por Mauro Nadvorny | 27 jul, 2002 | Sem Categoria
Existe uma grande falácia com respeito a dois tipos de pesquisas realizadas constantemente em Israel. Uma questiona sobre o apoio ao Primeiro Ministro Ariel Sharon. A segunda sobre o apoio a permanência das colônias nos territórios. Recentemente Uri Avneri escreveu um artigo interessante sobre isso, intitulado “A Vaca Louca”.
Aparentemente contraditórios, os resultados expressam exatamente a relação existente hoje entre o passional e o racional no seio da sociedade israelense.
A fim de melhor compreendermos seu significado, façamos uma analogia a uma cena comum de nosso cotidiano. Um estuprador vem atacando meninas de uma escola. Imaginem então que um grupo de pesquisadores apresente um questionário às meninas desta escola. Qual seria o resultado para a pergunta: “O que você acha que deveriam fazer com este estuprador?” Sem sombra de dúvida o resultado apontaria para algum tipo de agressão física (castração), ou da exterminação física (execução), do agressor por uma ampla maioria.
Se olharmos para este contexto podemos compreender que estas meninas, que podem ser as próximas vítimas de um agressor em potencial, responderam com a emoção do momento. Pois bem, a sociedade israelense de hoje se sente como estas meninas. Todos são alvos em potencial de um terrorista. Por isso respondem com tanta ênfase seu apoio àquele que lhes promete paz e segurança.
O terrorismo palestino que encontrou a forma de atingir um país que possui um dos melhores exércitos do mundo com uma arma imprevisível, age como efeito de um problema cuja solução está nas mãos do agredido: o desmantelamento das colônias que impedem o avanço de qualquer negociação séria no caminho da paz e da reconciliação.
Isto parece estar sendo bem compreendido pela sociedade israelense, e se comprova quando as pesquisas apontam para uma ampla maioria que quer o fim da colonização dos territórios ocupados. Esta questão é tratada de modo racional.
Mas se esta causa e efeito são visíveis, porque então continuam as colônias em seus lugares e os atentados terroristas ocorrendo cada vez mais com maior intensidade? Trata-se de um problema de difícil solução.
Vejamos as colônias: elas hoje compõe um população de cerca de 200 mil pessoas vivendo nos territórios. Foram para lá pelos mais variados motivos sendo os principais o ideológico (assegurar a grande Israel), e financeiro (casas subsidiadas). Como retirar estas pessoas, de que forma compensá-las, como fazê-las desistir do sonho da grande Israel, são questões complicadas.
Ao mesmo tempo em que tem de lidar com estas questões, terroristas se explodem em meio à população fazendo crer, erroneamente, que estas colônias são necessárias a segurança do Estado de Israel. Causa e efeitos se misturam e criam um circulo vicioso de ódio difícil de ser quebrado. Quem deveria dar o primeiro passo? Israel atacando a causa e desmantelando suas colônias? Ou os palestinos atacando o efeito e terminando com o terrorismo?
A resposta parece óbvia. Cada lado tem que fazer o seu tema de casa simultaneamente dentro de um acordo, que permita aos colonos voltarem para Israel com dignidade, e os palestinos desmantelando os grupos terroristas, possam vislumbrar a criação de seu estado livre da ocupação israelense.
Esta é a chave para o caminho da reconciliação. E de que forma podemos contribuir para que isto aconteça o quanto antes evitando mais perdas de vidas? Apoiando o Campo Pacifista que critica a ambos os lados de forma equilibrada para que façam o que é certo e justo. Não aceitamos mortes de inocentes causadas por quem quer que seja. Não apoiamos a barbárie sob nenhuma circunstância. Não aceitamos justificativas cínicas para a morte de civis israelenses ou palestinos.
Se os homens de bem querem ajudar, critiquem a situação como um todo e não apenas um dos protagonistas.
Um mundo melhor é possível com a paz agora.
por Mauro Nadvorny | 25 jul, 2002 | Sem Categoria
Há muito tempo Sharon não conseguia ser uma unanimidade. Agora ele conseguiu: o mundo inteiro condenou o ataque a Gaza. Uniu até mesmo os EUA com a União Européia, um fato inédito em relação às propostas de ambos com relação ao Oriente Médio.
Colocar-se a favor de Israel, significa apoiar estas condenações. Ninguém pode ficar indiferente ao assassinato de 15 civis, entre eles 10 crianças.
As desculpas para tamanho crime beiram o non sense. Vejamos:
Eles serviam de escudo humano.
