por Mauro Nadvorny | 20 mar, 2021 | Artigo, Brasil, Opinião
Lockdown é a palavra inglesa para determinar confinamento, muito utilizada nos dias de hoje com o Covid-19. Normalmente é uma medida governamental que obriga os cidadãos a permanecerem em suas casas por um determinado período de tempo. Cada um faz as suas regras, mas na maioria dos casos é permitido sair próximo da residência para a compra de comida e remédios.
Esta medida drástica continua sendo utilizada nos países onde o pandemia continua com um alto número de novos infectados por dia. No mundo inteiro se mede o fator “R”, que nada mais é do que o número de pessoas que são infectadas a partir de um único doente. Todos buscam estar abaixo de 1, o que significa que um doente infecta menos de uma pessoa, ou em outras palavras, que a propagação está controlada e decrescente. Nos países onde o fator “R” permanece acima de 1, o número de casos continua subindo dia a dia. Quanto maior, mais o vírus se espalha.
Quando as pessoas ficam confinadas, a probabilidade de novos infectados é cortada drasticamente. Nas primeiras duas semanas os números ainda parecem altos, mas são resultados das infecções passadas. Na terceira semana os números caem e a partir daí, também o fator “R”. Então começa a pressão pela reabertura e aí está o problema. É preciso abrir, mas como?
A necessidade do uso da máscara não desaparece, e o distanciamento social continua sendo obrigatório, assim como lavar as mãos com sabão ou álcool gel. Inicialmente começam a abrir os lugares que não recebem público. Depois os locais onde a entrada de público pode ser controlada. O transporte público funciona permitido para apenas 50% de ocupação. E assim gradativamente, monitorando os resultados semanalmente, mais e mais negócios vão reabrindo e consequentemente a economia volta a girar.
O que vira o jogo completamente é a vacina. Vacinados não transmitem o vírus e portanto podem ir a qualquer lugar. Quanto mais habitantes vacinados, menor vai ficando o fator “R”, menos doentes graves, menos mortes e consequentemente mais abertura.
Neste momento, enquanto em Israel a vida começa a ter ares de normalidade, onde 55% da população já recebeu a primeira dose e 48% a segunda, os índices são animadores. O número de novos contaminados dia vai caindo, da mesma forma o número de casos graves, e consequentemente a mortalidade. O fator “R” está em 0,72 e diminuindo a cada semana. Parece que a situação está controlada e a batalha sendo vencida.
Na Europa a situação volta a se agravar com a terceira onda chegando forte. Vários países estão decretando Lockdown, a medida inicial mais importante e a única maneira de impedir a deterioração do sistema de saúde. Sem isso, é o inferno como o que estamos vendo agora no Brasil.
A situação brasileira é caótica desde o inicio com a falta de um Gabinete de Gerenciamento de Crise. Todos os países criaram os seus e as medidas de combate ao Covid-19 levam em conta as recomendações feitas pelo gabinete formado normalmente por membros do ministério da saúde, epidemiologistas, economistas e cientistas ligados a saúde.
Quando o presidente do país é um negacionista, como no caso brasileiro, o combate a pandemia fica extremamente complicado. Aqui, são os governadores e prefeitos que precisam tomar as medidas necessárias. Elas são tomadas individualmente e acabam, em muitos casos, sendo inócuas. A população perde a credibilidade nos seus governantes e a situação vai se deteriorando. Toda a cadeia de medidas de combate a pandemia ficam comprometidas sem que exista uma coordenação nacional. Não há como vencer esta guerra desta maneira. O confinamento não quebra a economia, a falta de um gestor, sim.
Com hospitais sem mais lugares para internar novos doentes, os brasileiros começam a morrer em casa por falta de UTIs. Agora, mesmo os que tiverem a sorte de conseguir uma internação, vão morrer pela falta de medicamentos para intubar, sufocados pela falta de ar. O Brasil se transformou em uma Manaus.
