por Mauro Nadvorny | 23 fev, 2021 | Brasil, Opinião
Se a máquina do tempo tivesse saído das páginas do romance de H. G. Wells, de 1895, certamente o número de mortos pela Covid 19 no Brasil seria hoje bem menor. Estaríamos como nossos antepassados da Baixa Idade Média, lá pelos idos de 1348, confinados para limitar os efeitos da Peste Negra.
Em 2021, todos os países que praticaram seriamente o isolamento social têm menos mortes a lamentar. Foi a única medida, paralelamente às ações básicas de higiene, que funcionou até aqui na contenção da pandemia do coronavírus, como há 670 anos na Idade Média contra a Peste Negra: quarentenas, confinamentos, toques de recolher, uso de máscaras e álcool gel. Como escreveu nas redes sociais meu amigo Paulo Markun: ” Para quem acredita que há outra maneira de enfrentar a pandemia, além do que recomenda a ciência. Portugal já tem a mais baixa taxa de contaminação da Europa. Resultado do confinamento e do uso de máscaras – 92% dos portugueses usam. Inclusive o presidente, aqui, no supermercado.”
A grande diferença entre a Idade Média e o século 21 é que contamos com vacinas.
A humanidade desenvolveu em dez meses — muitíssimo menos que as previsões mais otimistas — vacinas contra a covid-19, algumas delas usando a tecnologia do RNA-mensageiro, de grande eficácia e que promete ser revolucionária no tratamento desta e de outras patologias.
Apesar do feito científico, estamos nesse momento numa encruzilhada, numa corrida contra o tempo entre as novas vacinas e as novas variantes do vírus, que por enquanto levam vantagem. Sabemos por exemplo que a vacina da Oxford/Astrazeneca tem eficácia reduzida contra a variante sul-africana e que quanto mais variantes aparecerem, maior a probabilidade delas escaparem aos imunizantes.
Ora, vale a pena notar que as novas variantes surgiram todas em países em que se deixou o vírus circular livremente: não é por acaso que se fala de variante britânica, brasileira e sul-africana, mas é impossível falar-se de variante neozelandesa, porque na Nova Zelândia e em outros países que optaram por estratégias de erradicação não há propagação do vírus suficiente para que apareçam mutações.
Daí a necessidade imperiosa e urgente de se confinar agora, com duplo objetivo: baixar a curva da pandemia e tentar evitar que uma variante mais letal e mais infecciosa – a britânica por exemplo – se torne dominante.
O tempo é curto e a necessidade de vacinar a população mundial, até chegar à imunidade de rebanho, premente.
Cada morte por covid-19 agora é uma morte que poderia ser evitada daqui a alguns meses, e isso nos deveria levar a ser mais exigentes com relação ao confinamento, inclusive por razões econômicas.
Durante a primeira onda não se sabia se seria possível atingir a imunidade de grupo, a questão então era se valeria a pena tentar chegar lá por via natural, deixando correr o ritmo das infeções, sacrificando milhões de vidas em nome da economia, ou salvar o máximo de vidas deixando as preocupações com a economia para depois. A conquista das vacinas num prazo tão rápido mudou completamente o quadro. O que importa é preparar a retomada da economia para depois da imunidade de rebanho e salvar o máximo de vidas agora. A palavra de ordem é investir na aceleração da vacinação para que possamos ver o fim do túnel.
O problema é que os populistas, como o capitão, insistem em apostar no pior, fascinados que são pela morte. A tal ponto que o procurador-geral da República, o bolsominion Augusto Aras, apresentou ao Supremo nove investigações sobre condutas supostamente criminosas de Jair Bolsonaro na administração da pandemia: no colapso dos hospitais nos estados do Amazonas e Pará, no incentivo para apoiadores invadirem hospitais públicos, no desrespeito das medidas de combate ao coronavírus ditadas pela OMS, na presença sem máscara em uma manifestação em Brasília, na conversa que teve, também sem máscara, com jornalistas, após ter contraído a Covid-19, ou ainda ao se tornar garoto propaganda de um medicamento – a cloroquina – que além de não ter nenhum efeito positivo no combate à Covid 19, pode causar efeitos secundários gravíssimos e até levar à morte.
Todos os países que não aplicarem uma política sanitária séria e estrita neste momento chave da pandemia estarão condenados a pagar um preço exorbitante num futuro muito próximo. A começar pelo Brasil, pois como escreveu o editorialista do Washington Post, “Entre líderes globais que minimizam o coronavírus, Bolsonaro é o pior”.
Amanhã, se a situação não mudar radicalmente, o país acordará com algumas centenas de milhares de vítimas da Covid a mais e um ditador no Palácio do Planalto.
por Richard Klein | 21 fev, 2021 | Brasil, Crônica, Livro
Capítulo 30
"Na Madalena revi teu nome
Na Boa Vista quis te encontrar
Rua do Sol, da Boa Hora
Rua da Aurora, vou caminhar."
Pelas ruas que andei. - Alceu Valença.
Não havia celulares na época, o único contato com nossas famílias era uma ligada semanal que faziamos na telefônica da cidade onde estivéssemos – se houvesse uma -, para assegurar que tudo estava bem. Como de praxe, na quinta feira antes do Carnaval, fomos na de Olinda. Quando sua vez chegou, Pedro fez duas ligações, uma para sua mãe e outra para Carla, sua namorada. Hospedada em um hotel em Fortaleza ela veio com a surpresa de que tinha alugado um apartamento em Boa Viagem, no Recife, e que estava vindo de avião no dia seguinte para passar o Carnaval com ele. O Pedro ficou nas nuvens, mas para mim a notícia de que passaria o Carnaval sozinho me deixou puto. Só que no final o resultado foi muito melhor do que podia imaginar.
