Samba Perdido – Capítulo 10 – Parte 01

 Capítulo 10

 

“... naturalmente minha mãe dizia,
Ele é uma criança não entende nada,
Por dentro eu ria satisfeito e mudo
Eu era um homem que entendia tudo.”

Erasmo Carlos – Não Entendo Nada

 

Segunda geração de Brasil, bem mais novo que Rafael, Daniel, o pai do meu amigo Avi, não teve a mesma sorte com a queda da bolsa de valores. Junto com a manada, perdeu muito dinheiro e talvez por isso morassem em um apartamento abafado em Copacabana.

Gostava dele. Por trás das feições duras, bigode espesso e olhar frio, havia uma personalidade simpática e generosa. Ele estimulava a amizade com seu filho gorducho por me considerar uma influência saudável. Mesmo sendo magro que nem um bicho-pau, em vez de passar o dia todo assistindo televisão e me entupindo de doces, jogava bola direto e ia para a praia fazer bodyboard.

Por isso, nossa amizade girava em torno de esportes. Nos fins de semana ou ele vinha comigo ao clube, ou íamos praticar alguma atividade ao ar livre com Daniel. As opções eram caminhadas na Floresta da Tijuca ou piqueniques em praias distantes. A tarde, como compensação pelos esforços matutinos, acabávamos em um dos muitos parques de diversões que viviam abrindo e logo depois fechando em terrenos baldios nos arredores e pela Zona Sul afora.

Depois que descobrimos o skate, nosso lugar favorito passou a ser o Aterro do Flamengo. Esse era um parque enorme ao longo da Baía de Guanabara, construído durante o governo Juscelino Kubitschek como uma forma de compensar o Rio de Janeiro por ter perdido seu status de capital nacional. A despeito do custo gigantesco de aterrar a baía e da decoração do melhor paisagista do país, Burle Marx, o que a cidade acabou recebendo foi um tremendo monumento à chatice.

Apesar de seus vários campos de futebol viverem cheios, as “atrações” do parque enorme incluíam o Museu de Arte Moderna que raramente tinha trabalhos empolgantes para um adolescente, uma área para se voar aeromodelos de brinquedo, um lago para barcos em miniatura, um memorial para os soldados brasileiros mortos na 2ª Guerra Mundial, playgrounds de concreto para crianças e um avião antigo para pessoas que nunca tinha entrado em um entrarem para ver como é que era. Mesmo assim, o cimento liso do seu passeio público e com várias rampas suaves eram ideais para skatistas iniciantes.

Nós dois tínhamos o mesmo skate: o horroroso Torlay, fabricado no Brasil. Era uma tábua dura de madeira com dois pares de rodas de borracha vagabunda presos embaixo. Eles quebravam toda hora e faziam a gente passar vergonha quando apareciam outros meninos andando em skates importados com rodas de poliuretano semitransparentes e com shapes de fibra de vidro. Além disso, para falar a verdade, a gente era ruim demais, típicos nerds tentando tirar onda. Os caras da gangue da minha rua – que de alguma forma também arrumavam skates importados – davam de mil na gente, isso sem falar dos californianos que apareciam na revista Skateboarder realizando manobras impressionantes em piscinas vazias.

Um dia, talvez para levantar nosso moral, o pai do Avi levou sua câmera Super 8 para filmar nossas performances. Eu nunca tinha visto um aparelho daqueles antes na vida e, percebendo minha curiosidade, Daniel me perguntou se queria dar uma olhada.

“Quer ver como funciona? É fácil. Você olha por este visor aqui, aponta a câmera e foca com esta rodela aqui.” Por estar sempre mexendo com a câmera dos meus pais, entendi na hora. “Para filmar é só apertar este botão aqui. Quer experimentar?”

Ele colocou a caixinha  futurística na minha mão e, depois de explicar tudo de novo e de se certificar que tinha entendido, me liberou o aparelho. “Só filma quando você tiver certeza de que está tudo em foco e de que você sabe o que vai filmar, senão vai gastar filme à toa.”

Falei que estava tudo bem, esperei o Avi começar, mirei a câmera e consegui gravá-lo descendo e passando pela nossa frente. Quando parei, o Daniel pegou o aparelho de volta para examinar um mostrador na lateral do aparelho

“Filmou! Parabens! Ainda faltam mais trinta segundos.Ele me olhou meio confuso. “Vou guardar porque a gente ainda tem que gravar a visita na casa da tia do Avi na semana que vem.”

Depois, guardou o aparelho sem me perguntar se também queria ser filmado. “Quando revelar a gente te convida para dar uma olhada, tá bem?”

Ninguém notou o quanto tinha ficado embasbacado com aquilo. Aquele aparelho de capturar tempo, cheio de botões de controle e com luzinhas futurísticas piscando no visor era a coisa mais incrível que já tinha tocado. Fantástico demais para se traduzir em palavras. Depois daquela manhã o interesse pelo skate evaporou. Quando me convidarem para ver o resultado, o entusiasmo aumentou e não conseguia pensar em outra coisa. Aquilo era magia em estado puro, tecnologia de ponta, quase igual ao aparelho utilizado para fazer o 007 e os faroestes de John Wayne.

Minha obsessão fez com que pedisse uma câmera Super 8 e um projetor como presente de Bar Mitzvá. Esse pedido era quase um mandamento divino para um pais judeu. Tive a sorte dele poder ter me atendido. Com um equipamento meu, a obsessão só aumentou. Minha mesada ia toda para comprar filmes com os quais registrava férias, idas à praia, passeios na Floresta da Tijuca, surfistas pegando onda, gente jogando futebol, festas e qualquer outra coisa que desse na cabeça. Quando os cartuchos de três minutos e meio acabavam, mandava para revelar. Quando voltavam, reunia amigos e a família no escuro do quarto e projetava o filme na parede branca.

As estréias eram grandes eventos. Antes da apresentação, passava dias editando cuidadosamente as cenas com um cortador de película, colando os pedaços com cola especial e revisando os cortes em um precário retroprojetor. Meu quarto cheirava à cola química e havia tiras de filme penduradas por todo lado. Mas como dizem, me sentia feliz como um pinto no lixo.

*

Esse interesse ganhou uma nova dimensão durante uma viagem de férias da família a Bariloche, uma pequena cidade turística nos Andes argentinos com uma atmosfera europeia que dava a visitantes brasileiros – e aos nazistas escondidos ali – a impressão de estar no Velho Continente.

Um dia, saímos de barco numa excursão para uma ilha no enorme lago Nahuel Huapi. O lugar era tão bonito que artistas de Walt Disney tinham viajado até ali em busca de inspiração para criar os cenários do filme Bambi. No entanto, não demorou para a viagem se tornar chata. Não conseguindo aguentar as piadas forçadas e as conversas sobre meu futuro, saí da cabine e fui me juntar a um grupo que estava jogando pão às gaivotas lá fora.

Cerca de meia hora depois, meu pai também saiu, aparentemente para acabar com a festa. O vento estava forte. “Richard, o que você está fazendo sozinho aí? Não está com frio?”

“Não. Pai, olha só que legal essas gaivotas mergulhando para pegar o pão.” Joguei um pedaço e uma das aves planando sobre o barco mergulhou a toda velocidade e conseguiu pegar a comida antes que caísse na água.

Rafael me deu um sorriso. “Vamos entrar para um chocolate quente?” Vendo que não tinha me convencido, emendou. “A gente conheceu um senhor inglês lá dentro que tenho certeza de que você vai gostar.”

“Por quê?”

“Porque ele é diretor de cinema.”

Bill era um cara grande nos seus cinquenta anos, largado, barba mal feita, olhos verdes e vivos e com um papo de bon-vivant. Se deleitando num copo de whisky, me contou que estava na América Latina fazendo um documentário para a BBC sobre um explorador que no século 19 havia viajado a cavalo desde a Argentina até os Estados Unidos. Quando explicou aquilo, achei que era a coisa mais incrível que alguém jamais poderia fazer – não ficar meses a fio andando a cavalo – mas viajar para rodar um filme. Decidi naquele momento que essa era a profissão que queria seguir quando crescesse.

*

De volta ao Rio, fiz um curso de Super 8 onde acabei escrevendo um roteiro e dirigindo um curta-metragem. O filme, “Cheque Mate”, combinava duas histórias paralelas: a de um homem jogando xadrez com uma pessoa que ninguém via, e o romance do mesmo personagem com um manequim feminino que tinha roubado de uma loja. Ao final do filme, ficava-se sabendo que o protagonista estava jogando contra a manequim de plástico. Ele joga o tabuleiro para o ar dizendo numa voz lenta e melancólica “Minha vida foi um jogo de xadrez.”

Como qualquer diretor moderno da época, nunca vou saber o significado de meu filme. Anos depois, fiquei lisonjeado ao ver um filme de Ingmar Bergman, O Sétimo Selo, e perceber estarrecido que tinha um enredo parecido ao meu. A diferença sendo que era um longa-metragem aclamado no mundo inteiro e o herói jogava xadrez com a morte.

Os organizadores do curso gostaram do resultado e acabaram levando o filme para vários festivais latino-americanos de cinema feitos por jovens, o que me encheu de esperança e de orgulho.

*

Quando entrei na fase mais hormonal da adolescência, meus amigos e eu começamos a usar o projetor para um tipo muito menos pretensioso de filme. Qualquer um que conheça do assunto vai concordar que os anos 1970 foram a era de ouro dos filmes pornôs: a depravação era autêntica e deixava garotos como a gente enlouquecidos. Havia centenas de filmes Super 8 suecos saindo clandestinamente das bancas de revista e indo para o fundo de nossos guarda-roupas. Por causa disto, meu projetor se tornou um equipamento raro e cobiçado na turma. Acabei tendo a ideia de emprestar o aparelho em troca de poder ficar com os filmes por alguns dias. Essa atividade secreta acabou sendo o começo do fim do meu sonho nunca concretizado de me tornar cineasta. Sem ninguém para compartilhar minha paixão, a carência de cursos decentes e a falta de encorajamento por parte de meus pais, meu interesse, embora sempre presente, acabaria  se dissipando na psicose tropical.

