragão.
*
Fortaleza foi o ponto mais ao norte da nossa excursão. Além da inexistente amenidade de ficar hospedado na casa de um parente do meu companheiro de viagem, o motivo para irmos tão longe era uma aldeia de pescadores chamada Canoa Quebrada, parada obrigatória no circuito neo-hippie. Depois de cinco dias, partimos para lá. Fomos de carona até Aracati e de lá pegamos uma Kombi até o pé de uma duna gigantesca. Subir aquela parede de areia fofa foi uma surpresa difícil, mas quando chegamos ao topo ficamos encantados. Já estava escuro mas à distância vimos um grupo de cabanas mal iluminadas que lembrava um lugar perdido entre o deserto e o mar.
Logo que recuperamos o fôlego, armamos a barraca fora do vilarejo e fomos conhecer Canoa Quebrada. Ela tinha um charme primitivo e a autenticidade que só lugares remotos conseguem ter. Os espaços entre os casebres rústicos castigados pelo vento e pelo sol criavam trilhas de areia que, em sua maioria, terminavam abruptamente numa falésia gigantesca. A praia lá em baixo era a mais larga de todas que visitamos.
Na areia dura havia jangadas por todo lado; estes barcos artesanais planos feitos de troncos de árvores secos, atados com cordas e um mastro seguramdo uma enorme vela triangular eram icônicos. Ao raiar do dia, os pescadores rolavam essas embarcações sobre troncos secos de coqueiro até a água. No mar, flutuavam leve e eram fáceis de manobrar. Sua elegância simples com suas velas desfraldadas pareciam parte integrante da paisagem.
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Os locais sabiam como lidar com o calor e com o sol escaldante. O povo só se expunha de manhã bem cedo ou no final da tarde. Quando o sol estava a pino, os homens ficavam na sombra remendando suas redes, vendendo o que tinham pescado, comprando provisões ou simplesmente descansando. Enquanto isso, as mulheres ficavam em casa fazendo rendas. Sua técnica artesanal e seus produtos eram famosos em todo o Brasil.
Por outro lado, o mini exército de mochileiros que se aglomerava naquela aldeia no verão, ía para a praia na hora mais quente do dia, por volta das onze da manhã. Quando o calor ficava insuportável, nos abigavamos na sombra nos quiosques à beira da falésia para beber cerveja e ficar ouvindo os relatos das viagens uns dos outros. Nas conversas trocavamos dicas sobre lugares na rota costeira em meio a discussões político-existenciais. As garotas não participavam dessas conversas, mas ficavam sentadas em seu canto batendo seus papos e retribuindo nossos olhares.
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No dia seguinte, alugamos por quase nada um quarto na cabana de um pescador. A família dormia em redes penduradas pela casa enquanto ficamos no único quarto separado ali dentro. As camas eram tapetes de praia de vime estendidos sobre o chão de areia. Uma lamparina de querosene iluminava a casa, a água vinha de um poço no quintal e a família cozinhava num fogão à lenha feito de tijolos. As paredes de pau a pique eram cheias de buracos que permitiam que o ar de fora refrescasse o ambiente. Esses e os buracos no telhado não eram problema algum, uma vez que raramente chovia. Apesar da acomodação ser para lá de modesta, caiu bem depois de ter que aturar a homofobia sem base do tio do Pedro.
Do lado de fora, os cachorros vadios, galinhas e patos que circulavam por todo canto, faziam com que toda hora pegássemos bicho de pé. No final da estadia já estava craque em tirá-los com uma agulha.
Seu Chico, o dono da casa, era o patriarca das três gerações que viviam sob aquele teto de palha. Apesar do cabelo grisalho, seu corpo ainda era forte graças aos anos passados no mar. Tranquilo e de poucas palavras, impunha respeito. Sua sabedoria não vinha de livros, mas dos seus sentidos aguçados por uma vida passada interagindo diariamente com a natureza. Gostei dele de cara e nas conversas que consegui puxar passei a apreciar sua visão de mundo que era, de várias formas, mais profunda do que a de muitos de meus professores na faculdade. Conforme os papos com o velho homem do mar foram acontecendo, fui aprendendo os hábitos de todos os peixes e dos bichos daquela região. Também aprendi como apanhá-los.
A curiosidade era mútua e suas perguntas sobre nosso estilo de vida eram interessantes.
“Mas se ocês faiz faculdade, porque ocês anda vestido que nem mendigo?”
“Não sei, seu Chico. Deve ser porque no fundo a gente não quer aquilo”, falei entre garfadas no meu feijão com arroz amalgamado por farinha que sua sua mulher tinha preparado. “Lá tem muito mais dinheiro que aqui, mas parece que falta alguma coisa.”
Ele apontou para o mar por trás do quintal olhou para o céu azul de fim de tarde. “Para eles falta isto daqui.”
Um grupo de aves estava cruzando o céu em formação. Quando desapareceram ele emendou: “Tudo é uma coisa só, quem entende isso num precisa de mais nada.”
Caso algum urbanóide desdenhasse dele por não saber ler ou escrever, seu Chico poderia retrucar fácil – e corretamente – que o sujeito não tinha nenhum conhecimento sobre o meio ambiente onde vivia, isso se ainda tivesse restado algum. Para os seguidores de Moloch, o elo homem-natureza estava perdido. Fora o dinheiro, nada era sagrado. Nós, gente da cidade, tínhamos a cabeça entupida de coisas inúteis mas éramos ignorantes sobre o mais importante; a natureza tanto fora quanto dentro da gente. Não era ele que precisava pagar psicólogos ou gurus de meia-tigela nos Estados Unidos para resolver os seus problemas existenciais, nem era ele que precisava viajar tão longe porque não gostava do mundo em que vivia.
