Samba Perdido – Capítulo 17 – Parte 02

Se esquecêssemos a desigualdade social refletida tão simples e claramente na nossa presença ali, o  povo de Ajuda vivia bem e ainda não tinha sido tocado pelo “Brasil Novo”. Sem interesse, malícia, nem conhecimento para explorar turistas, ganhavam a vida usando seus barcos artesanais para trazer seu sustento do mar. Alguns alugavam quartos ou cozinhavam para fora para completar o orçamento. O pessoal da terra era curioso a nosso respeito e nós a respeito deles. Às vezes, nos honravam com convites para conversar e ouvir suas histórias sobre a comunidade, suas lendas, o mar e a natureza que nos cercava.

“Tem vários pescador que viu uma luz branca aparecê de noite no meio da pescaria. Quando eles via de perto, aparecia uma mulher vestida de branco lá de dentro. Todos os que viram aquilo acabaram morrendo no mar de um jeito ou de outro.”

“U mió mês de se pescar é março, a corrente traz muito peixe do Sul para cá, o mar fica mais frio e de vez em quando nóis pega até tainha.”

“Aqui dá cação, principalmente por volta do mês de junho, mas é ruim pras rede. Eles rasga tudo e depois nóis tem que remendá tudo de volta. A gente mata eles com peixeira, mas é, difícil. O bicho é grande, maior que sinhô. A carne nem é muito boa, é dura. A gente tem que cozinhá várias veiz até amassiá, que nem carne de sol.”

“Nos rio daqui tem peixe sim sinhô, mas é tudo pequeno. Tem muçum, o sinhô conhece? Já experimentaste? É feio como a peste, mas é muito saboroso. Tem que saber cozinhá.”

“Nadá?! Nós não sabe nadá não, quando um cai na água, nóis vai lá e traz ele de volta do jeito que dá.”

“Ôceis num pesca no Rio de Janeiro, não? E aprendeu a nadar por quê? Oxente, se eu tivesse o dinheiro que oceis tem, mandava fazê uns três barco e fazia os outro pescá para mim. Que nem aquele minimo de Salvador tá fazeno. Eu ia ficá rico que nem ele!”

Os visitantes mais sortudos que estavam lá há mais tempo eram convidados para sair nas pescarias, mas isso nunca aconteceu comigo.

O pessoal de fora, todos na faixa dos vinte a trinta anos, era uma mistura de estudantes universitários, professores, jornalistas, artistas e profissionais de todos os tipos. As conversas longas e frequentes refletiam a paz e a beleza do lugar e a explosão de liberdade de expressão que se seguiu à repressão do regime militar. Todos faziam questão de dar a sua opinião sobre tudo; de futebol à ecologia, da política ao sexo.

“Quando a eletricidade chegar aqui, vai mudar tudo e para pior. Eu sou do Mato Grosso, lá tem um monte de aldeias como essa. Quando modernizam, o povo mais humilde acaba virando favelado e quem se dá bem é o pessoal das cidades vizinhas maiores que chegaram sabendo como lidar com dinheiro.”

“Pois é, eles são muito ingênuos. Não valorizam o que possuem. Eu sou do interior do Paraná, e lá é igual. Os nativos, não têm parâmetros para comparação. Os caras de fora vêm na malícia e deitam e rolam em cima deles.”

“Vai ser uma pena ver essa natureza toda ser transformada em resorts à lá americana mas pode crer que vai virar.” Profetizou um.

“Pois é, mas ficar aqui sem luz elétrica é bom demais, a gente tem que aproveitar enquanto dá.”

Todos concordaram.

“Mudando de assunto, se vocês querem ver natureza de verdade, têm que ir para Caraíva. No ano passado fiquei lá o verão inteiro. Foi muito, mas muito bom!”

“Caraiva? Os nativos disseram que não dá para chegar lá nem a pé!”

“Que dá, dá, mas é difícil por causa da maré e dos rios no caminho. Teve um maluco de Belo Horizonte que saiu de Trancoso e conseguiu, mas levou dois dias. A gente foi de barco. Tem um que sai de Porto Seguro toda sexta-feira, leva umas três horas.”

“E como é que é lá?”

“Muito louco, parece uma aldeia perdida no meio do Amazonas. Tem uma reserva indígena do lado, os caras nem falam português direito, só que o bicho pega com os nativos. Tem muita briga, principalmente depois que os índios descobriram a cachaça. Quando bebem, enlouquecem.”

“Você entrou em alguma confusão?”

“Ah, não, com o pessoal de fora eles são diferentes. A gente dá roupa, traz ferramentas, facões e isqueiros. Por isso adoram a gente.”

“É contra a lei, não é?”

“É, pela lei eles nem poderiam comprar esse tipo de coisa mesmo se tivessem grana, mas os caras precisam para lidar com o mato. Fiz amizade com um monte deles. Eles são muito doidos, não conhecem o conceito de propriedade privada.”

“Como assim?”

“Tipo assim, você vai para a praia e quando volta tem um monte de índio sentado na tua sala, tranquilos, sem pedir desculpas nem permissão. Teve um dia eu estava transando com a minha namorada e quando a gente acabou, nos demos conta que tinha uns cinco ou seis debruçados na janela olhando para nós em silêncio. Só faltaram aplaudir… minha namorada ficou puta!”

Todo mundo deu risada. 

Quando o papo ficava mais sério, todos concordávamos que esses eram os últimos dias de um mundo no qual a natureza era maior do que o homem.

“Épocas de mudanças são um problema, decisões que parecem pequenas acabam tendo consequências enormes.” Falou um cara mais velho que, se não me engano, era professor de universidade. “Essa geração está presenciando toda essa devastação e vai ser cobrada pelo que deixou fazer e pelo que não fez no futuro.”

“Pode crer, vão dizer que deixamos a coisa rolar.” comentou um hippie bom de percussão.

O professor continuou: “Não sou muito otimista, acho que vamos ser vistos como os porcos que estragaram o planeta em nome de farra.”

Uma menina com cara de estudante de mestrado emendou: “É verdade, somos o vírus e a cura, tudo depende das decisões que vamos tomar ou que vão tomar por nós. O xis da questão é acreditar ou não que a gente pode fazer uma diferença.”

Discussões à parte, havia algo de especial no ar. Nenhum de nós jamais havia sentido esse tipo de conexão coletiva antes. Era como se estivéssemos em uma realidade paralela, destilada por séculos de ideais utópicos e pela camaradagem criada na resistência clandestina ao regime. Naquele paraíso tropical, essa proximidade permeava festas, a música, risos, relacionamentos e amizades que aconteciam. Elas tinham uma qualidade e uma sinceridade muito diferentes do que normalmente aceitaríamos como realidade imutável nos grandes centros urbanos.

*

A experiência não tocou Davi como a mim. A meu ver, ele estava se reprimindo ao escolher se misturar com uma galera de universitários mais caretas. Eles eram parte importante das conversas, mas participavam somente marginalmente de nossa “sociedade secreta”. Não estando ligados à erva, perdiam um elemento essencial. Não era uma questão de tirar uma onda ou de se enturmar por estar fumando maconha, mas pelas dimensões e perceptivas que ela parecia abrir nos papos e até na integração com os arredores.

Uma frase de efeito do Gabeira resumia bem a diferença entre nossas perspectivas: “Sem tesão, não há solução.” Esse era o pensamento dos envolvidos naquela microrevolução quixotesca. Nela, as coisas se resumiam a ações ao invés de palavras. Queriamos um mundo onde as pessoas vivessem mais proximas à natureza – a interna e a externa, sem distinções -, sem hierarquias, principalmente a hierarquia da mente sobre o corpo. Ninguém queria saber de dogmas, tanto à esquerda quanto à direita, muito menos as vindas dos altares da vida. Naquele verão utópico, quem precisava do peso da história, da escola, da tradição e da ciência pairando sobre suas cabeças? 

O caminho para o fim da nossa amizade culminou quando conseguimos rachar uma cabana maior com três garotas de Brasília que ele havia arranjado perguntando ao pessoal local. Assim que as conheci, as achei feias e certinhas demais e portanto, fora da minha zona de interesse. A antipatia foi mútua: minha atitude de carioca descontraído que não estava nem aí para as praticidades de uma convivência diária contrastava com seus esforços em serem sociáveis e seus pedidos para que dividíssemos as tarefas domésticas. Talvez estivessem certas ao me considerar um riquinho preguiçoso e mimado, acostumado a ter uma mãe e uma empregada sempre correndo atrás dele. Só que com 17 anos, era imaturo demais para compreender isso e as descartei como “mocréias” chatas. 

