Diabo a quatro

O programa domingueiro parecia inocente. Um casal de vizinhos, pais de um colega peladeiro, o convidou para um cineminha na Praça Saens Peña. Tudo correu bem, até que os distintos aprontaram uma falseta. Depois do filme, o Menino foi forçado a entrar numa igreja para a missa das seis. Nunca tinha frequentado aquele ambiente, que lhe pareceu pouco acolhedor, mais asfixiante do que austero.

Antes de mais nada, sentiu-se desrespeitado. Os adultos sabiam que a família do Menino era judia, sem vínculo com a tradição religiosa católica. Criança, não tinha condições de reagir àquela agressão, tão inesperada quanto covarde. O jeito foi mimetizar. Observou que as pessoas se ajoelhavam numa espécie de tábua comprida e estreita, juntavam as mãos, fechavam os olhos e pareciam cantar palavras incompreensíveis. Sem entender o que as movia, fez os mesmos gestos. Talvez tenha apertado os olhos com força, para tentar se transportar para fora dali. Não deu certo, o ambiente continuou opressivo, triste, os adultos ignoravam seu mal-estar.

Estava tomado por sentimentos angustiantes. Sabia que aquele não era seu lugar, que aquelas não eram suas palavras. Seria castigado por pisar naquele “outro” sagrado? Que tipo de traição estaria cometendo? Valia a pena, ou melhor, teria coragem de delatar o que estava acontecendo para seus pais, que certamente tomariam providências de gente mais velha, consequências em aberto? Turbilhão na cabeça de uma criança que tinha saído de casa querendo apenas se divertir um pouco.

Não me lembro do que aconteceu depois. Daquela tarde amarga sobraram aflições e muitas, muitas, perguntas. Influenciado pelo livro Deus: um delírio, do cientista Richard Dawkins, queniano criado na Inglaterra, resolvi repatriar algumas delas. É o caminho necessário das sombras inconscientes para o terreno da razão e do esclarecimento.

Qual é o direito que os adultos têm de determinar o que é certo e errado, passando uma mensagem absolutista para as crianças? Dawkins destaca uma observação do psicólogo Nicholas Humphrey: “As crianças têm o direito humano de não ter a cabeça aleijada pela exposição às péssimas ideias de outras pessoas”. A consequência imediata seria, por exemplo, deslegitimar a pretensão, absolutamente corriqueira, de pais injetarem sua religião nos filhos desde a mais tenra infância. Se alguém afirmar, como pondera Dawkins, que uma criança de quatro anos é keynesiana ou marxista, será tachado de tolo ou lunático. Como é que com tão pouca idade se pode dominar os fundamentos destas escolas de pensamento? Interessante é que ninguém se surpreende se a mesma criança for rotulada de cristã, muçulmana ou judia. Parece natural, dado o peso que a religião assumiu nas sociedades, mas é igualmente absurdo. Cada um deve ter o direito de construir sua identidade, quando tiver condições de elaboração intelectual-afetiva e em qualquer terreno que seja. Isso evitaria traumas e demônios desnecessários.

Arrisco generalizar: religiões são território de culpas e castigos. O inferno, com suas câmaras de tortura perpétuas, é uma das imagens mais aterrorizantes que conheço. Igrejas barrocas e neoclássicas de Salvador foram construídas graças a doações de ricos colonizadores, que esperavam purgar culpas e escapar das manhas de Belzebu. Dizem que na igreja de São Francisco, no Pelourinho, foram usados cerca de mil quilos de ouro em pó. O preço da salvação é caro. Tentar seduzir um juiz que não se vê e cujas sentenças são irrecorríveis transforma multidões em aflitos profissionais.

Quando este tipo de assunto vaza para o espaço público, a maionese desanda de vez. O ministro da Educação, um dos terrivelmente evangélicos, está sendo processado por homofobia. Afirmou ao Estadão que a homossexualidade não é “normal” e atribuiu sua ocorrência a “famílias desajustadas”. Confunde sua leitura da Bíblia com o imperativo da Constituição. É uma variante do determinismo tóxico que já abordei.

