por Mauro Nadvorny | 26 maio, 2020 | Crônica
Futebol não é questão de vida ou morte, é mais que isso (Bill Shankly, escocês, ex-treinador do Liverpool)
Ainda era o dia 8 de maio e o coronavírus já nadava de braçada, chegando a mais de 750 mortes no país em 24 horas. A UFRJ recomendava isolamento total no estado. O que fez a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ) ? Publicou uma carta, pressionando autoridades para permitir que os clubes pudessem reiniciar as atividades “em poucos dias”. Este alinhamento letal com negacionistas irresponsáveis foi vergonhosamente seguido pelos presidentes dos clubes mais populares do Rio. No dia 19 de maio, Rodolfo Landim, presidente do Flamengo, e Alexandre Campello, presidente do Vasco, se reuniram com Bolsonaro, defendendo o retorno do futebol. A média de mil mortos diários, o iminente colapso das redes hospitalares, a total falta de coordenação operacional na área da saúde, nada sensibiliza o trio.
O Flamengo, espetacular no campo de jogo em 2019, se torna instrumento político para as aventuras da extrema-direita. Não bastava a nós, torcedores de um time de fortes raízes populares, vermos o capitão celerado e seu ex-ministro da Justiça vestirem a camisa rubro-negra há cerca de um ano. Agora, a diretoria do clube adere à plataforma criminosa que defende o retorno imediato à “normalidade”, ameaçando a vida de milhares de brasileiros. Que ninguém se iluda: a manobra em curso é um passo na direção da suspensão do isolamento social. Bem disse o ex-jogador Alex, sobre a defesa de Bolsonaro para o retorno dos jogos sem torcida: “Não vejo possibilidade nenhuma de se voltar ao futebol. Sigo acreditando que devemos seguir as diretrizes da ciência”.
Esporte e política nunca andaram separados. Desde sempre, presidentes da República tiram sua casquinha da seleção brasileira. E não são exclusividade da direita. Os jogadores, imensa maioria com baixo nível de educação e interessados apenas no alpinismo profissional, são joguetes nessa trama. Vale uma análise do Sócrates, raro exemplo de jogador bem articulado e com sólida informação política. Durante a Mundialito de 1980, torneio que a ditadura uruguaia promoveu para celebrar a vitória num plebiscito (que não veio; mas isso é outra história), ele comentou a indiferença dos jogadores ao fato de estarem jogando num país sob ditadura. Sócrates, então, contou que, certa vez numa concentração, pegou os jornais do dia e separou em duas partes. Numa, colocou as páginas esportivas. Na outra, as seções de cultura, economia, política. Pois bem, nesta última ninguém tocou. Concluiu dizendo que gostaria de abrir um debate: que os jogadores de futebol fossem obrigados a ter uma formação em temas fora do esporte. Num país em que o futebol é fator de identidade nacional e os jogadores exercem grande influência sobre a população, isso poderia ter repercussões importantes. Claro que ficou apenas no desejo dele, liderança histórica da Democracia Corintiana e cidadão militante.
Pelo lado falsamente folclórico da ligação esporte-política, é inevitável lembrar do ex-juiz Mario Vianna. Membro da Polícia Especial no Estado Novo, era conhecido pela truculência. Em 1954, na Copa da Suíça, o Brasil perdeu da Hungria por quatro a dois. Nada de mais. Era o scratch húngaro celebrado pelo Nélson Rodrigues. Ao final da partida, os jogadores brasileiros, descontrolados, provocaram uma tremenda briga. Enquanto isso, Mário Vianna insultava o juiz, o inglês Arthur Ellis, pelo microfone de uma rádio, dizendo que ele fazia parte de um complô comunista. Investigado, descobriu-se que o senhor Ellis era mesmo filiado ao partido. Só que ao Partido … Conservador. Mário ainda deu vazão à sua fúria pacheca em duas outras ocasiões. Em 1962, na Copa do Chile, depois que o juiz peruano expulsou Garrincha na partida contra os anfitriões, xingou-o de “índio safado”. Em outra, creio que na Copa de 70, berrou que o árbitro israelense Abraham Klein “além de judeu, era ladrão”. Por trás dos maus bofes caricatos, reinou o ufanismo que se orgulha da ignorância.