Aceitar este argumento seria como admitir que a polícia utilizasse tanques para invadir as favelas atrás de traficantes. As vítimas dos tiros de canhão seriam justificáveis porque estavam lá como escudos humanos para os traficantes.
Os habitantes das residências atingidas viviam nestes lares há vários anos. Não foram para lá a fim de proteger com suas vidas, a vida de um terrorista. Da mesma forma que os favelados não estão lá para protegerem traficantes.
Foi um erro.
Durante uma guerra ocorrem acidentes. Na maior parte das vezes acaba vitimando civis. Em outras, atingem soldados que são vitimados pelo que se denominou, fogo amigo, ou seja, atingidos pelos próprios companheiros.
Não foi o caso em Gaza. Ao se autorizar o lançamento de um míssil de uma tonelada sobre um edifício de apartamentos, sabia-se que civis seriam atingidos.
Estas mortes são o preço a pagar para impedir novos homens bomba.
Grupos terroristas palestinos escolheram os homens bomba como uma tática de guerra. Um Estado de Direito não pode fazer o mesmo. Não podemos condenar os filhos pelos atos do pai. Não podemos permitir a morte de um único inocente para atingir o culpado.
Seria como autorizar a polícia a matar o bandido, sua família e seu vizinhos.
Não houve intenção.
Terroristas palestinos escolhem lugares de grande aglomeração para se explodir. O fazem deliberadamente com a intenção de atingir o maior número possível de inocentes.
O que se poderia esperar de um míssil jogado contra uma área densamente povoada? Que ele fosse atingir exclusivamente a um único homem?
A operação foi um sucesso
Como pode um chefe de estado, um primeiro ministro de uma nação, dizer ao mundo que uma operação destinada a eliminar um terrorista, foi um sucesso quando ocasionou a morte de tantos inocentes, deixou mais de uma centena de feridos e dezenas de desabrigados?
Quando olhamos para o resultado, à parte de nossa revolta e de nossa consciência, que nos impele a não esmorecer na busca por uma paz justa, nos damos conta de que o desmando de um homem não pode condenar um povo e nem a um país.
Israel está passando por um de seus piores momentos. As atitudes de seu primeiro ministro estão levando perigosamente o país ao isolamento. Em pouco tempo, nem mesmo nossas indignações pelos atos terroristas vão encontrar eco. Nossos maiores amigos vão nos abandonar. Ninguém que ser amigo de assassinos. E se isto acontecer com os palestinos também, então estaremos sendo jogados a nossa própria sorte. Dois povos destruindo seu futuro, matando suas crianças e sendo alijados do mundo civilizado. Comparados a mais atrasada das nações africanas.
Não se tratam mais de disputas entre a esquerda e a direita, cada um propondo um caminho diferente para se alcançar à paz. Trata-se isso sim, de não perdermos o que nos é mais caro: nossa ética e nossa moral. Nossos valores que reconstruíram uma linda nação depois de se dispersar pelo mundo por cerca de dois mil anos. Que reencontrou o seu lugar entre as nações com exemplos de coragem e perseverança.
Trata-se de respeitar nossa história, nossos profetas e todos que contribuíram para que mesmo dispersos continuássemos unidos como um povo. Povo que jamais desistiu de voltar a constituir uma nação. Nação que hoje tem o dever de encontrar uma forma de devolver ao Povo Palestino o mesmo direito: de constituírem sua própria pátria.
O mundo precisa escutar nossa voz. Não somos Sharon! O povo judeu quer uma paz justa e verdadeira com os palestinos e todos os seus vizinhos. Cabe a nós nos fazermos ouvir.
Conclamo a todos a se unirem na Marcha Internacional pelos Direitos Humanos que está sendo organizada por 12 mulheres norueguesas para fevereiro ou março de 2003. A marcha que está sendo apoiada por diversos grupos pacifistas do mundo inteiro, pretende percorrer Israel e os territórios com uma mensagem de paz mostrando que eles não estão sozinhos.
Basta de intolerância, de ódios e de vinganças.
Queremos a Paz Agora.
por Mauro Nadvorny | 25 jul, 2002 | Sem Categoria
n não tem tido muito tempo de lavar as mãos. Mais uma vez ele as mancha com o sangue de gente inocente. Mais uma vez ele supera todas as expectativas a seu respeito. Mais uma vez ele é o responsável direto pela morte de mulheres e crianças.
A covardia dos terroristas que não dão as vítimas o direito de defesa sempre foi condenado por todos os que compreendem a mecânica de seus atos. Como definir a ação de um chefe de Estado que ordena que um Avião Militar lance um míssil sobre um edifício de apartamentos em meio a uma área densamente povoada para matar um único homem? Outra não pode ser, senão o de terrorista e covarde. Nove crianças pereceram. Mais de 100 feridos como resultado do ataque além da destruição de casas e edifícios deixando dezenas de famílias sem teto.
