por Richard Klein | 24 out, 2020 | Crônica, Opinião, Política
Independentemente da consciência existencial-política, não passava de um garoto pré-universitário da Zona Sul carioca. 1980 seria um ano não só de muita curtição, mas também de contradições. A mais estranha dessas incoerências era que fazer parte do clube de músicos doidões teve um efeito positivo em meus estudos. Não tinha problemas para dormir, não tinha sequelas de stress e, apesar da loucura quase diária, meu estado de espírito era bem mais equilibrado do que o dos colegas caretas. Além disso, quando resolvia estudar, conseguia absorver as matérias.
A nível de galera, com alguns de nós mandado bem no violão e sabendo lidar com a malandragem das ruas melhor do que estudantes comuns, deixamos de ser vistos como os esquisitos da escola para nos tornarmos a galera descolada. As nossas festas eram as melhores e mesmo as garotas mais bonitas começaram a nos notar.
No meio do ano escolar mais puxado de nossas vidas, surgiu uma nova Meca: a região de Visconde de Mauá, uma coleção de pequenos vilarejos rurais aninhados na Serra da Mantiqueira entre o Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. Quando era criança, a família costumava passar temporadas rurais por lá. Muitas das pousadas tinham sido erguidas por imigrantes do velho continente. Isso e o ar mais temperado faziam com que os arredores lembrassem a Europa Central onde Rafael havia crescido. Ele adorava desfrutar as férias lá com seus filhos de uma maneira parecida com a que passara sua própria infância. Íamos juntos para ver as vacas sendo ordenadas e outros afazeres rurais de manhã bem cedo. Sempre que encontrava uma oportunidade ele parava numa porteira para nos explicar a vida na fazenda, apontando para galinhas, vacas, porcos, perus, ovelhas e outros animais e dizendo como deveriam ser criados.
No começo dos anos 1980, Visconde de Mauá havia mudado muito. Ainda havia famílias indo passar o verão e fins de semana prolongados nas suas pousadas, mas em geral a região tinha se tornado refúgio para os únicos hippies autênticos que ainda existiam no Brasil e talvez no mundo. Com seus cabelos longos e descuidados, suas roupas não convencionais caindo aos pedaços e estampadas com motivos indianos, desenhos de cogumelos alucinógenos e de folhas de cannabis, eram alienados para valer; totalmente fora da sociedade, loucos demais até mesmo para nós.
Suas cabanas tinham um ar de tendas celtas, com desenhos psicodélicos, retratos de Jimi Hendrix, Janis Joplin e John Lennon espalhados nas paredes, ao lado de referências a viagens lisérgicas, letras de músicas e o sempre presente símbolo hippie. Sua intensidade evocava talvez os últimos ecos de Woodstock. Para nós, conviver com eles era como fumar a ponta de um baseado acendido por gigantes num passado neolítico.
Mauá ficava cerca de quatro horas do Rio e nos feriados chuvosos e sem praia, não havia dúvida para onde ir. As montanhas, as florestas e os rios nos faziam sentir próximos de nossos heróis do rock inglês, ou pelo menos do visual das capas de seus discos. Em uma de nossas idas, conseguimos levar algumas garotas da escola. Lidar com membros do sexo oposto na mesma frequência intelectual que a gente era uma enorme novidade. O que era ainda mais constrangedor, é que podiam estar interessadas em nós. Quando as levamos para conhecer uma cachoeira e elas ficaram de topless, nós encaramos sua iniciativa de forma madura conseguindo manter nossas bocas fechadas e sem babar.
À noite, de volta ao acampamento montado no Vale do Pavão, acendemos uma fogueira, abrimos garrafas de vinho e compartilhamos a comida enlatada. O bem-estar do banho forte e gelado na cachoeira tinha aberto nosso apetite. Apesar da comida horrível, o vinho, e principalmente o fogo, criaram uma atmosfera especial. Depois da janta, fomos até as barracas, tiramos os violões de suas capas e nos preparamos para tocar.
“Porra Kristoff, esse baseado está todo babado, toma cuidado!”
“Meu irmão, foi você que apertou ele frouxo demais de novo, coloquei a goma para ver se ele não abria. ”
“Nunca pensei que você fumasse também Leninha, muito bem!” Depois de provavelmente ter dado uma de babaca misógeno, dei uma risada sem graça. “E aí? Está curtindo Mauá?”
“Muito legal aqui, lindo, sem sítios, rústico, adoro coisas assim.”
Uma das outras meninas, a Tetê, falou: “E então, vocês não iam fazer um concerto para a gente? Cadê?”
“Aê! Vamos levar Stairway to Heaven para elas.”
Era uma do Led Zeppelin, fácil demais, quase apelativa, mas a gente sabia que elas iam curtir. Logo na abertura da música, a flauta transversal do Kristoff ressoou no silêncio da mata. Por ser o único som na redondeza, foi uma viagem. A música evoluiu de um estilo medieval para um rock mais pesado. Não conhecia a letra inteira, mas enrolava num inglês convincente.
“There’s a lady who knows, all that glitters is gold…”
O primeiro número foi um sucesso e dava para ver que tinham adorado. Se fôssemos espertos, teríamos parado ali ou tocado só mais uma, talvez Time do Pink Floyd. Mas não, encorajados pela receptividade, partimos para uma improvisação meio jazzística e dali a coisa desandou. Para a gente, os acordes, as levadas e os solos eram um bate-papo sofisticado e emotivo ao qual a gente já estava acostumado. Para as garotas, aquela era uma linguagem que não entendiam e que as fizeram se sentir excluídas. A ideia original era a de impressioná-las, mas o resultado não poderia ter sido mais diferente: elas ficaram olhando umas paras as outras, se perguntando o que diabos estava acontecendo.
Eu era o tipo de cara que nunca sabia quando uma garota estava dando em cima dele, mas apesar da leseira, podia perceber que havia uma tensão rolando entre a Leninha e eu. Embora fosse cara de pau com meninas que nunca tinha visto na vida, era tímido demais com as que conhecia e isso impediu uma aproximação direta naquele contexto. Contudo, tive a malícia de colocar meu saco de dormir ao lado do dela na barraca, pensando que quando ela entrasse, a seguiria imediatamente e uma coisa acabaria levando a outra. Por conta da nossa viagem musical, só a primeira parte saiu de acordo com o plano. Leninha foi para a barraca dormir antes de acabarmos. A segunda parte nunca aconteceu. Quando, horas depois, me deitei ao seu lado e tentei acordá-la, ela não respondeu e fiquei com medo de como reagiria se insistisse.
Na segunda noite, o frio tinha se tornado insuportável. Esquecemos a bobagem roqueira anglo-saxã e um dos caras foi até a Maromba – o vilarejo hippie que ficava próximo – para ver se havia algum lugar para a gente ficar, mesmo que tivéssemos que alugar. Depois de três ou quatro horas, ele voltou com boas notícias: tinha encontrado um quarto, um quarto apenas, para oito de nós e fomos para lá felizes.