Quem precisa de infernos imaginados no nunca provado pós-vida? Já temos, aqui e agora, nossos demônios, nossas inseguranças, nossos tombos, nossas neuras. Não será com ameaças piromaníacas que aprenderemos a lidar com eles. Antônio Maria tratava a encrenca à sua maneira. Numa velha crônica, descreveu as jangadas no mar de Fortaleza. Ansiava por voltar a andar de jangada “ouvindo histórias de coragem no mar, sentado no banco da proa, com o rosto molhado, a mente curada e o peito livre do peso da angústias”. Reconhecia seus diabinhos internos, mas preferia navegar com eles ao estilo de Caymmi ao invés de pedir carona ao barco de Caronte.

Abraço. E coragem.

UM CORPO DE MULHER ( DESEJO QUE NÃO CALA )

Foi quando me vi olhando para o perfil do corpo daquela mulher, que se movimentava à minha frente.
Saboreei suas curvas e cintura fina emoldurada por um training preto, que a vazão da performance não escondia.
E sorri, acompanhando as nuances de um corpo fresco, trajes negros, a se movimentar.
Sua escultura me serviu de deleite a prescrutar, em minha imaginação, quais olhos serviriam à majestade daquele corpo esguio.  E não lhes imaginei, até o momento em que os cruzei, ziguezazeando-nos pelos desfiladeiros de um supermercado.
Pego-me, ainda, relembrando minha busca por um corpo feminino, pernas, deslize no andar, e minha descoberta, ainda que tardia, do aflorescer de um desejo inconteste.
Clausulo em fantasia, abro-me à medida em que meus sentidos não traiam, e meus afetos sejam, apenas, o desfrutar do prazer, sem enganos.
Minhas definições esbarram no medo da entrega, não menos a caricia do que poderá o contumaz trazer.  Um receio doce, por vezes aflitivo, em me descobrir meio ao avassalador que virá, ou não, trazendo o terno enlevo dos afetos cometidos.
Não mais pretendo desvendar o óbvio, fruto do desejo.  Mulheres são fonte de prazer e, nisso, sendo seu preço.
Ela resvala, límpida, no seu andar descompromissado ao que a cerca.   Eu a devoro em suas curvas, sem um rosto que me defina, mais ou menos, a atração.
Olho um corpo que se me destaca, e ele me sussura prazer.  Dele exalo, e me completo, assim sendo, desejando, em todo, uma mulher.  Aberta a essa confissão, destino do que, talvez, me aguarde.
Entrego-me ao fortuito de minha descoberta, sem mais pensar, acatando-me à realidade do que me pulse, nova descoberta.
Na verdade que existe em mim, extraio um casulo de esperança.  Quem sabe conhecerei o amor, ou o deliciar de momentos de enlevo.
Perguntas sem respostas, num principio em que não ha cartas marcadas.  O proprio desenrolar da vida dando sequencia a estorias, talvez acabadas, ou não.  Força em que se acredita, e sabe o melhor.
Vou rumando em meus dias, cultivando a sapiencia da esperança.  Do cultivar, em sonhos que voem a terra plana, não distantes do seu prumo.
No equilibrio entre a volupia e o terno, na busca da serenidade, onde há paixão.  No desejo mudo, em vida.  Sabe-se lá a que caminhos me levarão.

Educação para que?

“O Leite Condensado é para enfiar no rabo da imprensa. Vão pra PQP”. Assim falou o presidente do Brasil num rompante miliciano. Qual foi a consequência desta falta de respeito com o cargo que ocupa? Quem disse nenhuma ganhou uma caixa de chicletes.

O Brasil perdeu o respeito consigo mesmo. Sua honra, sua dignidade, sua história não significam mais nada. O país é um morador de rua entre as nações. Não se importa mais com a sua imagem, como é visto pelos seus pares. Passou com honra o fundo do poço.

Impressionante o desdém da mídia tradicional para os fatos. De um lado a compra de mantimentos de fornecedores suspeitos, para dizer o mínimo. Na sequência uma manifestação destemperada, chula de parte do mandatário brasileiro, e o assunto é logo esquecido.

As explicações para as compras são de um mundo paralelo. Nele os soldados bebem leite consensado para receberem mais calorias. Este leite é mais fácil de se guardar. Mas se feitas as contas, é como se cada membro das Forças Armadas tivesse recebido 1,5 lata de leite condensado por ano, considerando o preço real que é na média de R$ 28,00. Visto desta forma, é razoável o que foi adquirido.

No entanto as licitações de itens um pouco estranhos foram vencidas por fornecedores um tanto esquisitos. Os preços pagos são outra história. Isto sim justifica uma investigação rigorosa. São inúmeras suspeições de cartas marcadas.