Um dia após a praia, já de saco cheio da minha preguiça, exigiram que eu preparasse a refeição daquele dia. Avisei que nunca tinha cozinhado na vida, mas, talvez achando que isso fosse uma desculpa esfarrapada, se recusaram a ouvir e me forçaram a embarcar na primeira aventura culinária da minha existência. O fogão era uma grelha apoiada em alguns tijolos que ficava na área atrás da casa. Meu primeiro passo procurar por lenha seca e papel para acender o fogo, o que era quase impossível com o vento que estava soprando. Depois que tive a ideia de pegar uma cartolina que encontrei para proteger a chama, finalmente consegui. Quando as chamas diminuíram, seguindo as explicações do Davi, coloquei uma panela velha sobre a grelha, com água, óleo, sal e o espaguete.

Como bom filho de Aries fiquei agachado curtindo as chamas arderem e aproveitei o fogo para acender uma ponta que achei no bolso. Tudo estava correndo bem até levantar para adicionar os ovos. Enquanto afundavam na água fervente, percebi que o resto dos ingredientes não estavam borbulhando como deveriam. Quando cutuquei com o garfo, senti que o macarrão tinha se tornado uma massa uniforme grossa e grudenta. Mesmo para um iniciante era óbvio que aquilo estava errado. Só que quanto mais tentava concertar a coisa, mais ela lutava de volta dificultando os movimentos do garfo. O que era para ser uma refeição à base de espaguete se degenerou em um bloco de massa incomível. Para tornar as coisa ainda pior, percebi que os ovos haviam sumido lá dentro. Comecei a escavar a “coisa” numa tentativa de salvá-los, mas o garfo ficou preso antes de desaparecer naquela deformidade.

Depois de um pânico inicial, achei aquilo engraçado. Respirei fundo e  tomei coragem para dar a notícia dentro da casa.

As meninas estavam esperando com fome.

“Aê, vocês não vão acreditar, o macarrão virou um tijolo e engoliu os ovos e até aquele garfo. Vocês querem ver? Tá hilário!”

“Como assim?”

“O macarrão ficou todo grudado e acabou, sei lá, fundindo num bloco de massa sólido. Nem tô conseguindo nem tirar da panela.”

“Não estou acreditando, você sabia que a panela é da casa? Sabe quanto custou a massa e os ovos? Não deve saber? A empregada não foi comprar, né?”

“Olha só, foi um acidente!” Elas estavam sérias e nervosas e eu não estava gostando do rumo que a conversa estava tomando. “Está todo mundo de prova que avisei que nunca tinha cozinhado na vida.”

“Como é possível um marmanjo da tua idade não saber cozinhar um macarrão?!”

“Isso não vem ao caso. Eu avisei, foi um acidente, se vocês quiserem eu pago o macarrão de vocês, mas baixa a bola aí, porque gritar não tem nada a ver.”

“Ah, e você vai pagar o nosso jantar?”

“Compra mais macarrão, cozinha um arroz, sei lá, se é para pedir desculpas já pedi, só não enche!”

Havia coisas melhores a fazer do que ouvir aquelas três garotas gritando comigo e saí da cabana, deixando elas falando sozinhas. Mais tarde, naquela mesma noite, caiu a última gota. Estávamos todos num boteco, e depois de beber demais, a mais nova, que era a mais sossegada e a mais atraente das três, me pediu para a trazer de volta para a casa porque estava passando mal. Estava bêbado também e no portão nos beijamos. Quando entramos e já estávamos prestes a finalizar a coisa, as outras duas entraram como um foguete, chegando perto de me agredir fisicamente. No dia seguinte me colocaram para fora. O Davi, que já estava farto das minhas doideiras, também não gostou e ficou do lado delas.

Peguei minhas tralhas resignado e um tanto zangado e fui bater na porta da cabana de uns uruguaios camaradas que me acolheram na hora. Só que não demorou muito para descobrir que o clima na casa dos caras era caótico demais, até para mim. Era gente entrando e saindo da casa 24 horas por dia para zoar e se chapar. Por outro lado, talvez pelo acontecido, o Davi decidiu voltar ao Rio mais cedo do que o planejado. Agora sozinho no Sul da Bahia, carregando o gosto amargo da rejeição, seguindo recomendações, resolvi me mudar para Trancoso, o próximo vilarejo ao sul.

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Samba Perdido – Capítulo 17 – Parte 01

Foto: Gita – Fotografia Profissional

Capítulo 17

    

“Bom viver graças ao calor do sol

Benfeitor dessa região…”

Gilberto Gil – Cores Vivas.

 

A situação não podia ser melhor  na chegada do verão de 1979. Integrado ao estilo de vida carioca, enturmado graças ao violão, membro titular da turma dos malucos do Colégio Andrews, tinha passado de ano com facilidade. As férias que vinham pela frente prometiam. Como recompensa pela boa atuação escolar – sem ter ideia do que se passava nas horas vagas – Renée e Rafael concordaram em patrocinar mais uma aventura de verão. O plano era ficar um mês e meio no sul da Bahia, a nata dos destinos alternativos na época, novamente na companhia do Davi. 

A região ao sul de Porto Seguro era um dos refúgios hippies mais procurados do país. Louvada em musicas por Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros filhos da Bahia, aquele ecossistema praieiro, vasto, quente e verde tinha sido poupado do saqueamento que os litorais dos estados do Rio e de São Paulo estavam sofrendo. A área era tão virgem que ainda havia tribos indígenas vivendo em reservas, o que contribuía para a sua aura de paraíso tropical. Somado a isso tudo, era próxima a cidade natal de Jorge Amado, Ilhéus, prometendo, em minha imaginação, uma imersão na cultura afro-baiana.

Desta vez, fomos sozinhos à rodoviária o que fez com que nos sentissemos mais maduros na hora de embarcar. A viagem era “apenas” trinta horas e nossos companheiros eram na sua maioria gente da região voltando para passar os feriados de fim de ano em casa.

Dada a destinação, como era de se esperar, para nossa alegria, havia um grupo de seis ou sete garotas de Ipanema com ar hipongo entre os passageiros. Assim que o ônibus pegou a estrada todas se levantaram para ficar conversando em pé no corredor do ônibus ou de joelhos nos assentos. Felizes por estarem saindo de férias longe da tutela dos pais num lugar da moda, cientes de que estavam chamando a atenção do ônibus inteiro, ficaram horas num papo animado. 

“Menina! Você tem que ver o biquíni que comprei na Company. Cheio de detalhes indianos, o máximo!”

“É?! A Marcinha foi lá na semana passada e disse que viu umas cangas de batik lindas, meio sedosas, importadas da Índia. Fiquei morrendo de vontade de comprar, mas não deu tempo.”

“Amo de paixão tudo na Company!”

“Também adoro!” 

“Por falar em adorar, você já viu as fotos da pousada onde vamos ficar? Maravilhosa!”

“Vi, o Flávio tirou quando ficou lá o ano passado, uma viagem.” 

“E a praia, viu que escândalo?”

“O Flávio mudou muito depois que passou a namorar a Adriana, não acha?”

“É, ele se afastou, mas pudera, ele é um gato, você não faria o mesmo se fosse ela?”

“Não sei, não gosto daquela menina.”

Aquelas vozes altas ficaram abafando qualquer outra possibilidade de conversa entre os passageiros. O problema para nós é que, apesar da superficialidade, eram todas lindíssimas, os corpos torneados por muita academia de ginástica, a pele bronzeada pelo sol de Ipanema e tratada com os melhores produtos disponíveis nas prateleiras das melhores lojas. Com certeza não eram frequentadoras do Nove, burguesas demais para isso. Talvez fossem frequentadoras da praia em frente ao Country Club, onde a galera abonada ia. Mesmo que talvez fossem areia demais para o meu caminhãozinho, pensei comigo que não custava nada tentar.

No dia seguinte, depois da parada para o café da manhã, quando voltaram para seus lugares, a que estava sentada do lado oposto ao meu assento olhou para o meu lado e aproveitei para puxar um assunto. 

“E aí? Vocês estão indo para Ajuda também?”

