por Richard Klein | 1 ago, 2020 | Brasil, Crônica
Apesar das frustrações no departamento amoroso, se é que podia ser chamado disso, a gente adorou o pré-Carnaval do Recife. No Rio, a classe média fugia da folia para descansar, mas ali todos faziam questão de ficar e participar. A cidade inteira entrava na onda e ficava de cabeça para baixo. À noite, havia a tradição do “Mela-Mela”. Blocos improvisados cruzavam pelas ruas abarrotadas de foliões que passavam melando uns aos outros, conhecidos ou não, com uma mistura de água, açúcar e farinha que preparavam em casa. Nossos anfitriões fizeram questão de fazer alguns sacos da coisa para a gente. É claro que era previsível que dois caras de fora seriam mais alvos do que atiradores. Nós revidamos, mas quando nossa munição acabava, tinhamos que voltar para casa parecendo dois pães franceses crus mas felizes e exaustos da diversão.
Nos fins de semana, durante o dia as pessoas passeavam em carros sem portas e em caminhões alugados jogando baldes de água nos passantes. Nas calçadas, as vítimas os aguardavam com jatos d´água de madeira de um metro e pouco de comprimento preparadas para revidar. Quando os carros passavam, era uma guerra e os embates aconteciam em meio a gritos e gargalhadas. A tia do Davi nos avisou para tomar cuidado com as coisas que as pessoas podiam colocar na água, mas nunca saímos cheirando a algo estranho.
O primeiro baile de pré-Carnaval daquele verão foi na parte velha da cidade, junto ao porto. A praça, o Marco Zero, ficava numa área que, por causa do arranjo estreito das ruas e das lojas mal cuidadas, parecia com o pano de fundo de um velho filme preto e branco passado no Oriente Médio, mas com prédios coloniais europeus e povoada por caribenhos.
O ritmo do Recife é o frevo, que para nós parecia uma batida militar acelerada com um quê de africano. Nos bailes, ele era executado por uma sessão rítmica considerável, acompanhando uma orquestra de metais tocando arranjos rápidos e complexos. O jeito tradicional de se dançar aquele ritmo envolvia agachar-se e pular no ritmo da música agitando um guarda-chuvas. Porém a multidão na Praça da Sé estava bêbada demais para acrobacias. Quando a música pegava fogo, a sensação era parecida com a de se estar em um show de punk-rock, onde ninguém sabia ao certo se estava brigando ou se divertindo. Tínhamos que ficar dando cotoveladas acima de nossas cabeças para não sermos atingidos naquela enxurrada de loucura musical.
Chegou uma hora que os organizadores pararam a música e ergueram uma garrafa de whisky nacional, anunciando “Boa noite, povo do Recife! Esta aqui uma garrafa de uísque Drury’s, o melhor do Brasil. Ela vai para o folião mais animado desta gente maravilhosa. Quem está animado aí?”
A praça foi ao delírio.
“Então vamos ver quem é o mais animado de vocês, valendo essa garrafa!”
A banda voltou a tocar e a turba caiu no frevo ainda mais enlouquecida.
*
Algumas semanas mais tarde, o Carnaval começou oficialmente e nós tínhamos duas opções. A primeira delas era ir para Olinda, a cidade histórica ao lado do Recife, onde as autoridades fechavam a cidade para carros pelos quatro dias inteiros. Fora os inúmeros blocos nas ruas da cidade, havia sempre no mínimo quatro ou cinco orquestras de frevo tocando em diferentes lugares ao mesmo tempo. Podíamos pular de Carnaval em Carnaval e nos juntar às multidões que nunca tinham menos de mil pessoas.
A outra escolha era ir aos bailes de Carnaval em Recife. Nos primeiros três dias escolhemos a primeira opção: o Carnaval de rua de Olinda, mas, apesar da animação não obtivemos sucesso com as garotas. No último dia, para tentar mudar nossa sorte, partimos para a segunda alternativa, onde talvez a receptividade feminina fosse ser maior. Foi assim que acabamos no Carnaval do Sport Clube do Recife, sede do famoso clube de futebol.
A entrada estava apinhada. O ingresso era barato e havia uma mistura de gente do povão e de gente rica, sócia do clube. No salão havia uma grande orquestra de frevo no palco. A música estava pegando fogo, o Carnaval lotado e o clima incrível. Havia pessoas dançando onde quer que podiam – na pista, nas mesas e nas cadeiras. Volta e meia tocavam o hino do clube e o refrão levantava todo mundo.
“Este ano o Sport vai ser mesmo campeão,
Todo mundo vai cantar e dizer, ninguém segura o Sport não!”
Depois de semanas de frustração, mas agora inspirados pela animação e por muita cerveja, obtivemos sucesso. A maneira de se “pegar” as garotas, quase todas de saias curtas e vestindo a camiseta do clube, era sair as agarrando pela cintura. Não precisava falar nada, o próximo passo era dançar um pouco ao redor da pista e depois arrastá-las para um canto do lado de fora e lá tentar chegar o mais longe possível.
Depois de fazer isso com várias, “peguei” uma morena maravilhosa. Como as outras, a levei para o escuro ao lado da barraca de cerveja. Ela era bem nova, com certeza menor de idade, cabelo macio, carnuda, deliciosa de se pegar. Quase não deu para ouvir o nome dela por causa da música alta, mas entendi que se chamava Gê. Com ela o amasso foi mais intenso do que com as anteriores. O jeito que ela me deixava pegar nela e a maneira com que se esfregava na minha “barra de balas drops” me diziam que, pela primeira vez na vida, havia a possibilidade de levar a coisa para o próximo nível.
A certeza bateu quando ela falou no meu ouvido: “Ah, seu carioca gostoso, estou ficando louca.”
Embriagado pela cerveja e pela a sexualidade dela, sem motivo para ter vergonha na cara respondi: “Você já me deixou louco faz tempo, está sentindo isso? Ele está doido para te conhecer todinha.”
“Aff, seu maluco, deixa eu sentir. Hmmmm…, ela apertou, deu uma olhada safada e disse: “Assim eu não aguento. Vem comigo!”
Ela pegou na minha mão e foi me guiando. A gente se afastou do Carnaval. Depois de passar por umas casinhas dentro do clube chegamos num portão semiaberto e entramos na área da piscina do clube. Depois de mais amassos, descemos uma escadinha e fomos parar na sauna que estava vazia e com a luz desligada.
“Num se preocupe, carioca, eu sou sócia do clube e ninguém vem aqui à noite.” Estava tudo escuro, mas dava para ver ela se sentar em um dos degraus. “Venha cá, meu lindo.”
Apesar de mais nova, ela parecia ter mais experiência na coisa. No meio dos beijos, ela me agarrou e perguntou. “Não tiraste a camisa ainda?! Tire agora!”
Enquanto colocava a camisa no chão, ela foi se esfregando e entendi que era para eu também tirar a camisa dela. Em silêncio, acabamos nus. Depois da delícia da pele contra pele, ela se recostou de joelhos num dos degraus. “Eu gosto assim. Vem.”
Foi a melhor coisa que já tinha experimentado na vida.
*
O ônibus saía às dez da manhã do dia seguinte, quarta-feira de cinzas. Cheguei na rodoviária virado e exaurido pela Gê. A gente tinha amanhecido na beira da piscina, ido tomar café numa padaria e depois passamos para pegar minhas coisas. Ela ficou me esperando embaixo enquanto me despedia de meus anfitriões. Querendo que ficasse, acabou vindo até a porta do ônibus para os últimos amassos na frente de todo mundo.
Embarquei sozinho, o Davi ia ficar com uns amigos que tinham vindo para o Recife.
Por coincidência, alguns dos membros da banda que tinha tocado no Carnaval do Sport Club Recife pegaram o mesmo ônibus. Não eram frevistas mas tocavam as marchinhas de carnaval enquanto a orquestra de frevo descansava. Eram todos ligados à escola de samba Unidos de Vila Isabel e ainda estavam em clima de folia. A festa continuou pela viagem inteira: 43 horas com muita bebida e batucada no ônibus até voltarmos ao Rio. Quando cheguei em casa, tomei café e depois de um banho mergulhei na cama de onde não saí pelas próximas 24 horas. Tudo seria diferente depois daquela injeção na veia de frevo, suor, Recife e Gê. Meu tempo de aprendizado teórico sobre o Brasil tinha acabado. Agora só queria saber das aulas práticas. Volta e meia pensava na minha recifense, mas apesar de a gente ter trocado telefones, nunca mais tivemos contato.