Para compensar o furo, Pedro me deu o contato da Dinah, uma jornalista que havia conhecido em Porto Seguro. Sua amiga estava hospedada na casa do – nada mais nada menos – filho do prefeito de Olinda. Depois que saiu sem graça com suas tralhas do quarto, fiquei olhando para a porcaria do papelzinho com o número, pensando se ligava ou não. Só a conhecia de vista, com certeza ia me mandar pastar assim que atendesse. De qualquer forma arrisquei e fui para o orelhão da esquina, Quando atendeu, para minha surpesa, a Dinah me tratou como se fossemos amigos de longa data.
Ela ja estava sabendo “Richard! Claro que me lembro! Quer dizer que o Pedro, aquele galinha, vai passar o Carnaval no bem-bom e te deixou na mão.”
Simpaticíssima, me convidou para passar o Carnaval com ela. “Olha, o pessoal está se encontrando todo dia aqui na casa do Betinho Magalhães. O Pedro te falou quem ele é? Pois é! Por que você não aparece hoje à noite para eu te apresentar ao pessoal? Você vai adorar!”
Fiquei sem jeito de aceitar, mas na sexta feira a noite, inicio do carnaval, não dava para recusar. Anotei o endereço e mais tarde fui encontrá-la do lado de fora da propriedade VIP.
Quando cheguei, a Dinah já estava me esperando do lado de fora. Depois dos beijinhos na bochecha, foi falar com os seguranças que liberaram minha entrada. Lá dentro, pendurada no meu braço ela disse: “Já te arrumei um crachá, querido, este vai ser um Carnaval que você não vai esquecer nunca, o Pedro se deu mal!”
Dinah era uma mulata baixinha e troncuda. Não era das mais bonitas, mas pegaria tranquilo. Contudo, senti que não havia qualquer tipo de atração da parte dela e que estava fazando aquilo por ser genuinamente gente boa. Minha gratidão era imensa.
Animada, ela me deu um tour da casa antiga, imponente e bem conservada. Nos salões, nos jardins e nos corredores haviam convidados numa sofisticação incompatível com os festejos bombando nas ruas. Garçons andavam de um lado para o outro servindo bebidas e canapés. Para quem quisesse algo mais substancial, havia um buffet generoso de comidas frias e quentes com pratos e talheres de primeira linha para consumi-las. A mesa era enorme de madeira talhada e ficava numa sala colonial que parecia uma sala de museu.
Teminamos num saguão cheio de gente graúda, pessoas de fora e de estrangeiros, todos bem mais velhos, vestidos com estilo e conversando com compostura. Ninguém estava de terno por ser o Carnaval, mas estavam todos muito bem vestidos. Preocupado em não fazer a Dinah se arrepender do convite, tinha colocado uma roupa convencional, não era chique mas também não era a de hippie afrescalhado. Circulamos entre os convidados e enturmada, ela saiu me apresentando a todos. “Oi, este é um amigo do Rio, Richard. É filho de ingleses, músico, estudante de Economia e muito legal!”
As socializacões com os recém-apresentados não duravam muito, mas eram educadamente simpáticas. Ela chegou até a me apresentar ao Betinho, o dono da festa que pareceu ter ido com a minha cara.
Depois das apresentações, Dinah foi conversar com um cara por quem achei que estivesse interessada. Sem querer dar uma da mala e ficar na aba dela, pedi licença e fui dar uma volta na festa. Não pude deixar de pensar que aquele lugar e aquela gente seriam o paraíso para o Pedro. Apesar da estranha espécie de justiça divina, estava mais preocupado em curtir a folia nas ruas do que me enturmar naquela festa que prometia ser chata. Na pior das hipóteses, ia comer e beber bem e de graça antes de colocar o pé na jaca. Depois de uns dez minutos, já a ponto de ir embora, fui percebendo que além da fartura de bebidas – whisky, caipirinha, gin com tônica e cerveja – quase indiscretamente, estava rolando de tudo em termos de drogas: tinha gente nos cantos oferecendo lenços com lança-perfume, rodas de cocaína em alguns quartos e o quintal estava fedendo a maconha excelente. Escutei, inclusive, alguem dizer que tinha alguém distribuindo LSD.
Curtindo mais as possibilidades, fui percebendo que motivo da aparencia formal é que depois de se chaparem, a galera mais doida saía para o Carnaval na rua. Quem ficava na casa eram os caretas e os coroas.
Continuei na minha exploração e apos descolar uns pegas numa roda, achei num dos cantos do jardim um grupo de espanhóis que pareciam ter um estilo parecido com o meu. Como eu, estavam um tanto desconfortáveis em meio àquela bizarrice sofisticada. Cheguei junto e puxei papo em um portunhol terrível com um deles que repondeu com simpatia. Conforme os garçons foram enchendo nossos copos com doses generosas de whisky, fomos ficando mais desinibidos.
“Mira, conoces el dueño de esta fiesta?”
“Mais ou menos, soy convidado de uma convidada, compreendes? e ustedes?”
