Dia das Mães

Tenho três mulheres

Três rebentos

São três vidas independentes

Seres humanos únicos

Saíram de mim

Às amei, muito antes de às conhecer

Todas são mães como eu

Tão diferentes

Ricas em defeitos

Perfeitas como filhas

Sublimes como mães

Elas são minhas

E eu, espero ser para elas no futuro

Uma lembrança boa

A voz de um ensinamento valioso

A razão de uma existência.

Mas não posso esquecer da quarta

Presente de Hashem

Filha duas vezes

Quiçá, o melhor de mim!

Mas isso, será uma outra história…

 

Malka Sarah

 

 

O Preço da Democracia – Ouvir Osmar Terra

A democracia tem seu custo. Não é um sistema capaz de causar no indivíduo a sensação de plenitude ou perfeição. Até por que, não se destina a agradar indivíduos. Ela existe para que o grupo por ela regido sinta-se seguro e em paz, ou em condições de mantê-la. Assim, pobre daquele que depositar suas esperanças de plena realização pessoal dentro desse sistema. As chances são mínimas. Pode sim, ser feliz. Mas não na plenitude. Sempre algo estará incompleto. A parcela da diferença, da dissidência, a parcela do desejo conflitante com o diferente ou divergente que foi sacrificada em nome do pacto coletivo, da negociação.

A democracia é construída sobre vários pilares que são os sistemas de valores e de conhecimento. Entre eles, os sistemas autorizativos de ensino que delimitam as profissões. Você tem o diploma de engenheiro que te habilita a construir um edifício por que esta autorização foi regulada por lei e vinculada a um sistema de ensino no qual você deverá continuamente provar sua capacidade de entendimento, aprendizado e expertise nas múltiplas facetas do conhecimento que permitem que um edifício seja construído, que atenda as necessidades para as quais se destina e que, acima de tudo, fique em pé.

Um edifício – físico ou simbólico – só fica em pé quando seus sustentáculos e alicerces existam e funcionem exatamente como os termos os definem: sustentáculos e alicerces. No simbólico, essas estruturas representam todo o conhecimento adquirido, testado e universalizado de forma que jamais tenham falhado, seja fisicamente ou no plano teórico.

A democracia moderna parte de um pressuposto não explícito de que a ciência é a fonte do conhecimento aceitável para a maioria dos que vivem sob suas luzes. Assim, embora seja saudável e construtivo que o conhecimento seja desafiado permanentemente como forma até de torná-lo mais sólido, mas os desafios ao conhecimento científico só são válidos se conseguirem apresentar resultados experimentais e práticos diferentes a partir dos mesmos pressupostos e métodos ou a partir de matrizes teóricas de raiz comum. Não é possível, por exemplo, contestar a Relatividade de Einstein sem contestar junto o Eletromagnetismo de Maxwell. E como até hoje tudo funcionou exatamente como previram as duas teorias, para demolir este edifício haverá de voltar ainda mais atrás, destruindo os sistemas de Galileu, Newton e Copérnico.

Neste cenário, aparece Osmar Terra, que publicamente e sem qualquer pudor apresenta seu sistema próprio de “conhecimento” sobre epidemias e pandemias, exatamente como aquele insatisfeito que descrevi parágrafos acima, para o qual o conhecimento que não satisfaz as necessidades e desejos pessoais pode e deve ser contestado tendo como base apenas a concepção do indivíduo, que da forma mais deselegantemente sofismática constrói sua teoria sobre fragmentos do estabelecido, e com esses fragmentos tenta montar uma imagem como um quebra-cabeças impressionista, que visto à distância pode parecer um Van Gogh, mas na proximidade não passa de rabiscos desconexos e sem significado próprio.

As argumentações de Osmar Terra sobre o “fracasso” do isolamento social não resistem à primeira camada de análise lógica, física e matemática. Não obstante, ele as apresenta com toda a empáfia e fleugma própria de uma grande academia de ciência britânica. Chega a ser chocante e revoltante o fato de uma rede como a Globo dar voz a este senhor, ainda que em contraponto com o ex-ministro Mandetta e o ex-ministro Humberto Costa, claramente harmonizados com o sistema democrático de conhecimento.

O perigo é a percepção, por parte da audiência, de que o debate posto é um debate legítimo, e que “temos que ouvir todas as opiniões” em uma democracia. Aí, o grande sofisma. A ciência só admite opiniões sobre o que ainda não foi testado ou conhecido. Não se opina sobre a virologia, sobre fisiologia, sobre farmacologia ou anatomia. O que pode-se fazer é apresentar resultados obtidos sob rigor metodológico e técnico.

