por Richard Klein | 6 mar, 2021 | Brasil, Conto, Crônica
Capítulo 31
“A gente somos inútil.”
Inútil - Ultraje a Rigor
Voltei para casa exausto. Dois dias depois, quando me recuperei, ao invés de estar contente por ter vivido uma viagem épica e de poder me deleitar novamente nos confortos que sempre tinha considerado como dados, a sensação foi de estranhamento. Ter uma empregada para arrumar minhas coisas, um quarto só para mim e comida sempre à disposição sem que precisasse trabalhar para nada daquilo parecia errado. Apesar da mordomia, me sentia como um animal enjaulado numa existência protegida que agora parecia limitada e limitante.
O clima estava péssimo. Renée e Rafael, ansiosos e um tanto decepcionados comigo, achavam que minhas aventuras tinham ido longe demais. estava perdendo um tempo precioso; precisava tomar um rumo na vida, fazer sentido, mudar de visual e de atitude. Para um casal já idoso e com o passado complicado deles, ver o filho largado daquela maneira era difícil . O método paterno de mostrar descontentamento foi o de sempre; passar semanas sem me dirigir uma palavra, uma postura passivo-agressiva à qual já tinha me acostumado. Do lado da materno, muita gritaria e ofensas.
A liberdade que vivi no Nordeste era incompatível com aquela realidade. Não era só em casa; na faculdade e nos outros círculos era como se todos tivessem voltado para a sala de aula menos eu. Nada me interessava e passei a achar tudo e todos insuportáveis. Me sentia como Ícaro, caído dos céus por ter voado alto demais, ou Gulliver, imobilizado por liliputianos por não caber em seu mundinho.
Lá fora a situação também estava pesada. Por conta da crise econômica, o instinto de gado era rei e todos estavam mais caretas do que nunca. Para manter minha identidade e meus princípios vivos, tinha que nadar contra uma corrente de medo e de conformismo. Visto de fora, parecia que havia perdido o contato com o que se considerava a realidade do dia a dia; um cidadão de segunda classe a ser evitado.
Foi difícil voltar às aulas. O curso estava se aprofundando em teorias micro e macroeconômicas, cálculo e outras matérias exigentes. Completamente fora de sintonia, não tinha nem a concentração nem a vontade para continuar. A necessidade de digerir o que estava acontecendo, meu sonho antigo de ser diretor de cinema, a descoberta da música, a falta de pessoas com quem me identificasse, a distância da minha família e dos amigos, a falta de um relacionamento amoroso para ajudar a amenizar o caos; tudo era difícil.
Precisava de tempo e espaço para refocar. Pedi a meus pais para que me deixassem passar um ano trabalhando em um kibutz, um tipo de comunidade agrícola anarquista em Israel, mas a resposta foi um sonoro não. Para eles, o tempo de diversão e divagações tinha se esgotado. Agora era hora de virar homem e trabalhar duro para construir um futuro. É claro que os argumentos faziam sentido mas não encontrava nem forças, nem razão para pairar acima daquele mar de confusão e capitular.
Para complicar as coisas, um dia Rafael, já nos seus 80 anos, passou mal ao sair para almoçar no escritório, desmaiou no elevador e seus funcionários, assustados, o levaram depressa a um hospital. Quando fomos vê-lo no CTI, os médicos disseram que seu coração estava fraco. Ainda que em retrospecto isso fosse previsível dado ao stress que estava passando, o episódia e a notícia pegaram a família de surpresa.
Meu velho estava enfrentando o caos econômico aos trancos e barrancos. Continuava com suas andadas solitárias de madrugada na praia de Ipanema durante a semana e nos fins de semana repousava na tranquilidade de Teresópolis. Isso, e uma dieta saudável o tinham levado a uma idade avançada com saúde e lucidez, mas estava difícil. O paraíso tropical onde havia desembarcado trinta anos atrás estava irreconhecível. Após tantas conquistas, o Brasil parecia agora estar reclamando tudo que lhe havia dado. Com uma inflação mensal beirando os trinta por cento ao mês e uma estagnação econômica devorando o país, tudo parecia de cabeça para baixo.
Como tantos outros, o negócio dele estava em dificuldades. Do seu ponto de vista, a família estava em frangalhos; eu tinha enlouquecido e, apesar da Sarah – ainda a sua grande esperança – estar indo bem em sua carreira de dentista, tinha entrado em um relacionamento tóxico e não estava falando com nenhum de nós. O sítio em Teresópolis, que deveria ser o lugar onde aproveitaria sua aposentadoria, tinha se tornado um problema de manutenção sem fim, um ralo financeiro e mais uma pedra no seu sapato.
