por Mauro Nadvorny | 12 mar, 2021 | Crônica
Francisco (16/04/1918 – 11/06/2000)
In memória
“Pegue o primeiro avião porque teu pai quer te ver antes de morrer”
Sala de aula lotada, 150 alunos se preparando para o vestibular. Aula de literatura. Ela estava analisando a obra de Milton Hatoum – “Um relato de um certo Oriente.” O coordenador chega e pede para falar em particular. Ela pede um pouco de tempo para finalizar os comentários de um personagem e seus dramas, os metarrelatos. Pede licença aos alunos e vai à sala da coordenação. Todos estavam solícitos e quando ela vê, em uma cadeira, o rapaz que trouxe a noticia, suas mãos tremeram. Jamais alguém viria ao cursinho se não fosse para algo muito sério. Ela sentou abruptamente, e foi logo perguntando, papai? Não houve resposta imediata. O rapaz apenas falou que o voo já havia sido marcado. Ela teria algumas horas para organizar os filhos, cachorros, gatos e a mochila de viagem. Com um olhar e alguns gestos falou, vou e quando voltar continuarei a aula. Foi para casa, fez várias ligações, colocou coisas na mochila sem muita ordenação e um livro… Pegou um jeans surrado, pois era assim que ela usava em dias sem exigências da carreira, camisetas, uma boina, que havia comprado em uma de suas viagens, abriu o guarda vestidos e tocou em todos, havia saudades… Ela sabia que os irmãos não aceitariam sem um bom traje para cerimônia, escolheu o vestido de veludo preto com rendas e detalhes de seda laranja e preta, presente da mãe. Ela amava este vestido, usava-o em poucas ocasiões, como se fosse para eternidade… Falou para os filhos as devidas obrigações, alimentação, escola e horário do dentista, natação. Acariciou os animais e beijou cada filho com muita ternura e falou, a mamãe volta breve. O vovô precisa ver mamãe. Após tantas horas de voos e conexões, a introspecção foi formando e ordenando as mais doces lembranças do pai e sua infância com tantas aventuras e lendas contadas. Lembrou-se de uma que a fez chorar por muitas vezes: “A menina que nasceu no oco do pau.” Essa menina era ela. O pai criava toda a imagética do nascimento, a menina acreditava e chorava… Queria ser filha da mãe e dele. Lembrou-se das primeiras espigas de milho que o pai trazia para ela e sua irmã, transformando-as em bonecas. As vestia com os retalhos das costuras da mãe. Como ele sabia dar-lhe alegrias… No aeroporto de Manaus, que ficou exatamente 6 horas de espera para o próximo voo, ela percebeu um jovenzinho que se aproximou e parecia querer algo, parecia um indiano pelas características físicas. Ela não entendia bem o que ele queria, mas percebeu o frio da madrugada no aeroporto quase deserto. Tirou a echarpe e o cobriu para aquecê-lo, os olhos do garoto ficaram com gratidão e um sorriso pálido apontou em seus lábios. Ela o aconchegou e disse, espere que vou comprar algo quente para você. Ela cruzou o saguão e foi até um dos quiosques. Pediu café e algo para alimentar o garoto. Quando entregou o lanche nas mãos do menino, ela percebeu sua solidão, mas não podia se envolver mais que o possível. Apenas observava-o, mastigava com delicadeza o alimento, como se fosse um ritual. Talvez estivesse viajando ao encontro do pai, não sabia… Lembrou-se da aula pela metade, dos personagens e seus dramas, as dificuldades da convivência familiar, nos segredos tão bem guardados, o afogamento de Emir… Olhou novamente para o menino, que acabara de mastigar o último pedaço do sanduiche e com olhos marejados em lembranças antigas, pensou na dor de sua mãe quando perdera o primeiro filho afogado, que levava o nome do pai. Assunto proibido. Dor quase não tocada por ninguém. Só ouviu sobre a morte tão precoce, muitos anos depois, entre um suspiro da mãe e sua tia, que lhes segurava as mãos. Ficou por muito tempo sentindo saudades do irmão que não conhecia. Criava sempre uma história para este rosto que se transformava. Observando com mais atenção o menino, percebeu uma palidez tocante, quantas histórias poderia ter vivido, quantas marcas poderia ter sofrido… Chegou a pensar que ele poderia ser uma