por Mauro Nadvorny | 23 fev, 2021 | Brasil, Opinião
Se a máquina do tempo tivesse saído das páginas do romance de H. G. Wells, de 1895, certamente o número de mortos pela Covid 19 no Brasil seria hoje bem menor. Estaríamos como nossos antepassados da Baixa Idade Média, lá pelos idos de 1348, confinados para limitar os efeitos da Peste Negra.
Em 2021, todos os países que praticaram seriamente o isolamento social têm menos mortes a lamentar. Foi a única medida, paralelamente às ações básicas de higiene, que funcionou até aqui na contenção da pandemia do coronavírus, como há 670 anos na Idade Média contra a Peste Negra: quarentenas, confinamentos, toques de recolher, uso de máscaras e álcool gel. Como escreveu nas redes sociais meu amigo Paulo Markun: ” Para quem acredita que há outra maneira de enfrentar a pandemia, além do que recomenda a ciência. Portugal já tem a mais baixa taxa de contaminação da Europa. Resultado do confinamento e do uso de máscaras – 92% dos portugueses usam. Inclusive o presidente, aqui, no supermercado.”
A grande diferença entre a Idade Média e o século 21 é que contamos com vacinas.
A humanidade desenvolveu em dez meses — muitíssimo menos que as previsões mais otimistas — vacinas contra a covid-19, algumas delas usando a tecnologia do RNA-mensageiro, de grande eficácia e que promete ser revolucionária no tratamento desta e de outras patologias.
Apesar do feito científico, estamos nesse momento numa encruzilhada, numa corrida contra o tempo entre as novas vacinas e as novas variantes do vírus, que por enquanto levam vantagem. Sabemos por exemplo que a vacina da Oxford/Astrazeneca tem eficácia reduzida contra a variante sul-africana e que quanto mais variantes aparecerem, maior a probabilidade delas escaparem aos imunizantes.
Ora, vale a pena notar que as novas variantes surgiram todas em países em que se deixou o vírus circular livremente: não é por acaso que se fala de variante britânica, brasileira e sul-africana, mas é impossível falar-se de variante neozelandesa, porque na Nova Zelândia e em outros países que optaram por estratégias de erradicação não há propagação do vírus suficiente para que apareçam mutações.
Daí a necessidade imperiosa e urgente de se confinar agora, com duplo objetivo: baixar a curva da pandemia e tentar evitar que uma variante mais letal e mais infecciosa – a britânica por exemplo – se torne dominante.
O tempo é curto e a necessidade de vacinar a população mundial, até chegar à imunidade de rebanho, premente.
Cada morte por covid-19 agora é uma morte que poderia ser evitada daqui a alguns meses, e isso nos deveria levar a ser mais exigentes com relação ao confinamento, inclusive por razões econômicas.
Durante a primeira onda não se sabia se seria possível atingir a imunidade de grupo, a questão então era se valeria a pena tentar chegar lá por via natural, deixando correr o ritmo das infeções, sacrificando milhões de vidas em nome da economia, ou salvar o máximo de vidas deixando as preocupações com a economia para depois. A conquista das vacinas num prazo tão rápido mudou completamente o quadro. O que importa é preparar a retomada da economia para depois da imunidade de rebanho e salvar o máximo de vidas agora. A palavra de ordem é investir na aceleração da vacinação para que possamos ver o fim do túnel.
O problema é que os populistas, como o capitão, insistem em apostar no pior, fascinados que são pela morte. A tal ponto que o procurador-geral da República, o bolsominion Augusto Aras, apresentou ao Supremo nove investigações sobre condutas supostamente criminosas de Jair Bolsonaro na administração da pandemia: no colapso dos hospitais nos estados do Amazonas e Pará, no incentivo para apoiadores invadirem hospitais públicos, no desrespeito das medidas de combate ao coronavírus ditadas pela OMS, na presença sem máscara em uma manifestação em Brasília, na conversa que teve, também sem máscara, com jornalistas, após ter contraído a Covid-19, ou ainda ao se tornar garoto propaganda de um medicamento – a cloroquina – que além de não ter nenhum efeito positivo no combate à Covid 19, pode causar efeitos secundários gravíssimos e até levar à morte.