“Não, a gente está indo para Prado, mais ao Sul, é linda! Você conhece?”

Feliz por sentir um sutil desapontamento por a gente estar para um destino diferente continuei. Quem sabe a gente não se esbarrasse depois das férias no Rio?

“Ouvi mararavilhas sobre o Sul da Bahia, mas nunca ouvi falar de Prado. Deve ser muito legal.” Mentira, pelo que tinham me dito era um lugar sem graça, com areia meio estranha e pouca gente de fora.

Já ciente que as amigas estavam antenadas no papo ela falou “Pois é, queria ir pra Ajuda também, mas o ex-namorado da minha amiga ficou numa pousada lá no ano passado e convenceu todo mundo a ir. Não sei como, Ajuda é bem mais legal.”

Desajeitado, tentei dar uma risada madura, “E por que Ajuda é mais legal?”

“O pessoal que vai lá é bem mais interessante, a aldeia é bem mais bonita e além do que, o Gabeira está indo passar o verão lá.”

Aquela notícia me tirou do estado de azaração. “Sério? O Fernando Gabeira, o Rei do Nove, está indo para o Arraial d’Ajuda?” Senti que estava perguntando por um monte de gente ali dentro. “Como é que você sabe?!” soou meio grosso, mas senti que ela curtiu a sensação que tinha causado.

“Minha irmã conhece uma amiga dele. ” ela respondeu com orgulho. “Mas está todo mundo sabendo.”

O Davi se meteu na conversa. “Putz, será que o preço das pousadas vai subir por causa disso?”

A pergunta foi tão cretina que queimou o meu filme por tabela. Foi uma outra que respondeu. “Uma coisa não tem nada a ver como a outra, de qualquer maneira ele vai alugar uma casa lá.”

O único cara do grupo das meninas, desmunhecadíssimo, se levantou e se meteu na conversa com ar de especialista: “A Yara disse que ele está indo primeiro de avião para Salvador e depois vai descer de carro. Ele chega na quinta-feira que vem.”

Aquilo matou o papo, agradeci e, sem ter mais assunto, fiquei em silêncio, ela também. 

Na próxima parada, comendo um sanduíche de queijo suado num pão francês duro e bebendo café com leite num copo de vidro brinquei com o Davi.

“Não basta ficar vendo o cara de tanguinha no Nove, vamos ter que engolir ele aqui na Bahia. A culpa é tua, bonitão! Ele está te seguindo!”

As garotas desceram antes de todo mundo, perto de Prado, deixando o ônibus menos florido. Contudo, o efeito da notícia-bomba que largaram seguiu. Mesmo a peonada que só o conhecia da foto entrou na conversa. 

“O Gabeira que cês tão falando é aquele homi de tanga na praia?! Iche! Que coisa horrívi!”

Depois que chegamos, descobrimos que dos motoristas de Kombi aos hippies velhos, todos estavam estavam sabendo do visitante ilustre. Não só lá mas no país inteiro. A imprensa tinha uma tradição de dar nomes aos verões. Naquele, quem levou o título foi o ex-demonizado ex-guerrilheiro urbano que depois de ser anistiado tinha se revelado articulado, inteligente e bissexual. Dava um certo orgulho pensar que no auge do verão do Gabeira, o teríamos como vizinho de praia por seis semanas.

*

O ônibus só ia até Porto Seguro, que ficava a poucos quilômetros do Arraial d’Ajuda. Para chegar lá, ainda tinha que pegar uma balsa de madeira tosca que cruzava o largo e lamacento rio Buranhém. De lá, pegariamos uma Kombi/lotação que ia até o nosso destino final.

Quando chegamos na outra margem, parecia que estavamos entrando num outro mundo. Depois que descemos e da balsa ter partido de volta, havia apenas a kombi vazia, mato e silêncio em torno do casebre tornado estação das barcas. O sol estava forte e uma brisa soprava o cheiro do rio misturado com o do mar trazendo consigo o barulho das águas. Ficamos ali pelo menos uma hora esperando pela Kombi que só iria sair depois que todos os lugares estivessem tomados. Era como estivessemos na fronteira da chamada civilização. Nossa companhia eram duas mulas pastando e os dois ou três locais que tinham atravessado conosco sentados olhando para o nada. A balsa que veio a seguir trouxe outros aspirantes a hippie e mais um punhado de locais. O motorista apareceu do nada e com todos os lugares tomados, partimos. A estrada, meio de terra e meio de areia, passava por um mato fechado que abria para uma clareira, que me pareceu um campo de futebol. Logo depois dela subimos um morro e a Kombi parou na praça de terra batida da aldeia.

Já era fim de tarde quando descemos. Não tínhamos lugar para ficar, mas já no caminho um cara de São Paulo que já estava ali a três semanas tinha se oferecido para rachar um quarto naquela noite, já que seus amigos só iam chegar no dia seguinte. Pegamos nossas mochilas e saímos acompanhando ele até a casa. A dona, uma senhora da terra simpática com ar sereno e com cheiro de banho recém tomado, nos deu as boas vindas num sotaque bahiano charmosíssimo. Fomos para o quarto e assim que colocamos as tralhas no chão, agradecemos e saímos par dar uma volta de reconhecimento. 

Não havia luz elétrica na aldeia. Nunca tínhamos presenciado um anoitecer assim e ficamos encantados no ato. O fim do dia e a brisa fresca vinda do mar pareciam amalgamar tudo numa coisa só; a vista de praias selvagens que pareciam não ter fim e aquela aldeia encravada no topo do morro. 

Não havia carros, asfalto ou lojas propriamente ditas num raio de kilometros. As casas velhas e pequenas eram pintadas com cores vibrantes, fazendo a praça principal e as ruelas a sua volta parecerem uma pintura cubista. 

O lado de fora das janelas parecia integrado com a vida acontecendo do outro lado delas. As velas e as lamparinas flamulando nas casas eram bem mais aconchegantes do que as lâmpadas elétricas às quais estávamos acostumados na cidade e cuja agressividade destruiria o zen daquele anoitecer. 

*

No dia após nossa chegada, achamos um quarto na área destinada aos visitantes menos endinheirados. Eram cabanas erguidas às pressas em torno de um terreno baldio, logo atrás das construções originais. Seus proprietários eram gente das cidades próximas investindo no futuro da aldeia onde a eletricidade estava programada para chegar possivelmente no ano seguinte. Havia bastante deles começando a perceber o potencial para o turismo do lugar. Alheios a tudo, jumentos, vacas magras e cães de rua pareciam gostar do isolamento dessa parte da vila, talvez porque os veranistas os deixassem em paz. 

Conforme fomos conhecendo os moradores do lugar melhor fomos vendo que, tal qual os menos favorecidos nas grandes cidades, tinham dificuldades para colocar comida na mesa. Só que comparados com moradores de favelas, o povo d’Ajuda parecia mais saudável, mais harmonizado às cercanias e em paz com a vida. Já havia sinais de “progresso”. Ao redor da praça tinham aberto um ou dois bares destinados aos visitantes, também pertencentes à pessoas de fora. Mesmo assim, a infraestrutura era básica, não havia água encanada e os preços da hospedagem e da alimentação eram ridiculamente barato. 

Na semana seguinte, ficamos sabendo que o Gabeira tinha alugado uma das acomodações caras e isoladas de frente à praia. Apesar de não se misturar conosco, meros mortais, era frequentemente visto com sua tanga fio-dental, às vezes só, às vezes acompanhado por um ou outro seguidor dedicado. Embora vê-lo causasse uma certa comoção, o ex-guerrilheiro-tornado-estrela parecia fazer questão de não interagir com ninguém. Resolvemos ignorá-lo também. 

Em contrapartida, depois de alguns dias já éramos amigos – ou pelo menos conhecidos – de todos, tanto os locais quanto os outros visitantes. Nossa rotina diária era divina. Acordávamos no meio da manhã e íamos direto até um restaurante natural para tomarmos um café composto de banana amassada com calda e aveia. Com a barriga cheia e o corpo se sentindo bem do mar e do sol do dia anterior, pegávamos a trilha de areia que levava à praia pelo meio do mato selvagem. Lá, passávamos o resto do dia jogando futebol, frescobol ou vôlei, caminhando pelas praias desertas e conhecendo pessoas novas. Uma das melhores facetas d’Ajuda era que os locais não nos viam como máquinas de sacar dinheiro, mas sim como convidados ilustres e ficavam na sua. Às vezes, um ou outro passava vendendo banana frita, água ou cerveja. Se a gente quisesse comprar com ele, beleza, mas se não, ficava no seu canto curtindo a praia na sombra e apreciando discretamente a beleza generosamente exposta das visitantes da cidade grande.

