por Mauro Nadvorny | 16 maio, 2020 | Brasil, Opinião
Nós judeus temos uma longa história no mundo. Somos talvez o único povo mencionado na Bíblia que chegou até os dias de hoje. Muitos povos descendem de inúmeros outros lá mencionados, mas nós judeus estamos aqui atravessando 3.000 anos de história.
Como todo povo, tivemos momentos de grande prosperidade e outros nem tanto. Tivemos uma nação, perdemos e a recuperamos depois de dispersos pelo mundo. Sofremos perseguições, ódios e ainda assim sobrevivemos. Como costumamos dizer aos nossos algozes, “Am Israel Chai”, o Povo Judeu Vive.
Antes da dispersão pelo mundo, Israel foi ocupada pelos Romanos. Na verdade, todas as terras do Mediterrâneo foram conquistadas por eles e sua lei foi imposta. Basicamente, o que importava aos romanos era o recolhimento de impostos para sustentar o império.
Nem todos os povos submetidos a eles aceitavam a ocupação e o pagamento dos impostos. Inúmeras rebeliões aconteciam e eram feroz e cruelmente combatidas sem dó, nem piedade. Execuções de prisioneiros, com as famosas crucificações, eram medidas comuns para causar o maior impacto possível na população.
A ocupação romana de Israel é digna de comentários, não apenas por ter neste período nascido o Cristianismo, mas também pelas Rebeliões Judaicas. Uma delas em especial, foi a de Bar Kochba que deu origem a festa de Lag Baomer, comemorada nesta semana que passou.
Conhecida como a festa das fogueiras, era forma como os rebeldes se comunicavam uns com os outros para avisarem da aproximação das forças romanas. Existem outras explicações para isto, mas esta é a mais conhecida.
O resumo desta revolta pode ser visto de duas maneiras. Uma é de que os judeus expulsaram os romanos e retomaram Israel por alguns anos. Outra, é de que ao retomarem Israel, eles destruíram Jerusalém e o Templo, mataram algo em torno de 500 mil habitantes (entre combatentes e civis), escravizaram outro tanto e dispersaram os judeus pelo mundo.
De toda maneira, esta não foi a única vez em que judeus se rebelaram contra a opressão. Estivemos presentes em inúmeros outros momentos históricos, como na Revolução Russa, por exemplo. Inúmeros judeus lutaram ao lado dos Bolcheviques para derrubar o Czar e levar o proletariado ao poder. A família de meu avô paterno foi uma das que participou ativamente da revolução. Ao seu término, voltaram os Pogroms (perseguições aos judeus). Alguns familiares foram mortos, e outros, como meu avô, fugiram para o Brasil, mas isto é outra história.
Somos um povo como qualquer outro. Temos diferentes formas de pensar e podemos ser encontrados em todo espectro ideológico, da direita a esquerda. Não somos uma unidade política de pensamento.
De uma certa maneira, é certo de que onde existir uma luta contra injustiças, sempre haverá um judeu presente. Está no DNA de muitos de nós. Somos incapazes de assistir a opressão de um povo sem nos manifestarmos, mesmo quando isto acontece por outros membros do nosso próprio povo. Existem centenas de milhares de judeus e de israelenses na luta pelo reconhecimento do Estado Palestino.
No Brasil, não foi diferente, temos nossa própria cota de companheiros assassinados pela ditadura militar. Muitos deles mortos por sendo chamados de judeus comunistas .
Diante do que está acontecendo hoje no país, não poderíamos ficar indiferentes. A pouco mais de um mês, no dia 3 de abril de 2017, nós judeus fizemos a primeira manifestação popular contra Bolsonaro. Ela aconteceu na porta da Hebraica do Rio de Janeiro onde ele foi palestrar.
Nos organizamos desde o início contra a candidatura dele. Nos empenhamos de todas as formas para evitar sua eleição. Hoje, somos parte ativa da resistência contra seu governo, seja nas redes sociais, seja em manifestações ou na organização de atividades contra suas políticas.