Apesar das recomendações do médico, meu velho não se permitia descansar. Se parasse de trabalhar o estilo de vida da família desapareceria. Viciados que estávamos no seu esforço, a gente achava ele estaria ali para sempre provendo o nosso sustento e nao davamos valor ao seu martírio. Quanto a mim, estava absorvido demais comigo mesmo para oferecer qualquer tipo de ajuda e, de qualquer forma, ele descartava de cara qualquer sugestão que eu desse – como a de vender o negócio e a casa para que pudesse aproveitar seus últimos anos em paz.
Embora pensasse muito a respeito, sair de casa e mandar tudo para “aquele lugar” não era uma opção. Naquele tempo, jovens de classe média no Brasil só saíam de casa quando achavam um bom trabalho ou quando se casavam. Na Zona Sul carioca, ninguém jamais consideraria dividir um apartamento com amigos ou alugar um quarto na casa de estranhos. Mesmo se tivesse resolvido, pesquisando os classificados nos jornais descobri que os poucos empregos disponíveis para gente sem qualificação e sem experiência pagavam menos que a minha mesada.
A tensão em casa foi escalando até chegar a um patamar insano. Quando ficou insuportável, conseguimos chegar a um acordo. Eu abandonaria meu curso de Economia para seguir meu plano original de estudar cinema. Para mim, essa escolha me colocaria minimamente de volta nos trilhos, para eles a opção era melhor do que eu largar tudo e ficar em casa de vagabundagem. O plano era tentar uma vaga em uma faculdade de cinema em São Paulo.
*
Alheia aos dramas familiares, meus e os de muitos outros, a intensidade da vida no Rio seguiu em frente. havia novidades e a estrela da hora era o grupo de teatro Asdrúbal Trouxe o Trombone. De várias maneiras, eram o que a nova geração estava precisando: uma voz própria. Sua inovação é que eram “gente como a gente”, meninos e meninas de classe média aprendendo a viver e a lidar com as dificuldades dentro e fora de casa. Diferente do que rolou em gerações passadas e o que ainda rolava nas universidades, eram totalmente apolíticos.
Esse grupo era icônico para as mudanças que estavam acontecendo na cena cultural carioca e, consequentemente, na de todo o Brasil. Influenciados por Monty Python e pela contracultura em geral, o Asdrúbal era uma versão mais inteligente, inclusiva e bem humorada dos surfistas e dos roqueiros. A trupe, em sua maioria era formada por atores e diretores amadores da Zona Sul carioca, se lançou com a peça “Trate-me Leão”. Por sua postura atrevida e engraçada, tocando em assuntos fáceis de se identificar, a peça foi um tremendo sucesso e viajou pelo Brasil afora.
O Asdrubal entrou – ou melhor, não entrou – na minha vida da seguinte maneira:
Estava em casa já de calção preparando para ir ao Nove num glorioso sábado de praia. Meus pais tinham ido para Teresópolis e estava batendo papo com Dona Isabel na cozinha almoçando o meu habitual bife acebolado com arroz e feijão. A televisão estava ligada e, de relance, vi alguns dos atores do já famoso Asdrúbal dando uma entrevista. No final, anunciaram que estavam oferecendo aulas de teatro grátis e pedindo a todos que participassem.
Aquilo chamou minha atenção e fiquei tentado. Enquanto fui andando descalço para a praia fiquei pesando os prós e os contras de participar do curso ou não. Aquilo poderia ser uma oportunidade para conhecer gente parecida comigo e, quem sabe, uma chance para me aproximar do objetivo de fazer cinema. Porém, no fim das contas, meu instinto de rato de praia falou mais alto, dizendo que aquilo era coisa de usuário de fio dental e de caretinha tirador de onda do tipo que queria evitar. Além do mais não dava para ator, com e sem trocadilho.
Aquele homofobismo juvenil foi um dos maiores erros da minha vida. Muitos dos maiores atores e roqueiros cariocas da minha geração, como a banda Blitz, o cantor Cazuza, comediantes como Luís Fernando Guimarães, a atriz e apresentadora Regina Casé, entre outros, surgiram daquele curso ou eram os professores lá.