…
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por Richard Klein | 25 jul, 2020 | Brasil, Crônica, Livro
Capítulo 14
“... quero sentir
A embriaguez do frevo
Que entra na cabeça
Toma o corpo
E acaba no pé."
Capiba – Voltei Recife
Fui parar no Colégio Andrews, uma escola para a classe média carioca situada de frente às inúmeras pistas de trânsito que cercam a belíssima praia de Botafogo. Estava contente, finalmente meus colegas seriam como quaisquer outros adolescentes da minha idade e as férias que ofereciam eram maravilhosas. Além de serem no verão – nas das escolas britânica e americana eram em julho e agosto – eram enormes. Se as notas fossem boas começavam no início de dezembro e só terminavam no meio de março. Contudo, o início foi puxado. As aulas eram em português e disciplinas como química, matemática e física eram muito mais avançadas. Por isso não fui bem no meu primeiro ano e terminei ficando de recuperação em dezembro e janeiro. De qualquer forma, passar a manhã inteira “pegando jacaré” para depois ir à escola por uma hora ou duas não era nenhuma tortura.
Depois de passar nas provas finais, ainda sobravam dois meses sem aulas pela frente. Do nada, Davi, um amigo novo da turma do Maurício, me convidou para passar um mês em Recife na casa de uns parentes, carnaval incluso. Por ser dois anos mais velho, ter acabado de passar no vestibular e pertencer a uma respeitável família judaica, e talvez por sentirem culpa pela bagunça que fizeram com minha educação, meus pais deram sua permissão sem maiores problemas.
No nosso preconceito viamos o Nordeste como um país exótico dentro do próprio Brasil que vivia cinco ou dez anos atrás do Rio e de São Paulo. Por outro lado, a região havia se tornado um destino turístico da moda graças a uma onda de artistas vindos de lá – Alceu Valença, Fagner, Belchior, Elba e Zé Ramalho, Geraldo Azevedo e Robertinho do Recife, todos no auge do sucesso. Independentemente disso, a reputação do Carnaval do Recife era a melhor possível.
A única coisa diminuindo a empolgação era a viagem em si. A distância entre o Rio de Janeiro e o Recife é de 2.300 km. Aviões na época eram coisa de milionário e o único jeito seria encarar uma viagem de ônibus de 43 horas.
*
Pronto para a aventura, com a mesma mochila dos tempos das machanés nas costas, cheguei com meus pais na rodoviária numa noite quente de Janeiro. O terminal estava apinhado de gente de todo jeito, cores e classes sociais; passageiros e acompanhantes fazendo fila nos balcões das viações e passeando pelas bancas de revistas, pelas barraquinhas de comida e pelas lojas de lembranças. Para mim, o buchicho era uma vibração fascinante mas para o seu Rafael e a dona Renée o excesso de gente humilde era incomodo.
Fomos sentar num pé sujo, o melhor da rodoviária, onde tinha marcado de encontrar o Davi. Pedimos um café e ficamos esperando.
“Tem certeza que é isso que você quer nessas férias, Richard? Você ainda pode mudar de ideia.” Rafael não podia acreditar que seu filho quisesse se misturar àquela gente e partir numa viagem estúpida e de mau gosto. “Viajar nessas condições tendo uma casa confortável para passar o verão em Teresópolis? Não entendo.”
“Sim pai, férias foram inventadas para curtir, não para ficar escondido.”
“Mas o Sérgio Birman e o Mario Halpern têm casa lá. Por que você não faz como eles e passa o verão com a família?”
“De novo!? Eles gostam de ir para lá porque ficam em condomínios jogando bola, saindo e curtindo com um monte de amigos. Entende? Curtir?”
O tom da conversa piorou. “Depois das notas que tirou, você deveria estar pensando em estudar para alcançar os colegas.”
Odiando o lugar, já sabendo o que eu ia responder e com uma ponta de inveja por estar fazendo algo que ela gostaria de fazer, Renée se meteu. “Você é egoísta demais, não quer saber de estudar, nem de ficar com seus pais nas férias. Cadê a apreciação pelo esforço que fizemos para construir uma casa de campo para vocês?!”
“Pra gente? Ah! Dá um tempo!” Já não estava vendo a hora de entrar naquele ônibus. “Vocês construíram a casa para tirar onda com os teus amigos! A gente nunca pediu aquela casa e você sabe disso!”
Meu pai me reprovou com um olhar, mas o sangue já tinha subido à cabeça e continuei. “Egoísta? Eu, né? Quem é que me internava todos os anos numa colônia de férias para ir curtir na Europa? Agora é a minha vez, tá legal?”
O Davi chegou com os pais na hora certa. Paramos de falar em inglês e nos levantamos para cumprimentá-los. A apresentação foi formal e um tanto constrangedora. Seus pais não eram tão velhos, falavam português sem sotaque mas era visível que estavam igualmente desconfortáveis com a “diversidade” na rodoviária. De qualquer maneira, tinhamos pouco tempo para ficar ali; faltava meia hora para o ônibus partir.
Depois de pagar a conta, fomos todos para a área de embarque. O sistema de informação era confuso e demorou para acharmos a plataforma. Quando descemos a escadaria de metal, lá embaixo havia filas de famílias nordestinas falando alto e colocando malas velhas e bolsas gigantescas nos compartimentos de bagagem. Nossos pais não conseguiam disfarçar o choque. Constrangidos pela sua presença e sem ver a hora de embarcar, Davi e eu já estávamos de olho em umas “gatinhas” que também pareciam da zona sul, igualmente perdidas naquela confusão. Estavam de vestidos floridos, cheias de pulseiras artesanais e colares de contas. Nos decepcionamos quando subiram no ônibus para Maceió com suas mochilas.
Depois das recomendações finais de nossos pais, demos as passagens ao motorista, entramos, encontramos nossos assentos e nos despedimos na janela enquanto o ônibus saía da baía de ré.
*
Davi era um cara introvertido, porém superinteligente e craque no futebol. Ele tinha acabado de passar para as faculdades de psicologia e de economia e ia cursar as duas. Não o conhecia a muito tempo mas a gente se dava bem. Assim que o ônibus começou a acelerar para fora da cidade, ele soltou um desconfortável “Agora que os pais ficaram para trás, é com a gente.” Mudei de assunto e ficamos batendo papo e fazendo planos até conseguirmos dormir.
Quando o dia raiou, já estávamos em território desconhecido. Os primeiros vilarejos começaram a passar pela janela com homens de chapéu de palha montados em jegues descendo estradas de terra ao lado de carros velhos, gente escovando os dentes nos tanques fora das casas, coqueiros e casebres de barro com cobertura de palha.
Conforme fomos avançando pela BR-101 o que mais chamou a nossa atenção foi a extensão do desmatamento. Na escola, tínhamos aprendido que a Mata Atlântica cobria toda aquela área. Estávamos esperando o ônibus passar por baixo de árvores com macacos pulando de um lado da estrada para o outro. Em vez disso, em ambos os lados, via-se uma paisagem desoladora formada por campos devastados que pareciam não ter fim. As únicas árvores ainda de pé eram aquelas feitas de madeira dura demais para as motosserras e resistentes ao fogo.
Enquanto isso, no ônibus, as coisas começaram a mudar. Quanto mais ao norte chegávamos, mais parecia que um peso havia sido retirado das costas dos nossos companheiros de viagem. Todos tinham começado a ser mais amigos, a falarem mais alto e a perder a vergonha de seu sotaque.
“Oxente, esse ônibus num vai chegar nunca, não? Tamo aqui faz mais de um dia!”
“É verdade, já tô aperreado! Mas pelo menos esse ônibus da Cometa é mió que os de lá!”
“Você é di ondi?”
“Sou de Teresina, mas tô indo mais os filho visitar a família no Recife e você?”
“Sou do interior, de Itapetim. Tou trabalhano no Rio faz dez anos e tô voltano só agora pra visitar a família.”
“Cunheço Itapetim, uma das minhas irmãs se casou e foi pra lá pra morar.”
