O imbróglio das eleições israelenses é uma situação que se repete há dois anos com 4 rodadas. O país parece que vai ter uma quinta em breve. O povo está dividido e os políticos não se entendem.
O sistema israelense é parlamentarista. Os partidos necessitam chagar a 61 cadeiras no parlamento de 120 se quiserem governar. Dada a dificuldade de um único partido alcançar esta marca, eles precisam formar uma coalizão com outros e aí começam os problemas.
O Likud, o partido do primeiro-ministro, continua sendo o mais votado, obteve 30 cadeiras na última eleição. Somados aos dois partidos religiosos que ideologicamente se veem como de direita, chegam a 46 cadeiras. Ele também recebeu o apoio do partido de extrema direita HaTsionut HaDatit (Sionistas Religiosos) que com suas 6 cadeiras dão ao bloco da direita um total de 52 cadeiras.
O segundo partido mais votado, o Yesh Atid (Existe futuro), obteve 17 cadeiras. Somados os partidos que já declaram apoio, o Meretz (Esquerda) e o Avodá (Trabalhista), chegam a 30. Todos são oposição ao Likud.
Esta eleição teve como mote quem era a favor de Bibi (o primeiro ministro e líder do Likud), e quem é a favor da mudança, ou seja, contra ele. Neste bloco além daqueles já mencionados, estão o Kachol Lavan (Azul e Branco) com suas 8 cadeiras, o Israel Beiteino (Israel Nossa Casa) com suas 7 cadeiras, e o Tikvá Chadashá (Nova Esperança), recém formado por dissidentes do Likud, com suas 6 cadeiras. Todos os líderes destes três partidos disseram que não sentariam em um governo liderado por Bibi e juntos chegam a 21 cadeiras.
Se somarmos as cadeiras de todos que se dizem contra o primeiro ministro, eles somam 51 cadeiras, mas não é tão simples assim. Alguns destes partidos são historicamente ligados a direita. Todos já estiveram em governos do Likud e têm uma certa dificuldade em se sentarem com o Meretz e até mesmo com o Avodá de centro esquerda.
Temos ainda três partidos que não foram mencionados e que juntos somam 18 cadeiras, o Iemina (Direita) com 7, o RAAM (sigla da Lista Árabe Islamita) com 5, e a Reshimá HaMeshutefet (Lista Unida) com 6. Como pode-se ver, o apoio deles para qualquer um dos lados permitiria a formação de um governo. Infelizmente as coisas não são assim tão simples.
Em Israel, tradicionalmente os governos sempre foram formados entre partidos sionistas, o que significa sem a participação dos partidos árabes. Dos três mencionados, somente o Iemina se enquadra como sionista. Acontece que não importa para que lado ele penda, nenhum lado consegue formar governo, ninguém chega a 61.
Diante desta situação, a joia mais cobiçada é o RAAM, um partido árabe religioso que ideologicamente, assim como os partidos religiosos judaicos, tem mais afinidade com a direita e portanto com Bibi. Se ele somar seus votos a este bloco, eles chegam a 58 cadeiras e com o Iemina, a confortáveis 65. O problema é o partido Sionista Religioso que já anunciou que prefere se sentar com o Diabo em pessoa a fazer parte de um governo com um partido árabe que, segundo eles, seria formado por radicais apoiadores do Hamas. Sem a extrema direita, o bloco fica com 59 cadeiras e não forma governo.
Do outro lado o Iemina e o RAAM também são cobiçados. Com eles, o bloco chega a 62 cadeiras e pode formar governo. Mas aqui também temos problemas. Os partidos de direita não aceitam sentar com os partidos de esquerda e com o RAAM, que por sua vez não está confortável em sentar com o Meretz, um partido que não aceita a religião na política.
Temos ainda a Reshimá Ha Meshutefet, a lista árabe que reúne os partidos de centro e esquerda árabes com suas 6 cadeiras. Claro que eles não sentariam em um governo do Likud, mas são uma opção ao RAAM no bloco contra Bibi, desde de que os colegas de direita engolissem este sapo em nome do bem maior, formar um governo sem Bibi.
Todas as cartas estão sobre a mesa. Na política israelense a palavra dada antes das eleições, não é a mesma empregada depois do resultado final. Alianças podem ser desfeitas, inimigos históricos podem se abraçar e velhos companheiros se apunhalarem. Nada é definitivo e vale tudo em nome do poder.