Todos os países que não aplicarem uma política sanitária séria e estrita neste momento chave da pandemia estarão condenados a pagar um preço exorbitante num futuro muito próximo. A começar pelo Brasil, pois como escreveu o editorialista do Washington Post, “Entre líderes globais que minimizam o coronavírus, Bolsonaro é o pior”.
Amanhã, se a situação não mudar radicalmente, o país acordará com algumas centenas de milhares de vítimas da Covid a mais e um ditador no Palácio do Planalto.
por Mauro Nadvorny | 22 fev, 2021 | Crônica
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar (Chico Buarque)
Não faz muito, fiz um comentário lamentando o desrespeito às regras para contenção da Covid-19 no Rio de Janeiro. As imagens de aglomerações são realmente fortes e dão uma sensação do que meus avós chamavam de nish guit, melancolia, desalento. Entre as reações ao que escrevi, ficou claro que a desesperança fez uma entrada triunfal no ambiente em que vivemos. Um gentil leitor chegou mesmo a dizer que o ser humano é um projeto que não deu certo. Não recrimino as reações. A sucessão de crimes, ofensas, baixarias, mentiras, que invadem o cotidiano é descomunal. Parece que estamos mergulhados num monte de lama e que emergir não será possível. É peso demais. Para essas pessoas, o resumo da ópera é o seguinte: no meio da floresta escura, os espectros parecem invencíveis.
Fico especialmente preocupado quando gente das novas gerações baixa a guarda. Nessas horas, é importante lembrar da História, senhora caprichosa que não se rende a vontades individuais. Imaginemos, por exemplo, o período nazista na Alemanha. Como deviam se sentir todos os que, de alguma forma, não se adequavam ao modelo pregado pelos barões do III Reich? Os massacres de dissidentes e “racialmente impuros” ganharam força com as vitórias militares no início dos anos 1940. Asfixia. Até a reviravolta de Stalingrado, resistir parecia não apenas temerário, mas inútil. E, no entanto, a maré virou.
Fiquemos na pátria amada, salve, salve. Durante o regime protofascista de Vargas, pensar diferente ou ser de esquerda era vestibular para a censura ou, pior, a tortura. O DIP, Felinto Müller e seus sabujos não estavam para brincadeira. A descrição das masmorras estadonovistas fazia inveja à eficiência germânica da Gestapo. E, no entanto, a maré virou.
Ainda no país do carnaval. Até pelo menos 1974, a ditadura civil-militar instalada em 1964 navegava em águas relativamente tranquilas. Quero lembrar de dois episódios da fase negra, que acompanhei de perto. Nos anos 1970, foi ministro da Justiça o Armando Falcão. Sinistro personagem que repetia o mantra indecente “nada a declarar”. Criou uma lei eleitoral, rotulada com o seu nome, que proibia os candidatos às eleições legislativas de falar no horário de propaganda da TV. Apareciam fotos dos distintos, com uma voz lendo currículos. Puro picolé de chuchu. Em 1974, Falcão apareceu como xerife de bangue-bangue, posando ao lado de uma gráfica do PCB estourada pela repressão. Tempos de pancadaria. Delfim Neto, Henning Boilesen, Erasmo Dias, Silvio Frota, Sérgio Fleury, Golbery do Couto e Silva, Carlos Alberto Brilhante Ustra, Jarbas Passarinho, toda a milicada, pareciam imbatíveis. E, no entanto, a maré virou.
Claro que a maré não vira por obra e graça do espírito santo. A cada momento o povo encontra as formas adequadas de resistência, gerando uma cadeia de efeitos que vai ganhando densidade. A reunião de vizinhos para protestar contra a escuridão na rua, o fortalecimento da imprensa alternativa, a luta sindical mesmo que dentro de regras arbitrárias, os espaços estudantis, o engajamento nas novas formas de comunicação, o gesto solitário de um não à autoridade, a germinação de formas avançadas de lutas de classes. Tudo lubrifica as rodas da História.