Os restaurantes de beira de estrada foram mudando também: a comida ficou mais barata, porém bem menos saudável e a quantidade de moscas sobrevoando os pratos, os talheres e os copos baratos começou a incomodar. Os DJs das rádios passaram a soar nordestino e entre anúncios de pamonha, rapadura e do comércio local, tocavam os ritmos da terra que nossos artistas favoritos tinham estilizado.
Nossos companheiros de viagem começaram a se abrir com a gente.
“Já experimentaste rapadura? Não? Pega um pouquinho aqui. Isso com queijo coalho é mió do que caviar importado.”
“Ocês tão indo para o Recife? Para o Carnaval, né? O sinhô sabia que lá a gente não fala aipim, a gente fala macaxeira.”
Um outro acreditou na nossa curiosidade forçada e emendou: “É, e abóbora a gente chama de jerimum. É tudo diferenti!”
Outro começou a falar sobre as maravilhas da cachaça pernambucana. “O Geovina! Ainda tem daquela cachaça de alambique para o rapaz experimentar? Traz aqui pra esses minino. Vê, tome um pouquinho, num tem gosto de cana memo?”
Eles sabiam quem éramos: bons garotos da elite educada, para eles o orgulho da nação. Em vez de raiva ou inveja, mostravam por nós um respeito genuíno. Não tinha certeza se podiam enxergar a diferença entre a gente e a maioria das pessoas de nossa idade com o mesmo status social. Nós os respeitávamos e tínhamos algum interesse pelas coisas que tinham a dizer, algo bastante incomum.
Apesar do encantamento com a acolhida calorosa, para nós aquela viagem não era um exercício político-social. Nossas intenções não eram, de forma alguma, nobres. Como todos adolescentes do sexo masculino no planeta, só tínhamos um objetivo em mente: pegar garotas. Estávamos a caminho do Carnaval do Recife atrás de sexo gratuito, consentido e sem o envolvimento das mãos. Nossas expectativas eram grandes. Estávamos prontos para se dar bem usando a vantagem de vir do Rio, terra da TV Globo e de seus atores atrizes famosos, e a reputação sexy dos cariocas.
*
Quando finalmente chegamos, fomos recebidos calorosamente pela família do Davi. Sua tia morava com o marido num sobrado charmoso no bairro da Boa Vista. A casa era antiga, o chão era de azulejos e o frescor do vento fresco entrando pela janela imensa compensava a falta de ar condicionado no quarto a noite.
Quase não parávamos em casa. De dia partiamos para praia de Boa Viagem e a noite, ou ficávamos por lá ou nos aventuravamos nos pré carnavais do bairro. Neles, nossas esperanças de aspirantes a faunos foram confirmadas apenas parcialmente: as únicas garotas que nos davam qualquer tipo de bola eram as certinhas vindas de boas famílias. Só que sexo para elas era só depois do casamento. Apesar dos olhares assassinos e de até conseguirmos dar uns amassos, os avanços sempre acabavam bem antes do motivo pelo qual tínhamos viajado tão longe.
“Se acalme minino, não pode botar a mão aí não.”
“Mas você não está gostando?”
A cara dizia tudo. “Pare! Se meu irmão ali vê, ele conta pra minha mãe e ela me mata. Num era nem para eu estar aqui com você!”
“Então me dá teu telefone que a gente marca para outro dia!”
“Aff, se meu pai atender ele me deserda! Num dá!”
E elas não davam de jeito nenhum. Beijar um estranho vindo do Sul já era muita audácia. Se para conseguir ao menos isso a gente tinha que suar a camisa e ter paciência, o resto era inimaginável.
Houve uma exceção: uma loira falsa, um pouco mais velha e sem sutiã, que a gente deu uma azarada casual enquanto um bloco pré-Carnavalesco passava numa tarde na praia. Agimos como sempre: a elogiamos enquanto passava e ficamos esperando por uma reação. Ao contrário das outras que olhavam para trás ou sorrindo ou fechando a cara, mas que continuavam em seu caminho, ela parou para conversar.
Apesar de estar sozinha, aceitou vir com a gente para os fundos de uma construção e sentou entre nós dois. Sua calça jeans justa revelava um corpo magro e torneado. O seu perfume e suas unhas pintadas de vermelho, meio “aputalhadas”, nos encheram de tesão adolescente. Ela parecia estar gostando da situação. Havia muita excitação no ar, mas nem o Davi nem eu queria deixar o prêmio para o outro. Conforme a bagunça começou a esquentar ela não demonstrou qualquer preferência, só que acabou não conseguindo lidar com o ataque de quatro mãos adolescentes, se levantou e foi embora.
*
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por Richard Klein | 18 jul, 2020 | Brasil, Comportamento
Capítulo 13
“...foi quando meu pai me disse filho,
Você é a ovelha negra dá família.
Agora é hora de você assumir.”
Rita Lee – Ovelha Negra
Teresópolis era uma cidade de veraneio na lindíssima Serra dos Órgãos. Situada a uma hora e meia do Rio, era famosa por ser o balneário onde a seleção se concentrava antes das Copas do Mundo. Também era popular junto a colônia judaica e meus pais conheciam muita gente que tinha casas de campo lá. Quando criança, costumávamos passar verões ali hospedados em sítios de amigos ou em hotéis fazenda.
Durante uma dessas estadias, surgiu a oportunidade de comprar um terreno a um preço acessível num recanto remoto chamado Jardim Salaco. Sempre aberto a explorar oportunidades, Rafael foi dar uma olhada e levou a família junto para ver se a gente gostava. Adivinhando que acharíamos chato, teve a ideia de organizar a ida numa charrette.
Partimos cedo para o passeio ao som do trote de cavalos. Depois que passamos pela Granja Comary, o enorme hotel fazenda onde a Seleção treinava, a estrada se tornou de terra batida. Os arredores viraram mais rústicos e campestres. A paisagem se revelou maravilhosa e começei a gostar do passeio. Fomos seguindo por um vale até entramos por uma estradinha. Lá, cobertos por árvores, subimos um morro sentindo o ar puro da manhã ensolarada. Na sombra ficava fresco e nas clareiras ficava calor. Enquanto a natureza nos encantava, o dono da charrete açoitava sem parar os coitados dos dois cavalos. Com viseiras nos olhos, levando uma charrete com cinco pessoas, suavam pelo corpo inteiro deixando um cheiro forte.
Paramos no final da estrada num fim de mundo. O corretor tinha ido na frente de carro e estava a nossa espera. Seu Mendes era um senhor careca vestindo uma calça de tergal segura por suspensórios passando por cima da sua barriga avantajada. Ele estava cheio de sorrisos e de conversa fiada. Depois das introduções, ele abriu a porteira e nos convidou para entrar. O dono dos cavalos ficou do lado de fora e foi amarrar os bichos para que descansassem do passeio mais puxado que deviam ter feito na vida.
O terreno ficava na descida de um morro e tinha uma vista maravilhosa; um mar de montanhas se estendendo na nossa frente. Seu Mendes garantiu que num dia claro dava para ver até o Estado de Minas Gerais. Fora isso e a carona apertada que nos ofereceu para voltar, não me lembro de muito mais daquele dia. Só sei que Rafael acabou não resistindo à pechincha e comprando a terra em sociedade com um amigo, um ex-combatente da resistência francesa, Emile Weil, um sujeito magrelo com cara de invocado.
Depois da compra, meu velho não se entusiasmou pela ideia de construir uma casa de campo. Além de ser caro, o projeto o faria o casal perder o hábito de passar as férias esquiando na Europa enquanto nos mandavam para colônias de férias. Levou quase uma década para decidirem o que fazer com aquele elefante branco. Enquanto empurrava a decisão com a barriga, monsieur Weil construiu uma casa lá. O que Rafael não sabia é que, talvez esperando que o amigo acabasse vendendo sua parte, ele invadiu nosso lado do terreno sem consultar ninguém. Quando demos conta, o francês já estava usando a área toda como se fosse sua e isso chamou a atenção de meu pai.
Dez anos mais tarde, subimos a serra e fizemos aquele mesmo passeio, só que dessa vez de carro do Rio direto para o terreno. A ideia era avaliar por quanto poderíamos vender o terreno, mas o resultado acabou sendo bem diferente. Apesar da casa do agora ex-amigo ter o charme de um posto de gasolina e da presença do seu pastor alemão psicopata, Dayan, a beleza do lugar convenceu Rafael a construir uma casa ali para, quem sabe, viver a aposentadoria nela. Dona Renée, se animou com a ideia. Além de ter um sítio significar uma subida de degrau na escada social, o projeto a daria um passatempo novo e desafiador já que a idade estava começando a prejudicar sua performance no tênis.