A propagação não para de subir e o número de mortos por dia hoje no país vai batendo novos recordes. Uma coisa que todos sabem é que não existe milagre para acabar com este vírus, pelo contrário, novas mutações vão acontecendo e sempre existe a chance de uma delas se tornar imune as vacinas. Se isto acontecer, o mundo vai fechar as portas e janelas para o Brasil.
Se fosse uma ferrovia, o trem descarrilou. Agora é preciso arrumar os trilhos e recolocar a locomotiva de volta no lugar. O problema é que não existe um responsável para o que deve ser feito, faltam peças sobressalentes, meios para chegar ao local, engenheiros e trabalhadores para realizarem o serviço. Todos sabiam que iria acontecer, mas ninguém assumiu a responsabilidade para evitar.
Não quero ser o arauto das más notícias, mas a situação ainda vai piorar muito antes de melhorar um pouco. E com este presidente aí, chamá-lo de genocida, em breve será um eufemismo.
por Mauro Nadvorny | 20 mar, 2021 | Crônica
Brutalidade jardim é uma frase de Oswald de Andrade sobre o Brasil, no poema “Indiferença”. Essa expressão é um paradoxo, pela oposição entre as palavras brutalidade e jardim. Paradoxo é uma figura de pensamento baseada na contradição, sem nexo, mas expõe uma ideia coerente baseada numa verdade. É uma palavra de origem grega, em que “para” é contrário, oposto, e “doxa” é opinião. Paradoxo é opinião contrária, importante em psicologia, filosofia, linguística, matemática, retórica e física. Paradoxo é central na psicanálise, pois nada mais paradoxal que o inconsciente, onde os opostos, não se excluem.
Brutalidade jardim é o jardim, a leveza, flores, plantas, árvores, que contrasta com o peso da brutalidade. A palavra “bruto” tem vários sentidos, como crueldade, estupidez, o oposto da delicadeza de um jardim. Portanto, há mais de um século, o país foi definido, e agora vai sendo aprendido. Hoje há muitas perguntas perplexas diante do maior trauma de nossa História republicana. O governo não seguiu as recomendações do mundo todo contra a pandemia. Cúmplice do vírus que infecta milhões, chegará neste mês a 300 mil mortos. Os poderes e parte do povo colaboraram com aglomerações. Muito do que ocorre hoje é produto dos contágios em festas, praia e carnaval. O presidente promoveu comícios sem máscara, desprezou o covid 19 e agora se sente injustiçado ao ser condenado. Qual é mesmo a história de uma família tirânica, sem planos construtivos para o País? Os Poderes, armados ou não, estão indiferentes com a maldade sofrida pelo povo? Os hospitais estão colapsados, diminuem até os medicamentos essenciais. O Brasil vem sendo chamado no exterior de cemitério do mundo.
Brutalidade jardim foi retomada pelo poeta Torquato Neto na Tropicália com o poema “Geleia Geral”, musicado por Gilberto Gil. Os últimos quatro versos são: “Alguém que chora por mim/Um carnaval de verdade/Hospitaleira verdade/ Brutalidade jardim”. O País viveu a escravidão durante 350 anos, à ditadura militar de 1964-85. Ainda é um verdadeiro inferno a brutalidade contra os negros e os índios, e a crescente desigualdade social.
No sexto círculo do Inferno de “A Divina Comédia” Dante escreveu: “Mais que saber, me é grato duvidar”. O duvidar aqui é a expressão da pergunta simbolizada num ponto de interrogação no final da frase. Há gente que despreza a interrogação, vive da certeza, frio, sem empatia diante das mortes, ironiza os choros dos enlutados.
Brutalidade jardim é uma definição deste país, onde os poderes negacionistas atacam as ciências e são contra a melhor medicina. Até aqui não houve uma programa de saúde na pandemia que, realmente, priorizasse as vacinas. Pergunto: onde estão as forças de segurança na guerra contra o vírus, que já matou várias vezes o que todas as guerras da nossa História mataram? O Brasil elegeu um líder com impulsos destrutivos, e a crueldade anunciada no elogio à tortura e ao assassinato de trinta mil.