*
No pôr do sol, a moçada se agrupava à margem da duna. No Rio – bem como em todos os estados em que havíamos passado– o sol se punha no lado direito da praia. Contudo, como o Ceará fica depois da curva que a costa do Nordeste faz, lá o sol se punha em terra. De cima daquela montanha de areia fina, que lembrava uma paisagem extra terrestre, ficávamos assistindo o espetáculo do sol se pondo por trás da mata de uma planície sem fim. Sons de pássaros se preparando para a noite ecoavam da natureza. Quando o sol estava quase desaparecendo, sua imensa bola brilhava na areia e nos rostos, criando um tom alaranjado inacreditável que contrastava com o céu azul escuro acima e atrás de nós. O vento era forte e por a região ser tão seca, mesmo no auge do verão ficava frio. Com tudo escurecendo e sem nenhuma luz elétrica nas redondezas, parecia que a terra tinha absorvido a claridade e o calor do dia, e estava oferecendo em troca um visual lunar junto com uma paz indescritível.
A harmonia daqueles crepúsculos era como a de Trancoso de dois anos atrás. Numa noite especial, o pessoal em volta me pediu para tocar violão. O clima estava tão bom que todos se levantaram e fomos juntos para um campo logo atrás da duna. Lá, o pessoal abriu um círculo ao meu redor e saí tocando. Aquela roda de umas trinta pessoas cantando e dançando em torno de mim sob o luar e as estrelas foi mágica, um momento de redenção e de promessa para as ansiedades que assolavam a todos.
*
Conforme fui relaxando e deixando aquela energia positiva tomar conta, minha sorte com o sexo oposto começou a mudar. Houve um momento maravilhoso, daqueles com que um cara comum como eu podia apenas sonhar. Estava em um bar com um amigo de São Paulo, quando percebi uma loura linda de olhos verdes e pele bronzeada olhando para mim.
Tomei coragem e me aproximei. “Oi gata, que olhos lindos.”
Ela deu uma risada linda e provocante. “Obrigada, me deixaste sem graça agora, nem sei o que dizer.”
“Se você não tem nada a dizer, vamos comigo até a praia dar uma olhada no visual?”
Ela aceitou o convite a queima roupa e fomos de mãos dadas pela trilha que descia a falésia. Nos deitamos com as ondas tocando nossos pés. Não precisei falar muito. Quando a encarei, ela me deu o olhar mais lindo e a partir dali ficamos nos beijando por um tempão, nos aconchegando um ao outro sob a luz da lua.
Tinha gente passeando por ali e sussurrei: “Quer vir comigo para um lugar mais tranquilo?” Ela não falou nada, mas me deu a mão e levantamos.
Fomos para a casa em construção onde adivinhem quem estava acampando? Os gaúchos da Praia do Francês. Quando chegamos, fui me certificar se havia alguém lá. Estava com sorte, os caras deviam ter saído para a farra e a construção estava vazia. Achamos um quarto desocupado, coberto, mas com a janela ainda por fazer e sem porta. Assim que nós nos acomodamos, fiquei sem falar nada, viajando em sua absoluta beleza e em seu cheiro delicioso. Depois da pausa, começamos a sentir a pele um do outro e se pegar apaixonadamente. Um furacão de prazer tomou conta e amor veio furioso. Quando acabamos, ficamos deitados abraçados absorvendo o que tinha acontecido e apreciando aquela noite sem nuvens. O vento sobre a vegetação seca do lado de fora, o barulho dos grãos de areia levantando voo e batendo nas paredes da casa e a luz da lua entrando pela janela eram como um sonho. De repente, senti algo que quase não lembrava que existia: a sensação de estar em paz com o mundo.
…
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por Richard Klein | 30 jan, 2021 | Brasil, Comportamento, Conto, Crônica, Livro
Capitulo 28
Todo dia o sol levanta
E a gente canta
Ao sol de todo dia.
Caetano Veloso - Canto Para o Povo de um Lugar
A próxima parada era João Pessoa, a capital da Paraíba. Dessa vez deixamos as caronas de lado e resolvemos ir de trem. Era quase de graça e a linha se afastava da costa e entrava pelo sertão à dentro. Dada a escassez de ferrovias no Brasil isso prometia uma viagem única e imperdível. Ela nos permitiria conhecer, mesmo que de relance, essa região tornada famosa em verso, prosa e música. Depois de saciar a fome, beber umas cervejas e dar uma volta pela belíssma Maceió, fomos para a estação. Na entrada, encontramos com os gaúchos da Praia do Francês que tinham gostado da ideia e tinham resolvido se juntar.
Assim que pusemos os pés dentro do terminal, causamos uma comoção. Para os passageiros locais, ver aquela galera estranha era como presenciar a entrada da versão moderna da gangue de Pat Garrett e Billy the Kid ou de uma banda de rock recém-saída do inferno. Só faltava a camera lenta e a musica de filmes de faroeste. Sob olhares constantes e mal disfarçados, compramos passagens para o próximo trem que partiria dentro de uma hora. Sem mais nada para fazer, ficamos vagando pela estação achando graça do pessoal boquiaberto.
Depois que o trem partiu, tomamos posse de um vagão vazio. Pela janela, ficamos curtindo ver o verde litorâneo ficando para trás e paisagem se tornando muito diferente da que tínhamos visto pelo nordeste afora até então. Primeiro, veio o cerrado com sua vegetação densa porém seca e espinhosa e uns vinte minutos depos entramos na aridez do sertão.