*

 

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Samba Perdido – Capítulo 09

Capítulo 09

"O vento beija meus cabelos
 As ondas lambem minhas pernas 
O sol abraça o meu corpo 
Meu coração canta feliz..."

Ricardo Graça Mello - De repente California
 

Apaixonado pelo zen da bossa nova, Frank Sinatra tornou Ipanema famosa no mundo inteiro ao gravar Girl from Ipanema nos anos sessenta. Quando os anos setenta chegaram, tanto Frank Sinatra quanto a bossa nova e a visão romântica e inteligente que representava do Brasil não existiam mais. Agora, sob uma ditadura pesada tudo tinha mudado. Porém, por várias razões, o bairro acabaria sendo central não só a assimilação da nova realidade como também no resgate da naufragada democracia.

Não havia dúvidas que a Zona Sul do Rio era a encarnação do “milagre econômico” proporcionado pelo golpe militar. A vida da classe média, tanto no Bairro quanto no Brasil inteiro, ia de vento em popa. A economia estava crescendo a uma taxa anual na casa dos dois dígitos e com o tricampeonato do México ainda fresco na memória, havia um clima de euforia. Pelo país afora as vendas de carros, televisores, eletrodomésticos e passagens aéreas dispararam. Em Ipanema isso também foi o caso para discos, pílulas anticoncepcionais, roupas “transadas” e pranchas de surf.

Contudo, nas cabeças mais claras, havia a consciência de que essa recém-descoberta prosperidade só era possível graças ao empobrecimento de muitos e ao forte aparato militar garantindo a situação. Talvez por ser o endereço de formadores de opinião bem conectados, gente que não interessava à ditadura molestar, Ipanema se tornou uma ilha de pensamento crítico onde artistas e intelectuais boêmios se reuniam a noite em bares e festas.

No que agora era talvez o melhor bairro da ex-capital do país, a resistência começou cedo. Em 1969 um grupo de residentes lançou um jornal semanal satírico chamado O Pasquim. Essa publicação levaria à prisão por variados períodos de tempo muitos de seus colaboradores, mas seu sucesso também os colocaria na elite jornalística do país.

O Pasquim estava à frente do seu tempo: não somente se posicionava contra os militares, mas também ridicularizava a burguesia e seus valores com humor irreverente. Entre artigos e charges geniais havia entrevistas ótimas, muitas regadas a várias garrafas de whisky, com todo o tipo de personalidades: astros do futebol, artistas, políticos, juristas, atores e outras celebridades. Numa época de censura pesada, a publicação mostrava esses personagens por ângulos até então inexplorados, encorajando-os a falar de suas vidas particulares, suas opiniões sobre assuntos controversos como drogas e sexo e a confessar seus pecados. Entre os entrevistados havia também pessoas de quem a imprensa tradicional fugia, como Luiz Inácio “Lula” da Silva – que nos anos 1970 era apenas o líder de um “inconveniente” sindicato de metalúrgicos na periferia de São Paulo.

Sendo uma das raras vozes independentes do país, O Pasquim virou um gênero de primeira necessidade para brasileiros de consciência. Com isso, o semanário vendia muito bem em todo território nacional. Por ser do bairro, ele fez com que Ipanema adquirisse uma imagem arejada de boemia, liberdade e resistência. Embora não refletisse completamente a realidade, essa imagem seria fundamental para a forma como o Brasil lidaria com seu retorno à democracia.

*

Os principais beneficiários do “milagre econômico” eram sem sombra de dúvida as novas gerações. Sem compromissos  políticos e bem nascidos, introduziram muitas novidades em Ipanema. Figuras de cabelos compridos e sem classe social definida começaram a aparecer nas suas ruas. Traziam consigo um sentimento vivo que era ao mesmo tempo alienado e contestador. Garotas em camisetas sem sutiã passeavam com rapazes com o cabelo mais longo que o delas atraindo olhares horrorizados e curiosos de uma sociedade que, em sua maioria, ainda era conservadora.

Para aquela rapaziada, a vida era uma aventura. No mundo que estavam inaugurando, não havia a separação por “tribos”; a única coisa que importava era ser ou não ser “careta”. Se você não fosse, era possível surfar pela manhã, assistir a um show de música underground à noite, depois ouvir Led Zeppelin no toca-fitas do carro a caminho de uma discoteca e finalmente terminar a noite na Floresta da Tijuca fumando um baseado ouvindo uma fita do Caetano Veloso. Mundos, gostos e atividades se entrelaçavam na contestação existencial generalizada. Todos queriam ser diferentes de seus pais e do que a sociedade esperava deles. A vida era como uma caixinha de surpresas cheia de novidades, então, por que não experimentar todas? É claro que se você tivesse uma visão de mundo conservadora, o melhor que tinha a fazer era procurar outra turma.

Ao mesmo tempo, com Copacabana se tornando paulatinamente mais acessível e popular, uma nova onda de super-ricos migrou para Ipanema. Eles fariam com que a Avenida Vieira Souto, a sua via beira-mar, o endereço mais caro do país. A rua comercial, dois blocos atrás, Rua Visconde de Pirajá, absorveu o momento e, ao lado de lojas caríssimas, exibia lanchonetes de estilo americano, fliperamas, lojas de surf e butiques com roupas psicodélicas. Enquanto isso, espalhados pelas ruas laterais, bares à moda antiga continuavam sendo o ponto de encontro da geração dos esquerdistas boêmios, que bebiam suas cervejas vendo milionarios passarem sendo dirigidos por choferes nos seus carros de luxo.

Certamente o grupo mais visível do bairro era o dos surfistas. Vestindo shorts e camisetas importadas do Havaí, tomaram conta das esquinas e fizeram de Ipanema uma Califórnia brasileira. Para ficarem louros como seus pares americanos, a moçada tingia os cabelos com parafina para pranchas de surfe ou com água oxigenada. Embora a intelectualidade e o dogmatismo político os afugentassem, acreditavam que estavam resistindo ao sistema ao fazer tudo o que lhes desse na cabeça – essencialmente drogas, sexo, rock e surf. As novas garotas de Ipanema, a segunda geração a ser libertada pela pílula, desfilavam seus corpos torneados no território dos surfistas – a praia – dando origem mundial à tanga, ou biquíni fio-dental.

*

Em 1973 houve uma forte queda nos mercados de ações do mundo inteiro devido ao repentino aumento no preço internacional do petróleo. As bolsas brasileiras também despencaram e pessoas que haviam feito fortuna rapidamente perderam tudo do dia para a noite. No entanto, Rafael teve a sorte, ou a experiência, de vender suas ações dias antes do colapso.

Para a família, essa tacada foi como ganhar na loteria. A crise repentina levou a uma queda substancial no preço dos imóveis cariocas e com bastante dinheiro na mão, meu pai conseguiu comprar um apartamento em Ipanema. Foi assim que nos mudamos para a Rua Nascimento Silva, a apenas algumas portas abaixo da casa de Vinicius de Moraes, o aclamado poeta da bossa nova.

O novo endereço significou um upgrade tanto em nosso status social quanto em nosso estilo de vida. Apesar do apartamento novo não ter uma varanda com vista para o mar como o que alugávamos em Copacabana, era bem maior e, mais importante, era nosso. Os antigos donos, um casal de velhinhos portugueses, tinham juntado duas pequenas unidades de sala e dois quartos em um apartamento grande. Uma cozinha espaçosa separava os dois lados; o de frente, ficou para meus pais e o dos fundos ficou para minha irmã e eu.

Gostamos de cara do novo bairro. Independentemente de ser o olho de um furacão de mudanças comportamentais, o seu dia a dia era muito mais agrádavel. Com exceção dos prédios de luxo imponentes de frente para o mar na Avenida Vieira Souto, em termos de arquitetura e de jeito, Ipanema parecia com uma versão sofisticada de uma cidade costeira. Suas construções eram mais baixas, mais recentes e menos pomposas, proporcionando um ar mais residencial e mais real. A praia era mais vazia e ainda tinha resquícios de vegetação original, as ruas eram calmas e arborizadas e havia sempre uma brisa gostosa passando entre o mar e a Lagoa Rodrigo de Freitas que ficava logo atrás do bairro.

*

Sarah e eu passamos da infância à adolescência nesse lugar que era certamente um dos melhores para se viver em todo o planeta. Agora, com cada um em seu próprio quarto, me vi livre do domínio da minha irmã. Com uma privacidade que até há poucos meses tinha sido coisa de sonho, a primeira coisa que fiz foi colocar pôsteres para marcar meu território, um do Jimi Hendrix e um outro com uma capa de disco psicodélico do grupo Yes.

Outra novidade foi que Renée finalmente teve que dar o braço a torcer e autorizou a compra de um televisor, talvez admitindo que a sociedade elegante estranharia aspirantes que não possuíssem um. Por ter horror ao aparelho – talvez porque a programação lhe roubasse o centro das atenções – ela mandou colocar a televisão no quarto vazio do nosso lado do apartamento.

Com uma TV em casa, minha irmã e eu nos integramos ainda mais no universo brasileiro. Agora, como qualquer outra pessoa, podíamos assistir às novelas da Globo, as principais produções culturais brasileiras da época. Embora me cansaria delas depois de um tempo, no início fiquei vidrado. Elas passavam cinco dias por semana: às seis da tarde tinha uma voltada aos jovens, às sete uma comédia para antes do jantar, às oito a grande produção para toda a família e às dez da noite uma produção mais adulta. Todas eram excelentes já que por conta das salas de cinema e teatros estarem perdendo espaço para a televisão enquanto a censura e a repressão política barrava de produções de nível os melhores escritores, atores e técnicos se viram obrigados a trabalhar nelas por falta de outras opções. Essa concentração de talento trouxe uma qualidade espantosa, e essas produções que se tornariam um sucesso nos quatro cantos do globo.