A resposta foi forte e com tantos alunos inscritos separaram a galera em grupos. Bruno, um amigo meu, entrou para um deles. Ainda que não fosse um ator nato, tinha uma câmera de vídeo e talento para filmar e editar. Para o Asdrúbal, os dois atributos foram um presente dos deuses e começaram a lhe pedir que filmasse as peças e outros eventos. O Asdrúbal cresceu e o Bruno cresceu junto. Uma década mais tarde, Bruno tinha ganho vários prêmios como melhor diretor de vídeo musical na MTV Brasil e é hoje um dos maiores produtores do país.
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por Mauro Nadvorny | 6 mar, 2021 | Brasil, Comportamento, Política
Existem momentos na história onde não somos capazes de prever o futuro. Muitas empresas pagaram caro por isso, algumas devido a sua arrogância, outras devido a sua burrice mesmo.
São muitos exemplos desta falta de bom senso, ou como queiram chamar. Lembram das empresas de Máquinas de Escrever antes dos computadores? Antes disso mais longe no tempo, as empresas de transporte que utilizavam carruagens com a chegada dos veículos movidos a motor. E os fabricantes de filmes para máquinas de fotografia, de toca-discos, e por aí vai. Todos insistiram que seus negócios eram eternos.
A cegueira de muito empresários levou a ruína suas empresas e com elas o desemprego de milhares de trabalhadores. A história está recheada de exemplos e ainda assim até os dias de hoje, muita gente se recusa a aprender com o passado repetindo os mesmos erros.
O mundo hoje disponibiliza informações para todos. A Internet permitiu que qualquer ser humano, praticamente em qualquer ligar do planeta, acesse a rede para obter informações e ensinamentos que antes eram restritos a poucos. Hoje com um celular nas mãos e um acesso a rede, podemos explorar o mundo todo.
Quando falamos de pandemias, a maior delas a Gripe Espanhola, está lá para nos ensinar do que um vírus é capaz. Foram milhões de mortos, uma tragédia mundial com a qual quase, ou nada aprendemos. Repetimos os mesmos erros. Sabemos como devemos nos comportar, ainda assim, deixamos a desejar.
Aprendemos muito neste ano que passou. Temos conhecimento sobre o que enfrentamos, o que pode ser feito e o que não deve ser feito. Cada país fez suas apostas no enfrentamento e com isso temos clareza com relação ao que deu certo e ao que fracassou. Todos são unânimes em alguns aspectos.
Primeiro o óbvio que é o uso de máscaras, distanciamento social e higiene. Estas três regras ajudaram todos os países do mundo no combate ao Covid-19. Depois temos o Lockdown, o fechamento da atividade econômica com a população impedida de circular. Este meio se mostrou eficaz para reduzir o fator “R” (o número de novas infecções causadas por uma pessoa infectada), e consequentemente reduzir o número de novos doentes. Por último a aplicação das vacinas, a única maneira de prevenir a doença.
Em paralelo sabemos que não existe tratamento medicamentoso preventivo. Para os mais antigos, é como se tomar Vitamina C, prevenisse a gripe, como quiseram nos fazer crer no passado. Também sabemos os percentuais de casos que vão se tornar graves e, infelizmente o número dos que vão a óbito.
Todas estas informações permitem aos países que dispões de um comitê de crise, municiar as autoridades com o que deve ser feito, seja lançar mão do Lockdown, de aumentar o número de leitos de UTI, de disponibilizar respiradores e estoque de oxigênio, e obviamente a compra de vacinas.
A importância de vacinar a população no menor prazo de tempo possível é essencial para reduzir a circulação do vírus e as consequentes mutações. A ciência sabe que todo vírus se adapta. Sua mutação normalmente aumenta sua capacidade de driblar as defesas humanas se tornando mais letal. Quanto antes ele é combatido, menor o número de mutações. As novas mutações do Covid-19 fazem dele um vírus mais agressivo, mas infeccioso e que agora é capaz de atacar crianças também.
Como eu comecei escrevendo, houveram momentos na história em que decisões mal calculadas levaram a ruína de negócios centenários. Não foi diferente com o Covid-19. O número de mortos poderia ter sido menor em muitos países se tivessem tomado as medidas necessárias que levassem a um menor impacto causado pelo vírus. Felizmente, quase todos eles, a exceção do Brasil entre as grandes nações, aprenderam a lição e mudaram sua tática de enfrentamento da pandemia. Aprenderam com seus erros e corrigiram suas ações.
O que o mundo assiste hoje, e o que os brasileiros estão vivendo é o inicio da perda de controle e o colapso dos hospitais na sua capacidade de receber e tratar novos pacientes com a falta de UTIs. Os médicos já devem estar escolhendo quem vai morrer e quem vai ter uma chance de tratamento. A mesma coisa aconteceu na Itália no ano passado, mas is italianos aprenderam da pior maneira a não menosprezar o vírus e outros países não repetiram o mesmo erro.