Talvez por ver aquela empreitada como um investimento a longo prazo e que uma casa mais elaborada daria um retorno melhor na hora de vender, Rafael cedeu à insistência da esposa e deu carta branca para que tocasse o projeto. Com uma responsabilidade concreta pela primeira vez em sua vida de casada, Renée deu asas a sua imaginação e passou a devorar revistas de decoração do mundo inteiro. No fim das contas ela planejou, junto com um arquiteto e um mestre de obras local, uma casa de estilo campestre francês. Como era de se esperar, o custo da construção estouraria o orçamento várias vezes e colocaria em cheque a saúde financeira da família.
Sarah e eu não vimos com bons olhos aquela decisão. Para nós, Teresópolis era um lugar chato onde a judeuzada careta se isolava nos fins de semanas. As casas dos poucos amigos que iam lá, ficavam a quilômetros de distância daquele fim de mundo. Mais tarde fui descobrir que o único transporte público era o ponto final de uma linha de ônibus que saia de hora em hora, a uma caminhada de meia hora da casa.
Tendo isso em mente, para nos atrair, jogaram mais dinheiro no mato para construir uma piscina, se esquecendo que já havíamos passado há tempos da idade de ficar brincando na água rasa. Para Sarah e eu, a ideia foi um enorme elefante branco sugando a atenção, a energia e a grana dos nossos pais. Quando a inauguraram estava com 14 e Sarah com 19. A gente quase nunca ia, e o resultado foi que nos finais de semana, ficávamos com a casa liebrada sem qualquer supervisão. É claro que aproveitamos.
*
Estranhamente, aconteceu que o Fred, o líder da “esquadriha da fumaça” da Escola Americana, dono do apartamento onde fui iniciado, também tinha uma casa no Jardim Salaco. Ela ficava na outra extremidade da nossa rua. Quando meus pais travaram conhecimento com os dele, promeiro ficaram contentissimos pela coincidencia mas logo depois se horrorizaram quando o casal confidenciou que compravam eles mesmos a maconha para o filho a fim de evitar que se envolvesse com traficantes. Fred, sem sombra de dúvida, era um cara esquisito. Desengonçado, grande, meio gordinho e com um olhar transtornado, parecia estar eternamente chapado e vivia rindo de coisas bizarras e sem graça. Para Rafael e Renée, se fosse pobre jamais seria material para uma amizade com seu filho. No entanto, resolveram tolerar minhas visitas a sua casa já que poderiam me fazer ir mais para Teresópolis. Além disso, o pai era um arquiteto famoso, o garoto bem que poderia mudar e se tornar um contato valioso para o meu futuro.
O plano meio que funcionou e passei a ir quando ele e a galera subiam. Num fim de semana fatal, fui sabendo que estariam lá. No sábado a tarde, fui visitá-los. Além dos baseados de praxe havia muita bebida. Desacostumado, acabei tão bêbado que depois de atacar a cadela da casa e de uma crise copiosa de choro, tiveram que ligar para meus pais. Bebida era algo que não se via em casa, ao ponto que, em toda a minha vida, nunca vi meu pai sequer alegre por causa de álcool. Por isso, quando me viram, com 15 ou 16 anos de idade, caindo pelas tabelas, ficaram chocados. Colocaram a culpa no Fred, suspeitando que tinha colocado algo em minha bebida. Talvez fosse verdade, mas o mal já estava feito. Até então, era um artista sonhador, mas depois do ocorrido virei um adolescente problemático com tendência a ser vagabundo.
*
Minha vida doméstica refletia os versos de Panis Et Circenses dos Mutantes:
“Eu quis cantar
Minha canção iluminada de sol
Soltei os panos sobre os mastros no ar
Soltei os tigres e os leões nos quintais
Mas as pessoas na sala de jantar,
Estão ocupadas em nascer e morrer.”
Seguindo a canção, nos transformavamos naqueles personagens na hora do jantar. Sempre vestidos de maneira “apresentável”, nos reuníamos em torno de uma mesa clássica grande, escura e fortemente envernizada no meio da ampla sala de jantar. Em cima, havia um candelabro macabro. As cadeiras eram pomposas porém desconfortáveis. Os móveis em volta, também eram de madeira escura e as paredes tinham pinturas clássicas de naturezas mortas e de passagens bíblicas, emolduradas em um dourado pesado imitando antiguidades. Parecíamos estar numa mistura dos filmes caricaturais de Fellini com os filmes de vampiros do Bela Lugosi.
Antes das refeições havia sempre frutas frescas a nossa espera num vaso chinês. Isso porque, por recomendação de um médico amigo da família, começávamos com alimentos saudáveis, antes de passarmos às comidas mais pesadas. Quando todos haviam terminado, me pediam que pisasse numa campainha que ficava embaixo do meu pé. Seu barulho estridente fazia com que a dona Isabel interrompesse a sua novela na cozinha e entrasse com seu andar desajeitado para limpar a mesa e depois voltar com o prato principal. Enquanto comíamos, tínhamos que manter a pompa: nada de rádio ou televisão e não podíamos atender ao telefone. Quando terminávamos, me pediam para dar outra pisada na campainha para a sobremesa. Depois da sessão, Sarah e eu regressávamos ao planeta Terra enquanto Renée e Rafael iam para a sala de estar e passavam o resto da noite lendo em silêncio, lendo ao som de música clássica.
Foi durante um desses jantares que meu pai limpou a garganta para me dizer que uma faculdade de cinema nos Estados Unidos ou na Inglaterra estava fora de questão. Apesar da decepção, depois de tantas cagadas a notícia era previsível. Além do mais, o conceito de publicidade e de cinema eram estranhos demais para eles e depois do ocorrido, a escolha mais parecia uma provocação do que qualquer outra coisa.
Ligeiramente chocado, reclamei. “E o que é que você quer que faça agora? Como que vou conseguir trabalhar com o que eu quero?”
“Trabalhar com o que você quer? O que você sabe sobre trabalho e sobre cinema?” Ele me olhou sério. “Isso não é profissão, é hobby! Profissão é médico, engenheiro, advogado.”
Me sentindo atacado, respondi a altura. “Fiz um filme que foi exibido na América Latina inteira, e sei o que quero! É tão difícil aceitar isso?” Ele não respondeu, mas desaprovou. Encorajado, continuei. “Quem não sabe do que está falando é você! O que você entende de cinema? Qual o último filme que você foi ver? Charlie Chaplin? Fred Astaire?”
“Essas ideias de saber o que você quer são coisas que esses vagabundos, filhinhos de papai estão colocando na sua cabeça.” Rafael não tinha o pavio curto como eu, mas pegava pesado nos argumentos. “Vê a tua irmã? Ela está indo bem na faculdade. Vai ser dentista. E sabe por quê? Ela não fica perdendo tempo. Você é mais inteligente que ela, tira nota boa sem precisar estudar. Toma jeito e vira homem?!”
Fiquei puto. “Será que estou falando com as paredes?!” E já fora de controle emendei. “Se virar homem significa baixar a cabeça e virar capacho em um escritório cheio de escrotos, quero ser um super-homem e ser dono do meu nariz.”
Ele também subiu o tom. “Você é um moleque mimado que não faz ideia do que está falando. Se você não me ouvir agora, a vida vai te ensinar.”
“Pois é, não tenho nada a aprender com você.”
Talvez se fosse de outra família ou se meu pai fosse mais jovem, teria levado uma surra, mas a resposta foi o silêncio passivo-agressivo de sempre que durou semanas.
*
Quem precisava daquela Escola Americana cara e cheia de maconheiros alcoólatras se eu não ia mesmo estudar cinema? Pouco depois daquela conversa, me colocaram de volta no sistema brasileiro. Tinham que fazer isso o rápido para que tivesse tempo de me preparar para o vestibular e entrar em uma universidade brasileira.