mula (transportando drogas), coisa comum nesse tempo sem lei, afastou o pensamento com as mãos em um gesto desesperado. Ela cogitou várias possibilidades, mas não perguntou nada. Pegaram o mesmo voo para Brasília, ao chegar cada um foi para suas salas de embarque. Ela apenas olhou em seus olhos e disse, tudo pode ficar bem, não sei, mas pode. Tocou em seus cabelos negros e disse adeus. Em Brasília, havia uma movimentação maior no aeroporto, homens de ternos, senhoras elegantes, rostos indiferentes, talvez, a dor alheia. Ela voltou aos seus pensamentos, o pai que estava morrendo, a aflição da mãe e dos irmãos. O pai era o porto seguro. Era o silêncio, a cantoria, as boas rizadas, a fantasia. Era o norte de todos por sua capacidade de ensinar os filhos à importância da liberdade. Ele a chamava de”Vinvim”, comparava-a a este pássaro pela delicadeza de ambos, pequenos, miúdos e tristes. Lembrou-se das prendas que o pai sempre trazia ao voltar das roças, uma pedrinha, uma pena de pássaro, coisas de tesouros de pai para filha. Era assim o amor. Suspira profundamente e as brincadeiras todas chegam a um fluxo de saudades antigas. A conexão demoraria apenas duas horas até Fortaleza, e em questão de pouco tempo Recife, palco de outras histórias juvenis. Chega à cidade em que o pai estava. Olharam-se tão generosamente, os anos distantes, as brigas por telefone, o perdão, o abraço único e forte. Mesmo na cama, as mãos e os braços estavam vigorosos. Não precisou de palavras. Havia a certeza da partida e do bem e do mal que cada um fez ao outo. Os irmãos, na sala ao lado, falavam baixinho para espantar as tristezas, contavam suas histórias, suas conquistas. Eles eram assim. Envelheceram e cada um com seus males da idade e suas receitas prescritas. Ela só sabia que o amor da família era maior que qualquer intriga que um dia os separaram. Ela os amava com suas durezas e certezas. Tudo se encerrou na madrugada. Ele amava alegria e o humor era a característica mais presente em sua vida. No velório, um bêbado veio fazer a festa e o riso tomou conta do lugar e o choro foi se dissipando. De repente, todos falavam sobre as aventuras de Francisco. E Antonino, cantiga de dor e tristeza, que tanto ele cantava, foi lembrada por todos. Ela voltou com a certeza de que Francisco ensinou os sonhos dos carneirinhos no céu aos segredos da floresta. O Norte a esperava.
por Mauro Nadvorny | 8 mar, 2021 | Crônica
Era batata. Todo dia, pouco depois das cinco e meia da tarde, a figura miúda, que parecia arrastar fados ardidos, chegava para acionar uma chave. O português de passos lentos iluminava as partes comuns da vila de casas e voltava para sua rotina triste.
As lâmpadas acesas vibravam o toque de recolher. Hora de parar a linha de passe (alívio para o goleiro, que já tinha tomado um saco de gols), guardar as bolas de gude e interromper a caçada aos grilos. Éramos exímios caçadores de grilos. O segredo era identificar o cri-cri dos bichinhos no mato, aproximar-se devagar e, zás!, agarrá-los. Na maioria das vezes, isso resultava na asfixia das pequenas vidas, mas, privilégio da infância, nunca assumimos o crime. De resto, a população de grilos era enorme e a devastação minúscula. Queríamos apenas sentir a vibração de patas e asas nas palmas das mãos e provar que, pelos poderes de Greyskull!, éramos poderosos.
Os adultos, classe média baixa, começavam a chegar do trabalho. O Menino não compreendia as cabeças baixas, os olhos melancólicos, os ombros caídos. Todos moídos. Era assim com o vendedor de margarina, o pequeno comerciante, o dentista, o câmera da TV Tupi. Todos se conheciam pelos nomes, trocavam amarguras e sonhos sentados debaixo de céus estrelados. Minha vila tinha essas intimidades, que os paredões de concreto da cidade embrutecida aniquilaram.
Para os Meninos, as noites nem sempre eram pacíficas. No meu caso, tomar a tabuada em véspera de prova, engolindo uma indesejadíssima sopa de abóbora, trauma quase insuperável, cheirava a filme de Roger Corman estrelado por Bóris Karloff. Em preto e branco, carregado no noir.