Brutalidade jardim poderia se transformar em um jardim do Burle Marx, quando foi o país do futuro. O país jardim é um desejo, o sonho de uma democracia social, um país que priorize a vida e a natureza. O sonho pode ser um compromisso no luto de hoje, na luta pela nossa humanidade amanhã.
por Mauro Nadvorny | 16 mar, 2021 | Crônica
Comentei recentemente uma grave distorção das chamadas questões identitárias. Uma editora holandesa se interessou em publicar no país uma coletânea da jovem poetisa negra norte-americana Amanda Gorman. Marieke Rijneveld, respeitada romancista local, vencedora do Booker Prize, foi convidada para fazer a tradução. Janice Deul, ativista antirracista, bombardeou a escolha e, usando uma alegação típica de setores equivocados do antirracismo, sugeriu trocar Marieke por uma tradutora negra. Como se a cor da pele fosse atestado de excelência literária.
A melhor crítica à atitude de Janice veio do escritor angolano João Melo: “Uma patetice, que reforça o racismo antinegro. A polêmica é uma caricatura grotesca do antirracismo, enfraquecendo a luta contra todas e quaisquer formas de discriminação com base na cor da pele”. O caso me lembrou a obscena censura que a cantora Fabiana Cozza sofreu, em 2018, ao ser convidada para interpretar Ivone Lara numa peça de teatro. Foi “acusada”, por personalidades do movimento negro que perderam a razão, de ser “muito clara” para o papel. Curiosamente, Fabiana, grande amiga de dona Ivone, tinha condições de dar cores vivas e íntimas à personagem. Sem passar pelo teste da melanina.
A lógica estapafúrdia da preferência melanínica contamina a luta contra a discriminação racial. Como buscar alianças, se vigora o veto pela cor da pele? Será que não se aprendeu nada com a História? A emancipação dos oprimidos será, necessariamente, obra dos próprios oprimidos. É verdade. Isso, no entanto, não significa ignorar políticas de alianças. Brancos norte-americanos, com bela participação judaica, foram extremamente importantes na conquista de direitos civis para os negros nos Estados Unidos. Joe Slovo, judeu lituano, militante comunista, foi assessor de Nelson Mandela.
Na área artística, há exemplos inspiradores de superação das barreiras de cor e valorização da cultura. Paul Robeson, extraordinário cantor baixo-barítono, negro, tinha no repertório o Hino dos Partisans, cantado em ídish perfeito. Joshua Nelson, negro, acompanha o grupo Klezmatics numa inesquecível interpretação de Shnirele Perele, também em ídish. Em New York, o Pessach judaico, que lembra a libertação de escravos hebreus do Egito, é celebrado em várias comunidades por negros e judeus, integrados pelo desejo comum de liberdade. Não faz muito, o musicólogo Henry Sapoznik desenterrou uma história muito interessante, que resumo em seguida.
No período entre as duas guerras mundiais do século passado, o bairro do Harlem, em New York, começou a receber um fluxo crescente de negros, fugidos das perseguições do sul dos Estados Unidos. Originalmente judaico, o bairro passou por uma experiência de integração inédita na cidade. Este contato resultou na criação de várias sinagogas por negros. Surgiram cantores litúrgicos negros (hazanim), que cantavam não apenas as orações em hebraico mas, com o tempo, ampliaram o repertório para canções em ídish. Sem perder suas raízes culturais, incorporaram novas modalidades de vida social. Sapoznik recuperou um disco de 1923, com o cantor litúrgico negro Thomas LaRue. Conhecido como der shvartser hazan (o cantor litúrgico negro), atuava no então vibrante teatro ídish e seu sotaque era espantosamente fiel às origens europeias do idioma.