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por Richard Klein | 17 out, 2020 | Brasil, Opinião, Política
Capítulo 20
“E vou cantar entre os cristais azuis do tempo e perceber
A terra longe, longe a se perder.”
Som Imaginário
O vestibular, a prova que definiria nosso futuro e o nosso valor para a sociedade, estava esperando na esquina. Esse rito de passagem preocupava até os mais inveterados membros da “esquadrilha da fumaça” do Colégio Andrews. Apesar do nervosismo na escola e em casa e além da obrigação de justificar o dinheiro gasto na nossa educação, nos perguntávamos onde iríamos parar depois que passássemos por aquele portal se passássemos. A sensação era que Molloch, o deus monstruoso do aparato militar industrial capitalista, retratado por Allen Ginsberg no seu genial poema Howl, estaria nos esperando do outro lado, vampiresco e impessoal, escravizador e envenenador de tudo e a todos com seu piche de enquadramento e resignação.
Era como estivéssemos enjaulados aguardando ser soltos para um futuro de animais de elite adestrados, sangue novo num ciclo de oferecer força vital em troca de mercadorias desnecessárias. Como engolir a máxima arbeit macht frei – o trabalho constrói a liberdade – escrita nos portões de Auschwitz e enraizada no pensamento ocidental, martelada em nossas cabeças por professores, mídia, filmes e, acima de tudo, por nossos pais?
Embora não fossem, de forma alguma, nazistas, nossos educadores acreditavam que a única maneira de escapar à injustiça inerente ao mundo era trabalhar duro para se tornar uma peça bem remunerada de Molloch. Como nas histórias de vampiros, sabíamos que no momento em que nos tornássemos “um deles”, não haveria volta e reproduziríamos o servilismo de dezenas de gerações passadas. Por mais que nos esforçássemos, o dinheiro ganho jamais compraria nem liberdade nem felicidade. Os únicos que teriam direito a isso seriam os que nem precisariam se esforçar ou se preocupar já que fortunas familiares lhes garantiriam blindagem.
Sem dúvida, num país onde o acesso às universidades era um privilégio de poucos, essas opiniões eram resultado de uma mistura de educação sofisticada com tempo disponível para ler e refletir. Contudo, esta situação confortável propiciava uma distância necessária para discernir claramente a máquina que movia o mundo. Ela estava ali nos esperando, sólida e impassível e mostraria suas garras assim que ingressássemos no mercado de trabalho. Embora o vestibular não fosse a parada final, era o portal para um posto avançado. A vida depois dali viraria séria, em outras palavras estaríamos seriamente ferrados. Isso se passássemos, se não passássemos, a humilhação da ineptitude para servir Molloch seria insuportável.
A versão oficial sobre o que estava do outro lado do portal, era a de um mundo desfrutando a vitória do bem sobre o mal, onde as forças democráticas e socialistas haviam esmagado o nazismo. Nele, a humanidade estava a caminho de um lugar melhor, livre, repleto de avanços tecnológicos que garantiriam prosperidade a todos, a despeito da indevida oposição do comunismo totalitário.
O que tentavam ocultar desse mundo era a locomotiva que o guiava; as grandes corporações. Estas eram as provedoras dos bens e dos serviços que o caracterizavam. Para que a máquina funcionasse a seu jeito, demandavam governos que lhes passassem um cheque em banco. Governos voltados para o bem-estar de todos não interessavam.
A despeito do sucesso econômico durante a reconstrução dos países arrasados pela guerra, teóricos liberais, os sacerdotes de Molloch, se rebelaram. Estes diziam que o estado estava se metendo demais na economia e impedindo que a locomotiva funcionasse direito. Eles se esforçavam – e ainda se esforçam – para provar que os interesses das grandes fortunas e os das populações eram a mesma coisa. Sua lógica de mão única afirmava que sucesso do capital privado era fundamental para o bem-estar da população. O inverso não era verdade; o bem estar “em excesso” da enorme maioria seria nocivo ao bom funcionamento da economia. Baseado nessa premissa, quando havia descontentamento ou quando grandes interesses eram contrariados, a ordem estabelecida, detentora exclusiva do direito à violência, recorria à força. Vista dessa ótica, a democracia liberal era uma ilusão onde todos achavam que tinham escolhido viver em submissão.
Talvez por aprenderem de primeira mão sobre a brutalidade que seus pais e avôs sofreram em duas guerras mundiais na luta pela liberdade e pelos ideais democráticos, talvez por presenciarem diretamente as escolhas decepcionantes feitas pelas lideranças vencedoras na reconstrução de seus países, a geração que se seguiu, a dos babyboomers, viu além da versão oficial. Contando com mais gente cursando ou formada em universidades do que qualquer outra geração anterior, ela carregou o bastão da luta pela democracia verdadeira.
A luta agora era para prevenir que o triunfo dos aliados levasse no longo prazo a um servilismo sem questionamento, quase voluntário. Apesar do crescimento econômico forte durante a reconstrução, ficou claro onde os frutos mais suculentos iriam parar quando aquele ciclo terminasse: no andar de cima. No fundo, nada tinha mudado. Era preciso desmascarar a farsa e sacudir as estruturas para que um mundo realmente melhor viesse depois da carnificina das guerras. Para essa geração ficou claro que planeta inteiro sofria dos mesmos problemas. O mal ia muito além de ideologias, países ou raças pintados como adversários. O mal estava na maneira como a estrutura tinha sido montada e era gerida e nas manipulações que faziam com que a humanidade aceitasse, sem nenhum questionamento ou resistência, que uma ínfima minoria se impusesse.
Este questionamento se espalhou como fogo pela juventude educada. As possibilidades que eles vislumbravam nas suas preferências para reconstruir o mundo poderiam ser a rota de saída de um legado de guerras, ditaduras, perseguições, fome, genocídio e outras coisas horríveis deixado por múltiplas gerações.
Na América Latina e em outros países do Terceiro Mundo a situação no pós guerra era mais complicada ainda. O discurso de que o triunfo dos aliados significou uma vitória contra a injustiça e a tirania, encorajou a luta contra o imperialismo, e revoltas populares como a Revolução Cubana. No entanto, ao sul do Equador, a contradição entre o discurso e a prática dos aliados criou vários absurdos onde as elites apoiavam ditaduras em nome do chamado “mundo livre”.
Naquela nossa mistura de consciência com inocência acreditávamos que ainda era possível pegar a saída para o mundo descrito por John Lennon em sua música Imagine, onde todos viveriam em função do presente, sem fronteiras e sem diferenças. A saída apontando para o vestibular e o que seguiria depois era o portal para um pesadelo.
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por Richard Klein | 10 out, 2020 | Brasil, Comportamento, Crônica
Depois de uma longa espera sozinho na arquibancada, uma voz grave e formal surgiu nos alto-falantes anunciando as bandas e o patrocinador do evento. Depois disso, apagaram as luzes e o estádio ficou parecendo uma caverna gigante cheia de morcegos por causa dos milhares de assobios. Alguns segundos mais tarde, o palco se acendeu e o Weather Report começou tocando Birdland, uma de nossas favoritas, com a lenda viva, Jaco Pastorius, fazendo o solo inicial.