O sol era tão forte que as poucas nuvens que vinham do oceano eram bem-vindas. Havia pancadas de chuva ocasionais que nunca duravam mais do que quinze minutos. Quando derramavam sua agua, todos na praia corriam para o mar para sentir os pingos doces molharem seus rostos com o resto do corpo protegido pela água salgada, morna e calma.

No fim da tarde, a gente retornava ao vilarejo para se reunir atrás da velha igreja da cidade. O sol se punha devagar no oceano por tras do vale coberto pela mata se transformando em uma gigante bola alaranjada, suas cores colorindo o mar e o céu azul-escuro. Após um dia inteiro de sol forte, o corpo castigado, mas refrescado, pela água salgada recebia com carinho o sopro de ar quase frio do fim de tarde. Às vezes, havia uma roda de capoeira, onde os caras demonstravam suas habilidades enquanto os outros em volta cantavam e batiam palmas ao toque do berimbau.

*

O único lugar com água corrente ficava numa caverna com uma fonte natural cuja existência os vilarinhos atribuíam a um milagre. Na entrada havia uma estátua de Nossa Senhora d’Ajuda em frente da qual os veranistas tinham que esperar sua vez em fila segurando suas toalhas e seus apetrechos de banho. Já o banheiro era o maior do mundo, o mato.

Depois de nos livrarmos do sal grudento nas águas da santa, voltávamos à cabana para colocar um short seco, uma camisa e os chinelos. De lá, com fome, mas nos sentindo ótimos, íamos comer os pratos feitos que as mulheres da aldeia vendiam nas portas de suas casas: peixe frito, arroz, feijão e farinha. Satisfeitos, estávamos animados para as festas improvisadas nos poucos bares e botequins do lugar. Dentro deles, as lamparinas de querosene colocadas nas mesas conferiam uma aura de antiguidade, projetando sombras espessas sobre as paredes e nos clientes. Eu, como vários outros, tinha trazido o violão e nossos sons improvisados eram a trilha sonora que animava as noites. Quem chegava tinha que afinar com quem já estava lá.

“Acho que o Lá não afinou, dá para ouvir de novo? ” Dava uma torcida na ararracha, conferia de novo. “Valeu!”

“Conhece a levada de Frevo Mulher? É fácil, começa assim; em Fá sustenido menor e depois sobe para sol, aí fica num vai e volta e depois desce para mi menor. Entendeu?”

“Acho que sim.”

A percussão não precisava de afinação. “Zinho, a batida é de frevo, tá pronto?”

“Vambora!?”

“Vamo!”

O som começava e a energia entre os tocadores decolava. Não era só frevo, era afoxé, samba, rock, blues, funk e o que mais desse na telha. A gente ficava feliz quando as garotas mais bonitas se levantavam para dançar e isso era a regra. Às vezes, um outro instrumento aparecia do nada com um alguem que tocava muito. Estas novas adições; flautas, saxofones, violões, ou mesmo percussão eram sempre bevindas e faziam com que o som tomasse um rumo especial. Várias sessões terminavam com o povo dançando e cantando músicas que todos haviam criado juntos na hora. 

A lua era tão radiante que podíamos descer até a praia como se estivéssemos fazendo uma caminhada à luz do dia. Lá embaixo, a areia clara e brilhante, a espuma branca, o som das ondas e do vento nos uniam à natureza de uma forma intraduzível. O céu limpo, juntamente com a inexistência de luzes elétricas por quilômetros, fazia com que as constelações se destacassem de uma maneira que nunca tinha visto antes. A coisa mais impressionante eram as estrelas cadentes que volta e meia cortavam o firmamento. Sentávamos na areia durante horas, conversando e tocando violão. Quando retornávamos à vila e entravamos de volta nos bares, era como se o calor humano emanando das pessoas lá dentro renovasse a energia colhida na praia.

*

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Samba Perdido – Capitulo 16 – parte 02

O hotel Sol de Ipanema era o único de frente para o mar na Avenida Vieira Souto. Ele ficava quase na esquina com a Rua Montenegro – mais tarde renomeada de Rua Vinicius de Moraes. Era em frente dele que minha turma de amigos mais caretas; Mauricio, Jaime, Hélcio, Davi, Leo e companhia pegavam sua praia. Apesar de todas as minhas transformações, ainda era colado com eles. Aquele ponto era para lá cômodo; quase na saída da rua que caminhava de casa para ir a praia.  

Numa manhã ensolarada de sábado, ali com a praia ainda vazia, Davi e eu estávamos sentados na beira d’água descansando do bodyboard. De repente um cara magro mas com um corpo bem definido, por volta dos 40 apareceu na nossa frente e começou a jogar frescobol numa tanga fio-dental de crochê escandalosamente minúscula. O cara até que jogava bem, mas depois de um tempo de ficar olhando para aquilo ligeiramente incomodado, virei para o Davi e perguntei.

“E aí, Davi? Quer de natal uma tanguinha como a do teu amigo?”

Davi nem se dignou a responder, mas passado alguns minutos a cara dele acendeu. Ele me cutucou e cochichou no meu ouvido, “Rique, aquele não é o Gabeira?”

Davi estava se referindo ao jornalista Fernando Gabeira, um dos exilados mais famosos que, em 1969, tinha se envolvido no sequestro do embaixador americano no Rio, Charles Elbrick. A sua autobiografia O que é Isto, Companheiro?  era leitura obrigatória. Todos tinham lido, inclusive eu. Era um relato na primeira pessoa de como tinha sido o mundo das organizações de luta armada. Nele, descrevia como tinha se envolvido naquela situação, como tinha participado do sequestro do embaixador americano, como tinha sido o cativeiro do diplomata e como finalmente tinha sido preso. Depois, relatava sua estadia na prisão, sua troca junto com alguns companheiros por um outro figurão estrangeiro e na sequência, sua vida no exílio. 

O livro virou polêmico na esquerda brasileira porque, além das críticas tanto à metodologia quanto aos objetivos da luta armada, o ex-militante confessou que durante aqueles tempos heroicos tinha sido ativamente bissexual. Lançando esse escândalo na veia jugular da militância, agora exposta como retrógrada ao invés de vanguardista, surfando na onda da fama, Gabeira abriu um caminho alternativo de resistência ao regime e à burguesia, que denominou “política do corpo”. O que ele realmente quiz dizer com aquilo é ainda hoje motivo de debate. Só sei que um receituário para revolução prescrevendo honestidade consigo mesmo, rejeição à imposições de qualquer lado e pregando o sexo livre caiu bem em Ipanema.

“Sei não, Davi, só vi a recepção dele no aeroporto na televisão. Não dá para dizer, mas pela tanguinha é capaz.”

“Tenho quase certeza que é. Vou dar uma olhada na contracapa do meu livro quando chegar em casa, tem uma foto dele lá.”

De noite, Davi me ligou confirmando a identidade do cara da tanguinha, era o Gabeira mesmo. O mais estranho é que devia ter um fotógrafo na área seguindo o ex-guerrilheiro, porque no dia seguinte, jornais de um lado a outro do país estamparam suas capas com uma foto do ex-guerrilheiro em seus trajes mínimos bebendo mate gelado, em frente ao Sol de Ipanema.  

*

As praias do Rio tinham – e ainda têm – uma programação e uma demarcação territorial rígida. Isso permitia a qualquer um dizer: “Diga-me quando e onde você toma sol que eu te direi quem és.” Agora, de madrugada os pescadores de Copacabana – que também pescavam em Ipanema – dividiam o mar com surfistas. Na areia, praticantes de Yoga e Tai Chi solitários meditavam sob os primeiros raios de sol enquanto corredores e ciclistas se exercitavam no calçadão. Mais tarde, da mesma forma de quando era criança, a posse da praia passava às famílias, incluindo crianças, mães, avós, babás, cães e todos os outros componentes da vida doméstica brasileira. Depois das nove da manhã o surfe era interditado. Quando tinha onda, o mar era dos pegadores de jacaré e a tarde o domínio voltava aos surfistas. Nos fins de semana, por volta do meio-dia as famílias voltavam para casa e daí para frente, tanto as pessoas que chegavam como as que ficavam faziam as subdivisões da praia mais interessantes.

