Dança das contradições
Numa dessas zapeadas vadias, tão comuns em tempos de pandemia, tive o prazer de rever Eles não usam black-tie, obra-prima de Gianfrancesco Guarnieri. Conforme a história evoluía, eu a associava a outro texto primoroso: Rasga coração, do Oduvaldo Vianna Filho. Em ambos, organicamente politizados, há uma ruptura familiar, ou melhor, o rompimento do pai com o filho. No caso do primeiro, cuja ação se passa em torno de uma pequena metalúrgica em São Paulo, o pai é um militante sindical que não admite a ação fura-greve do filho. Depois de ásperas discussões, o filho é expulso de casa e, de quebra, rejeitado pela namorada, grávida dele. A fronteira de um respeito inegociável tinha sido violada.
Em Rasga coração, o protagonista Manguari Pistolão, também um militante e espécie de alter ego do Vianninha, tenta dialogar com o filho Luca, versão radicalizada da geração hippie. Em vão. Luca rejeita, com vizinhanças de deboche, a forma como o pai se inseria no seu tempo. Cria seu próprio mundo, paralelo, onde o “novo” já estaria instalado. As posições colidem dramaticamente até o diálogo final, quando Vianninha, pela voz de Manguari, diz que “nem tudo o que é novo é revolucionário”, que revolucionário é ele, sem pirotecnia, que mergulha na realidade para ter condições de transformá-la. A ruptura é inevitável, Luca é expulso de casa.
Pode parecer que esta associação tenha vindo por conta das muitas guerras familiares que emergiram em 2018. Relações afetuosas que se dissolveram ou enfraqueceram, identidades que implodiram, diálogos interditados, adultos renunciando a histórias de vida e trocando de mal. É possível, o inconsciente é soberano. No entanto, o sujeito oculto está lá atrás, nos anos 1950.
Naquela época, foi muito popular o seriado de TV Papai sabe tudo (Father knows best). Pequenas histórias ingênuas, centradas numa típica família norte-americana de classe média. O pai bonachão, provedor do sustento de todos. A mãe, sempre muito feliz, acomodada no papel de administradora da casa. As crianças, sorriso Kolynos engessado no rosto, jamais entravam em conflito com os adultos. Um universo edulcorado, cada macaco no seu galho e satisfeito com as bananas disponíveis. E a gente vivendo uma realidade que não combinava com aquilo.
Há um conto da Clarice Lispector, Feliz aniversário, que desenha com tintas rascantes um encontro familiar. Acho que ninguém sai ileso duma leitura dessas. As diferenças, escondidas atrás de convenções, arrombam a porta e se mostram por inteiro. O resultado não é nada agradável. No fundo, penso que Clarice reforça a visão de que relações verdadeiras não devem se prender a aparências.
Minha geração, e não só ela, cresceu sob o espectro do seriado americano. Violência, especialmente a psicológica, nunca foi uma questão conversável. Afetos estavam enquadrados na imagem idealizada dos núcleos familiares. Fugir daquilo provocava culpa e desorientação. Como na vez em que o Menino se recusou a visitar um tio doente, com o qual quase não tinha contato. Foi apenas sincero. Rasgou o manual de boa conduta. Ainda lembro das discussões dos Grandes quando a Mãe decidiu “trabalhar fora”, ou seja, deixar de ser apenas uma retaguarda e ter voz ativa. Na época, isso podia dar demissão por justa causa. A família sempre foi um organismo em movimento, carregado de contradições e, não raro, à beira de ataques de nervos. O marketing anunciava um produto – a harmonia perpétua – que não existia.
Não há amor automático. Razão tinha Gentil Cardoso: “Quem se desloca recebe, quem pede tem preferência”. Em qualquer relação saudável, o movimento é vital. Pais e filhos, por exemplo, passam por muitas fases e é natural que haja desencantos. Se for possível, e isso depende de um afeto primordial, elas levam a novas relações, como se cada um precisasse se redescobrir de tempos em tempos. Quando não é possível, bem, aí entram Guarnieri e Vianninha.
Abraço. E coragem.