Em uma nação qualquer, com o mínimo de civilidade, o governo teria vindo a público com uma explicação séria. Exporia os números reais, o destino da mercadoria e como ela é empregada. Tudo claro e transparente. E se fosse o caso, abriria imediatamente uma investigação para punir os responsáveis por qualquer questão ilegal.

Nada disso ocorreu. Primeiro a imprensa deu a entender que a compra tinha sido realizada pelo presidente para seu consumo. Depois voltou atrás, mas aí teve de escutar os palavrões do dignatário mor. Então mudaram de assunto.

O que precisa ficar claro é que nada justifica o destempero do presidente. O cargo que ele ocupa é maior do que ele. Para ocupá-lo é necessário vencer eleições democráticas. “De acordo com o texto de 1988, cabe ao vendedor as tarefas de chefe de Estado e de governo e de comandante das Forças Armadas. Na prática, isso significa que o presidente é o representante público mais elevado do País e o principal articulador das vontades da população”.

Para permanecer no cargo é necessário manter o decoro que o cargo exige. Um presidente não pode proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo. Isto é crime contra a probidade na administração, passível de processo de Impeachment.

Nunca um presidente do Brasil teve tantos pedidos de Impeachment. A maioria deles embasados em crimes tipificados na lei. Nada disso parece abalar quem deveria dar provimento aos pedidos de pelo menos um deles. Infelizmente ele tem o poder para isso e vai deixar o cargo sem tirar nenhum dos 62 pedidos da gaveta.

Qualquer presidente está sujeito a receber um pedido de Impeachment, isto aconteceu com todos. No entanto vale recordar que os dois efetivamente cassados, Collor e Dilma, receberam 24 e 37 respectivamente.

O que estamos presenciando atualmente é inédito. Eduardo Cunha vai lançar um livro onde entre outras histórias, conta como foi planejado o golpe contra Dilma que se utilizou de um dos pedidos de Impeachment para se concretizar. Dando nomes aos bois vai escancarar o que todo mundo sabe. Dilma foi deposta em um golpe branco, constitucional e indecoroso.

Uma das figuras envolvidas no golpe é justamente aquela pessoa que tem hoje o poder de abrir um processo contra Bolsonaro. Rodrigo Maia que tem péssimas relações com o presidente e ainda assim se nega a tomar uma atitude, nem mesmo se dá o trabalho de examinar os pedidos. Foi um tigre contra Dilma, mas é uma barata contra Bolsonaro se escondendo nas sombras.

A política é a arte de engolir sapos, e assim o PT vai ter de votar em outro partícipe do golpe para evitar que o candidato do Planalto assuma a Câmara. São as voltas que o mundo dá. Neste caso, uma ironia do destino, quase uma Escolha de Sofia.

O que se espera é que Baleia Rossi, se eleito, não aguarde muito tempo mais para dar início ao Impeachment daquele que seguramente é o pior presidente do Brasil de todos os tempos. Desta vez, não um processo baseado em ilações, mas em crimes cometidos contra o povo Brasileiro.

Tomara 2021 termine sem o vírus e sem o verme.

 

Barrado no baile

Bem que o horóscopo avisou. Aquele seria um dia de Saturno colérico, de Plutão com os ovos virados, de engarrafamento na Via Láctea, do espectro de Manolete massacrando Touro. Uma vizinha, versada nos mistérios magnéticos, confirmou que o pêndulo zodiacal tinha feito um movimento estranho. O universo, portanto, conspirava: nada de atrevimentos!

O universo, ora, o que é ele frente à vontade de um adolescente, projeto não se sabe de quê, turbilhão hormonal enfeitado por um jardim de espinhas? O primeiro mandamento para o quase ex-Menino era enfrentar a autoridade. Qualquer uma, fosse ela doméstica ou cósmica. As armas para a batalha estavam prontas: calça boca de sino, cinto largo, fivela de cowboy, camisa apertada e, sobretudo, uma caderneta de estudante com idade falsa. Pronto. Um pouquinho de Minâncora para disfarçar as espinhas e o figurino do malandro dava para encarar a censura dos 18 anos no cinema.

