O Brasil no Peulorinho

BOLSONARO INIMIGO PÚBLICO GLOBAL N° 1

O surto galopante de coronavírus no Brasil se tornou uma ameaça global que corre o risco de gerar novas variantes ainda mais letais; alertou um dos maiores cientistas do país, enquanto sofria o dia mais mortal da pandemia.  Em declarações ao Guardian, Miguel Nicolelis, neurocientista da Duke University (uma das mais prestigiosas dos Estados Unidos), exortou a comunidade internacional a desafiar o governo brasileiro por não conter uma epidemia que matou mais de um quarto de milhão de brasileiros – cerca de 10% do total global.

“O mundo deve falar com veemência sobre os riscos que o Brasil representa para a luta contra a pandemia”, disse Nicolelis.  “De que adianta resolver a pandemia na Europa ou nos Estados Unidos, se o Brasil continua a ser um terreno fértil para esse vírus?”

Nicolelis disse que o problema não era simplesmente o Brasil – cujo presidente de extrema direita, Jair Bolsonaro, rejeitou repetidamente os esforços para combater uma doença que ele chama de “gripezinha” – sendo “o pior país do mundo para lidar com a pandemia”.

“Se você permitir que o vírus prolifere nos níveis em que está proliferando no Brasil, você abre a porta para a ocorrência de novas mutações e o aparecimento de variantes ainda mais mortais.”

“O Brasil é um laboratório a céu aberto para o vírus se proliferar e eventualmente criar mutações mais letais”. “É uma questão global. ”

O alerta chega no momento em que o Brasil entrou no capítulo mais mortal de sua crise de Covid em um ano, com hospitais em todo o país desmoronando ou à beira do colapso e o número médio de mortes semanais atingindo novos patamares. Um recorde de 1.726 mortes foi registrado na terça-feira, o maior número desde o início da pandemia.  “Já ultrapassamos 250.000 mortes e minha expectativa é que, se nada for feito, poderemos ter perdido 500.000 pessoas até março do próximo ano. É uma perspectiva horrível e trágica, mas neste ponto é perfeitamente possível.

Nicolelis afirmou que a crise do Brasil agora representa um risco internacional, bem como doméstico, e afirmou que Bolsonaro – que sabotou o distanciamento social, promoveu remédios não comprovados como hidroxicloroquina e máscaras menosprezadas – se tornou “o inimigo público global nº 1 da pandemia”.

texto tirado do The Guardian

Laura

Na inocência dos dias, Laura e sua irmã andavam de mãos dadas trocando sonhos pelas ruas do vilarejo quase inóspito.

As duas paravam de vez em quando para colher uma florzinha que teimava nascer entre o meio fio e a calçada. Elas se olhavam e a cumplicidade dessa alegria ingênua as levava a darem um passo alongado e gritavam: um, dois e três! Continuavam…

Como se a flor adivinhasse os sentimentos das duas, as pétalas iniciavam o processo de despedida da beleza que espraiava no concreto da vida, iam caindo e a leve brisa as levava para outros destinos.

Pairava de repente o silêncio do mundo e dos anseios das meninas. Laura apertava com mais força a mão da irmã entre a sua. Elas sabiam que no próximo verão tudo mudaria. O pai já havia determinado o destino de uma delas. A irmã teria que ir para outras plagas para trabalhar e ajudar à família que passava por tempos difíceis. Elas sabiam que não podiam recuar ou até mesmo interferir no assunto. O tio da capital já havia providenciado tudo.

Laura ousou dizer quase em sussurro a sua saudade e que nada mais seria tão venturoso. Ela teria que ler os livros e não ter com quem conversar, pois quem mais a incentivava era a irmã, pois após narrar a história, Laura escrevia uma carta ao personagem que ela mais gostava. Assim, ia desenvolvendo a arte da escrita e sua irmã empolgada com o fato, sempre dizia que ela seria uma grande escritora.

Laura solta a mão da irmã e para quebrar essa sensação de partida, fala: “quem chegar por último vai…” Não terminou a frase, ficou pálida e em um ínfimo segundo, caiu e desfaleceu. Sua irmã grita por socorro, mas nada a acordará.