Com a circulação livre do vírus devido a falta de vacinas, o consequente aumento de mutações pode tornar as vacinas existentes ineficazes no Brasil. Uma tragédia anunciada em um país onde não existe um comitê nacional de crise e o Ministro da Saúde é um milico que não sabe sequer como abrir um bandeide.
Se o Brasil não decretar um Lockdown nacional de pelo menos 3 semanas, se não aumentar muito o ritmo da vacinação, o país vai conhecer sua maior tragédia humana em tempos e paz de sua história. Uma carnificina de total responsabilidade de seu presidente, o único entre os países do G20 a não ter se vacinado e continuar negando a importância da vacinação.
por Mauro Nadvorny | 5 mar, 2021 | Brasil, Opinião, Política
“A Divina Comédia” integra as obras que descrevem o mundo, como a Bíblia, a Odisseia, Dom Quixote. Dante escreveu que estava perdido no meio da selva escura, e nós hoje estamos no meio da cidade escura, no meio de um país escuro que busca um norte, diante do inferno de mortes. Na primeira parte de “A Divina Comédia”, no sétimo círculo do Inferno, estão os violentos contra o próximo, os homicidas e tiranos. São os que não se arrependem de seus atos e por isso permanecem para sempre no reino de Lúcifer. Um exemplo histórico dos que são violentos com o próximo, e que não é ensinado nas escolas, foram os senhores da Casa Grande. Nossos antepassados foram responsáveis pela morte de escravos negros e índios. Chicotadas e castigos terríveis eram comuns nos 350 anos de escravidão no Brasil. Esse passado é uma sombra pesada sobre o hoje e o amanhã. Por isso, cada vez que ocorrem políticas populares com justiça social, irrompem os moralistas golpistas, expressão da podridão que une a corrupção com o ódio aos direitos do povo. Essa é a nossa sociedade patológica, talvez nossa maior tragédia que piorou na pandemia.
O País agora chega aos 260 mil mortos nessa primeira semana de março de 2021. É imperioso conhecer os que têm ajudado o vírus a se propagar, ao desprezarem o vírus, promovem aglomerações, não usam máscaras e desprezam as vacinas. O vírus mata e mata e não para de matar, cada vez mais, há 365 dias. Os que trabalham em saúde pública deviam comandar essa guerra contra o vírus, são os que falam e escrevem há um ano que se precisa de máximos cuidados. Os opositores das ciências, os negacionistas, facilitaram a propagação do vírus gerando um inferno.
Os cruéis paranoicos se imaginam perfeitos, projetam todo o mal nos demais, e eles se colocam acima do bem e do mal. Por isso, no mundo de Dante, eles são condenados ao Inferno. Ele conhecia bem o os violentos tiranos, pois foi obrigado a se exilar para não morrer e no exílio escreveu a “Divina Comédia”. A escrita foi sua forma de luta, sua capacidade criativa superou a crueldade e até hoje é lembrada.
A resistência à crueldade é difícil, é um desafio a todos, a cada um, pois não devemos ser cúmplices da política da morte, da necropolítica. Temos o dever, por dignidade, de ser a favor da vida, a favor da vacina já, a favor da máscara, a favor da higiene das mãos e do distanciamento. Em todos os países civilizados os governos têm obrigação de seguir os infectologistas e os profissionais da saúde pública com experiência e conhecimento. Entretanto, aqui tem sido diferente, um general da ativa foi designado ministro da Saúde e está perdido por não conhecer virologia, as vacinas e a saúde. Estamos sem rumo, com hospitais sobrecarregados, caminhamos na escuridão.
E há os que ainda não entendem por que nós brasileiros estamos com uma baixa autoestima. Estamos desanimados com os Poderes, em especial o Poder Executivo. Tentam criar um clima maníaco de alegria, os governantes não visitam os hospitais, fazem festas e nas fotos sorriem. A gratidão e os aplausos devem ser aos trabalhadores dos hospitais que são corajosos, e merecem o reconhecimento da sociedade. Recordo, mais uma vez, que Dante pôs no Inferno, entre outros, os violentos, os homicidas e os tiranos. Dante é divino/maravilhoso nos setecentos anos de sua morte (21/9/1321). No meio dos medos da escuridão, louvemos as luzes das artes, das ciências, e da medicina no amor a vida.