Ultrapassado o obstáculo aboboral, restava a esperança de dormir após as 21 horas. Concessão rara. Nesse horário se exibiam episódios de bangue-bangues. Cresci nutrido por Wyatt Earp, Bat Masterson e Paladino do Oeste. Como pós-graduação, histórias de suspense apresentadas por Hitchcock, ficção científica no Além da imaginação (sem efeitos especiais, apenas criatividade), rajadas de metralhadoras nos Intocáveis. Vocês não imaginam a excitação de assistir aquelas imagens para quem, até então, só tivera a companhia das ondas sonoras do rádio. Para aumentar a tensão, a corrente elétrica oscilava, a imagem sambava na horizontal e na vertical, enfrentando os botões de controle com a galhardia colonial do Jim das Selvas.
A vila não era apenas uma fileira de casas modestas, cercada por matagais, pedreira e uma solitária mangueira. Nela existia uma rede delicada de relações, que incluía moradores, leiteiros, padeiros, garrafeiros e ambulantes eventuais. A solidariedade entre aqueles iguais foi vital no momento trágico em que o coração do Grande resolveu implodir numa quarta-feira de cinzas. Os gritos de socorro do Menino atraíram de imediato a vizinhança e alguém tratou de chamar a assistência (ambulância das antigas). Em vão. Naquela hora de estranho vazio, de anestesia, de dor indescritível, uma vizinha fez as vezes de consoladora. Intimidade. A beleza do humano.
A especulação imobiliária, ganância criminosa que desfigurou o Rio, não chegou a demolir aquelas casas. Elas ainda existem. O matagal foi substituído por um paredão do Sesc Tijuca, a área das peladas é estacionamento de moradores, a entrada foi fechada por um portão metálico. O que não derreteu foi a memória de tempos mais amenos, mais pacíficos, que saíram da ribalta junto com as cadeiras de vime das conversas noturnas.
Antes de parir o Stanislaw Ponte Preta, Sérgio Porto escreveu crônicas primorosas, especialmente sobre a Copacabana de sua infância. Ainda vou dividir com vocês pelo menos uma delas. Bem, ele descreve a tristeza de ver sua casa demolida. Conservando o direito de ficar triste, conclui assim um de seus textos: “A gente sempre se sente um pouco mais alegre da alegria que teve”. Não vejo forma melhor de encerrar estas lembranças.
por Mauro Nadvorny | 6 mar, 2021 | Brasil, Comportamento, Política
Existem momentos na história onde não somos capazes de prever o futuro. Muitas empresas pagaram caro por isso, algumas devido a sua arrogância, outras devido a sua burrice mesmo.
São muitos exemplos desta falta de bom senso, ou como queiram chamar. Lembram das empresas de Máquinas de Escrever antes dos computadores? Antes disso mais longe no tempo, as empresas de transporte que utilizavam carruagens com a chegada dos veículos movidos a motor. E os fabricantes de filmes para máquinas de fotografia, de toca-discos, e por aí vai. Todos insistiram que seus negócios eram eternos.
A cegueira de muito empresários levou a ruína suas empresas e com elas o desemprego de milhares de trabalhadores. A história está recheada de exemplos e ainda assim até os dias de hoje, muita gente se recusa a aprender com o passado repetindo os mesmos erros.
O mundo hoje disponibiliza informações para todos. A Internet permitiu que qualquer ser humano, praticamente em qualquer ligar do planeta, acesse a rede para obter informações e ensinamentos que antes eram restritos a poucos. Hoje com um celular nas mãos e um acesso a rede, podemos explorar o mundo todo.
Quando falamos de pandemias, a maior delas a Gripe Espanhola, está lá para nos ensinar do que um vírus é capaz. Foram milhões de mortos, uma tragédia mundial com a qual quase, ou nada aprendemos. Repetimos os mesmos erros. Sabemos como devemos nos comportar, ainda assim, deixamos a desejar.
Aprendemos muito neste ano que passou. Temos conhecimento sobre o que enfrentamos, o que pode ser feito e o que não deve ser feito. Cada país fez suas apostas no enfrentamento e com isso temos clareza com relação ao que deu certo e ao que fracassou. Todos são unânimes em alguns aspectos.