Vou insistir. Compreendo a frustração e o sentimento de impotência que andam circulando por aí. No entanto, é preciso, mais e mais, interpretar e, sobretudo, agir nos movimentos pendulares. Drummond, que um dia foi capaz de escrever que “os homens não melhoraram/matam-se como percevejos”, foi o mesmo que, em outro, conclamou: “Estou preso à vida e olho meus companheiros/não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”. No fundo, é isso mesmo. E termino com outro poeta, Mario Benedetti: “Lento pero viene/el futuro se acerca/despacio/pero viene”. Repito: lento pero viene. Lento pero viene.
Abraço. E coragem.
por Mauro Nadvorny | 20 fev, 2021 | Brasil, Comportamento, Justiça, Política
Daniel Silveira desceu ao Inferno, só que ainda não percebeu. Tem uma anedota antiga que diz que a uma pessoa sabendo que ia morrer, lhe foi dada a opção de escolher entre o inferno e o paraíso. Primeiro o levaram para conhecer o inferno. Ficou boquiaberto. Comida e bebida a vontade, gente se divertindo com jogos e praias paradisíacas, uma felicidade só.
Então foi ao paraíso. E viu todos compenetrados em seus pensamentos, discussões filosóficas sobre o sentido da vida, ninguém de porre, um verdadeiro tédio. Não teve dúvida, escolheu que ao morrer desejava ir para o Inferno, e assim foi.
Ao chegar no Inferno foi recebido a chicotadas e colocado para trabalhar em fornos de alta temperatura. Na primeira oportunidade perguntou ao Diabo como era possível, ele tinha vindo visitar antes e era tudo diferente. Bem, respondeu o Diabo, na primeira vez viestes como turista, agora chegastes como residente.
Daniel Silveira, no alto de sua arrogância, se achava intocável. Como turista no Congresso, acreditava que podia fazer o que bem entendesse e falar o que quisesse. Tudo garantido pela imunidade parlamentar, pelo direito a livre expressão e pelo Presidente da República a quem servia como Reinfeld serviu ao Drácula na obra de Bram Stoker.
O vídeo do ainda deputado é de uma agressividade ímpar. Ele despeja impropérios contra os membros do STF, instiga a população a persegui-los nas ruas, enobrece a ditadura com o AI-5 e deixa bem claro que na sua visão esta Suprema Corte deveria ser extinta.
Não bastasse tudo isso, no momento de sua prisão desacatou uma policial ao se negar a usar máscara, e continuou sua sina ao ganhar de presente dois celulares quando já se encontrava preso. Quem os forneceu vai pagar por isso.
A Câmara dos Deputados votou por sua permanência na prisão. Seus problemas estão apenas começando e a ficha começou a cair. Em sua defesa ele confessou que se excedeu (sic). Um pequeno eufemismo para um falastrão deste calibre. Parece que um pedido formal de desculpas com um profundo arrependimento não vai acontecer.
Talvez ele seja sortudo ainda para ter o mandato cassado por seus pares e assim ter sua via crucis remetida para um juiz de primeira instancia, onde o andar da carruagem é lento. Assim ele ganha tempo, uma vez que condenado já está. Como ironia, com uma gota de sarcasmo, fica a pergunta, se isto acontecer, ele vai apelar para o STF?
A memória de Marielle começa a ser vingada. Este ser que se elegeu quebrando a placa de rua em seu nome exibida como troféu, vai pegar caro por seu ato. Quem se achava acima da lei, pairando sobre nós, simples mortais, que tudo podia e a ninguém devia satisfação, para ele o jogo virou.
Claro que na justiça brasileira, em geral, existe um longo caminho a ser percorrido para que ela seja de fato exercida com parcimônia. Os salários dos nobres magistrados são aviltantes. As penas para maus juízes, por demais brandas. O CNJ deixa muito a desejar. Uma reforma se faz premente.