por Mauro Nadvorny | 4 mar, 2021 | Brasil, Imprensa, Política
BOLSONARO INIMIGO PÚBLICO GLOBAL N° 1
O surto galopante de coronavírus no Brasil se tornou uma ameaça global que corre o risco de gerar novas variantes ainda mais letais; alertou um dos maiores cientistas do país, enquanto sofria o dia mais mortal da pandemia. Em declarações ao Guardian, Miguel Nicolelis, neurocientista da Duke University (uma das mais prestigiosas dos Estados Unidos), exortou a comunidade internacional a desafiar o governo brasileiro por não conter uma epidemia que matou mais de um quarto de milhão de brasileiros – cerca de 10% do total global.
“O mundo deve falar com veemência sobre os riscos que o Brasil representa para a luta contra a pandemia”, disse Nicolelis. “De que adianta resolver a pandemia na Europa ou nos Estados Unidos, se o Brasil continua a ser um terreno fértil para esse vírus?”
Nicolelis disse que o problema não era simplesmente o Brasil – cujo presidente de extrema direita, Jair Bolsonaro, rejeitou repetidamente os esforços para combater uma doença que ele chama de “gripezinha” – sendo “o pior país do mundo para lidar com a pandemia”.
“Se você permitir que o vírus prolifere nos níveis em que está proliferando no Brasil, você abre a porta para a ocorrência de novas mutações e o aparecimento de variantes ainda mais mortais.”
“O Brasil é um laboratório a céu aberto para o vírus se proliferar e eventualmente criar mutações mais letais”. “É uma questão global. ”
O alerta chega no momento em que o Brasil entrou no capítulo mais mortal de sua crise de Covid em um ano, com hospitais em todo o país desmoronando ou à beira do colapso e o número médio de mortes semanais atingindo novos patamares. Um recorde de 1.726 mortes foi registrado na terça-feira, o maior número desde o início da pandemia. “Já ultrapassamos 250.000 mortes e minha expectativa é que, se nada for feito, poderemos ter perdido 500.000 pessoas até março do próximo ano. É uma perspectiva horrível e trágica, mas neste ponto é perfeitamente possível.
Nicolelis afirmou que a crise do Brasil agora representa um risco internacional, bem como doméstico, e afirmou que Bolsonaro – que sabotou o distanciamento social, promoveu remédios não comprovados como hidroxicloroquina e máscaras menosprezadas – se tornou “o inimigo público global nº 1 da pandemia”.
texto tirado do The Guardian
por Mauro Nadvorny | 27 fev, 2021 | Brasil, Opinião, Política
Quais os limites da liberdade de expressão? Uma pergunta simples que com certeza gera uma discussão apaixonada. Nossa liberdade de dizer o que bem entendermos é ilimitada, mas somos responsáveis pelo que dizemos. A lei define o que são ofensas e não raro, alguém é condenado por proferir ofensas. Este é um dos limites.
Um músico, um humorista, um jornalista, um político ou um escritor, podem se expressar livremente sem observar limites? Eu mesmo participei do processo que condenou Siegfried Elwanger, o neonazista que mantinha a Editora Revisão dedicada exclusivamente a livros antissemitas. Sua defesa tentou utilizar a Liberdade de Expressão em sua defesa.
No Canadá um caso interessante. Um humorista fez mais de 200 apresentações onde fazia humor com um menino prodígio na música portador de uma doença rara. O humor era puro bullying o que levou o jovem a processar o humorista. Condenado a indenizar o jovem, depois de perder em todas as instâncias o caso chega agora a suprema corte. Em sua defesa o direito da Liberdade de Expressão.
No Brasil um deputado proferiu ataques e ofensas graves contra ministros da suprema corte e a democracia. Está preso. Em sua defesa argumentou sua imunidade parlamentar e a Liberdade de Expressão.
Quando a constituição fala em Liberdade de Expressão, ela é clara em seu artigo 5º:
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
I – homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição;
IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
V – é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem;
IX – é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;
Não resta dúvida de que não deve haver censura em relação as atividades artísticas e outras, mas também fica claro que isto não significa a não imposição de limites, e neste caso, especialmente importante, quando se referem ao direito a vida, a liberdade e a igualdade. Em outras palavras a dignidade humana.
Não existe bem maior do que a vida. Nada nem ninguém podem atacar o direito a ela. Todos devem ter o direito de expressar sua opinião, desde que ela não ameace a vida de outros. A história está cheia de exemplos onde a força da palavra causou a morte de inocentes. Um exemplo rápido, a acusação de bruxaria contra mulheres.