Nós do campo progressista de esquerda, temos muito orgulho de nos manifestarmos contra Bolsonaro ao lado de todos os brasileiros presentes combatendo este governo fascista e sua política genocida de morte e desamparo.
por Mauro Nadvorny | 16 maio, 2020 | Crônica
Santo Agostinho, em seu livro “Confissões”, escreve sobre uma criança dominada pela inveja. Inveja de um irmão menor que mamava no seio de sua mãe: “Ele ainda não falava e já contemplava, muito pálido e com um olhar envenenado, seu irmão de leite”. A criança, de um ano e sete meses, foi despojada do objeto de seu desejo escreveu Lacan. Ver o bebê mamando reativou a dor da frustração primordial do menino na separação da mãe. Essa inveja fraterna gera ódio, afeto anterior ao amor. A chocante frase “o ódio é anterior ao amor” foi escrita durante a Grande Guerra, que revelou o quanto à crueldade em busca do poder não tem limites. Na cena da inveja do menino pelo seio da mãe está em jogo o poder, diferente do poder em jogo entre as nações, mas em jogo está sempre o poder. Poder fálico baseado numa equação de equivalências simbólicas como o dinheiro, o ouro, entre outros. As relações entre o individual e o social constam na abertura do livro “Psicologia das Massas e Análise do Eu” de Freud. Escreve que a psicologia individual é simultaneamente social num sentido mais amplo. Entretanto, o “Eu” pode ser analisado, a massa é só objeto da Psicologia, onde são abolidas na massa as diferenças individuais. Do semelhante ao mesmo é o lema da massa, o incompatível é atirado para fora.
O primeiro crime narrado no Gênesis é efetuado por Caim, que mata seu irmão Abel por inveja. Sobram crueldades na Bíblia, bem como na “Ilíada” e “Odisseia”. A inveja, nesse sentido, advém como protótipo de um drama social: o outro constitui, ao mesmo tempo, o modelo e o obstáculo à satisfação do desejo pela substituição dos objetos desejados. O assustador nessa história é quando o ódio está a serviço da paixão fanática, do amor ao ódio, dos irmãos que se unem no ódio ao inimigo. O inimigo precisa ser torturado, preso, eliminado, como no racismo, nas guerras religiosas, a guerra civil.
Há ao menos dois destinos para o ódio: um é o ódio como potência de ação, gerando um renascimento, a criação do novo. É o ódio transformado através das sublimações: amor, trabalho, esportes, arte, humor. Um segundo destino ao afeto do ódio é o do amor à destruição dos adversários, que podem ser irmãos, guerras fraternas, ou o ódio da melancolia voltado contra si próprio. O ódio é central nas paranoias, nos fanatismos, em que o inimigo é o culpado por tudo de ruim que ocorre. E sempre é o poder que está em jogo através dos preconceitos, a segregação, como a que existe contra os negros, os estrangeiros, índios, pobres. São pesadelos sociais, capazes de maldades como ocorreu, por exemplo, na Alemanha Nazista. Impressiona como a pátria de Goethe, Kant e Beethoven, projetou nos judeus o grande inimigo a destruir. O livro “Os Alemães”, de Norbert Elias, narra como os alemães abandonaram os valores humanistas a partir do século XVII. No Iluminismo cresceu o antissemitismo chegando ao nazismo; muitos não acreditaram nas ameaças de Hitler. Foi a partir de uma vitória eleitoral, de uns trinta por cento do eleitorado, que se chegou a uma das mais cruéis ditaduras.