Ainda na área artística, é quase inevitável lembrar de Bruno Ganz. O grande ator alemão interpretou Hitler no filme A queda. Para entrar no personagem, estudou o sotaque da região austríaca onde nasceu Adolf. O resultado foi impressionante, sofisticado, aterrador, e entrou para a história do cinema. Ganz jamais foi nazista. Usando a mesma lógica que baniu Fabiana e Marieke, só um nazista raiz poderia interpretar o chefão nacional-socialista.
A luta contra todas as discriminações, que é também a minha, não merece alguns espiroquetas que a descaracterizam e jogam no gueto.
Abraço. E coragem.
por Mauro Nadvorny | 13 mar, 2021 | Artigo, Brasil, Comportamento
Foi uma semana de boas e má notícias. A boa é que Fachin decidiu anular todas as condenações de Lula. Cinco anos depois, ele teria se convencido que Curitiba não seria o fórum correto para julgar o ex-presidente. A má é que o Brasil vai quebrando recordes de mortes pelo Covid dia a dia.
Quase tivemos outra boa notícia se o STF tivesse concluído pela suspeição de Moro para julgar Lula, não fosse um pedido de vistas. Não obstante as provas contundentes de que Moro perseguiu Lula em conluio com os promotores da Lava a Jato, o julgamento está empatado.
Também foi notícia a viagem a Israel de uma delegação brasileira para trazer na bagagem um spray milagroso que iria curar todos os doentes com Covid. Um verdadeiro desperdício de dinheiro público, mas quem está contando?
Da decisão de Fachin sobram interpretações, mas o fato é que Lula hoje está livre para concorrer nas eleições de 2022. Fez um discurso de estadista que pode ser reconhecido como de lançamento da campanha. Falou por uma hora e meia o que Bolsonaro não é capaz de falar em 3 minutos com cola na mão.
O problema é que as acusações contra Lula ainda existem. Elas vão ser transferidas para Brasília e teoricamente se aceitas pelos magistrados, darão inicio ao processo do zero. A lógica diz que não existem provas, apenas convicções e por isso os processos podem ser extintos ainda na inicial, mas de bunda de nenê e cabeça de juiz, vocês sabem, né?
Agora Fachin decidiu levar sua decisão monocrática, para ser confirmada em plenário. Pode-se esperar pela confirmação, ou não, e neste caso Lula volta a ter sua candidatura impedida, tudo permanece como estava. O Brasil é uma grande novela mexicana. Não perca os próximos capítulos.
O número de mortos já passa de 2000 ao dia e tudo o que este governo consegue pensar é em paliativos e jogar a responsabilidade no colo de prefeitos e governadores. Não adquire vacinas e menospreza onde começam a fazer uso do Lockdawn. Em resumo, não ajudam e ainda atrapalham como podem.
No julgamento de Moro, Gilmar Mendes sentou o sarrafo. Deu nome aos bois e disse o que todos nós já sabemos há muito tempo. Citou as conversas entre os procuradores e o juiz e como tudo foi combinado para concretizar o desejo deles em condenar Lula a qualquer preço. Nada era novidade, mas escutamos um “isto é gravíssimo” de parte de Cármen Lúcia.
O novato da turma, Nunes Marques, pediu vistas. Mais um que não lê notícias e vive em outro planeta. Desconhece o processo e quer se inteirar do assunto. Vá lá que seja, desde que não leva meses ou anos para isso.
Da turma de turistas brasileiros que chegaram em Israel, algumas coisas ficaram claras. A primeira é de que tiveram de usar máscaras em todos os momentos em que estiveram reunidos com autoridades israelenses. Aqui ninguém estava a fim de arriscar uma nova cepa de Covid trazida por eles. Entre um encontro e outro, ficaram confinados no hotel.