Por fim, cabe perguntar o que significaria ter jogos de futebol sem público ? Quem já esteve num estádio, sabe que nada do que acontece dentro das quatro linhas terá muito sentido sem a participação da torcida, dos radinhos de pilha (ainda existirão ?), das bandeiras e faixas, das gozações ao vivo, dos afagos no juiz. Inesquecível o improviso da torcida do Flamengo num jogo contra o Botafogo, 1965. A peleja não valia nada, com qualquer resultado o Flamengo seria campeão. O Botafogo botou água no chope, um a zero, gol de Gerson. Na mesma hora, a torcida rubro-negra tascou: É ou não é/piada de salão/o Gerson faz o gol/e o Flamengo é campeão ! Eu estava lá ! Futebol sem esses confeitos, essas surpresas, é tão emocionante quanto um discurso do Ruy Barbosa.
por Mauro Nadvorny | 23 maio, 2020 | Brasil, Política
Já não há mais disfarce. Todo o processo que começou em junho de 2013, e foi conduzido com inegável e invejável maestria pelo que há de mais sórdido na elite brasileira, chega ao desfecho por ela desejado.
Digam o que disserem, vivemos sob nova ditadura militar, a serviço – como de costume – dos interesses imperialistas dos Estados Unidos da América do Norte e da consolidação dos privilégios dos ricos (seus eternos lacaios), e sacrifício dos pobres.
É exatamente a mesma roupagem de 1964, adaptada apenas aos novos ditames da moda. Não foi preciso deslocar uma frota ao nosso litoral, ou movimentar tropas, ou depor um presidente pela força.
Bastou utilizar com habilidade os novos instrumentos tecnológicos da guerra híbrida. Quem tem porventura ainda alguma dúvida, dê uma olhada aqui: http://www.brasilwire.com/how-the-united-states-killed-brazils-democracy-again/ – é longo e está em inglês, mas é importante para quem quer entender o que está acontecendo.
Seja como for, o fato é que sem dúvida voltamos a 1964. Ainda não começou a repressão violenta, até mesmo porque desnecessária, já que até aqui não houve nenhuma resistência. Mas ontem (22/05) já ficou bem claro o que virá se alguém ousar desafiar o onipresente e incontrastável poder militar.
O milico mais próximo do presidente ameaçou a nação, com todas as letras, de retirar a fina e transparente capa que nada esconde, e escancarar o arbítrio que já vigora. Alguém disse que se trata de um arroubo isolado de quem não tem apoio pra soltar a besta.
Bobagem. O cara só parece um asno. Não faria algo dessa natureza sem aprovação do chefe e respaldo dos colegas.
Subestimar esses canalhas é – sempre foi! – o melhor caminho para o inferno. Miremo-nos, por favor, em 1964 – que, insisto, voltou!
As forças armadas brasileiras foram incapazes de produzir um único democrata depois daquele golpe. E já lá se vai mais de meio século! A culpa é também nossa, os que lutaram e lutam pela liberdade, que jamais tivemos condições de nos mobilizar para arrancar um acerto de contas com a História da ditadura.
A culpa é também nossa porque, ao longo de quase catorze anos no poder, não fomos capazes de tocar nas estruturas injustas que regem nossa sociedade essencialmente escravocrata. Que compusemos com a elite mais nojenta da face da terra. E que cedemos a tentações não republicanas, violando normas das quais éramos os mais notórios guardiões, e com isso entregando, de bandeja, o pretexto ao inimigo.
O paradoxo irônico por excelência é que o golpe mais contundente até aqui assestado contra a corja milico-miliciana que assaltou o poder através de artimanhas extremamente abjetas, veio de dentro, desfechado justamente pelo mais pérfido, sórdido e perigoso de seus integrantes, autor das piores delas.