Apenas três pedras e um livro foram colocados no túmulo de Laura. O verão chegou desalinhando a paisagem e sem muitos desejos, ela pensa mais uma vez em Laura, entra no trem e o vilarejos vai se distanciando sem nenhuma despedida. Apenas a certeza de nunca mais voltar.

Viagem ao redor de mim

Ao Artur Xexeo, pela inspiração involuntária.

E então me junto à confraria dos cronistas. O que fazer na frente da tela branca, da linha vertical que pisca? Tantos e nenhum assunto a enfrentar… Longe da vida que pulsa, ou pulsava, acabo me voltando para dentro. Como era mesmo antes deste apocalipse viral? Do que me despedi e o que tenho pela frente?

Há um ano eu estava em Montevidéu, cidade que adoro. A cada vez que circulo por lá, (re)descubro inusitâncias e belezas. Naquele início de 2020, conheci a Fundação Benedetti, o Museu da Memória, uma antiga taberna basca, anexa a um clube de descendentes de emigrantes. Ganhei, sobretudo, o que, em breve, seria proibido.

Procurávamos a casa do avô de minha companheira, quando pedimos informações a uma passante. Percebeu, de imediato, que não éramos de lá. Tava na cara e no sotaque. Um tanto desconfiada, já torcendo o nariz e talvez se preparando para nos mandar pentear macacos, perguntou: Argentinos? Quando respondemos que não, abriu um imenso sorriso e pulou em nosso pescoço, num abraço integral. Passou com prazer a informação, deu adeus e foi-se embora. Mal sabia eu que aquele gesto de carinho seria dos últimos antes de que contatos físicos virassem ameaça letal na pandemia que, dobrando a esquina, arrombaria a porta. Em tempo: nada contra os hermanos argentinos, tudo pelos abraços.

De volta ao Rio, sem perceber a tempestade que se aproximava, fiz as últimas caminhadas na orla de Copacabana antes de cair no isolamento total. Mesmo com as primeiras notícias de infectados, pensei, ou melhor, mais desejei do que pensei, que aquilo seria como chuva de verão. Dor de cabeça de fôlego curto. Ledo e ivo engano. O sol no calçadão talvez pudesse ser comparado, com as devidas e enormes vênias, ao pôr do sol em Varsóvia no dia 31 de agosto de 1939, véspera da invasão nazista à Polônia. Quem podia supor que o êxtase momentâneo seria substituído pelas bombas que arrasariam o país?

O início da encrenca mais parecia um trecho do filme O expresso da meia-noite. O diretor de uma penitenciária turca tenta enlouquecer o prisioneiro norte-americano, fazendo-o andar em círculos junto com outros detentos, sempre no mesmo sentido. Para quebrar o ciclo, o preso começa a andar em sentido contrário ao dos demais. Quando comecei a subir e descer escadas do meu prédio, a andar dentro do meu apartamento, exercícios desintoxicantes, senti o peso da rotina a que não estou habituado. Depois de um tempo, essa carga desembarca no desprazer e na tristeza. É uma guerra diária contra a melancolia e o roteiro repetitivo. Sabem a sina do Bill Murray no Feitiço do tempo? Pois é. Sei que vai passar, mas enquanto isso a batalha é dura.

Há muitas dores no picadeiro, talvez a maior de todas seja a sensação de que estão nos roubando o tempo. Enquanto a Morte sobrevoa, frequentando névoas e brechas, e os demônios assombram as madrugadas, o tempo escapa entre os dedos. Uma perda irrecuperável. Fragmentos de pessoas queridas, igualmente isoladas, igualmente ansiosas, estão perdidos para sempre. O inconsciente é caprichoso. De repente, vi-me relendo fundamentos da química, etapa da minha vida que julgava enterrada. Acho que tentei viajar para um tempo menos sufocante. Em vão, este bonde já passou. A realidade se impõe, implacável.