Se meu interesse pelas novelas dissipou rápido, esse não foi o caso com a pessoa que mais gostou da novidade: dona Isabel. Toda noite às sete, enquanto preparava o jantar, ela ligava o aparelho para ficar ouvindo seus dramas e seus momentos da cozinha. Essa trilha sonora só terminava na hora que ía dormir. A maneira que aproveitei o televisor foi outra. Agora podia assistir a jogos de futebol, programas de comédias como A Grande Família, Chico City e Os Trapalhões além de filmes e séries de TV importadas das quais todo mundo falava. Nas tardes de sábado curtia videos das melhores bandas internacionais no Sábado Som. De repente, deixei de ser um completo esquisito na escola.

*

Não demorou muito para a gente descobrir o motivo pelo qual os antigos donos tinham vendido o apartamento a um preço tão camarada; a pior gangue do bairro utilizava a entrada do prédio como sua base. Só um deles morava no prédio, noss fundos , mas de qualquer forma estavam sempre ali. Em pouco tempo gente passou a conhecer todos de vista da rua. Era evidente que todos aqueles surfistas cabeludos e sarados eram “dissidentes” de famílias de classe média. Era também evidente que eram vagabundos de verdade; não trabalhavam nem estudavam e não tinham respeito a qualquer tipo de autoridade. O pior para meus pais era que, ainda por cima, nos olhavam com desprezo por sermos tão tipicamente burgueses. Com a rebeldia dos anos 1970 na porta de casa, se sentindo sitiados por um bando de bárbaros, Renée e Rafael passaram a odiar toda e qualquer coisa que se relacionasse àquela subcultura.

Ainda que o minhas habilidades como pegador de jacaré tivessem melhorado muito nas ondas oceânicas do novo bairro, meu status praieiro era microscópio comparado ao daquela rapaziada, os bad boys no topo da cadeia alimentar de Ipanema. Eles controlavam não só as ruas, mas também as ondas na parte da praia conhecida como as “Dunas do Barato”, o Píer de Ipanema. Agora há muito destruído, o Píer foi erguido para a construção de um emissário submarino que levaria o esgoto de Ipanema até o alto-mar. A obra alterou as correntes e o leito marinho o que resultou em ondas incríveis, a ponto de a imprensa especializada internacional classificar aquele point como um dos melhores lugares para se surfar na América Latina.

O Píer acabaria produzindo os primeiros campeões brasileiros de surf. Um dos membros da gangue, o Pepê, foi o mais destacado deles. Ele se tornaria campeão mundial tanto de surf quanto de voo livre, e anos mais tarde sua popularidade o ajudaria a se eleger vereador e a abrir a barraca de praia mais conhecida do Rio. Porém, seu irmão mais novo e menos talentoso, o Pipi, levou um tiro depois que pulou para trás do balcão para agredir o dono do boteco que ficava na nossa esquina. No dia, estava voltando da escola quando vi o surfista de cabelo oxigenado sentado imóvel na calçada. Amparado por um amigo, ele estava esperando por uma ambulância com sua camiseta empapada de sangue grudada na barriga. Na manhã seguinte quando estava saindo de casa, o porteiro me disse que o Pipi tinha morrido no hospital.

*

Sempre que não havia ondas, a galera se reunia do outro lado da rua para andar de skate na rampa de uma garagem. Enquanto faziam suas manobras radicais, Deep Purple, Alice Cooper, Led Zeppelin e Black Sabbath bombavam num toca-fitas. Nenhum deles conseguia entender as letras das músicas, mas eu entendia cada palavra, o que, de alguma forma, me fazia participar do que estava rolando. Ficava assistindo as suas manobras da janela de nossa sala de estar como um garoto doente fica vendo as outras crianças brincarem pela janela da enfermaria. Naquelas tardes, as letras das músicas e o som das guitarras distorcidas flutuavam para dentro do apartamento junto com o cheiro de maconha. Ver baseados do tamanho de um charuto passar de mão em mão entre aqueles surfistas era como testemunhar um assalto a banco de uma posição privilegiada. Esse era o crime subversivo, o fruto proibido, sobre o qual as autoridades nos advertiam na televisão agora que o medo do terrorismo de esquerda tinha ficado para trás.

Todas as vezes que eu passava na frente daquela gangue, parecia ouvir o comentário: “Lá vai aquele magricelo veadinho”. Os momentos mais constrangedores eram quando ia de carro com a minha mãe para o clube e o porteiro tinha que pedir educadamente que os caras saíssem de lado para que pudéssemos deixar a garagem. Sob olhares de desprezo, passávamos com as janelas fechadas, minha mãe nos seus cinquenta e poucos trajando um uniforme de tênis que incluía uma minissaia branca e eu com as minhas pernas finas e meus trajes de futebol desproporcionalmemte grandes. Por causa daqueles caras, para o meu desespero, meus pais acabaram proibindo o surf. Por outro lado, aquela turma me forçou a provar, ainda que apenas para mim mesmo, que não era o bostinha que eles viam. Ainda estou tentando.

…  

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Samba Perdido – Capítulo 8

Capítulo 08

“Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento…”

Caetano Veloso – Alegria, Alegria

Célia era a amiga bonita e magricela do andar de baixo. Foi ela que tinha chamado a Sarah para ver a copa do mundo na sua casa. As duas eram coladas. Um dia entrou como um foguete no apartamento.

“Sarah! Sarah!” Quando minha irmã apareceu, ela precisou retomar o fôlego. “Sarah! Minha mãe acabou de dar de presente de aniversário dois ingressos para o Festival Internacional da Canção, você quer vir comigo?!!”

As duas comemoraram animadíssimas, mas logo Sarah se lembrou.

“Vou ter que perguntar para minha mãe.”

Acompanhando a conversa do quarto, pensei a mesma coisa na mesma hora; a dona Renée não ia liberar essa nem a pau. Sem motivo para inveja, me fingindo de morto, fiquei ouvindo as duas fazerem planos para convencê-la.

Quando minha mãe chegou, não deu outra.

“Você no Maracanãzinho à noite?! Nem pensar, é muito perigoso!”

Os festivais aconteciam no Maracanãzinho, o irmão menor do Maracanã, uma arena ao lado do estádio para eventos não futebolísticos.

“Mas mãe, o Maracanãzinho fica do lado de uma universidade e de um hospital! A gente vai de carro com os dois irmãos dela, qual o problema?”

“Todo mundo sabe que aquela área é cheia bêbados e de assaltantes! Aqueles dois franguinhos não vão conseguir defender vocês de nada! E imagina se você se perder no meio daquela gentalha?! Nem pensar! Você não vai e acabou!”

Sarah não se deu por vencida. “Mãe, pode ser que seja assim quando tem jogos de futebol no Maracanã, mas no dia do festival só vai ter gente de nível da Zona Sul. Não vai ter perigo nenhum! Por favor mãe, me deixa ir!”

“Para que? Para assistir músicos de segunda categoria fazendo um barulho ensurdecedor e tocando canções horríveis para um monte de comunistas emaconhados?” Dona Renée fez um gesto dramático e decretou “Você não vai e pronto!” Daí ela foi para a cozinha dar ordens à empregada.

Mais tarde, precisou a mãe da Célia subir para implorar que a dona Renée mudasse de ideia. Dona Dindinha garantiu que seus filhos – um estudando para ser médico e outro estudando para ser padre – conheciam bem o lugar e que a Sarah estaria segura com eles. Afinal ela estava deixando sua filha na mão deles. Além disso, o presente era muito especial para a Célia, que ia ficar de coração partido se fosse sem a melhor amiga no dia do seu aniversário. Os argumentos adultos e o fato de que sua família era dona do nosso apartamento fizeram Renée conceder. Ela disse que ia falar com o marido quando voltasse do trabalho. Ao ouvir essas palavras eu já sabia qual seria o resultado.

Durante o jantar, as duas explicaram o que tinha acontecido e, apesar dos argumentos contrários da minha mãe, meu pai liberou na hora.

“Qual o problema da Sarah ir para o Festival com a Célia e os irmãos dela? Ela adora este tipo de música e os dois são ótimos rapazes.”

*

Em uma época sem Internet, – e mesmo sem gravadores de fitas-cassete – a única opção para ouvir nossas músicas preferidas era ou comprar discos caros ou torcer para que tocassem no rádio. A oportunidade do convite da Célia era imperdível. Os melhores artistas do país e outras atrações internacionais estariam se apresentando naquela noite e o evento seria transmitido em horário nobre para o país inteiro.

Para piorar as coisas para mim, mais ligado em música que minha irmã, não tínhamos televisão em casa. Havia a possibilidade remota de assistir o festival na casa do Paulo mas, como meus pais, ele não se interessava em música brasileira. Não ia acontecer. Tive que aceitar que não assistiria o evento do qual todo mundo estaria falando. Meu único consolo era que aquela elas estavam indo para a semifinal; a final seria no próximo fim de semana.

Aquelas competições faziam as manchetes dos jornais no país inteiro e as canções concorrentes tocavam direto no rádio. Conforme a final ia se aproximando todo mundo já tinha escolhido sua preferida. Apesar de serem organizadas por gravadoras promovendo seus artistas e por estações de TV vendendo o espaço publicitário, eram vistas como eventos culturais da maior importância. Tinham até significância política já que, embora não os patrocinasse, o regime as encorajava como uma maneira de unir a nação em torno de uma celebração da música brasileira. Além disso, por tolerar a presença de artistas com mensagens de oposição, eram uma maneira dos generais provarem à população que, embora não permitissem que escolhesse seu próprio governo, não tinham nada contra a liberdade de expressão.

Os artistas subiam ao palco representando todos os segmentos da sociedade. A esquerda intelectual tinha Chico Buarque; os puristas da bossa nova, Tom Jobim e Nara Leão; os roqueiros e os psicodélicos, Os Mutantes; os afrodescendentes, Toni Tornado; a militância estudantil, Geraldo Vandré; a juventude despolitizada, Wanderléa e outros representantes da Jovem Guarda; os tropicalistas tinham Gilberto Gil e Caetano Veloso; os amantes da música tradicional e o povão, Jair Rodrigues e Paulinho da Viola; e ainda tinha Jorge Ben, que agradava a todos.
As revelações daqueles eventos não só encheriam os cofres das gravadoras mas também dariam origem – ou pelo menos influenciariam – a tudo o que viria depois em termos de música popular brasileira.