Aquele momento pareceu seguro para acender a preciosidade. Duas garotas bonitas que estavam sentadas ao meu lado pediram um “pega”. Não recusei e o espetáculo começou a parecer promissor.
Na metade da segunda música, em êxtase harmônico, notei o policial de uma entrada sair caminhando para falar com um colega na outra. Ele foi beirando a arquibancada, mas quando chegou na minha frente, começou a subir abrindo caminho pelos espectadores.
Quando vi aquilo, pensei: “Caralho! O cara está vindo me prender!!”
A única coisa que consegui fazer foi tentar me livrar do baseado com um movimento rápido de dedos. Não fui muito feliz e ele acabou se quebrando ao meio. Uma parte voou longe mas um pequeno pedaço caiu perto do meu pé. O policial chegou na hora H, pegou o flagrante, me algemou e saímos desfilando pela multidão até o lado de fora da arena.
Na saída do anel do ginásio, nervoso, com raiva e chapado como estava, ouvi a besteira sair da minha boca como se outra pessoa estivesse falando por mim.
“Meu irmão, tu tá fodido porque esse flagrante não é nada e não tenho grana nenhuma para te dar.”
O policial ouviu mas não se deu o trabalho de responder. Ele continuou a me empurrar por um longo corredor cheio de outros guardas até que chegamos numa sala grande e iluminada. Lá, a polícia militar já detinha mais de quarenta pessoas. Logo que entramos, ele me deu um forte murro na barriga.
“Tá pensando que tu pode me comprar, seu babaca! Quero ver você dizer a mesma coisa quando vierem para te enrabar na cela!”
O estômago sempre havia sido meu ponto fraco em brigas, mas devido à adrenalina, não senti nada. Segurando o cassetete na minha cara, o policial vasculhou meus bolsos mas não encontrou nada. Porém, ele ficou com minha carteira de identidade e a entregou para seu superior.
“Sargento, peguei esse jovem fumando maconha no estádio. Também houve desacato à autoridade.”
“Tem flagrante?”
O policial passou a mini ponta já desfeita. Era ridículamente pouco para levar alguém preso, mas os caras eram campeões em fabricar provas. Atrás de uma escrivaninha, o sargento me encarou, examinou o documento e preencheu um formulário. Depois, colocou a ponta num saquinho de plástico, grampeou junto com os papéis e me olhou de novo.
“Sabe o que isso aqui significa? Cana!”
Engoli a seco, e não querendo dizer o mesmo tipo de besteira que tinha falado antes, respondi olhando para baixo:
“Sim senhor.”
“Me explica o desacato, cabo. ”
“O infrator deu a entender que eu aceitaria propina para que não fosse detido.”
O sargento continuou me olhando impassível. “Bom serviço, cabo, agora volte ao seu trabalho.”
O mulato magro, de bigode, com uma cara invocada saiu da delegacia improvisada. O sargento se voltou para mim. “Vai lá e fica com os outros, a gente só vai levar vocês depois que o show acabar.”
Com as palavras “levar vocês” ecoando na cabeça, fui me juntar aos meus novos companheiros espalhados pela sala. Conversando com outro detido, descobri que havia três tipos de pessoas lá dentro: os que tinham sido pegos pulando para a plateia, maconheiros e dois assaltantes. Era evidente quem eram; eles estavam algemados e sentados no chão junto a um grupo de policiais. De vez em quando, um se virava e lhes dava um chutão violento com as botas de couro antes de retomar à conversa como se nada tivesse acontecido. O resto de nós ficou fazendo de conta que aquilo não estava acontecendo enquanto quebrávamos a cabeça para encontrar uma saída para a situação.
Aquela era uma jurisdição diferente da Zona Sul. Mesmo que tivesse alguma grana, os policiais não estavam com cara de quem aceitariam suborno e até a sugestão poderia ser um erro grave, como já tinha percebido.
Após uma meia hora ali, um argentino magro com um cavanhaque desgrenhado começou a puxar conversa com um novo sargento que tinha vindo render o que tinha me colocado ali.
“Sargiento, con todo o respecto, o señor acha corecto que yo tenga vindo desde Argentina para ver un show de música e me quedar preso en otro país por una cosa tán banal?”
Apreensivos pela integridade física do argentino, ficamos surpresos não só porque o sargento, um sujeito grisalho, mas em forma, respondesse educadamente, mas com inteligência. “Meu caro, eu tenho um filho da tua idade. Acredito que ele não fume maconha, mas espero que se saia tão inteligente e educado como você. Para falar a verdade, acharia errado ele estragar o seu futuro por causa de uma decisão errada. Mas veja bem, a gente não pode fazer uma exceção. A lei vale para todos. Se a gente deixar vocês irem, o mesmo vai ter que valer para um monte de marginais.”
“Mas e se o señor descobrisse que su filho fosse un alcoólatra, piensaria diferente?”
“Boa pergunta, mas uma coisa não tem nada a ver com a outra. Beber álcool, por pior que seja, não é contra a lei. Mas para te responder, tentaria entender o que levou meu filho a ficar assim e quem sabe o levaria a uma clínica. Mas entendo o que você quis dizer. Não posso comentar sobre a lei porque não sou eu que a fiz. Mas acho que a gente gasta recursos demais para reprimir jovens como vocês. Isso acaba muitas atitudes erradas dentro da corporação.” Quase não dava para acreditar no que a gente estava ouvindo.
Uma roda tinha se juntado em torno do sargento gente fina. Um brasileiro que parecia da Zona Sul se meteu na conversa, talvez precipitadamente.
“Então o senhor acha certo prenderem a gente?”
“Filho, veja bem, você conhece a lei em torno da cannabis?” O cara balançou a cabeça dizendo que sim. “Então me diz aí, o que diz a lei?”
O cara, meio pego de surpresa e meio sem jeito, teve que responder. “Ela diz, por razões incomprovadas e erradas, que fumar maconha é um crime.”
“Viu!? Você disse tudo sem eu precisar explicar. Vocês cometeram um crime, independentemente dos estudos e mesmo da verdade. O nosso dever é reprimir o crime e é por isto que vocês estão aqui. Quem resolve não cumprir a lei tem que arcar com as consequências, você não acha?”
O argentino respondeu. “E se a lei está errada, como vamos a cambiar esto?”
“Se ela está errada ou não, não é da minha nem da tua alçada, a lei está aí para ser cumprida.” Ele deu um sorriso inteligente. “Já imaginou se todo mundo resolvesse desrespeitar a lei e os prejudicados fossem vocês? Para onde vocês iam correr? Para a polícia! Estamos aqui para isso, para fazer a lei ser cumprida.”
A discussão continuou. Ele aceitou os argumentos de que os cigarros também eram tóxicos – talvez muito mais – porém circulavam livremente porque traziam milhões a seus fabricantes. O mesmo valia para bebidas alcoólicas. No entanto, os argumentos dele sempre voltavam à ladainha de que conhecíamos a lei perfeitamente bem e que nosso dever era respeitá-la. Chegou uma hora que até o argentino, certamente preocupado em se safar de ser preso em um país estrangeiro, percebeu que ganhar o argumento levaria a nada. O importante era manter a sua simpatia para sair dali o mais rápido possível.