Pesquisas revelam que cachorros e gatos estão mais valorizados na pandemia. A vida caseira e a falta da convivência humana fizeram as pessoas buscarem a companhia nos animais. Um amigo tinha duas gatas e agora comprou um cachorro, e conta sobre as aproximações e tensões entre os três, que, aos poucos, convivem melhor, e ele se diverte. Nesse clima de pandemia e animais, tenho lembrado do Benjão, o cachorro que veio de outro planeta.
Benjão era de uma coragem invejável, amava a casa, a família, mas gostava das odisseias da rua. Tinha astúcia para escapar, sua alegria estava nas aventuras da rua. Oswald de Andrade escreveu que a alegria é a prova dos nove, e nessa prova Benjão passou fácil.
Benjão herdou a sabedoria de Argos, o cachorro de Ulisses, que, após vinte anos separado de seu dono, já muito velho, o reconhece e só então pôde morrer. Ulisses percebeu seu rosto umedecido por uma grossa lágrima porque esse reconhecimento, no seu disfarce de velho empobrecido, só seu fiel cão poderia perceber. Argos em grego é o que tem luz, e esse encontro emocionante está no canto XVII da “Odisseia”. A quem deseja ler indico a tradução do amigo Donaldo Schüler.
Benjão integra a família dos caninos, e o cão foi o primeiro animal que o homem roubou da vida selvagem e domesticou nas cavernas. A humanidade na relação do homem com o animal que tem um amor irrestrito, amplo, de uma só valência, quando nós humanos somos ambivalentes, amamos e odiamos. Emmanuel Levinas descreveu como um cachorro no campo de concentração em que esteve foi uma expressão inesquecível de humanidade.
Benjão, há vinte anos, partiu contra sua vontade, e hoje o trago em forma de palavras, pois foi o irmão menor que sonhei na infância. Todo cachorro especial é um ser de outro planeta, como disse um amigo sobre seu cão policial Ernst. Benjão um dia desapareceu por dois dias e duas noites e foi uma tristeza geral, mas na terceira noite ele voltou com um pedaço de corda no pescoço na qual tinha sido preso. Foi uma noite de muita festa. Finalmente, fui obrigado a me separar do Benjão, pois nos mudamos de casa para um apartamento e ele não poderia ficar preso. Hoje não teria feito a mudança, porque sempre senti falta do cachorro mais alegre que conheci. Quando me via, ele vinha e deitava sua cabeça no chão e oferecia sua face para que eu passasse levemente meu pé no seu rosto. Era assim que ele recebia seu carinho todos os dias, uma cena que deveria ter sido fotografada. Benjão foi para uma outra casa e lá viveu anos, mas conseguiu cavar um buraco por baixo da cerca e saía todos os dias para passear. Uma vez saiu e não voltou, me contaram, pois alguém vendo ele na rua o levou para sua casa. Como já se passaram vinte anos, ele saiu daqui direto ao paraíso.
Benjão é inesquecível, para todos que o conheceram, tinha tudo que precisamos na vida: amor, coragem e liberdade. Marcou a todos que conviveram com ele. Recordo seu rosto e fico mais calmo, mato as saudades de seu entusiasmo por viver. Enthousiasmos, que em grego é “ser inspirado por um Deus”, e Benjão foi um entusiasmado pela vida.
Benjão sorriso, nunca o vi triste, a não ser quando foi embora em cima de um pequeno caminhão. Não estava triste, mas seu rosto, lembro bem, se inquietou, como perguntando o que tinha feito para ter que ir embora. Benjão está vivo nos corações dos que o conheceram.
Caro companheiro Moisés Mendes, posso chamá-lo assim? É que de uma certa forma, somos militantes do mesmo lado que combate Bolsonaro, mas como judeu de esquerda, me surpreende sua publicação para os Jornalistas pela Democracia, sobre o silêncio dos judeus diante dos insultos neonazistas de simpatizantes de Bolsonaro. Felizmente, não é verdade.