Havia o local para os fisiculturistas e para os lutadores de Jiu-jitsu. Claro que havia um local para os yuppies. Outro segmento era uma extensão da cena gay. Havia um point para os surfistas, uma área para os favelados, uma para a as “patricinhas” e os “mauricinhos” endinheirados, outra para as profissionais do sexo – não coincidentemente a mesma para os turistas – e uma área reservada para os jogadores de futebol e suas comitivas de fãs e puxa-sacos. 

O local da praia onde tínhamos visto o Gabeira, inicialmente conhecido como o Sol de Ipanema, era o Posto Nove, ou simplesmente o Nove – o nome derivado da estação de salva-vidas número nove que ficava em frente ao Hotel Sol de Ipanema. 

Fazia pouco tempo que traineiras e guindastes tinham cortado a onda da galera das Dunas do Barato demolindo a estrutura do Pier de Ipanema. Depois que a foto do Gabeira de tanga percorreu o Brasil inteiro, o Nove herdou o status de Woodstock carioca. Por décadas a área seria o reduto dos seguidores das ideologias e dos estilos de vida dos anos 1960 e 1970. Aquela era a praia dos artistas, dos músicos, dos atores e dos intelectuais – tanto os já estabelecidos quanto os que viriam a se firmar e os que nunca iam dar em nada. Alguns diziam que os Beatles haviam profetizando sobre aquele trecho das areias de Ipanema na sua música mais estranha: Revolution Number Nine.

Com a chegada da abertura política, bandeiras dos partidos de esquerda recém-legalizados passaram a balançar sobre as cabeças dos frequentadores em meio à bagunça sob o céu azul. Enquanto a festa-praia tomava corpo, os garotos da barraca do Batista corriam de um lado para o outro levando garrafas de cerveja em isopores e as caipirinhas mais saborosas das praias do Rio.

O cheiro constante de cannabis no ar era abençoado por um acordo tácito entre a polícia e a galera do Nove: uns não davam trabalho para os outros; os frequentadores se restringiam àquela área e em contrapartida os policiais não vinham encher o saco ali. Contudo, durante campanhas eleitorais, o acordo às vezes era quebrado sob a pressão de candidatos conservadores. Só que quando as batidas aconteciam, a galera afugentava os polícias com vaias e na confusão todos enterravam os flagrantes o que fazia com que prisões fossem raras.

Mas não era só a fumaça que caracterizava o local. Sempre havia rostos famosos curtindo sua praia de fim de semana, os gays que iam lá eram mais desinibidos e volta e meia haviam casais se beijando abertamente, um ultraje na época.

Foi lá também que aconteceram as primeiras tentativas de topless urbano no país. Contudo, não demorou muito para que o Nove se visse avançado demais para a caretice do país. Quando as meninas tiravam a parte de cima do biquíni, atraiam a curiosidade indesejada de um pessoal que não pertencia à área. Homens com uma atitude medieval; muitos deles jovens, alguns até aspirantes a surfista, favelados, marombeiros, pais de família branquelos e barrigudos, se aglomeravam empurrando uns aos outros para espiar aqueles peitos corajosos no céu aberto com uma mistura de fascínio e de repúdio. Muitas dessas confusões acabavam com uma chuva de areia em cima das beldades ou com intervenção policial. Uma vez, um sujeito que estava com elas resolveu tomar suas dores. Ele se levantou, baixou o calção e fez com que seu pinto encolhido pela água dissipasse a urubuzada na hora. Talvez essa fosse a política do corpo que nunca cheguei a entender.

*

Conforme os novos frequentadores foram tomando conta do pedaço, meus amigos passaram a se encontrar em outro ponto da praia, mas eu fiquei. Embora rejeitassem a “erva maldita”, o Davi e o Hélcio acabaram entrando na minha onda. Os dois também não tinham muito saco para seus papos caretas e, como eu, estavam cientes de que rolava mais possibilidades de sexo com as malucas do Nove do que com as meninas caretíssimas que tinham se juntado à nossa turma.

Eu conhecia outras pessoas que frequentavam a praia ali: os malucos do Colégio Andrews, gente que tinha conhecido na balada e nos shows e membros da esquadrilha da fumaça da Escola Americana. Não era preciso marcar de se encontrar com ninguém, só era necessário comparecer. 

O Nove era um clube. Conhecidos ou não, passávamos o dia conversando sobre mulheres, música, cinema, futebol e política. Quando o sol ficava muito forte ou se o papo ficava chato, havia o oceano em frente nos convidando para dar uma renovada. Tomávamos longos banhos de mar, “pegávamos jacaré” quando as ondas estavam boas ou jogávamos frescobol quando não. As meninas que interessavam também iam lá. A paquera e os olhares fatais não cessavam entre as toalhas estendidas na areia. 

Na hora que o sol começava a se pôr, a areia esvasiava e o clima se tornava intimista e sereno. O Nove se tornava mágico, não só por causa da beleza da praia com a luz do sol mais branda, mas também por causa da quantidade de gente bonita, jovem e situada. Havia uma paz derivada de um dia bem aproveitado ao ar livre, os corpos curtidos pelo sol, amaciados pela água salgada e agora envoltos pela brisa do fim de tarde.

Nos melhores dias, a praia terminava com todo mundo aplaudindo o sol de pé enquanto ele desaparecia no horizonte ao lado do morro Dois Irmãos. Depois disso, todos seguiam seus próprios caminhos, normalmente indo para casa para tirar um cochilo antes de sair para alguma festa ou um show sobre os quais todos tinham conversado mais cedo na praia. Neles, aquela tribo de almas livres e bronzeadas se re-congregava.

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Samba Perdido – Capítulo 16 – parte 01

Capítulo 16

 

“Apesar de você

amanhã há de ser outro dia. “

Chico Buarque

 

O Teatro Tereza Rachel em Copacabana, era uma das principais casas de shows do Rio no final dos anos setenta. Estava sempre lotado. Quase todos se apresentavam lá: Rita Lee, o Terço, Raul Seixas, A Cor do Som, Vímana – a banda de rock progressivo em que Ritchie, Lobão e Lulu Santos começaram – Moraes Moreira, Belchior, Alçeu Valença, Joelho de Porco, João Bosco entre vários outros. Não me lembro de quem era o show do qual estava saindo, só sei que com meus ouvidos ainda zunindo do volume ouvi alguém dizer.

“Caralho! Mataram o John Lennon a tiros em Nova York! Tá dando aqui na rádio!”

“Que é isso, tu tá maluco!?”

“Não! Tão dizendo aqui que um psicopata atirou nele quando estava saindo de casa!”

Todos ficaram em silêncio. Ninguém conhecia o cara, talvez estivesse de sacanagem. Mesmo assim, fomos para casa com aquilo rodando na cabeça. Na manhã seguinte, os jornais confirmaram. Naquele dia o planeta parecia estar de luto. Mais que um artista, John Lennon representava uma postura uma promessa, como que podia ter terminado daquela maneira? E por quê? 

Na televisão repórteres no Brasil inteiro e no exterior entrevistavam pessoas comuns nas ruas e artistas famosos, todos com olhos lacrimejantes. Para mim, essa separação final dos Beatles parecia, de alguma forma inexplicável, ter conexão com a minha experiência na subida para o Noites Cariocas e com uma outra notícia – a prisão de alguns amigos de escola por posse. Para completar, havia o drama familiar da repentina separação entre Sarah e seu noivo de longa data. Era como se uma onda de mudanças negativas estivesse encobrindo a todos.

Por outro lado, no contexto mais amplo havia uma onda de mudanças mais positiva. A classe média brasileira estava começando a reconhecer que a falta de alternativa para o regime militar era um problema. A gota d’água tinha sido a prisão, a tortura e o assassinato mal disfarçado como suicídio em 1977 do jornalista Vladmir Herzog, em São Paulo. Isto tinha desencadeado uma onda de indignação e protestos sem precedentes pelo país. Pela primeira vez depois do AI-5, várias lideranças políticas, culturais e mesmo religiosas haviam expressado suas consternações. Esquecendo o medo, quase todos os veículos de comunicação tinham publicado estes protestos.

