Decepções e Esperanças

“Eretz Israel é o local onde nasceu o povo judeu. Aqui se formou seu caráter espiritual, religioso e nacional. Aqui ele realizou sua independência e criou uma cultura de alcance tanto nacional quanto universal. Aqui ele escreveu a Bíblia e a doou ao mundo. Obrigado ao exílio, o povo judeu continuou fiel à Terra de Israel no transcorrer de todas as dispersões, orando sem cessar para voltar a ela, sempre com a esperança de aqui restaurar sua liberdade nacional.”

Com estas palavras tem início a Declaração de Independência do Estado de Israel, lida por Ben Gurion diante da Assembléia Constituinte (mais tarde primeira Knesset), em 15 de maio de 1948.

Ao completar 55 anos, Israel ainda não pôde solucionar o problema que carrega consigo desde a sua criação – o conflito com os palestinos e boa parte de seus vizinhos árabes – e que levou o país às guerras de Independência no mesmo ano; Suez em 1956; Seis Dias em 1967 e Iom Kipur em 1973.

Na mais dramática de todas, a da Independência, o país foi invadido pelos exércitos de cinco países árabes que prometiam jogar os judeus ao mar. As rádios árabes conclamaram os palestinos a deixarem seus lugares para não impedir o avanço das tropas. Alimentados por estes apelos, além de notícias (verdadeiras) sobre o massacre de aldeias, cerca de 600 mil palestinos abandonaram suas casas e fugiram para os países árabes limítrofes, onde foram confinados em campos de refugiados.

A ajuda soviética com a venda de armas tchecas foi fundamental para a vitória de Israel. O Estado recém-criado ocupou as terras destinadas a ele e aquelas destinadas à criação da Palestina. Os lugares abandonados pelos agora refugiados palestinos foram imediatamente preenchidos pelos refugiados judeus do Holocausto. Assim surgia uma nação, e outra começava sua luta desesperada pela existência.
Israel nascia com uma política claramente socialista. Os kibutzim (fazendas coletivas) eram um exemplo do verdadeiro preceito de vida comunista: todos trabalhavam de acordo com suas possibilidades e recebiam de acordo com suas necessidades. Eram livres para entrar e para sair. Não havia exploração do homem pelo homem.

O que viria a ocorrer no cenário mundial nos anos seguintes, além dos acontecimentos regionais, influenciaria a vida dos israelenses de forma que ninguém jamais poderia ter previsto. Os ensinamentos dos criadores do Estado, com sua formação de esquerda, enfrentariam dilemas capazes de transformar o país de baluarte de democracia e humanismo em Estado de segregação e belicosidade latente.

Ao longo do tempo, a direita israelense representada pelo Likud teve uma participação média de cerca de 30% dos votos válidos. A esquerda representada pelos trabalhistas é que viu sua histórica representação de 35% dos votos válidos desaparecer nos últimos anos. Isto não significou uma migração de votos para o Likud, mas uma dissipação para partidos alternativos. A esquerda não perdeu representação para a direita, perdeu para si mesma.

Existem várias explicações para isto. Uma delas aponta para a migração maciça de judeus russos. Esta comunidade, que fugiu do comunismo soviético, não simpatizou com as plataformas dos partidos de esquerda, e nem mesmo de centro-esquerda, como já haviam se transformado os trabalhistas. Além disso, a falta de uma proposta coerente de paz, pois se oferecia a devolução de territórios com uma mão e com a outra se aumentava à construção de colônias, levou o partido a perder credibilidade.

Para nós, sionistas socialistas que crescemos com o desejo de ver Israel como um farol de redenção nacional para todo o povo judeu, onde liberdade, igualdade e fraternidade seriam mais do que falácias utópicas, a decepção com o rumo da política israelense foi um grande balde de água fria.

Hostilizados pelas comunidades judaicas por sermos “de esquerda”, e pela esquerda por sermos sionistas, a guinada das forças fascistas de Israel para o confronto com os palestinos nos coloca à frente da luta pelo reconhecimento de que existe um país a ser preservado e um grupo político a ser combatido.

As posições do atual governo de Israel não são condizentes com os princípios que nortearam sua Declaração de Independência. Não obstante nosso passado de perseguições, somos nós hoje a perseguir um povo que luta por sua libertação e a construção de seu lar nacional. Apesar de discriminados em várias nações no passado, somos hoje aqueles que discriminam os cidadãos não judeus.