“Hombre, somos nadie, dissimos que trabajamos en el consulado y nos deran permisso. Que tontos!”
Cai na gargalhada.
“Sabes quien es el dueño?” Me perguntou um outro.
“Es el filho do prefeito de Olinda, entiende? Hijo del prefecto!?”
“Ah si, hijo del alcaide! Hoder! Que loco!” O Espanhol virou para os amigos para contar o que tinha acabado de ouvir.
Ficaram espantados e acharam engraçado ao mesmo tempo. Uma garota, bonita, falou: “Puta madre! La casa ni es del alcalde, es de su hijo! Como tienen plata estos cabrones!”
Já amigos, quando nos sentimos calibrados para a folia saimos da festa e fomos nos juntar à massa nas ruas já tomadas pelos blocos. Como a maioria dos outros convidados, a gente só voltava de vez em quando para um “pit stop”.
*
A festa durava o carnaval inteiro. Tinha perdido a Dinah de vista, mas com carta branca para entrar e sair na hora que quisesse, minha rotina não poderia ser mais estranha. Acordava no quarto alugado, que apesar da localização privilegiada mais parecia o de um barraco, e ía para uma das melhores casas da cidade para tomar café e “fazer a cabeça”. Podia chegar na hora que quizesse já que buffet do café de manha ficava à disposição até as duas da tarde. Depois dele, ficava conversando com aquela turma interessante e amiga de verdade. Por volta das quatro da tarde saíamos todos para pular um dos melhores carnavais do mundo. Havia duas meninas Australianas que curtiam pintar as caras dos outros e por isso saíamos para a rua parecendo a turma do Batman.
Lá fora, nos dipersávamos, nos encontrando ocasionalmente na confusão ou quando retornávamos para fazer os reabastecimentos necessários. No carnaval, a qualquer hora do dia, as ruas ficavam abarrotadas de gente de todas as classes sociais, cores e provêniencias consumidas pela loucura coletiva do frevo. O tempo todo me esbarrava com conhecidos; gente das várias paradas no litoral, amigos do Rio, os espanhóis do casarão, enfim com todo mundo menos o Pedro, que sumiu e não estava fazendo falta nenhuma, e a Dinah que devia estar curtindo um romance cm o cara da festa. Longe dos blues existenciais de Canoa Quebrada, me perdia naquela doideira e ficava até o amanhecer para depois voltar, tal como Cinderela, ao covil miserável onde tirava algumas horas de sono.
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por Nelson Nisenbaum | 20 fev, 2021 | Brasil
SOBRE A IMPRENSA E A POLÍTICA.
O grande encontro promovido na semana que passou, que reuniu em uma bela live, o jornalista Reinaldo Azevedo, Gustavo Conde, linguista, músico e ativista político e o historiador Fernando Horta, estabeleceu um marco no período recente, tão talhado por divisões tidas como insuperáveis e bolhas de aço, na medida em que houve de fato um diálogo do qual germinaram propostas para o enfrentamento do momento político. Entre os destaques da fala de Reinaldo, sua convicção de que o deputado Daniel Silveira teria que ser preso pelos crimes cometidos, tidos por uma minoria expressiva (nominalmente 26% da Câmara dos deputados) como apenas o exercício da liberdade de expressão. Pois foi que durante a transmissão ao vivo, saiu a notícia da prisão do deputado por ordem do Ministro Alexandre de Moraes, do STF.
Desta live, conduzida por gente corajosa que soube estabelecer um ambiente de respeito sem preconceitos ou ranços do passado, muitas reflexões podem emergir nos dias seguintes, e que me estimularam a sintetizar aqui numerosas ideias que cultivei ao longo dos últimos anos.
Reza a lenda, que pelos idos de 1958, na Copa da Suécia de futebol, o técnico Vicente Feola fazia uma preleção logo antes do jogo com a Rússia, na qual detalhava a melhor sequência de jogo, os papéis e movimentos de cada jogador, descrevendo quase que uma coreografia que levaria o Brasil à vitória. Imediatamente após a fala de Feola, o genial Garrincha teria dito: – Já combinamos com os russos?
A sábia fala de Garrincha era no fundo uma forma simples e prosaica de “desenhar” a teoria dos jogos, um corpo matemático formulado por John Von Neumann, um dos maiores cérebros que habitou o planeta.
Desenhando de outra forma, imaginem que um determinado time de futebol memorize toda uma coreografia que será executada da mesma forma com 4 adversários diferentes. Pergunta-se: os resultados dos jogos será igual pelo fato do time programar-se a fazer as mesmas coisas? Claro que não. Ainda que o jogo seja previamente “combinado com os russos”, fatores de acaso poderão interferir no resultado.
O jogo da política não é diferente sob esse aspecto, e diante do número de elementos envolvidos, infinitamente mais complexo e exigente.