Fazendo jus à sua natureza artrópode aracnídea, o ex-juiz e agora ex-ministro Sérgio Moro aproveitou a posição privilegiada que alcançou à custa de sua falta de escrúpulos elementares, para se armar e, chegado o momento, fez o que de melhor (e único!) sabe fazer: adotou a postura que mais favorece seus interesses e projeto pessoal, doa a quem doer.
Como não é capaz de ter amigos, salvo a si próprio, traiu serenamente seus novos “aliados”.
Assim, com a pior das intenções, terminou por entregar à sociedade brasileira, juntamente com as vísceras do regime podre que criou e ao qual serviu enquanto dele se podia servir, informações preciosas com as quais as instituições, se funcionassem, poderiam esboçar uma defesa para o país.
Não nos iludamos porém. Repito: as intenções do verme são as piores possíveis. Ao instalar a cizânia no interior das hostes fascistas, longe do bem do país, só o que pretendeu foi desequilibrar a respectiva correlação de forças para seu próprio lado.
Pode, entretanto, ter subestimado a fera. Acuadas, elas só sabem reagir com redobrada ferocidade.
Os primeiros sinais disso já estão claríssimos a quem tem olhos de ver.
A julgar pela história se repetindo como farsa, tudo indica que o tiro de Moro pode estar se dirigindo inexoravelmente à culatra. Seu destino poderá ser o mesmo reservado a Carlos Lacerda nos idos de 1964. Os corvos que criou lhe devoraram os olhos.
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por Mauro Nadvorny | 23 maio, 2020 | Brasil, Opinião, Política
Não há razão para surpresa pela “vulgaridade” das falas na reunião ministerial finalmente divulgada. Também não me surpreende que o que já havia sido vazado fosse apenas uma tentativa de minimizar o dano. Nada supera a verdade ao vivo e a cores.
Repetindo o que já li, em qualquer país democrático deste planeta, o governo já teria caído depois desta divulgação. Qualquer presidente com a mínima compreensão do que seja o cargo que ocupa, teria pedido para sair. Mas aí está o problema. O que temos no Brasil é um inepto que senta numa cadeira sem a menor ideia do que significa vestir a faixa de Presidente da República.
Não vale a pena aqui ficar repetindo o “eu avisei”, isto não muda nada. A situação em que o país se encontra é obra de brasileiros que votaram nisto que está aí. Provavelmente se tivesse uma nova eleição amanhã, isto daí ganharia novamente. A esquerda ainda não aprendeu a jogar como eles.
No mesmo nível desta coisa, estão os seus ministros. Não se salva um sequer. O que pudemos ver e escutar foram as falas de uma única reunião ministerial. Imaginem as outras, ou as que são realizadas em seus gabinetes a portas fechadas. Diante da amostra que recebemos, o STF deveria impor a divulgação de todas elas e distribuir Plasil.
Eu, que não sou nenhum jurista, imagino que Moro conseguiu comprovar sua acusação. O bobo da corte interferiu na PF para salvaguardar sua família e amigos. Entre impropérios ele revela o que realmente o incomodava, o que deveria ser feito imediatamente, qual seria a consequência da desobediência, e o mais importante, diz isso olhando na cara do Ministro da Justiça. Nem precisa desenhar.
Entre tudo o que está sendo revelado, o que me chamou muita atenção foi a questão da liberação das armas para o povo e a democracia. Tomando as (corretas) decisões dos governadores e prefeitos de fechar o comércio e manter o isolamento social como mote, ele diz que se o povo estivesse armado, poderia se revoltar contra isso e sair para a rua. Faz da única maneira, internacionalmente comprovada de conter a pandemia, uma ameaça à democracia.
Segundo o pensamento de Bolsonaro e família, os governadores e prefeitos estariam usando de atribuições ditatoriais para impedir que as pessoas pudessem se movimentar livremente, trabalhar, ir a Shoppings, cinemas, restaurantes, enfim levar uma vida normal como sempre, e morrerem como nunca.