A vida em sociedade implica em direitos e deveres. Temos as mais variadas leis para nos dizer o que está e o que não está permitido. Todas levam em conta a cidadania, nossos direitos individuais e nossa convivência em comunidade. Tudo para preservar a vida.
Quando em meio a uma pandemia que já ceifou mais de 2,5 milhões de vidas no mundo, permitir que charlatões continuem a duvidar da gravidade da situação propagando informações falsas para que as pessoas deixem de usar máscaras e não se vacinem, a sociedade precisa proteger-se. Estas pessoas estão cometendo um crime contra a humanidade. Sua alegação: liberdade de pensamento.
No Brasil, o principal propagador da indiferença que já tirou a vida de mais de 250 mil brasileiros é o presidente da república. Um inepto em todos os sentidos no cargo máximo da nação é o responsável direto por boa parte destas mortes. Pior, não toma nenhuma atitude na busca por vacinas que são,hoje, a única forma de salvar vidas.
Bolsonaro deveria estar sendo processado pela violação do direito a vida como está na constituição. Seu incentivo a kits preventivos, cientificamente comprovados como ineficazes, seu comportamento com o desprezo pelas regras mínimas universalmente aceitas, o uso de máscara, distanciamento social e higiene, são um acinte a memória dos que pereceram e um desprezo pela ciência.
As novas variantes do Covid-19, mais agressivas e mais fatais estão se espalhando pelo Brasil e vão colapsar os hospitais. A variante inglesa ataca também crianças levando a óbito ou deixando sequelas para toda a vida. O país está diante de uma tragédia anunciada, uma catástrofe inevitável para a qual não existe solução de curto prazo. Vão faltar UTIs e vai faltar oxigênio se nenhuma providência for tomada.
Se alguém pensou que o pior já havia passado, prepare-se, o pior ainda está por acontecer.
por Richard Klein | 27 fev, 2021 | Brasil, Comportamento, Conto, Livro
Aquela rotina foi demais para o sistema. No último dia de Carnaval estava totalmente acabado. Numa rajada de sanidade, resolvi dar uma volta pela cidade para desintoxicar. Eram umas onze da manhã, e fui curtir o sossego das vias coloniais mais afastadas, longe do carnaval. De short e sem camisa, saí explorando a cidade até chegar a uma rua que terminava na subida do viaduto que ligava Olinda a Recife. Não dava para continuar dali, não havia passagem para pedestres. Vendo aquilo como um desafio, alguma força maluca me levou a arriscar uma travessia pela amurada desprotegida.
Sem ter nada em que pudesse segurar, segui pelo concreto estreito que chegava a ficar a uns vinte metros de altura sobre uma avenida movimentada. Qualquer tropeço seria fatal. Nunca tive um bom senso de equilíbrio mas na hora isso não pareceu importar. Olhei em frente e, como um equilibrista numa corda bamba, cheguei ao outro lado. Não estava sob o efeito de nada e nunca consegui entender o que me levou a correr aquele risco. Seriam tendências suicidas? Estava tentando provar alguma coisa a mim mesmo? Excesso de autoconfiança? Ou simplesmente não estava nem aí? Devia havet moleques que faziam isso todo dia.
Cruzei o viaduto sem problemas e desci numa rua calma, também colonial. Na primeira janela aberta, deparei com uma mãe ajudando seu filho com o dever de casa, os dois alheios à minha confusão mental e ao barulho ensurdecedor do trânsito. Meio atonito, parei para olhar, os dois me viram, demos uma encarada intensa, eles talvez com medo do maluco parado na janela e eu tentando entender como aquela cena pacata e racional era possível. Segui em frente me perguntando se havia uma mensagem do universo naquela cena.
Voltei para Olinda de ônibus e assim que desci de volta aos braços do Carnaval que já estava pegando fogo. Fiz uma parada na casa VIP onde as pessoas estavam se preparando para sair num bloco famoso. Como era a saidera, a Australiana ruiva caprichou na tatuagem de verão e meu rosto ficou fantasiado do que estava sentindo. Todos prontos e calibrados, saímos para rua parecendo personagens surrealistas. A maioria foi para o bloco mas prefiri me aventurar sozinho. Não demorou muito para agarrar uma gostosa local e a levar para o parque onde os casais iam. Tinha tido varias, nenhuma tinha a magia quase inocente da Gê, mas deu para matar a saudade.