Da minha parte, conseguia entender que o dinheiro estava curto e que o esforço em apostar numa carreira acadêmica exorbitante no exterior seria puxado. Mas todo aquele papo furado para mascarar o fato de que o dinheiro tinha ido para construir uma casa que ninguém precisava, me deixou inconformado. De qualquer forma, a grana era deles e quem tinha que construir meu futuro era eu. Pensando bem, a situação não seria das piores; mais tarde poderia estudar cinema no Brasil. Tinha ouvido falar que havia um curso bom em São Paulo. Com algum talento e muito esforço, tudo poderia dar certo e um dia poderia alcançar meu sonho.
Depois do incidente, a atitude deles mudou radicalmente. Queriam me enquadrar. Os sermões sobre a importância do sucesso financeiro e de ter uma profissão “de verdade” passaram a ser quase diários e a pressão cada vez maior. As conversas terminavam em discussões acirradas e se resumiam a dois adultos com um plano contra um jovem tentando descobrir seu lugar na vida. Sem educação universitária ou experiência profissional, os dois estavam tentando me convencer sobre coisas que não entendiam, mas quanto mais tentava explicar meu ponto de vista, por mais racionais que meus argumentos fossem, pior as coisas ficavam. A Sarah entendia o meu lado, mas com seus problemas por causa dos namorados que ela arranjava, já tinha atritos suficientes para pensar em me defender.
Com tudo isso martelando na minha cabeça, ia para o quarto, pegava o violão e tocava uma dos Novos Baianos:
“Por que não viver?
Não viver este mundo
Por que não viver?
Se não há outro mundo??”
…
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por Richard Klein | 11 jul, 2020 | Brasil, Comportamento, Crônica
Capítulo 12
“... aí eu vou misturar
Miami com Copacabana,
Chiclete eu misturo com banana
E o meu samba vai ficar assim...”
Jackson do Pandeiro – Chiclete com Banana
Apesar do fiasco na Escola Britânica ter quase acabado com o projeto de estudar cinema no exterior, ele continuou. A única alternativa que sobrou no Rio de Janeiro foi a Escola Americana ou a EA (pronunciada i-ei por todos que a conheciam). Inegavelmente era um melhor e mais sólida para adolescentes e ainda tinha a vantagem de que os cursos iam até a idade pré-universitária. O currículo, porém, era inteiramente voltado ao sistema americano. Quando me formasse teria que fazer faculdade nos Estados Unidos. Por todas serem privadas, isso custaria uma fortuna. Ao contrário, se fosse estudar no Reino Unido, muitas das melhores universidades eram praticamente gratuitas e melhores do que a maioria das Americanas. Ciente como nunca de que estávamos, mas não éramos, ricos, Rafael aprovou a decisão salgada. Um detalhe preocupante era que se mudasse de ideia e resolvesse permanecer no Brasil a escola não preparava para o vestibular.
O início foi desconcertante. O colégio possuía tudo o que se poderia esperar de uma High School americana: garotas e garotos ruivos e loiros falando inglês anasalado, um campo de baseball, uma equipe de futebol americano e a competição social inerente àquele tipo de instituição. Cobrindo o morro logo em frente a favela da Rocinha, a maior do mundo, era um lembrete de que aquele terreno enorme abrigando prédios futurísticos era o foco de um vírus estrangeiro.
O lado pedagógico da EA era tão avançado quanto sua arquitetura apesar das aulas serem ridiculamente fáceis. Não havia uniforme, construíamos nosso próprio currículo e estudávamos com diferentes alunos em diferentes salas de aula. Havia uma área de fumantes para os estudantes e vários professores, todos americanos e muito profissionais, tinham cabelos compridos, algo que nenhuma outra escola no Rio tinha nos anos setenta.
Numa cidade influenciada pela cultura Estado Unidense, em matéria de curtição, a escola era o Olimpo para a juventude da Zona Sul carioca. Quem havia introduzido o surfe, os biquínis e a maconha à cidade tinha estudado ou estava estudando ali. Meus colegas de turma eram filhos dos estrangeiros poderosos enviados para assegurar que a filial seguisse de perto as diretrizes da matriz na construção do “Novo Brasil”. Essa mentalidade colonial era visível na maioria dos estudantes e eu tinha que tomar cuidado para não absorver o sentimento generalisado de superioridade em relação aos brasileiros.
A maior parte dos colegas não era santa e estava vivendo junto com suas familias os melhores momentos de suas vidas. Longe de sua terra, os pais ganhando mais do que estariam ganhando em casa e onde tudo era mais barato, a rapaziada fazia todas as coisas erradas que outros da mesma idade faziam, mas com a vantagem de poder contar com a IBM, a Merck ou a Esso para intervir quando as aventuras terminavam mal. Esse tipo de impunidade era normalmente reservada apenas às famílias locais do mais alto escalão.
A elite da escola se conhecia bem por meio das festas, dos clubes e das organizações que seus pais participavam. Era fácil excluir os que não faziam parte da roda. Com o status de brasileiro, não-surfista, não-sarado e filho de um judeu idoso dono de um pequeno negócio, me barraram na hora. Os que faziam parte daquela turma tinham imaculados pedigrees americanos ou europeus, irradiavam autoconfiança, eram atléticos e pareciam arrasar em qualquer atividade física na qual se envolviam, menos no futebol. É claro que as meninas só davam bola para eles.
Aquela galera levava um estilo de vida difícil de se imaginar. Para começar, a maioria tinha barcos a sua espera na marina do Iate Clube do Rio de Janeiro. Muitos moravam em casas espaçosas, uma raridade mesmo naquele tempo. Os que moravam em apartamentos, viviam nos melhores endereços da cidade como as avenidas beira-mar de Ipanema e do Leblon, a Vieira Souto e a Delfim Moreira. Sempre que era convidado para suas festas ou para passar um tempo com algum deles, pensava comigo mesmo: “Então são essas as pessoas que moram aqui!” Aquela turma tinha acesso a coisas que eram ficção científica: videogames (algo que quase ninguém tinha na época), pranchas de surf e skates importados, discos de todas as bandas imagináveis e os melhores equipamentos de som disponíveis nos Estados Unidos. Seus fins de semana, quando não passados velejando num iate, eram passados em casas de veraneio que pareciam saídas de revistas especializadas e isso nas melhores localidades. Lá utilizavam todos os seus brinquedos.
Como se isso não bastasse, suas mesadas em dólar eram muito maiores do que o que eu recebia em um ano inteiro, que, por sua vez, era mais do que um salário mínimo. Meu pai tinha ganho bastante dinheiro extra com sua jogada na bolsa, mas comparados a essas famílias éramos pobres.
Os poucos amigos que fiz estavam numa situação parecida. No entanto trouxeram uma novidade: fumavam maconha. Depois que ficaram sabendo que tocava violão e dos meus gostos musicais não demorou muito para que me convidassem a descobrir qual era o motivo de tanto barulho.
Minhas primeiras tentativas foram decepcionantes. “Cara, cadê? Esse bagulho não era bom pra caralho? Já é o segundo e nada!”
“Calma, Rique, não bateu porque você está nervoso. Vou colocar um Pink Floyd para relaxar, Dark Side of The Moon. ”
“Tenho em casa, sei até tocar Time no violão.” Paranóico de que minha tirada de onda tinha caído mal, mudei de assunto. “Será que não bateu porque tossi demais?”
Aquilo foi a chave de ouro para a minha pagação de mico e todos caíram na gargalhada.
Rod, um cara que não ia com a minha cara, conseguiu parar de rir e falou. “Não falei que esse cara é muito louco?! Não bateu porque ele tossiu demais!!” E as gargalhadas voltaram.
Na terceira ou quarta sessão, tomando mais cuidado para não falar bobagem, fiquei na minha e de repente a ficha caiu que estava muito chapado.
“Caralho, cara, esse som tá muito bom!!”. Os caras olharam para mim esperando que eu falasse mais besteira. Levantei, olhei em volta me sentindo diferente e emendei. “Porra!!! Eu tô doidaço!!”. Dessa vez todos riram comigo.
A experiência não foi como tinha esperado, não havia unicórnios galopando pelo ar e as coisas não tomaram cores psicodélicas. A única mudança foi que a gente continuou rindo sem parar sem motivo nenhum enquanto trocavamos discos de bandas obscuras na vitrola. Sem dúvida, a onda dava uma dimensão diferente às coisas. Talvez por estar aprendendo violão, o efeito da fumaça deixava nítida as diferentes camadas da música. Eu parecia compreender o que se passava na cabeça dos músicos quando as criaram e quando as gravaram.
