No mundo complexo de teorias da conspiração, uma das mais antigas e prejudiciais é a associação entre judeus e os “donos do mundo”. Essa teoria antissemita afirma que os judeus controlam secretamente o mundo, baseando-se em preconceitos e estereótipos negativos. Meu objetivo aqui é desvendar essa teoria infundada e explorar sua história, impacto e falsificação notória.
A Origem da Teoria
A teoria dos “donos do mundo” remonta a muitas décadas e foi usada para justificar a perseguição e a perseguição aos judeus. Durante o Holocausto, os nazistas se basearam nessa teoria para justificar suas ações hediondas.
Como a Teoria se Expressa
A teoria dos “donos do mundo” se manifesta de várias maneiras. Alguns dos exemplos mais comuns incluem:
Alegações de que os judeus são responsáveis por todas as guerras e crises financeiras do mundo.
Sugestões de que os judeus controlam os principais meios de comunicação e a mídia social.
A crença de que os judeus têm um plano secreto para dominar o mundo.
Os Protocolos dos Sábios de Sião
Uma das teorias conspiratórias mais conhecidas é “Os Protocolos dos Sábios de Sião”, um texto antissemita que descreve um alegado projeto de conspiração por parte dos judeus para alcançar a “dominação mundial através da destruição do mundo ocidental”. No entanto, este texto é uma falsificação completa, escrito por um agente da polícia secreta russa e baseado em uma sátira francesa do século XIX.
Principais Pontos dos Protocolos
Os Protocolos contêm afirmações infundadas, incluindo:
A ideia de que os judeus são uma raça superior com o direito de dominar o mundo.
A alegação de que os judeus controlam o mundo por meio da economia, política e mídia.
A crença de que os judeus estão trabalhando para destruir o mundo ocidental.
O Mito do “Eu Tenho um Amigo Judeu”
Muitas vezes, os antissemitas usam a alegação de que têm um amigo judeu para tentar justificar seus preconceitos. No entanto, ter um amigo judeu não impede alguém de ser antissemita, já que o antissemitismo é uma forma de preconceito e discriminação.
As Brigadas de Voluntários na Segunda Guerra Mundial
É chocante saber que ao lado dos nazistas, lutaram várias brigadas de voluntários de diferentes países, incluindo França, Itália, Rússia, Ucrânia, Romênia, Finlândia, Noruega, Dinamarca e até mesmo de lugares tão distantes como Brasil, Chile, Argentina, Estados Unidos, Canadá e Índia. Em comum tinham o antissemitismo. Seus motivos variavam de ideologia a oportunismo, e muitas delas participaram ativamente do Holocausto.
O Antissionismo como Disfarce para o Antissemitismo
Algumas pessoas tentam disfarçar seu antissemitismo como antissionismo. No entanto, é crucial distinguir entre críticas legítimas às políticas do governo israelense e o uso do antissionismo como uma forma de promover a violência contra os judeus.
Como a Esquerda se Tornou Antissionista
A esquerda, em geral, adotou posições antissionistas por várias razões, incluindo críticas às políticas do governo israelense, associação entre sionismo e imperialismo e, infelizmente, antissemitismo em alguns setores da esquerda.
Sionismo Socialista: Uma Abordagem Diferente
O sionismo socialista, também conhecido como sionismo trabalhista, é um movimento político que combina elementos do socialismo e do sionismo. Surgiu como uma resposta ao antissemitismo na Europa e defendia a criação de uma pátria socialista em Israel para eliminar divisões de classe e promover a justiça social.
A promoção da paz e da reconciliação com os palestinos.
O sionismo socialista é um movimento complexo e diversificado, e há uma ampla gama de pontos de vista dentro dele. No entanto, todos os sionistas socialistas compartilham a crença de que o sionismo e o socialismo são ideologias complementares. Eles acreditam que o estabelecimento de uma pátria socialista em Israel convivento em paz e segurança ao lado de uma pátria palestina é a melhor maneira de garantir o futuro do povo judeu.
Conclusão
A teoria da conspiração dos “donos do mundo” é infundada e prejudicial. É importante desmascarar essas alegações infundadas e promover a compreensão e a tolerância. O antissemitismo disfarçado como antissionismo também deve ser reconhecido e condenado. A história nos ensina a importância de combater o ódio e o preconceito em todas as suas formas.