Enquanto isso, podíamos ouvir o som abafado do show do outro lado da parede. Depois de algumas horas, os aplausos e o barulho pararam e o clima dentro da sala se tornou apreensivo. Um oficial de patente mais alta chegou e se sentou atrás da escrivaninha enquanto o sargento nosso amigo saiu. Depois de alguns minutos tensos, sem sequer olhar para nós, ele se virou para o seu assistente.
“Cabo, os infratores que foram pegos pulando para as cadeiras especiais podem ir para casa, o resto vai passar a noite na décima terceira.”
Meu coração chegou a parar. Já podia ver os policiais ligando para que meus pais fossem me tirar da cadeia e fiquei imaginando a sua decepção deles e as medidas draconianas. Depois que saíram, os que ficaram para trás sentaram no chão deprimidos, esperando o pior.
Depois de uma silenciosa meia hora que pareceu uma noite inteira, o oficial chamou seu assistente e também sem olhar para ninguém, falou.
“Cabo, pode dizer para essa cambada de maconheiro veado que eles podem ir para casa também.”
A gente não acreditou nem pensou duas vezes. Nos levantamos e fomos em direção à saída. Um dos policiais que estava dando bico nos ladrões, um baixinho metido a piadista, abriu a porta para a gente e falou: “Bonecas, é melhor sair batido antes que o capitão mude de ideia. ”
O capitão virou para os ladrões já cheios de hematomas. “Esses aí ficam, pode chamar a viatura.”
Quando cheguei no ponto de ônibus, me lembrei da carteira de identidade. Procurei nos bolsos e ela não estava lá. Entrei em pânico. “Seu imbecil!! Como é que você deixa a porra da carteira com a polícia!?”
Embora fosse estupidez demais para ser verdade, tive que voltar. Depois de perguntar um monte e passar por centenas de policiais, cães, carros e caminhões de transporte, finalmente achei a sala onde tinha ficado. Me sentindo um retardado, fui forçado a explicar a situação constrangedora.
O guarda que estava ali ouviu incrédulo. “Tem certeza, playboy? A gente nunca fica com os documentos.”
“A carteira não está comigo, a única possibilidade é que ela tenha ficado aqui.”
Meio sem paciência ele perguntou: “Você pelo menos se lembra do nome do oficial de plantão?”
“Acho que ouvi alguém chamando ele de Teixeira, mas não tenho certeza.”
“Ah, o Capitão Teixeira! Não sei se ele já foi, deixa eu ver se acho.”
Fiquei esperando na sala vazia por mais uns quinze minutos com um mistura de apreensão e de auto-aversão. Acabou que tinha lembrado certo. O capitão Teixeira, um cara grande, bronzeado, de cabelo raspado e com cara de traficante colombiano, entrou na sala e fez questão de me olhar de em cima a baixo com desprezo.
“Então, jovem, esqueceu a carteira de identidade aqui?”
“É, desculpa o incômodo.”
O capitão ignorou o comentário. “Não me lembro de ter deixado nenhuma carteira identidade aqui. Deixa eu ver.” Ele pegou uma chave e abriu a gaveta. “É, não tem nada aqui dentro e a gente não levou nada. Tem certeza que não está no teu bolso? Procurou direito?”
“Procurei, não está lá.”
“Procura de novo para eu ver.” O cara falou com uma autoridade que não dava para dizer não.
Procurei de novo e não é que a carteira estava lá!
“Achou?”
Envergonhado, tive que admitir o óbvio. “É, está aqui.”
O capitão não achou graça nem ficou puto, só virou para o cabo que estava com ele e disse. “Viu porque é que eu digo que fumar maconha faz mal? Dá uns troços desses aí.”
Ele virou para mim e pediu para cheirar meus dedos. “Não tem cheiro de nada nem deve ter flagrante, mas deixa de fumar essa merda, garotão! Isso só dá problema! Teus pais sabem?”
Eu respondi que não. Antes de me liberar ele me encarou e avisou: “Pensa bem no que eu vou te dizer. Dessa vez a gente só não levou vocês porque tinha gente demais. Na próxima, talvez você não tenha tanta sorte.”
…
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por Richard Klein | 3 out, 2020 | Brasil, Comportamento, Crônica
Capítulo 19
“E aqueles que foram vistos dançando
Foram considerados loucos por aqueles que não conseguiam ouvir a música.”
Friedrich Nietzsche
O último ano no Colégio Andrews era dedicado cem por cento a nos preparar para o vestibular. As aulas foram transferidas para um prédio separado com os alunos agrupados em quatro turmas – duas para ciências exatas, uma para área biomédica e uma para humanas. Agora, transformada em cursinho pré-vestibular, a escola era puro stress. Os métodos eram intensos, com professores nos bombardeando com segredos infalíveis para saltar a barreira colossal posta a nossa frente.
O programa da escola tinha uma boa reputação. Estudantes vindos de outras instituições no Rio bem como de mais longe se transferiam para. Um dos novos alunos que conheci tinha vindo do Chile. Ele tinha ido viver lá com a mãe quando os pais se separaram. Agora, na casa do pai, queria voltar a morar na sua terra natal e fazer faculdade lá.
Alguns dias depois do início das aulas, pegamos o mesmo ônibus e começamos a conversar. Por algum motivo, o papo acabou em Teresópolis e descobrimos, para nossa completa surpresa, que ambos tínhamos casas de campo vizinhas no fim de mundo do Jardim Salaco. Isso foi coincidência demais para a cabeça de qualquer um e ajudou a nos tornar melhores amigos instantaneamente.
Kristoff era de descendência alemã, parecia com o ator Jack Palance, só que de cabelo comprido e loiro. Além da origem europeia, tínhamos em comum o gosto pela música, ele tocava flauta transversal e se tornaria saxofonista profissional. Além disso, de alguma forma inexplicável, apesar de pertencermos à infame “esquadrilha da fumaça”, conseguíamos nos manter nos top quinze por cento quando havia testes preparatórios. Não demorou muito para que ele se juntasse à irmandade musical da escola, e em pouco tempo seu apartamento no final do Leblon se tornou o quartel general dos músicos marginalizados e afins.
Como aspirantes a instrumentistas, para nós, os gigantes do rock dos anos 1970, Pink Floyd, Led Zeppelin, Jethro Tull e Yes reinavam supremos nos nossos gostos, assim como os Beatles, os Rolling Stones e o Jimi Hendrix. Só que além deles curtíamos o jazz-rock mais recente, representado por uma geração de músicos brilhantes como a Mahavishnu Orchestra de John McLaughlin, Focus, Jean-Luc Ponty, Jeff Beck, Stanley Clarke e Weather Report entre tantos outros.