Enquanto a turma ficou inventando mentiras sobre ácido, heroína e maconhas mais potentes, falei que tinha que ir ao banheiro e fui curtir a novidade dando uma volta pelo apartamento. Os pais do dono da casa, Fred, tinham viajado e a casa estava vazia. Fiquei vagando no escuro pela sala de estar enorme vendo pinturas na parede, esculturas e plantas decorativas. Tudo tinha adquirido uma beleza que nunca teria notado em meu estado normal.
Quando voltei, já estavam fumando outro.
“E aí, Rique? ”
“Cara, esse negócio é muito bom! Me passa essa porra aí!” e todo mundo caiu de novo na gargalhada.
Depois daquela noite entrei numa sintonia diferente tanto na escola quanto na praia, no clube e em casa: agora pertencia a um clube secreto. Coisas e pessoas que nunca tinha entendido passaram a fazer todo sentido. Participar dessa realidade paralela era como a conquista de uma nova identidade. Na minha cabeça, meus pares em outras rodas, o Maurício, o Jaime e o Léo estavam morrendo de vontade de fazer o mesmo mas não tinham coragem.
O lado negativo foi que passei a levar uma vida dupla. Não disse nada para os meus outros amigos, muito menos para os meus pais. Os dois Riques não se misturavam, para um grupo continuei sendo o mesmo de sempre só que com sumiços e momentos estranhos, para o outro era um iniciante estabanado. Logo descobriria que a maconha era um repelente contra as garotas, mas e daí? Nunca iria conseguir nada com as beldades da Escola Americana mesmo.
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por Richard Klein | 4 jul, 2020 | Brasil, Comportamento, Crônica, Literatura
Capítulo 11
“…Eu fico contente da vida
Em saber que a Bahia é Brasil.”
Francisco Alves – Bahia com H
Se para Rafael e Renée o sonho de levar uma vida idílica num paraíso exótico era difícil de encaixar com a responsabilidade de criar filhos, imagina lidar com um que tinha decidido ser diretor de cinema. Seu investimento pesado em educação era para gerar um herdeiro médico, engenheiro, advogado ou algo parecido, não um menino sonhador. Ansiosos pela escolha um tanto precoce e irrealista e sem saber nada sobre o assunto, os dois fizeram o melhor que podiam.
Após consultar um monte de “especialistas”, ou seja, amigos e familiares com as mesmas percepções e limitações, chegaram a uma conclusão. O mais aconselhável seria me mandar estudar na Inglaterra onde, na cabeça da dona Renée, seria treinado para ter meu nome em cartazes de filmes importantes.
Para tanto, minha vida acadêmica teria que mudar. Entrar para o sistema britânico dependia do sucesso nos O-levels, um teste difícil que todos tinham que fazer por volta dos dezesseis anos. Quem passava se qualificada para a próxima etapa, os A-levels, um teste mais direcionado e ainda mais puxado, que teria quando fizesse dezoito. Esse sim, servia de passaporte para as universidades britânicas.
O único curso no Rio que preparava para os O-levels não era outro senão a mesma Escola Britânica que havia praticamente me expulsado. Para os A-levels, não teria jeito, a única opção seria me mudar para a Inglaterra e meus pais começaram a ver as possibilidades.
A volta para a minha primeira escola era uma decisão arriscada e cara. Minha turma seria a primeira na escola a se preparar para aquela prova. Serviríamos de cobaias e seríamos os alunos mais velhos que já tinham tido.
Houve muitas discussões a portas fechadas, com minha mãe fantasiando sobre meu futuro de cineasta e meu pai preocupado não só com o custo, mas também com meu comprometimento e com as possibilidades nessa carreira. Isso era coisa de menino rico. Talvez essa condição não duraria para sempre e essa era uma clareza que só ele possuía em casa.
Contudo, resolveram correr o risco. O ano letivo começa fim de Agosto, espelhando o Britanico, e quando o momento chegou, lá estava eu, cinco anos mais velho, de novo num uniforme azul e cinza, pegando o ônibus, dessa vez sozinho, rumo ao mesmo lugar onde tinha visto a rainha entrando de Rolls Royce. Na minha cabeça esse era o primeiro passo para me tornar um diretor de cinema.
Em poucas semanas deu para sentir que a escolha talvez não tivesse sido a melhor. A escola não era mais a mesma. Além de estar ligeiramente dilapidada, o curso era desorganizado e, apesar de serem todos estrangeiros, os professores em sua maioria, pareciam aposentados ou donas de casa fazendo um bico.
O ex-oficial disciplinador da marinha que havia cismado comigo tinha há muito voltado para a Inglaterra. Agora, o diretor era o esquisitíssimo Mr. Lewis, um sujeito seboso, com óculos “fundo de garrafa”, baixinho e troncudo. Parecendo um ogro do Harry Potter sempre exalava um bafo poderoso das suas feições de buldogue bêbado. Além de ter vários tiques nervosos, era meio gago e falava com um sotaque exageradamente elegante do qual tirávamos sarro. Acima de tudo, o coitado não tinha a menor ideia de como impor respeito a adolescentes.
Por outro lado, apesar de em termos acadêmicos aquela ser a hora errada para se estudar alí, em questão de diversão a história era bem diferente. Com exceção de nosso professor de matemática, Mr. Bindley, um enorme ex-jogador de rúgbi do norte da Inglaterra, ninguém era capaz de controlar nossa turma. Isso nos permitiu criar um regime de terror e fazer tudo de errado que garotos entre 14 e 16 anos são capazes. A capetagem era horrível, enfiávamos nossas mãos não convidadas embaixo das saias das garotas, destruíamos os cadernos dos alunos certinhos no ventilador, dávamos descarga em peixinhos dourados e escapávamos da escola no horário do almoço para voltar embriagados para as aulas.
Ainda que o currículo fosse o mesmo que escolas similares no Reino Unido, nem eu nem os meus novos amigos, todos filhos de diplomatas e de executivos de alto escalão, jamais tiraríamos qualquer proveito daquelas aulas. No final do ano, tive que ser honesto e falar para o Rafael que ele estava jogando o seu dinheiro suado fora. Com toda aquela loucura, seria necessário um esforço sobre-humano para deixar a farra de lado e me focar no meu objetivo.
Mudar de atitude radicalmente para recuperar cinco anos passados no sistema brasileiro e passar naquela prova dificílima era uma tarefa pesada demais. É fácil criticar um menino privilegiado de 15 anos de idade, mas não tinha sido criado para aquilo. Também, apesar do sonho de ser cineasta continuar vivo, depois de conversar com os colegas e a entender a mentalidade Britânica melhor perdi motivação. A ideia de deixar a vida boa do Rio de Janeiro e me mudar para a dura realidade de ser um estrangeiro num colégio interno na Inglaterra passou a não ser convidativa. Lá, com certeza, os colegas e os professores ingleses fariam de tudo para colocar o estrangeiro novato “na linha”.
*
Depois de constatado o erro, Renée e Rafael ficaram sem saber o que fazer com o filho. Em meio ao caos, talvez visando me colocar de volta nos trilhos ou me fazer esquecer a carreira de ser cineasta, minha mãe sugeriu que aprendesse a tocar violão. Tinha levado jeito com a flauta quando criança, quem sabe se me tornasse bom com as cordas, minhas habilidades poderiam abrir as portas da popularidade com uma turma mais positiva. Em casa já havia um violão excelente, um Del Vecchio artesanal. Era da Sarah, mas ela nunca tinha conseguido aprender. Pelo menos daquela vez, o conselho materno acabou sendo um tiro na mosca e sem conseguir levar a escola a sério, popular ou não, mergulhei fundo no instrumento. Dali nasceu uma amizade que duraria para toda a vida.
O professor particular veio através de uma amiga de tênis da Renée. Romualdo tinha uns vinte e tantos anos, magro, testudo, óculos “fundo de garrafa” a frente de um rosto coberto de espinhas que não combinavam com suas feições africanas. Ele parecia, e se vestia, como um nerd mas no violão era inacreditável. Ele tinha sido roqueiro, mas – nunca descobri o porquê – havia se convertido para o fundamentalismo da bossa nova e era isso ensinava.