Antes de continuar, um breque. Nos anos 1940, 1950, circulava pelo Rio o delegado Deraldo Padilha. Quando punha a mão num suspeito de malandragem, diz a lenda que fazia um teste. Pegava uma laranja e jogava dentro da calça do elemento. Se ela saísse embaixo, tava liberado. Ficasse presa na perna, cana. Os malandros costumavam andar com calças de bocas apertadas. Moreira da Silva chegou a gravar um samba, “Olha o Padilha”, que satirizava as táticas do meganha. “E jogou uma melancia, pela minha calça adentro e se enganchou no funil/Eu bambeei, ele sorriu/Apanhou uma tesoura e o resultado dessa operação é que a calça virou calção”. O delegado Padilha foi pré-boca de sino …

Voltando à vaca fria. O cinema Comodoro, estalando de novo, estreava Bonnie & Clyde (que os gênios da titulagem nacional chamaram de Uma rajada de balas). Censura: 18 anos, é claro. A perspectiva de ver Faye Dunaway em plena forma produzia uma estranha salivação, um abre-te, sésamo, de sensações inéditas. A transição para não sei o quê tinha reações incontroláveis, sexualidade em erupção. Bem, o desafio era grande, o fiscal do cinema não costumava dar refresco, mas o prêmio era tentador. Abrir a cortina do mundo pós-dezoito anos, com seus prazeres proibidos, valia o risco.

Chegou antes da hora, passos inseguros. A bilheteira, entediada, vendeu o ingresso sem desconfiar da tensão quase sólida no ar. Meio caminho andado. Entregou o papelzinho para o sujeito que dava acesso à sala. Carteira, exigiu. Mostrou o documento grosseiramente falsificado. Percebeu um sorriso irônico do fiscal, antes do xeque-mate: mostra a identidade. Nada mais havia a fazer. Calça, cinto, fivela, Minâncora, não resistiram ao bafo inegociável da autoridade. Barrado no baile. Dezessete não é dezoito.

Saiu andando pela rua Haddock Lobo, sem bússola. Travo amargo na boca, solidão gritando. Ali perto ficava o bar Divino, onde costumavam se encontrar Roberto e Erasmo Carlos, Jorge Ben, engatinhando na Jovem Guarda. Naquela noite vazia, o bar lhe transmitiu silêncio e desolação. Teve a impressão de que todos o observavam, ridicularizando a tentativa fracassada de violar os segredos dos adultos. A volta para casa teve trilha sonora imaginada. A voz da Maysa disparando meu mundo caiu, me fez ficar assim.

Muitos anos depois, assistiu Bonnie & Clyde. O que havia de tão sinistro ou perigoso na saga de dois assaltantes apaixonados, barbarizando na América profunda? Talvez a moral hipócrita que não admitia o mau exemplo da glamourização da violência. E não, Faye Dunaway não ficava pelada.

Bem que o horóscopo avisou.

Abraço. E coragem.

Aras e Bozo, irmãos siameses

Geraldo Brindeiro entrou para a história como o “engavetador geral da República”, o homem que arquivou  mil e um  supostos autos criminosos contra FHC e seus aliados, evitando assim que as falcatruas tucanas viessem à tona.

Os números são eloquentes: de 626 inquéritos criminais que recebeu como procurador-geral da República, engavetou 242 e arquivou outros 217. Total: 459. Somente 60 denúncias foram aceitas. As acusações recaíam sobre 194 deputados, 33 senadores, 11 ministros e quatro sobre o próprio presidente. Por conta disso, recebeu o jocoso apelido. Entre as denúncias que engavetou está o maior escândalo da era Fernando Henrique Cardoso, a compra de votos para aprovação da emenda constitucional que aprovou a reeleição para presidente.

O tempo de Brindeiro passou. Assumiu Rodrigo Janot, responsável pelas denúncias por corrupção de cinco presidentes e ex-presidentes, inclusive Michel Temer, em exercício, que só escapou do processo graças ao voto do Congresso impedindo a sua abertura. Janot foi acusado de ter formulado acusações sem fundamento jurídico e imposto a sua agenda, paralisando o Executivo e o Legislativo. Entrou no barco da Lava Jato e perdeu o controle, inclusive de si mesmo. Em entrevista concedida para divulgar seu livro de memórias confessou que chegou a entrar armado no Supremo Tribunal Federal para matar o ministro Gilmar Mendes.