Em uma palestra do professor Carlos Melo que assisti no início de 2010, perguntei (já antecipando mentalmente a resposta) ao douto cientista político sobre o que o PSDB, que governouo o país por 8 anos, teria feito no período de 2003 a 2010 e no ato da pergunta já antecipei publicamente o meu voto que seria dado à Dilma, para a perplexidade da audiência pertencente à elite financeira paulistana. A resposta do professor foi exatamente a que eu imaginava ser a verdade e ao mesmo tempo o que eu queria ouvir. Ou seja, nada. O PSDB ficou, no nível federal, fazendo uma oposição sem qualquer proposição e jogando cascas de banana acreditando que Lula nelas pisaria ingenuamente, além de nutrir uma dilatada esperança de que o governo Lula cairia diante do mensalão, da crise de 2008 e outras mazelas. E assim, o partido não produziu nada nos 8 anos seguintes a governar o Brasil, e por isso mesmo, jamais mereceria a vitória eleitoral, política, moral e até mesmo ética. O comportamento do PSDB seria extensivo a 2014, quando, para a minha perplexidade, em abril daquele ano, Aécio Neves anunciava os convites para a elaboração de um plano de governo. Sim, perplexidade, pois desta vez, o partido e seu candidato confessavam que em 12 anos de oposição não teriam construído um único esboço de projeto para o país. Esta era a principal oposição ao governo PT.
Tudo isso até agora para dizer quem eram os russos do grande pleito político nacional neste um pouco mais de década.
E tudo isso até agora para colocar a imprensa em campo aqui no nosso jogo, e convidando o Reinaldo Azevedo a comentá-lo.
Em um outro texto recente, contestei a tese de Millôr Fernandes que dizia que imprensa que não é oposição não é imprensa, e em meus argumentos, digo que tenho para mim que a função da imprensa é informar de forma equilibrada, e ainda que opinativa, preservando o conjunto de parâmetros que permita ao leitor a formação de opinião própria.
Na sua entrevista, Reinaldo Azevedo justifica-se neste contexto de forma convincente, no sentido de colocar como valor fundamental a sua independência e autonomia, mostrando que o mesmo nível de oposição que impôs ao PT e seus membros aplica ao governo atual, o que de fato faz, impiedosamente, se podemos assim dizer, e que da mesma forma que criticou o PT por aquilo que teve como erros, critica os desvios e crimes da Lava-a-Jato, expondo as vísceras das ilegalidades que tiraram Lula do jogo político em 2018. Sim, talvez Reinaldo se destaque por esta pureza de princípios e a coragem de ir contra a grande corrente.
Agora chegamos ao cerne do que pretendo expor. Tanto no jogo do Garrincha como no cenário político temos antagonismos permanentes, com a diferença que o jogo político não tem dois tempos e intervalo, e que quem tem que vencer é o país e não os partidos e seus representantes, por mais que o sistema tente corromper esta verdade na mente do eleitor/cidadão.
A imprensa “Millôr” centra o seu fogo no poder em curso ou no poder em exercício. Mas como disse o matemático Garrincha, tem que combinar com os russos. Ou seja, o jogo só pode ser entendido se analisarmos simultaneamente o time que está ganhando (no poder) e o time que está perdendo (disputando o poder). Isto por que o jogo em si mesmo é o resultado do confronto, e não do jogo de um lado só. A qualidade e as características do jogo imposto pelo adversário são também pedras fundamentais da construção política. Em termos mais objetivos, se o jornalismo se estabelece como cego voluntário em relação ao terreno do adversário, a compreensão do jogo fica impossível. Para nos atermos aos “autos”, como podemos imaginar um debate útil ou uma formação de opinião por parte da população que é informada por uma imprensa que ignora os movimentos – ou a inércia, no caso do PSDB – da oposição ou de outros adversários, comportamento este da boca torta do cachimbo de Millôr? Será que se Reinaldo, entre tantos outros analistas, radialistas, televisivos e blogueiros tivessem também centrado fogo na absoluta incapacidade da oposição de formular teses e projetos convincentes e fundamentados dentro do campo democrático e constitucional, estaríamos nesta quadra da história?
Longe de mim querer estabelecer qualquer santidade aos governos PT (ou a qualquer outro), mas sim mostrar que o jogo depende também dos “russos”. Se o adversário joga com canelada e carrinho por trás, dar canelada e carrinho por trás é o mínimo que o lado de cá terá de fazer se quiser realmente disputar a partida. Em todas as fases de qualquer processo político o comportamento do adversário moldará o jogo, esta é a síntese de Garrincha aplicada à política e consagrada previamente pela Teoria dos Jogos de Van Neumann.
Se eu pudesse pedir algo ao Reinaldo Azevedo, e sim, eu pediria isso a ele por que penso que ele é capaz de processar o que digo com tranquilidade (o mesmo seria impossível a Marco Antonio Villa, por exemplo, que usa de seu título acadêmico para ludibriar a opinião pública), eu pediria que doravante e nos momentos oportunos, dedicasse boa parte de sua retórica à análise do adversário. Certamente, se a imprensa tivesse observado o jogo dos “russos” com a mesma vontade e dedicação que usou nos últimos tempos, certamente o fascismo, que é uma síntese do unilateralismo materializado pelo olhar desta imprensa, não estaria hoje no poder e disseminado, ainda que na perigosíssima casa dos 30%, na nossa sociedade.
Se na política (e na atuação da imprensa como atores políticos que são!) não pudermos combinar com os “russos”, o mínimo a fazer é conhecer muito bem o jogo deles.
por Mauro Nadvorny | 20 fev, 2021 | Brasil, Comportamento, Justiça, Política
Daniel Silveira desceu ao Inferno, só que ainda não percebeu. Tem uma anedota antiga que diz que a uma pessoa sabendo que ia morrer, lhe foi dada a opção de escolher entre o inferno e o paraíso. Primeiro o levaram para conhecer o inferno. Ficou boquiaberto. Comida e bebida a vontade, gente se divertindo com jogos e praias paradisíacas, uma felicidade só.