Pode-se discordar de sentenças proferidas por um juiz. As vezes até mesmo contrárias a sentenças já proferidas. Algumas até contrárias aquelas já proferidas por cortes superiores. Raro, mas não impossível, contrárias ao que diz a lei e a constituição. Mas não se pode atacar a justiça.
Daniel Silveira atacou ao atacar o STF como um todo, e seus desafetos da corte em particular, atacou a justiça. Não teve papas na língua. Achou que poderia clamar por uma ditadura em nome da democracia, que pensava ele, não punha limites aos direitos do cidadão. Errou na forma e no conteúdo. Se ferrou.
Nós da esquerda só temos uma coisa para dizer: Daniel tá preso, babaca!
Gratos estamos todos nós que amamos e respeitamos a democracia. Não importa a ideologia. Felizes com a atitude do STF, mesmo discordando de muitas outras. De agora em diante, Daniel Silveira passou a ser residente no Inferno, um lugar perfeito para ele.
por Mauro Nadvorny | 19 fev, 2021 | Crônica
Sempre gostei de árvores, sou dos tempos em que as crianças subiam em árvores. Era emocionante ver o mundo de cima, viver um mundo imaginário de alegria. Olhar e não ser visto, com uma visão mais ampla da rua, das casas, pessoas e cachorros. Às vezes, escutava algum chato dizer um “desce daí menino, vais cair”. Tive queda sim, mas não de árvore. Entretanto, não prestava atenção nas plantas, não era comum nas casas, a não ser na casa da madrinha. Descobri as plantas, as flores, quando comecei a trocar olhares com uma alamanda amarela, na casa de Petrópolis. As flores estavam bem na entrada, portanto, ao sair e voltar para casa, era ela quem sempre estava lá, irradiando beleza nas separações. Era um arbusto antigo, tinha um caule espesso, que floria da primavera ao inverno.
Allamanda cathartica é o nome científico da alamanda que é original do Brasil. Há diversas cores: roxa, branca, rosa, mas a mais comum é a cor amarela. A relação com as plantas, assim como com os animais, são experiências de vida, de acompanhar o crescimento, os diferentes períodos que passam. Cuidar de plantas não é difícil, requer atenção, cuidado com a água, nem muita, nem pouca, inverno e verão são diferentes, e tem os adubos, claro. Gosto de passar a mão nelas, como se fosse um carinho. Entrar numa casa com plantas, ou em outros espaços, gera boas emoções. Já vi plantas em áreas de serviço minúsculas, com floreiras de temperos que dão odores e temperam os amores.
Após uns quatro anos nessa casa meio mágica, ocorreu um desastre. Um dia teve uma forte tempestade e quebrou o tronco da velha alamanda, e vê-la no chão foi doloroso. Busquei ver se poderia nascer algo do que sobrou do arbusto, mas o tronco quebrou quase na altura da terra, tinha apodrecido. Ou sofreu algum ataque ou morreu porque era a hora mesmo. Não ter mais as flores amarelas na chegada e na saída de casa não seria agradável, e então busquei uma solução. No dia seguinte à morte da alamanda, fui numa floricultura para comprar duas mudas para plantar em dois canteiros. Imaginei que após um ou dois anos as plantas cresceriam e se uniriam. Pelas dúvidas, plantei duas, se uma tivesse problema, teria a outra, mas felizmente ambas estão firmes, fortes e florindo até hoje. Guimarães Rosa exaltou as flores e as plantas. “…esse jardim é o meu?” “Não. O seu virá, quando amar” ou “São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam”.