Acima de tudo, devido ao momento político, esses festivais se tornaram o único canal com alguma possibilidade de se debater a realidade no país, mesmo que de forma indireta.

“Para Dizer Que Não Falei de Flores” do Geraldo Vandré, por exemplo, se tornaria o hino da resistência à ditadura.

Havia ecos de Cuba quando o estádio se juntava para cantar.

“Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição
De morrer pela pátria
E viver sem razão”

Por outro lado, havia a turma hippie, interessada em liberdade individual. Seu carro chefe eram Os Mutantes como com a canção 2001.

“Astronauta libertado
Minha vida me ultrapassa
Em qualquer rota que eu faça
Dei um grito no escuro
Sou parceiro do futuro
Na reluzente galáxia”

Essas duas correntes antagônicas competiam lado a lado com canções de amor melosas e sambas engraçados.

*

A polêmica acirrada entre os defensores da liberdade individual radical e a militância política que esquentava os festivais, ia muito além dos palcos. Esse embate também acontecia – não só no Brasil – nas artes, no cinema, no teatro e na literatura. O movimento da Tropicália emergiu desse emaranhado tentando englobar os dois lados e tudo mais que pudesse. Seus expoentes seguiam a máxima do artista plástico Andy Warhol e de outras estrelas da vanguarda internacional de que “tudo é pop”.

Misturando rock com música brasileira e psicodelia com revolução, a música/manifesto Tropicália de Caetano Veloso deixava a plateia atônita, sem saber se vaiava ou se aplaudia.

“Eu organizo o movimento
Eu oriento o Carnaval
Eu inauguro o monumento no planalto central”

Sob as asas acolhedoras dos tropicalistas havia a simpatia pela revolução cubana, o amor pelos Beatles, uma procura por raízes brasileiras, sem esquecer, é claro, de uma boa dose de sagacidade comercial. Embora comumente associada à música de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Os Mutantes, a Tropicália foi bem mais ampla. Antes de se dissipar, o movimento envolveu artistas plásticos, como Hélio Oiticica, músicos vanguardistas como Tom Zé, escritores, cineastas, filósofos e uma pletora de malucos e gênios que marcaram a cultura brasileira.

*

No começo, os militares permitiram que os artistas cantassem o que quisessem. Contudo, a dinâmica dos festivais acabou sendo diferente do planejado. Conforme as canções de liberdade e de revolução foram ganhando destaque, ficou claro que a sua presença nas salas de estar da nação em horário nobre era um contrassenso. Querendo evitar uma imagem negativa ao acabar com a festa ou excluindo as estrelas, a saída que os generais encontraram foi a censura.

As coisas foram de mal a pior com o draconiano AI-5 que tirou as liberdades civis dos brasileiros. Sem ter que responder a um poder judiciário os militares acabaram indo muito além da censura. Ignorando a possível reação da sociedade civil, puseram em marcha um processo de exílio e de aprisionamento dos artistas contrários ao regime, independentemente do seu prestígio e da sua popularidade. A consequência foi que os festivais se esvaziaram de significado e acabaram morrendo.

Alguns anos mais tarde, num gesto de reconciliação, os militares aceitaram os artistas de volta. Porém, nada seria como antes. No seu retorno, apesar de serem recebidos como heróis, haviam amadurecido no exterior. Agora, expostos diretamente ao que estava acontecendo na cenário jovem internacional, tinham preocupações mais profissionais.

Apesar da queixa de alguns críticos puristas, quem acabou ganhando com essa mudança foi o público. Suas apresentações passaram a ser individuais em teatros ou em casas de shows. Mais refinados, propiciavam uma mistura única de resquícios de resistência autêntica, status de celebridade e talento. Essa alquimia contava com o suporte de músicos e produtores de qualidade internacional. Quando Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque subiam no palco, era como se o mundo tivesse voltado à normalidade só que com elementos de uma realidade fantástica.

*

Quando me tornei adolescente – anos depois da minha frustração com a não ida ao festival – comecei a frequentar shows. Eram ocasiões intensas, mais parecidas com partidas de futebol ou com comícios do que com apresentações musicais. Quando os teatros abriam as portas, o público entrava às pressas como gado. Com todos acomodados, começava um clima de Maracanã; diferentes sessões da plateia vaiavam umas às outras ou se aplaudiam como se estivessem torcendo para times diferentes. O público ficava cantando bordões políticos, musiquinhas relacionadas às drogas ou ficavam sacaneando uns aos outros.

“Que beleza…
A maconha que vem lá do Ceará!
O lêlê! O lálá!
Enrola na seda,
acende pra fumar! ”

“A turma lá da frente é bicha!” Os da frente se levantavam e respondiam com vaias.
Quando as luzes se apagavam, a sala caía em silêncio e a magia começava. Nos melhores shows, era como estivessemos na sala de estar dos artistas. As músicas mais calmas proporcionavam uma comunhão tão forte que nunca senti nada parecido, nem antes e nem depois. Artistas mais carismáticos como Gilberto Gil faziam momentos de “pergunta e resposta” em que a plateia respondia entusiasmada às suas orientações musicais. As canções mais animadas – muitas vezes sucessos que tocavam no rádio e apareciam na televisão – eram sempre deixadas para o final e acabavam num Carnaval fora de época com o teatro inteiro indo à loucura, pulando nos corredores e no palco.

Paralelamente a essas festas em forma de show havia algo novo chegando de mansinho. As bandas de rock eram a expressão da geração mais nova. No contexto da época, eram o submundo do submundo. O clima dos seus shows não era de carnaval fora de época. A celebração era macabra, guiada por guitarras distorcidas e ritmos frenéticos na bateria. O público era medonho: agressivo, meio sujo, tinham cabelos mais longos do que o normal e usavam drogas que a maioria de nós nem sabia que existiam. Uma de suas principais expressões era Raul Seixas e seu letrista, o agora mundialmente famoso, Paulo Coelho.

“Quem não tem colírio usa óculos escuros!” Aconselhava uma de suas músicas.

“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante.” Dizia outra.

Tal como Led Zeppelin, David Bowie e os Rolling Stones, seus temas; o sexo – tanto hétero como homo -, as drogas e o misticismo, eram perturbadores e anti sociais. Com essa leva vieram os Secos e Molhados. Muito a frente do seu tempo, adotavam um estilo andrógino e usavam uma maquiagem exagerada que mais tarde a banda americana Kiss copiaria. A voz lindamente feminina do seu vocalista Ney Matogrosso e seus trejeitos homoeróticos escancaravam a questão da identidade sexual nas rádios, nos palcos e nos televisores do país; isso nos idos de 1972. Esses artistas, ainda que populares com uma grande parcela dos jovens, chocavam a todos os não envolvidos. Ninguém com um posicionamento “sério” se atrevia a se identificar com eles, nem mesmo intelectuais esquerdistas “avançados”.

Esses pioneiros iniciaram tudo o que a maioria das pessoas de classe média consideraria banal nas décadas seguintes: drogas leves, vegetarianismo, interesse em filosofias orientais e a busca por um jeito zen-individualista de levar a vida. Ignorando tanto a ditadura política da direita quanto a ditadura intelectual da esquerda a galera do rock só queria saber de viver intensamente.

Quando chegou a onda da discoteca, descobriram que dar uma melhorada no visual e soltar a franga nas pistas de dança atraía sexo. Isso e a grande quantidade de fatalidades relacionadas às drogas entre os que mergulharam de cabeça naquele estilo de vida, fizeram com que a primeira geração do rock brasileiro desaparecesse com a mesma velocidade que tinha aparecido.

A passagem de bastão entre as gerações dos festivais e a do rock, marcou o fim da aura de resistência política nos shows. Eles passaram a ser simplesmente um sopro de ar fresco na claustrofobia tanto do regime quanto dos lares tradicionalistas. Com essa mudança ficou claro que esse era um clube para privilegiados. Para fazer parte da turma e participar das atividades afins – sair com a galera descolada, comprar os discos certos e viajar para destinos alternativos – você tinha que ter dinheiro e não era todo mundo que tinha acesso a esse recurso.

Desde os primeiros festivais, nunca havia representantes da classe trabalhadora nos auditórios. As massas ainda eram as domésticas que preparavam o jantar do publico antes de saírem de casa, os cobradores e motoristas dos ônibus que levavam alguns lá, os “flanelinhas” que pediam para vigiar os carros de outros e os policiais lá fora, ávidos para extorquir o seu dinheiro. Nos anos 1970, os rebeldes das classes menos privilegiadas ouviam funk e iam á suas próprias festas, como bem retratado no filme “Cidade de Deus”, um relato verdadeiro desse período da história do Rio de Janeiro.

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Samba Perdido – Capítulo 7 parte 2

O presidente recém eleito, Jânio Quadros, lembrava o primeiro-ministro britânico do pré-guerra, Neville Chamberlain na aparência e na bizarrice, mas compartilhava com Churchill a fama de amante da garrafa. As massas o adoravam mas, apesar de servir seus interesses, a elite o ridicularizava pelos seus trejeitos exagerados e por sua inteligência medíocre.

Quando assumiu, o ciclo de crescimento econômico iniciado pelo seu antecessor, o carismático Juscelino Kubistchek, estava dando sinais de cansaço. Depois da euforia veio a ressaca econômica e com ela o descontentamento das classes que mais tinham se beneficiado dos anos de vacas gordas: os trabalhadores e a classe média emergente.

A freada no ritmo da melhoria da qualidade de vida dos brasileiros causou uma guinada à esquerda na preferência ideológica do país. Havia uma influência cada vez maior de sindicatos e de organizações trabalhistas na vida pública. Esses novos elementos fizeram com que as elites ficassem nervosas.

Talvez Jânio não fosse o melhor presidente para lidar com a situação. Ele tentou, à sua maneira, conciliar a crescente divisão política proibindo biquínis nas praias para agradar os conservadores de direita e reconhecendo a Cuba Castrista para agradar a esquerda. Essa decisão ousada foi fatal; além de fazê-lo perder o apoio da bancada direitista, em especial da UDN, a União Democrática Nacional, responsável pela sua chegada na presidência, o gesto chamou a atenção dos Estados Unidos.