Havia mais. Agora que ninguém podia em sã consciência temer que o maior país da América Latina se tornasse um satélite soviético, o status dos generais brasileiros no exterior havia mudado. Apesar dos Estados Unidos ainda estarem apoiando ditaduras sanguinárias no Chile e na Argentina, seus lobistas e especialistas em America latina tinham passado a ver a ditadura desengonçada e corrupta do Brasil como um embaraço desnecessário.

Sentindo a mudança de atitude de seus apoiadores, tanto dentro como fora do país, os militares tomaram medidas conciliatórias. O gesto mais significativo acabou sendo justamente a concessão de anistia para a maioria dos exilados e dos prisioneiros políticos. Mesmo que isso os tenha ajudado a permanecer no poder por mais tempo, este gesto e a abertura política que veio a seguir foi uma vitória da oposição e marcou o início do ciclo democrático mais longo que o país viria a vivenciar. 

De volta ao Brasil, do dia para a noite, os dissidentes políticos passaram de assunto tabu a celebridades com status de herói. Estavam toda hora nos jornais, em programas de entrevistas na televisão e suas memórias se tornaram best sellers. Lendo-as, descobrimos que muitos, tais como a gente, eram jovens típicos da classe média carioca que tinham se deixado levar pela agitação política do seu tempo. 

Descobrimos também que alguns haviam passado períodos treinando como guerrilheiros em Cuba e em outros lugares fora do país. A seguir, discretamente se infiltraram no Brasil, onde pegaram em armas, assaltaram bancos e sequestraram gente importante. Depois que suas organizações foram reprimidas e ficou claro que a resistência armada à ditadura tinha fracassado, os que sobreviveram foram obrigados a repensar, no exílio ou na prisão, seus conceitos sobre militância e sobre como se posicionar num mundo sem revolução.

Após os festejos pelo seu retorno, tomando um rumo parecido com o adotado pelos artistas exilados, muitos dos anistiados se reintegraram à vida do país com agendas mais práticas. A maioria usou sua recém-adquirida popularidade para progredir na política convencional. José Genoíno, Fernando Gabeira e Carlos Minc, por exemplo, se tornariam senadores ou ministros enquanto Dilma Rousseff seria eleita presidente. Outros ex-exilados ocuparam lugar de destaque no processo de redemocratização. Entre eles o político veterano Leonel Brizola o ex governador do Rio Grande do Sul que viria a ser o governador do Rio de Janeiro, seu companheiro de chapa, o lendário antropólogo Darcy Ribeiro, o ex e futuro governador de Pernambuco, Miguel Arraes, assim como outros políticos mais ao centro, como o futuro presidente sociólogo Fernando Henrique Cardoso e o futuro líder do PSDB, José Serra. 

Apesar de admirarmos todos e nos deleitarmos nas ondulações criadas pelos ventos democráticos, havia questões de identidade. A militancia heróica tinha se tornado uma coisa do passado. Mesmo assim, queriamos as mesmas coisas pelas quais tinham sacrificado a sua liberdade e, em alguns casos, a própria vida. Apesar da conquista da abertura política, a desigualdade econômica e o aparelhamento antidemocrático do estado continuavam. Sem intimidade com a democracia, achando que só uma revolução resolveria, do nosso ponto de vista estes ídolos estavam retornando ansiosos para se juntar a um sistema ao qual, pelo menos ideologicamente, estávamos resistindo. Era decepcionante ver muitos deles usando, sem um pingo de vergonha, o seu passado de lutas para promover suas carreiras num rumo que não tinha nada a ver com suas intenções iniciais.  

Deveríamos aceitar sua liderança, dar tudo por encerrado e concluir que éramos inúteis? Estava claro que para eles esse era o caso. Para nós a pergunta que não queria calar era a de como se posicionar. A ditadura havia simplificado as coisas; a escolha tinha sido entre ser a favor ou contra o regime. Dependendo do lado que você estava, você podia jogar a culpa por todos os males do mundo nos generais ou nos comunistas. Com o fim do governo militar agora no horizonte, havia novos desafios. As pessoas já não se sentiam tão convictas de suas opiniões e pareciam não saber lidar com as sutilezas da liberdade. Levaria algum tempo para que o país atingisse um estado de maturidade política.

Alguns copiaram os retornados e entraram em partidos convencionais, principalmente no recém-criado PT, o Partido dos Trabalhadores, uma das poucas opções de resistência preenchendo o vácuo existencial dos progressistas naqueles dias. O partido não tinha nada a ver nem com a resistência glamorosa dos ex-exilados e dos ex-presos políticos, nem com a postura anti-imperialista da Revolução Cubana. Proveniente de sindicatos na periferia de São Paulo, seu objetivo era proteger os direitos e os salários dos trabalhadores nos moldes do Partido Trabalhista Britânico quando começou.

Eu e alguns amigos até chegamos a ir em algumas reuniões para ver como é que era. Porém, por não termos nem “pedigree” operário nem “pedigree” na militância tivemos uma recepção fria. Na hora que a militância de raiz via cabeludos bronzeados da Zona Sul entrando no recinto, pensavam ou que eramos imbecis ou que eramos o inimigo. Nos outros partidos “underground” a rejeição era igual ou pior. Eram elitistas às avessas, herméticos e exigentes demais com seus novos recrutas. Os únicos “burgueses” bem-vindos nessas organizações ou eram celebridades ou era gente bem conectada que podia trazer votos e respeitabilidade, o que não era o nosso caso. 

Talvez não tínhamos maturidade para aquilo. Perdemos o tesão pela política. O conceito de eleições livres com partidos profissionais voltados para eleger quadros e exercer mandatos era difícil de digerir. Por outro lado, para os que eram contra a abertura política, o conceito de aceitar reveses eleitorais se provaria um de difícil assimilação. Para mim, acreditando que a luta deveria ser pautada na melhoria dos padrões de vida de cada indivíduo e não de uma classe, faltava a utopia e a visão humanista nos novos partidos. Está certo que vencer eleições e se organizar era fundamental, pero sin perder la ternura.

Naqueles tempos de reconstrução democrática só uma coisa parecia clara: os militares iriam tentar se agarrar ao poder por mais tempo que fosse possível. Com uma crise econômica no horizonte, todos sabiam que quando chegasse a hora de largarem o osso, o país estaria nas últimas. Isso colocava duas perguntas urgentes: em que estado o Brasil estaria e como seria a vida sem eles? 

*

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Samba Perdido – Capítulo 15 – Parte 02

Foto de Magno Lima.

A melhor casa noturna do Rio, o Noites Cariocas, ficava no primeiro dos dois morros do Pão de Açúcar, o Morro da Urca. As hordas de turistas vindos do mundo e do país inteiro que passavam por ali de dia não podiam imaginar que nas noites de sexta e sábado aquilo ficava abarrotado de gente querendo festa. O lugar era fantástico. Artistas variados, de Caetano Veloso e Gilberto Gil a Egberto Gismonti, se apresentavam no seu anfiteatro a céu aberto coberto por árvores com o público sentado, ou soltando a franga, no chão e nas plataformas ao redor do semicírculo à sua frente. Nos intervalos e depois dos shows, ligavam o som mecânico e o lugar virava uma pista de dança.

As noites estreladas e a brisa do oceano pontuavam a magia. Saindo do palco central, vários caminhos levavam até a beira do morro por entre a vegetação rala. As filas de postes de luz iluminando a orla e delineando os contornos das ruas, os edifícios cercados por morros escuros e, do outro lado do morro, o mar aberto refletindo a lua faziam do Rio de Janeiro uma obra de arte tridimensional.

A alquimia daquele banquete visual fazia o ponto ideal para atrair o sexo oposto. As garotas se tornavam irresistíveis. Nem todas eram da Zona Sul e a maioria jogava no time das cautelosas. Mesmo assim, quando chegava a hora de ganhar elas no papo, a aura romântica à meia-luz, um flertezinho aqui e uma cervejinha ali operavam milagres.

*

O lado frustrante desta e das outras descobertas que fiz nos tempos o Colégio Andrews era minha magra mesada que não arcava com as despesas com ingressos para shows, “bagulho”, boates, cervejas e idas ao cinema. Isso sem contar as coisas normais do dia a dia: passagens, lanches na escola, entre outras coisas. O item mais caro da lista era exatamente o Noites Cariocas. A solução da malandragem era pular a portaria subindo o morro a pé ao invés de pagar o ingresso ao pegar o bondinho, a unica forma legal de se chegar lá. Apesar de não ser iluminada, a trilha era fácil.