A guerra entre Israel e o grupo Hamas na Faixa de Gaza tem sido um tema de grande controvérsia e discussão a nível internacional. Uma das questões mais debatidas é a proporcionalidade da resposta de Israel aos ataques do Hamas. Alegações de desproporcionalidade muitas vezes surgem, com críticos afirmando que Israel está usando força excessiva e causando um número desproporcional de vítimas civis. No entanto, a avaliação da proporcionalidade em conflitos armados é uma questão complexa e requer uma análise cuidadosa de vários fatores.
A proporcionalidade no contexto do direito internacional é um princípio fundamental que visa garantir que as partes em um conflito usem a força de forma equitativa e razoável. Isso implica que a força usada em uma resposta militar deve ser proporcional à ameaça enfrentada. No entanto, a determinação da proporcionalidade não é uma tarefa simples, e vários fatores devem ser levados em consideração.
A título de ilustração, vamos imaginar que alguém fique cutucando uma onça com uma vara curta. Em determinado momento a onça ataca. Como ela deveria proceder? Pela definição simplória da proporcionalidade, deveria cutucar de volta com uma pata, mas todos sabemos o que de fato aconteceria e daí vem a expressão, não cutuque uma onça com vara curta.
Um dos desafios na avaliação da proporcionalidade na guerra entre Israel e o Hamas é o uso frequente de escudos humanos pelo grupo Hamas. O uso de civis como escudos humanos é uma tática condenável que torna a identificação e o ataque a alvos militares legítimos mais complicados. Nesse contexto, Israel argumenta que, ao atacar alvos militares do Hamas, a presença de deles em torno desses alvos torna difícil evitar vítimas civis. Essa situação cria um dilema para Israel na avaliação da proporcionalidade de sua resposta.
O Hamas tem disparado milhares de mísseis em direção a cidades israelenses, colocando a vida de civis em perigo. A resposta de Israel, para neutralizar as ameaças à sua população, também deve ser vista à luz da obrigação de proteger seus cidadãos. A proporcionalidade não deve ser vista apenas em termos de números de vítimas, mas também no contexto da ameaça imposta a um país.
O direito internacional proíbe ataques a alvos civis, mesmo que esses estejam localizados próximos a alvos militares. O artigo 51 da Convenção de Genebra de 1949, que é um tratado internacional que protege os civis em tempos de guerra, estabelece que “as hostilidades devem ser dirigidas apenas contra as forças armadas do inimigo”.
O direito internacional também estabelece que as forças armadas devem tomar todas as medidas possíveis para evitar que civis sejam atingidos por ataques. Isso inclui a adoção de medidas de precaução, como a realização de ataques apenas durante o dia, quando é mais fácil distinguir entre alvos militares e civis, e a utilização de armas de precisão, que são menos propensas a causar danos colaterais.
Embora o direito internacional proíba ataques a alvos civis, na prática, isso nem sempre é possível. Em muitos casos, os alvos militares estão localizados em áreas densamente povoadas, o que torna difícil evitar que civis sejam atingidos.
Israel realiza ataques com base em informações de inteligência detalhada e em conformidade com o direito internacional humanitário. Já o Hamas dispara foguetes contra as cidades de Israel visando única e exclusivamente alvos civis.
É inegável que os conflitos armados, como o que ocorre entre Israel e o Hamas, causam sofrimento humano. As imagens de civis, incluindo crianças, feridos ou mortos, são devastadoras e despertam compaixão global. No entanto, a proporcionalidade não pode ser reduzida a uma contagem de vítimas, pois a avaliação adequada requer uma análise mais abrangente dos fatores envolvidos.
A questão da proporcionalidade na guerra entre Israel e o Hamas é complexa e polarizadora. A avaliação adequada da proporcionalidade requer uma análise cuidadosa de todas as circunstâncias e fatores envolvidos. O uso de escudos humanos pelo Hamas, os ataques com mísseis em cidades israelenses e o que afirma Israel sobre inteligência e direito internacional são fatores que não podem ser ignorados.