No início, não gostei. Queria tocar como Jimi Hendrix, enquanto ele só me ensinava o estilo conservador de João Gilberto. Os deveres de casa eram doloridos, tinha que me esforçar para fazer os acordes de jazz que forçavam os dedos a segurar as cordas em posições que pareciam com uma aranha.
Foi difícil, mas quando peguei o jeito e a mão esquerda começou a cumprir o seu papel enquanto a direita fazia a batida do samba, a magia musical começou a sair. Daquele momento em diante, descobri não só um estado de espírito que trazia harmonia, mas também algo que amava. É claro que a medida que o violão foi tomando um papel central no meu dia a dia, a escola e os deveres de casa foram ficando ainda mais distantes.
*
Presos no conservadorismo da minha mãe, em casa só tínhamos discos de música clássica. Para avançar, precisava ter acesso à música que o Romualdo estava me ensinando. Não era só bossa nova, era também o que a nova geração da música popular brasileira estava fazendo. A saída foi a biblioteca do Ibeu, o Instituto Brasil-Estados Unidos. Armado na altura em que planejavam o golpe militar, o instituto tinha sido uma tentativa de relações públicas positiva. Ficava perto de nosso antigo apartamento em Copacabana. Além de oferecer cursos de inglês e de outros serviços, tinha uma biblioteca respeitável. Era isso que era o que interessava, em particular a sua coleção de discos.
Seu acervo era generoso. Além de LP’s dos óbvios: João Gilberto, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Jorge Ben, também havia discos de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Cartola, Elis Regina, Clementina de Jesus, Milton Nascimento, Paulinho da Viola, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Fagner, Walter Franco, Luiz Melodia, Os Mutantes, Raul Seixas entre muitos outros. Havia também uma respeitável coleção de títulos de rock internacional. Apesar de não ter nada das bandas principais; Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin, Pink Floyd, havia bastante coisa interessante como The Band, Bob Dylan, Focus e Ten Years After.
Os sócios podiam levar três discos de cada vez. Com tanta coisa para escolher não sabia por onde começar. Fui com sede ao pote, queria conhecer tudo. Esses sons passaram a ser uma presença constante no velho toca-discos do meu quarto e aos poucos, fizeram com que o mundo se tornasse um lugar maior.
*
O Ibeu passou a ser mais do que um portal de acesso a novas paisagens musicais; sua coleção de livros também ajudou a expandir os horizontes literários. Comecei com as coleções inteiras do Asterix e do Tintin. Agora, mais velho, descobri livros. Entre eles achei os de Jorge Amado. Meu primeiro livro foi Capitães de Areia. Suas páginas descreviam a vida de moleques de rua de Salvador enfrentando a pobreza, a ignorância e o preconceito racial bem antes de o “Novo Brasil” entrar em cena. Fascinado, acabei devorando a obra inteira do escritor baiano.
Como a maioria dos autores e intelectuais latino-americanos de sua geração, Jorge Amado era de esquerda, de fato comunista. Seus trabalhos mostravam como as chamadas massas eram sofisticadas e tinham vidas mais completas do que a dos novos ricos neuróticos, urbanos, moralistas e brancos. Suas estórias eram dramáticas e cheias de sensualidade e falavam do povão que via na rua todos os dias mas com quem não me relacionava.
Seus livros voltaram minha atenção para a enorme celebração da mistura de raças e de culturas, que é o Brasil e me fizeram dar vários passos adiante na aventura que meus pais começaram quando resolverem mudar de continentes. Descobri a Bahia pulsando no coração do país. Talvez por Salvador ter sido a primeira capital, a brasilidade ali era mais enraizada. Além de fornecer seu melhor escritor, o estado era o Delta do Mississipi do mundo lusófono e tinha dado ao país seus músicos mais talentosos: Dorival Caymmi, João Gilberto, Gilberto Gil e Caetano Veloso, todos agora devidamente presentes no meu toca-discos, e nas cordas do meu violão.
O Samba tinha nascido lá, bem como as religiões afro-brasileiras e a capoeira, criada nas batalhas dos escravos contra seu destino. Com exceção do Haiti, a Bahia era o lugar mais africano no planeta fora do próprio continente. Ao contrário da maioria dos negros espalhados pelo mundo, os baianos eram orgulhosos de suas origens e viviam de acordo com suas tradições, não como uma expressão da resistência política, mas por amor.
Não era o único fascinado pela Bahia nos anos 1970; a abundância de praias inexploradas, os talentos da terra e a aura afro-brasileira, transformaram aquela parte do Brasil no destino preferido de hippies do país inteiro. Havia algo que emanava daquela terra que permitia com que a juventude rejeitasse o sistema de uma maneira mais verdadeira do que a estilo californiano e exclusivista acontecendo nas praias cariocas. Talvez não coincidentemente foi por volta dessa época, que o maior mestre de capoeira do seu tempo, Mestre Camisa, discípulo do lendário Mestre Bimba, chegou de Salvador e popularizou o esporte na classe média carioca. Ele começou treinando um pequeno grupo de capoeiristas, Gato, Peixinho e Garrincha, que mais tarde se tornariam eles mesmos mestres. Juntos com seu mentor, formariam o grupo Senzala. Agora separado em diferentes subgrupos, o Senzala viria a dominar tanto o cenário brasileiro como o internacional da capoeira.
*
Um dia, fuçando a caixa de surpresas musicais do Ibeu me deparei com um disco novo. A capa era com um monte de hippies sorridentes posando para uma foto. Tirei ele da pilha para dar uma olhada. A contracapa era de uns pratos misturados com uns bules de café e panelas de alumínio amassado espalhados em círculo no chão de um barraco. O título do disco era Acabou Chorare e o nome da banda era Novos Baianos. Na fase que eu estava, tudo nele parecia dizer “por favor, me leve para ouvir em casa”.
Quando coloquei para tocar, reconheci de imediato uma música que tinha ouvido na rádio e que eu gostava muito, Preta Pretinha. Conforme fui ouvindo o resto do disco, fiquei consumido pela mistura bem-feita de rock com música brasileira e dos instrumentos elétricos com o som caseiro de instrumentos acústicos. Tudo tocando com harmonias e ritmos complexos porém cheios de vida. Ouvi o disco repetidamente até a hora do jantar e continuei depois. Fui dormir absorvido pela ginga musical e pela malandragem lisérgica das letras e acordei querendo mais. Foi assim que descobri o que, para mim, foi a melhor banda de todos os tempos.
O também baiano Tom Zé, o gênio musical da Tropicália foi quem juntou a banda em Salvador e os trouxe para o Rio. Lá, como os poetas gregos, não só cantaram mas também viveram o sonho hippie. Morando em comunidade num apartamento em Botafogo, se tornaram as abelhas-rainhas do enorme contingente de alienados na juventude carioca.
Eles tiveram sorte: junto com Milton Nascimento e seu “clube da esquina”, sua presença preencheu o vazio deixado para trás pelo exílio dos grandes nomes da música brasileira: Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso. Somado a isso, ainda no Brasil, João Gilberto, a expressão máxima da bossa nova, resolveu apadrinhar a banda. Trabalhando com eles, conseguiu lapidar seu talento bruto nos mais altos padrões de qualidade.
Com tanta energia positiva, a banda acabou conseguindo um contrato com a Som Livre, a gravadora das organizações Globo. Cientes de que o astral do grupo era fundamental e preocupados com os problemas que os seus excessos no apartamento em Botafogo poderiam trazer, a produção os mudou para um sitio em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio. Lá, a banda dividia seu tempo jogando bola, ensaiando, criando, comendo comida vegetariana, se chapando e fazendo filhos. O rancho se tornaria um ícone da época.
O afã daquela geração em aproveitar a vida, se distanciando da toxicidade dos caretas e de suas caretices, podia ser resumida na pergunta que faziam em seu bem-humorado samba, Besta é Tu: “Por que não viver este mundo se não há outro mundo?”
Os Novos Baianos personificaram o que os hippies brasileiros foram durante a ditadura: uma força da natureza. Com uma repressão assassina à solta, a resistência tinha virado existencial, quase espiritual, daí talvez mais saudável do que a política convencional. Seu caminho buscava resistir sendo não urbano, tentando achar uma nova maneira de se relacionar com o mundo, tendo a cabeça aberta, mas ao mesmo tempo preservando integridade consigo mesmo e com os outros.