Chegou a vez de Augusto Aras, por quem o capitão teve, como é de seu feitio, um “amor à primeira vista”. Conservador, católico praticante e ideologicamente alinhado com Bolsonaro, Aras não integrava a lista tríplice para indicação ao cargo; chegou ao topo da estrutura do Ministério Público pelas mãos da ninhada 01, 02 e 03 e do ex-deputado federal Alberto Fraga, militar como o capitão, condenado por manter armas de fogo proibidas e corrupção, que fez a aproximação entre os dois. Tomou posse em 26 de setembro de 2019.

Um ano depois, seu balanço era pra’ lá de minguado. Entre manifestações encaminhadas ao STF e medidas adotadas pela própria PGR, a Procuradoria se alinhou ao governo em mais de 30 vezes. Ficou na contramão em apenas uma oportunidade, em que Aras apresentou uma ação constitucional contra ato do presidente Jair Bolsonaro.

Isso ocorreu quando o Executivo editou a medida provisória que instituiu o contrato de trabalho Verde e Amarelo. A Procuradoria pediu a invalidação de dois trechos do texto assinado por Bolsonaro. Essa foi a única iniciativa do procurador de provocar o Supremo contra uma decisão do presidente da República.

Se Bolsonaro fosse um presidente “normal” talvez estivesse de bom tamanho, mas não é. Comete crimes, viola a Constituição quase que diariamente, diante do silêncio doloso de Augusto Aras, incentivado pela “promessa” de nomeação para o STF.

O capitão deve sua sobrevivência no cargo em grande parte ao Procurador-geral da República, a quem faltam algumas características básicas para o exercício da função: independência, honestidade, alto saber jurídico, respeito à Constituição. À essas poder-se-ia acrescentar a falta de uma qualidade que ele alardeia possuir: coragem.

Em raríssimas ocasiões Aras agiu como chefe do Ministério Público Federal:

1) promoveu uma ofensiva contra a militância bolsonarista que pedia o fechamento do Congresso e do Supremo.

2) pediu abertura de inquérito para investigar os responsáveis pelos atos;

3) defendeu o inquérito das fake news, que apura a disseminação de notícias falsas e ameaças contra integrantes da Corte Suprema;

4) solicitou a abertura de inquérito para apurar a veracidade das acusações feitas por Sergio Moro contra o chefe do Executivo ao pedir demissão do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Mas inclusive nessas ocasiões, sempre que pode, posicionou-se a favor do Executivo. Foi capaz de contorcionismos espetaculares para livrar o seu chefe e denunciar seus adversários.

Entre as violações flagrantes à lei máxima, que poderiam – ou melhor, deveriam – ter sido levadas ao STF por Aras estão: censura, apoio a manifestações antidemocráticas, homofobia, ataques à população indígena, ameaça a procuradores, manifestação contra decisões do Supremo, interferência na Polícia Federal, defesa da ditadura, exoneração fiscal do Ibama, crimes contra a saúde pública.

Com relação à atitude de Augusto Aras, cego, surdo e mudo face à condução da crise sanitária pelo Executivo, o procurador  porta uma imensa responsabilidade. Seus atos mais recentes mostram cumplicidade com o genocida (termo utilizado em ao menos duas denúncias contra Bolsonaro no Tribunal Penal Internacional) no poder.

Sua recente nota atribuindo ao Congresso o papel de analisar “eventuais ilícitos que importem em responsabilidade de agentes políticos da cúpula dos Poderes da República” durante o enfrentamento à pandemia de covid-19 é jurídica e politicamente inaceitável.

Ministros do STF qualificaram a nota de “desastrosa”, mas ninguém manifestou surpresa, afinal ficou evidente que o objetivo de Aras é, como sempre foi, preservar o presidente Jair Bolsonaro e no caso presente o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello.

Cabe ao procurador-geral da República conduzir qualquer investigação criminal sobre presidentes e ministros. E está evidente que o capitão e o sargento Garcia cometeram crimes previstos nos artigos 268, 269, 283,  285, 258, 131 do Código Penal.

Só que desta vez Augusto Aras foi além. Ao defender seu protegido, fez como ele: atacou a democracia, o Estado de Direito. O procurador agiu exatamente como o seu patrão ao declarar que as Forças Armadas, e não a Constituição Federal, decidem se o país viverá uma democracia ou retornará à ditadura.

A ardilosa nota divulgada por Aras, em 19 de janeiro, apontou risco de o atual estado de calamidade progredir para o estado de defesa, que previsto na Constituição pode ser decretado por presidentes a fim de preservar ou restabelecer “a ordem pública ou a paz social ameaçadas por grave e iminente instabilidade institucional ou atingidas por calamidades de grandes proporções na natureza”.