Essa região semi desértica era a mais pobre e atrasada do Brasil, a ponto de ser considerada por estudiosos como a região mais semelhante à Europa medieval no mundo. Nela, o povo profundamente católico e supersticioso tinha um relacionamento semifeudal com os donos da terra. A cultura era machista ao extremo e havia um altíssimo grau de analfabetismo. Mesmo sabendo que não interagiriamos com essa população, só o fato de estar ali mudou o clima no trem. Continuamos em silêncio cruzando a vegetação rala no ar quente e depois de um tempo começamos a atravessar e a parar em cidades.
As estações dilapidadas pareciam remanescentes de uma era quando havia uma promessa nunca cumprida de prosperidade. Quando o trem parava, uma pequena multidão chegava às nossas janelas para nos vender todo tipo de coisa, desde garrafas d’água de plástico até animais silvestres. Em todo vilarejo, o trem era o maior evento do dia e nós – os cabeludos estranhos – os destaques. O povo se amontoava em nossas janelas apontando para nós e rindo como se fossemos uma banda de rock de gays drogados.
Algumas vezes faziam piadas sobre nós.“O sulista! Isso aí é cabelo de homem?” A meninada ria.
“Por que, bonitão? Quer que o teu macho fique gato como eu?” A meninada ria mais ainda, mas alguns não gostavam e ameaçavam jogar coisas.
Atrás das estações, mercados mambembes alojavam lojas de roupas baratas, botequins, açougues mal cheirosos e lojas de discos que tocavam alto músicas que davam arrepios de tão brega que eram. Homens andavam a cavalo nas ruas de terra batida entre carros enferrujados, jumentos sonolentos e cães magrelos. Por todo lado crianças descalças corriam sob o sol escaldante.
Quando o trem saía das cidadezinhas, voltava àquela paisagem árida e desolada que lembrava as de faroestes italianos. A população, porém, não era de camponeses mexicanos, mas uma mistura de descendentes de índios, brancos e africanos vivendo em casebres de barro com cobertura de palha. Os pequenos lotes de terra nela, lutavam para parecer fazendas naquele calor insuportável. As plantações eram mínimas e o gado era tão magro que dava para contar as costelas.
Os vagões e sua locomotiva azuis e antigos estavam nas últimas e pareciam em harmonia com o que nos cercava. Por conta do horror dos outros passageiros em compartilhar seus assentos com gente “do demo”, acabamos ficando sozinhos em nosso vagão durante a viagem inteira. Vez por outra, funcionários do trem entravam para conferir o que estávamos fazendo e geravam um silêncio hostil. Apesar da extrema pobreza passando do lado de fora e do clima tenso do lado de dentro, todos concordamos que o passeio estava sendo uma “viagem”. Claro, apesar da vigilância apertada, conseguimos fumar nosso veneno com as cabeças para fora das janelas.
*
No Rio, “paraíba” era o termo pejorativo dado aos membros do seu enorme contingente de nordestinos, sem distinção de onde vinham. Eles preenchiam o papel que mexicanos exercem nos Estados Unidos, árabes na França e paquistaneses no Reino Unido. Igual aos preconceituosos dos países ricos, muitos cariocas tinham sentimentos contraditórios com relação ao Nordestinos. Junto com o fascínio pela sua cultura e da admiração pela suas belezas naturais vinha a rejeição de imigrantes pobres vindos de lá com legados diferentes.
Quando o trem chegou em João Pessoa, a capital da Paraíba, assim que comecamos a circular pela cidade, descobrimos que, pelo contrário, a cidade tinha – pelo menos a nível arquitetônico – uma sofisticação clássica que comparava bem com a do Rio. Suas construções bem conservadas do século 19 e suas avenidas elegantes delimitadas por árvores exuberantes com postes de luz de estilo antigo faziam a cidade muito charmosa.
Porém, o principal motivo de estar contente por estar ali era que uma amiga da faculdade, Francesca, estava passando as férias com sua família Paraibana. Como muitos outros membros da elite local, eram descendentes de italianos. Loura de olhos azuis, era deslumbrante a ponto de uma revista carioca a ter eleito como a musa daquele verão. Apesar disto, o seu atributo mais atraente era seu espírito de moleque e a gente se dava muito bem.
Dessa vez íamos ficar na casa do estudante universitário e assim que chegamos, ligamos para ela. “Richard! Pedro! Seus malucos!!! Como que vocês chegaram até aqui!!?? De que?! De carona de caminhão?? Pegaram o trem pelo sertão?! Hahahaha! Vocês são muito loucos!”
Depois das piadas e de contar alguns “causos”, fui à pergunta inevitável: “E aí, Francesca? Vamos se encontrar?”
“Claro!!” Daí ela cochichou baixinho: “Mas nada de pãpãpã porque o pessoal daqui é caretasso!!”
“Beleza, claro que não, só que você vai perder o veneno que trouxemos de Maceió.”
Ela deu uma risada. “Vocês tão aonde?”
“Na casa do estudante universitário, conhece?”
“Claro! Daqui a pouco tô passando aí!”
Receando que fossemos conhecer alguém da sua família endinheirada, nos vestimos da melhor maneira possível. Na falta de outra opção, colocamos umas roupas hipongas metidas a chique compradas em Salvador. Não demorou muito e ela chegou com dois primos, ambos educadíssimos e com um visual super conservador, com certeza membros eminentes da elite local. Após as apresentações, levaram Pedro e eu num carro elegantíssimo com ar-condicionado para conhecer João Pessoa. Depois, nos convidaram para jantar num restaurante elegante. Foi um convite desconfortável, mas aceitamos por causa da insistência da Francesca.
Eles acabaram fazendo questão de pagar a conta da peixada maravilhosa. Mas diferente do jantar bizarro com dupla de mergulhadores em Vitória e suas “amigas”, não havia nenhum interesse escuso. Porém, descobririamos mais tarde entre risadas que nos confundiram com um casal gay. Não era para menos: nossas roupas neo-hippies, batas e calças floridas e soltas jamais poderiam ser classificadas como roupas para macho em qualquer cidade do mundo em qualquer tempo da história.