A Anvisa e sua Enrascada
Na última sexta-feira tive a triste visão do Prof. Gonzalo Vecina Neto, eminente e reconhecido médico sanitarista, fazendo uma defesa desesperada da ANVISA, na qualidade de fundador da agência, em uma entrevista na GloboNews que basicamente versava sobre a súbita mudança da agência na política de licenciamento para uso emergencial de vacinas e sobre a pressão do Congresso para que a mesma estabeleça um prazo de 5 dias para a avaliação de pedidos de registro emergencial de qualquer vacina doravante.
De fato, concordo com o Dr. Vecina no que tange à (necessária) respeitabilidade da agência e de seu potencial técnico, além de grandes feitos em prol da saúde e segurança sanitária de nossa população. Mas nem só de glórias e flores vive a nossa ANVISA. Na última edição do meu boletim semanal “Coronavírus e Política, uma infecção cruzada” (gravada no canal Coletivo Estrela, no Youtube) fiz uma longa introdução trazendo uma pequena lista de eventos históricos onde a ANVISA deixou marcas antipáticas de um complexo burocrático desconectado da vida real dos profissionais de saúde e de seus pacientes, e portanto, não me estenderei aqui sobre o passado. Ainda assim, não custa nada manter vivos na memória os eventos onde a ANVISA interferiu de forma excesivamente voluntariosa na vida das pessoas sob pretextos “puramente técnicos”, sendo o mais clássico (e semelhante ao momento atual) o caso dos anorexígenos anfetamínicos e não anfetamínicos, por ela banidos do mercado contrariando todos os pareceres das sociedades de endocrinologia e mesmo a conduta de outras importantes agências estrangeiras. O resultado desta política foi a inclusão de uma medicação usada para o tratamento do TDAH no rol de prescrições até de serviços universitários, o que aumentou tremendamente o custo do tratamento de um grande número de pacientes e também para o estado. O fim da ópera deu-se quando o Congresso decidiu legislar sobre o caso e restabeleceu a “legalidade” dos anfetamínicos, atropelando a agência, em semelhança ao que agora ocorre em relação às vacinas.
É certo que a ANIVSA é um órgão de fundamento técnico e que assim deve proceder. Entretanto, ela é executora de uma política, que é a política de regulação sanitária. Com este status, ela deve ser como a mulher de César, a quem não basta ser honesta, deve parecer honesta. E perdeu boa parte de sua credibilidade ao ser desavergonhadamente aparelhada pelo indigno presidente da República, que plantou na presidência da agência um amigo pessoal de alta patente (o Contra-Almirante Antônio Barra Torres) sem nenhum passado técnico que o capacitasse ao cargo e fortemente alinhado ideologicamente ao chefe do executivo.
No atual contexto de uma pandemia grave como a de COVID-19, é óbvio que medidas urgentes se impõem, entre elas o projeto, testagem e aplicação das vacinas, e desde o trimestre inicial de 2020 apontava-se que em algum momento ainda deste ano haveria a demanda regulatória para o uso emergencial. No final do último trimestre de 2020 surgiu a demanda do registro emergencial das vacinas. Qual foi a resposta da ANVISA? Simplesmente nenhuma. Não havia protocolo de aprovação emergencial na agência, o que teve que ser formulado às pressas e que causou atraso na liberação da Coronavac e da Oxford-AstraZêneca. Em outras palavras, a agência parece ter dormido de março a novembro e não foi capaz de antecipar-se à mais que óbvia demanda escandalosamente visível no horizonte.
Para piorar tudo no que tange à sua imagem enquanto protetora da saúde e da segurança sanitária da população, a agência quedou-se silente em relação ao ilegal exercício da profissão médica por parte do presidente da República, que literalmente prescreveu tratamentos inexistentes para COVID-19 a todos os brasileiros. Ora, aquela agência que me obriga como médico a ter cinco tipos de formulários para prescrever medicamentos aceitos pela ciência e referendados em todo o mundo, que notabilizou-se por uma série de interdições corretas, nada faz para coibir o uso incorreto e arriscado de medicações sob protocolo do Ministério da Saúde formulados goela abaixo pelo chefe do executivo. Esta omissão certamente será registrada como o mais trágico evento da história da ANVISA. E foi criminosa.
Se fosse apenas pelos dois eventos acima, a agência já estaria em uma grande enrascada.