Precisamos do apoio de todas as forças progressistas do mundo para mudar esta situação. Declarações de apoio e solidariedade para com a existência de Israel e a condenação clara e dura da postura de seu governo, juntamente com ações que levam a paz e a reconciliação com o povo palestino, são ações construtivas na direção do entendimento. Agressões contra o direito de sobrevivência de Israel associadas com o anti-semitismo isolam as forças pacifistas e prejudicam igualmente israelenses e palestinos.

As Mães de Todas as Guerras

As mães de todas as guerras estão presentes em todos os conflitos. Sua dor pode ser medida com a mesma intensidade com que medimos o amor por seus filhos.

As mães de todas as guerras vertem lagrimas de indignação pelo sofrimento a que são submetidas. Para elas, todos os filhos são iguais. Não fazem distinção sobre as origens, as religiões, cor ou sexo para chorar. O seu choro é igual de todos os lados das fronteiras. Perder um filho na guerra vitimado pelas bombas da ignorância humana, parte seus corações.

As mães de todas as guerras podem ser americanas, britânicas ou iraquianas. Em sua tristeza são todas iguais. Cada uma delas ferida pelo desespero de não poder mais receber seus filhos de volta em casa. Uma a uma, se perguntando porque o seu filho. Porque?

As mães de todas as guerras são pessoas comuns com hábitos comuns. Foram crianças um dia. Cresceram, casaram e tiveram sua prole. Desejaram que fossem grandes homens e mulheres. Previram uma longa vida para eles. Nunca quiseram que eles lhes fossem levados abruptamente por uma bala mortal. Jamais sonharam com isso, nem em seus piores pesadelos.

As mães de todas as guerras também queriam um mundo melhor. Queriam que seus filhos tivessem uma vida melhor que as suas. Tantos sacrifícios fizerem por eles. Cuidando quando estavam doentes, alimentando quando tinham fome, ensinando quando tinham dúvidas, compreendendo quando erravam, mostrando o caminho quando estavam perdidos.

As mães de todas as guerras não gostam de injustiças. Não suportam que outros filhos passem necessidades. São solidárias no infortúnio umas com as outras. Talvez por isso, tenham todas a mesma face quando choram pelos seus. Talvez com isso estejam a nos dizer que esta dor é uma só e igual para todas.

As mães de todas as guerras não querem perder a esperança. Acreditam que cada guerra será a última. Que depois de enterrarem seus filhos queridos, ninguém mais fará com outras passem por isso novamente. Pensam que seus sentimentos serão compreendidos e os homens vão abnegar das batalhas e procurar solucionar seus conflitos pacificamente.

As mães de todas as guerras esquecem que algumas delas são as mães daqueles que causam os conflitos. Como aquelas que sofrem as conseqüências, outras são as mães da causa deles. Talvez lá no fundo, bem fundo de sua alma, elas também sintam a mesma dor por que todas são mães.

As mães de todas as guerras suplicam ao mundo para que parem a barbárie. Parem a matança e deixem seus filhos voltar ao aconchego de seus braços. Basta de mortes inocentes, basta de vidas perdidas para sempre. Escutem todos a voz das mães embargadas pelas lágrimas que correm formando um único rio chamado amargura.

As mães de todas as guerras estão cansadas. Gritam ao mundo que homens não lutem mais entre si. Que as diferenças sejam desafios a serem superados pelo diálogo. O diálogo que elas sempre tiveram com seus filhos em todas as horas e todos os momentos.

As mães de todas as guerras querem apenas que seus filhos, todos os filhos de todas as mães possam viver em PAZ.

O Sangue dos Semitas

O fascismo judaico israelense já não se esconde. Ele vai as ruas e mostra todo seu ódio contra tudo e contra todos. Agride a liberdade e a democracia que lhe são úteis apenas para propagar suas convicções, mas que seriam logo suprimidas se chegassem ao poder, como é de praxe nestas ideologias.

No dia 17 de março, dezenas deles foram a Hebrom recordar a morte de seu mártir Baruch Goldstein, o médico que assassinou 29 palestinos que rezavam na Tumba de Raquel há nove anos, sendo morto depois pelos sobreviventes quando acabou sua munição.