Na realidade, mesmo com a má impressão que causamos, tinha esperanças de, quem sabe, engatar uma aventura de verão com a Francesca. Apesar de ter um namorado no Rio, nas matadas de aula nos jardins da faculdade rolava um clima forte. Entretanto, com a família dela por perto – e eu parecendo um extraterrestre para eles – as chances de que algo acontecesse eram zero.
Além da inacessibilidade da Francesca e da elegante arquitetura de João Pessoa, não havia muito o que nos atraísse ou nos prendesse lá. Decepcionados, depois de tres dias ali seguimos rumo ao norte, para Fortaleza, a capital do estado do Ceará, onde ficaríamos com um tio de Pedro.
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por Mauro Nadvorny | 30 jan, 2021 | Brasil, Comportamento, Imprensa, Opinião, Política
“O Leite Condensado é para enfiar no rabo da imprensa. Vão pra PQP”. Assim falou o presidente do Brasil num rompante miliciano. Qual foi a consequência desta falta de respeito com o cargo que ocupa? Quem disse nenhuma ganhou uma caixa de chicletes.
O Brasil perdeu o respeito consigo mesmo. Sua honra, sua dignidade, sua história não significam mais nada. O país é um morador de rua entre as nações. Não se importa mais com a sua imagem, como é visto pelos seus pares. Passou com honra o fundo do poço.
Impressionante o desdém da mídia tradicional para os fatos. De um lado a compra de mantimentos de fornecedores suspeitos, para dizer o mínimo. Na sequência uma manifestação destemperada, chula de parte do mandatário brasileiro, e o assunto é logo esquecido.
As explicações para as compras são de um mundo paralelo. Nele os soldados bebem leite consensado para receberem mais calorias. Este leite é mais fácil de se guardar. Mas se feitas as contas, é como se cada membro das Forças Armadas tivesse recebido 1,5 lata de leite condensado por ano, considerando o preço real que é na média de R$ 28,00. Visto desta forma, é razoável o que foi adquirido.
No entanto as licitações de itens um pouco estranhos foram vencidas por fornecedores um tanto esquisitos. Os preços pagos são outra história. Isto sim justifica uma investigação rigorosa. São inúmeras suspeições de cartas marcadas.
Em uma nação qualquer, com o mínimo de civilidade, o governo teria vindo a público com uma explicação séria. Exporia os números reais, o destino da mercadoria e como ela é empregada. Tudo claro e transparente. E se fosse o caso, abriria imediatamente uma investigação para punir os responsáveis por qualquer questão ilegal.
Nada disso ocorreu. Primeiro a imprensa deu a entender que a compra tinha sido realizada pelo presidente para seu consumo. Depois voltou atrás, mas aí teve de escutar os palavrões do dignatário mor. Então mudaram de assunto.
O que precisa ficar claro é que nada justifica o destempero do presidente. O cargo que ele ocupa é maior do que ele. Para ocupá-lo é necessário vencer eleições democráticas. “De acordo com o texto de 1988, cabe ao vendedor as tarefas de chefe de Estado e de governo e de comandante das Forças Armadas. Na prática, isso significa que o presidente é o representante público mais elevado do País e o principal articulador das vontades da população”.
Para permanecer no cargo é necessário manter o decoro que o cargo exige. Um presidente não pode proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo. Isto é crime contra a probidade na administração, passível de processo de Impeachment.
Nunca um presidente do Brasil teve tantos pedidos de Impeachment. A maioria deles embasados em crimes tipificados na lei. Nada disso parece abalar quem deveria dar provimento aos pedidos de pelo menos um deles. Infelizmente ele tem o poder para isso e vai deixar o cargo sem tirar nenhum dos 62 pedidos da gaveta.
Qualquer presidente está sujeito a receber um pedido de Impeachment, isto aconteceu com todos. No entanto vale recordar que os dois efetivamente cassados, Collor e Dilma, receberam 24 e 37 respectivamente.
O que estamos presenciando atualmente é inédito. Eduardo Cunha vai lançar um livro onde entre outras histórias, conta como foi planejado o golpe contra Dilma que se utilizou de um dos pedidos de Impeachment para se concretizar. Dando nomes aos bois vai escancarar o que todo mundo sabe. Dilma foi deposta em um golpe branco, constitucional e indecoroso.
Uma das figuras envolvidas no golpe é justamente aquela pessoa que tem hoje o poder de abrir um processo contra Bolsonaro. Rodrigo Maia que tem péssimas relações com o presidente e ainda assim se nega a tomar uma atitude, nem mesmo se dá o trabalho de examinar os pedidos. Foi um tigre contra Dilma, mas é uma barata contra Bolsonaro se escondendo nas sombras.
A política é a arte de engolir sapos, e assim o PT vai ter de votar em outro partícipe do golpe para evitar que o candidato do Planalto assuma a Câmara. São as voltas que o mundo dá. Neste caso, uma ironia do destino, quase uma Escolha de Sofia.
O que se espera é que Baleia Rossi, se eleito, não aguarde muito tempo mais para dar início ao Impeachment daquele que seguramente é o pior presidente do Brasil de todos os tempos. Desta vez, não um processo baseado em ilações, mas em crimes cometidos contra o povo Brasileiro.
Tomara 2021 termine sem o vírus e sem o verme.
por Mauro Nadvorny | 24 jan, 2021 | Brasil, Opinião, Política
Geraldo Brindeiro entrou para a história como o “engavetador geral da República”, o homem que arquivou mil e um supostos autos criminosos contra FHC e seus aliados, evitando assim que as falcatruas tucanas viessem à tona.