Quando caiu a noite, fui com ela a um bar encontrar seus amigos que acabei achando caretas demais. Depois que se foram, comecei a conversar com uns caras meio barra pesada da mesa do lado. O papo se tornou bizarro e os dois acabaram me convidando para viajar de graça de navio para Europa levando cocaína. Sentindo aquilo pesado demais, saí fora e voltei para a confusão das ruas onde cruzei com um colega de sala da faculdade. Felizes com a coincidência, saímos abraçados atrás de um bloco. Ficamos na farra até às quatro da manhã. Com as ruas esvaziando, fomos para um bar deserto onde ficamos batendo papo até ele ir embora.
Naquela altura, o céu já estava ameaçando clarear. Era a hora de dar por encerrado o carnaval. No caminho, cruzei com o Betinho, o filho do prefeito, acompanhado de amigos, subindo a ladeira que estava descendo.
Fiquei surpreso quando ele me chamou do outro lado da rua: “Fala carioca! Tu não é o amigo da Dinah?”
“Sou, e aí? Beleza?”
“Tu tinha um nome gringo, não é mesmo? Richard?”
Me aproximei. “Isso mesmo. E aí? Resolveu sair?”
“Pois é, meu irmão, ser anfitrião é um saco!” Deu para sentir que os amigos estavam a fim de me dispensar, mas para contrariar, ele me convidou “E aí? Bora fumar a saideira do Carnaval ali em cima no parque?”
Não ia perder a oportunidade. “Opa! Vambora!”
Pata irritar seus amigos, ele continuou conversando comigo. “E então, carioca, curtiste a festa? Gostaste do Carnaval de Olinda?”
O cansaço não tinha roubado o bom humor. “A parte que me lembro foi demais, a parte que não me lembro deve ter sido melhor ainda.”
Ele deu um sorriso. “Pois é rapaz, todo ano fazemos uma dessas. A gente abre a casa para os outros se divertirem e se diverte com eles.”
Um dos amigos emendou: “Essa festa é uma tradição do Carnaval de Olinda. Merecia entrar no calendário oficial!”
O Betinho, visivelmente cansado da bajulação, voltou a falar comigo. “Carioca, te garanto que tu vai fechar o Carnaval com chave de ouro.” Ele tirou do bolso uma muda ressacada. “Isto aqui é o famoso Manga-rosa. Tirado do pé faz nem uma semana. Meu primo ali me trouxe direto de Cabrobró. Já ouviste falar?”
“Caralho! Manga-rosa! Nunca pensei que fosse experimentar isso na vida!”
Ele passou para eu dar uma olhada. Um outro amigo falou: “Chega até a ser bonito. Dá uma cheirada para sentir. Não existe melhor!”
O cheiro era fortíssimo. “Isso cheira a bagulho bom!”
“E é! Made in Pernambuco!”
Chegamos no topo do parque e nos sentamos numa escadaria de pedra para esperar o sol nascer.
O primo quebrou o silêncio. “Passa aqui pra eu apertar.”
O cara era um artista, saiu perfeito. “Isso também é uma tradição. O Betinho sempre guarda um para agora.”
“É verdade, a gente faz isso desde moleque. Sempre fechamos o Carnaval com um desses para depois sair no Galo da Madrugada.” Tinha ouvido falar no bloco, era o último do Carnaval.
O primo do Betinho passou o baseado para ele acender. Quando chegou em mim, deu uma onda quase tão forte quanto os cogumelos alucinógenos de Mauá e – como toda boa maconha – dois pegas bastavam.
Ficamos ali, sozinhos com a cidade só para nós. Em pouco tempo o horizonte foi alaranjando até o sol aparecer como um círculo brilhante. Ele foi subindo iluminando de leve a natureza à nossa volta. As cores magníficas, o silêncio e a temperatura amena fizeram aquele momento ser perfeito. Relaxando depois de sorver tanta vida, não só no Carnaval mas no verão inteiro, fiquei em estado de graça.
Estávamos em transe quando, do nada, dois estranhos chegaram e se juntaram a nós. Eram mais velhos, nos seus trinta e poucos, um era louro, grande, de cabelos compridos e com ar de surfista e o outro era musculoso, de camiseta de malhador apertada e com um corte de cabelo estilo escovinha.
O cabeludo puxou conversa: “Barbaridade, que visual incrível!”
Estava na cara que ele era gaúcho só que ninguém estava a fim de papo. Ignoramos, mas eles insistiram.
O outro falou em um inglês com sotaque americano, meio agressivo “Diz para eles que a gente sabe que eles estão chapados, mas que estamos muito mais chapados que eles.”