Porque o ódio no Brasil cresceu tanto? Após 25 anos da vitória da Constituinte de 1988, foi sendo organizada uma poderosa força conservadora. A sociedade brasileira, é bom lembrar, tem suas raízes na escravidão, em sistemas autoritários como a ditadura militar. O ódio represado contra a democracia irrompeu, pois já Maquiavel tinha alertado que preconceitos são mais poderosos que princípios. Hoje uma minoria pode tudo: corromper, destruir a natureza, matar. Seu lema: Tudo para nós, nossas famílias, as migalhas para a maioria. Um exemplo recente teria espantado Santo Agostinho com a violência do restaurante de Gramado, festejando a morte. Agora, lentamente, os artistas se levantam, assim como um grupo da torcida do Corinthians. O povo silencioso segue os corajosos governadores e prefeitos. O confronto é entre a crueldade dos que ambicionam tudo e a maioria que luta para sobreviver.
por Mauro Nadvorny | 13 maio, 2020 | Opinião
O palhaço do pantanalto, através da Advocacia Geral da União protocolou no STF a entrega de seus exames de COVID-19, se é que realmente o que foi entregue representa a verdade.
Jamais convencerá alguém que um resultado negativo de um exame de doença infecto-contagiosa não relacionada a aspectos íntimos de sua vida seria objeto de sigilo pessoal, sabendo que a posição que ocupa não permitiria este tipo de sigilo.
Alegou, publicamente, que o registro do exame no laboratório havia sido “codificado”. Certamente, como todo delirante paranóide, teria feito isto de fato para dissuadir qualquer tentativa de vazar o resultado. Ainda assim, também afirmou publicamente que o resultado era negativo.
Ora, se era negativo, por quê não exibir o resultado? Logo aqui, verifica-se a patologia do comportamento. Pois sabia sim que a matéria poderia vir a ser objeto de contestação judicial, o que de fato foi.
A sentença de 3a. instância proferida pelo presidente do STJ foi uma afronta à lei. Recorrida ao STF, foi destinada à apreciação do Ministro Lewandowski, que certamente ordenaria a entrega do exame. Então, vem a capitulação com a entrega voluntária de algo, que nesta altura dos fatos, já nem tem mais valor, a menos que uma completa e detalhada perícia seja feita nos documentos e no laboratório que processou o exame, já que a sequência de fatos não mais permite qualquer credibilidade a duas folhas de papel.
Na capitulação, combinam-se as características da canalhice, da covardia, do abuso de poder e certamente da fraude. Existe o claro objetivo de amenizar a situação, evitando-se uma sentença contrária que poderia por um lado desmoralizar o amigo do STJ e por outro lado estabelecer uma condenação ao psicopata, ainda que fosse sobre obrigação de fazer e não uma criminal.
A Advocacia Geral da União, enquanto instituição vem sofrendo derrotas em série que não representam apenas derrotas jurídicas comuns. Foi humilhada à condição de advocacia personalizada do presidente e pelo mau caráter de seus representantes, que certamente sabedores do direito, abraçaram as causas do meliante no poder sabendo dos altíssimos riscos de derrota, que de fato vêm se confirmando.
O palhaço do pantanalto comporta-se como um verdadeiro adolescente perverso, usando o ferramental do poder público para fazer valer seus desejos. Aqui na planície, cabe ao cidadão questionar quantas horas de funcionalismo de alto escalão tudo isso custou até o momento. Trabalho da juiíza de primeira instância e todo o seu aparato, trabalho do desembargador federal e todo o seu aparato, trabalho da burocracia do STJ e do STF e da própria AGU. Certamente, se bem calculado, tudo isso custou dezenas de milhares (ou mais de uma centena) de reais ao erário público em horas/pessoas de trabalho, somando-se a outros custos operacionais.
Esperamos que o Ministro Lewandowski não tenha se seduzido por esta mais que suspeita capitulação, e que determine uma rigorosa auditoria em todo o procedimento, deixando claro à nação que não se resolvem no STF questões de canalhice. E que assim, intime o fornecimento dos resultados diretamente da origem e sob auditoria técnica rigorosa. É o mínimo que se espera e é o que eu faria em seu lugar. Afinal, uma tentativa mal-sucedida de “passa-moleque” já teve o seu lugar nesta opereta trágica quando a AGU encaminhou um relatório médico à Justiça Federal onde não constavam os documentos solicitados.