Tal como era o caso com outros aspectos da cultura jovem no Brasil, estávamos cerca de cinco anos atrás do que estava acontecendo na Inglaterra e na América do Norte, desconhecendo tanto o punk como o reggae. Não fazíamos ideia do que representavam em termos de resistência ao sistema, ao racismo e à caretice que tinham tomado conta do mundo anglo-saxão a partir de meados dos anos 70. De qualquer forma, suspeito que mesmo que tivéssemos tido conhecimento, ainda assim teríamos continuado ligados naqueles grandes mestres nos nossos instrumentos.
Havia vários talentos musicais locais de alto calibre surgindo. Nossos ouvidos estavam abertos para gênios como Hermeto Pascoal, Naná Vasconcelos e Egberto Gismonti que pareciam ser um fio condutor para o tipo de energia que tinha experimentado no sul da Bahia.
Se a bossa nova tinha sido o reflexo do otimismo do pós-guerra brasileiro, essa nova geração musical refletia um momento de autodescoberta e de renascimento vindo com o ressurgimento da liberdade política. Ainda que fossem exclusivamente instrumentistas, eram populares; seus shows lotavam e, por um curto tempo, eram os mais vendidos entre os consumidores mais antenados.
Dos três, Egberto era meu favorito. Seu talento começou a se manifestar na loja de instrumentos musicais de seu pai onde, ainda criança, demonstrava pianos aos clientes. Mais tarde, Egberto foi para a França estudar música clássica. Quando regressou, aplicou o conhecimento adquirido e seu talento à música brasileira, indo muito além da bossa nova. Entre outras coisas, Egberto mergulhou a fundo na música indígena, a ponto de ir aprender música sagrada com um pajé na região do Xingu onde usava música como forma para curar. A história conta que para Sapaim, o xamã-músico, aceitá-lo, Egberto teve que acampar do lado de fora de sua maloca isolada na selva por cerca de um mês até ser convidado a entrar. Talvez por causa do que aprendeu lá, os sons nos seus shows eram como uma entidade palpável que hipnotizava o público.
Hermeto Pascoal foi um menino albino nascido no sertão nordestino. Devido à sua condição, não podia trabalhar sob o sol escaldante, daí seus irmãos o trancavam em um estábulo onde canalizava sua frustração furiosa para a música. Os seus cabelos e barba brancos, longos e encaracolados e seus traços marcantes cobertos por óculos fundo de garrafa, conferiram a ele o merecido apelido de “Bruxo”. Sua banda, que mais parecia uma seita de instrumentistas fanáticos, morava na sua casa no bairro afastado de Bangú, no Rio de Janeiro. Quando tocavam, faziam sons insanos, não só com instrumentos, mas também com objetos do dia a dia como garrafas quebradas, serrotes e panelas. Em meio a essa loucura, entretanto, havia o gênio que criava sons celestiais lindíssimos nascidos dos mistérios de índios, africanos e europeus.
Desses três instrumentistas, o que alcançou maior sucesso internacional foi Naná Vasconcelos. A revista Down Beat, a mais importante do mundo do jazz, iria elegê-lo oito vezes como o melhor percussionista do mundo; ele também receberia oito Grammies. Vindo de Pernambuco, era o único afrodescendente dos três. Exalando ritmo por todos os poros, mestre no berimbau, tinha uma ligação íntima com a espiritualidade do Maracatu. Depois de uma contato rápido com os mineiros ligados a Milton Nascimento, o clube da esquina, conheceu o rock e a mistura acabaria levando sua percussão a níveis psicodélicos nunca antes imagináveis.
Egberto, Naná e Hermeto não eram, de forma alguma, as únicas expressões da música instrumental e experimental brasileira nos anos 1970. Havia também bandas como a Uakti, conhecida por usar instrumentos feitos à mão, pelos próprios membros do grupo. O nome Uakti vindo de um mito dos índios Tucano sobre um homem-instrumento. Haviam os jazzistas como Victor Assis Brasil, Hélio Belmiro e Wagner Tiso, além de bandas mais elétricas como A Cor do Som e o guitarrista Pepeu Gomes, ambos com origem nos Novos Baianos. Para qualquer um minimamente interessado em música essa foi uma época abençoada.
Após sua curta popularidade no Brasil, os três principais expoentes daquela geração sairiam de moda mas surgiriam como estrelas na cena do jazz internacional.
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O interesse pela música instrumental era tão grande, que promotores de eventos enxergaram a oportunidade. O Rio Jazz Festival, irmão carioca do Festival Internacional de Jazz de São Paulo, começou em 1978, apresentando nomes consagrados internacionalmente como o guitarrista Joe Pass, o trompetista Dizzy Gillespie e o saxofonista Dexter Gordon, o guitarrista da Mahavishnu Orchestra, John MacLaughlin bem como músicos brasileiros que estávamos ouvindo.
O problema era o local: o Maracanãzinho, o mesmo lugar que tinha acolhido os festivais da canção no fim dos anos 1960 e início dos 1970. A acústica era péssima. Grandes nomes do rock, como Alice Cooper, Rick Wakeman e Genesis haviam tocado lá, mas o eco tinha transformado a música deles em ruído.
Apesar dos problemas de qualidade, a “esquadrilha da fumaça” tinha que estar presente. Como os ingressos eram caros, só tínhamos dinheiro para um show. Escolhemos a noite de encerramento, com o Weather Report, a banda do melhor baixista de todos os tempos, Jaco Pastorius, seguidos por outra estrela do baixo, Stanley Clarke. O grandfinale ficaria a cargo de Jorge Ben junto com a bateria da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel, a melhor do Rio de Janeiro, e convidados especiais.
Os assentos eram divididos entre os mais em conta, na desconfortável arquibancada na parte de cima, e os mais caros perto do palco. Lá, o público mais endinheirado podia ouvir o show com mais clareza sentado em cadeiras numeradas. Claro que tínhamos os ingressos mais baratos. Só que assim que entramos no ginásio, percebemos que era fácil pular para a parte de baixo. Todos fizeram isso, só que quando chegou a minha vez, um policial bateu nas minhas costas e me mandou voltar para meu lugar. Ainda que tenha ficado só, estava com nosso precioso baseado reservado especialmente para o show, sobrevivente das dificuldades financeiras do mês anterior. Quando sentiram sua falta, me chamaram lá de baixo e ficaram implorando para que jogasse o bagulho.
Falei que não ia rolar: “Os caras agora estão de olho em mim, não vou pular e o beck fica comigo.”
“Rique, deixa de ser veado e joga essa merda!”
“Cara, essa é a minha compensação por ficar sozinho aqui na roubada.”
“Porra! Todo mundo comprou junto e você vai ficar com ele sozinho!?”
“Grita mais alto que é pros “homi” ouvirem melhor.”
Voltei para o meu lugar nas arquibancadas e deixei os caras reclamando, provavelmente se segurando para não me chamar de judeu ruim de transa.