O recurso ao estado de defesa está sujeito à aprovação do Congresso em dez dias e permite ao presidente restringir direitos da população: direito de reunião, de ir e vir, de trocar ideias e criticar, sigilo de correspondência, sigilo de comunicação telegráfica e telefônica.

Claro portanto que tais medidas não têm nenhuma relação com o combate à pandemia. O objetivo de Aras é advertir para o risco de ruptura democrática. Ele não apenas não é contra como aponta o caminho das pedras.

Seria um caso único nos países democráticos face à pandemia. Outros governantes populistas de extrema-direita, como Viktor Orbán, na Hungria, tentaram amordaçar a população, mas foram obrigados a voltar atrás.

Sete dos dez subprocuradores-gerais da República não hesitaram em destacar a atitude do chefe: “Referida nota parece não considerar a atribuição para a persecução penal de crimes comuns e de responsabilidade da competência do Supremo Tribunal Federal (…), tratando-se, portanto, de função constitucionalmente conferida ao Procurador-Geral da República, cujo cargo é dotado de independência funcional”.

O ministro do STF Marco Aurélio de Mello e o ex-ministro Celso Velloso também já disseram que a medida não caberia no atual contexto do país.

Está claro que, no tratamento da pandemia, o capitão e seu sargento  cometeram crimes, tanto de responsabilidade como de direito comum.  E que, como assinalou o Conselho Superior do Ministério Público,  “o Procurador-Geral da República, precisa cumprir o seu papel de defesa da ordem jurídica, do regime democrático e de titular da persecução penal, devendo adotar as necessárias medidas investigativas a seu cargo – independentemente de “inquérito epidemiológico e sanitário” na esfera do próprio Órgão cuja eficácia ora está publicamente posta em xeque -, e sem excluir previamente, antes de qualquer apuração, as autoridades que respondem perante o Supremo Tribunal Federal, por eventuais crimes comuns ou de responsabilidade”.

Em bom português, pela enésima vez Augusto Aras não cumpre sua função e pior, penetra em uma zona cinzenta – a antevisão do “estado de defesa” –  que além de não se justificar pode ser considerada incitação ao golpe. O procurador-geral atuou contra a defesa do estado democrático de direito. Agora vem aí, tal Poncio Pilatos, lavando as mãos, argumentando que, se crimes houveram, foram de responsabilidade, de competência exclusiva do Legislativo.

Augusto Aras mente de forma descarada porque é servil, só obedece os interesses próprios, e por ideologia. É um adepto da “democracia relativa” tão cara aos militares da ditadura.

Em dezembro de 2018, declarou à Tribuna da Bahia: “Podemos ter no governo Bolsonaro uma democracia militar”… “o fato de termos um governo em que, pelo menos, metade do ministério tem militares na chefia revela uma dificuldade para o fisiologismo”.

Desta maneira, Augusto Aras ganhou o cargo e pode até vir a ser premiado com o STF, mas sua ação e inação minimizam os desfeitos (graves) de Brindeiro e Janot nesse circo de horrores, representam um retrocesso institucional, violam a Constituição e contribuem para a morte de dezenas de milhares de brasileiros, vítimas da ausência de política sanitária de um sádico que, por culpa sua (do PGR), não responde pelos crimes que comete.

Aras e Bolsonaro se valem. São irmãos siameses unidos pelo ódio ao Estado Democrático de Direito.

Confluências 

 Poderia ser um dia qualquer

Mas não era

E ela se vestiu de desejo

Perfumou o corpo e os cabelos

Inaugurou um sorriso único

E lançou-se no mar do amor

O amante era mistério

Tinha um discreto sorriso nos lábios

Mas ainda era sério

Veio o tesão e o cheiro de homem

Todo desejo do seu corpo

Seguido da resposta da fêmea

Que desabrocha em volúpia

Entre abraços e afagos

Lençóis perfumados

Corpos em luta

Numa busca insana pelo entendimento

No diálogo dos corpos

Tantas mensagens criptografadas

Toda uma história a ser decifrada

Um tanto de química, magia e poesia

Tatuagens marcadas em meu corpo…

E hoje sou esse poema

Que escreveste de forma irresponsável

Aleatoriamente…

Impunemente.

Mas que segue resistente

Sem cobrar por futuro

Apenas sendo presente.