Ninguém gostava do Sheikh Salah Shehadeh. Líder do Hamas, responsável direto por inúmeras ações terroristas e pelo envio de homens bombas, Shehadeh estava na lista dos mais procurados por Israel. Incapaz de capturá-lo, o governo decidiu por sua morte. Não tendo êxito em inúmeras tentativas anteriores, decidiu por encerrar o assunto da pior maneira. Em nome do mais vil dos sentimentos humanos, vingança a qualquer preço, enviou um míssil no lugar de uma bala. E o resultado só não foi pior do que a desculpa para a ação: ele utilizava escudos humanos para se proteger. Isto é de um cinismo que somente Sharon seria capaz.
Em um momento em que timidamente o Hamas acenava com a possibilidade de acabar com seus atentados suicidas em troca da retirada das áreas ocupadas, Sharon deu sua resposta. Não é capaz de enxergar nada a sua frente além do desejo de acabar com todas as possibilidades de paz e reconciliação.
O Campo Pacifista envia suas condolências as famílias das vítimas atingidas e conclama a todos a não permitir que mais este ato insano termine com nossas esperanças de paz.
O que está acontecendo hoje com a sociedade israelense, é um fenômeno no mínimo injusto. Ao invés de levarmos ao povo palestino nossa herança moral de um povo que sobreviveu a inúmeras perseguições e tentativas de genocídios, isto graças a sua unidade e capacidade ética de diferenciar o mal causado por homens do mal causado por povos, absorvemos dos terroristas a herança do ódio e da vingança a qualquer preço contra tudo e contra todos.
Com esta atitude, Sharon tenta nos igualar a eles. Não podemos permitir que isto continue. Não somos terroristas. Este governo não tem mais um respaldo moral para continuar. Em nome da decência e de nossa herança moral, ética e cultural como povo judeu, temos a obrigação de demonstrar nossa discordância.
Não somos coniventes. Discordamos veementemente desta ação militar que irá trazer mais dor, ódio e sem dúvida, fornecer o combustível que segue alimentando o círculo vicioso do revanchismo.
Por uma Israel democrática e igualitária.
Por uma Israel convivendo lado a lado com um Estado Palestino a nossa semelhança.
Basta, Paz agora.
por Mauro Nadvorny | 24 jul, 2002 | Sem Categoria
Após 15 dias de confrontos com um saldo de dezenas de mortos e feridos de ambos os lados, entre os quais várias crianças, finalmente algumas vozes em favor do entendimento começam a se fazer escutar.
Terminamos a semana que passou com uma declaração de 55 intelectuais palestinos pedindo o fim dos atentados suicidas; o líder espiritual do Hamas, Ahmed Yassin, foi colocado sob prisão domiciliar; Arafat declarou que o plano Clinton pode ser aceito pela AP.
Como sempre acontece nestes casos, é preciso que a AP passe da retórica para ações. A detenção de Ahmed Yassin é o primeiro passo, mas ainda tímido diante da necessidade de uma ação mais enérgica em contra os grupos radicais islâmicos.
A declaração hoje de Bem Eliezer de que vai evacuar em breve cerca de 20 enclaves não autorizados é bem vinda. Tal medida sinaliza que a lei será cumprida, e os assentamentos que estiverem fora da lei deverão sofrer o mesmo processo de desmantelamento.
Ainda é muito cedo para qualquer comemoração mas, o simples fato de que algumas das medidas básicas para a retomada das negociações estejam sendo implementadas, nos confortam bastante.
Queremos acreditar que dois povos não podem se tornar reféns de terroristas e colonos fanáticos. Nosso futuro e o futuro deles depende da habilidade de nossas lideranças em administrar esta perigosa adversidade. O fervor religioso não pode nos remeter a época das cruzadas. Temos de ter o discernimento capaz de separar o joio do trigo.
Uma imediata retirada das tropas que voltaram a ocupar territórios autônomos seria muita bem vinda também.
Mais uma vez podemos voltar a ter alguma esperança de solução pacífica. Tímida é verdade, mas muito mais do que havia a 15 dias atrás.
por Mauro Nadvorny | 16 jul, 2002 | Sem Categoria
Sharon e Arafat já têm do que mais se orgulhar: oito vidas foram perdidas em mais um ataque contra civis, desta vez próximo do assentamento de Emmanuel, que está localizado entre as cidades palestinas de Nablus e Kalkília.