Com relação ao tal remédio milagroso, levaram uma invertida humilhante. A reunião aconteceu no hotel. Foram informados do que poderiam ter lido nos jornais, ou respondido em um encontro por Zoom, que o tal medicamento ainda não começou a ser testado de fato, portanto ele não só não existe, como ainda vai levar muito tempo até que possa vir a ser ministrado em pacientes. Mas também receberam uma lição de como prevenir o Covid: vacina, vacina e vacina!
Para não saírem de mãos abanando, teriam assinado um protocolo de intenções para quando o remédio chegue na fase 2 e 3, o Brasil seja um dos lugares onde possa ser testado. Tipo um prêmio de consolação. Por enquanto a família miliciana vai precisar se contentar com spray de Lança-pefume. Não cura o Covid, mas dá um barato por alguns minutos para esquecer esta presepada.
Uma semana interessante que deixa um gosto amargo pelo aumento do número de vítimas da pandemia no Brasil.
por Mauro Nadvorny | 13 mar, 2021 | Crônica
Nas águas de março há lágrimas pelos mortos na pandemia. Para cada morto tocam sinos silenciosos, ainda assim os frios, indiferentes, não se tocam. A nova guerra que o país e o mundo enfrentam é contra os vírus e a vitória vai tardar, mas chegará. Tem países que avançaram mais, vacinaram cedo, já outros seguem lentos, com pouca vacinação, poucas medidas profiláticas. O ser humano leva tempo para confiar nas ciências, muitos a negam, desprezam o conhecimento. Há um sentimento de apatia diante da crueldade, uma das dimensões da pulsão de morte. Outro aspecto da poderosa pulsão são as mortificações, expressa em lamentos, são os perseguidos pelos sofrimentos. Também há os que negam a morte, festejam e depois morrem por covid como contou uma mãe sobre a morte do seu filho.
O conhecido cientista Miguel Nicolelis disse à “El País” no dia 04/03/21: “O país está entrando numa guerra explícita e podemos ter a maior catástrofe humanitária do século XXI”. Faz a previsão que podem morrer de duas a três mil pessoas por dia e isso porque em 2020 o governo brasileiro não comprou uma só vacina! Já o fundador da Anvisa, Dr. Gonzalo Vecina Neto, médico sanitarista e ex-secretário Nacional de Vigilância Sanitária, afirmou que se o Brasil tivesse vacina, o Sistema Único de Saúde poderia imunizar até 60 milhões de pessoas por mês. Entretanto, nada disso ocorre, o sistema de saúde do país colapsou.
No meio da brutalidade brasileira, ainda se abrem tempos de delicadeza. Os trabalhadores da saúde hoje arriscam suas vidas para salvar vidas, são os novos heróis, eles estão na linha de frente. Não é preciso mais tanques, metralhadoras, aviões/portaviões. Os inimigos hoje são os vírus e contra eles o país precisa de vacinas já. Tem outras armas essenciais para se evitar as mortes, que os médicos competentes do mundo defendem: máscaras, distanciamento, higiene das mãos. Essas são as recomendações de todos infectologistas, e epidemiologistas. O país durante um ano de pandemia quase não seguiu as ciências, ao contrário.
O Presidente e seguidores não usaram máscaras, desprezaram as vacinas e se aglomeraram. São os aliados do vírus porque estimularam sua propagação, com condutas de descaso dos conhecimentos mundiais de combate ao vírus. Foi uma política de morte que multiplicou as mortes.
O governo devia ter comprado setenta milhões de vacinas no ano passado, mas desprezou a pandemia, e essa atitude é definida, pelos especialistas, como sendo fatal. O Presidente várias vezes a debochou dos que choram por seus mortos chamando de maricas, de até quando vamos chorar? Já as poderosas Forças de Segurança silenciaram diante da nova guerra, assim como as associações da saúde. O Brasil, segundo a Organização Mundial da Saúde, vive uma tragédia que nessa última semana chegou a onze mil novecentos e trinta e cinco mortos. É o país que hoje mais morre gente por covid e assim podemos chegar a trezentos mil mortos em menos de três semanas.