Antes de tudo, caso não seja de seu conhecimento, os judeus brasileiros são hoje cerca e 100 mil almas. Uma massa insignificante diante do apoio de 57 milhões de brasileiros que votaram em Bolsonaro. Ainda que todos tivessem feito isso, hás de convir que nosso voto não representou nada. Agora, admitindo que apenas uma parcela dos judeus ajudaram a eleger Bolsonaro, eu concordo que um judeu que se alia a extrema direita é sob a minha ótica, uma aberração e nunca vão existir pedidos de desculpas suficientes que justifiquem esta posição.
Os judeus brasileiros nunca foram majoritariamente de esquerda, mas este alinhamento com Bolsonaro não foi, e não é uma unanimidade. Ele soube explorar muito bem a ligação com Israel fazendo uma promessa que dificilmente será capaz de cumprir, a mudança da embaixada para Jerusalém. Ganhou até mesmo o apoio incondicional do ex-embaixador de Israel. A cegueira destes judeus e do embaixador foi tamanha, que não prestaram atenção que público para quem estava endereçada esta promessa eram os evangélicos, estes sim, poderiam render, e de fato renderam os votos necessários para sua eleição. Os judeus que o apoiaram, foram a cabresto. Idiotas úteis.
A sua indignação contra a eleição de Bolsonaro é a mesma que a nossa, judeus de esquerda. Por isso, quando dizes que: “Quando setores progressistas passaram a denunciar o conluio de judeus com Bolsonaro, a direita do judaísmo brasileiro e até uma certa esquerda decidiu atacar os ‘inimigos’ como antissemitas e antissionistas”, estás me atacando também, e usas a justificativa mais baixa, aquela de que todos os que atacam as atitudes extremistas de Israel, são chamados de antissemitas. E aí eu me pergunto, onde é que isto se enquadra neste texto? O assunto não era judeus e Bolsonaro? Agora estamos falando de ações extremistas do Estado de Israel? Acredito que tenha sido um deslize, mormente algo que muitos antissemitas usam para dizerem que não são antissemitas. Sem ofensa.
Tu cometes uma grande injustiça quando falas do episódio da Hebraica-RJ. Não mencionas que havia uma enorme manifestação de judeus na porta da Hebraica em 2017 contra a sua presença. Te esqueces de dizer que esta foi a primeira manifestação pública contra Bolsonaro. Preferes cometer uma falácia dizendo que os judeus cariocas são amigos de Bolsonaro. Ao invés disso poderias ter dito que não foi a primeira vez que o então deputado debochou de índios e negros, que ele repetiu o que já vinha pregando há muito tempo.
O voto antiPT não veio somente dos judeus, isto é óbvio. A maioria dos brasileiros caiu no canto da sereia e elegeram este genocida. Uma mancha para a nossa história. Uma tragédia da qual nunca esqueceremos.
Claro que não gostamos do gesto de Filipe Martins. Reprovamos com veemência assim como reprovamos o gesto do Ex-Secretário da Cultura Roberto Alvim e mais recentemente da postagem de Roberto Jefferson. Nós não nos calamos e o Observatório Judaico pelos Direitos Humanos, por exemplo, é uma prova disso. O grupo Resistência Democrática Judaica com 6.000 membros é outra. Articulação Judaica, Juprog, Judeus pela Democracia, JPD-Coletivo Democrático, Judias e Judeus com Lula etc, todos são a prova viva da militância judaica contra o Fascismo em geral e Bolsonaro em especial.
Nenhuma outra minoria brasileira possui proporcionalmente ao seu número, tanta militância organizada e combativa como nós. Sempre estivemos na linha de frente, desde antes da eleição e seguimos combatendo este inepto junto as forças progressistas. Quem prefere dar voz a direita judaica é tu e teus colegas de trabalho, não nós.
Nós os denunciamos desde o princípio e seguimos na luta a despeito de textos como o teu, que insiste em dar destaque a minoria da minoria, quando todos sabem que Bolsonaro foi eleito majoritariamente pelo voto neopentecostal, pela mídia tradicional e o apoio da maior parte do empresariado, com supremo e tudo.
Quem mais, além de nós, ataca Bolsonaro como neonazista? Podemos contar nos dedos quem faz isso. De fato somos uma exceção, somos a voz da resistência judaica quando nesta mesma época, no Pessach de 1943, lutou até o último suspiro enquanto a besta nazista destruía o Gueto de Varsóvia. Nunca nos acovardamos.