Pressionado para fazer reformas populistas de um lado e para freá-las do outro, sem apoio no congresso, em 1961, Jânio renunciou na esperança de que o país se unisse para exigir o seu retorno. Isso nunca aconteceu e seu vice-presidente João Goulart tomou posse. Jango, como era conhecido, tinha fortes ligações com movimentos sindicais e com governadores de esquerda, como Miguel Arraes em Pernambuco e Leonel Brizola no Rio Grande do Sul. Contrariando interesses poderosos tanto fora quanto dentro do Brasil, assim que assumiu, deu início a um projeto de nacionalização de setores importantes da economia, apostou na educação das camadas menos privilegiadas e contemplou políticas abrangentes para melhorar a distribuição de renda.

No pano de fundo estava a ainda muito recente Revolução Cubana. Confrontando a hegemonia dos Estados Unidos na a América Latina, o levante trouxe a Guerra Fria para o continente. Na opinião da esquerda, Cuba havia demonstrado que a região tinha a capacidade de gerir o seu próprio destino. Em contrapartida, para as potências dominantes, países governados por revolucionários rejeitando a sua tutelagem e focados em cooperação ao invés dos lucros de uma minoria eram inaceitáveis. Washington fez tudo para esmagar o exemplo, impondo um embargo comercial, ajudando exilados numa invasão fracassada e tentando assassinar seu líder. O único resultado dessa tática foi o de empurrar os cubanos cada vez mais para perto da União Soviética e essa aliança tornou uma América Latina socialista – ou mesmo comunista – uma possibilidade assustadora, porém bastante real.

Situações parecidas com a qual o governo de Jango ameaçava não eram novidade e haviam sido revertidas por golpes de estado. Os primeiros apareceram no Irã no início dos anos 1950 e no Iraque quando estes resolveram nacionalizar suas reservas de petróleo. Pouco depois, Colômbia, Venezuela, Guatemala, Síria e Nigéria entre outros países, sofreram o mesmo quando resolveram enfrentar a ordem econômica estabelecida. O que todos tinham em comum eram pactos entre elites locais e potências mundiais interessadas nas riquesas naturais dos países em questão.

No caso brasileiro, os Estados Unidos estavam determinados a manter o maior país da América do Sul “livre”. Com apoio americano, os poderosos iniciaram uma conspiração para garantir sua permanência no comando do país. Para tanto, seguiram a mesma receita que Rafael tinha presenciado na Alemanha nos anos 1930. O primeiro passo foi conquistar a opinião pública. Distorcendo a verdade e apostando nos preconceitos dos leitores, a imprensa envolvida passou a retratar uma crise profunda na economia e uma ruptura nos valores tradicionais da sociedade. Em paralelo, começaram a “denunciar” a desonestidade dos dirigentes e sua inabilidade em restaurar a ordem. Pessoas comuns passaram a acreditar na imagem contraditória de uma liderança ao mesmo tempo corrupta e disposta a impor uma ideologia totalitária, destruidora da propriedade privada e nociva à herança cultural e religiosa do país. Os “cidadãos de bem”; sensatos, trabalhadores e honestos passaram a ver o governo de Jango como um inimigo. Agora, precisavam de um salvador da pátria acima do sistema político viciado e corrupto demais para resolver os gravíssimos problemas. Em 1964, esse “salvador” seria o exército.

No início de Abril, tropas e tanques foram para as ruas das principais cidades do país, onde os militares “revolucionários” não encontraram qualquer resistência organizada que os desafiasse. Ainda que os líderes do “movimento” declarassem que seu objetivo fosse restaurar a democracia livrando o Brasil do comunismo, o país precisaria de mais de duas décadas para voltar à normalidade política.

Assim que tomou posse, o novo regime exilou o presidente Goulart e seus aliados, além de perseguir e prender personalidades públicas e ativistas de esquerda. Como é comum em golpes de estado, enquanto a atenção se voltava ao drama político, passaram uma legislação revertendo os direitos dos assalariados e privilegiando os interesses dos grandes grupos econômicos que patrocinaram a mudança de regime.

Apesar da indignação de intelectuais e de pessoas mais esclarecidas houve, no início, uma indiferença geral dentro da classe trabalhadora. Por outro lado, os militares encantaram a comunidade dos negócios, inclusive Rafael. Para eles, o Brasil precisava se modernizar, imitar os americanos e alcançar o seu potencial econômico: o gigante tinha que acordar. Com os militares, amigos do “mercado”, no poder e com a orientação e a simpatia do Tio Sam – que na época financiava prosperidade como uma arma para enfrentar os avanços da esquerda – haveria um final feliz onde todos iriam enriquecer.

*

Por suas mudanças terem beneficiado apenas os muito abastados, por não terem cumprido com a palavra de restaurar a democracia e pela corrupção ter aumentado em vez de ter diminuído depois do golpe, quatro anos mais tarde, em 1968, a sociedade civil brasileira se levantou em oposição ao regime.

Os protestos partiram de movimentos universitários inspirados na explosão do espírito revolucionário pelo mundo afora. Na mesma época, em pontos tão diversos como Paris, Chicago e Praga, a juventude estava tomando as ruas para reivindicar um mundo mais justo e mais livre. Embora a maioria silenciosa os considerasse sonhadores inconsequentes, as autoridades os levavam a sério. Tendo em conta o sucesso de vários movimentos revolucionários acontecendo na época, obcecados com a ameaça comunista e ouvindo ecos da Guerra Civil Espanhola, da Revolução Chinesa, da Revolução Russa e mesmo da Francesa, o complexo financeiro, industrial e militar acionou suas defesas.

No Rio de Janeiro a tensão estava borbulhando. Depois que a polícia baleou e matou um estudante, uma passeata 100 mil pessoas, incluindo artistas e intelectuais de peso, tomou conta da avenida Rio Branco no centro da cidade. Esta foi a maior manifestação contra um governo já vista no Brasil. A oposição se alastrou tão rapidamente que mesmo alguns deputados no congresso, agora tutelado pelos militares, passaram a criticar abertamente o governo.

A resposta do regime foi brutal; ignorando a constituição, publicaram o infame AI-5 – Ato Institucional Número Cinco – dissolvendo o congresso e o senado e dando total autoridade executiva e judicial ao presidente. Logo em seguida prenderam membros da oposição, líderes estudantis e jornalistas. A tortura tornou-se prática comum e quem pôde fugiu para o exílio.

Acuados, alguns estudantes passaram à clandestinidade e se juntaram às guerrilhas urbanas. Nelas, treinados em Cuba e em outros satélites soviéticos, organizaram bem-sucedidos assaltos a bancos e sequestros. Em 1969, depois do sequestro do embaixador americano no Rio e de ataques a bomba em quartéis militares, as autoridades intensificaram a repressão. Pessoas começaram a desaparecer, incluindo o filho do nosso médico de família. Por outro lado, núcleos embrionários de milícias revolucionárias partiram para o campo tentando emular a Revolução Cubana. Em uma ocasião, no começo dos anos 1970, o exército brasileiro enviou uma divisão de cerca de 10.000 soldados para capturar uns vinte jovens maoístas na remota região do rio Araguaia. As forças armadas acabariam por executar a maioria dos militantes capturados.

Esses eram tempos obscuros em que tudo era censurado: livros, peças de teatro, filmes e músicas. Os regime também controlava com rédea curta o conteúdo dos jornais e das estações de rádio e de televisão. Intuindo a tensão mas sem ter informações, as pessoas fantasiavam. Havia todo tipo de teorias circulando sobre o alcance do poder dos guerrilheiros, possíveis alianças militares com Cuba, China e União Soviética, ligas de camponeses prestes a invadir as cidades trazendo desapropriações e pelotões de fuzilamento para os ricos.

Como tudo na vida, quando a imaginação substitui a realidade nada de bom vem à tona. Nesse caso, tanto os militantes quanto seus repressores superestimaram o que minúsculos grupos de extremistas poderiam alcançar num país tão grande e tão complexo como o Brasil. Juntos, jogaram o país num período de trevas. A polícia e o exército montaram departamentos com amplos poderes para espionar a população e para coibir qualquer tipo de oposição. Entre eles estavam o SNI, o Serviço Nacional de Informações e o Destacamento de Operações Internas, DOI-Codi, em cujas dependências presos eram torturados, alguns até à morte. Também reativaram o DOPS, Departamento de Ordem Pública e Social, criado por Getúlio Vargas para esmagar seus adversários e agora utilizado para aterrorizar qualquer atividade contrária à ditadura.

*

O final dos anos 1960 foi um tempo politicamente intenso não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Havia uma forte consciência social, revoluções, guerras e guerrilhas pela liberdade e pela igualdade e um aprofundamento da guerra fria no planeta inteiro. Paradoxalmente, este foi o período de maior prosperidade econômica que o ocidente conheceu. Essa bonanza veio acompanhada de uma redistribuição de renda inédita e uma consequente ampliação gigantesca do mercado consumidor. Foi nesse contexto que o mercado jovem nasceu. Esta leva de novos consumidores abastados, filhos da vitória contra o nazi-fascismo, sem vínculos com o passado e ávidos por novidades, sacudiriam as bases dos valores tradicionais e inaugurariam o uso de inúmeras novas tecnologias.

A efervescência daqueles tempos afetaria a todos de uma maneira ou de outra. As novas gerações se veriam obrigadas a escolher entre serem agentes das mudanças ou serem defensores da situação. Muitos se esbaldariam na explosão de drogas ilícitas e no sexo livre facilitado pelo aparecimento da pílula anticoncepcional.

No Brasil, com a impossibilidade de se resolver as coisas pela via política, a contracultura surgiria como talvez a única alternativa de se manter vivo o germe da resistência fosse através da arte ou de atitudes. O slogan que sintetizaria aquele tempo foi “Seja marginal, seja herói!” do artista plástico Hélio Oiticica.

Considerada inofensiva pela repressão por não representar nenhuma organização política, a contracultura, além de conseguir manter uma certa distância da censura, tinha atrativos comerciais. Apesar do tempero subversivo, gravadoras e outros empreendedores da área cultural não hesitaram em explorar as oportunidades oferecidas por seu forte apelo, tanto artístico quanto ideológico, junto ao lucrativo mercado jovem. Essa aliança forçada entre revolução e lucro proporcionaria uma explosão de talento que daria luz a um dos períodos culturais mais criativos e pungentes da história, tanto nacional quanto internacional.