Os fascistas aproveitaram a proximidade de Purim para demonstrar o que realmente pensam. Num exemplo de “civilidade”, dois jovens, um mascarado como Sharon era ameaçado de morte por outro que estava fantasiado como soldado israelense. Nas suas camisetas lia-se:”Ariel Sharon, o traidor, logo será morto”, e “Já pegamos Itzchak Rabin, agora vamos pegar Elyakin Rubinstein”. Ambos foram detidos pela polícia. Um logo foi liberado e o segundo permanecia detido por ter agredido a um policial.

Estes manifestantes pregam abertamente a morte dos palestinos, sua expulsão da Grande Israel e a soberania de Israel sobre a terra que recebemos de Deus. Consideram, todos aqueles que discordarem de suas idéias, traidores que devem ser eliminados.

Quando escutamos os anti-semitas falarem dos judeus e comparamos com aquilo que estes judeus pregam, vemos que não existe diferença. O fascismo judaico é igual ao fascismo alemão, italiano, sérvio etc. São os mesmos princípios aplicados contra povos distintos. A mesma crença na superioridade e supremacia de um povo sobre outros.

O direito de julgar, condenar e executar em nome de sua ideologia funciona como ameaça latente e pronta para ser executada pelos mais radicais deles. Seus rabinos os absolvem sob o pretexto de que estes crimes previnem crimes maiores que levariam a morte de muitos judeus. Diante disso o que dizer dos muftis que prometem o paraíso aos homens bombas?

Baruch Goldstein foi uma das maiores vergonhas da história recente do povo judeu. Um radical que desobedeceu a todos os preceitos de humanidade para assassinar pessoas inocentes. Um médico que jurou salvar vidas e rasgou seu juramento. Um facínora que merecia ter sido apanhado com vida para ser julgado e cuja pena deveria ser a mesma de Eishman.

Infelizmente o ideário dos “Baruchs” parece que está norteando o governo de Israel. Em 3 dias, as tropas de ocupação de Israel mataram 21 palestinos. Novamente entre os mortos, várias crianças. Escudados pelo iminente ataque dos EUA ao Iraque, massacres estão sendo cometidos quase que diariamente nos territórios ocupados. Violência que gera mais violência, que fará com que mais suicidas sejam voluntários para novos atentados, que vão gerar mais violência num círculo vicioso de morte e dor.

A guerra contra o Iraque será uma calamidade para o processo de paz entre israelenses e palestinos. Enquanto durar a guerra, os radicais de ambos os povos ficarão livres para promoverem aquilo que melhor sabem fazer: matar civis inocentes. O oriente médio continuará sendo manchado com o sangue dos povos semitas.

Todos Somos um Pouco Pianistas

Depois de assistir ao filme O Pianista, de Roman Polanski, impossível não refletir sobre mais esta mensagem a respeito do Holocausto. As riquezas dos detalhes sobre as diversas facetas desta tragédia, foram magistralmente tratadas pelo diretor. Uma me pareceu a mais importante: o instinto de sobrevivência do ser humano.

O filme é muito triste. Não poderia ser de outra forma. Sem apelar para o horror das brutalidades que vão se sucedendo na tela, Polanski não deixa de nos mostrar as crueldades cometidas contra os judeus. Tampouco os questionamentos sobre a falta de uma reação geral quando 400.000 pessoas foram levadas para viver no Gueto de Varsóvia e de lá para os Campos de Extermínio.

Não faltaram menções sobre poloneses e alemães que ajudaram os judeus. Uma minoria, é verdade, mas ainda assim heróis que mereceram serem recordados. Numa Europa de anti-semitas, estas pessoas arriscaram suas próprias vidas com seu gesto humanitário.

Em meio a toda perseguição, humilhação e degradação da condição humana, vamos sendo levados pelo filme a presenciar cenas de extrema violência. Cenas onde não se pode mais distinguir o ser humano do animal. Onde termina o racional e tem inicio o irracional. Casos verídicos que mancharam de vergonha a toda humanidade.

Wladislaw Szpilman, é um brilhante pianista polonês que vai nos mostrar a saga de um homem na luta por sua sobrevivência. Graças a suas amizades, perspicácia e muita sorte, ele sobrevive onde à maioria pereceu. Hora no Gueto, hora fora dele, Szpilman vai conseguindo manter-se vivo. Ironicamente chega a viver no Bairro Alemão da Varsóvia Ocupada. Presenciou da janela de seu quarto ao levante no Gueto, um exemplo para os poloneses que se imaginavam incapazes de resistir, e um orgulho para os últimos heróis judeus.