Então foi ao paraíso. E viu todos compenetrados em seus pensamentos, discussões filosóficas sobre o sentido da vida, ninguém de porre, um verdadeiro tédio. Não teve dúvida, escolheu que ao morrer desejava ir para o Inferno, e assim foi.
Ao chegar no Inferno foi recebido a chicotadas e colocado para trabalhar em fornos de alta temperatura. Na primeira oportunidade perguntou ao Diabo como era possível, ele tinha vindo visitar antes e era tudo diferente. Bem, respondeu o Diabo, na primeira vez viestes como turista, agora chegastes como residente.
Daniel Silveira, no alto de sua arrogância, se achava intocável. Como turista no Congresso, acreditava que podia fazer o que bem entendesse e falar o que quisesse. Tudo garantido pela imunidade parlamentar, pelo direito a livre expressão e pelo Presidente da República a quem servia como Reinfeld serviu ao Drácula na obra de Bram Stoker.
O vídeo do ainda deputado é de uma agressividade ímpar. Ele despeja impropérios contra os membros do STF, instiga a população a persegui-los nas ruas, enobrece a ditadura com o AI-5 e deixa bem claro que na sua visão esta Suprema Corte deveria ser extinta.
Não bastasse tudo isso, no momento de sua prisão desacatou uma policial ao se negar a usar máscara, e continuou sua sina ao ganhar de presente dois celulares quando já se encontrava preso. Quem os forneceu vai pagar por isso.
A Câmara dos Deputados votou por sua permanência na prisão. Seus problemas estão apenas começando e a ficha começou a cair. Em sua defesa ele confessou que se excedeu (sic). Um pequeno eufemismo para um falastrão deste calibre. Parece que um pedido formal de desculpas com um profundo arrependimento não vai acontecer.
Talvez ele seja sortudo ainda para ter o mandato cassado por seus pares e assim ter sua via crucis remetida para um juiz de primeira instancia, onde o andar da carruagem é lento. Assim ele ganha tempo, uma vez que condenado já está. Como ironia, com uma gota de sarcasmo, fica a pergunta, se isto acontecer, ele vai apelar para o STF?
A memória de Marielle começa a ser vingada. Este ser que se elegeu quebrando a placa de rua em seu nome exibida como troféu, vai pegar caro por seu ato. Quem se achava acima da lei, pairando sobre nós, simples mortais, que tudo podia e a ninguém devia satisfação, para ele o jogo virou.
Claro que na justiça brasileira, em geral, existe um longo caminho a ser percorrido para que ela seja de fato exercida com parcimônia. Os salários dos nobres magistrados são aviltantes. As penas para maus juízes, por demais brandas. O CNJ deixa muito a desejar. Uma reforma se faz premente.
Pode-se discordar de sentenças proferidas por um juiz. As vezes até mesmo contrárias a sentenças já proferidas. Algumas até contrárias aquelas já proferidas por cortes superiores. Raro, mas não impossível, contrárias ao que diz a lei e a constituição. Mas não se pode atacar a justiça.
Daniel Silveira atacou ao atacar o STF como um todo, e seus desafetos da corte em particular, atacou a justiça. Não teve papas na língua. Achou que poderia clamar por uma ditadura em nome da democracia, que pensava ele, não punha limites aos direitos do cidadão. Errou na forma e no conteúdo. Se ferrou.
Nós da esquerda só temos uma coisa para dizer: Daniel tá preso, babaca!
Gratos estamos todos nós que amamos e respeitamos a democracia. Não importa a ideologia. Felizes com a atitude do STF, mesmo discordando de muitas outras. De agora em diante, Daniel Silveira passou a ser residente no Inferno, um lugar perfeito para ele.
por Richard Klein | 14 fev, 2021 | Brasil, Conto, Crônica
Capítulo 29
“Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes acesas agora."
Tempo Perdido - Renato Russo
Acordamos e percebemos meio sem jeito que os gaúchos tinham voltado e tinham deixado a gente ficar com o quarto. Era cedo, todos estavam dormindo, digerindo a noitada boa. Tomando cuidado para não fazer barulho, continuamos onde tínhamos parado na noite anterior.
Revitalizados, saímos em silêncio e fomos para praia curtir a manhã. Só que na luz do dia, não rolou a felicidade prometida. Quando começamos a nos comunicar por meio de palavras, descobrimos que éramos incompatíveis. Para ela, eu era um garoto mimado da Zona Sul do Rio de Janeiro, perdido no meio de um exercício de autoconhecimento. Para mim ela era uma menina desinteressante de uma cidadezinha próxima, preocupada em voltar logo para casa porque sua mãe a queria na loja da família naquela tarde. Quando nos despedimos, sabíamos que o relacionamento tinha durado apenas aquela noite. No fim de semana seguinte, a vi andando de mãos dadas com um dos gaúchos. Não me importei. O momento havia sido meu, embora a garota não fosse mais.
Por sua vez, Pedro tinha deixado de ser de muitas e tinha arrumado uma namorada. Carla era uma lourona de farmácia de trinta e muitos anos e marchand no Rio. Junto com a entusiasmo inicial havia o encantamento com a turma dela, possíveis novos companheiros de viagem, que estavam subindo a costa nordestina em caravana. Era um pessoal mais velho, descolado, que trabalhava em jornalismo, publicidade e televisão.