O brasileiro comum costuma valorizar pessoas “de opinião”, parece ser um valor em si mesmo para certos segmentos de nossa sociedade. E aí jaz o perigo. O diferente, o minoritário, ainda mais aquele se se acusa vítima do “marxismo cultural” e de uma abstrata “ameaça comunista” que seja lá o que for só é percebida como ameaça real, motivando então uma credibilidade quase imediata.

Da mesma forma que Osmar Terra quer “enterrar” o sistema de conhecimento da democracia sob o pretexto da liberdade de pensamento e expressão, Olavo de Carvalho e toda a turba de seguidores embarca na aventura de demolição da nossa sociedade, onde cada um de seus agentes cuida de destruir algum setor do conhecimento, seja na história, na sociologia, na filosofia, e mesmo na física, matemática, medicina, direito, entre outros.

E aqui, entramos no nebuloso terreno dos limites a serem estabelecidos ao que chamamos de liberdade de pensamento e expressão. Certamente, a experimentação vem mostrando que nossa democracia não resistiu ao terraplanismo. Até a presente quadra, o preço da democracia está se tornando demasiado elevado.

Ou a democracia se reforma no sentido de fortalecer suas bases, ou será destruída quando a maioria das pessoas se convencer de que não quer pagar este preço. Fica para os historiadores e os cientistas políticos a fundação de uma nova ciência para a democracia: a imunologia democrática. Como criar anticorpos e vacinas para criaturas como Osmar Terra e Olavo de Carvalho.

NN

O Brasil em colapso

Revendo o que se poderia chamar de início dos fins dos tempos no Brasil, me deparei com aquelas primeiras manifestações verde-amarelas contra a Presidenta Dilma Rousseff. Nelas, crianças nos ombros de seus pais reclamando da alta do dólar e de sua vontade de poder ir a Disney. Lá estão também aqueles que reclamavam da alta da gasolina com histeria nos postos.

Pode-se compreender que cada um sabe onde mais lhe dói. O povo brasileiro tem gente que não junta uma moeda que caia no chão, e aqueles que fazem de tudo para receber uma moeda em um semáforo. Interessante que o abismo social no país aumentou proporcionalmente ao desarranjo político que se seguiu ao Impeachment de Dilma, o governo Temer, a prisão de Lula e a chegada ao poder de Bolsonaro.

Ninguém sabia que um vírus surgiria na China e causaria um dos maiores desastres econômicos mundiais ceifando vidas por todo o planeta com uma velocidade impressionante. O Covid-19 cobrou e segue cobrando um alto preço em todos os lugares onde a liderança política menosprezou sua força. O Brasil é a prova disso.

Sim, outros países cometeram este erro e isso fez com que a lição fosse aprendida pelos próximos países onde o vírus desembarcou. Dada a velocidade da contaminação e o número de óbitos, lidar com este vírus é como colocar uma pessoa em um carro em movimento e pedir que aprenda a dirigir. Ninguém tem certeza de nada porque ainda não houve tempo para se tirar todas as conclusões necessárias para apontar um caminho de como lidar corretamente com a pandemia, muito menos para se obter uma vacina.

Um fato é reconhecido por todo o mundo, o trabalho incansável do corpo médico para salvar pacientes, com a perda de suas próprias vidas. Em todos os países o agradecimento a estes profissionais em forma de aplausos nas janelas, de mensagens em cartazes nas redes sociais, nas redes de televisão é comovente.

Mas existe uma exceção no mundo, e ela acontece no Brasil. O corpo médico é atacado por aquelas mesmas pessoas que reclamavam da alta do dólar e da gasolina. De verde e amarelo eles agridem os profissionais que lutam desesperadamente para salvar vidas em um sistema que entra em colapso e vai obriga-los em breve a escolher quem tratar, e quem deixar morrer.

Estes brasileiros acompanham somente as redes de informação bolsonaristas. Nelas o importante é a volta ao trabalho, a abertura do comércio e o livre ir e vir. Tudo repetido exaustivamente pelo seu líder ao lado das notícias que mostram, diariamente, o aumento do número de infectados e de mortos. Já são 150.000 e 10.000, respectivamente.

O que se sabe de uma doença contagiosa, qualquer que seja ela, é de que somente o isolamento do doente impede o contágio de outros. Assim, para se combater o Covid-19, em todos os lugares, começando pela China, a população foi colocada em lockdown. Todos permanecendo em casa, os doentes são mais facilmente identificados, hospitalizados e tratados. Reduz-se assim o número de novos doentes e em pouco tempo a vida pode começar a voltar ao normal. Onde não se obedeceu a esta recomendação, o resultado foi desastroso em termos de vidas ceifadas e crise na economia. São 4.000.000 milhões de pessoas infectadas e 275.000 mil mortes no mundo.