Para preservar a humanidade, os mortos precisam ser lembrados, os sinos silenciosos devem tocar. Os heróis hoje na guerra, não são os militares, os heróis são os trabalhadores da saúde. E convém expressar gratidão aos que praticam o amor e não o ódio.
P.S. O manifesto “Vida acima de tudo” CARTA ABERTA À HUMANIDADE é assinado por: Chico Buarque de Holanda, Dom Mauro Morelli, Leonardo Boff e muitos milhares mais, escreveram que o Brasil é hoje uma câmara de gás a céu aberto.
por Mauro Nadvorny | 12 mar, 2021 | Artigo, Brasil, Comportamento
Março se inicia com a impressão marcante de que após atravessar a selva escura de 2020, aportei num cenário distópico de Blade Runner, na porta de um cinema decadente onde se vê em letras de Neon: “Vós Que Aqui Entrais, Abandonais Todas as Esperanças”. Não paguei pra ver esse filme. Não foi por meu voto que esse Ares do Rio das Pedras, com seu plano de matança, destruição e sua saciedade irredimível por cadáveres, nos aterroriza. Mas estamos numa democracia (dizem) e pagar pelas escolhas dos outros é risco que se corre. Ainda que risco de vida, como é o caso.
A morte paira sobre nós. Não estou com cabeça e saúde para filosofar sobre a Indesejadas das Gentes, só digo o lugar comum, ser ela a nossa única certeza. Em tempos normais tentamos não pensar nela, vendo-a, quando muito, como possibilidade de um futuro incerto. Como disse Heidegger: ”Algum dia se morre, mas por enquanto não”. Ate nos permitíamos zombar dela. Minha mãe, ao ver a imagem da capela feita de ossos em Évora e a inscrição: ”Nós que Aqui Estamos Por vós Esperamos”, achou um desaforo e respondeu para até os mortos ouvirem: ”Eles que esperem pela puta que os pariu!”. Não há mais espaço para isso, até esses gracejos nos foram tirados. Porque a morte está presente. Terrivelmente presente. Não há um só dia que eu não dê condolências a alguém pela perda de um ente querido ou que me debata com meu ateísmo enviando preces que não sei se serão ouvidas pela melhora de uma pessoa.
Foi pensando nisso, nesse jogo que já não há, de se esconder e driblar o inevitável, que me veio a memória o caso de uma aeromoça que aconteceu há décadas atrás. Ela ficou presa no transito, se atrasando para o voo de sua companhia, sendo substituída por outra comissária. Era um voo rotineiro, entre NY-Paris, levando a bordo entre outros passageiros um grupo grande de adolescentes , acompanhados de alguns professores, que iriam comemorar a formatura da High School na capital francesa. Era o voo TWA800, no ano de 1996. O avião explodiu na altura de Long Island, levando a morte 230 pessoas. Três anos depois, em 1999, essa mesma aeromoça estava no Parque Nacional de Bwindi, em Uganda, para observar os gorilas. Nesse mesmo dia o parque foi invadido por 150 rebeldes, armados de porretes e facões. Separaram os estrangeiros em duas filas: numa, os que falavam inglês, na outra os que não falavam. Sem entender o que acontecia, ela se postou na fila dos anglófonos. Até ver o homem que estava a sua frente ser trucidado a porretadas. Em um átimo de segundo compreendeu que falar inglês não era um passaporte para a vida e quando já ia ser executada começou a falar em francês e mostrou sua identidade suíça. Foi poupada. O mesmo não se pode dizer dos quatro britânicos, dos dois norte americanos e dos dois neozelandeses que estavam nesse evento. O fato é que essa driblou o encontro com a tesoura da fiandeira Átropos por duas vezes. Mas o jogo vai sendo jogado e uma hora a morte leva a melhor.