Todo país que é atacado tem o direito de se defender empregando todos os meios a sua disposição. O Hamas cutucou a onça com a vara curta.
No sábado, 7 de outubro, eu e outros 14,7 milhões de judeus acordamos com sentimentos diversos: imensa tristeza, angústia, dor, revolta, agonia, desconsolo, tensão, incompreensão, estupefação; uma mistura de coisas ruins que atravessaram nosso despertar. Uns choraram, outros gritaram, outros explodiram de ódio, outros ficaram inertes, sem reação, outros clamaram por vingança. Todos ávidos por notícias e por saber se os seus estavam bem. Naquele momento, todos nos tornamos israelenses.
De início, foi difícil perceber que por trás destas emoções confusas havia algo maior, que talvez fosse melhor ocultar dos algozes do Hamas: medo. Um medo ancestral, que causa terror e insegurança Medo que foi transmitido a todos nós, judeus seculares e ortodoxos, de esquerda e de direita, geração a geração, durante milhares de anos. Um medo que vem da escravidão no Egito, da destruição dos dois templos, do cisma pós Salomão, das Cruzadas, dos pogroms, da Inquisição, de tantos êxodos, que fizeram de nós um povo errante, e por fim do maior genocídio da História, que matou em dimensão industrial 6 milhões de judeus.
Este medo, queiramos ou não, vive em cada um de nós, embora não exista hoje nenhum Estado onde o antissemitismo seja institucionalizado, com exceção do Irã e Qatar. Nem por isso o ódio aos judeus desapareceu. Ao contrário, o antissemitismo está mais vivo que nunca, sobretudo nos extremos, na esquerda radical, que transformou o anti-sionismo em anti-Israel e enfim em antissemitismo, e na extrema-direita nazifascista.
O pedagogo Gabriel Douek, do Instituto Brasil-Israel, ao falar do antissemitismo como componente integrante do atual debate, lembrou que “a imagem do judeu branco, rico, religioso e armado, controlador da mídia e detentor de todo o poder (econômico), ganhou força nas últimas décadas.”
É claro que o medo existe , bem como a coragem entre aqueles que aguardam, em seus tanques, a ordem para entrar em Gaza. Ele é visível, concreto, entre aqueles que devem correr para os bunkers a cada vez que as sirenes tocam, entre a mãe que chora a filha refém, entre aqueles que viram o perigo e a morte por estar simplesmente dançando. Mas não é deste medo que falo. O medo de todos os judeus, de Israel como da Diáspora, é de outra natureza. É o medo de quem perdeu seus alicerces.
Apesar das guerras enfrentadas, inclusive a do Yom Kippur, há 50 anos, que as forças de Israel venceram por verdadeiro milagre, havia, em cada um de nós, inclusive entre os seculares ateus, de esquerda, que não frequentam as sinagogas nem comemoram as festas, nem muito menos pretendem fazer aliá, como eu, o sentimento de que Israel era uma espécie de porto seguro. Por isso muitos se tornaram sionistas, defendendo a existência de Israel ali onde esta. Pois bem, isso desabou, perdemos nossa rede de proteção, como o trapezista que, do dia para a noite, tem de fazer suas proezas sabendo que tiraram a rede de proteção do circo. Se cair, morre.
O sentimento profundo neste momento é o da vitória dos terroristas e que nada mais será como antes.
O antes era bom? claro que não, é obvio que Israel (e sobretudo a extrema-direita israelense) carrega uma enorme responsabilidade por ter negligenciado a situação dramática dos palestinos, por não ter dado a importância que a criação de um Estado palestino ao lado de Israel, em cooperação e segurança, exigia … e segue exigindo. Muito embora seja sempre preciso lembrar que o Hamas não representa os palestinos nem nunca se preocupou com a criação de um nação vivendo em paz com seu vizinho. O Hamas só quer a destruição total de Israel. É o que está, preto no branco, em sua Carta.
O Hamas governa a Faixa de Gaza com mão de ferro, segundo os princípios da sharia (lei islâmica), controlando a forma como as mulheres se vestem e são tratadas, chegando a impor a segregação de gênero. É um governo corrupto, ditatorial, que reprime os meios de comunicação, controla as redes sociais, combate a oposição política e as organizações não governamentais.