Ainda assim, a “cuestão” não se resolve com os eventuais resultados negativos, caso se confirmem. Em primeiro lugar, pelo quanto descrito aqui já se demonstram os atos de improbidade e de abuso de poder. No meu entendimento, pelo menos. Mas indo um pouco mais adiante, nada alivia o crime cometido pelo perverso mandatário nas manifestações onde desceu ao encontro do público, tocando em pessoas e provocando aglomerações. Afinal, em tese, sabendo-se negativo quanto ao vírus, teria assim se exposto voluntariamente a um possível contágio, o que se transformaria rapidamente em questão de segurança nacional. Não é permitido a qualquer presidente de qualquer república, bananeira que seja, expor sua vida a risco, ainda que com “passado de atleta”, o que a ciência e os fatos já demonstraram cabalmente que não protege ningúem da morte ou doença grave pelo COVID-19.
Por fim, resta esclarecer ao público em qual instituição de ensino formou-se, em nível superior, o psicopata mandatário nas disciplinas da canalhice. Pois sim, fez jus ao diploma.
NN
por Mauro Nadvorny | 12 maio, 2020 | Brasil, Política
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em manifestações contra medidas de isolamento e distanciamento social, feitas para combater o novo coronavírus
Ao cobrir para a revista The New Yorker o julgamento do criminoso de guerra nazista Adolf Eichmann, em 1961/62, a filósofa judia de origem alemã, naturalizada americana, Hannah Arendt, criou um conceito que entraria para a história: a banalidade do mal.
Enquanto o processo corria em Jerusalém em torno dos muitos ismos – nazismo, antissemitismo, racismo, eugenismo – Arendt se consagrava a tentar compreender a relação entre o homem Eichmann e os seus atos. Chegou assim à conclusão que o oficial SS, apesar de ter sido um dos altos responsáveis da “solução final”, que visava exterminar os judeus da face da Terra, não era uma “bête furieuse” como ela própria imaginava e sim um funcionário medíocre do 3° Reich. E de forma mais ampla, que o “mal não reside no extraordinário e sim nas pequenos atos cotidianos que levam a cometer crimes abomináveis.”
Nessa série de artigos, depois transformada no livro Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil – Eichmann em Jerusalém Uma reportagem sobre a banalidade do mal -, Hannah Arendt defende a tese de que o nazista abandonou o poder de pensar para obedecer ordens cegamente. Em outras palavras, que ele perdeu a capacidade humana de distinguir entre o bem do mal, sem nenhum motivo, convicção pessoal nem intenção. Resumindo, Eichmann perdeu a capacidade de elaborar julgamentos morais.
Do ponto de vista filosófico, isso equivale a dizer que os crimes terríveis cometidos pelo responsável da logística da Shoá não foram cometidos porque ele era mau, e sim porque era medíocre.
Para Arendt, continuar a pensar e se questionar sobre si mesmo e seus atos, é uma condição sine qua non para não cair na banalidade do mal.
As reflexões da filósofa-jornalista me parecem importantes para tentar entender o fenômeno Bolsonaro.
Um simples exemplo: na sexta-feira, dia 8 de maio, mais um dia de recorde de mortes pelo coronavirus, o presidente ignorava voluntariamente 10 mil mortes para ironizar e anunciar um churrasco no Palácio da Alvorada no final-de-semana para 30 ou 3.000 convidados. No fundo, o número pouco importa, pois ao organizar o churrasco desobedeceria as recomendações das autoridades de saúde, do Brasil como do resto do mundo.
Questionado pelos jornalistas se promover um churrasco com aglomeração de pessoas não seria um mau exemplo, o Jim Jones brasileiro convidou os apoiadores que estavam na frente do Alvorada a participarem da festa.
O presidente foi questionado seis vezes pelos veículos de imprensa se o gesto não era um exemplo negativo para a população. Ele, no entanto, não respondeu e continuou a brincar, ameaçando, com um largo sorriso, retirar a classificação do trabalho jornalístico como atividade essencial durante a pandemia, em mais uma ameaça à liberdade de imprensa.