Bolsonaro segue tendo seus aliados, 99% deles compostos por não judeus. Sejamos francos, teu artigo não serve a nenhum propósito, outro que não seja Joguem Pedras nos Judeus, não na Geni.
Finalmente, depois de mais de um ano sob o Covid, vamos ter nossa primeira festa em família sendo comemorada aqui em Israel. Hoje começa o Pessach, a Páscoa Judaica. Como resultado da vacinação, as coisas começam a ter ares de normalidade por aqui, e poder sentar em família é uma delas.
O Pessach é uma festa especial, ela dura uma semana onde não se deve comer pão e nada que contenha fermento. Os mais religiosos chegam a ter jogos de louças, talheres e panelas especialmente para os dias da festa. Os menos religiosos como eu, compram pão para uma semana e guardam no freezer, já que poucas padarias permanecem abertas.
A festa em si é uma recordação da saída do Egito. Moisés depois de muita insistência e 10 pragas contra o Faraó, finalmente consegue com que ele liberte os judeus da escravidão. Na saída apressada, com receio dele voltar atrás, esqueceram de levar fermento e o pão virou uma espécie de bolacha, chamada de Matzá. Ela é consumida durante toda a semana. Na idade média, judeus eram acusados de utilizar o sangue de crianças cristãs para fazerem o Matzá, o que resultou em perseguições e mortes, mas isto é outra história.
Moisés leva o povo em direção a Israel e no caminho recebe de Deus as Tábuas da Lei, também conhecida como os 10 mandamentos. São as primeiras leis de comportamento ético que se tem notícia. Enquanto aguardavam por Moisés retornar de seu encontro com Deus, os judeus tiveram uma recaída e construíram um Bezerro de Ouro para adoração. Quando Moisés chega com as tábuas e percebe o que aconteceu, as quebra em um momento de ira e o povo se arrepende.
Deus não teria ficado nada contente com o que aconteceu. Resolveu que aquela geração contaminada com adorações a outros Deuses, não entraria na Terra Prometida e incluiu Moisés por ter quebrado as tábuas no mesmo castigo. Assim foi que o povo judeu teria permanecido por 40 anos no deserto até que sucumbisse o último dos escravos no Egito.
Voltando lá para o início da história, faltou contar que Moisés, nascido judeu, foi criado pela família do Faraó depois de encontrado por sua filha em um cesto no Rio Nilo ainda bebe de poucos dias. Criado como Egípcio, somente na juventude veio a saber de sua origem. Sua existência, assim como o que se passou com os judeus no Egito, ainda não tem comprovação científica. Não existe nenhum achado arqueológico que comprove esta história. Líder revolucionário, ou figura mítica, o fato é que os judeus comemoram o Pessach com muita comida a mesa, e os cristãos se empanturram de chocolate na Páscoa.
Mesmo que a nada disso tenha acontecido de fato, ficam as lições que são passadas de geração para geração a milhares de anos. Todo judeu deve se sentir como se tivesse sido libertado da escravidão no Egito. Uma lição de humildade e da importância da liberdade.
Retirando-se o aspecto religioso da comemoração, ficam presentes conceitos de grande importância para a humanidade. Os mandamentos das Tábuas da Lei, como não matarás, não cometerás adultério, não cobiçarás a mulher do próximo, nem seus pertences, tudo isto são normas de comportamento ético para tornar o mundo de então, um mundo melhor.
Não menos importante, a lição de que toda tirania chega ao fim. Nenhum déspota é eterno e devemos lutar por nossa liberdade e pela democracia. Todos nascemos livres e iguais, assim deve ser.
Durante a leitura da Hagadá de Pessach, que é o relato dos acontecimentos, são levantados 4 copos de vinho em brindes. Normalmente o primeiro é em memória aos caídos no Gueto de Varsóvia, uma vez que o Gueto sucumbiu diante dos Nazistas, durante o Pessach. Os demais, geralmente também lembram a memória dos que morreram em defesa do povo judeu e nas guerras de Israel.
Eu pessoalmente, mudo de tempos em tempos o último brinde. Neste ano o farei em memória das vítimas do Covid-19 em todo o mundo, e que toda a humanidade possa estar vacinada em breve.