Os números são eloquentes: de 626 inquéritos criminais que recebeu como procurador-geral da República, engavetou 242 e arquivou outros 217. Total: 459. Somente 60 denúncias foram aceitas. As acusações recaíam sobre 194 deputados, 33 senadores, 11 ministros e quatro sobre o próprio presidente. Por conta disso, recebeu o jocoso apelido. Entre as denúncias que engavetou está o maior escândalo da era Fernando Henrique Cardoso, a compra de votos para aprovação da emenda constitucional que aprovou a reeleição para presidente.
O tempo de Brindeiro passou. Assumiu Rodrigo Janot, responsável pelas denúncias por corrupção de cinco presidentes e ex-presidentes, inclusive Michel Temer, em exercício, que só escapou do processo graças ao voto do Congresso impedindo a sua abertura. Janot foi acusado de ter formulado acusações sem fundamento jurídico e imposto a sua agenda, paralisando o Executivo e o Legislativo. Entrou no barco da Lava Jato e perdeu o controle, inclusive de si mesmo. Em entrevista concedida para divulgar seu livro de memórias confessou que chegou a entrar armado no Supremo Tribunal Federal para matar o ministro Gilmar Mendes.
Chegou a vez de Augusto Aras, por quem o capitão teve, como é de seu feitio, um “amor à primeira vista”. Conservador, católico praticante e ideologicamente alinhado com Bolsonaro, Aras não integrava a lista tríplice para indicação ao cargo; chegou ao topo da estrutura do Ministério Público pelas mãos da ninhada 01, 02 e 03 e do ex-deputado federal Alberto Fraga, militar como o capitão, condenado por manter armas de fogo proibidas e corrupção, que fez a aproximação entre os dois. Tomou posse em 26 de setembro de 2019.
Um ano depois, seu balanço era pra’ lá de minguado. Entre manifestações encaminhadas ao STF e medidas adotadas pela própria PGR, a Procuradoria se alinhou ao governo em mais de 30 vezes. Ficou na contramão em apenas uma oportunidade, em que Aras apresentou uma ação constitucional contra ato do presidente Jair Bolsonaro.
Isso ocorreu quando o Executivo editou a medida provisória que instituiu o contrato de trabalho Verde e Amarelo. A Procuradoria pediu a invalidação de dois trechos do texto assinado por Bolsonaro. Essa foi a única iniciativa do procurador de provocar o Supremo contra uma decisão do presidente da República.
Se Bolsonaro fosse um presidente “normal” talvez estivesse de bom tamanho, mas não é. Comete crimes, viola a Constituição quase que diariamente, diante do silêncio doloso de Augusto Aras, incentivado pela “promessa” de nomeação para o STF.
O capitão deve sua sobrevivência no cargo em grande parte ao Procurador-geral da República, a quem faltam algumas características básicas para o exercício da função: independência, honestidade, alto saber jurídico, respeito à Constituição. À essas poder-se-ia acrescentar a falta de uma qualidade que ele alardeia possuir: coragem.
Em raríssimas ocasiões Aras agiu como chefe do Ministério Público Federal:
1) promoveu uma ofensiva contra a militância bolsonarista que pedia o fechamento do Congresso e do Supremo.
2) pediu abertura de inquérito para investigar os responsáveis pelos atos;
3) defendeu o inquérito das fake news, que apura a disseminação de notícias falsas e ameaças contra integrantes da Corte Suprema;
4) solicitou a abertura de inquérito para apurar a veracidade das acusações feitas por Sergio Moro contra o chefe do Executivo ao pedir demissão do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Mas inclusive nessas ocasiões, sempre que pode, posicionou-se a favor do Executivo. Foi capaz de contorcionismos espetaculares para livrar o seu chefe e denunciar seus adversários.
Entre as violações flagrantes à lei máxima, que poderiam – ou melhor, deveriam – ter sido levadas ao STF por Aras estão: censura, apoio a manifestações antidemocráticas, homofobia, ataques à população indígena, ameaça a procuradores, manifestação contra decisões do Supremo, interferência na Polícia Federal, defesa da ditadura, exoneração fiscal do Ibama, crimes contra a saúde pública.
Com relação à atitude de Augusto Aras, cego, surdo e mudo face à condução da crise sanitária pelo Executivo, o procurador porta uma imensa responsabilidade. Seus atos mais recentes mostram cumplicidade com o genocida (termo utilizado em ao menos duas denúncias contra Bolsonaro no Tribunal Penal Internacional) no poder.
Sua recente nota atribuindo ao Congresso o papel de analisar “eventuais ilícitos que importem em responsabilidade de agentes políticos da cúpula dos Poderes da República” durante o enfrentamento à pandemia de covid-19 é jurídica e politicamente inaceitável.
Ministros do STF qualificaram a nota de “desastrosa”, mas ninguém manifestou surpresa, afinal ficou evidente que o objetivo de Aras é, como sempre foi, preservar o presidente Jair Bolsonaro e no caso presente o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello.
Cabe ao procurador-geral da República conduzir qualquer investigação criminal sobre presidentes e ministros. E está evidente que o capitão e o sargento Garcia cometeram crimes previstos nos artigos 268, 269, 283, 285, 258, 131 do Código Penal.
Só que desta vez Augusto Aras foi além. Ao defender seu protegido, fez como ele: atacou a democracia, o Estado de Direito. O procurador agiu exatamente como o seu patrão ao declarar que as Forças Armadas, e não a Constituição Federal, decidem se o país viverá uma democracia ou retornará à ditadura.