Longe de mim querer criticar a defesa apaixonada do Prof. Vecina, e longe de mim querer a derrocada da agência. A questão é que os fatos mostram que a agência, enquanto resultante da soma de suas partes, seu corpo técnico e funcional, não consegue transmitir uma imagem de coerência à população geral e muito menos aos que tentam heroicamente nos tempos de hoje praticar uma medicina ética e científica. Como clínico que sou, só posso observar que o conjunto de sinais e sintomas apresentados pela nossa “paciente” são compatíveis com um quadro clínico de descolamento da realidade. Sim, o corpo técnico da ANVISA deve ter responsabilidade política além de técnica. Se como médico tenho o dever ético de zelar pelo bom exercício da profissão e também pela boa imagem da medicina e da classe médica, por analogia, e com ainda mais intensidade pelo grau de autoridade que a agência tem, seu corpo funcional deve capacitar-se continuamente ao diálogo com a sociedade e manter em construção permanente um conjunto de ações e princípios que despertem na sociedade o sentimento de segurança sanitária, além da segurança em si mesma.
Ainda no campo do diagnóstico, a guerra entre Ricardo Barros, líder do governo na Câmara e Antonio Barra Torres, mostra a fratura nas hordas bolsonaristas, algo previsível quando temos no governo um bando de loucos, bem adequadamente nominados pelo ex-presidente Lula.
É digna de compaixão mesmo a situação de muitas pessoas que já dedicaram boa parte de suas vidas à agência, e com grandes realizações. Mas o episódio deixa claro que o tecnicismo e o academicismo não dão conta sozinhos de um país com as nossas características. A autonomia de uma agência como a ANVISA só pode ser garantida por um corpo funcional fortemente articulado com a sociedade e que tenha preparo e formação política para que esteja sempre em estado de alerta e consciência sobre as forças do jogo do poder. É ingenuidade imaginar que a ANVISA sobreviva tão somente de tecnicidade. O que aliás, cabe a qualquer instituição. As más consequências desse erro estão no palco.
Pesadelos
Israel na mídia
É realmente incrível a importância que tanta gente dá a Israel, um país menor do que Sergipe, com 9 milhões de habitantes, que fica longe do Brasil. Nem mesmo a irrisória comunidade judaica brasileira explica isso.
O fato é que Israel não sai das manchetes. São notícias hora boas, hora ruins dependendo também de que lado da história se encontra a mídia, ou seus leitores. São tantas informações, que as pessoas nem se dão ao cuidado de verificarem a fonte e sua veracidade.
No início da pandemia, por exemplo, se dizia que Israel tinha descoberto a cura, que teria vacinas em poucos dias e todo tipo de exaltação a medicina israelense. Nada disso era verdade. O importante era promover falsas esperanças dando crédito a Israel e as relações de Bolsonaro com Netanyahu.
Hoje com mais de 5.000 mortes, no terceiro Lockdown com cerca de 8.000 novos casos diários, ainda assim somos elevados ao primeiro lugar em termos percentuais de vacinação da população. Provavelmente até o mês de Abril, todos que quiseram, somados aos que tinham permissão, vão estar vacinados. Como todos, estamos pagando o preço.
E sim, esta semana, dois hospitais de ponta aqui de Israel tiveram resultados de cura com o uso de fármacos desenvolvidos por eles em pacientes graves da Covid-19. Estes medicamentos estão sendo testados e ainda vão demorar a chegar ao mercado. No entanto, se confirmado o que está sendo visto até aqui, a equação se fecha com o uso preventivo da vacina e da medicação no caso de infecção.
Muito se falou também nos últimos dias com relação a vacinação dos palestinos, de que seria uma obrigação de Israel que estaria sendo descumprida. Antes de tudo, a Autoridade Palestina nunca pediu oficialmente que Israel fornecesse vacinas. Todas as aquisições feitas por eles, ou recebidas como doação foram recebidas. Antes disso Israel já havia doado material médico e máscaras.
Esta semana Israel doou 5.000 vacinas. Até agora elas vem sendo utilizadas para vacinar o corpo médico e os serviços de segurança. Sim, antes de vacinar os mais necessitados depois do corpo médico, eles estão vacinando a polícia. E a bem da verdade, a pandemia não está tão grave nos territórios e nem em Gaza.