No caso de uma população armada, todos que não concordam hoje com o isolamento, amanhã com o aumento do IPTU, depois contra as multas por alta velocidade nas estradas, poderiam sair de armas em punho e impor sua vontade. Esta é a visão de uma Democracia Miliciana.
Nesta democracia, as vontades populares são respeitadas da mesma maneira como as milícias impõem as suas. Lojistas precisam pagar por sua segurança, o gás precisa pagar uma taxa para venda, TV a cabo, só a da TV Milícia. Isto porque eles andam armados, bem armados.
Nesta democracia, um governante deve respeitar a vontade popular dos que estiverem armados. Quem não concordar com uma multa de trânsito deve sair na rua e por direito, mediante a posse da arma, fazer com que o funcionário de trânsito reconsidere.
Na Democracia Miliciana, o presidente possui seu próprio serviço de informações composto de policiais milicianos que o suprem com as informações relevantes ao cargo, tais como operações policiais contra seus familiares e amigos. É uma via de mão dupla. Em troca das informações, ele libera as armas para as milícias. Alguém acha que o cidadão comum tem dinheiro para comprar uma arma?
Este é o Brasil atual. Milicos dando palpites no que o STF pode, e não pode fazer. Generais de pijama insinuando golpe militar. Ministro do Meio Ambiente propondo medidas antiambientais enquanto a imprensa se preocupa com o Covid, Ministro da Educação propondo por na cadeia os vagabundos do STF, Ministro da Fazenda propondo acabar com o Banco do Brasil etc. Enquanto isso, temos o Fabrício Queiroz lindo, leve e solto.
Temos um final de semana para digerir tudo isto. Mas logo virá a segunda-feira e o Brasil não pode ficar como antes. Se nada for feito agora para acabar com este governo, não sei o que vai restar para o próximo fazer.
por Mauro Nadvorny | 23 maio, 2020 | Crônica
O poeta pediu para não perguntar por quem os sinos dobram. Os sinos deveriam tocar pelos mortos, mortes que foram antecipadas pelas ciências da medicina, Hoje toda verdade é castigada, e os noticiários, diariamente, silenciam as dores com a frieza dos números. Anunciam as mortes com gráficos que nada sentem. O governo ri, alguns dançam, muitos não acreditam, e depois lamentam. As milhares de mortes foram desprezadas por forças desalmadas. Aliás, um dia será escrita a história dessas Forças, pois elas existem para defender a sociedade, mas estão unidas às agressões do poderes poderosos. Hoje impera a velha eugenia na qual morrem os desprezíveis, os fracos, os velhos. Num passado, nem tão distante, o nazismo matou milhões de judeus, doentes mentais, ciganos, e rebeldes. Todos foram considerados nocivos à raça ariana. Hoje atacam os índios, os pobres, os negros.
É impossível expressar em letras, pois elas não expressam os sentimentos dos familiares, amigos e vizinhos dos mortos. As palavras não exprimem as lágrimas dos pais de filhos mortos, como os pais de João Pedro de 14 anos assassinado. Choram avós, netos, tios e tias. Só se sabe o nome e sobrenome de um ou outro morto, como a do poeta Aldir Blanc. Dizem que já morreram vinte mil e irão morrer muitos mais. Escrevem estudiosos que são três mortos para cada um anunciado pois muitos não são diagnosticados. Deveriam morrer muitos pela infecção viral, mas nunca morrer tantas e tantos por descaso dos Cinco Poderes.
Tudo que se escreve não alivia o peso das sombras fúnebres e os sons emudecidos dos sinos. Um sentimento de mundo começa a crescer, contrário a cumplicidade com a crueldade. Os sinos íntimos tocam alguns corações e perguntam por quem eles tocam. Os sinos estão guardados em caixas empoeiradas.