O churrasco não se realizou; Bolsonaro trocou a carne assada por um passeio de moto aquática, sempre desrespeitando o distanciamento social. Naquele exato momento, o Congresso hasteava a bandeira a meio-pau em sinal de luto pelos mortos da pandemia.
Os apoiadores do capitão, sempre prontos a gritar “Mito! Mito!”, poderiam me perguntar o que um churrasco fake e um passeio de jet ski têm a ver com Eichmann e a banalidade do mal. Explico:
Hannah Arendt talvez tenha se enganado ao ver em Adolf Eichmann “apenas” um funcionário medíocre e não o monstro que ele era realmente, além de um artista hors pair, capaz de mentir descaradamente durante todo o processo sem um piscar de olhos nem um pingo de arrependimento.
Jair Bolsonaro, outro mentiroso contumaz, talvez não tenha entendido o recado dos jornalistas, que o fato de organizar uma aglomeração em meio à pandemia era um mau exemplo. Ou talvez se comporte assim por incapacidade de diferenciar o bem do mal, que nos guia desde Adão, Eva, deus e a serpente.
Um estudo da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, concluiu que ao menos 10% dos casos de covid-19 no Brasil se devem aos atos e palavras do presidente. Municípios bolsonaristas têm quase 30% mais casos de infecção que os demais.
Talvez Jair Bolsonaro sofra de alexitimia, uma espécie de analfabetismo emocional. Ou de esquizofrenia, por ter tido uma aprendizagem deficiente da expressão dos sentimentos na infância e adolescência, no seio familiar. Ou seja, um psicopata perverso. Pouco importa o diagnóstico, para o Brasil e os brasileiros só interessa o resultado … catastrófico.
Do ponto de vista filosófico, a banalidade do mal, tal como descreveu Arendt, deve-se assim a uma “ausência de pensamento crítico”. O que parece ser o caso do presidente e de seus seguidores. No período nazista, poucos foram aqueles que pensaram por si mesmos e souberam distinguir o bem do mal, agindo de acordo com estes conceitos.
Mas a maioria preferiu ignorar o imperativo categórico kantiano dos princípios morais que devem ser observados incondicionalmente.
Para a filósofa-jornalista, o fato de “não pensar” não constitui uma fatalidade imposta por uma força externa insuperável. É antes o resultado de uma escolha pessoal.
“Pensar”, escreveu, “é uma faculdade humana, seu exercício é responsabilidade de cada um” – tanto no caso de Adolf Eichmann, como no de Jair Messias Bolsonaro.
Ambos parecem incapazes de formular julgamentos morais.
Assim também, os apoiadores e próximos de Hitler optaram por desistir do pensamento crítico para seguir irrefletidamente seu líder, da mesma maneira que os fanáticos de Bolsonaro.
Na “Banalidade do Mal”, Hannah Arendt conclui que o fato de abandonar voluntariamente a capacidade de pensar não faz de alguém um inocente, ao contrário, é um fator agravante: os crimes de Eichmann são portanto imperdoáveis. Ao que eu acrescento: os de Bolsonaro também.
por Mauro Nadvorny | 12 maio, 2020 | Crônica
O problema mais sério do homem é a solidão (Érico Veríssimo, em entrevista a Paulo Autran)
Maktub. Andávamos pela feira da rua Tristán Narvaja, tradicional programa domingueiro em Montevidéu. Deixando-nos levar pelo acaso, em meio a aromas e quinquilharias. Numa das muitas transversais, um imenso sebo jogou seu canto de sereia. E lá estava a biografia de Ghiggia, o ponta-direita da Celeste que calou o Maracanã em 1950. O vendedor puxou conversa. Disse-lhe, meio demagógico, que levaria aquele pedacinho do Maracanazo em homenagem à dor pela maior tragédia do futebol brasileiro . Fez-me um bom desconto e saí com a perspectiva de reabrir um tema inesgotável. Aliás, muitos temas.