De todas as cores de alamanda, logo casei com a amarela, um amor à primeira vista. Muitas possibilidades, mas uma tem a ver com um estribilho aprendido de piá. “Quando eu morrer, não quero choro, nem vela, quero uma fita amarela gravada com o nome dela”. Tardei em saber que a música é a “Fita Amarela” de Noel Rosa e quem cantava era Nelson Gonçalves. Memorizei as frases sem entender, mas gostei da rima, da música em que o amor foi aclamado. Talvez quisesse saber quem seria Ela, a da fita amarela, que só o seu nome gravado na fita, daria vivacidade à um homem. Ela foi o elo de união entre a casa, a árvore, e a alamanda amarela.
por Mauro Nadvorny | 15 fev, 2021 | Crônica
O canto do galo, o mugido da vaca, a nhaca de estercos variados, todos viraram patrimônio. Acham que é piada de carnaval? Pois o Parlamento francês aprovou uma lei que protege os sons e odores do campo, chamados de “patrimônio sensorial”. Os senhores parlamentares previnem, dessa maneira, curiosas batalhas judiciais, como a que envolveu vizinhos numa ilhota na costa atlântica da França. Um deles reclamou contra o canto matutino do galo. Fico imaginando o que seria deste pobre camponês se morasse, por exemplo, na bucólica avenida Brasil, porta de entrada do Rio, com seus idílicos tiroteios, sua invencível poluição sonora, sua paciente decadência. Mon dieu!
Os sons do silêncio estão especialmente vivos neste carnaval cancelado. Esta é, tradicionalmente, uma época infernal para quem não é da fuzarca. Ficar quieto beira a heresia para os que se esbaldam por aí, fantasiados de quem não são, alegres com data de validade e por decreto monárquico. Sem os estribilhos dos bebuns, os blocos de bexigas soltas, os acordes desafinados de zé pereiras, posso sentir a brisa suave dos meus silêncios. Sem culpa. E quem são eles?
Há o recolhimento plataforma, aquele amplo, generoso, que antecede uma súbita inspiração ou a conclusão de um processo criativo. Uma boa história, narrada pelo Ruy Castro, descreve bem isso. João Gilberto, na fase anterior à Bossa Nova, passou temporadas em várias cidades, polindo canções e acordes que ainda não tinham nome nem método. Sempre na pindaíba. Numa delas, em Juazeiro, sua terra natal, os pais acharam que seu comportamento reservado era “estranho”. Concluíram, bem ao gosto da época, que devia estar com algum transtorno psiquiátrico e resolveram interná-lo numa clínica de Salvador.
João aproveitou o tempo para uma pacificação interna. Um dia, olhando o horizonte, comentou com a psicóloga:
“Olha o vento descabelando as árvores …”
“Mas árvores não têm cabelo, João”, observou a doutora, querendo, talvez, pegá-lo numa encruzilhada inconsciente.
“E há pessoas que não têm poesia”, arrematou João, impiedoso.
Poucos anos depois, o “estranho” consagrou uma batida que revolucionou a música brasileira. Precisava do silêncio grávido de mudanças.
Que tal o silêncio resistência? A arte de calar, irmã da arte de escutar, pode ser arma insinuante. Quando fui dispensado de servir o Exército, os milicos marcaram uma cerimônia de juramento à bandeira, no Passeio Público. Na hora marcada, um oficial, engomado pela obediência cega, deu início ao ritual. Repitam comigo: juro isso, juro aquilo. Sem ver o menor sentido naquelas palavras, me calei. Preferi a companhia das rãs que, alheias ao burburinho, pulavam despreocupadas entre nossas pernas. Sábias batráquias.
Quem tem certa quilometragem há de lembrar do livro infantil Pinote, o fracote, e Janjão, o fortão. O garoto mandão tiranizava os amigos, impondo, com intimidação muscular, sua vontade. Era o dono da bola, dos destinos, dos risos das piadas sem graça. Até que Pinote, um magrela esperto, descobriu seu ponto fraco. O Tarzan mirim não podia controlar, muito menos dominar, o pensamento dos outros. Em silêncio, qualquer um podia criar um mundo sem opressão, onde o fortão não existia. Foi a senha para desestruturar o reino da violência. O menino de maus bofes desmontou. Não há como algemar o pensamento.