O porém era que havia surpresas indesejadas no caminho. Feito caçadores à espera da presa, policiais e seguranças ficavam de tocaia esperando que caras como eu aparecessem para extorquir um suborno. No caso dos seguranças, os desembolsos eram para que pudessemos seguir na trilha. No caso dos policiais, eram para que não nos levassem para uma delegacia onde nos indiciariam por posse de maconha real ou fabricada. Caso lhe pegassem e você não tivesse dinheiro algum, eram brutais. Uns camaradas da escola caíram na cilada, e por não terem dinheiro suficiente, em vez de prender todo mundo, os guardas os forçaram a tirar a roupa e voltar para casa pelados.

Apesar desse perigo, escalar a entrada do Noites Cariocas daquela maneira sempre tinha sido tranquilo, até uma noite especial.

Era fim de mês e minha mesada tinha secado. Porém, uma de minhas bandas favoritas, A Cor do Som, ia se apresentar. O único jeito de ver o show era a trilha. Daí fui subir com um amigo, o Márcio, sob a luz da lua cheia. Na metade do caminho, cruzamos com um grupo descendo que nos falou que o caminho estava “sujeira”, querendo dizer que havia policiais escondidos em algum lugar mais adiante.

Determinados, decidimos pegar uma rota alternativa, normalmente utilizada somente de dia por escaladores experientes. Apesar da nova trilha ser “limpeza”, a decisão se revelou insensata. Só percebemos o perigo quando já era tarde demais: do nada, de repente nos vimos tendo que atravessar um trecho com uma queda livre de 200 metros na pedra bem embaixo dos nossos pés.

Quando estávamos quase lá, meus sapatos de festa perderam aderência e escorreguei. Por um milagre inacreditável uma raiz saindo daquele paredão imenso parou minha queda depois de alguns segundos de desespero. Era o único, ainda que pequeno, pedaço de vegetação saindo daquela rocha num raio de 50 metros; se tivesse escorregado um pouco mais para lá ou um pouco mais para cá daquele ponto, teria sido meu fim.

Isolado naquele paredão maciço, dava para ouvir a música saindo a poucos metros acima e um pessoal gritando que alguém tinha caído. Para o alto havia uma rocha vertical e para baixo havia um precipício. Com meus pés mal tocando a raiz daquele abençoado, ainda que mínimo, tronco, me forcei a olhar para cima e a me concentrar em como sair dali vivo, um reflexo adquirido em situações perigosas no bodyboard em ondas grandes. Coloquei meus sapatos nos bolsos e consegui, não sei como, escalar a pedra descalço.

Quando ressurgi uma galera veio perguntar se estava tudo bem. Enquanto respondia que sim e calçava os sapatos, um segurança abriu caminho, me agarrou pelo braço dizendo que ia me entregar para a polícia. Levantei, me livrei e o desafiei.

“Meu irmão, não vou para delegacia nem pelo caralho, não está vendo que eu quase morri?!”

Um sujeito que tinha acompanhado o drama emendou: “Isso mesmo, larga o cara, eu vi! Ele quase caiu lá embaixo, não tem nada a ver levar o rapaz!”

Uma menina se juntou e foi mais contundente. “Vai ganhar a vida honestamente, seu otário! Vai pedir propina para ele agora?”

Tinha umas quinze pessoas protestando e um monte de curiosos chegando junto. Um outro segurança se aproximou, mas com tanta pressão tiveram que ceder.

“Tá bom! Tá bom! Não vai ter delegacia, mas ele vai descer no bondinho agora.” Eu queria continuar o protesto, mas a oferta era justa e a galera pareceu aceitar.

Na ida para o bondinho pensei no Márcio que devia ter sumido com medo de ser pego também.

“Tu tem sorte garotão, o último que a gente pegou aqui a gente encheu de porrada.”

A gente chegou na estação e ficou esperando em silêncio até o próximo bondinho estar pronto para descer. O cara da portaria veio perguntar o que estava acontecendo.

“A gente ia levar esse para a delegacia, mas ele teve sorte.”

“Como assim? Por quê?”

“Depois a gente explica.”

Antes da porta fechar, o que tinha me liberado falou: “Tu teve muita sorte, playboy, agradece a Deus e dorme bem.”

Fiquei pensando naquilo, nem zangado, nem arrependido. Dadas as circunstâncias, só podia agradecer ao meu Criador por estar vivo e vendo o terminal ficando para trás no céu escuro enquanto a Praia Vermelha, lá embaixo, se aproximava. Para além do que está escrito nos textos sagrados e nos livros de filosofia, para além do que dizem padres, rabinos e mulás, para além da própria razão, acreditava – como ainda acredito – na existência de um Deus onipotente que tinha decidido que aquela não tinha sido a minha hora. O porquê, nunca vou saber, mas uma boa conduta é o mínimo com o que posso retribuir.

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Samba Perdido – Capítulo 15 – Parte 01

Capítulo 15

 

“Vida louca, vida
Vida breve,
Já que eu não posso te levar
Quero que você me leve.”

Vida Louca - Cazuza

 

De volta às aulas, descobri que a fama no violão tinha chamado a atenção da turma dos aspirantes a músico. Naqueles tempos de rock and roll, esta era uma casta importante na escola. Tinha ouvido falar que se encontravam regularmente para levar um som e e estava doido fazer parte. No início, impuseram uma distância por não saberem bem qual era a minha mas quando um deles finalmente me convidou, fiquei para lá de amarradão. Nas sessões fui percebendo que todos eram igualmente ávidos para aprender e absorviam tudo que podiam uns com os outros. Todos gostavam de rock, mas ninguém tinha nada contra experimentar com jazz progressivo e ritmos brasileiros. Paradoxalmente, apesar de ser visto como meio estrangeiro, meu interesse estava mais para o batuque do que para a levada da guitarra distorcida. Havia aqueles que eram melhores de solos, outros que, mais parecidos comigo, conheciam mais acordes e criavam levadas interessantes, alguns tocavam bateria, outros teclado, baixo e instrumentos de percussão como bongôs e atabaques.

Haviam varios subgrupos. O ponto de encontro da turma que me acolheu era a casa do Fernando, ou Fefo, que morava numa cobertura no Leme com uma vista fantástica da praia de Copacabana. Por algum motivo, ele e seu irmão mais velho viviam sem os pais, o que fazia daquele apartamento de dois andares uma zona livre. Nas terças e quintas, com a desculpa de ir estudar, a gente se reunia para tocar no quarto reservado para aquilo. Ele era ideal, espaçoso, cheio de almofadas confortáveis espalhadas pelo chão de madeira. Havia duas janelas grandes com grades de metal em estilo art déco lindíssimas que emolduravam a vista do Morro do Leme. Um dos membros da banda do Júlio, o irmão do Fefo, guardava seu amplificador lá. Sempre coberto de pontas de cigarro, copos sujos e garrafas de cerveja vazias, ele servia como o único móvel do quarto.

O som começava com a gente mostrando as últimas músicas e riffs que tínhamos aprendido ou criado. Quando os outros curtiam a novidade, todo mundo ia atrás, dando ideias e adicionando o que podiam. A atitude era parecida com a que tínhamos em relação ao futebol – aquilo era uma pelada musical. Queríamos aprender, curtir, sem nenhuma pretensão de formar uma banda.

Nos finais de semana, Júlio e seus amigos se juntavam à gente. Eles tocavam melhor e sempre traziam uma fartura de “bagulho” bom. Antes de qualquer coisa, enrolavam uns baseados que de tão gigantescos só davam para “pilar” com o dedo. Quando aqueles charutos chegavam ao fim, vinha uma chapação que parecia durar uma eternidade. Ficavamos feito zumbis olhando o cachorro, Pepe, balançar o rabo, latir e nos cutucar com suas patas tentando nos trazer de volta à vida. Volta e meia alguém o segurava e soprava a fumaça para dentro da sua fuça para ver se sossegava, mas, que me lembre, isso nunca funcionou.