Primeiro o óbvio que é o uso de máscaras, distanciamento social e higiene. Estas três regras ajudaram todos os países do mundo no combate ao Covid-19. Depois temos o Lockdown, o fechamento da atividade econômica com a população impedida de circular. Este meio se mostrou eficaz para reduzir o fator “R” (o número de novas infecções causadas por uma pessoa infectada), e consequentemente reduzir o número de novos doentes. Por último a aplicação das vacinas, a única maneira de prevenir a doença.
Em paralelo sabemos que não existe tratamento medicamentoso preventivo. Para os mais antigos, é como se tomar Vitamina C, prevenisse a gripe, como quiseram nos fazer crer no passado. Também sabemos os percentuais de casos que vão se tornar graves e, infelizmente o número dos que vão a óbito.
Todas estas informações permitem aos países que dispões de um comitê de crise, municiar as autoridades com o que deve ser feito, seja lançar mão do Lockdown, de aumentar o número de leitos de UTI, de disponibilizar respiradores e estoque de oxigênio, e obviamente a compra de vacinas.
A importância de vacinar a população no menor prazo de tempo possível é essencial para reduzir a circulação do vírus e as consequentes mutações. A ciência sabe que todo vírus se adapta. Sua mutação normalmente aumenta sua capacidade de driblar as defesas humanas se tornando mais letal. Quanto antes ele é combatido, menor o número de mutações. As novas mutações do Covid-19 fazem dele um vírus mais agressivo, mas infeccioso e que agora é capaz de atacar crianças também.
Como eu comecei escrevendo, houveram momentos na história em que decisões mal calculadas levaram a ruína de negócios centenários. Não foi diferente com o Covid-19. O número de mortos poderia ter sido menor em muitos países se tivessem tomado as medidas necessárias que levassem a um menor impacto causado pelo vírus. Felizmente, quase todos eles, a exceção do Brasil entre as grandes nações, aprenderam a lição e mudaram sua tática de enfrentamento da pandemia. Aprenderam com seus erros e corrigiram suas ações.
O que o mundo assiste hoje, e o que os brasileiros estão vivendo é o inicio da perda de controle e o colapso dos hospitais na sua capacidade de receber e tratar novos pacientes com a falta de UTIs. Os médicos já devem estar escolhendo quem vai morrer e quem vai ter uma chance de tratamento. A mesma coisa aconteceu na Itália no ano passado, mas is italianos aprenderam da pior maneira a não menosprezar o vírus e outros países não repetiram o mesmo erro.
Com a circulação livre do vírus devido a falta de vacinas, o consequente aumento de mutações pode tornar as vacinas existentes ineficazes no Brasil. Uma tragédia anunciada em um país onde não existe um comitê nacional de crise e o Ministro da Saúde é um milico que não sabe sequer como abrir um bandeide.
Se o Brasil não decretar um Lockdown nacional de pelo menos 3 semanas, se não aumentar muito o ritmo da vacinação, o país vai conhecer sua maior tragédia humana em tempos e paz de sua história. Uma carnificina de total responsabilidade de seu presidente, o único entre os países do G20 a não ter se vacinado e continuar negando a importância da vacinação.
por Mauro Nadvorny | 5 mar, 2021 | Brasil, Opinião, Política
“A Divina Comédia” integra as obras que descrevem o mundo, como a Bíblia, a Odisseia, Dom Quixote. Dante escreveu que estava perdido no meio da selva escura, e nós hoje estamos no meio da cidade escura, no meio de um país escuro que busca um norte, diante do inferno de mortes. Na primeira parte de “A Divina Comédia”, no sétimo círculo do Inferno, estão os violentos contra o próximo, os homicidas e tiranos. São os que não se arrependem de seus atos e por isso permanecem para sempre no reino de Lúcifer. Um exemplo histórico dos que são violentos com o próximo, e que não é ensinado nas escolas, foram os senhores da Casa Grande. Nossos antepassados foram responsáveis pela morte de escravos negros e índios. Chicotadas e castigos terríveis eram comuns nos 350 anos de escravidão no Brasil. Esse passado é uma sombra pesada sobre o hoje e o amanhã. Por isso, cada vez que ocorrem políticas populares com justiça social, irrompem os moralistas golpistas, expressão da podridão que une a corrupção com o ódio aos direitos do povo. Essa é a nossa sociedade patológica, talvez nossa maior tragédia que piorou na pandemia.