Sem ter como me aproximar deles, sem muito saco para as gauchices dos gaúchos e cansado dos joguetes do Pedro, passei a andar com os músicos e a malucada do artesanato. Mas logo que percebi, tinha entrado num lugar estranho. Por conta de um elitismo que rolava mesmo entre os mochileiros, aquele grupo era tido como o letárgico “clube dos hippies perdedores”. Se tornar parte dele era como ser transferido para a área dos detentos difíceis num sistema penitenciário invisível.
A verdade é que quanto melhor conhecia a galera do circuito de mochileiros no Nordeste, mais percebia que ali não tinha nada de alternativo. Fora os discípulos teleguiados do Rajneesh, ninguém tinha nada a dizer. O negócio era tirar onda. A única diferença entre eles e os caretas de sempre, era a sua crença de que seus cortes de cabelo diferentes e suas roupas transadas os faziam melhores e mais legais do que o resto. Esses eram os anos oitenta, o início da era do individualismo exacerbado.
De repente isolado num território estranho, mesmo que maravilhoso, me vi inundado por um senso de estranhamento. Havia a contradição de que era para estar contente, aproveitando os melhores dias de minha vida talvez no melhor país do mundo para isso. Do lado de fora havia sol e curtição, mas do lado de dentro a coisa era muito diferente. A tempestade econômica, a carência afetiva, o isolamento, o beco existencial sem saída e o egoísmo como a matéria prima do tecido social faziam chover e às vezes trovejar.
Numa tarde, Pedro e eu nos sentamos na praia para conversar. Ele contou que a coisa estava indo bem entre ele e a Carla mas que não tinha lugar para ele na caravana. Sabiamos que cada um estava procurando coisas diferentes naquela viagem, mas chegamos à conclusão de que apesar daquilo estávamos juntos e seguiríamos com o plano original. Eu iria ter que aturar um hippie de araque se esforçando para parecer descolado para conseguir o que queria, enquanto ele iria ter que engolir com um cara que se julgava um hippie de verdade, mas que havia perdido a noção da realidade.
Dando sequência à aventura, depois de Canoa Quebrada iríamos começar a descer de volta para casa. O Carnaval estava chegando e íamos passá-lo em Olinda. A conversa fez a amizade voltar e depois das brincadeiras de sempre ficamos sem poder esperar pela hora de pular o frevo nas ruas coloniais.
*
Antes de voltar para a terra do melhor carnaval da minha vida, resolvemos parar por alguns dias em Natal. Três dias depois, lá estávamos nós na estrada de novo, mais bronzeados que nunca e de alma lavada depois de um mês e meio sob o sol do Nordeste. Foi muito bom sentir mais uma vez o vento e a liberdade dos caminhões na rodovia.
Natal se mostrou tranquila e maravilhosa. Sendo o ponto mais próximo entre a África e a América do Sul, sua localização era estratégica. A cidade tinha servido como base para navios e aviões americanos durante a segunda Guerra Mundial e ainda havia uma forte presença militar. Talvez por isso foi a cidade mais ordeira que visitamos. O albergue para estudantes foi também o melhor em que ficamos, com quartos modernos, limpos e amplos. Com suas ruas calmas, Natal mostrava o que o Brasil poderia ter sido caso “Ordem e Progresso”, o lema positivista da bandeira brasileira, tivesse sido seguido.
Após duas noites na Casa dos Estudantes fomos acampar na praia da Redinha, na época um lugar quase selvagem do outro lado do rio Potenji, que bordeia a cidade. A areia branca e fina de suas dunas enormes mais tarde faria de lá um dos melhores lugares do mundo para a prática do kitesurf e um cenário ideal para a gravação de vários comerciais de praia, nacionais e internacionais. Por ficar no ponto onde o continente Sul Americano se curva para o oeste, o vento na região era forte e as ondas eram de longe as melhores que vimos na costa nordestina. O problema era que a água era infestada de caravelas, um tipo de água-viva cujos tentáculos causavam uma ardência de dar febre; daí apesar de estarmos doidos para pegar jacaré preferimos ficar na praia bebendo cerveja.
Por causa de sua aura militar, Natal não era bem cotada no circuito mochileiro. Este porém ficou evidente na praia da Redinha onde fora os pescadores nativos e algumas famílias da capital que tinham casas de veraneio ali, não tinha mais ninguém. Apesar de lindíssimo, o agito do lugar era inexistente. De qualquer forma, a experiência deu uma ideia de como deve ter sido explorar a costa Nordestina em gerações anteriores.
*
Não aguentamos a calmaria e voltamos no dia seguinte. O bom daquela pausa foi que caiu como uma férias das férias. Quase não tínhamos se visto em Canoa Quebrada e aproveitamos para colocar as coisas em dia. Entre outros assuntos falamos sobre dinheiro e, para nossa surpresa, descobrimos que havíamos gastado bem menos do que o previsto. Como prêmio pela frugalidade, resolvemos nos dar de presente uma passagem de ônibus até o Recife.
Na manhã seguinte, num raro dia nublado acordei cedo e me ofereci para ir à rodoviária comprar as passagens. Como viajaríamos naquela mesma noite, levei a mochila para já deixá-la no guarda-volumes.