Alguns funcionários brasileiros da Organização de direita americana “Stand With Us”, com estreitas relações com o governo Israelense, pagos para defender Israel de qualquer ataque, ou mesmo suposição de estar fazendo alguma coisa moralmente duvidosa se apressaram em mostrar que de acordo com os acordos de Oslo, que Israel descumpre diariamente, a saúde nos territórios está a cargo da Autoridade Palestina. Uma piada de mau gosto.
Neste momento, a situação nos territórios é melhor do que em Israel, e com certeza do que no Brasil. Portanto, não há razão para maiores preocupações.
A Covid-19 continua se espalhando através das diversas mutações que ocorrem. Isto é totalmente previsível e por enquanto não existe nenhuma razão para se duvidar da eficácia das vacinas com relação a elas. O problema das novas mutações é que elas se espalham mais rapidamente do que a capacidade de se vacinar as populações.
Se o ano que passou foi de incredulidade com o que aconteceu, este ano é de esperança. A maioria dos países vão poder começar a voltar a ter uma vida muito próxima do que existia antes. Uma questão de tempo, mas a solução para ele já existe.
Pero Vaz de Caminha, Mercadão de Madureira e Nossa Suprema Ignorância
“E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio”
Enquanto inicio o texto ouço Clara Nunes cantar a sua belíssima e definitiva canção o Canto das Três Raças. Não sei explicar o que sinto por completa inabilidade de transformar sentimentos em palavras. É um daqueles meus momentos da minha relação bipolar com o Brasil. Enquanto o circo de espetáculos macabros se desenrola na política nacional, dentro de mim é uma ebulição , uma emoção sem par. Música e imagem tem esse poder comigo. Sempre fui sensível a imagens, não fotos posadas de mulheres inacessíveis ou mares transparentes que o dinheiro curto me impede de visitar, mas flagrantes do mundo real. Alguns desses instantâneos foram tão fortes que permanecem na minha retina. Imagens que me impactaram, a ponto de mudar a minha perspectiva de vida, abalar meu senso de realidade. Na epígrafe do livro Ensaio Sobre a Cegueira, Saramago cita o Livro dos Conselhos de El Rei D. Duarte:” Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. E se deter em algo que parece novo para você é de uma potência extrema.
Foi assim em 1982.Eu era uma meninota de 11 anos, que gostava da Rita Lee (só fui entender o que significava me deixa de quatro no ato outro dia gente, sério), usava melissa fumê e meias de lamê. Achava que um dia casaria com o Fabio Junior (hoje vejo que não seria um sonho impossível) e tinha como projeto de vida adulta ser chacrete. Minha vida era escola, academia de dança, fins de semana com os avós em Valença ou na casa de primos. Gostava de ler, mas não tinha muita noção do que era bom ou ruim. Intercalava leituras de revistas de banca de jornal, Bianca, Julia, Sabrina com Agatha Christie e George Sand. Meu pai assinava o Jornal do Brasil, do qual só me interessava as tirinhas. Mas aquele dia foi diferente…Na capa seis homens negros amarrados pelo pescoço levados por um policial. Não a toa intitulada de “Todos os Negros”, essa foto rendeu o Premio Esso ao fotógrafo Luis Morrier. E a mim rendeu um choque de realidade brutal. Sejamos sinceros, vivendo num apartheid social, com raros colegas negros e todos os negros que faziam parte do meu cotidiano sendo subalternos, ser negro ou não nunca se apresentou como um problema para mim. Até eu fixar os olhos naquela foto. O que senti foi horror do mundo. E compreendi, da pior maneira, que 500 anos não significavam nada. Aquela fotografia foi muito mais eficiente que qualquer tratado antropológico sobre o Brasil.