O País agora chega aos 260 mil mortos nessa primeira semana de março de 2021. É imperioso conhecer os que têm ajudado o vírus a se propagar, ao desprezarem o vírus, promovem aglomerações, não usam máscaras e desprezam as vacinas. O vírus mata e mata e não para de matar, cada vez mais, há 365 dias. Os que trabalham em saúde pública deviam comandar essa guerra contra o vírus, são os que falam e escrevem há um ano que se precisa de máximos cuidados. Os opositores das ciências, os negacionistas, facilitaram a propagação do vírus gerando um inferno.
Os cruéis paranoicos se imaginam perfeitos, projetam todo o mal nos demais, e eles se colocam acima do bem e do mal. Por isso, no mundo de Dante, eles são condenados ao Inferno. Ele conhecia bem o os violentos tiranos, pois foi obrigado a se exilar para não morrer e no exílio escreveu a “Divina Comédia”. A escrita foi sua forma de luta, sua capacidade criativa superou a crueldade e até hoje é lembrada.
A resistência à crueldade é difícil, é um desafio a todos, a cada um, pois não devemos ser cúmplices da política da morte, da necropolítica. Temos o dever, por dignidade, de ser a favor da vida, a favor da vacina já, a favor da máscara, a favor da higiene das mãos e do distanciamento. Em todos os países civilizados os governos têm obrigação de seguir os infectologistas e os profissionais da saúde pública com experiência e conhecimento. Entretanto, aqui tem sido diferente, um general da ativa foi designado ministro da Saúde e está perdido por não conhecer virologia, as vacinas e a saúde. Estamos sem rumo, com hospitais sobrecarregados, caminhamos na escuridão.
E há os que ainda não entendem por que nós brasileiros estamos com uma baixa autoestima. Estamos desanimados com os Poderes, em especial o Poder Executivo. Tentam criar um clima maníaco de alegria, os governantes não visitam os hospitais, fazem festas e nas fotos sorriem. A gratidão e os aplausos devem ser aos trabalhadores dos hospitais que são corajosos, e merecem o reconhecimento da sociedade. Recordo, mais uma vez, que Dante pôs no Inferno, entre outros, os violentos, os homicidas e os tiranos. Dante é divino/maravilhoso nos setecentos anos de sua morte (21/9/1321). No meio dos medos da escuridão, louvemos as luzes das artes, das ciências, e da medicina no amor a vida.
por Mauro Nadvorny | 5 mar, 2021 | Conto
Fui preso em um sábado de outubro, era tarde, quase noite.
Os primeiros cinco dias, fui mantido em uma solitária, cela sem janelas, não se via nada. Mesmo agarrado aos tubulões da grade, uma porta, o mundo lá fora era escuro.
O espaço era espremido, havia um colchão, solitário, no canto direito.
Cheiro de rato. Mantive minhas mãos sobre as grades, grudadas. Dormi um tanto, eu acho, em pé, com fome e cansado.
Ouvi gritos, fortes. Tortura! um preso, talvez em cela próxima. Vou ser o próximo
Tortura, tortura e morte! Durante todos os dias da minha prisão, fui tomado por essa ideia, de ser torturado até a morte. Seria torturado, fortemente torturado e depois, morto. Ou morreria nas sessões de tortura.
Havia poucos exemplos assim, dos relatos das prisões da ditadura. Todos, no dia da prisão, quase todos, eram bastante torturados, apenas o começo da história.
Ouvi passos, entre quase saudar a volta á vida e alimentar o medo.
Pouco antes, imerso no longo tempo da noite, longa noite, fechei os olhos e tentei recompor as horas da manhã do sábado, acho que ainda era a mesma jornada.
Eu estava no Centro Técnico da Aeronáutica, Vale do Paraíba. Lembro da aula de computação, ás nove, a de sempre, umas duas ou três horas depois de um café.
Imaginei o mundo mais longe, minha mãe, sempre tão terna, falava baixo. Desejei que ela não soubesse .
Rodando o filme, tela da memória; as três irmãs, cada uma na sua foto, bonitas, alinhadas, como a mãe dizia. Vi a namorada, linda, carinhosa. Saudade e tristeza. Depois, parentes e amigos, o povo dos meus caminhos.
Tanta gente, nesse mundo. Nunca mais vou ver ninguém
Lembrei da Celinha que sempre me dizia, o tom da advertência: cuidado, não se deixe ser preso. Se te pegarem, vão esmagar teus bagos, com alicate.