Calar não é estar só. Neste mundo de aparências, quanta gente mimetiza a música The sound of silence? Tagarela sem falar, ouve sem escutar. No surpreendente tríduo momesco esbórnia free, sinto falta dos bons interlocutores, aqueles que não se limitam ao “e aí, tudo bem?”, mas perguntam pelo calo de estimação, pela dor na alma, pela ideia genial que nunca sai do papel. Mercadoria escassa. Que fazer? Esperar o retorno da “vida ao vivo”, que permite escolher os necessários momentos de silêncio, sabendo que se pode rompê-lo sem trauma. C’est la vie.
Abraço. E coragem.
por Mauro Nadvorny | 13 fev, 2021 | Comportamento, Israel, Mundo, Opinião
Em Israel 41% da população já recebeu pelo menos uma dose da vacina, sendo que alguns ainda estão por a segunda 21 dias depois. Para cada um dos que tomaram a primeira dose, a segunda fica automaticamente guardada de maneira a não faltar. Se continuar neste ritmo até o final de Março toda a população poderia estar vacinada.
No entanto, aqui, como em muitos outros lugares do mundo, existem aqueles que se negam a tomar a vacina. Alguns religiosos ortodoxos por orientação de seus rabinos, alguns da comunidade árabe por desconfiarem de tudo que é dado pelo governo, e muitos negacionistas.
Semana que vem o governo quer estudar uma maneira de aplicar o Passaporte Verde. Seria um documento que permitiria aos vacinados entrada em Shoppings, restaurantes, cinemas, casas de espetáculo, academias etc. Ainda por decidirem, se instaurou uma discussão ética. Pessoas que não querem se vacinar, cidadãos do país com todos os direitos e deveres podem ser discriminados?
Uma pessoa que não se vacina para o Covid-19, não coloca apenas a sua vida em risco. Ele também pode levar o vírus para outros que ainda aguardam o chamado para se vacinarem, e para aqueles que por razões médicas não podem fazê-lo. Cada pessoa que tem os sintomas graves da doença ocupa um leito de UTI que poderia estar sendo utilizado para salvar a vida de cidadãos acometidos de outras enfermidades. Pior, pode morrer.
O negacionista, geralmente está dando razão a uma mensagem do WhatsApp que recebeu onde constava algum estudo sinistro de médicos sem nomes, de uma instituição não mencionada, afirmando que tomar a vacina causa algum dano irreparável. Ele não só acredita cegamente na informação, como a divulga. Somados, os que não querem tomar vacina hoje representam 1,5 milhão de israelenses. É muita gente.
Em números proporcionais é o que está acontecendo no mundo todo. As Fake News estão se transformando em crime contra a humanidade. Se antes tinham propósitos políticos para detratar um político ou um partido, hoje municiam uma onde de pessoas que dão razão a todo tipo de informação sem base científica alguma como a Terra Plana. No entanto, sua determinação pode levar o vírus a permanecer por mais tempo entre nós, levando a novas mutações que podem causar a morte de milhares de pessoas.
Daí a importância de se criminalizar as Fake News. Espalhar notícias falsas precisa ter uma pena de multa e detenção do propagador. Sem medidas sérias o custo para a sociedade será muito maior. A impunidade é o principal combustível delas.
Muitos sugerem a criação de barreiras que impeçam os negacionistas de conviverem em sociedade, ou torne a vida deles insuportável. Fazer exame a cada 48 horas para poder se apresentar no trabalho, ou ter sua entrada liberada em locais públicos com o custo pago por eles, é uma delas.
Alguns sugerem medidas mais radicais, como a proibição de entrarem em locais públicos sem apresentarem o Passaporte Verde. A única permissão seria para locais que vendem comidas e remédios.
Outros propõe multas pesadas em dinheiro por dia, semana ou mês que a pessoa permanecer sem se vacinar depois de haver recebido lugar na fila.
Infelizmente o Covid-19 não ataca somente negacionistas, ele atinge a todos nós. Uma vez infectados,2% podem ir a óbito.Fora seletivo e matasse somente os que fazem pouco caso, o mundo agradeceria.
Aí está um belo tema para se discutir: numa pandemia até onde vão os direitos individuais sobre os direitos da coletividade?