Quem me acompanha, sabe que passei um longo tempo obcecado pela Copa de 1950. Li, ouvi, assisti, tudo que pude sobre a ascensão e queda de um time espetacular, que naufragou engolido por uma mistura tóxica de soberba, patriotadas, histeria da imprensa, submissão a interesses políticos, e, sobretudo, por uma atuação impecável dos uruguaios. Às 16:39 horas do dia 16 de julho, 34 minutos do segundo tempo, Ghiggia bateu Bigode na corrida, entrou na área brasileira e fez o ilógico. Chutou quase sem ângulo e surpreendeu Barbosa, que se preparava para cortar o provável centro para Schiaffino. Dois a um, mais de duzentas mil pessoas assombradas com o impossível, um país em silêncio. A partir daí, histórias e mitos se confundiram para sufocar uma dor que parecia murmurar: é, esse país nunca vai dar certo mesmo.
O grande personagem trágico daquela tarde sem glória foi um negro, 1,74 m, destaque no Expresso da Vitória vascaíno. O goleiro Barbosa foi acusado de ter tomado um frango e ser o culpado pela derrota. Em 1959, Nelson Rodrigues escreveu: “O sujeito pensa em Barbosa, o sujeito descarrega em Barbosa a responsabilidade maciça, compacta, da derrota. (…) O brasileiro já se esqueceu da febre amarela, da vacina obrigatória, da (gripe) Espanhola, do assassinato de (senador) Pinheiro Machado. Mas o que ele não esquece, nem a tiro, é o chamado frango de Barbosa”. Amargurado, o goleiro dizia que era o único brasileiro condenado à prisão perpétua. Cadeia sem barras, sem carcereiro, mas de solidão carnívora.“Eu já pensei um milhão de vezes naquela jogada”, lamentava-se, no centro nervoso de seu pesadelo recorrente. Certa vez, estava num bar, quando se aproximou uma mulher com seu filho pequeno. Reconhecendo Barbosa, virou-se para o filho e disse: “Está vendo esse aí ? Foi ele que fez o Brasil chorar”.
Em meio à pandemia do coronavírus, a solidão de Barbosa parece a metáfora perfeita para a sensação de abandono, de condenação sem culpa, de comprometimento do futuro, de impotência para enfrentar o invisível, em que todos estamos metidos. Não é aquela solidão gostosa, fértil, de relação preciosa com o mundo interno. É o estar solitário com medo. Perguntado sobre como lidava com a solidão, Valter Hugo Mãe ponderou que tem medo de ficar só. “Não acredito que alguém nos pode entender o suficiente para conhecer e ser solidário com nossas falhas. A maioria das vezes, nas nossas inevitáveis falhas, estaremos sem ninguém”. Sem querer, o escritor português parece fotografar, em agressivo preto de branco, a fração de segundo que levou Ghiggia a entortar a lógica e selar o destino de um homem.
A festa que estava armada para festejar o título que não veio, os hectolitros de cerveja, as escolas de samba, as promessas dos políticos e dos comerciantes, o desfile em carro de bombeiros, tudo virou jornal queimado nas arquibancadas da solidão. Barbosa morava em Ramos. Os vizinhos tinham preparado um banquete para celebrar a vitória. Uma mesa enorme no meio da rua, com todo tipo de tiragosto e carne, de pernis a chuletas, de sardinhas fritas a moelas, aguardava a chegada do herói consagrado. Quando finalmente conseguiu sair do Maracanã e atravessar as ruas desoladas, Barbosa chegou à sua casa. Um vento morno sacudia a toalha da mesa armada para o triunfo, a comida intocada, os vizinhos ausentes. Alguns cachorros cercavam a mesa, atraídos pelo cheiro da comida. No entanto, nenhum deles tentava alcançá-la. Pareciam hipnotizados. Como se uma maldição os espreitasse, interditando a alegria. Pois foi essa mesa farta, mas proibida, que perseguiu um condenado ao silêncio e à culpa até sua morte, há vinte anos.
Abraço
Jacques
por Mauro Nadvorny | 11 maio, 2020 | Brasil, Comportamento, Opinião
A Secom é a Secretaria Especial de Comunicação Social é o órgão da Presidência do Brasil responsável pela liberação de verbas e gerenciamento de contratos publicitários firmados pelo Governo Federal que tem a frente o ministro Fábio Wajngarten, judeu, segundo ele.