Toda essa história da aeromoça (da qual não sei sequer o nome, por preguiça em entrar em acervos jornalísticos, mas garanto que é real, inclusive porque tenho vivo na memória o comentário de um amigo quando li a matéria pra ele: ”Nossa, essa mulher devia ser uma pessoa insuportável, nem a morte quis”) me lembrou da minha história favorita do período colonial. E sei que não estou sozinha nessa, porque quem na escola ouviu o nome do sujeito do enredo e sua triste sina, e não gargalhou, brasileiro não é.
Primeiramente, não há como falar da formação do Brasil sem citar a Companhia de Jesus. Nascida da visão política e militar do basco Ignácio de Loyola, possuía como objetivo principal a realização das tarefas definidas pela Contrarreforma: Recuperar os fiéis perdidos para o Protestantismo e converter os “bárbaros”. Sua função sempre foi apostólica, desde a sua fundação em 1540. Eram Combatentes de Cristo nas Fronteiras recém abertas do Novo Mundo. Antonio Bosi chama atenção para a bi-frontalidade da expansão colonial: “Por um lado incorporavam-se novas terras, sujeitando-as aos poderes temporais dos monarcas europeus, por outro ganhavam-se novas ovelhas para a religião e para o Papa”. Óbvio que alguns dos costumes indígenas aterrorizavam os religiosos, eles despencaram aqui como astronautas nessa terra estranha e não tinham sustentáculo antropológico para entender e aceitar a cultura dos nativos. Mas sem duvida a que causou mais espanto foi a antropofagia. Novamente citando Bosi: ”Era uma pratica rica de significados, o rito que atava a mente do índio no seu passado comunitário, ao mesmo tempo que garantia sua identidade no interior do grupo”. Não estou aqui para discutir o papel desempenhado pelos jesuítas no Brasil. Acusados de ocidentalizarem os índios com seus planos de catequese, de incentivarem indiretamente a escravidão negra, o que não falta é polêmica envolvendo esses religiosos. Eles porém, por uma exigência da própria Ordem, faziam cartas e relatórios minuciosos do que ocorria, não davam um passo sem registrá-lo. Sem eles seria impossível reconstruir a história do Brasil Colônia.
Aí que entra o Primeiro Bispo do Brasil, D. Pero Fernandes Sardinha. Para ser sincera sempre me liguei mais no ocorrido do que na pessoa, recorri então a artigos , inclusive um intitulado Religião, Administração e Justiça Eclesiástica, com varias transcrições de cartas trocadas pelos jesuítas e documentos da Biblioteca da Ajuda. Vamos fazer o mapa: Pero Fernandes era filho da fidalguia, estudou na Universidade de Paris, instalando-se no Colégio de Santa Bárbara, como bolseiro régio. Se formou em Teologia, ingressou no clero e lecionou em Paris, Salamanca e Coimbra. Em 1545, amparado por João de Castro, então indicado como governador geral da Índia, foi nomeado provedor-mor e visitador geral de Goa. Logo de cara ficou claro que não estava preocupado com a conversão dos naturais da terra, em suas pregações a temática era invariavelmente os desvios dos portugueses que lá estavam, em sua maior parte de cunho sexual. ”Poucos meses após o desembarque em Goa, já dizia mal do lugar, tal como sucederá no Brasil, demonstrando que nunca se afeiçoou as terras para onde foi a serviço do rei”. A real é que Sardinha gostava mesmo é de dinheiro. Puxa saco de João de Castro e de seu filho Álvaro de Castro, chamava esse último de Ilustre e Magnífico, não ficou registrado mas não duvido que chamasse de Mito também. Essa relação clientelar entre os Castro, lhe trouxe proteção e proventos materiais. Gostava de fazer umas maracutaias também, recebendo a alcunha de clérigo-mercador. E há forte indício de que vendia perdão. Nada de rezar Ave Maria por um pecado cabeludo, dá uma moeda de ouro pra Sardinha que você é absolvido.