Agora o momento de voltar aqueles de verde-amarelo. Aqueles que puderam viajar e trouxeram o vírus para o Brasil. Estes que saem as ruas em carreatas para exigir a volta a normalidade em meio ao desastre causado por eles próprios. Que atacam o corpo médico e ameaçam fechar o Congresso e o STF. Os que colocam o emprego doméstico como serviço essencial, afinal a Casa Grande não pode ficar sem limpeza diária.

Esta escória nacional que continua flertando com um presidente que não tem nenhuma preocupação com o povo brasileiro, além daqueles que o bajulam. O tipo de gente que continua se negando a ficar em casa e saem as ruas sem máscaras. Idiotas que se aglomeram para aplaudir seu ídolo que os recebe de braços abertos e cara limpa.

Todos os países do mundo vão passar por uma crise econômica e social, de maior, ou menor intensidade. Não existem exceções e o tempo necessário para superar a crise vai depender da capacidade de cada país em voltar a normalidade, mas principalmente na capacidade do mundo voltar ao normal. As economias hoje são globais e países dependem de importações e exportações.

No Brasil a crise será ainda pior por conta da instabilidade política e a falta de um presidente no cargo, uma vez que este que lá está, não trabalha. Se o país já estava à deriva antes da chegada do Covid-19, agora está fazendo água por todos os lados, graças a esta turba fascistóide que sustenta esta família miliciana no poder.

Mas se nada está tão ruim, que não possa piorar, o Centrão, aqueles parlamentares de partidos nanicos, de siglas de aluguel, conhecidos como do baixo-clero, que pendem para o lado que mais oferece algo em troca de seus votos, agora estão sendo agraciados com cargos e afagos para darem seu apoio a Bolsonaro. Sem eles, não existe a menor possibilidade de um Impeachment.

Restaria o STF. Mais precisamente um processo por crime de responsabilidade. Crimes estes que se numerados, faltaria papel. Também lá, depois que seu atual presidente, Dias Toffoli, recebe Bolsonaro e sua comitiva de empresários para escutar suas lamúrias pelo isolamento social, nada se pode esperar.

Ao que tudo indica serão tempos muito difíceis para o Brasil. Em algum momento o Corona-19 vai passar, mas em seu rastro, não serão apenas as vidas perdidas para se lamentar. O maior lamento será como foi possível que deixamos isto acontecer, quanto tempo será necessário para recuperar o país enquanto esta gangue de criminosos continuar no poder, e o que virá depois dela.

 

 

 

Eu repudio veementemente a fala da Sra. Regina Duarte

Eu, Judeu Italiano, que FALO POR MIM, pelas minhas filhas e filho, pela minha mamma, pela memória das minhas avós e avôs, pelos que foram massacrados no meu “Quartiere Ebraico”, pelo sangue judeu-italiano que tingiu a Bimá da Sinagoga Scuola (Casa degli Spiriti) no mesmo Quartiere Ebraico (no Lazio), pelos meus antepassados e pela honorável memória dos 6 milhões de Judeus e Judias assassinados pelo nazismo, REPUDIO VEEMENTEMENTE a indecente fala da senhora Regina Duarte, Secretária Nacional de Cultura, que tratou o Holocausto como coisa “que acontece”. Além disso, eu, como PROFESSOR de Direito Civil Constitutional e Direitos Humanos, pela dignidade das minhas Aulas e experiência com meus Alunos e Alunas, porque ensino no Brasil há muitos anos, REPUDIO VEEMENTEMENTE sua indecente fala em defesa da Ditadura Militar e relativização de mortes, torturas e violência militares.

Os dias em que neonazifascistas alemães e israelenses se irmanam

Nos atuais tempos, como todos sabem, quase todos os dias algo desagradável nos salta aos olhos ao abrirmos a internet ao amanhecer, não é mesmo?

Pois então, hoje não foi diferente aqui na Alemanha. Uma amiga me chamou a atenção para um novo post do partido de extrema-direita alemão, o AfD, que, como venho explicando há anos, nada mais é do que o partido neonazista com uma roupagem atualizada ao século XXI.

Este partido veicula todos os tipos possíveis de agressão aos muçulmanos, os escolhidos “inimigos” maiores da vez da “pátria alemã”. O antissemitismo do AfD é completamente velado, porém para os judeus que possuem um “olhar clínico” sobre o assunto, é facilmente – e obviamente – detectado. Já a admiração do partido pela atual Israel direitista é evidente e escancarada. Assim como é a do psicótico presidente brasileiro e a do palhaço da Casa Branca. Sim, Netanyahu parece ter o poder de conquistar aplausos de todo o lixo ultradireitista que governa boa parte do mundo.