Apesar da repressão brasileira ter sido vitoriosa em abafar uma possível reviravolta política com censura, exílio, tortura e prisão, ela não contava com um porém; as ideologias de revolução tinham se tornaram dominantes na cultura jovem do mundo “desenvolvido”. Vindas dos mesmos países que patrocinaram o golpe, elas eram parte do pacote cultural apresentado à juventude privilegiada pela ditadura. Não dava para tapar o sol com a peneira. No país inteiro, qualquer pessoa munida com um dicionário tinha acesso às vozes dos contemporâneos estrangeiros, fosse em discos, livros, em revistas ou mesmo em filmes que conseguiam driblar a censura.

Embora a América fosse a maior responsável pela derrubada da democracia brasileira, sua juventude estava na vanguarda dessa rebelião. Eles tinham sofrido o seu próprio golpe com os assassinatos mal explicados do presidente John Kennedy, do seu irmão Bob Kennedy e do reverendo Martin Luther King, todos defensores de uma América mais próxima dos ideais libertários e progressistas dos seus fundadores. Isso, junto com a possibilidade de serem mandados para a Guerra do Vietnã – um conflito que visava tão somente manter os interesses americanos na região –  criou um enorme contingente de jovens inconformados.

A manifestação maior dessa onda contestatória aconteceu na música, mais especificamente o rock, que na época tinha um forte caráter revolucionário. O paradoxo de protestos nas ruas gerando uma demanda comercial por vozes subversivas, abriu espaço para ícones tais como Bob Dylan, Arlo Guthrie e Joan Baez. No Reino Unido, as superestrelas dos Beatles e dos Rolling Stones interessadas em atingir esse novo público e a dizer alguma coisa mais profunda do que canções românticas, juntaram forças com a rebelião. Ajudados por estratégias de marketing modernas e orçamentos milionários, expuseram a contestação no coração do sistema, num palco muito maior do que qualquer revolucionário de outrora jamais teria sonhado.

Talvez seja difícil de entender no cínico mundo de hoje que no auge das suas carreiras aqueles roqueiros genuinamente acreditavam que suas criações faziam parte de um movimento mais amplo para derrubar o status quo. A presença de novas tecnologias em sua música reforçou sua imagem de catalisadores de grandes mudanças. As possibilidades sonoras inéditas permitiram que o espírito revolucionário fosse espalhado nas guitarras distorcidas de gênios musicais como Jimi Hendrix, Jimi Page e David Gilmour, cujos solos forneceram uma trilha sonora – e mesmo um lado espiritual – a esse momento excepcional.

*

Essa foi a educação musical da minha geração. Eu tinha oito anos quando os Beatles se separaram; Led Zeppelin lançou Stairway to Heaven quando tinha nove; os Rolling Stones lançaram Exile on Main Street quando tinha dez e o álbum Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, foi lançado quando tinha onze. Para alguém de origem judaica tradicional crescendo numa uma ditadura militar, esses foram mísseis aterrissando no meu toca-discos. No entanto, igual aos programas matutinos do Haroldo de Andrade que ouvia quando criança, ninguém da família, nem a maioria dos meus amigos, conseguia entender como alguém poderia gostar daquele “barulho”. Dessa vez, nem a empregada estava do meu lado.

Apesar da incompreensão, era como se um circo mágico musical tivesse parado na esquina de casa. Queria fugir com ele. Não estava sozinho nessa busca, milhões de outros jovens pelo mundo afora também estavam sintonizados nessas mudanças. Muitos acabariam mais próximos uns dos outros do que das suas próprias famílias.

Trancados no quarto, ouvindo rock, se sentindo oprimidos por nossos pais e professores, meus irmãos de geração digeriam as palavras de ordem nos seus postos avançados. A mensagem era clara: resistir aos caretas, lutar para sermos nós mesmos e subverter os planos que o sistema tinha reservado tanto para nosso futuro quanto para o futuro do planeta.

No Brasil, a repressão acabaria percebendo que havia algo no ar mas não conseguia dizer ao certo o que era, muito menos sabia como lidar com aquilo. Podiam prender um hippie por fumar maconha, um militante por suas ações ou pelos seus livros, mas não dava para acabar com a insatisfação com a pequenez do mundo. Como nossos pais, torciam para que fosse fase de adolescente e que depois nos juntassemos docilmente ao rebanho.

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Samba Perdido – Capítulo 7 parte 1

Capítulo 07

 

“... choram
A nossa pátria mãe gentil,
Choram Marias e Clarices,
No solo do Brasil.”

Aldir Blanc   – O Bêbado e a Equilibrista 


Numa época em que Brasília ainda era um lugar onde ninguém queria morar e que São Paulo ainda estava se firmando como o pólo econômico do país, o Rio de Janeiro era de longe a cidade predileta dos expatriados no Brasil. Lá eles viviam muito bem nas margens da elite social carioca. Embora os dois grupos morassem e trabalhassem lado a lado, se vissem como equivalentes sociais, tivessem ambições parecidas e até os mesmos preconceitos, não se frequentavam, não eram sócios dos mesmos clubes, tinham interesses distintos e encaravam a vida de modos bem diferentes.

Talvez corretamente, a maioria se sentia num contexto colonialista. Porém, apesar das origens diversas, tinham em comum um olhar crítico vindo de realidades sociais e econômicas mais avançadas. Unanimamente achavam que, apesar dos esforços de modernização, a gritante desigualdade social caracterizava mais do que tudo o atraso do seu país de adoção.

O que mais os chocava era a atitude dos privilegiados perante o fosso medieval que os separava do povão e sua suposição de que isso fosse meritocrático e um fato imutável e natural. A contra gosto, ou em alguns casos com deleite, aprendiam logo que a única maneira de se conviver com essa disparidade era encarar os menos favorecidos como seres inferiores e facilmente exploráveis; tão ignorantes que nem conseguiam perceber, quanto menos entender, o óbvio.

A herança escravista, entranhada na formação do país e normalizada no seu cotidiano, criava uma ilusão de resignação cordial por parte da população humilde. Porém, observadores mais aguçados percebiam logo a resposta sutil porém onipresente. Ela vinha dissimulada na forma da malandragem; na falsa reverência, na palavra certa para se sair bem de uma situação difícil, no jeitinho, na desonestidade pequena o suficiente para não ser pego e no oportunismo. Apesar de não ser ódio de classe, apenas instinto de sobrevivência, essa atitude era um terreno fértil para a consciência de classe.

Confortáveis com esse teatro, Renée e Rafael mantiveram uma distância segura desse aspecto da vida brasileira. Caberia a minha irmã e a mim se adaptar sem orientação a esses códigos – ou à falta deles.

Meu despertar foi brusco.

*

O conhecidíssimo Clube de Regatas do Flamengo fazia parte de um enclave de vários clubes de classe média alta localizados no coração da Zona Sul carioca. Como os demais, ficava às margens da imunda, porém belíssima, lagoa Rodrigo de Freitas e próximo ao nosso próprio Paissandu, ao Clube dos Caiçaras, ao Clube Monte Líbano, à Associação Atlética Banco do Brasil, ao Clube Piraquê, ao Clube Militar, ao Jockey Club e à Sociedade Hípica Brasileira.

O Flamengo era o maior deles. Era popular não só por causa da imensa torcida do seu time de futebol mas também por ser o mais acessível financeira e socialmente na vizinhança. Apesar de não oferecer quadras de tênis nem áreas exclusivas, numa época sem academias de ginástica, ele era o único a possuir instalações esportivas de qualidade. Essas instalações incluíam um pequeno estádio de futebol – onde craques como Júnior e Zico treinavam – uma área dedicada ao remo, salas de musculação, saunas e duas piscinas olímpicas onde alguns dos melhores nadadores brasileiros haviam se formado. Era lá que tinha aulas de natação três vezes por semana.

Após as aulas, voltava a pé para o Paissandu que ficava no quarteirão de baixo. Apesar do tráfego constante e da caminhada ser curta, era considerada perigosa, propícia a assaltos. As calçadas eram desertas; não haviam lojas, escritórios ou qualquer tipo de vida pública ao redor, somente muros altos de concreto protegendo os clubes. Dito e feito, um dia no caminho vi três garotos que pareciam favelados se aproximando com a cara fechada. Pressenti o perigo, mas como não tinha para onde correr, olhei para baixo e fui em frente.

Quando a gente se cruzou, o mais alto e mais velho deles parou na minha frente, me olhou de cima e perguntou, “O que é que tu tem dentro dessa bolsa aí, playboy?”

“Nada, tô voltando da minha natação.” respondi preparado para o inevitável.

Sem se dar ao trabalho de me ouvir ele foi logo dizendo: “Me dá essa porra aqui!”

Ainda tentei segurar a bolsa, mas um dos outros dois me deu uma rasteira. Já no chão, vi os três desaparecendo na esquina com meus pertences.

Havia somente uma toalha molhada e uma sunga dentro, mas o sentimento de impotência por não ter sido forte ou corajoso o bastante para reagir foi traumático. Cheguei no clube em prantos. Quando minha mãe me viu, baixou o seu instinto de indignação britânica e fomos direto prestar queixa na delegacia de polícia que ficava do outro lado da rua.

Entramos lá, eu envergonhado de ter chorado e a Dona Renée exalando o seu ar de superioridade. Assim que entrou, exigiu que o recepcionista desinteressado nos levasse para falar com o delegado. Fomos com ele ao andar de cima e depois de uns minutos na sala do chefe, o auxiliar saiu e nos mandou entrar. Talvez em resposta à insistência arrogante da minha mãe, o delegado nem se deu ao trabalho de se levantar e pediu que a gente se sentasse para explicar o que estavamos fazendo ali. Sem esperar que terminássemos, quase nos ignorando através dos seus óculos escuros, o homem barrigudo, moreno e de bigode espesso deu um suspiro impaciente, abriu uma gaveta e atirou na nossa frente um álbum com fotos de bandidos perigosos para ver seu eu reconhecia algum.