Saí pelas ruas semi desertas achando graça da sensação que causava pelo visual. Na rodoviária, na hora de pagar as passagens a atendente disse que não dava para comprar o bilhete do Pedro porque não estava com sua identidade. Irritado, insisti e ela acabou me aconselhando a tentar pegar uma autorização na delegacia de polícia da estação. Fui lá mas a porta estava trancada. Sem ter nada programado para aquele dia, fiquei esperando alguém chegar. Eram umas onze da manhã e por volta das onze e meia um homem magricelo, de barba por fazer e cabelos grisalhos de uns cinquenta e poucos anos apareceu.
Enquanto tirava as chaves do bolso, perguntei: “O senhor é o delegado da estação?”
O cara me olhou de cima a baixo e respondeu meio seco e estranho. “Sou sim, mas se o senhor quiser falar comigo vai ter que ser lá dentro.”
Pelo bafo dava para sentir que estava bêbado, a ponto de se esforçar para colocar a chave na fechadura. Depois de alguns segundos embaraçosos, finalmente conseguimos entrar. Antes que começasse a explicar o motivo de estar ali, ele me mandou colocar minha mochila na mesa e abrir.
“Abre esta merda agora.”
Sem acreditar no que ouvi e querendo sair logo com a autorização do Pedro concordei.
Enquanto o cara foi jogando as coisas no chão falei serenamente: “Depois que o senhor acabar a revista, posso pedir uma autorização de viagem para o meu amigo? Estou sem a carteira de identidade dele. Por isso vim aqui.”
“Autorização é o caralho, maconheiro!” O cara me empurrou de lado e começou a tirar as coisas, claro sem encontrar nada. Infelizmente – mas felizmente para a ocasião – o veneno de Maceió tinha acabado em Canoa Quebrada. Frustado e com um monte de roupa suja espalhada na mesa e no chão, o cara não desistiu.
“Cadê a porra da maconha?!”
“Eu não fumo isso. Pode procurar à vontade, o senhor não vai achar nada.”
“Ah, e isso daqui?” Ele tirou duas conchas enormes que tinha achado na praia e que ia dar de presente para minha mãe e para a Dona Isabel.
“Isso aí são conchas.” Já me segurando para não ridicularizar o cara.
Ele deu uma sacudida para ver se caia alguma coisa de dentro delas, mas nem um barulhinho.
“Agora a gente pode falar sobre a autorização de viagem?”
“Aqui não tem autorização de viagem nenhuma.” Ele me deu um olhar torto e desafiador. “Essas conchas estão apreendidas. Vão ficar aqui comigo!”
“Como assim? Aprendidas porquê? O senhor tirou elas da minha mochila, elas são minhas!”
O cara não gostou e começou a tremer de raiva. Aflito, abriu a gaveta para pegar uma coisa. Pensei que fosse minha a autorização, mas não, ele tirou um martelo e colocou a parte de metal próxima à minha orelha.
“Tu é um veado frouxo, ouviu? Eu falei que essas duas conchas são minhas. São ou não são !? ”
Com a adrenalina já jorrando, levantei o tom: “Meu irmão, se acontecer alguma coisa comigo nessa merda, tu tá fodido, meu pai é jornalista da Globo, já ouviu falar? Ele fode você e a polícia inteira dessa rodoviária. E tu vai preso ou no olho da rua! Abaixa essa porra agora e me devolve as conchas, entendeu?”
O cara comprou meu blefe e engolindo a raiva, colocou o martelo de volta na gaveta.
Levantei, coloquei minhas tralhas e as conchas de volta e saí sem nem perguntar como que aquilo ia ficar. Voltei para o guiche para perguntar e a moça era outra. Acabou que a polícia não podia dar a autorização que eu precisava, a primeira menina tinha mentido.
Comprei a minha passagem, voltei para o albergue e deixei que Pedro resolvesse o problema de sua passagem sozinho. Viajamos na mesma noite e chegamos em Recife dois dias antes do Carnaval. Quando descemos do ônibus, do nada encontramos o Mineiro, um amigo de Salvador. Foi uma feliz coincidência porque não tínhamos lugar para ficar e ele estava doido atrás de alguém para rachar o quarto que tinha conseguido em Olinda, algo que todo mundo dizia que era impossível durante aquela época do ano. Quando chegamos, percebemos o tamanho da sorte que demos; nosso quartel general seria a duas quadras da Praça do Carmo, o centro nevrálgico da folia.
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por Mauro Nadvorny | 8 fev, 2021 | Brasil, Comportamento, Opinião, Política
Na última sexta-feira tive a triste visão do Prof. Gonzalo Vecina Neto, eminente e reconhecido médico sanitarista, fazendo uma defesa desesperada da ANVISA, na qualidade de fundador da agência, em uma entrevista na GloboNews que basicamente versava sobre a súbita mudança da agência na política de licenciamento para uso emergencial de vacinas e sobre a pressão do Congresso para que a mesma estabeleça um prazo de 5 dias para a avaliação de pedidos de registro emergencial de qualquer vacina doravante.