Estava sentado à mesa com um menino de dez anos, talvez onze, no distante ano de 1967. Num momento Antônio captura uma mosca que estava em cima da mesa num gesto veloz. Fico impactado diante da surpresa, e ele permanece com o punho fechado, abre um pouquinho a mão e com a outra faz algo que não vejo. Tudo em fração de segundos, e então joga a mosca em cima da mesa com uma só asa, pois a outra ele cortara. A mosca se debate na nossa frente, e eu, atônito, pergunto ao menino por que tinha feito aquilo. Aí vem a resposta calma e sorridente: “Gosto de ver a mosca se debatendo”.
A condição humana é marcada pela agressividade desde Caim e Abel, o Coliseu, as intermináveis guerras. A luta pelo poder é central, logo a barbárie integra a civilização, como ocorreu na tragédia da Primeira Guerra Mundial, a grande guerra. Foi a partir dela que Freud mudou algumas de suas teorias. Em especial, propôs a pulsão de morte, pensada já no começo de 1919, que nasce das neuroses de guerra, e a compulsão a repetição. Conceito controverso entre psicanalistas, mas baseado em quem esteve na guerra como colegas e os filhos de Freud. Então escreve uma nova teoria pulsional: Eros e Tanatos, Vida e Morte, sexualidade e hostilidade são essenciais. A pulsão de morte não é sinônimo de maldade, o problema ocorre quando ela é separada da pulsão de vida, em uma desfusão. Nessa situação ela se transforma em idealização, projeção e narcisismo das pequenas diferenças, através de violências dirigidas contra si ou ao mundo exterior.
O menino da mosca é um exemplo individual de agressividade para mostrar seu poder e me assustar. A nível social é assustador quando o terrorismo de Estado passa a governar para destruir a vida. É a pulsão de destruição, também chamada de pulsão agressiva, contra o mundo e os seres vivos. Há um amor ao ódio que encontra os irmãos do ódio que sonham com a destruição dos inimigos: raciais, religiosos, políticos. Freud escreveu então sobre a psicologia das massas, o mal-estar na cultura, dedicando-se a pensar não só a realidade psíquica, mas também a vida em sociedade.
O Brasil elegeu um presidente em 2018 que baseou sua campanha no ódio, na guerra que empolgou boa parte dos brasileiros. Na pandemia essa agressividade cresceu no negacionismo delirante, ignorando a boa medicina e as ciências nas suas orientações: distanciamento, máscaras, higiene, e vacinas para todos. O presidente ironizou a covid com piadinhas sádicas, sem graça, a não ser por seu público trabalhou para o vírus e a morte sem ser molestado pelos poderes armados ou não. É uma política da morte, com cúmplices nos mais variados poderes e profissões. O Bolsonarismo não tem solidariedade, empatia, humanidade com os mortos, seus familiares e despreza a maioria do povo brasileiro.
A pulsão de destruição é mencionada no livro de Freud “O Eu e o Isso”. No início do IV capítulo ele escreveu: “…a musculatura e a pulsão de morte se exteriorizam agora – provavelmente só em parte – como pulsão de destruição dirigida ao mundo exterior e a outros seres vivos”. Essa pulsão é a expressão da crueldade que pode irromper em pessoas mais sádicas. As pulsões podem ser sublimadas, transformadas em artes, conhecimentos, amor, diálogos, política. O atual governo não tem uma política de saúde que una o Brasil, ao contrário. O presidente não tem partido, é do partido das armas, da guerra com os governadores, visando a próxima eleição na base da brutalidade sedutora (mimimi, maricas, chorões) e tem gente que ri.
O Brasil é dominado por um governo sádico igual ou pior que a Casa Grande da escravidão. O menino Antônio da história, cortava a asa da mosca, importante é que as asas da imaginação não sejam cortadas pelo apatia, o desânimo, pois o desafio é aprender a caminhar nos perigosos labirintos. Caminhar e construir a esperança contra a destruição e o minotauro brasileiro. Cabe a cada um e a todos nós seguir tecendo o fio de Ariadne.