Ele olhou debochado para a minha mãe e depois para mim. “Aqui tem fotos de assaltantes à mão armada. Reconhece algum?” Ele foi virando as páginas. “Este aqui a gente pegou num assalto no ano passado, mas soltaram ele há pouco tempo. Foi ele?”

Fiz que não com a cabeça.

“E este aqui? Assaltante de banco, reconhece?”

Depois da sessão de humilhação, com a desculpa de que tinha coisas importantes para fazer, o policial pediu para que a gente se retirasse sem sequer prometer que iria tentar fazer alguma coisa.

*

A delegacia era uma construção amarela desbotada que mais parecia uma casamata. Em cima da entrada, tinha uma insígnia com a inscrição “14ª Delegacia de Polícia” explicando a todos o que era aquele prédio destoante. Na sua calçada de terra batida sempre havia várias viaturas estacionadas. Do outro lado da rua, ficava uma igreja mal cuidada na esquina de um beco, a Cruzada São Sebastião. Nele se encontrava o único conjunto habitacional da vizinhança. Esse era, sem sombra de dúvida, o lugar mais perigoso do Leblon; para nós uma zona proibida.

Seus moradores eram remanescentes da favela da Praia do Pinto, que até meados dos anos 1960 ficava no meio de todos aqueles clubes requintados. Pouco depois do Golpe Militar de 1964, após tentativas “pacíficas” de remover os habitantes, as autoridades militares autorizaram que ateassem fogo aos barracos. Após a destruição, o terreno foi convenientemente repassado a empreiteiras camaradas limparem e aterrarem a área para depois construírem edifícios elegantes. As famílias que se mudariam para lá seriam na sua maioria de militares de médio escalão.

Os ex-favelados que se recusaram a mudar para subúrbios longínquos foram transferidos para o outro lado da rua onde, além da igreja, construíram aquele projeto social de prédios de oito andares. Suas novas acomodações rapidamente adquiriram um ar dilapidado que junto com a sua arquitetura minimalista, fizeram o lugar parecer um complexo penitenciário. A barra ali era pesada. Além dos locais, só camburões e outros veículos policiais se aventuravam beco a dentro.

Na calçada oposta às construções, havia um muro alto coroado por uma grade coberta por arame farpado. Ele separava aquele território de raiva engasgada de nosso campo de futebol de salão no Clube Paissandu.

Era lá que jogávamos nossas peladas na mesma hora em que os meninos da Cruzada jogavam as deles. Dava para ouvi-los claramente. Volta e meia alguém exagerava numa bola dividida ou num chute forte sem pontaria e a  nossa bola ia parar do outro lado do muro. Quando isso acontecia, a gente dava a partida por encerrada já que a bola quase nunca voltava. Como revanche, o mesmo valia para as deles que a gente só devolvia se tivessem devolvido a nossa recentemente. Aconteciam ocasionais trocas de pedras e de palavrões e, às vezes, meninos mais atrevidos subiam no muro para nos ameaçar, porém quando faziam isso, se tornavam alvos fáceis para boladas.

*

Garotos como aqueles da Cruzada e como meus assaltantes trabalhavam no Paissandu como boleiros de tênis. Muitas vezes seus pais trabalhavam no clube também. Sem exceção, eram mais bem preparados fisicamente do que o mais forte e o mais bem preparado de todos nós. Às vezes combinávamos de jogar contra eles, mas era o mesmo que ficarmos sentados aprendendo com a sua magia futebolística legitimamente brasileira.

Apesar de, entre a gente, fazermos piadas do seu português errado, dos seus tênis furados e da sua ignorância, os respeitávamos em segredo. A verdade era que todo homem da classe média carioca tinha inveja do arquétipo do homem negro da favela, admirado por ser bom de bola, de briga e de samba, idealizado como viril, com um monte de gostosas de todas as cores e classes sociais correndo atrás deles. A única característica “positiva” que lhes faltava era, é claro, a nossa educação cara e a nossa pele branca.

Em nossa bolha, era fácil esquecer que aqueles que víamos como favelados eram a maioria absoluta da população carioca. Apesar disso, não tinham o mesmo grau de cidadania e somente adquiriam respeitabilidade como estrelas do futebol, artistas e mais tarde, para alguns, como traficantes. Senão, eram elementos secundários nos nossos lares, nos nossos clubes, nas nossas escolas, nos escritórios, nas repartições públicas e mesmo na praia, como vendedores ambulantes. Nas horas de lazer eram passistas de escolas de samba, frequentadores de praias longínquas, pedintes e assaltantes. Para alguns, quase todos eram marginais esperando para serem presos, fazendo por merecer o seu destino por serem preguiçosos, desonestos e depravados. A atitude parecia com a dos brancos para com a população negra na África do Sul durante o apartheid.

*

As empregadas domésticas – resquícios da época da escravidão, terminada apenas 74 anos antes de eu nascer – encarnavam a ligação entre os dois mundos. Todo mundo que conhecia tinha pelo menos uma. Todo apartamento, por mais modesto que fosse, vinha com uma área de serviço para elas. Uniformizadas, essas mulheres limpavam a nossa casa, lavavam a nossa roupa, cozinhavam a nossa comida e comiam nossas sobras. Quando chegava a noite, se isolavam nas áreas de serviço e iam dormir em quartos abafados e sem janelas tendo como confortos ventiladores pequenos, crucifixos na parede e rádios baratos. Do lado de fora, tábuas de passar, vassouras e roupas sujas as aguardavam para o dia seguinte.

Quando era pequeno, uma das várias domésticas que passaram por nossas vidas colocava seu emprego em risco trazendo seu filho em segredo para morar escondido em nosso apartamento nos dias de semana. De acordo com o rígido código de conduta, isso estava totalmente fora dos limites. Eu era novo demais para conhecer tais regras e me tornei o único da família a saber da presença do meu amigo secreto que me seguia por todo lado, mas que se escondia atrás das cortinas quando o resto da família estava em casa. Um dia Renée descobriu o garoto e não teve dúvidas nem tolerância: despediu a mulher no ato. Essa atitude severa estava de acordo com a ética da época e do lugar. Todos os vizinhos e amigos apoiaram a decisão.

Por outro lado, nossa última empregada, Dona Isabel, ficou conosco por mais de vinte anos. Ela era a versão brasileira da Mamãe Dois Sapatos, a doméstica do desenho animado Tom e Jerry – negra retinta, baixa e troncuda, com um traseiro gigantesco que balançava pesado em cima de suas pernas grossas e tortas. Por conta da convivência diária, era comum que surgissem laços afetivos entre as domésticas e gente da família e, certamente, esse foi o caso de Dona Isabel com a Sarah e eu. A considerávamos como uma segunda e mais compreensiva mãe. Mesmo assim, o reconhecimento tácito de sua condição estava sempre presente. Enquanto trabalhou com a gente nunca se sentou conosco na sala de estar como também nunca saímos juntos. Tudo o que sabíamos a respeito da sua vida particular é que vivia num subúrbio afastado com um “sobrinho”, que tinha crescido em uma fazenda em Minas Gerais, que encontrava consolo no Candomblé e que tinha trabalhado para o líder integralista Plínio Salgado. O engraçado é que apesar de não saber nem ler nem escrever, esperta, ela aprendeu a entender inglês e volta e meia nos surpreendia com frases na nossa língua.

*

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Samba Perdido – Capitulo 06, parte 02

Nietzsche, o filósofo anti-religioso alemão, escreveu que grandes mudanças entram em nossas vidas como pombos pisando leve ao entrar em uma catedral, ou talvez no caso uma sinagoga. Tudo começou com uma inocente partida de futebol. Todas as terças e quintas a Escola Britânica nos levava a um campo de futebol oficial em Botafogo. Tal como a confusão que estava por acontecer, tudo naquelas partidas era desproporcional: o campo era grande demais para meninos de dez anos e a distância entre as traves era grande demais para os goleiros. Quando driblávamos um adversário e olhávamos adiante, ainda parecia haver quilômetros para se chegar ao gol. Para os passes, quase não dava para ver os companheiros e as corridas eram exaustivas. Para piorar as coisas, o professor levava as nossas atuações a sério e parava tudo para marcar o menor dos erros.

Foi um alívio ouvir o apito final. Não via a hora de pegar o ônibus da escola que nos levaria ao clube Paissandu onde iria jogar uma nova partida muito mais agradável de futebol de salão. Quando entrei o motorista perguntou meu nome, olhou a lista e me mandou descer. Alguém na secretaria tinha se confundido e havia me colocado na lista das crianças que iam voltar para casa em vez das que iam ao clube. Em pânico, sem saber o que fazer e ansioso pela confusão que o erro ia causar, contei o problema ao professor mas ele disse que não podia fazer nada. Sem querer aceitar um não como resposta, pedi uma carona a um amigo que estava indo para o clube após sua aula de judô na escola. Ele disse que sim e o professor concordou, mas não deve ter contado para mais ninguém.

Voltamos para a escola onde todos, fora nós dois, pegaram seus ônibus para casa. Fiquei uma entediante hora e meia no pátio vazio assistindo o instrutor jogando o Martin para lá e para cá ao redor do tatame.

Depois da aula, quando sua mãe chegou e ouviu sobre a carona, deu uma bronca no filho dizendo que ele sabia que não ia ao clube depois do judô. Com pressa de voltar para um compromisso em casa não ia dar para me levar até o Leblon. Contudo, entendendo a situação que o filho tinha me colocado e sabendo que não tinha como me deixar sozinho na escola, ela se viu obrigada a me dar uma carona até Copacabana, que ficava mais à mão. A caminho de casa, fiquei pensando no tamanho do problema.

Quando não apareci no clube com o ônibus escolar, dona Renée telefonou a escola para perguntar o que havia acontecido. Alguém atendeu e deu a resposta inacreditável de que não ninguém sabia. Essa era uma época em que a guerrilha urbana sequestrava estrangeiros para trocá-los por camaradas na prisão. Obviamente não pertenciamos ao grupo de risco – diplomatas e altos executivos – mas a paranoia fez com que Renée saisse ligando para todo mundo.