Para piorar, o sociedade brasileira teima em confirmar, diariamente, que é um projeto que naufraga. Com as exceções de praxe, tem prevalecido o interesse pessoal sobre o coletivo, facilitando a propagação da peste e minando esperanças de uma mobilização nacional contra ela. Quem consegue construir uma comunidade nesta base? O ânimo negacionista-totalitário do governo só agrava o quadro. Raduan Nassar, o enigmático escritor que virou agricultor, acha que “talvez a maior lição da pandemia seja reafirmar que precisamos viver, e conviver, de modo comunitário e solidário”. Compreendo isso como um desejo e uma possibilidade, não confirmados pelas aglomerações, pelo jeitinho dos fura-filas na vacinação, pelas récuas de desmascarados nas ruas, pelos imbecis antivacinas.

Sigo. Com saudades de mim mesmo, da vida ausente, dos que me dão forma. Por enquanto, sem perder o rebolado.

O direito de viver

Quais os limites da liberdade de expressão? Uma pergunta simples que com certeza gera uma discussão apaixonada. Nossa liberdade de dizer o que bem entendermos é ilimitada, mas somos responsáveis pelo que dizemos. A lei define o que são ofensas e não raro, alguém é condenado por proferir ofensas. Este é um dos limites.

Um músico, um humorista, um jornalista, um político ou um escritor, podem se expressar livremente sem observar limites? Eu mesmo participei do processo que condenou Siegfried Elwanger, o neonazista que mantinha a Editora Revisão dedicada exclusivamente a livros antissemitas. Sua defesa tentou utilizar a Liberdade de Expressão em sua defesa.

No Canadá um caso interessante. Um humorista fez mais de 200 apresentações onde fazia humor com um menino prodígio na música portador de uma doença rara. O humor era puro bullying o que levou o jovem a processar o humorista. Condenado a indenizar o jovem, depois de perder em todas as instâncias o caso chega agora a suprema corte. Em sua defesa o direito da Liberdade de Expressão.

No Brasil um deputado proferiu ataques e ofensas graves contra ministros da suprema corte e a democracia. Está preso. Em sua defesa argumentou sua imunidade parlamentar e a Liberdade de Expressão.

Quando a constituição fala em Liberdade de Expressão, ela é clara em seu artigo 5º:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

I –  homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição;

        IV –  é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;

        V –  é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem;

        IX –  é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;

Não resta dúvida de que não deve haver censura em relação as atividades artísticas e outras, mas também fica claro que isto não significa a não imposição de limites, e neste caso, especialmente importante, quando se referem ao direito a vida, a liberdade e a igualdade. Em outras palavras a dignidade humana.

Não existe bem maior do que a vida. Nada nem ninguém podem atacar o direito a ela. Todos devem ter o direito de expressar sua opinião, desde que ela não ameace a vida de outros. A história está cheia de exemplos onde a força da palavra causou a morte de inocentes. Um exemplo rápido, a acusação de bruxaria contra mulheres.

A vida em sociedade implica em direitos e deveres. Temos as mais variadas leis para nos dizer o que está e o que não está permitido. Todas levam em conta a cidadania, nossos direitos individuais e nossa convivência em comunidade. Tudo para preservar a vida.

Quando em meio a uma pandemia que já ceifou mais de 2,5 milhões de vidas no mundo, permitir que charlatões continuem a duvidar da gravidade da situação propagando informações falsas para que as pessoas deixem de usar máscaras e não se vacinem, a sociedade precisa proteger-se. Estas pessoas estão cometendo um crime contra a humanidade. Sua alegação: liberdade de pensamento.

No Brasil, o principal propagador da indiferença que já tirou a vida de mais de 250 mil brasileiros é o presidente da república. Um inepto em todos os sentidos no cargo máximo da nação é o responsável direto por boa parte destas mortes. Pior, não toma nenhuma atitude na busca por vacinas que são,hoje, a única forma de salvar vidas.

Bolsonaro deveria estar sendo processado pela violação do direito a vida como está na constituição. Seu incentivo a kits preventivos, cientificamente comprovados como ineficazes, seu comportamento com o desprezo pelas regras mínimas universalmente aceitas, o uso de máscara, distanciamento social e higiene, são um acinte a memória dos que pereceram e um desprezo pela ciência.