Por isso o Hamas não representa o povo palestino, que em Gaza sofre muito mais que na Cisjordânia ocupada.
O problema é que este movimento, que é tudo o que de mal existe, obteve uma enorme vitória, ao ter abalado quase 15 milhões de judeus, ao ponto de hoje termos medo. Sentimo-nos destabilizados.
Mesmo que derrote o Hamas, Israel não será mais o mesmo, inclusive – e talvez sobretudo – no imaginário de cada judeu.
No quarto dia de guerra entre Israel e o Hamas, a resposta israelense avança. O primeiro passo, fundamental, há quem use o termo vital, é a formação de um governo de união nacional em Israel. Netanyahu negociou com Benny Gantz, ex-ministro da Defesa, e com o chefe da oposição, Yair Lapid, que colocou como condição a demissão de Smotrich, ministro da Economia e ministro delegado da Defesa, e Ben Gvir, ministro da Segurança Nacional, os dois maiores expoentes da extrema-direita israelense. Após 9 meses de divisão interna, que debilitou Israel, só um governo de união será capaz de levar à vitória sobre os terroristas. No modelo do governo de união de 1967, na guerra dos Seis Dias, entre o trabalhista Levi Eshkol e seu rival de direita Menahem Begin.
Netanyahu, até sábado, só agiu pensando em seus próprios interesses, ou seja para escapar da prisão, acusado de corrupção. Agora não tem outra opção senão abrir mão de sua gangue.
Bibi é um criminoso; colocou Smotrich e Ben Gvir em postos chaves para a segurança de Israel, apesar de nenhum dos dois ter sequer feito o serviço militar. Gvir, dispensado por ser considerado um extremista perigoso.
Netanyahu, agora se sabe, não levou a sério as informações dos serviços egípcios, que advertiram Israel dos preparativos da operação do Hamas. Ele diz que não…mente.
O correspondente da televisão francesa, Charles Enderlin, contou, às lágrimas, que vários generais tentaram ir à Knesset para avisar os deputados sobre o que se preparava em Gaza, tendo a entrada barrada por ordem do governo.
Embora se esquive, a responsabilidade de Benyamin Netanyahu é total, como se leu no Haaretz. E é dupla, eu diria. Primeiro, por não ter dado ouvidos às advertências; segundo por ter negligenciado a segurança do país, colocando pessoas totalmente ineptas à frente dos serviços secretos e das forças armadas. Uma vez terminada a guerra será preciso constituir uma Comissão de Inquérito e tirar todas as consequências.
Gaza está sob cerco, sem fornecimento de energia, água e mantimentos.
Os próximos dias serão de grande instabilidade, extremamente difíceis. Tanto o Hamas como o Hezbolá são movimentos fascistas, que dependem totalmente do Irã, tanto do ponto de vista do financiamento como do armamento. Tudo o que aconteceu foi preparado em Teerã, mesmo se isso é negado pelo aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã. A pergunta agora é se o outro braço do Irã, o Hezbolá, vai se unir ao Hamas e entrar plenamente na guerra.
Israel terá de tomar medidas complicadíssimas, de onde a necessidade imperiosa de formação de um governo de união.
Israel não pode atacar o Hamas como o fez no passado. Para uma parte importante da população e das forças armadas, até hoje administrou-se “aspirina para tratar de um câncer”. Será preciso ir muito além para que episódios como os que vimos no sábado não se repitam. Será preciso atacar a raiz do problema, sabendo-se que a raiz é Teerã, Mas como? de que forma, o que isso significa? E como controlar a Faixa de Gaza e entregá-la à Autoridade Palestina?
O Hamas não é mais um simples movimento terrorista, tornou-se uma verdadeira milícia, com 40 mil homens armados.
E qual será a atitude do Hezbolá, que tem 150 mil mísseis de alta precisão e longo alcance? Entrará no conflito ou não?
Outra questão espinhosa: Como tratar do problema Hamas sem provocar a generalização da guerra? Esse será o principal dilema do governo israelense que deverá ser formado ainda esta semana.