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por Richard Klein | 27 jun, 2020 | Brasil, Comportamento, Crônica, Literatura, Livro
Quando garotos chegavam à puberdade, depois de passarem pela introdução visual e manual trancados no quarto ou no banheiro, seguiam a tradição de serem iniciados no sexo ou por uma doméstica ou por uma profissional. De uma hora para outra, parecia que todos já haviam transado menos eu e os amigos mais chegados. Como nenhum de nós tinha empregadas gostosas e disponíveis, o jeito seria recorrer às profissionais. Dada a nossa limitação orçamentária, todos os dedos apontavam para a mesma direção: a famosa Casa Rosa.
Em famílias locais tradicionais, os pais levavam os filhos para o evento ou pelo menos patrocinavam a excursão. Esse certamente não seria o meu caso. Com Rafael já na casa dos 75 anos, sexo não era provavelmente praticado muito menos discutido em casa, nem mesmo em piadas. Para ele, a libertinagem era uma coisa para domésticas e favelados promíscuos. Nunca aceitei isso, mas não pude deixar de assimilar parte da ideia de que o sexo era algo intrinsecamente sujo e que deveria ser ocultado da sociedade educada. Mesmo assim, já enjoado da minha mão, não via a hora de ser iniciado. Com isso em mente, eu e meus amigos ficamos meses juntando dinheiro para uma ida à Casa Rosa.
Finalmente o grande dia chegou. Numa tarde de sábado, marcamos de nos encontrar após o almoço para ir a nossa expedição erótica. Só que na última hora, quando estava preparando para sair recebi um telefonema do Maurício, meu melhor amigo e comparsa mor nessa aventura. “O Roberto me ligou dizendo que vai ao cinema hoje à tarde.”
“Para o cinema?! Como?! Já não tava tudo marcado!?”
“Pois é, ele disse que tinha esquecido. Que babaca né?”
“Esqueceu o caralho!! O veadinho amarelou!”, respondi com raiva. “E agora? Estou com a grana aqui. Como é que a gente faz? Vamo lá de qualquer maneira!”
“Olha, falei com meu pai e ele disse que só me deixa ir se for com o Roberto.” Maurício era medroso.
“Foda-se teu pai, Maurício! A gente pega um táxi e vai lá. Como é que ele vai saber? Se perguntar sobre a grana, fala que a gente foi no cinema e depois você me emprestou também. Sei lá, inventa!”
“Não dá, Rique. Já falei com o Jaime, com o Mário e com o Leo e ninguém vai. Se você está com tanta vontade, vai sozinho.”
A resposta mesquinha matou o papo. Não tinha coragem para ir pela primeira vez a uma zona sozinho. Mais tarde fiquei sabendo que até o pai do Roberto tinha ficado zangado com ele.
Algumas semanas mais tarde, consegui convencer os outros a ir sem um “guia”. Os pais deles liberaram e partimos para a Casa Rosa. Pegamos um táxi da casa do Léo em Copacabana sem saber ao certo como chegar lá, mas quando o motorista escutou “Rua Alice”, sabia exatamente onde era e o propósito daquela corrida.
Na ida, ficamos discutindo se deveríamos mentir sobre a nossa idade. Jaime, um cara mais ajuizado, porém cagão, falou: “Não sei se vão deixar menores de idade entrar lá, é melhor a gente dizer que tem dezoito anos.”
“Está maluco?! Você acha que a gente tem cara de dezoito anos? Olha só para a cara do Léo? Dezoito anos nem fodendo!”
“Tá bom, a gente diz que tem dezessete.”
Maurício, que gostava de ser o conciliador da turma, concordou. “Dezessete é um bom número, é quase dezoito e vai trazer mais respeito com as putas.”
Eu, que já estava me perguntando o que é que estava fazendo no táxi com aqueles panacas, intercedi. “Cara, se a gente falar que tem dezessete anos, a vamos parecer mais retardados do que a gente já parece. Vamos fazer o seguinte, cada um fala a idade que quiser.”
“Mas e se não deixarem a gente entrar?”
“Você já viu puteiro recusar cliente?”
A gente já estava em Laranjeiras. O motorista, que tinha ficado quieto durante a discussão mas que devia estar rindo por dentro, subiu uma ladeira e parou em frente a um casarão.
“É aqui.”
Depois de fazer a “vaquinha” para pagar o taxista, a gente saiu. A Rua Alice era bonita, arborizada e tranquila. O casarão chamava atenção com seu glamour desbotado de épocas gloriosas de um prostibulo de luxo e ficava atrás de um muro. Os dois eram de fato pintados de rosa. Assim que o táxi partiu, percebemos um carro de polícia estacionado logo depois da curva, o que fez com que o Jaime quisesse desistir.
“Quer ficar calmo, Jaime? Puta não morde!”
Quando estávamos para tocar a campainha, a porta se abriu e um grupo de policiais, uns ainda ajeitando o uniforme, saiu e nos cumprimentou com sorrisos cúmplices. Uma velhinha com cara de mafiosa apareceu logo atrás, deu boas vindas, nos levou até a recepção e desapareceu para dentro do casarão. Fomos sentar ao redor de uma mesa de madeira perto de uma pista de dança vazia e ficamos esperando. O silêncio nervoso era quebrado pelo show de samba que estava passando numa TV preto e branco. Ao lado havia luzes piscantes que subiam uma escadaria em cima de um balcão. Nele havia duas tabelas de preços penduradas: uma para bebidas e outra para programas.
Uma a uma, as garotas vieram descendo para a matinê. Nem de longe elas lembravam as beldades inacessíveis que enchiam nossa boca de água nas praias e nas revistas, mas pelo menos eram mais jovens e mais bonitas que nossas empregadas. A madame veio logo atrás, apontou para nós e disse:
“Está na hora do leite das crianças.”
Estavamos tão apavorados que elas nos escolheram, não o inverso. Quase sem dizer nada, nos levaram de volta para seus quartos. Quando a ação estava para começar, ouvi alguém bater o joelho contra a cama. A julgar pela reação, dava para sentir que tinha doído. Deu para ouvir a voz do Maurício gemendo através da parede fina de madeira e ele pulando de dor. Deu vontade de rir, mas, como todos, estava tenso demais para saber o que fazer.
Minha garota era mais bonita, branca, magra e nova que as outras e tentou me acalmar. “É a tua primeira vez aqui?”
Pensei em mentir, mas respondi que sim com o coração disparado.
Ela continuou. “Você me lembra um menino que esteve aqui na semana passada.”
Enquanto falava ela foi tirando a blusa e depois o sutiã e exibindo seus seios. Talvez pela minha cara hipnotizada ela deu uma risada. “Fica calmo, pode tirar a roupa também.”
Meio desconfortável, fui me despindo enquanto admirava seu corpo já nu. A situação me fez lembrar as cenas de abertura desengonçadas dos filmes pornôs. Quando estava pronto, me recostei no travesseiro e ela veio se deitar do meu lado. O colchão era duro e áspero.
“Meu nome é Lu e o teu”
“Rique.”
“Que nome bonito. É Rique de Henrique?”
“Não, de Richard.”
“Nossa, nome de lorde!” Ela deu outra risada e, vendo que ainda estava sem jeito, olhou para os seios depois para mim e me convidou: “Pode tocar se quiser.”
Nunca tinha visto peitos nus ao vivo antes, muito menos tocado. Coloquei as mãos e gostei. Depois, tomei coragem e comecei a explorar seu corpo, sem fazer a festa que tinha planejado, mas curtindo mais do que tinha imaginado. Sua pele nua era macia, morna e muito gostosa. Me sentindo ousado, coloquei minha boca nos bicos, ela pareceu gostar e depois de uma sessão mais intensa de bolinagem, já estava pronto. Ela se posicionou, me olhou nos olhos e disse.
“Vem, menino!”
O ato foi rápido e decepcionante, mas pelo menos contou como minha iniciação de “amante latino”. Não fui o primeiro a aparecer no andar de baixo, o que me fez sentir melhor. Depois de todos pagarem, descemos a ladeira tirando sarro do joelho e do orgulho dolorido do Maurício.
“E aí Mauricio? Qual era o tamanho do pau com que ela te bateu? “
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