Como forma de mostrar supostas ações do governo federal contra o Corona vírus, a Secom divulgou nas redes sociais que “Parte da imprensa insiste em virar as costas aos fatos, ao Brasil e aos brasileiros. Mas o governo, por determinação de seu chefe, seguirá trabalhando para salvar vidas e preservar o emprego e a dignidade dos brasileiros. O trabalho, a união e a verdade libertarão o Brasil”.
Foi o bastante para que se visse uma associação com a famosa frase do Campo de Concentração de Auschwitz “O Trabalho Liberta”. Logo se pronunciou a IBI, (Instituto Brasil-Israel) que em nota afirmou que “Não é mais necessário insistir no fato de que o Governo Federal utiliza referências do nazismo. Quem tinha dúvidas, já não as têm. Se segue no barco, compactua, pelo menos em parte, com esse ideário. A história cobrará o preço”.
A resposta de Wajngarten veio em seguida: “É impressionante: toda medida do governo é deformada para se encaixar em narrativas. Na campanha, faziam suásticas fakes; agora, se utilizam de analfabetismo funcional para interpretar errado um texto e associar o governo ao nazismo, sendo que eu, chefe da Secom, sou judeu!”
Nem 8, nem 80. É fato de que o presidente cometeu inúmeras gafes em relação ao nazismo e aos judeus, inclusive uma ofensa grave em sua visita ao Museu do Holocausto “Yad Vashem” em Israel, onde afirmou que o nazismo era de esquerda.
Roberto Alvin, o precursor de Regina Duarte, na Secretaria Especial da Cultura, fez uma peça publicitária imitando em tudo um filme de Goebbels, o ministro da propaganda de Hitler. Foi demitido.
Grupos nazistas apoiam abertamente Bolsonaro, mas nunca se viu o presidente negar este apoio, nem mesmo uma palavra contra suas ações.
Existe, portanto, inegáveis ações e manifestações nazistas que se associam a este governo. Algumas delas podem ser atribuídas a pura ignorância e desconhecimento da história, como talvez seja o caso. No entanto, a repetição deles ascende luzes de imensa preocupação, seja por seu número cada vez maior, seja pela negativa em aceitar as evidências.
Wajngarten até pode estar certo em afirmar que não havia nenhuma intenção em usar uma frase sarcástica nazista em sua publicidade, mas erra ao não reconhecer que foi exatamente o que produziu. Neste caso, não se trata de deformar a realidade, trata-se de compreender o efeito causado, que ele, como judeu que diz ser, deveria mais que ninguém, ter percebido.
O que estamos assistindo, com números de infectados e mortes subindo dia a dia, e uma ação abertamente contrária a todas as recomendações da OMS e do que fazem todos os países do mundo, pedindo ao povo que saia para trabalhar, é sim uma ação nazista. ~E como dizer que os brasileiros são uma raça superior, imune ao vírus.
Talvez pelo que a história nos ensinou, nós judeus, somos os primeiros a notar os mínimos sinais da existência de ideários nazifascistas. Nossa sensibilidade em relação a este tema vive a flor da pele. Uma vez, pode ser um equívoco, duas pode ser um deslize, mas depois disso é a confirmação do óbvio, o governo Bolsonaro é um governo fascista em número, gênero e grau.
Enviar as pessoas para trabalhar é o mesmo que as enviar para uma roleta-russa. Todos sabem que em algum momento a bala será disparada, só não se sabe quem irá morrer. As mortes vão se somando e cada uma delas leva a assinatura de Bolsonaro que enquanto ssi passeia de Jet Ski.
Um triste cenário que a propaganda oficial tenta acobertar. Com, ou sem, a famigerada frase, toda publicidade governamental é uma ficção. Felizmente não conseguem acobertar a realidade com todo o horror que está acontecendo, graças a mídia e a nossa resistência.