Com a morte de João de Castro, depois de juntar um bom pé-de-meia, Sardinha voltou a Lisboa em 1549. Atendendo ao pedido de Nóbrega, que queria uma diocese no Brasil, D. João III comunicou ao Papa essa intenção. Nóbrega, em carta para o Mestre Simão Rodrigues, escreveu sobre aquele que viesse a ser indicado para o cargo de Primeiro Bispo no Brasil ”Que venha para trabalhar e não para ganhar”. E quem veio? O Bispo Sardinha. Mais uma das ironias da história.
O agora sagrado bispo Sardinha, chegou na Bahia em 1551.Conhecido por sua vaidade e suas citações dos clássicos latinos, essa Odete Roitman de batina odiou o que viu. Salvador era um povoado recente, com cerca de mil colonos, vários cumprindo pena de degredo , contando com 200 ou 300 casas, acrescentando aí escravos africanos e nativos. Grande parte dos colonos viviam amancebados, os naturais da terra andavam nus , praticavam a poligamia, incluindo o canibalismo. Mal pisou por essas plagas o Bispo já arrumou confusão. O padre Nóbrega, animado com a chegada, tomou logo um banho de água fria, porque o Bispo não queria saber das crianças convertidas e sim dos rendimentos do colégio. Salvar os índios nunca foi sua preocupação. Aliás, ele odiava os índios. Proibiu os métodos de catequese dos jesuítas, de tocar e saltar e cantar no meio dos curumins, receando que a conversão fosse ao contrário. Os índios foram proibidos de assistir missa com os colonos e sua opinião sobre os nativos era: “Não havia salvação para os gentios, pois são incapazes de aprender a doutrina por sua bruteza e bestialidade”.
O problema da diva quinhentista porém, não foi os aborrecimentos com os inacianos, foi outro muito pior. O governador geral Duarte da Costa, talvez o mandatário mais inepto da História do Brasil , só perdendo para o Bolsonaro, trouxe para Salvador 260 pessoas em sua chegada. Órfãs para casar, fidalgos e seu filho Álvaro da Costa, que havia lutado em África e cavaleiros amigos dele. Eufemismo chamá-los de cavaleiros. Álvaro na verdade trouxe uma gangue, a diversão deles era caminhar nas ruas de Salvador com um porrete na mão batendo em quem estavam a fim. Um pit boy da Idade Moderna. Mulherengo, era acusado de desviar mulheres solteiras e casadas e de fornicar com as índias. Bispo Sardinha faz então um sermão, condenando os hábitos do filho do governador e se inicia uma grande confusão. Só que o playboy era matador de índio, e salvou Salvador de um grande ataque Tupinambá. Sendo assim, Álvaro aclamado herói, o Bispo Sardinha teve que meter a batina entre as pernas, juntar seus barris de ouro e teve sua volta ordenada pelo rei em 1556, embarcando na Nau Nossa Senhora da Ajuda (haja ironia involuntária nessa saga). Ele e mais uma centena de infelizes estavam no navio. A nau naufragou em Alagoas, mas sem vítimas. Todos conseguiram chegar a terra. O que não contavam era com a recepção de 200 caetés, que os esperavam simpaticamente na praia. Foram aprisionados e devidamente devorados. A tristeza dessa história é o revide dos portugueses, que acabaram com os caetés. A grandeza da História é o Bispo ter servido de repasto para quem mais odiava. E o curioso é que, segundo Frei Vicente Salvador, apenas três pessoas foram poupadas do massacre: dois índios, que estavam num rolé aleatório, tipo nem deviam saber o que estavam fazendo no navio e um português. Que sobreviveu, foi poupado, por saber falar a língua nativa. Refletindo sobre a aeromoça e o portuga, salvos pelo idioma, a morte se afasta da velha alegoria de uma caveira com uma foice na mão e ganha contornos de uma senhorinha dona de uma franquia do Wizzard. Chupa Heiddeger, filosofia brasileira de botequim é INSUPERÁVEL!
Em Salvador, ano 465 da deglutição do Bispo Sardinha.