De fato, concordo com o Dr. Vecina no que tange à (necessária) respeitabilidade da agência e de seu potencial técnico, além de grandes feitos em prol da saúde e segurança sanitária de nossa população. Mas nem só de glórias e flores vive a nossa ANVISA. Na última edição do meu boletim semanal “Coronavírus e Política, uma infecção cruzada” (gravada no canal Coletivo Estrela, no Youtube) fiz uma longa introdução trazendo uma pequena lista de eventos históricos onde a ANVISA deixou marcas antipáticas de um complexo burocrático desconectado da vida real dos profissionais de saúde e de seus pacientes, e portanto, não me estenderei aqui sobre o passado. Ainda assim, não custa nada manter vivos na memória os eventos onde a ANVISA interferiu de forma excesivamente voluntariosa na vida das pessoas sob pretextos “puramente técnicos”, sendo o mais clássico (e semelhante ao momento atual) o caso dos anorexígenos anfetamínicos e não anfetamínicos, por ela banidos do mercado contrariando todos os pareceres das sociedades de endocrinologia e mesmo a conduta de outras importantes agências estrangeiras. O resultado desta política foi a inclusão de uma medicação usada para o tratamento do TDAH no rol de prescrições até de serviços universitários, o que aumentou tremendamente o custo do tratamento de um grande número de pacientes e também para o estado. O fim da ópera deu-se quando o Congresso decidiu legislar sobre o caso e restabeleceu a “legalidade” dos anfetamínicos, atropelando a agência, em semelhança ao que agora ocorre em relação às vacinas.
É certo que a ANIVSA é um órgão de fundamento técnico e que assim deve proceder. Entretanto, ela é executora de uma política, que é a política de regulação sanitária. Com este status, ela deve ser como a mulher de César, a quem não basta ser honesta, deve parecer honesta. E perdeu boa parte de sua credibilidade ao ser desavergonhadamente aparelhada pelo indigno presidente da República, que plantou na presidência da agência um amigo pessoal de alta patente (o Contra-Almirante Antônio Barra Torres) sem nenhum passado técnico que o capacitasse ao cargo e fortemente alinhado ideologicamente ao chefe do executivo.
No atual contexto de uma pandemia grave como a de COVID-19, é óbvio que medidas urgentes se impõem, entre elas o projeto, testagem e aplicação das vacinas, e desde o trimestre inicial de 2020 apontava-se que em algum momento ainda deste ano haveria a demanda regulatória para o uso emergencial. No final do último trimestre de 2020 surgiu a demanda do registro emergencial das vacinas. Qual foi a resposta da ANVISA? Simplesmente nenhuma. Não havia protocolo de aprovação emergencial na agência, o que teve que ser formulado às pressas e que causou atraso na liberação da Coronavac e da Oxford-AstraZêneca. Em outras palavras, a agência parece ter dormido de março a novembro e não foi capaz de antecipar-se à mais que óbvia demanda escandalosamente visível no horizonte.
Para piorar tudo no que tange à sua imagem enquanto protetora da saúde e da segurança sanitária da população, a agência quedou-se silente em relação ao ilegal exercício da profissão médica por parte do presidente da República, que literalmente prescreveu tratamentos inexistentes para COVID-19 a todos os brasileiros. Ora, aquela agência que me obriga como médico a ter cinco tipos de formulários para prescrever medicamentos aceitos pela ciência e referendados em todo o mundo, que notabilizou-se por uma série de interdições corretas, nada faz para coibir o uso incorreto e arriscado de medicações sob protocolo do Ministério da Saúde formulados goela abaixo pelo chefe do executivo. Esta omissão certamente será registrada como o mais trágico evento da história da ANVISA. E foi criminosa.
Se fosse apenas pelos dois eventos acima, a agência já estaria em uma grande enrascada.
Longe de mim querer criticar a defesa apaixonada do Prof. Vecina, e longe de mim querer a derrocada da agência. A questão é que os fatos mostram que a agência, enquanto resultante da soma de suas partes, seu corpo técnico e funcional, não consegue transmitir uma imagem de coerência à população geral e muito menos aos que tentam heroicamente nos tempos de hoje praticar uma medicina ética e científica. Como clínico que sou, só posso observar que o conjunto de sinais e sintomas apresentados pela nossa “paciente” são compatíveis com um quadro clínico de descolamento da realidade. Sim, o corpo técnico da ANVISA deve ter responsabilidade política além de técnica. Se como médico tenho o dever ético de zelar pelo bom exercício da profissão e também pela boa imagem da medicina e da classe médica, por analogia, e com ainda mais intensidade pelo grau de autoridade que a agência tem, seu corpo funcional deve capacitar-se continuamente ao diálogo com a sociedade e manter em construção permanente um conjunto de ações e princípios que despertem na sociedade o sentimento de segurança sanitária, além da segurança em si mesma.
Ainda no campo do diagnóstico, a guerra entre Ricardo Barros, líder do governo na Câmara e Antonio Barra Torres, mostra a fratura nas hordas bolsonaristas, algo previsível quando temos no governo um bando de loucos, bem adequadamente nominados pelo ex-presidente Lula.
É digna de compaixão mesmo a situação de muitas pessoas que já dedicaram boa parte de suas vidas à agência, e com grandes realizações. Mas o episódio deixa claro que o tecnicismo e o academicismo não dão conta sozinhos de um país com as nossas características. A autonomia de uma agência como a ANVISA só pode ser garantida por um corpo funcional fortemente articulado com a sociedade e que tenha preparo e formação política para que esteja sempre em estado de alerta e consciência sobre as forças do jogo do poder. É ingenuidade imaginar que a ANVISA sobreviva tão somente de tecnicidade. O que aliás, cabe a qualquer instituição. As más consequências desse erro estão no palco.