E as televisões diluem as razões de tantas mortes, ocultam sobre os motivos de morrerem mais de mil por dia. Trocam de ministros da saúde sem pudor , gerando o caos na defesa da vida. O mundo divulga quem é o pior líder mundial da pandemia mas a notícia se perde na infodemia atual. O poeta Ferreira Gullar escreveu que morrem quatro por minutos nessa América Latina, mas hoje poderia escrever que a cada noventa segundos morre um ser humano neste país. Há indiferença nos corações congelados, muitos só pensam no dinheiro perdido. São sempre os outros que morrem. E a maioria dos mortos são pobres, sem água encanada, ou máscaras de proteção. Os mandatários fazem política, cuidam dos familiares, e seus apoiadores.
Saudades das batidas dos sinos marcando o horário de uma missa a que nunca fui. Os sinos têm sons para avisar um incêndio, avisar uma procissão, um nascimento ou uma morte. Quando os sinos tocavam uma canção fúnebre, era possível saber se quem morreu era homem ou mulher e até a hora que seria o velório. Gostaria de escutar os sinos dobrando de dia e de noite, a cada noventa segundos, uma para cada morte. Quem sabe assim os corações voltassem a se descongelar, em respeito aos sofrimentos dos que não podem enterrar seus mortos.
Em tempos distantes os sinos das igrejas tocavam cânticos fúnebres e perguntavam por quem os sinos dobram. Ou, em outras palavras, quem morreu? O poeta que pediu para não se perguntar por quem os sinos dobram foi John Donne(1572-1631). Ele revelou em seu poema “Meditação XVII” a conexão entre tudo que existe:“Nenhum homem é uma ilha inteiramente isolado,…a morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes perguntar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.
por Mauro Nadvorny | 23 maio, 2020 | Brasil, Opinião, Política
A – Geral
1. O vídeo demonstra que, passados 16 meses, o governo bolsonarista está sem rumo e sem plano;
2. O governo está sem qualquer plano de combate à COVID-19, e, além disso, trata os milhares de mortos com desprezo;
3. O Min. da Educação, Weintraub, não tem condição de continuar no Ministério. Ele atacou o STF e revelou desprezo por populações indígenas;
4. A fala de Ernesto Araújo (não revelada porque é grave) não tem condição de continuar no Ministério;
5. A Ministra Damares está sem projeto ou condição objetiva para Direitos Humanos;
6. Excesso de palavrões que corresponde ao português chulo dos Bolsonaros e dos bolsonaristas (sem surpresa);
7. Os Ministros oriundos do Exército estão perdidos.
8. O Ministro do Meio Ambiente, Salles, deixou claro que deveriam aproveitar o momento de COVID-19 (e nas sombras) para implementar políticas contra as reservas amazônicas e a favor dos ruralistas.
B – Específico: que interessa ao Processo
1. Bolsonaro explicitamente afirma a intervenção política na PF – Polícia Federal do RJ (concretizada no dia seguinte) para proteger familiares e amigos. Isso prova a versão de Moro;
2. Bolsonaro diz ter informações de fonte direta. Isso amarra o caso ao Delegado Ramagem e à denúncia nesta semana do empresário Paulo Marinho – carioca.
C – Denúncia da PGR
1. O PGR, sr. Aras, tem elementos e provas para apresentar a Denúncia contra Bolsonaro;
2. Se Aras não apresentar a Denúncia contra Bolsonaro, terá que processar Moro por denunciação caluniosa.
por Mauro Nadvorny | 18 maio, 2020 | Crônica
É dolorosa essa experiência de viver a morte que deveria ser exceção virar uma pavorosa rotina (Roberto Da Matta)
Parecia um sábado como qualquer outro. Ela foi assistir a aula de teatro da neta, que adorava um palco. Quando terminou, me puxou de lado, com expressão tensa. Justo ela, que sempre vestiu máscara de durona, de engavetadora das notícias tristes. Fiquei preocupado, e não era para menos. Disse-me que estava fazendo uns exames, podia ser coisa séria, era bom estar preparado. Ora bolas, eu conhecia aquela mímica, aqueles movimentos faciais, e eles gritavam por socorro. Grito sufocado, que ela não estava acostumada a dar. Desde criança, num carnaval antigo, quando se perdeu no meio de um bloco e foi parar na delegacia, aprendeu a engolir o sofrimento. Seu pai a buscou com o delegado, já preparando a surra de cinto, que não tardou. Pedir socorro pra quê e pra quem ? Estar feliz era pecado. Viver era pecado.