Quando tudo parece perdido e a fome o consome, sempre surge alguém para reabilitá-lo e mantê-lo vivo. A esperança sempre viveu ao seu lado. Junto ao seu drama particular, assistimos ao drama de milhares de judeus que sucumbiram. Cada um deles reduzido ao seu mais primário instinto de sobrevivência, buscando em sua individualidade (ou com os seus mais próximos), uma forma de se manter vivo. Acreditando que tudo teria de passar, que seus dramas particularizados teriam fim tão logo fossem para os “Campos de Trabalho” (como queriam acreditar).

A sorte que esteve com Szpilman, não pode estar com todos. A falta de uma visão realista do que estava acontecendo, aliada ao inacreditável ato que estavam cometendo os Nazistas com suas Fábricas de Morte, levaram a morte seis milhões de judeus, entre eles um milhão e meio de crianças.

De uma comunidade de 400 mil almas na Polônia, restaram depois da guerra pouco mais de 10 mil. Uma delas foi Wladislaw Szpilman que lá continuou até falecer aos 88 anos de idade.

Não sei se Szpilman foi um herói ou um covarde na acepção das palavras. Foi sem dúvida um sobrevivente. Foi um pianista que faz com que todos nós, em certos momentos da vida sejamos como ele nos reduzindo a nossa individualidade para sobrevivermos num mundo cada vez mais opressor.

Sua história é uma lição para todos nós do Campo da Paz. Uma voz a nos lembrar que precisamos continuar lutando sempre para que ninguém mais sofra o que eles sofreram. Que o respeito a nossas diferenças passa pelo respeito ao princípio básico de que não existem raças, mas uma única raça: a humana.

Sempre que um semelhante estiver sendo discriminado, todos nós estamos sendo maltratados. Quando um homem oprimir a outro homem, toda a humanidade está sendo oprimida. O clamor de igualdade e fraternidade precisa continuar a ecoar pelo planeta. Nós somos os porta vozes de que um mundo melhor é possível. Um mundo sem guerras onde todos os conflitos possam ser resolvidos de forma pacífica.

Ajude a mostrar que isto é possível.

Quarta-feira de cinzas

Hoje é quarta-feira de cinzas no Brasil. Em Israel, mais um terrível atentado a um ônibus em Haifa deixa um rastro de mortos e feridos. Enquanto por aqui a alegria de Momo reinou durante o Carnaval, no Oriente Médio a violência não deu trégua, e sucessivos massacres ocorreram em Gaza.

Enquanto dava inicio a este artigo, assistia a TV israelense noticiando sobre o atentado. Na abertura eram oito mortos, mas já falam em 10 e dizem que este número pode subir por que existem muitos feridos graves sendo operados nos Hospitais. Serão muitas famílias enlutadas até o final do dia.

Um comentarista na TV dizia que durante o mês de fevereiro as forças de segurança conseguiram abortar mais de 40 tentativas de atentados. Uma mostra de que nem com toda a repressão do exército ocupando os territórios se consegue impedir as manifestações terroristas. Basta que apenas uma tenha sucesso para que tenhamos em Israel o mesmo horror das mortes cotidianas nos territórios.

Com a formação do novo governo, o mais radical de direita da história de Israel, não se pode esperar que a violência tenha fim a curto ou médio prazo. Quiçá nem em longo prazo antes que este governo caia. Sharon uniu a seu redor o que de mais repugnante existe na constelação política israelense. Effy Eytam, Avigdor Liberman e Tommy Lapid formam junto com Sharon um quadro perfeito dos Cavaleiros do Apocalipse. Um pretende aumentar a colonização dos territórios que segundo ele fazem parte de Grande Israel. Outro desconhece a existência do problema palestino uma vez que não existem palestinos. O terceiro está mais preocupado em afastar os religiosos da vida cotidiana do país e acha que um estado palestino poderia prejudicar esta tarefa. Diante deles, o francês Jean Marie Le Pen , o austríaco Joerg Haider e o russo Jirinowsky, segundo Uri Avnery (do movimento Gush Shalom) seriam bondosos liberais.