Muito bem, hoje o AfD e a Dinastia Netanyahu deram juntos um passo à frente nesse asqueroso affaire. O filho do primeiro ministro, Yair Netanyahu – um energúmeno que em muitos pontos consegue até superar seu pai –, declarou o seguinte: “Schengen está morta. Esperamos que em breve a globalista União Europeia também esteja. Aí então a Europa será novamente livre, democrática e cristã.”

Aguardo um momento para o(a) caro(a) leitor(a) se recuperar da ânsia de vômito.

Pronto? Pois é, a declaração do filhinho do papai funcionou como prato cheio para o AfD, que rapidamente publicou um post com sua fala, foto, nome e filiação (como vocês veem acima). É, um judeu direitista que odeia árabes e muçulmanos, clamando por uma “Europa cristã”, é um presente de Natal adiantado para os nazis germânicos.

Note-se que no post, além do logotipo do AfD, aparece também o do ‘Identidade e Democracia’, grupo do Parlamento Europeu que reúne os partidos de extrema-direita de dez países, e tem como mais forte representante a italiana ‘Lega Nord’ (‘Liga Norte’, dirigida por Salvini). Ou seja, a declaração tomou proporções continentais. (Ah, sim, mais um detalhe a ser mencionado: da mesma forma como fez Yair Netanyahu, esse grupo também utiliza em seu nome o termo ‘Democracia’, virando conceitos às avessas, como sempre foi e continua sendo do feitio dos nazifascistas.)

Enfim, amigxs, nada de novo no fronte: a Dinastia Netanyahu continua contribuir para com a destruição da imagem dos judeus no mundo, os neonazifascistas continuam a inverter valores e propagar ódio, e nós, a Resistência, – da maneira que podemos – continuamos a combater o terror que tomou o planeta nos últimos anos. Sigamos. Abraços.

De Aldir a El Brujo, tudo é possível nessa Macondo chamada Brasil

Glórias a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história

Não esquecemos jamais
Salve o Almirante Negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais!

Era o longínquo ano de 1978.Eu tinha sete anos de idade e estava muito doente. Uma febre reumática aguda atropelou minha infância, me trazendo dores atrozes nos ossos, garganta inflamada com placas de pus, picos de febre. Minha mãe sobrecarregada, tendo cuidar dos meus outros irmãos, não podia focar numa só criança que precisava de cuidados 24 horas, meus avós tinham mudado para outra cidade, então chegaram a um consenso, me mandaram para casa do meu bisavô, onde duas das minhas tias-avós cuidariam de mim.

Desse período minhas lembranças mais fortes são: meu bisavô e sua cara larga de eslavo, sentado na sua cadeira cativa na varanda, ouvindo na rádio os rumos do mundo. As benzetacis dolorosas que me tomavam de terror, tomava-as dia sim, dia não e dava problema para os adultos, me escondendo debaixo da cama, dentro do armário, até dentro do tanque de lavar roupa. Não entendia o porque de me submeterem aquela sessão de tortura, por mais que explicassem que era para o meu bem. Graças a odiosa injeção e a diligência do bisa e das tias me livrei de uma cardiopatia. Obrigada família, obrigada Fleming.

As agruras que Tia Ermelinda, passou , viva até hoje e esquerda convicta, que tem a moral concedida pelos seus quase cem anos de botar o dedo na cara da manada da minha família e perguntar como puderam eleger aquele desclassificado para presidente., foram uma verdadeira provação. Ela tentava suavizar meus dias de criança doente , operando a alquimia nas panelas e fazendo o milagre da transmutação. Inapetente, ela fantasiava o que me dava. Era assim que um suco de beterraba com frutas cítricas era apresentado como o mais legítimo sumo de morangos colhido no orvalho da Suécia. A garganta inflamada me impedia de comer algo mais sólido e a minha chatice de quem come mal também, então eu só queria o puro caldinho de feijão. Lá ia ela bater o feijão e jogava carne no liquidificador, sem que eu de nada desconfiasse. Com cuidado, carinho e mão firme, ela driblava minha teimosia.