A prioridade vai ser dialogar com o mundo árabe, que neste momento se aproxima de Israel, e tentar acelerar os acordos de Abraham, sobretudo com a Arábia Saudita, para formar um eixo de países islâmicos que ajude Israel a recolocar os moderados da Autoridade Palestina no controle de Gaza, como assim foi até 2007, quando houve um golpe de estado liderado pelo Hamas. Riad tem autoridade para isso, por ser a sede da Meca.
Para tanto, é imprescindível que o Irã não entre diretamente na guerra. Aliás, este é o recado dos Estados Unidos, que estacionou em Haifa um porta-aviões.
O mundo parece estar se dando conta de que o Irã é um problema sério e não só para Israel. Teerã entrega drones à Rússia para atacar a Ucrânia, está por detrás do Hamas, do Hezbolá, da Síria, do Iraque, do Iêmen e do terrorismo islâmico no mundo inteiro. Lembrem-se da Argentina!
O militantes do Hamas não atacaram Israel porque lutam por um Estado palestino, quem acredita nisso vive no mundo dos contos de fadas. Não são resistentes como quer a extrema-esquerda stalinista, são combatentes a serviço do Irã, que os armou.
Teerã está extremamente preocupado com a aproximação da Arábia Saudita e Israel, pois esse acordo representaria a paz entre Israel e o mundo árabe, entre as civilizações judaica e islâmica.
O Irã e seus braços armados não acreditavam que o governo ultranacionalista de Israel fosse capaz de negociar acordos de paz com os árabes, mas foi o que aconteceu.
Impedir o avanço desses acordos foi o principal objetivo do ataque à Israel.
E qual será a estratégia para derrotar o Hamas? o exército israelense vai optar pela operação terrestre, que parece ser a única forma de salvar os reféns?
A ONU quer convencer o Hamas a devolver crianças, mulheres e idosos. Até agora não há notícia de negociações.
Israel desmente que tenha aberto o diálogo para troca de prisioneiros, reféns e corpos.
A sensação é de que os próximos dias serão terríveis e que perderemos muita gente mais nesta guerra, soldados como reféns. Mas existe outra alternativa?
Um eurodeputado francês, Raphael Gluksman, propõe a adoção pelo ocidente de sanções pesadas contra o Irã, que está na origem de todo o mal; o isolamento total da República Islâmica. Isso evitaria, segundo ele, que os civis palestinos sofressem ainda mais. Tudo indica porém que a decisão já foi tomada e que a invasão de Gaza é iminente.
Os que estão apoiando o ataque do Hamas a Israel, são a desgraça humana, o lixo da humanidade, os que fazem deste mundo um lugar sombrio, frio e sem esperança. Vocês são o que de mais atrasado e mais reacionário existe neste mundo.
As cenas que circulam nas redes sociais não deixam dúvidas da barbárie que foi o ataque surpresa do Hamas. São vídeos e fotos de civis sendo massacrados sem piedade. Mulheres e crianças sendo caçados e abatidos. Os mais sortudos são os que foram tomados reféns, entre eles bebês de colo.
Os que enaltecem estes atos são o escárnio da raça humana. Graças a vocês é que demônios como Trump, Putin, Horban, Bolsonaro e Bibi se elegem.
O total de mortos é de cerca de 350, entre eles 56 soldados e policiais. Quase 2000 feridos, sendo 300 em estado grave e crítico.
Israel está com o governo mais extremista da sua história. Nós estamos lutando a mais de 40 semanas contra ele. Neste momento estamos todos unidos pelo país. Quando este evento tiver terminado, vamos acertas as contas com Bibi, o responsável direto por uma das maiores falhas da história da inteligência israelense, só equiparada ao que ocorreu na guerra de Yom Kipur em 1973, cinquenta anos atrás.
Um exército a serviço dos colonos nos territórios ocupados. Mais preocupados em proteger religiosos radicais em pogroms contra a população palestina, deixaram acontecer a maior tragédia da história de Israel contra sua população civil.
As consequências deste ataque ainda estão por acontecer. Israel mobilizou reservistas e vai evacuar toda a população do entorno de Gaza. Uma grande operação por terra, mar e ar está em andamento. O grau de destruição será enorme e a morte de civis praticamente inevitável num território que não se preocupa com o bem estar dos seus cidadãos.