1996.Escrevendo uma dissertação de mestrado cujo tema era a A Escravidão Negra em Antônio Vieira. Intercalo a vida entre Dionísio e Apolo. Pudesse vivia nos braços de Baco, mas há um estoicismo que me salva. Gosto do método talvez pela ilusão que assim manipulo essa história de som e de fúria contada por um idiota, que não tem sentido nenhum, como disse lá atrás o bardo. Então minha animada rotina de estudante era: Deixar mochila e roupa arrumadas para o dia seguinte, acordar mais cedo para desembaraçar os cabelos (dos quais me libertei),sair de casa, parar na padaria para tomar meu café sem açúcar de psicopata, ir a banca de jornal comprar O Globo, que eu ia lendo no ônibus e assim a viagem corria mais rápido. Me detive na matéria principal. Era sobre o reencontro do fotógrafo Pedro Martinelli, que há 23 anos atrás havia participado da expedição com os Irmãos Villas-Boas, que tentavam contato com a chamada Tribo dos Índios Gigantes. Pedro se encontraria com o personagem da foto, que estava na capa, duas décadas depois. Sem nunca ter tido contato com os brancos, o que vi foi um indígena com o corpo todo pintado, altivo, com seu arco e flecha, mirando aquelas pessoas estranhas. Era a representação carnal da música do Caetano Veloso:” Um Índio Descerá de Uma Estrela Colorida Brilhante”. Aquele homem, hoje para mim um menino, de 23 anos, mesma idade do fotógrafo, sustentando o olhar para aquelas pessoas que nunca vira e muito menos sabia a procedência, era de uma altivez natural que vi em poucas pessoas. Me dirigi então a matéria, no miolo do jornal, que registrava o reencontro do fotógrafo com o fotografado. O que vi foi um homem triste, sem dentes, com uma blusa com uma inscrição em inglês, vestindo um daqueles shorts da Adidas que brilha e de Havaianas no pé. O olhar altivo era coisa do passado. Ele mirava o chão, passando a sensação de estar com muita vergonha. Lembrei de Pirrer Verger, na década de 50, querendo fotografar uma baiana paramentada vendedora de acarajé e ela se recusando, dizendo que a foto roubaria a alma dela. A sensação que me ocorreu é que haviam sim roubado a alma dele. A dignidade daquele guerreiro foi levada. E eu passei o resto da viagem chorando.
Ailton Krenak, no documentário Além Mar, que foi feito em comemoração aos 500 anos do Brasil, narrado lindamente pela deusa Bethânia, ao discutir a questão de identidade disse: “os negros ficaram com uma geografia em relação a casa grande, que era a senzala. Mas naquela geografia que Gilberto Freyre faz para a casa grande, não há lugar para índio. Sabe onde o índio está? Espreitando a casa Grande. É o estranho. É o gentio”. Essa fala foi importante para eu ter ideia do tamanho da minha ignorância. O que eu sei dos povos originários? O mais próximo que cheguei foi através das histórias que meu pai contava, quando tinha 17 anos , recém aprovado no vestibular, de sua viagem com S. Wanderley, sertanista amigo do meu avô e ficou em Xavantina, quando os Xavantes estavam sendo “pacificados”. Mas o que me impressionava mesmo era ele falando das imensas sucuris que atravessavam o Rio das Mortes.
E tinha meu tio-avô Luiz que merecia uma crônica só para ele. Tio Luiz estudava tartarugas e até descobriu uma espécime na Amazônia, que carrega nosso sobrenome. Era um homem alto, de voz potente , ir a casa dele era a suprema aventura. Éramos recebidos por ele com um papagaio pendurado no ombro e com seu inseparável tapa-olho. Durante um bom tempo corria uma lenda entre as crianças que ele perdeu o olho numa pesca submarina, até que um adulto inconveniente contou a verdade. Tio Luiz era péssimo motorista, bateu num carro e ainda teve o topete de sair com o olho vazado para discutir com o infeliz que estava no outro veículo. E sim, o outro motorista estava com a razão. Só sei dizer que ir a casa dele era um programão. Eles nos mostrava animais diferentes, explicava calmamente o que era cada um e claro, havia um tanque imenso cheio de tartarugas, dos mais variados tamanhos. Ele também colecionava artefatos indígenas, e jamais esquecerei o dia que ele pegou um objeto de madeira maciça, vermelho escuro , bem polido e perguntou se eu aguentava segurar. Claro que não, pesado demais para a menina franzina. Ele me explicou que aquela era uma arma indígena, chamada borduna, disse a que tribo pertencia e explicou sua serventia com apenas uma palavra: DEFESA. Perguntei então se os indígenas metiam aquilo na cabeça das pessoas e recebi uma resposta que só por ela percebe-se que não fui adotada: ”Ninguém que não tivesse merecido”.