*
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por Richard Klein | 26 set, 2020 | Brasil, Crônica, Literatura
Muito antes da chegada dos hippies nos anos 70, Trancoso tinha sido uma missão para a conversão dos índios Pataxó. A modesta, porém charmosíssima, igreja voltada para o continente era testemunha daquele tempo. Junto com a formação geométrica do quadrado à sua frente ela remetia a uma ordem disciplinatória. A floresta cheia de vida que a rodeava, parte integrante do espírito da tribo, continuava intacta. Ela era o Éden de onde os portugueses tinham os expulsado. Garantidos por pólvora e chumbo, os missionários convenceram a tribo a trocar seu paraíso por outro imaginário onde só chegariam depois que morressem, sob condição que rejeitassem quem eram, a posse de suas terras – um conceito que não fazia sentido para eles – e aceitassem um status servil num novo mundo empurrado goela abaixo. As únicas coisas que tinham restado eram seus descendentes ocidentalizados que ainda viviam nas reservas espalhadas pela região e os filhos da miscigenação espalhados nos vilarejos. Por mais deprimente que fosse, a situação lá era melhor do que a dos grandes centros urbanos onde há muito tinham desaparecido.
Talvez refletindo o legado de missão ainda misturado com o espirito originário, talvez pela beleza mítica dos arredores, para o pessoal de fora, Trancoso, naquele verão, parecia um campus onde estavam aprendendo a viver. Essas pessoas ou eram fugidas das cidades grandes morando lá há um tempo, ou eram mochileiros e veranistas bem informados atrás de uma experiência especial. Não havia a onda de Gabeira – se ele tivesse parado lá, provavelmente não teria suportado ser considerado mais um, principalmente se descobrissem que por trás do auê se escondia um papel secundário na luta armada e muita sagacidade mercadológica. Um outro fator positivo do vilarejo era que, com a possível exceção do seu Manoel que tinha me acolhido, ainda não havia gente de cidades vizinhas explorando os visitantes e tirando vantagem em cima dos locais.
O dia a dia não era muito diferente do de Ajuda. As diferenças eram que o banho era com a água dos poços nas casas dos pescadores e que, fora o pessoal da terra, não havia um careta lá. O lugar onde nos reuníamos no fim do dia era igualmente atrás da igreja e de frente para o mar. Só que lá não havia roda de capoeira nem a necessidade de muita conversa. A energia e a harmonia já eram o suficiente.
O que tornava Trancoso em geral, e aquele ponto em específico, mais especial do que Ajuda era a sua simplicidade mágica. Não havia muros, cercas, bancos ou qualquer outra coisa para turistas. Entre nós e a praia deserta lá embaixo, havia apenas a grama bem cuidada que acabava no penhasco. Depois havia um trecho curto de mato, a areia e o oceano infinito se estendendo em frente. No cair da tarde e à noite, a parede caiada construída séculos atrás refletia a luz do sol e depois a da lua feito uma tela de cinema.
Com certeza, antes de serem convertidos à religião dos brancos das caravelas, os Pataxós deviam se reunir naquele mesmo lugar para cantar e dançar para seus deuses nos seus festivais. Aquele solo ainda guardava algo de sagrado, mesmo com uma igreja construída em cima como uma declaração de quem ia mandar dali em diante. Por causa do ar cristalino, o lugar dominava uma região de dezenas de quilômetros. Dali dava para ver a costa inteira para os dois lados. À noite, o único vestígio de civilização eram as luzes fracas de Porto Seguro, ligeiramente visíveis no canto mais longe do horizonte à esquerda.
Quando a lua cheia chegou, sabíamos que ela ofereceria um espetáculo único. Como sempre, ficamos no escuro à sua espera atrás da igreja curtindo o céu estrelado e as estrelas cadentes tão comuns na região. Cerca de duas horas depois do sol se pôr, ela apareceu como uma enorme bola prateada subindo no fim do oceano. Éramos em torno de dez pessoas e ninguém se atreveu a estragar o momento dizendo bobagens. Ficamos admirando a sua aparição com a reverência e o silêncio de quem presencia um sinfonia de primeira categoria. Seu reflexo era fortíssimo e foi criando uma faixa brilhante na água. Conforme a lua foi subindo por trás das nuvens flutuando na mesma altura que a gente, elas foram se iluminando, primeiro por de trás e depois por cima, fazendo com que lembrassem pequenos montes de algodão. Suas bases eram planas; parecia que um artista meticuloso as tivesse cortado. A poucos metros da água, lançavam sombras espessas sobre a claridade forte vinda do prateado lunar.
Enquanto contemplava aquela maravilha, o universo me trouxe a clareza de que a saúde, a água que bebemos, o ar que respiramos, as belezas do mundo, o amor e as amizades, enfim, a vida, eram presentes dados a nós sem que tivéssemos que dar nada em troca. Não estávamos em outro planeta, estávamos atrás de uma pequena igreja em Trancoso, perto de onde a colonização do Brasil começou. Aquele momento não era um sonho. Toda aquela abundância do aqui e do agora podia se perpetuar eternamente se apenas aprendêssemos a dar valor ao que temos em comum. Eu desejei que aquela clareza – certamente taxada de lunática pela maioria esmagadora dos habitantes do planeta – nunca passasse.
*
As últimas três semanas passaram num piscar de olhos. Depos que me familiarizei com a cabana, em pouco tempo tinha descoberto um atalho para a aldeia que evitava o rio e tudo ficou tranquilo. Não houve aventuras amorosas, não que faltassem beldades maravilhosas, mas a concorrência era com caras mais velhos, todos com profissões, mestrados e passados mais interessantes que o meu. Até o violão ficou meio calado; a gente levava uns sons, mas era para nós mesmos. As festas eram mais comedidas, o pessoal era mais reservado, em suma, não seria errado dizer que a turma de Trancoso era mais seleta. Ficar tocando demais para os outros nos faria parecer os bardos bobos da corte.
A hora de voltar para a realidade da vida urbana foi chegando. O dinheiro tinha praticamente acabado e não dava para a passagem de volta. As opções eram ou ligar para casa de Porto Seguro pedindo uma transferência emergencial ou voltar de carona. Por sorte, perguntando para o pessoal, consegui uma com uns caras que estavam voltando para São Paulo. De uma maneira inacreditável, tinham chegado em Trancoso num fusca por uma trilha pelo meio da floresta que nunca tinha ouvido falar.
No dia da volta, na despedida, todo mundo ficou dizendo que a gente era maluco de pegar aquele caminho. Depois de alguns minutos de conforto naquele Fusca insalubre, assim que entramos no mato, ficou claro que estavam certos e que a trilha não era destinada a carros. Toda hora tínhamos que descer e empurrar a bagaça através da lama ou guiar o Paulão, o motorista, para evitar buracos e raízes, ou tirar troncos caídos na frente.
“Aí não, Paulão, tem um puta buracão do meu lado, meu! Não tá vendo!”
“Caralho belo! É mesmo! Sai todo mundo do carro! Ampara ele deste lado aqui porque a gente está quase capotando.”
Foram horas aos trancos e barrancos até que a trilha evoluiu para algo que lembrasse uma estrada de chão. Gradualmente ela foi se tornando mais larga e gado, jegues e pequenos casebres começaram a aparecer dos dois lados. Finalmente, depois de passar por Ajuda, chegamos até a balsa para Porto Seguro. Lá, entramos numa pequena fila de carros e ficamos esperando para embarcar.