Esta provocação, em meio as negociações para estabelecer laços diplomáticos com a Arábia Saudita, vai colocar este assunto em modo de pausa. Ainda assim, parece ser um tiro no pé, na medida que dá razão a Israel quando afirma que não há como se negociar com o Hamas. Assim sendo, os saudistas podem se sentir mais confortáveis em abandonar a causa palestina, sepultando assim a criação de seu Estado.
Enquanto escrevo estas linhas, continuam caindo foguetes lançados de Gaza. Estes foguetes têm um tempo de duração de voo. São jogados para cair quando acaba o combustível que os impulsiona ao serem lançados. Desta forma, eles atingem alvos civis, principalmente prédios residenciais.
Para a população civil é uma loteria. Dependendo da distância que alguém se encontra a partir de Gaza, pode ser 15 segundos ou 1,5 minuto para buscar proteção. Todas as cidades possuem abrigos subterrâneos e os prédios mais modernos um quarto protegido com paredes de 50 cm de concreto, com janela e porta blindada.
Quantos abrigos existem em Gaza? Para a população, nenhum. Para o governo do Hamas, vários.
Em Rosh Hashana[1], como sempre que venho ao Brasil nos chaguim[2], vou a CIP[3]. Lá me sinto em casa. Meus avos fundaram a CIP, a ala ortodoxa, foram muito ativos na Chevre Kadisha[4], no Lar das crianças. Meus pais foram muito ativos no CIAM. Eu na Chazit Hanoar[5], como sheliach[6] em Porto Alegre e depois como mazkir olami[7] em Israel. Com Sobel organizei o programa de vários grupos dele em Israel. Eduquei gerações de madrichim[8] de todos os movimentos juvenis no Machon Lemadrichim[9], mas em primeiro lugar os da Chazit. Realmente tenho CIP em meu coração, em meu DNA.
Este ano foi algo especial. Ao entrar na sinagoga procurei meus companheiros, meus chanichim[10], conhecidos de meus pais e avos. De repente me dei conta que estava olhando para as pessoas erradas. Os “68 anos” não eram os amigos de meus pais, mas sim os meus. O tempo voou. Certeza de que estavam lá, mas já não os reconheci.
Ao sentar-me reparei que nada mudou. Desde que me conheço como gente e que frequento a CIP, o interior da sinagoga não mudou. Mas, muito mudou. A CIP soube ser dinâmica e se adaptar as realidades. A pandemia, trouxe a última – o serviço online. Olho ao meu redor e famílias inteiras juntas, pais, mães e filhas e filhos. Todos juntos. Uma alegria me invade ao ver isso e ao mesmo tempo uma tristeza a ponto de chorar. Renato e Shirley (Sacerdote) estavam do meu lado e mostro a eles uma foto de Israel – uma placa na cidade de Beit Shemesh[11] “Sob ordem dos Rabinos nos shabatot e chaguim[12] as famílias não deverão caminhar juntas nas ruas. Homens nas ruas, mulheres nas calçadas”.
Um peso, como uma pedra na minha garganta. Uma tristeza me domina, medo, angustia, decepção, desesperança. O que aconteceu com meu Pais, ao qual fiz alia[13] com 18 anos? O que aconteceu com àquele sionismo humanista socialista pelo qual realizei o sonho de muitos de viver em um Pais de judeus, democrático. Como pode ser que o único pais do mundo no qual a maioria do povo judeu não tem representação e aceitação enquanto a sua ideologia religiosa? No qual os movimentos reforma e conservador são “não Kasher[14]”. Como chegamos a este ponto, no qual 5% do povo judeu domina, de forma totalitária, a Israel e define o que é judaísmo e o que não?
Estou no Brasil, São Paulo, me preparando para viajar a Salvador para abrir o 1º congresso internacional de educação para paz e não violência.