As novas variantes do Covid-19, mais agressivas e mais fatais estão se espalhando pelo Brasil e vão colapsar os hospitais. A variante inglesa ataca também crianças levando a óbito ou deixando sequelas para toda a vida. O país está diante de uma tragédia anunciada, uma catástrofe inevitável para a qual não existe solução de curto prazo. Vão faltar UTIs e vai faltar oxigênio se nenhuma providência for tomada.

Se alguém pensou que o pior já havia passado, prepare-se, o pior ainda está por acontecer.

 

 

Aras, o PGR surdo, cego e analfabeto jurídico

O capitão, kafkianamente  eleito presidente da República, continua impunimente a cometer seus crimes cotidianos, em meio à indiferença do Procurador-geral da República, seu capacho.

Augusto Aras, homem dos mil instrumentos, fecha os olhos e os ouvidos para não ver nem ouvir as barbaridades perpetradas pelo chefete, tapa o nariz para não sentir o cheiro repugnante da merda que se amontoa no vaso em que jogou a ética (moral e jurídica), ao mesmo tempo em que rasga a Constituição, imaginando com certeza que a lei máxima se aplica aos mortais, não ao Messias.

Como o seu patrão, a quem deve lealdade cega, Aras é um ser amoral.

O Procurador-geral da República é cúmplice do genocídio que vem acontecendo no Brasil. Na hora de pagar a conta dos milhares de mortos vítimas da inexistência de uma política sanitária, deverá responder como tal. Afinal, cabe a ele denunciar e abrir investigação contra o presidente da República a cada crime e delito cometido na esfera penal. Muitos.

Porém,  Augusto Aras finge ser cego, surdo e analfabeto jurídico. Seu último feito data de sexta-feira, 26 de fevereiro. No dia em que o Brasil registrava o recorde de mortos da Covid – 1.592 – Jair Bolsonaro limitou-se a criticar o uso de máscaras e o lockdown, cometendo assim um enésimo crime contra a saúde pública, em desrespeito das medidas de combate ao coronavírus ditadas pela OMS e seguidas por todos os países governados por gente minimamente séria.  O procurador-geral, que tinha o dever de entrar com uma representação imediata junto ao STF, preferiu prosseguir no seu berço esplêndido, absorto pela indiferença absoluta.

Não é por acaso que os países que praticaram seriamente o isolamento social têm menos mortes a lamentar. Foi a única medida, paralelamente às ações básicas de higiene, que funcionou até aqui na contenção da pandemia do coronavírus, exatamente como há 670 anos, na Idade Média, contra a Peste Negra: quarentenas, confinamentos, toques de recolher, uso de máscaras e mãos limpas.

” Não há outra maneira de enfrentar a pandemia, além do que recomenda a ciência. Portugal está com a mais baixa taxa de contaminação da Europa graças ao confinamento e uso de máscaras.

Vários estados brasileiros estão decretando lockdowns de curta duração ou obrigando as pessoas a ficarem em casa durante a noite. Há lei seca, praias com tapumes e outras iniciativas. Mas a experiência de Portugal mostra que o que funciona mesmo é o confinamento geral. Claro que é muito mais complicado aplicar isso num país do tamanho do Brasil, pobre e sem comando, onde milhões se amontoam em barracos e saem de manhã para conseguir o que comer à noite. Mas a alternativa é tenebrosa: mortes e mais mortes.”; escreveu nas redes sociais o jornalista Paulo Markun, direto de Lisboa.

Ao contrário, vale a pena lembrar que as novas variantes surgiram todas em países que deixaram o vírus circular livremente (como defende o capitão). É por isso que se fala em variante britânica, brasileira e sul-africana, mas é impossível falar-se em variante neozelandesa, porque na Nova Zelândia e em outros países que optaram por estratégias de erradicação não há propagação do vírus suficiente para que apareçam mutações.

Daí a necessidade imperiosa e urgente de se confinar já, com duplo objetivo: baixar a curva da pandemia e tentar evitar que uma variante mais letal e mais infecciosa se torne dominante. É uma luta contra o tempo.