Os exames confirmaram a suspeita inicial. Tumor, com possível metástase. A notícia era duplamente terrível. Trabalhara durante anos no Instituto Nacional do Câncer como assistente social. Encaminhava doentes para tratamento, vivência diária da angústia numa época em que o diagnóstico de câncer era uma sentença de morte. Contava que via médicos e enfermeiros circulando pelo hospital, levando órgãos dos mortos para pesquisa. Conhecia a Morte com intimidade. Agora percorreria aqueles corredores em busca de uma improvável cura. Não havia máscara que pudesse esconder o horror.
Ainda na fase inicial, acompanhei-a para receber o resultado de um exame. Quando o médico se aproximou, ela desabou. O monumento de segurança, que desafiou o machismo agudo de meu pai e de seu tempo, implorou ao doutor que lhe desse esperança. Não foi possível, as imagens eram implacáveis.
Vieram cirurgia, radioterapia, alguns medicamentos “alternativos”. Montamos uma estrutura para tratamento em casa, conforto que nos permitiu uma despedida gradual, pacífica. Nunca é fácil acompanhar uma vida que se extingue, embora, racionalmente, saibamos que ao nascer já começamos a desaparecer. A sanidade só é possível quando sublimamos a finitude e a arquivamos numa gaveta distante. Pendurada em cuidados paliativos, não restava muito tempo à minha mãe. Não conseguíamos conversar, seus olhos tinham se transformado em bolas de gude opacas. Junto com minha irmã, nos revezamos numa vigília dolorosa, mas resignada. Assistimos pela televisão a apresentação dos Rolling Stones, no Maracanã, esquecendo por breves momentos o espectro da Indesejada das Gentes.
A expectativa do inevitável nos colocou em contato com duas admiráveis profissionais da saúde. A médica, que vinha diariamente acompanhar a situação, mostrou enorme sensibilidade. Falou-nos, sem rodeios mas com delicadeza e compaixão, sobre o fim próximo, preparando-nos para isso. Sabíamos que dona Lilia, como a conhecemos, não existia mais. Não demorou muito. A enfermeira, afetuosa, incansável durante os plantões, foi companheira preciosa na jornada derradeira de uma mulher que, sem idealizações, prisioneira de infortúnios e felicidades como todos nós, aprendi a respeitar. Sem ressentimentos.
Foi nessas duas profissionais que pensei ao ver a foto de uma médica intensivista na capa d’O Globo. Rosto ferido pelo uso permanente da máscara, ela é um dos muitos trabalhadores da saúde que estão na linha de frente da luta contra o coronavírus. Submetidos a jornadas extenuantes de trabalho, muitas vezes sem condições adequadas, vivem uma rotina que combina medo e exaustão física e emocional. Em entrevista à Folha, o doutor Elias Knobel, criador da UTI do Hospital Israelita Albert Einstein, afirmou que “o Brasil nunca se preparou para uma assistência básica no mínimo decente”. Com sua longa experiência na área intensiva, Knobel observou que “quem trabalha na UTI nunca esquece. É muito difícil. Você vê tudo que pode imaginar (…) Isso causa microtraumas”.
Ao voltar de uma visita à avó doente, minha filha, aquela da aula de teatro, abaixou a cabeça e chorou baixinho. Tentei consolá-la. Enxugou as lágrimas e disse: “Vou escolher uma profissão para diminuir o sofrimento das pessoas”. Hoje, é fisioterapeuta e osteopata. Trata, como deve ser, corpo e alma. Com o pensamento e o sentimento voltados para ela, homenageio todos os profissionais da saúde que ajudam, na carne viva de uma pandemia, a socorrer quem precisa. Enfrentam a doença e os cretinos, genocidas, obscurantistas, que tentam transformar nosso país numa fantasia hedionda e caricata.