“Orra meu! Essa merda está civilizada demais. Vamos ali no mato ali fumar um!”
Quando nossa vez chegou, atravessamos em silêncio com um nó na garganta de estar indo embora daquele paraíso. Do outro lado do rio já havia asfalto e a estrada que nos levou em nossa longa jornada para casa.
Cheguei de volta ao Rio ainda sob o feitiço de Trancoso. Era difícil encarar o fato de que havia uma batalha crucial para passar no vestibular à espera. Havia uma outra que tinha me dado: queria me reconciliar com meus pais. Estava ciente de que a cada baseado, a cada levada de som, a cada nova amizade, mergulhava mais fundo num mundo que nem Rafael nem Renée podiam sequer começar a entender. Me perguntava se era possível reverter a situação.
Essa guerra de reconciliação nunca resolvida se provaria muito mais difícil do que a do vestibular. O jeito britânico era o de varrer tudo para baixo do tapete. A atitude judaica, mais pragmática, ignorava o lado poético da vida. A procura por uma verdade pessoal não fazia sentido – a solução era esquecer aquelas bobagens, baixar a cabeça e fazer a coisa certa: estudar. A batalha continuou, surda, muda, solitária e dolorida, deixando feridas e sequelas dos dois lados.
…
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por Richard Klein | 19 set, 2020 | Brasil, Crônica, Literatura
Capítulo 18
“Terra…
Por mais distante, o errante navegante,
Quem jamais te esqueceria?”
Caetano Veloso
O novo destino ficava a uma caminhada de duas horas e meia pelas praias desertas. Sob o sol escaldante, encarei aquilo com as tralhas nas costas. Esse era o único caminho possível, não havia estrada nem trilha, e só dava para ir na maré baixa, já que na alta um trecho ficava perigosamente submerso. Já integrado no ecossistema, sabia a que horas ir e me safei do apuro.
O fim da andada era uma estradinha sem sinalização que subia pelo meio do mato até um plateau. A aldeia, cercada pela floresta tropical, consistia de uma formação retangular de cabanas em torno de um campo de gramado enorme e bem tratado. No final do tapete verde em frente do mar, fechando o que todos chamavam de quadrado, havia uma igreja colonial caiada dominando a aldeia.
Foi amor à primeira vista. A tarde já estava começando a cair e as sombras das casinhas estavam começando a cobrir o gramado. O cheiro gostoso de pasto verde foi um refresco depois daquelas horas cansativas, secas e quentes ao lado da agua salgada. A beleza era impressionante, a pureza do ar conferia ao oceano lá embaixo uma tonalidade turquesa profunda que ficava maravilhosa ao refletir o azul marinho do céu. A sofisticação cênica daquela pequena comunidade parecia incompatível com seu isolamento.
Sem saber onde ia passar nem aquela nem as outras noites do resto do mês que planejava ficar ali, parei no único bar de Trancoso, localizado na também única esquina do quadrado, logo na entrada da aldeia. A construção era simples; um balcão estreito de frente para uma pista de dança ampla – certamente de lambada – onde havia algumas mesas espalhadas. O teto era seguro por troncos de madeira. Havia várias pessoas de fora bebendo cerveja e curtindo o fim de tarde ali. Quando viram um violão puxaram assunto na hora.
“E aí? Sai um som dessa viola?”
“Claro que sai! Mas agora não dá, acabei de chegar a pé de Ajuda, só dá para beber uma cerveja.” Não queria tocar mas também não dava para dar uma de antipático. Antes de ir pegar minha gelada e sentar para relaxar falei. “Se tem alguém aí que quiser tocar, à vontade.”
Um cabeludo mais velho sentado com uma estrangeira hiponga bonita, loura de olhos azuis, se levantou e perguntou: “Se importa?”
“Sem problema nenhum!”
Tirei o violão da capa e ele deu uma conferida enquanto fui pegar minha cerveja. “Um Del Vecchio antigo! Isso é artesanal! Tu é doido de trazer um violão desses para cá!”
“A viola está adorando o Sul da Bahia, não se preocupe com ela.”
Sem se impressionar com minha resposta, mas fascinado pelo instrumento o cabeludo intenso sentou num banco, posicionou o violão como quem sabia o que estava fazendo, deu uma verificada na afinação e saiu tocando uma das Bachianas do Villa-Lobos deixando todos de boca aberta.
Quando terminou, o cara que tinha me dado as boas vindas falou: “Caralho, mineiro, tu tava escondendo o jogo! Esmirilhou!”
“Tô meio enferrujado, tava precisando tocar. Esse violão é bom demais! Não resisti.”
Depois da primeira, vieram mais duas Bachianas, todas soando especiais naquele lugar. Quando terminou passou o violão de volta. Antes que tivesse que inventar uma desculpa para não ter que passar o vexame de tocar depois dele, ele perguntou:
“Como é teu nome?”
Disfarçando a pressa em colocar a viola de volta na capa respondi. “Rique.”
“Valeu, Rique, gostei do violão. Meu nome é Carlos, mas me chamam de Mineiro.” Ele olhou em volta como quem busca aprovação e continuou.” A gente está na concentração antes de bater uma pelada, os de fora contra os da terra, você pode jogar? Tá faltando um no nosso time.”
Com todos pressionando, não tinha como dizer não. “Vambora! Só que vou avisando logo: sou pereba ”
“Aqui só tem pereba, vamo nessa!”
Aquela resposta era típica de quem jogava bem e não deu outra. Quando o jogo começou senti o quanto as noitadas, a farra e a caminhada tinham me afetado. Estava numa forma vergonhosa e a cerveja antes do jogo não estava ajudando. A grama e as pedras estavam castigando as solas dos pés. Mesmo assim, tentando não dar vexame, fiquei na “banheira” quase o jogo inteiro e consegui marcar um gol. Contudo, mais competitivos por estar defendendo a honra da terra e bem mais em forma, os nativos venceram de goleada.
Depois do jogo voltamos para o bar para amargar a derrota com mais cervejas. Já estava escuro e menos intimidado pela habilidade do mineiro, mais solto pelo jogo e pelo recarregamento etílico, tirei a viola e comecei a tocar cedendo a pedidos insistentes. Como em Ajuda, não demorou muito para que outros músicos se juntassem e ajudassem a disfarçar minha perebagem musical. Para meu alívio, talvez horrorizado pela minha inabilidade, o mineiro saiu logo com sua estrangeira loira. O dono do bar acendeu a lamparina de querosene e nossa música ficou quebrando o silêncio do resto do vilarejo.
Conforme a noite foi avançando, as pessoas começaram a ir embora. Quando o bar já estava quase vazio, alguém me interrompeu. “E aí, carioca, vai ficar aonde hoje à noite?”
“Ainda não sei, se bobear acho um canto no gramado e estico o saco de dormir lá.”
“Que é isso?! Vai dormir que nem mendigo?! Aqui não tem disso não! A gente te arruma um lugar!” O cara virou para o dono do bar. “Seu Manoel, tem um quarto na aldeia aqui para o violeiro?”