A porta se abriu, lenta. Dois homens se postavam na soleira. De repente, estava caminhando no meio dos dois
Longos corredores escuros, que leva à tortura e depois à morte. Por fim, a luz, um pouco de claridade. Consegui entender o significado da dupla.
O que ia atrás, estava fardado, soldado da aeronáutica, segurava uma arma, parecia pronto para atirar e era o mandado. O outro, o da frente, ao contrário da ordem convencional, era o que mandava, até ali. Descobri, muito tempo depois que era sargento, sargento Martins.
Final de todos os corredores. Uma porta, aqui chego ao fim do meu destino, minha passagem;
Sargento bateu, pediu licença e entrou.
Sentado em uma cadeira, quase poltrona e com mesa de escritório, imaginei meu algoz, um Major. Deste, nunca soube o nome.
Disse que eu eu sentasse. Sobre a mesa um sanduiche, meio desembrulhado, ainda com os aromas de coisa nova
Eu estava com muita fome. Fome, cansaço e medo.
Ele me ofereceu. Fome? Pode pegar;
Responde que não, segurando angustia.
Obrigado, eu estou sem fome.
Foi meu primeiro ato de resistência, em tantos que precisei ter nos muitos dias da prisão e depois, na minha vida lá fora.
por Mauro Nadvorny | 5 mar, 2021 | Conto
Uma luz pareceu brotar da penumbra, no fundo do quarto. Reconheci o meu irmão. Eu estava na parte clara da casa, uma pequena sala. Ele estampava um olhar radiante e sorria para mim. De repente, vi que a luz saia do seu rosto, que estava lindo, corado e tão bem delineado que parecia uma imagem saída de uma pintura. Pensei que ele veio para me redimir, aplacar minha culpa, porque não havia nenhum sinal, nenhuma cicatriz, na sua face, marca daquele passado triste e miserável.
Mas logo ele alcançou a parte clara da casa e o rosto foi se transformando e revelando o profundo talho, que começava rente ao olho direito e escorria torto até o queixo ; lembrança da madrugada terrível, que eu nunca poderia esquecer.
Acordei assustada! Não havia ninguém no quarto. Por uns minutos chamei por ele , mas a casa estava silenciosa e vazia. Eu sabia, a cena era sempre a mesma. O sonho se desfaz e trás de volta o filme de uma infância distante que me atormenta e que me acompanha sempre, todos os dias da minha vida! Rápido, liguei para a casa dele! Como sempre fazia “Fique tranquila” , ele me disse “fique sempre com Deus! está tudo bem e assim vai continuar. Está tudo bem!” “E nunca se esqueça, minha irmãzinha, eu gosto muito de você!”
Da janela do carro eu ouvia o burburinho alegre daquela cidade clara e encantadora, distante em tudo da pequena Maribela da minha infância . O sol iluminava as flores dos jardins, era um bonito dia do início da primavera a caminho do hospital eu pensava a minha agenda, as consultas, uma pequena cirurgia, um pouco da rotina de sempre. “Vai ser um dia bom”, pensei, mirando sonolenta, a claridade daquela linda manhã.
Eu gostava de cuidar das pessoas, da saúde e da alma, como minha mãe sempre me desejou, e eram muitas, e eram pobres e quase sempre preferiam falar seus medos e suas esperanças, pelos língua eloquente dos olhos. Dentro do carro parado, me dei conta dos quinze minutos de cochilo que o relógio me doava.
Fechei os olhos e projetei as horas doces do fim da tarde e por fim a noite tranquila e até divertida, ao lado do meu homem, “aquele que cicatriza minhas feridas e me faz gostar da vida e do prazer de amar”, eu me repeti, gostosamente ! E me regozijava, imaginando a gente se abraçando, passeando pelas ruas, olhando as vitrines e as pessoas e, por fim, indo para a minha casa, que era onde curtíamos as nossas mais ternas cumplicidades.
“Maribela nunca mais”, eu pensei, quase gritando, abafando as imagens do terror com aquelas confortáveis lembranças de agora. Mas o filme de imagens tristes e de miséria, continua vivo na minha mente e me machuca forte, uma ferida de porta escancarada.