A ardilosa nota divulgada por Aras, em 19 de janeiro, apontou risco de o atual estado de calamidade progredir para o estado de defesa, que previsto na Constituição pode ser decretado por presidentes a fim de preservar ou restabelecer “a ordem pública ou a paz social ameaçadas por grave e iminente instabilidade institucional ou atingidas por calamidades de grandes proporções na natureza”.
O recurso ao estado de defesa está sujeito à aprovação do Congresso em dez dias e permite ao presidente restringir direitos da população: direito de reunião, de ir e vir, de trocar ideias e criticar, sigilo de correspondência, sigilo de comunicação telegráfica e telefônica.
Claro portanto que tais medidas não têm nenhuma relação com o combate à pandemia. O objetivo de Aras é advertir para o risco de ruptura democrática. Ele não apenas não é contra como aponta o caminho das pedras.
Seria um caso único nos países democráticos face à pandemia. Outros governantes populistas de extrema-direita, como Viktor Orbán, na Hungria, tentaram amordaçar a população, mas foram obrigados a voltar atrás.
Sete dos dez subprocuradores-gerais da República não hesitaram em destacar a atitude do chefe: “Referida nota parece não considerar a atribuição para a persecução penal de crimes comuns e de responsabilidade da competência do Supremo Tribunal Federal (…), tratando-se, portanto, de função constitucionalmente conferida ao Procurador-Geral da República, cujo cargo é dotado de independência funcional”.
O ministro do STF Marco Aurélio de Mello e o ex-ministro Celso Velloso também já disseram que a medida não caberia no atual contexto do país.
Está claro que, no tratamento da pandemia, o capitão e seu sargento cometeram crimes, tanto de responsabilidade como de direito comum. E que, como assinalou o Conselho Superior do Ministério Público, “o Procurador-Geral da República, precisa cumprir o seu papel de defesa da ordem jurídica, do regime democrático e de titular da persecução penal, devendo adotar as necessárias medidas investigativas a seu cargo – independentemente de “inquérito epidemiológico e sanitário” na esfera do próprio Órgão cuja eficácia ora está publicamente posta em xeque -, e sem excluir previamente, antes de qualquer apuração, as autoridades que respondem perante o Supremo Tribunal Federal, por eventuais crimes comuns ou de responsabilidade”.
Em bom português, pela enésima vez Augusto Aras não cumpre sua função e pior, penetra em uma zona cinzenta – a antevisão do “estado de defesa” – que além de não se justificar pode ser considerada incitação ao golpe. O procurador-geral atuou contra a defesa do estado democrático de direito. Agora vem aí, tal Poncio Pilatos, lavando as mãos, argumentando que, se crimes houveram, foram de responsabilidade, de competência exclusiva do Legislativo.
Augusto Aras mente de forma descarada porque é servil, só obedece os interesses próprios, e por ideologia. É um adepto da “democracia relativa” tão cara aos militares da ditadura.
Em dezembro de 2018, declarou à Tribuna da Bahia: “Podemos ter no governo Bolsonaro uma democracia militar”… “o fato de termos um governo em que, pelo menos, metade do ministério tem militares na chefia revela uma dificuldade para o fisiologismo”.
Desta maneira, Augusto Aras ganhou o cargo e pode até vir a ser premiado com o STF, mas sua ação e inação minimizam os desfeitos (graves) de Brindeiro e Janot nesse circo de horrores, representam um retrocesso institucional, violam a Constituição e contribuem para a morte de dezenas de milhares de brasileiros, vítimas da ausência de política sanitária de um sádico que, por culpa sua (do PGR), não responde pelos crimes que comete.
Aras e Bolsonaro se valem. São irmãos siameses unidos pelo ódio ao Estado Democrático de Direito.
por Richard Klein | 23 jan, 2021 | Brasil, Comportamento, Crônica
Na manhã seguinte saimos rumo às praias de cartão-postal de Maceió, nas Alagoas. Águas cristalinas e uma vegetação abundante de coqueiros se estendendo ao longo da costa inteira eram uma promessa bem-vinda com depois da simplicidade cênica de Aracajú.
Seguindo uma recomendação recebida ainda no Rio, passamos direto por Maceió e fomos para a Praia do Francês, a uma meia hora e pouco da cidade. Chegamos num fim de tarde ensolarado e ficamos maravilhados de cara. O lugar era lindo e o pessoal era diferente de tudo o que tinhamos visto até entao; garotas e garotos bronzeados do “sul” saudáveis, abastados, com ares de surfistas, relaxados, todos num astral ótimo e muito diferente daquele que havia feito de Arraial d’Ajuda uma decepção.
A experiência já havia nos ensinado que a primeira coisa a se resolver era procurar um lugar para ficar. Perguntamos por ali e o dono da venda da aldeia nos falou de uma construção. “Tão construindo uma casa lá no final da praia. Os obreiros só vão voltar em março. Já tem uns cabeludos acampando lá. Acho que deve ter lugar para vocês.”
Fomos lá e gostamos. A base da obra já estava pronta, mas estava coberta só por um teto de palha mal-acabado. Conforme o dono da venda tinha dito, havia um grupo de sete ou oito caras já acampados lá e fomos falar com eles.
“Fala aê, beleza?”
“Beleza!” respondeu o mais velho deles, um cara de cabelo crespo, brinco na orelha e cavanhaque.
“Tamo chegando aqui e a gente queria saber se dava para acampar num canto.”
“Sem problemas, tchê, aqui tem lugar para muita gente. Se vocês não tiverem problemas com gaúchos podem ficar à vontade.” O sotaque e a maneira cantada de falar não podiam ser mais típicos.
Agradecemos e depois de montar a barraca fomos conversar com eles. Já era fim de tarde e, como não seria surpresa, estavam bebendo chimarrão sentados na sombra e apreciando o fim de dia vendo o mar.