Evento este resultado de meu trabalho educacional em Israel e na Palestina, através da ONG que criei para trabalhar em educação para a paz e não violência com judeus, muçulmanos, cristãos e drusos – israelenses e palestinos e de minha atuação em movimentos políticos a favor do fim do domínio e da opressão de Israel ao povo palestino, a favor de uma Confederação Israel-Palestina. Resultado de minhas vindas ao Brasil para dar oficinas e palestras sobre o modelo educacional bilingue e sobre as soluções para o conflito. Em uma palestra no Rio de Janeiro um dos participantes disse “Davi você não está falando só de judeus e palestinos, mas também do Morro e do Asfalto”. Entendemos que o nosso modelo poderia falar a outros conflitos, a outras opressões. Junto com Sérgio Storch, armamos os princípios de uma Rede Internacional de educação para Paz e Não Violência. Sérgio se foi e nós seguimos.
Desde 2001, venho ao Brasil a cada 2 anos e em todas minhas palestras venho alertando para onde Israel caminha e qual deveria ser o papel das diásporas. Venho alertando sobre o processo que Israel está passando e que teve início com o golpe de 1995, com o assassinato de Rabin e a subida de Bibi Nataniahu em 1996.
Em relação ao conflito israelense-palestino, ao contrário do que se diz, os acordos de paz não foram feitos pela direita e religiosos, mas sim pelo setor liberal do Likud[15] (o Likud é uma coalisão do partido Liberal com o partido Herut). Beguin ao fazer o acordo com o Egito precisou do centro e da esquerda para levar a diante o programa, que ao final a grande maioria votou a favor. O acordo com a Jordania foi realizado pelo Avoda, com Rabin. O acordo de Oslo foi assinado por Rabin.
Em 1995 Israel sofre um golpe político, com o assassinato de Rabin, por forças ideológicas de extrema direita e do sionismo religioso messiânico. Com isso, desde 1996, com a subida de Bibi Nataniahu, a direita domina o país, até os dias de hoje. Com pequenos intervalos de um ano e meio com Barak (1999-2001) e 3 anos com Olmert (2006-9). Neste período houve várias tentativas de um acordo com o mundo árabe e com os palestinos. Oslo morreu, não por suas falhas, mas por seu abandono, por não darem continuidade as conversações com os palestinos. Todas as falhas poderiam ser corrigidas e chegado a um acordo final, ao fim do conflito. Em 2000 nas conversações de Camp David e 2001 em Taba quase se chega a um acordo. Barak não tinha a maioria na Knesset e seu governo se desfaz. Em 2002 com a proposta da Liga Árabe poderíamos ter reiniciado um processo, e os Acordos de Avraham, não teriam esperado 20 anos. Em 2005 , nos desconectamos de Gaza, de forma unilateral, sem fazermos um acordo de paz temporário. Em 2009, o primeiro-ministro, Ehud Olmert, estava prestes a fazer um acordo com o presidente Abbas, em troca de 97% do território sob domínio de Israel, quando se demite por acusação de corrupção. Bibi assumindo de novo o poder, não aceita a proposta de Abbas de seguir s conversações do ponto em que foram paradas.
Desde 2009 não houve mais propostas de negociações, apesar de que o Presidente Abbas declarou para um grupo de 20 representantes de organizações israelenses, e eu entre eles, de que estaria disposto a negociar sem condições previas, que era o grande argumento de Bibi para não realizar as conversações. Mesmo assim, Bibi não aceitou.
Até 1999 a população judia nos territórios ocupados era de 180 mil. Nestes 20 anos a população chegou a 492 mil judeus. Sem contar com o aumento da população judia em Jerusalém Oriental. Neste período cresceu os movimentos terroristas judaicos nos territórios palestinos – Noar Hagvaot[16], jovens colonos que organizaram ataques a aldeias palestinas, queimaram e arrancaram milhares de oliveiras, mataram ovelhas e por fim assassinaram palestinos, com o caso mais difícil da família que morreu queimada trancada dentro de sua casa. Outras organizações terroristas judias como “Terror contra Terror”, “Patrulha da Vingança”, “Bat Yan[17]” e uma série de terroristas que assassinaram palestinos de forma individual. Baruch Goldstein, médico, metralhou e matou 29 palestinos e feriu 125, na Mearat Hamachpela[18], quando estes estavam rezando, Amiram Bem Uliel, que matou uma família incendiando a casa e não permitindo que saiam de lá e Igal Amir, assassino de Rabin.