Para que não si diga que nada está tão ruim, que não possa piorar, o exército continua nas mãos de Shaul Mofaz, o homem que explica os efeitos colaterais que estão vitimando inocentes nos territórios, como erros justificáveis. Há dois dias, foram uma criança de 9 anos e uma mulher grávida atingidas por balas de soldados israelenses em mais uma incursão por Gaza. Ontem os colonos que ele protege, em todas as acepções da palavra, atiraram contra outra criança que está hospitalizada.

Desta forma, vamos assistindo ao inimaginável. Mais violência com revides de parte a parte. Em meio a tudo isso, o porta voz da Casa Branca, Ari Fleisher declarou: “Estamos preocupados com as ações que prejudicam inocentes, inclusive inocentes palestinos”, depois da massiva destruição de casas e assassinatos coletivos dos últimos dias. (antes do atentado de hoje em Haifa).

Diante da eminente guerra com o Iraque, não se pode esperar muita melhora nesta triste situação. O quarteto do mal em Israel, vai prosseguir com sua política de não negociar apostando que é capaz de dobrar a resistência palestina aniquilando os grupos terroristas, isolando suas lideranças e aumentando a colonização. Do outro lado, os grupos terroristas vão continuar praticando atentados como única forma (segundo sua lógica insana) de reivindicar seu direito à autodeterminação. Também vão se negar a um cessar fogo ou acabar com os atentados contra civis, como o que assistimos hoje. O ciclo da violência se retro-alimentando.

Talvez tenha chegado à hora de nos preocuparmos com o dia seguinte. Talvez seja o momento de aproveitarmos o maravilhoso movimento pacifista contra a guerra, para fazer com que não desista de reivindicar soluções pacíficas para os conflitos. Este mesmo movimento pode e deve se voltar para Israel e a Palestina. Pode fazer com que o mundo não esqueça de que muito antes do problema iraquiano, o conflito palestino-israelense já existia e continua sem solução a vista.

Não podemos perder a esperança de uma solução negociada. Ela pode tardar, mas vai chegar. E neste dia, a paz e a reconciliação vão triunfar sobre os Sharons e os Arafats de tristes memórias.

A nossa força e a nossa voz fazem a diferença.

Sua dor é a minha dor

Participo voluntariamente como colaborador de um grupo de mulheres norueguesas que tenta organizar uma marcha internacional pelos direitos humanos em Israel e nos territórios ocupados. Um companheiro que vive em Gaza, e que também colabora para a realização da marcha, enviou um e-mail, que reproduzo traduzido abaixo:

Caros Amigos,

Espero que minha carta encontre bem a todos.

Gostaria de colocá-los a par do que está acontecendo na Palestina nestes dias, enquanto todos os olhos estão voltados para a situação de Guerra contra o Iraque. Dois dias atrás, no meio da noite, tropas israelenses entraram e atacaram a área onde vivo, chamada El Twam, cerca do Campo de Refugiados Jabalia. Cerca de 30 tanques entraram no bairro. Muitos tiros vinham dos tanques e helicópteros. Seu objetivo era a casa de um ativista. Esta casa fica exatamente ao lado da minha (apenas a 20 metros). Depois que as tropas entraram, eles começaram a pedir para os residentes daquela casa e das casas vizinhas, para deixarem as moradias e se encaminharem para o prédio da escola. A casa do ativista é um prédio de cinco andares. Um dos tanques estava parado em frente a minha porta da frente. Então eu decidi juntamente com minha esposa e nossos quatro filhos a não deixar minha casa. Eram aproximadamente 12:30 h da noite, e era extremamente perigoso. Depois de forçarem os vizinhos a deixarem suas casas sem poder carregar nada consigo, eles começaram a plantar as bombas. Eu percebi que eles logo iriam destruir a casa e então movi minhas crianças para o local mais seguro de minha residência e os cobri com mantas. Elas acordaram e começaram a chora por causa do barulho dos tanques. Eu tentei o melhor que pude acalmá-las mas era muito difícil uma vez que eu próprio estava com muito medo. Mais os menos as 2:30h, a casa do ativista explodiu. Foi a maior explosão que já escutei. Nossas janelas quebraram, os vidros quebrados se espalharam por tudo, a poeira encheu nossa casa, a eletricidade foi cortada e eu mal podia ver alguma coisa. Minhas crianças começaram a berrar e a gritar. Eu engatinhei sobre os cacos de vidros para chegar até elas e comecei a beijá-las e abraçá-las. Depois de acalmá-las eu ascendi uma lamparina a gás e olhei pela janela. Todo o prédio de cinco andares havia sido destruído. Os tanques ainda estavam pela volta e atiravam ao acaso. Voltei para minhas crianças e comecei a explicar a elas o que havia acontecido e contei a elas outras histórias e piadas. As 4:30 h da manhã as tropas deixaram a área. Eu andei ao redor de minha casa e vi que muita coisa havia sido danificada: 18 janelas de vidro, 5 portas de madeira, paredes, móveis, o monitor de meu computador, nosso tanque de água, a maioria das lâmpadas e o pára-brisa de nosso carro. O custo para reparar estes estragos vai ser provavelmente de 2.500 dólares. Esta era a destruição visível, mas o que mais me preocupa são os danos psicológicos que isto causou. Meu filho Sabree se recusa agora a dormir sozinho, e quer ficar conosco. Nossas duas filhas, Dalia e Dena, não gostam de dormir mais em seu quarto por que foi a parte mais atingida da casa. Elas preferem dormir no meio da casa. Nossa filha pequena molha a cama. Tenho esperança que isto não vai continuar por muito tempo. Isto é o que aconteceu na minha casa depois de um ataque e das explosões. Pensem nas outras casas daquela explosão com danos mais severos, e pensem nas outras muitas pessoas que tiveram perdas por causa dos ataques. Imaginem que tipo de valores e crenças minhas crianças e as outras crianças vão desenvolver. Será que isto vai ajudar no desenvolvimento de uma paz sustentável?