MARIBELA, INFÂNCIA
Era uma casa de chão batido, e o teto era de sapé, Minha irmã, com nove anos, eu com oito e o irmão, que tinha completado seis , éramos as únicas pessoas dentro do casebre, fazia três semanas! Foram dias de muita fome e desolação. Chegamos a passar dois dias inteiros sem comer.
No terceiro dia apelamos para o vizinho.
Era um homem que nos assustava, rude, calado, bravo. Ganhamos, cada um, uma caneca de café com um pedaço de pão. A Generosidade veio com uma cobrança; tínhamos que preparar as paredes da sua latrina, com bambu cortado do fundo do terreno, que era para a que ele pudesse usar sua fossa onde fazia as necessidades, – defecava e urinava, escondido do olhar do mundo.
Meu irmão, nos seus seis curtos anos, já tinha feito aquele serviço algumas vezes. A primeira , ele sempre lembrava, mas não por palavras, era porque a lágrima sempre vinha e a raiva fazia ele cerrar os punhos. Nossa vó. mãe da mãe, obrigou que ele cortasse os bambus e construísse a latrina, a privada, e como não gostou do serviço , exigiu que ele derrubasse tudo e fizesse uma nova. Suas mãos sangravam e ela, brava com o choro, aplicou-lhe uma surra. Depois, pediu que ele lavasse as mãos, colocou uma folha arrancada do mato que ela dizia que era para fechar as feridas e enrolou cada uma das suas mãos em panos sujos, que disse que era para estancar o sangue.
Rápido, os outros vizinhos se deram conta de que podiam usar nossas habilidades para também construírem as paredes das suas privadas. Assim, por muitos dias conseguimos garantir nosso café acompanhado do pão, para aplacar a fome, que doía fundo Era o único recurso que os moradores tinham na época, para terem uma privada, uma fossa e mais as paredes de bambu; e para nós, passou a ser a garantia daquela ração da manhã, café e pão, saudada pelos nossos raquíticos corpos.
A gente pensava na mãe, com muita saudade, chorava de lembrar dela “Ela foi atrás do macho”, dizia o vizinho bravo , explicando que esse macho era oque ela chamava de namorado e que até andou passeando com ela pelas ruas da nossa vila. Um dia até nos levou junto.
“A mãe disse que foi procurar ajuda, comida e emprego em uma cidade grande”, Minha irmâ ficou brava com os comentários do velho . Ela se percebia como a nova dona da casa, meio mãe meio irmã “Lá ela tem muito amigo de verdade”, ela disse, “e até gente da nossa família”. olhando para o homem, severa e zangada, cuidando da imagem da mãe de quem ela gostava muito E todo dia a gente sonhava com ela, a nossa mãe que tinha ido embora, e sonhava que ela ia aparecer com sacolas cheias de comida e até, quem sabe , doces e balas, e que ia nos abraçar muito e que ia por a gente eu seu colo, passar a mão em nossos cabelos, alisar carinhosamente nossos rostos, como às vezes lembrava de fazer; eram momentos em que a gente esquecia a vida miserável e se deixava embalar por esses afagos, que nos faziam sonhar e dormir.
A mãe garantiu que voltava logo, mas os dias passavam, formavam semanas e a gente continuava sozinho. Todo fim de tarde meu irmão ficava na frente do casebre, mirando o por do sol quase com febre de imaginar que ela ia apontar lá longe.
Para cortar e recolher os bambus , nós tínhamos que atravessar um pequeno córrego que passava no fundo das casas . Era um mutirão de trabalho árduo. Meu irmão, que mal se avistava, corpo franzino no meio do bambuzal , cortava um a um, e passava para a minha irmã, que ficava com o corpo no meio do córrego, com a roupa molhada e com os pés mergulhados na lama Depois ela passava pra mim,: “Segura logo” ela falava sofrido, meio que chorando do desconforto da roupa molhada e dos pés mergulhados na lama. Eu catava os bambus cortados e começava a raspar e a preparar, depois ia juntando em feixes .No final do serviço, a fome voltava a bater forte e o estômago reclamava barulhento. Restava dormir logo e sonhar com a manhã do outro dia! Ah! O dia começava sempre, e já fazia muitos dias, com a caneca de café e com um pedaço de pão! As canecas eram todas iguais, de latão, amassadas, velhas e sem asas , feitas pelos homens das casas da vila, que sempre tinham uma pequena oficina no fundo daqueles casebres.