“Conhecem chimarrão? Prova um pouco!” O Pedro recusou. Eu que já tinha experimentado e até gostav, aceitei.
“Isso não é para beber no frio?”
O cara deu uma risada. “A gente bebe chimarrão até debaixo d’água, tchê.”
Um outro, com uma cabeleira lisa que ia até debaixo do ombro, perguntou: “É a primeira vez de vocês aqui?”
“É, a gente está viajando a costa e tamo indo até o Ceará, pelo menos esse é o plano. E vocês?”
“Saímos de Porto Alegre há um mês e viemos de carona até aqui. Bá! É muito chão e em sete é tri-complicado.”
A maioria era loiro, todos educadíssimos apesar do visual inconformista. Naquele calor, aquele monte de cabeludo me trouxe à memória as bandas de rock do sul dos Estados Unidos. O cara que nos deu as boas-vindas foi direto ao assunto.
“Pois é, carioca, vocês fumam um, né?”
“É, somos do clube.”
“É o seguinte, a gente descobriu um plantador em Barra de São Miguel, uma cidadezinha perto daqui. A coisa é um veneno, tchê.”
Um outro emendou: “Fomos lá para experimentar, e bááá! Voltamos tri-loucos!”
Todos confirmaram que era “tri-bom”.
O primeiro continuou: “Então, tchê, nós estamos fazendo uma vaquinha para comprar um peso. Se a gente juntar trezentas pilas compramos seiscentas gramas, faltam cinquenta, cês podem entrar?”
“Sei lá. tem um pouco aí para a gente experimentar?”
O de cabelo até a cintura respondeu na hora: “Claro, tchê!”
Um deles tirou um baseado do bolso, acendeu e passou para a gente. Como qualquer do bom, depois de duas baforadas deu para sentir a qualidade. Os caras estavam certos. A parada era “tri-boa”.
Pelos calculos, íamos ficar com quase cem gramas daquele veneno por um quarto do preço que custaria no Rio, uma oportunidade imperdível num lugar perfeito. Não pensamos duas vezes; concordamos, raspamos o dinheiro escondido num compartimento secreto da mochila e entregamos a eles. Na manhã seguinte, dois deles foram buscar o bagulho. Quando voltaram por volta do meio dia, foi uma fumelhança desatinada.
Depois de um tempo, a larica bateu e caiu a ficha de que apesar do generoso estoque do bom, estávamos completamente sem grana. Os gaúchos ficaram igual. A única possibilidade da gente reabastecer os bolsos implicaria em uma ida de uma hora de ônibus até Maceió de manhã cedo para achar um caixa eletrônico – que ainda só existiam nas grandes cidades e que, por sinal, o Brasil estava inaugurando a nível mundial. Depois, a gente teria que esperar o ônibus de volta que só saía no final do dia. Praia boa e bagulho bom eram um convite à preguiça e ninguém estava disposto a perder um dia inteiro com aquilo. Do lado positivo, isso significaria um alívio para o nosso parco dinheirinho.
A salvação alimentar foi um coqueiral imenso logo atrás do acampamento. Não era preciso nem subir nas árvores, era só sair catando os côcos caídos no chão e com isso passamos uma semana inteira nos alimentando deles. No café e como sobremesa, comíamos a carne macia dos côcos mais verdes. Côcos mais maduros tinham a polpa mais grossa, mais nutritiva e eram nosso prato principal e durante o dia. A água deles saciava nossa sede e, também nutriente, ajudava a nos manter. Usavamos um facão na obra para abri-los e tínhamos que tomar cuidado para não acertarmos nosso dedo ou atingir os outros naquela chapação generalizada.
*
A Praia do Francês é famosa por seu coral e sua vida marinha espetaculares. Isto, e a água limpa e transparente, rara no Nordeste, fazia com que um monte de gente viajasse do país inteiro para mergulhar ali. Consegui uma máscara de mergulho e um tubo emprestados de um paulista que tinha virado entusiasta da nossa compra na Barra de São Miguel. Por conta da sua generosidade, passava os dias explorando o coral e os peixes coloridos sob a influência do veneno verde, uma combinação que se provou perfeita. Embaixo d’agua me sentia como se estivesse passando horas num planeta diferente. No fim do dia, quando chegava o pôr do sol, me sentindo bem e abençoado, pegava a viola e saía em caminhadas ao longo do coqueiral curtindo a brisa do mar fazendo as árvores se balançarem de um jeito mágico. Seguia até encontrar um lugar protegido e ficava ali tentando criar música.
Enquanto o Pedro não sabia por onde começar com o banquete de beldades passando o verão ali, não demorou muito para que eu conhecesse outros músicos. O pessoal se reunia para fazer um som em frente da barraca de uns argentinos gente boa. Se não estivesse mergulhando, estava ali. Fazer experimentos musicais no Nordeste era uma experiência especial. A vibração musical da região era menos africana e mais árabe e indígena. O calor e o ar seco pareciam influenciar a gente. As levadas que inventávamos abriam mais espaço para digressões inusitadas. A qualidade do THC e a desintoxicação forçada pela dieta à base de coco me trouxeram inspiração. Quando tocavamos no calor do dia e no vento frio e seco da noite, eu e meus camaradas de som pareciamos um bando de beduínos de sunga envoltos numa magia Sufi num deserto a beira mar.