Com um esforço sobre-humano, alguém finalmente conseguia se arrastar até o outro quarto onde a gente deixava os instrumentos. Um ou dois iam atrás e começavam a tocar alguma coisa. Aos poucos todos iam entrando e pegando os instrumentos. Com energias renovadas, atingíamos zonas de inspiração esotéricas de onde surgiam uns sons mucho locos. Algumas criações faziam a moçada ir ao delírio, outras faziam a gente cair na gargalhada. No dia seguinte ninguém conseguia se lembrar ou reproduzir nada que tinha acontecido, só sabíamos que tinha sido muito bom. Coisas da madame Cannabis Sativa.

*

Quase que sem perceber passamos à categoria dos doidões da escola; malditos, porém respeitados pelo espírito livre e contestatório. Para os menos simpáticos, éramos um bando de “porra-loucas”, todos fadados a se dar mal na vida, mas e daí? Quem estava falando eram eles ou o medo de levar porrada dos pais? Ainda que não nos víssemos como nem uma coisa, nem outra, os considerávamos caretas. Acreditávamos que, ao contrário deles, sabíamos das coisas e que havíamos descoberto a fórmula de gozar nossas existências sem as paranoias da burguesia. Independentemente de estarmos certos ou não, a divisão era clara e ninguém era de ficar em cima do muro.

Conforme as diferenças foram aumentando, fomos criando nossa própria subcultura. Nela, quem tinha a moral de comprar maconha na favela, atingia um status mais elevado. Resolvi ver qual era. A primeira boca de fumo que visitei foi no Cosme Velho, conhecida como “os trilhos”. Ela ficava logo no começo da linha do bonde que levava turistas ao Corcovado. Daquela vez, todo mundo tinha contribuído com alguma grana, mas fomos somente eu, o Juca e o Pitéo, um cara do ano acima que já tinha ido lá e sabia como lidar com o pessoal do “movimento”, ou pelo menos dizia que sabia.

Descemos no ponto final do ônibus perto da entrada para o Túnel Rebouças e fomos até um caminho na beira da Floresta da Tijuca. O Pitéo pediu para a gente dar o dinheiro e ficar esperando ali.

“Qual é Pitéo? Vai fugir com a nossa grana?”

“Não é isso, mané, os caras me conhecem e não gostam de muita gente chegando ao mesmo tempo.” Ele tinha se ofendido. “E tem mais, não precisa dar a grana agora. Fica com essa porra! Os caras vão descer para entregar o bagulho e aí a gente paga.”

Depois disso, subiu a ladeira cheio de si e sumiu na curva dos trilhos. Ficamos esperando por uns dez minutos que pareceram uma eternidade. Nosso colega voltou nervoso, dizendo que o “vapor” estava vindo logo atrás e que tínhamos que dar a grana agora. Logo depois, um mulato magro de short, chinelo e sem camisa apareceu na curva, olhou para a gente e fez um sinal. Pitéo subiu lá e passou o dinheiro discretamente. Em contrapartida, o cara olhou em volta para ver se não havia ninguém espiando e passou os papelotes de dentro da cueca para a mão do nosso camarada. Depois da entrega, o cara subiu apressado e o Pitéo desceu fingindo ser um morador tranquilo do bairro. Quando chegou, abriu a mão sem falar nada e mostrou as trouxinhas, cada uma pesando dez gramas. Cada um pegou a sua. Depois disso atravessamos a rua e subimos no primeiro ônibus nos sentindo como soldados voltando de uma operação bem-sucedida.

*

O risco me deu uma infusão de adrenalina e eu queria mais. A partir dali, frequentemente era eu quem ia lá para comprar para o pessoal. Um dia, o “vapor” de plantão disse que não tinha nada naquele dia.

“Tá a maior seca, meu irmão!”

Cocei a cabeça sabendo que a galera ia ficar desapontada se chegasse de mãos vazias. Queria fazer bonito com a Soninha, uma menina em quem estava de olho.

Havia dois outros “fregueses” na mesma situação. Um deles perguntou: “E lá no Morro dos Prazeres? Será que tem?”

“Lá é capaz de ter, eles estão esperando um carregamento do bom, mas não tenho certeza se chegou ainda.” O cara olhou para cima e apontou para o mato do outro lado do vale. “É lá em cima daquele morro, vocês sabem como chegar lá?”

Um dos outros dois respondeu: “Eu sei, bora lá?”

“Bora!”

A gente virou para o traficante. “Valeu pelo toque, meu irmão!”

“Valeu! Na semana que vem volta aqui que tem.”

Descemos os trilhos e fomos rumo ao morro do lado oposto do trânsito. Cruzamos a rua e depois que a calçada acabou, tomamos uma trilha que primeiro seguia ao longo do tráfego pesado em direção ao Túnel Rebouças, mas que depois adentrava mato acima. Subimos e no topo do morro chegamos num campo de futebol onde garotos estavam batendo bola. Cruzamos o campo. Por saberem o que a gente estava fazendo ali, continuaram com a sua pelada sem nos dar atenção. De lá, passamos por entre os barracos até chegarmos no final de uma viela. Do alto dos telhados à nossa volta, um pessoal da nossa idade mantinham guarda. No fim do beco, havia uma espécie de quintal e um barraco de frente para o mato. Um mulato alto e magricelo com um revólver na cintura saiu para falar com a gente.

“Aê, playboys, estão procurando alguém?”

Tentando disfarçar nossa apreensão, dissemos da maneira mais calma possível que queríamos comprar cinquenta gramas.

“Ah, é pra isso!” Já dava para ver que o cara estava chapado e estava adorando estar tirando uma onda com a nossa cara, uma péssima combinação para alguém com uma arma na cintura. “Espera aí.”

Ele voltou à porta do barraco e gritou para alguém que estava lá dentro: “Aê, Geraldo, tu já separou aquele tijolo?”

A voz gritou de volta. “Ainda não, o patrão falou que só precisava para hoje à noite.”

“Hoje à noite não dá, mané, já tem freguês aqui fora.”

Ele virou para nós fazendo um gesto para a gente esperar e entrou no barraco. Dois minutos depois, o cara voltou com um baseado enorme na boca e um tablete de dois quilos da coisa debaixo do braço. Aquilo era maior do que vários tijolos de alvenaria juntos – a maior quantidade do produto que já tinha visto na vida.

“Isso chegou hoje de manhã, é paraguaio, prensado, bom pra caralho. Já viu tanta maconha junto?” Ele levantou a mão calejada e ofereceu o cigarro improvisado. “Experimenta aí, playboy!”

Não dava para recusar. O que ele disse era verdade, era do bom e imediatamente sentimos o efeito, mas o medo era demais para relaxarmos a guarda. “Podes crer, é bom!”

Enquanto fomos passando o baseado em silêncio, ele foi separando nossa parte no olho. “Isso aqui é cinquenta gramas, é para dividir por três?”

A gente se olhou e concordamos que sim. Depois que os papelotes estavam prontos, nós entregamos o dinheiro.

Ele gritou para dentro: “Aê, patrão, os fregueses pagaram, quer conferir?” Ele se virou para nós e levantou as sobrancelhas como se dissesse que aquilo era chato, mas tinha que ser feito.

Um cara mais velho, negro e mal-encarado, saiu do barraco e sem falar uma palavra contou o dinheiro e verificou se os pedaços para a gente estavam certos.

“Tá tudo certo, pode liberar. ” Já com o dinheiro na mão, ele pegou o baseado, deu uma baforada e relaxou. “Vocês se deram bem! Essa porra aí chegou fresquinha hoje de manhã e é boa pra caralho.” Ele se voltou para mim e deu uma risada. “Olha só a cara desse maluco, já tá doidão!”

Depois daquela confraternização, colocamos os papelotes na cueca, nos despedimos e fomos embora. Passamos pelos becos enlameados separando as paredes de tijolos dos precários barracos. Apesar de ser minha primeira vez numa favela, não estava com medo. Talvez por causa do efeito e da descontração da despedida, o povo e o local pareciam familiares e passamos desapercebidos.

Quando saímos, percebi que estávamos em Santa Teresa, o bairro às margens da Floresta da Tijuca. Dali, subimos num dos seus bondes e partimos rumo ao Centro da Cidade. O sol estava se pondo e o odor doce das árvores flutuava por entre os bancos de madeira do carro velho e amarelo chacoalhando conforme passava pelas casas coloridas que caracterizavam o bairro histórico.

Longe da Gê, estava de novo em estado de graça, me sentindo de férias, mas com saudades dela. Depois que o bondinho chegou ao seu destino final, seguimos cada um por seu caminho através da selva de concreto do Centro da Cidade.

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