O óbvio e o previsível se materializaram novamente. Todos sabiam que isto deveria acontecer. Era apenas uma questão de tempo, e de se saber onde teria lugar. A política de ocupação e de subjugação imposta à cerca de 2 milhões de palestinos continua sendo o combustível desta triste realidade.
O Campo Pacifista vem incansavelmente chamando a atenção para onde estão os culpados desta matança: do lado palestino através de ataques covardes contra civis indefesos, e do lado israelense através de perpetuação da ocupação e da manutenção dos assentamentos.
Desta forma vai surgindo um novo Líbano. Uma população humilhada e jogada a própria sorte, tenta se fazer escutar. Clamam para que lhes devolvam a liberdade de poder viver em sua terra e não são ouvidos. Seus filhos se lançam ao radicalismo dos grupos extremistas que fornecem sua única fonte de nutrição: ódio e vingança.
Até quando isso vai continuar acontecendo? Quantas vidas mais serão necessárias para que tenham inicio conversações de paz? Será que aquelas que já se perderam não são suficientes?
Este círculo do terror em que estão envolvidos, palestinos e israelenses serve a que propósito? Aos corruptos e sedentos de poder da elite palestina que com isso podem continuar a desviar os recursos para suas contas bancárias. E a direita israelense que não obstante seu fracasso em trazer paz e segurança, segue iludindo e se aproveitando da dor pelas perdas israelenses para se manter no governo.
Não obstante as perdas em vidas, a economia vai se deteriorando e um novo fantasma assola a região: desemprego e fuga dos investidores. Quem vai querer colocar dinheiro num lugar como este?
O Campo da Paz lamenta e envia condolências às famílias das vítimas, e pede a todos os homens de boa vontade que não ajudem a alimentar o caos tomando partido nesta carnificina.
Esta guerra está nos matando a todos.
Paz Agora.
por Mauro Nadvorny | 15 jul, 2002 | Sem Categoria
Uma pequena notícia nos jornais de Israel hoje, traz um exemplo de como as coisas podem ser diferentes. Brigadas de bombeiros dos assentamentos de Ariel e Karmei Shomron, ajudaram os Bombeiros de Kalkília a debelar um incêndio num prédio que estava fora de controle.
Tudo o que desejamos é que situações de cooperação como esta sejam a regra e nunca a exceção. Isto mostra que a solidariedade ainda está viva e que a volta a convivência pacifica não está longe de ocorrer.
Não menos importante foi o sepultamento da proposta de lei que impediria a população árabe de adquirir terras. Quase que por unanimidade, o governo afastou o perigo de afrontar a democracia com uma lei de caráter racista.
O encontro de Ben Eliezer com o presidente Mubarak em Alexandria, serviu para trazer um pouco de esperança as frias relações com o Egito. Mesmo reconhecendo uma evidente discordância com relação ao papel de Arafat no processo de paz, os dois líderes avançaram no entendimento de que todos desejam uma paz baseada na convivência pacífica entre os dois povos. O presidente egípcio propõe um plano de paz para uma área restrita, como Gaza. Se o entendimento funcionar, seria levado para outras área da Cisjordânia.
Enquanto isso, prosseguem os “toques de recolher” nas principais cidades palestinas e suas adjacências. Milhares de pessoas estão confinadas em suas casas sem poder se locomover. Doentes não conseguem chegar aos hospitais, partos estão ocorrendo nas próprias casas e cirurgias deixam de ser realizadas. O lixo não é recolhido e em alguns casos, soldados israelenses estão tendo de realizar este trabalho. Falta luz e água em diversas regiões porque as equipes de reparo não podem realizar o trabalho.
A grande desculpa para manter esta situação é o fato de que até agora não ocorreram novos ataques suicidas. A grande questão é até quando esta desculpa irá se manter. Mantendo a reocupação, Israel está criando uma nova geração de terroristas que mais cedo ou mais tarde irão tentar novos ataques.
O caminho da paz passa necessariamente pelo respeito aos direitos humanos por parte de ambas as partes. O campo pacifista continua apelando pelo reinicio das negociações entre os legítimos líderes de ambos os povos. O sofrimento impingido a população civil palestina como reação a ação de grupos terroristas não pode continuar por mais tempo. Um desastre humanitário está por acontecer.
Mesmo que em conseqüência da ação militar, temos hoje as condições de um cessar fogo. Senão de direito, ao menos de fato, não acontecem ações terroristas a mais de 15 dias.
O momento para iniciar negociações de paz é agora.
O processo de paz precisa ser retomado.