Às vezes, íamos levar um som na praia quando ficava escuro. Ali nossas sessões acabavam virando apresentações em torno das fogueiras que o pessoal acendia e davam um toque hippie às férias de todos os presentes. Com tantos músicos antenados envolvidos, a gente se recusava a tocar músicas conhecidas. Fazíamos improvisações que, pelo menos para nós, eram de altíssimo nível. Para os que estavam ouvindo provavelmente também, porque apesar do silêncio, havia respeito e um astral mágico no ar. As musicas começavam com uma levada fácil até alguém se inspirar e levar o que estavamos fazendo para um lugar mais especial. Conforme o som ia evoluindo, voltávamos à frase inicial e ficávamos nela até que outro alçasse vôo para novas alturas. A coisa fluía com ritmos e texturas provindos da redondeza. O sentimento era para lá de fantástico.
Apesar do sucesso das sessões, começamos a sentir um clima estranho naquele lugar que de início tinha parecido um paraíso. Acabamos nos dando conta de que a Praia do Francês era, na verdade, um destino turístico mais de elite do que o sul da Bahia e que nós, os outros músicos e os gaúchos do acampamento, éramos minoria. Por conta disso, nos deparamos com muita cara virada por não estarmos viajando com um carro do ano e dormindo em pousadas boas. Não pensamos muito sobre o assunto, mas talvez de maneira inconsciente isso nos tenha levado a ficar ali menos tempo do que poderíamos.
Levantamos acampamento junto com os gaúchos. Na manhã que chegamos em Maceió, a primeira coisa que fizemos foi ir à cata de um caixa eletrônico. Achamos um alojado numa cabine de vidro futurista contrastante com a arquitetura colonial ao seu redor. Novamente com dinheiro no bolso, foi um alívio ir a um pé sujo à beira da praia para desfrutar de uma refeição decente. O que pedimos foi o prato básico da região – arroz com feijão, farinha de mandioca, peixe frito e uma cerveja gelada para completar. Por mais simples que fosse, a comida caiu como uma maravilha depois de uma semana e pouco vivendo de côco.
…
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por Mauro Nadvorny | 23 jan, 2021 | Brasil, Mundo, Política
Impossível não sentir um pouco de inveja dos americanos que se livraram do Trump. E o Brasil ainda precisa aguardar dois anos, isto se um Impeachment não remover o inepto antes.
A passagem de Trump pela política, suas atitudes e como criou em torno de si um movimento de fanáticos, entre eles judeus e nazistas, supremacistas brancos e negros, antiabortistas e mulheres, heteros e LGBTs é um mistério sociológico sem explicação.
Os americanos se dividem basicamente entre dois partidos que se alternam no poder, os Republicanos e os Democratas. Não vou entrar em detalhas, mas historicamente os Democratas de hoje eram considerados os Republicanos de ontem, e os Republicanos de hoje, os Democratas de ontem. Quem quiser que leia a história.
Trump não tinha nenhuma ligação com o partido Republicano, a não ser doações financeiras. Foi capaz de tomar o partido, se tornar candidato a presidente e vencer as eleições. O cara merece algum crédito. Quem mais seria capaz de uma proeza destas?
E assim, como presidente dos EUA, e investido dos poderes que o cargo lhe confere, deu início a maneira Trump de corrigir os caminhos da américa para torná-la “grande” novamente. Sua visão de vida comercial privada se tornou a nova política dos EUA, tanto interna, como externamente.
Entre seus feitos, destruir tudo o que Obama e seus antecessores haviam deixado como legado de governo. Não vou entrar no mérito, mas o fato é que ele tirou os EUA dos acordos do Clima, do Acordo Atômico com o Iran, da OMS e de boa parte dos organismos da ONU. Chantageou países árabes para acordos diplomáticos de relações com Israel. Trump agiu na política, como na sua vida real.
Talvez, e aqui é um real talvez, por conta desta maneira de agir, ele conseguiu atrair tantos extremistas a sua volta. Ele os tratava como iguais. Seus simpatizantes jamais foram hostilizados ou desprezados, mesmo quando cometiam um crime. Com esta mensagem compreendida, não foi nada demais tentar tomar o Congresso de assalto em frente as câmaras.
O sentimento de impunidade foi uma boa motivação. Some-se a ela a crença real de que as eleições foram roubadas e de que o país será entregue aos comunistas. Pronto, a receita do impensável está pronta. Basta uma ordem, que nem precisa ser direta, pode ser em um olhar, um movimento de cabeça ou um gesto. A massa compreendeu e lá se foram para fazer história em um dia, e responderem processos no outro.
Desta vez a democracia prevaleceu, mas nem sempre é assim. O sistema democrático é frágil e precisa se resguardar. A liberdade de pensamento é uma noção democrática que exige limites. Ninguém pode usar desta máxima para destruir a democracia. Não se pode permitir um partido político que pregue a ditadura, como não se pode permitir que alguém pregue a morte dos que não comunguem com o seu pensamento.
A Liberdade de Imprensa é um pilar da democracia, mas a oligarquia de imprensa não pode existir. Ela concentra na mão de poucos o poder da informação e do acesso a ela. Imprensa Livre é aquela que obedece a normas regulatórias para evitar sua concentração nas mãos de poucos que determinam qual informação poderá ser acessada, e aquela que deve ser suprimida, da mesma maneira que o sistema financeiro é livre, mas não permite a concentração de negócios em setores essenciais nas mãos de uma mesma empresa.
A democracia brasileira é ainda uma criança. Está longe da maturidade e por isso nosso sistema jurídico é tão politizado. Ainda somos incapazes de lidar com questões importantes sem que tudo acabe judicializado, o que faz com que, ironicamente falando, o Poder Judiciário se torne um poder acima da lei.
Felizmente, com todos os seus defeitos, a democracia permite que de alguma maneira, mesmo aquele que foi escolhido pelas urnas para presidir o país, possa ser processado e na forma legal, afastado do poder. Não é simples, mas vamos chegar lá.