Dois dias de muita chuva, em que não aparecia ninguém para pedir o nosso serviço. Voltamos ao estado da fome que só não foi completo porque a vó resolveu praticar uma bondade –foi isso que ela disse- e nos deu a ração da manhã, de todos os dias, que também servia de almoço e janta, a caneca de café e o pão.
Preocupados porque ninguém batia em nossa porta, saímos para buscar trabalho e comida, e demos conta de que ninguém precisava mais da gente. Todas as casas da vila já tinham suas fossas com as paredes de bambu. Passamos a pedir outros serviços: limpar a casa , cortar o mato, carregar tijolo.
As pessoas começaram a olhar feio. De repente, pedimos que nos dessem alguma comida. Elas se irritaram e passaram a nos xingar e até ameaçar bater, empulhando vassouras. Foi então que voltamos pra casa chorando, de fome, de raiva e de muita tristeza! “Cadê a mãe?” Perguntou o irmão, meu irmãozinho de seis anos, com um olhar molhado. “Eu quero a mãe” ele dizia chorando e apertando o próprio rosto. “Ela abandonou a gente” disse a minha irmã, com ar de muita raiva e sem olhar para ele De repente, ele pareceu indiferente e resignado. Deitou-se no colchão de palha estendido no chão, espaço que a gente dividia para dormir, folear revistas velhas e até para comer , quando havia o que. Ele fechou os olhos, encostou a barriga na parede e pareceu dormir. Nós duas também deitamos
A noite passava e eu, de olhos fechados, não consegui dormir! Percebi que um dos dois se movimentava forte: Com um dos olhos meio aberto, notei que o irmão se apoiava na parede e tentava se levantar, com muito cuidado, para que a gente não acordasse.
Seu corpinho era assustadoramente magro e, por uns poucos segundos, eu fiquei como muita pena, pensando o duro trabalho que tantas vezes ele fazia em seu seis anos de vida. A pena foi trocada pela curiosidade e a fome me bateu forte: vi que ele se levantou e caminhou, com muito cuidado, na direção do armário velho, o único que tinha na casa para guardar comida.
Puxou uma cadeira, subiu em seu assento e tratou de alcançar uma lata posta sobre o armário, que minha mãe usava para guardar farinha. Lembrei do medo que ele tinha de apanhar da minha irmã e também de mim, por nos desobedecer. E mais uma vez, o sentimento de pena foi esquecido. Escondida e silenciosa vi ele abrir a lata e retirar de lá, dois pedaços de pão, duros e envelhecidos.
Avancei sobre a cadeira e fiz ele descer, muito assustado. Retirei um pão de dentro da boca dele e outro da mão. A fome fez ele esquecer o medo; reagiu, tentando tomar de volta! Surpresa com a reação, eu cravei minha unha no rosto dele, muito forte e fiz minha mão descer sobre seu rosto. O sangue correu forte sobre o rosto e depois alcançou o pescoço Minha irmã apareceu na nossa frente e, vendo o sangue começou a chorar, desesperada!
Dois pedações de pão, resto, única coisa que minha mãe tinha deixado e uma profunda cicatriz no rosto daquele menininho, meu irmão de seis anos! Madrugada para não esquecer . E se quisesse, não ia dar, que a porta do coração ficou aberta . escancarada, impossível de ser fechada. E doía, sempre. Era a minha cicatriz: a culpa que se misturava com as dores daqueles anos, tristes memorias da nossa infância, em Maribella!
Acordo assustada, os braços espalhados sobre o banco do carro. Ao meu lado, encostado à porta do veículo, o vigia do estacionamento, meio sorridente, meio sem jeito de ter me acordado: “Doutora, a senhora me desculpe, ouvi seu grito e percebi que estava dormindo, acho que teve um pesadelo! Abri a porta, agradeci e caminhei para a recepção do Hospital
Pronto, eu estava de volta para a parte confortável da minha vida O celular tocou, era o meu irmão, que morava com sua esposa a bons quilômetros da minha cidade
“ Um sentimento forte, que bateu agora, me fez te ligar!”, ele disse.
E repetiu a sua santa terapia de sempre, que me recompunha por algumas boas horas “Fique tranquila” , fique sempre com Deus” “está tudo bem e assim vai continuar. Está tudo bem! “E nunca se esqueça, que eu gosto muito de você!”