Cresci na época da ditadura, o que aprendia na escola sobre os povos originários era que viviam em ocas, pescavam, plantavam e contribuíram para a nossa culinária. Não havia uma preocupação em distingui-los: tem penacho, tem cocar, é indígena. Houve um apagamento deliberado desses povos e de sua história. Que se iniciava na capa dos cadernos escolares, quando não era Pedro I declarando a Independência , ou a imagem do “bravo Duque de Caxias”, patrono do exercito, era a imagem da primeira missa. Homens com roupas de cavalaria medieval, imponentes, uma cruz e os índios de saiotes de penas como coadjuvantes, reverenciando a cruz e os colonizadores. O outro momento que éramos lembrados da existência deles era no temível dia 19 de abril, quando se comemorava o dia do índio. Aqui explico: Mães da década de setenta pareciam estar numa infindável viagem lisérgica, não há como esquecer meu irmão com penas em degradê do rosa choque ao roxo caixão, com um cocar que poderia servir como destaque para a Cacique de Ramos e muitas, muitas miçangas. Clovis Bornay aprovaria. Essa foto rolou por um tempo aqui em casa, mas alguém disse que ia mandar para aquele blog criança viada e meu irmão desapareceu com ela. Então era basicamente isso: aulas superficiais, imagem da Primeira Missa e fantasias montadas no Mercadão de Madureira para nos envergonhar para o resto da vida.
E foi com essa linha de pensamento que fui refletindo sobre esse encontro índio-europeu. O fato é que com a chegada da esquadra de Cabral, em 1500, através de diferentes perspectivas um novo mundo abria-se ambos. Para os portugueses velhas certezas foram desmentidas, o mundo geográfico se revelando. A nova terra empurrou para adiante os limites do mundo desbravado pelos navegadores em décadas anteriores. Já para os povos autóctones a perda do domínio sobre o espaço que viviam e sobre outra dimensão: o tempo. Era a história modernizadora que vinha com as caravelas, para se confrontar com o tempo mítico vivido pelos indígenas.
Laura de Mello Cardoso, em seu livro O Diabo e a Terra de Santa Cruz, diz que o Brasil foi uma utopia desde antes de ser descoberto. Para os teólogos medievais, o Éden não era uma representação simbólica, e sim uma realidade concreta e acessível. Ao mito das ilhas Afortunadas sucedeu o da Terra dos Papagaios, que deveria conter o paraíso terrestre. Desta ilusão religiosa se deduziram versões mais laicas, afinal estavam no Paraíso e não existe pecado do lado de baixo do Equador. É interessante observarmos a forma como os europeus viam esse novo mundo, tão longa quanto a história do Brasil é a história das narrativas de viagem que figura o Brasil. Desde que os europeus aportaram nessa estranha terra, ela foi abundantemente descritas por eles e se alastrava pela Europa com o auxílio nada desprezível da imprensa. Viajantes como Thevet e Levy, podem ser considerados os iniciadores das fake news no nosso solo pátrio. Pululam em seus escritos absurdos como gigantes de dezesseis palmos, selvagens com os pés ás avessas e por aí vai.
Contrapondo-se porém a visão edenizadora, mais que nuvens e insetos , calor intenso e cobras gigantescas, a imagem do Brasil como um inferno vai estar presente nos nativos da terra. Sobretudo quando passam a ser um obstáculo para a sua ocupação. E de todas as diferenças entre os europeus e os indígenas, nenhuma causou mais espanto que a antropofagia. Causa, aliás, de grandes discussões filosófo-religiosas acerca da verdadeira índole dos bárbaros: descendentes de Adão para alguns, mas pouco mais que bestas feras para outros- o que era um pretexto bem conveniente para escravizá-los. Seria necessário, que em 1537, uma bula papal reconhecesse explicitamente a natureza humana dos americanos. Assim, desta terra , segundo o escrivão da esquadra: ”O melhor fruto que se pode tirar, me parece que seria salvar esta gente. E esta deve ser a Principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar”. A esta gente, indecifrável aos olhos dos europeus, eles não viriam apenas salvar a alma. Mas aliciar, dominar, exterminar, subjugar, escravizar, conforme seus interesses específicos. Toda vez que nos desesperarmos com esse desgoverno que fomos metidos, lembremos do sábio Ailton Krenak: ”O que são quatro anos? Nós estamos resistindo há quinhentos!”