Uma única coisa porém me tirava do mundo escuro da dor: A abertura da novela O Astro, da saudosa Janete Clair. Ali na TV Philipps colorida, que junto ao telefone eram os bens da classe média, eu assistia extasiada aquele caleidoscópio que surgia na tela, apaixonada principalmente pela música de abertura. Lá era o meu refúgio, momento de desligar do medo, da dor e das picadas de agulha. Não assistia a novela, meu bisavô era rígido, eu não tinha idade para acompanhar. Mas a abertura de segunda a sábado me era concedida. E foi assim que eu, menina de sete anos, sabia de cor :”Minha pedra é ametista, minha cor o amarelo…”Esse foi meu primeiro contato com a poesia de Aldir. Fui crescendo e aprendendo outras. Ouvindo Elis meu pai falava: Essa é do Aldir. Agnus Sei, a sensualíssima Dois pra Lá, dois pra Cá, Mestre Sala dos Mares e fui entrando no universo do vascaíno da Muda.

Aldir, junto a outros nomes que formaram o meu mundo, morreu vítima do Covid-19 no dia 04. Com ele vai parte das minhas memórias afetivas. Triste saber que não seremos mais brindados com suas crônicas, por suas letras que misturam um finíssimo lirismo e um aguçado deboche. Pensando nisso, em Aldir e na novela O Astro, que me lembrei de algo importante e que por algum motivo me leva ao caos que estamos vivendo. O personagem principal da novela, o tal astro, Herculano Quintanilha, foi inspirado em López Rega. Cabe aqui contar um pouco da sua história.

Na década de setenta, Isabelita, moça de classe média alta, versada no francês e no piano, deu vazão a sua rebeldia indo para o Panamá ser dançarina de Cabaré. A nossa Miss Suéter lá conheceu Perón, na idade outonal de 78 anos.

Casaram-se e arrumaram um ideólogo, autoproclamado filósofo e vidente, ex-cabo de polícia, chamado José Lopes Regas, autodenominado El Brujo. Ele não era nada ate conhecer o casal. Em 1972 escreveu o livro Astrologia Esotérica, um calhamaço cheio de loucuras indecifráveis. .Exerceu imensa influência em Isabelita, um Rasputin sul americano. Misturava tudo isso, astrologia, filosofia de boteco, com uma pitada de umbanda e com inspirações da Escola de Thule, que foi um dos berços do nazismo.

Saindo do exílio da Espanha com o casal, tornou-se Ministro do Bem Estar Social e fundou a Tríplice A, uma milicia para combater os esquerdistas peronistas..Peron morreu e com Isabelita sob seu controle, El Brujo ampliou ainda mais seus poderes. Mas durou apenas mais um ano. Em 1975, uma manobra econômica desastrada resultou em inflação súbita e elevada. Celestino Rodrigo, o ministro da Economia, era uma aposta do astrólogo. Deu-se então, o “Rodrigazo”, como ficou conhecida a crise. Com a violenta reação popular, López Rega fugiu para a Espanha., mas como era um vidente de araque e não conseguiu prever seu fim, foi descoberto, detido e extraditado em 1986, morreu na prisão três anos depois. E foi assim que se abriu caminho para uma das mais violentas ditaduras da América Latina.

O que isso tem a ver com Aldir? Ora, o que vemos aí é que todo mundo tem o Rasputin que merece. Se os argentinos tiveram El Brujo, nós temos Olavo de Carvalho. O filósofo cartomante não passa de um genérico! Guru do nosso presidente, é um negacionista do Covid, terraplanista e outro dia propôs que Bolsonaro fizesse uma milícia (para chamar de sua, porque milícia grande ele já tem) para botar ordem e proibir quem tem opinião contrária de se manifestar. Sim, ele propôs algo nos moldes da SA nazista. Esse é o homem que escolhe os ministros, que influencia o governante, suas 4 crias execráveis e alguns ministros de pastas importantes. Muito do nosso inferno deve-se a ele, de sua influência direta.

Esse é o nosso panorama. Um Brasil desgovernado, flertando com o fascismo, tendo um assassino no poder, vivendo uma perigosa crise política em meio a uma pandemia do vírus que matou o poeta. Fosse qualquer outro mandatário emitiria uma nota de pesar pela morte de um artista fundamental na cultura brasileira. Sabemos porém como esse governo despreza qualquer manifestação artística e tratando-se do nosso presidente , nem deve saber quem é Aldir.

Emblemático que o autor do “Bêbado e a Equilibrista” tenha partido no dia seguinte a pantomina diabólica promovida pelo Chefe na Nação , em que ele insinuou a volta a ditadura. O que me dá um certo alento é saber que Aldir permanecerá por sua obra, enquanto esse Hitler Tupiniquim e seus asseclas ,todo o seu circo dos horrores, tem lugar cativo no lixo da história. Que Aldir encontre Henfil e Elis no outro andar e que Bolsonaro, com sua gripezinha , volte ao inferno. Lugar de onde nunca deveria ter saído.