Mas para tanto é preciso que o presidente e o sargento Garcia sejam lúcidos, o que é impossível, ou que Augusto Aras tire suas nádegas da cadeira e trabalhe. Esperar que o Congresso dos bandidos do Centrão acorde e abra um dos 60 processos de impeachment não é factível. Afinal, Lira e seus comparsas só estão preocupados consigo mesmos. Em outras palavras, em escapar da Justiça. Na verdade, muitos parlamentares não são deputados nem senadores, e sim fugitivos.

Ou o Brasil acorda ou morrerá, de morte morrida e de morte matada.

A beleza da imaginação

A imaginação é a chave mestra que abres as portas da poesia, do erotismo, da aceleração criativa. A imaginação foi indispensável para o homem dominar o fogo, construir a roda, pintar, esculpir, escrever. Na literatura há dois processos imaginativos: um que parte da palavra para chegar à imagem e o que parte da imagem para chegar à expressão verbal. Dante em “A Divina Comédia” busca definir o papel da imaginação, a parte visual da fantasia que precede a imaginação verbal. Aliás, neste ano de 2021 faz setecentos anos da morte desse escritor tão festejado. O grande Otto Maria Carpeaux define “A Divina Comédia” como o maior poema da literatura universal. Ele compara essa obra com as demais que poderiam ser concorrentes, mas conclui que em Dante está o universo literário inteiro. Adverte que é uma obra de difícil leitura, precisa ser lida, relida, e na verdade pode acompanhar a gente ao longo da vida. Foi o que disse Alberto Manguel em recente entrevista à revista “Quatro Cinco Um”, um deleite aos viciados em leitura.
Para se aproximar de Dante, da sua grande obra, é preciso ir devagar, pelas beiras, como se come mingau. Eu não como, mas lembro dos conselhos de Leonel de Moura Brizola, que gostava desse exemplo. Na minha família de agora há um clube do mingau, do qual não faço parte, mas acompanho seus integrantes com interesse. Aprender sobre a imaginação com Dante é uma delícia, e Alberto Manguel tem um livro, “Uma história natural da curiosidade”, que é uma viagem com Dante através de sua vida e obra. A originalidade da “A Divina Comédia” é, como escreveu Erich Auerbach, perceber o homem não como herói remoto, lendário, não como um representante abstrato ou anedótico, mas como um homem tal como o conhecemos na sua realidade histórica.
O canto XVII do Purgatório é sobre a imaginação do leitor: “quem te move, se os sentidos não te incitam”. A imaginação é provocada pela experiência dos sentidos. Na verdade, a fantasia, a imaginação, o sonho, é um mundo de potencialidades no qual transcorre a beleza das experiências. Ler Dante pelas bordas tem sido uma diversão, onde uma frase é uma passagem para viajar junto a ele, a Virgílio, a Beatriz, a Carpeaux. Nesses tempos tensos e difíceis da pandemia, tempos sombrios da política de morte no nosso querido país, precisamos, entre todos, mais e mais da imaginação. Imaginar é voar, imaginar é dar rédea solta aos devaneios, como uma história de experiência escrita por Walter Benjamin.
Benjamin, em “Experiência e pobreza”, relata uma fábula de Esopo: “O velho vinhateiro”. Na fábula, o pai conta a história de que haveria um tesouro na terra e os filhos aram, aram em sua busca. Os filhos fazem uma interpretação errada que leva a uma ação correta; errar tornar-se um ato eficaz, porque a história do pai exigiu um esforço pela parte dos filhos e eles descobrem, ao final, que a vinha era o próprio tesouro. Essa é a sabedoria transmitida pela história do pai, logo, uma vivência, arar a terra, foi transformada em experiência para os filhos. Essa fábula de Esopo repensada por Benjamin é uma experiência, assim como as frases de “A Divina Comédia”. Precisamos de experiências, são elas que enriquecem a vida, transformam, embelezam e potencializam o entusiasmo. Frente ao cansaço, as dores das milhares e milhares de mortes induzidas, é preciso renovar as experiências para viver o reino do espanto mesmo com lágrimas. E sonhar o hoje a partir do ontem, entre dores, amores, e assim excitados iremos imaginar o amanhã.