Seu Manoel torceu a cara. “Tem não, nessa época do ano tá tudo tomado.”
“E na casa do Chileno? não tem um quarto sobrando?”
“Chegou um casal de gaúchos lá ontem à noite.”
“E aquelas irmãs de São Paulo, tomaram a casa do Sebastião toda?”
“Só pegaram um quarto. É, talvez lá tenha.” O seu Manoel virou para o filho sentado do lado. “Raimundo, dê um pulo na casa das meninas e pergunte se pode dormir mais um lá.”
Meio desconfortável com tanta cerimônia perguntei: “Para que tanto auê? Onde eu esticar o saco de dormir tá bom. Pode ser no quadrado ou até debaixo de um coqueiro na praia, não tem problema.”
“Fica tranquilo, carioca, a gente vai te descolar um lugar.”
Me lembrando da experiência com as brasilienses, fiquei vendo o moleque desaparecer no campo escuro e depois reaparecer do outro lado em frente às janelas iluminadas por velas e lâmpadas de querosene.
O seu Manoel já tinha simpatizado comigo. “Deixe o Raimundinho voltar, se as paulistas disserem que não, tenho uma ideia.”
Marquinhos, o cara que tinha me dado as boas vindas, falou: “Já sei, a cabana do Pará lá perto da praia!”
“Essa mesmo, e o rapaz vai poder ficar lá de graça. Acho que o Pará já arrumou comprador, faz umas duas semanas que ele sumiu.”
Não demorou muito para o filho do seu Manoel votar: “Elas disse que não quer mais genti na casa.”
“Esquenta não, carioca.” Marquinhos me deu uma olhada maliciosa. “A gente desconfia que elas não são irmãs coisa nenhuma, mas sim um casal de sapatonas, não iam querer um cara estragando a festa, né?!”
Um cara com um sotaque gaúcho que até então estava quieto deu uma risada e falou: “Aê violeiro, vai dizer que tu não ia querer ser o recheio daquele sanduíche?”
Achando a observação despropositada e constrangido pelo esforço do pessoal, não dei trela para a brincadeira e perguntei: “E essa casa do tal do Pará?”
O brincalhão respondeu: “O lugar é até melhor do que aqui em cima, o problema é que é um barraco de palha no meio do mato, não tem nada por perto. Chegar lá a noite vai ser coisa de Tarzã.”
O seu Manoel falou: “Não exagere, Gaúcho, o rapaz chega lá fácil.” Aí ele se voltou para mim. “Nem precisa de chave, é só chegar lá, abrir a tranca de madeira e empurrar a porta. Não se preocupe com bicho, é só deixar a casa fechada que eles num entra.”
“Que tipo de bicho!?”
O dono do bar, um sujeito moreno de meia idade com uma barriga respeitável, deu uma risada. “Aqui só dá galinha e porco, e volta e meia um jegue, não se aperreie!”
Mesmo que soasse roubada, não dava para recusar. Meio envergonhado, aceitei a generosidade e eles passaram a me explicar como chegar lá.
“Você desce a estrada da praia por onde você subiu, essa aqui do lado. Depois de uns trinta metros você vai ver uma trilha à direita. É só seguir toda vida que você vai dar na porta do barraco. Não tem erro.”
O Gaúcho, ainda achando graça, emendou: “Te prepara porque tem um rio no meio.”
De novo não dei muita atenção, mas por via das dúvidas perguntei: “Dá para deixar o violão aqui? Amanhã passo pra pegar.”
“Claro que dá, meu filho!”
Agradeci, botei a viola na capa e dei para ele guardar. Peguei a mochila, dei boa noite para o pessoal e fui encarar o caminho. Noites sem lua como aquela em particular eram excelentes para observar estrelas cadentes, mas faziam a visibilidade nula. Na estrada de terra ainda dava para enxergar alguma coisa, mas no mato estava um breu completo. Fui me guiando pelo barulho da água correndo ao longe, sentindo a areia com os pés e me escorando nos troncos das árvores com a mão.
A visibilidade voltou quando alcancei o rio. Na clareira, percebi que a outra margem ficava a uns seis metros de distância e pensei em desistir. Em vez disso, imaginei o mico que pagaria se voltasse dizendo que tinha ficado com medo e criei coragem e comecei a travessia no leito lamacento da água morna. Conforme a profundidade foi aumentando, barulhos de sapos e de outras criaturas da noite me fizeram pensar em cobras, animais estranhos e peixes carnívoros. Numa dada altura, a água chegou quase a altura do peito e a correnteza tornava difícil equilibrar as tralhas na cabeça.
Do outro lado avistei a porta da cabana no final da trilha de areia. Como o seu Manoel tinha dito, a tranca era fácil de abrir. A claridade criada pela porta aberta revelou uma vela colada numa mesa. Revistei a mochila e achei a caixa de fósforos e liguei a vela. A chama fraquinha iluminou as paredes de madeira com argila, o chão de areia e o telhado de palha. Os únicos móveis eram aquela mesa rústica e uma cadeira feita a mão do lado. Fiquei digerindo aquele cenário e o cheiro acre e úmido. O vento soprando do mar estava uivando alto. Ele tirava o abafado da casa mas fazia a porta, as janelas e as árvores em volta baterem balançarem em uma coreografia sinistra. Estranhamente, a luz da chama pareceu me proteger e fez com que a cabana se tornasse aconchegante. Ainda ensopado, abri meu saco de dormir, o estendi no chão e assim que deitei caí num sono profundo.
*
O sol entrando pelos buracos da janela me acordou de manhã cedo. Ainda dava para ouvir o vento que agora, mais suave, permitia escutar o canto dos pássaros e as ondas quebrando ao longe. Saí do barraco para ver como aquilo era de dia. Fora minhas pegadas deixadas na noite passada, a areia em torno da casa tinha apenas pegadas de caranguejos e de pássaros. A paisagem em volta era densa e estava colorida pelo sol ainda tímido filtrado pela maresia. Naquele momento, o mundo era apenas a cabana, o mato ao redor e a presença da praia ao longe. Aquela paz especial me levou mentalmente ao início dos tempos.
Naquele estado quase místico caminhei até a praia que não ficava longe. Assim que a mata abriu, cruzei a areia, mergulhei no mar e nadei por um bom tempo até chegar a uma distância boa da costa. Na água funda, com aquela paisagem só para mim e com o corpo recomposto pelo exercício matinal, fiquei boiando e apreciando aquele espetáculo. Aquele paraíso ficava a poucos quilômetros de Santa Cruz de Cabrália, onde os primeiros pés europeus haviam tocado o país-continente. Este era o lugar onde aquelas almas ocidentais plantaram as sementes de um novo país. Naquela hora e local ficou fácil imaginar a flotilha chegando. Será que alguém naqueles navios tinha pensado que havia algo a aprender naquela terra linda? Não teria sido uma oportunidade para começar algo novo e melhor? Talvez não fosse tarde demais. Apesar dos horrores que seguiram, a carta de Pero Vaz de Caminha descreve um encontro festivo de civilizações, quem sabe a saga ainda não pudesse terminar bem?
*
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