Eu gostaria de dizer que o conflito em nossa região não será resolvido com estas ações. Nossa região precisa de líderes compreensivos, que acreditam nos direitos humanos e usem a negociação para chegar a soluções que digam respeito ao futuro e não apenas ao tempo de sua liderança. Desculpem, por contar todas estas coisas neste e-mail.

Felicidades,
Seu,
Safwat Diab

A seguir, minha resposta.

Querido Safwat

Ao ler emocionado o relato de seu e-mail, em certos momentos me recordei da destruição do Gueto de Varsóvia.. Sem pretender fazer aqui comparações políticas, mas refletir sobre a dor humana diante da destruição, lembrei-me do horror que meu povo sentiu ao ver os tanques alemães tomando as ruas, ordenando as pessoas que saíssem de suas casas, para em seguida serem bombardeadas.

Não tenho palavras para expressar o quanto sinto por sua família e principalmente por seus filhos. Este é um trauma que terão de carregar para sempre.

Entretanto preciso lhe dizer uma coisa, como militante pacifista e pelos direitos humanos. Algo que não justifica ou vá servir para minimizar a sua dor. Mas é uma coisa que tem de ser compartilhada por todos aqueles que estão passando pela mesma situação.

Ao informarem que estariam explodindo aquele prédio, o exército de ocupação israelense ao menos deu a sua família e todos os desafortunados vizinhos daquele ativista, a oportunidade de abandonarem suas casas e preservarem suas vidas. Oportunidade que infelizmente, a organização daquele ativista, senão ele próprio não dá, quando enviam seus homens bombas para se explodirem em meio à população civil de Israel.

Acredite-me companheiro que sua dor não é maior nem menor do que a dor das famílias israelenses atingidas por esta barbárie. Ela é a mesma. Os traumas dos sobreviventes são os mesmos. A insanidade dos dois lados é a mesma.

Esta é a lógica da violência. Ela não escolhe hora e nem lugar para cobrar as vidas das pessoas inocentes. Uma lógica perversa que deixa seqüelas entre os sobreviventes. Pesadelos que vão perseguí-las por muito tempo.

Até ontem já foram cerca de 2600 vítimas dos dois lados. Um número que não para de crescer. Uma vergonha para nossos povos.

Por isso, levante a cabeça e permaneça firme em seus ideais que são os nossos também. Dois povos vivendo em paz lado a lado em suas respectivas nações. Continuemos a exigir de nossos líderes uma paz duradoura e sustentável mediante negociações que levem a reconciliação.

Não queremos mais batalhas de guerra, estamos todos cansados delas.
Queremos paz, e queremos agora.