O gaúcho traduziu e depois explicou: “Esse maluco é americano, não fala uma palavra de português.”
Depois de uma pausa, um dos amigos do Betinho respondeu.
“Não existe esta de estar mais ou menos chapado, estamos aqui curtindo a paz do visual.” E completou em inglês. “Aqui todo mundo aqui fala inglês, relaxa.”
O gaúcho continuou em português “Este americano é tri-louco, grudou em mim e agora que tomamos um ácido ele está mais louco ainda.”
Quando o gaúcho mencionou ácido olhamos em sincronia para os dois, mas a vontade de ficar em silêncio continuou. Talvez por se sentir na obrigação de fazer turistas se sentirem bem-vindos na sua cidade, Betinho se tornou nosso porta-voz.
O cara era um político nato. “Curtiram o Carnaval? Did you enjoy the Carnival of Olinda?”
Quem respondeu foi o Gaúcho “Eu venho todo ano passar o Carnaval com a minha irmã que mora em Recife. O Mark aqui está estacionado em uma base militar no Caribe e veio passar as férias.”
O americano ainda nao tinha entendido que todo mundo ali – talvez com a excessão do gaúcho – falava inglês. A palavra Caribe tinha pescado sua atenção ainda que continuasse a achar que não entendíamos o que estava dizendo.
“Caribbean yeah, Guantánamo! ” Bateu nos braços fortes “Sou um Marine, entende?! Adoro armas, combate e mulheres brasileiras. Fala para eles que eu estive no Vietnã! ”
A palavra Guantánamo tinha deixado todo mundo de orelha em pé. Mesmo assim, a presença deles e o papo eram tão fora de contexto que ficou difícil distinguir se aquilo era verdade ou alucinação. De qualquer forma ninguém estava a fim de rebater o cara em inglês naquela altura. Eu é que não ia me meter.
O gaúcho, sem perceber as nuances da situação continuou no papel de intérprete lisérgico: “Não estou dizendo que este americano é doido?! Agora ele inventou que lutou no Vietnã. ”
Pela idade era impossível, como também era muito pouco provável que estivesse estacionado em Guantánamo. Por outro lado, o físico, a atitude e o corte de cabelo pareciam confirmar que se tratasse de um Marine. Novamente, ninguém falou nada torcendo que eles descessem da nossa nuvem o mais rápido possível.
O americano continuou a nos desafiar, acenou com a cabeça, colocou dois dedos para cima e falou num português fraquíssimo: “Sim, dois anos, eu in Vietnam. ”
O gaúcho estava hiperativo. “Liga não, ele é maluco assim mesmo, faz cara feia, inventa histórias e volta e meia se mete em confusão. No fundo é gente boa, mas o melhor é ignorar a figura.”
Aquilo de absurdo virou chato. Deu vontade de ter um controle de televisão para trocar de canal ou uma tecla para baixar o volume ou fazer os dois desaparecerem. O americano finalmente se deu conta de que a gente não estava na mesma onda e disse ao gaúcho: “Hey buddy! Let’s go! ”
O gaúcho traduziu: “Moçada, a gente vai nessa.”
Os dois partiram da mesma maneira que chegaram e aliviaram o ambiente. Ficamos uns quinze minutos sem falar nada. Alguem acendeu o baseado de novo e quando chegou na vez do Betinho, ele interrompeu o silêncio. “Galera, daqui a pouco o Galo da Madrugada vai sair, vamos lá?”
Todo mundo foi, mas resolvi ficar, minha quota de Carnaval já estava pra lá de preenchida. Agradeci e a gente se despediu. Fiquei ali sozinho, apreciando a beleza de Olinda até a lombra passar. Aquelas loucas primeiras horas da manhã em uma cidade histórica no Nordeste brasileiro marcou a minha despedida de uma época especial; um período de minha vida do qual sempre sentirei saudades.
O Pedro, com quem cruzei apenas uma vez durante o Carnaval, tinha conseguido carona na caravana dos amigos da Carla e ia voltar com eles para o Rio. Voltei sozinho e tive sorte de pegar caronas longas. Quando cheguei em Campos, no Estado do Rio, me dei conta de que tinha gasto todo a grana. Como precisava chegar em casa a tempo do início das aulas, pela única vez na vida, pedi dinheiro a estranhos para completar o dinheiro da passagem de ônibus e para comer alguma coisa; uma situação bem distinta da que tinha rolado na casa do Betinho e uma lição importante de humildade.
…
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