Mas, nada se compara com o que vemos nos últimos 9 meses do atual governo. Formado por 50% de ministros do Likud, 25% de 3 partidos sionistas religiosos e 25% dos partidos ultra ortodoxos fundamentalistas. Governo ideologicamente racista, homofônico, antidemocrático, anti-pluralista judaico, acreditando na superioridade do povo judeu.
Mais de 100 leis religiosas foram aprovadas pela Knesset. Bilhões passaram as mãos dos colonos e dos partidos homofônicos e antidemocráticos. O secretário do ministério de educação se demitiu a um mês, a vice-secretária se demitiu esta semana. O ministério de educação está quebrando. O mesmo com o ministério de comunicações e saúde. O ministério de segurança nacional está nas mãos de Bem Gvir, terrorista declarado pelo próprio serviço de segurança nacional. A ele lhe foi dado uma verba especial para criar a polícia especial de 1800 policiais, que lembra algo de 1933. O ministério das finanças esta nas mãos de Smotrich, racista, cuja mulher se recusou a estar no mesmo quarto com uma palestina, no hospital. Avi Maoz, cujo partido Noam, se propõe impor as leis da halacha[19] no país e lutar contra a comunidade LGBTQIA+, é o responsável pelos programas extracurriculares nas escolas. Organizações liberais e de esquerda foram proibidas de entrarem nas escolas no programa extracurricular, ao passo que dezenas de organizações homofônicas, anti aborto, racistas receberam mais verbas para atuarem nas escolas.
Sem ainda saber do conflito que surgiria em Yom Kipur[20], quando o movimento HaRosh HaYehudi[21], movimento messiânico que tem como ideologia a Hadata[22], decidiu ir contra o Supremo Tribunal e rezar em Tel Aviv em lugar público, separando homens de mulheres, chegando ao conflito com população laica, refletindo sobre toda essa caminhada, desde minha ida a Israel até este momento que estou sentando na CIP, sobre todo o processo de minha vida, nesta caminhada para Tikun Olam[23], legado de minha família, me lembrei que em julho de 2015 recebi a Caetano e Gil em Israel em um encontro com 140 representantes de organizações pro paz e pró-Estado da Palestina. O New Israel Fund foi meu parceiro. O movimento Combatants for Peace os levou a Sussia. Caetano dois meses depois declarou “Gosto de Israel fisicamente. Tel Aviv é um lugar meu, de que tenho saudade, quase como tenho da Bahia. Mas acho que nunca mais voltarei lá”. Nesta carta Caetano citou meu nome 4-5 vezes, como quem organizou a sua visita. A comunidade judaica brasileira me acusou de “traidor”, culpado pela postura de Caetano, que neste encontro disse: “parem a ocupação, parem a segregação, parem a opressão”
E eu digo, eu voltarei a Israel e comigo levarei a diáspora para que,
Não deixarmos que 5% do povo judeu domine o Estado de Israel
Não deixarmos que Israel seja o único país no qual um judeu reformista, conservador, laico não possa expressar livremente sua identidade
Não deixarmos que Israel seja o antro de poucos judeus que acreditam que o povo judeu é superior
Não deixarmos que Israel se transforme num país racista e apartheid segregando o árabe como cidadão de segunda categoria.
Não deixarmos que Israel seja um país homofóbico
Não deixarmos que Israel humanista e democrática se transforme em ditadura teocrática.
Não deixarmos que Israel se transforme no que a Alemanha foi em 1933,
[4] É uma organização de homens e mulheres judeus que cuidam para que os corpos dos judeus falecidos sejam preparados para o sepultamento de acordo com a tradição judaica
[13]Termo usado para definir a imigração de judeus para Israel
[14] Kasher são produtos alimentares de acordo com as leis religiosas ou normas religiosas
[15] Likud é o partido majoritário seguindo a linha do sionismo revisionista de direita
[16] Juventude das colinas – movimento de jovens de extrema direita
[17] Movimento terrorista que colocou uma carroça com explosivos em frente de uma escola de meninas árabes
[18] Caverna dos patriarcas – Série de cavernas localizadas no coração da antiga cidade de Hebron, onde, segundo a Torá, a Bíblia e o Alcorão, estão enterrados os Patriarcas Abraão, Isaque e Jacó