Relutei bastante em ler o livro O ar que me falta, do Luiz Schwarcz. A depressão do autor e suas múltiplas ramificações, tema central da obra, empilham mais peso na conjuntura em que vivemos. Não é nada fácil enfrentar o Brasil de hoje. Sair à rua é vivenciar um laboratório tóxico a céu aberto, que expande um vírus ardiloso e, não raro, letal. Como não se deprimir sabendo que é brasileiro um em cada quatro mortos por Covid-19 no mundo? Para quê, pensei, vou acrescentar a este quadro coletivo sombrio a história de um repertório de angústias pessoais?
Aos poucos, fui mudando de ideia. Resenhas de gente que respeito mostraram que havia elaborações no texto que valiam uma visita. Já estou quase na metade do livro que, confesso, me deixa meio atordoado e hipnotizado. Como dizia uma amiga, é desses livros que nos leem. Ainda tenho chão pela frente, mas quero dividir com vocês algumas impressões preliminares.
Schwarcz começa a história narrando uma experiência perturbadora. Estava no pico de uma montanha, prestes a esquiar, prática que adora. O ar puro dava-lhe uma sensação inebriante, perspectiva de prazer sem conta. De repente, o barato oxigenado transformou-se em asfixia, a falta de ar transitou para uma profunda melancolia, o presente tornou-se insuportável. Como pode a satisfação virar tão rapidamente o lado do disco e dar passagem ao seu oposto? Foi aí que identifiquei a primeira convergência.
No final dos anos 80, estava com a família num hotel em Friburgo, região serrana do Rio. Nada com que me preocupar, todo o tempo para me dedicar ao ócio sem culpa. Era véspera de Natal e o hotel serviria uma ceia portentosa. Quando nos preparávamos para o banquete, meu estômago trancou. Uma fantasia misteriosa transformou o ambiente despreocupado e faminto num teatro do absurdo, personagens ameaçadores e espectros inquiridores. O máximo que consegui comer foram torradas e, a partir daquele momento, começou uma longa jornada em busca de sentidos e explicações que, a rigor, não acabou.
Como eu, Schwarcz descende de emigrantes judeus da Europa. Rotas diferentes, mas com semelhanças. Seu pai, atormentado por um episódio trágico com o avô na Segunda Guerra, era machista juramentado. No meu caso, o pai machista pressionou a mãe a não seguir carreira profissional. Houve chantagens, discussões, certamente ameaças de separação (pecado mortal para aquela geração; desquitadas eram vistas como pouco menos do que prostitutas, mulheres “disponíveis”). A resistência da mãe, enfim vitoriosa, valeu a sobrevivência da família depois da morte do pai. Os arranjos que resultavam em casamentos infelizes fazem lembrar uma pensata sarcástica do Millôr Fernandes: “Quando vejo a maneira como certos casais conduzem suas relações, me vem logo um pensamento: Deviam ser obrigados a usar cinto de segurança”.
Colocados em posição de filhos-mostruário, perfeitinhos e condenados a alguma forma de ascensão social, eu e Schwarcz seguimos um roteiro cravejado de silêncios, olhos tristes e solidões. Não se trata de condenar os velhos, a vida de emigrante não foi fácil e era natural desejar que a prole escapasse daquele destino. No entanto, o custo de tanta e tamanha falta de diálogo foi alto. Ele jogava bola sozinho dentro de casa, chutando-a contra a parede e narrando grandes defesas aos berros, como se fosse a final de uma Copa (quando saiu para as quadras reais, libertou-se). Eu joguei futebol de botão sozinho, igualmente narrando partidas épicas, e criei um mundo paralelo, de porta fechada (literalmente) e objetivos definidos sem muito diálogo e informação. Demos um jeito na vida, a liberdade possível veio com a palavra. Como diz o ditado inglês, preparamos o pudim com os ingredientes disponíveis. Não dava para ser chef naquelas cozinhas.
Não sei se, como Schwarcz, acumulei culpas por não conseguir consertar o que havia de torto na história pessoal … dos outros. A velha culpa judaica é danada. Ele fala de uma foto antiga, ainda moleque, daquelas posadas para fotógrafo profissional. Sorriso ensaiado. Também tenho foto parecida. Sou quase capaz de lembrar quando foi tirada, numa sala um tanto decadente no centro da cidade. Sem a menor vontade de posar, sorrindo de dor. Acho que ambos saímos do padrão desejado pelos mais velhos e, contadores de histórias, acabamos inventando a nossa própria. Sem ofender a memória, mas recusando torná-la tirana.