Ao me ver chegar em casa, a empregada já enlouquecida pelos telefonemas incessantes da patroa, entrou em parafuso. Alguém teve a ideia de me colocar num táxi para ir ao clube. Ela e o porteiro, Zé, desceram na rua e chamaram o primeiro que apareceu. Da minha parte, aquilo era uma aventura eletrizante; ali estava eu, com dez anos de idade, andando de carro sozinho com um motorista desconhecido e me abaixando sempre que passávamos por policiais porque, na minha cabeça, aquilo era ilegal.

Quando minha mãe descobriu o que havia ocorrido, ficou furiosa. As coisas pioraram quando ficou sabendo que o novo diretor, um ex-oficial disciplinador da Marinha Real, havia me culpado pelo incidente. Começaram a aparecer avisos nos murais dizendo que todos podiam fazer isso ou aquilo menos eu porque que era um irresponsável. Meus pais decidiram que a marcação era inaceitável.

Foi assim que deixei o casulo protetor da Escola Britânica para entrar no universo escolar brasileiro. Na verdade, o início da experiência não foi cem por cento brasileiro. Meus pais resolveram me colocar numa escola judaica, o Eliezer Steinbarg, uma aposta segura, até que soubessem o que fazer comigo. De minha parte, a mudança foi bem-vinda. O porém é havia obstáculos; as salas tinham pelo menos o triplo de alunos, as aulas eram em português, o currículo era mais avançado em ciências e em matemática e havia matérias que teria que começar do zero: o hebraico com seu alfabeto diferente, o iídiche e a história judaica. Quando a poeira baixou me dei conta de que, igual na Escola Britanica, era bem diferente dos meus colegas. Como era de se esperar, diante de minha situação social frágil havia novos inimigos a encarar.

*

Apesar da escolha da escola judaica e da herança cultual, meus pais – assim como todos seus amigos – se viam como ateus. No entanto, quando ficou patente que a estadia no Brasil era permanentemente, decidiram utilizar a religião para dar aos filhos um senso de identidade. Os rituais foram ficando mais presentes. Começamos a acender velas de Shabbat nas noites de sexta-feira e a observar os feriados religiosos mais importantes. Nos tornamos sócios de uma sinagoga, a ARI, a Associação Religiosa Israelita, uma congregação não-ortodoxa de judeus asquenazis – provenientes da Europa do Leste.

Embora fosse divertido encontrar amigos no templo, detestava a formalidade pretensiosa daquela congregação orgulhosamente pertencente à classe média alta. Nas datas importantes o lugar lotava. Igual a todos, íamos para marcar presença. Tinha que colocar minhas melhores roupas e ficava incomodado de ter que andar pelas ruas de Copacabana parecendo um principezinho boióla enquanto todos continuavam levando suas vidas normalmente.

No dia mais solene do calendário religioso, o Yom Kippur – o dia do perdão – a nação inteira jejuava por vinte e quatro horas e a vida girava em torno de súplicas pelo perdão divino. Na ARI, os adultos permaneciam dentro da Sinagoga se submetendo à uma maratona interminável de sessões de orações. Conforme o dia ia passando, lutavam contra suas culpas e contra a fome e a sede crescentes. Enquanto isso, meus amigos e eu ficávamos do lado de fora, de saco cheio sem ter o que fazer.

O ponto alto do feriado – e do calendário Judaico – era seu fechamento apoteótico. Concluídas as vinte quatro horas de jejum, rezas e meditações silenciosas, fechavam a arca que guardava os textos sagrados. Em seguida o rabino chamava um especialista para tocar o Shofar; um chifre de carneiro transformado em instrumento musical. Seu toque ritual soava como um trompete alto. Aquele som era como um chamado de um passado longínquo no deserto, conclamando o povo nômade a despertar para algo que ainda estava mais vivo que nunca.

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O único milagre alcançado nessa, e em outras, datas importantes era o de nos sentirmos mais judeus. No entanto, acima das tradições religiosas e da memória do Holocausto, naquela época o que mais unia a nação era o Estado de Israel. O mundo havia ensinado à geração de meu pai que, se você fosse um judeu vivendo numa terra estrangeira o povo local podia atirar você e sua família numa câmara de gás por ódio e por preconceito. Fariam isso sem se importar no que você acreditasse ou como você fosse enquanto indivíduo. Tudo isso dentro da lei e com a benção do Estado. Para aquela geração, uma pátria judaica era a única forma de garantir a sobrevivência dos seus descendentes. O fato de que isso tivesse acontecendo na terra prometida ao seu povo na Bíblia era nada menos do que intervenção divina.

Com os triunfos militares, veio a transformação de uma nação de vítimas indefesas em uma potência militar. Uma febre eufórica varreu o mundo judaico e nossa casa não foi exceção. Rafael só lia livros escritos pelos líderes sionistas e fazia doações generosas à causa. Em nossos círculos, a mera menção dos palestinos era considerada traição. Mesmo assim, uma parte de mim não comprava aquele entusiasmo. Por toda a história da “terra prometida”, pouquíssimas partes envolvidas em seus inúmeros e infindáveis conflitos entenderam que estabilidade e segurança exigem compromissos. Uma agenda nacionalista de ateus usando a Bíblia como justificativa para tomar posse exclusiva de uma terra alheia considerada santa pelas três maiores religiões do mundo, lar de uma população que vivia lá a séculos, pronta para lutar para reaver o que era dela, acabaria certamente em tragédia.

Pude ter uma ideia clara sobre a vida em Israel por intermédio de um de meus melhores amigos, Uri. O pai dele, Ossi, cunhado do Paulo, trabalhava com meu pai. Quando jovem, serviu o exército de Israel na guerra da independência e veio para o Brasil logo depois. Nascido e criado na França, com um charme a lá Humphrey Bogart fazia sucesso com as brasileiras. Porém, como mandava a tradição, acabou se casando com uma belíssima ex-atriz israelense, mãe do Uri e do seu irmão mais novo, Dicki. O casamento acabou não dando certo e ela voltou para sua terra com os filhos

Os irmãos não queriam ir. Também não queria fossem, éramos como família. Pelo menos a amizade sobreviveu já que os dois passariam a vir todos os anos para o Rio a fim de passar as férias com o pai. os dois me fizeram ver como era difícil a vida na “Terra Prometida”. Israel era um país sitiado, sempre em pé de guerra, com alistamento obrigatório de três anos para todos os meninos e todas as meninas e com constantes ações e ameaças terroristas. Os irmãos  me fizeram reconhecer a sorte de estar crescendo no Rio. No entanto, o que mais chamava a atenção sobre a maneira deles encararem o conflito, era que enxergavam os palestinos como seres humanos, mesmo durante e depois de servirem o exército. Por outro lado, Rafael e seus amigos – que nunca teriam que enfrentar um inimigo armado em um campo de batalha – os enxergavam como sub-humanos e tinham opiniões muito mais agressivas. Eu via em Uri e em seu irmão uma forma mais saudável de ser judeu, livre da claustrofobia da comunidade judaica do Rio de Janeiro. Aquela perspectiva me ajudou a impedir que o antissemitismo, real ou imaginário, moldasse meu caráter.

*

Como é o caso com qualquer garoto “brimo”, quando fiz treze anos chegou a hora do meu Bar Mitzvá. Nessa cerimônia de iniciação seria convidado a ler das escrituras sagradas na frente da comunidade. O primeiro passo foi conseguir um professor. Nossa preferência era o cantor principal da sinagoga, o chasan Aaronson, um homem imponente com uma voz poderosa. Ao entoar as preces com sua voz ensurdecedora, balançava seu corpo freneticamente enquanto contorcia seu rosto. Inacreditavelmente, o cuspe que jorrava da sua boca acabava parando até em seus óculos fundo de garrafa. O problema era que suas aulas eram caras demais. Daí partimos para a segunda opção: um cantor baixinho e gorducho, também por volta dos 60 anos, que também usava óculos fundo de garrafa mas que cantava mais introspectivamente e usava uma indumentária menos dramática. Seu status era secundário, principalmente depois de caír em desgraça pelo de seu hábito de cochilar em frente à congregação em ocasiões importantes.

No começo fiquei fascinado pelas aulas. A parte da Torá que ia recitar versava sobre o ano sabático, algo que a partir dali consideraria um conceito utópico que, caso adotado, colocaria o mundo de volta nos trilhos. A lei ditava que a cada sétimo ano, todos os israelitas – bem como sua terra e seus servos – deveriam descansar por um ano inteiro. Ao fim de 49 anos, isto é, depois de sete sabáticos, quem quer que houvesse comprado terra nesse período, deveria devolver a propriedade aos donos originais para que, no final, ninguém se tornasse mais rico ou pobre que os demais.

O professor dava aulas em casa em Laranjeiras, um bairro para mim afastado. As lições eram num quarto abafado cheirando a mofo. Nelas, aprendia como cantarolar meu trecho em hebraico bíblico. Ficávamos repassando aquilo uma vez atrás da outra, sentados em cadeiras desconfortáveis e nos escorando numa velha mesa de madeira coberta de pilhas de livros religiosos. Depois da terceira ou quarta aula, a experiência passou a ser insuportável. Tinha que lutar para me manter acordado todas as vezes que aquelas páginas se abriam na minha frente.

Um dia, completamente do nada, senti – e depois vi – a mão gorda do meu mentor rastejando pela minha coxa e indo parar no meu “shlong” de treze anos de idade. Ele continuou a ler o livro e a agir como se nada estivesse acontecendo. Apesar de ter sido só uma apertadinha, fiquei completamente chocado e sem vontade nenhuma de voltar para aquela salinha.

Quando contei para meus pais o que havia acontecido e pedi para não ter mais que pegar aulas, acharam que a minha “história” era só mais uma desculpa. Para minha sorte, seguindo o plano de curso da sinagoga, aquelas aulas terminaram logo e passei para a próxima etapa; os ensaios finais no shul – ou sinagoga em iídiche. Com isso, de uma só tacada, me vi livre da chatice tortuosa e da bolinação. Porém, meu respeito pela religião organizada tinha sido abalado.

*

No dia da grande ocasião, a sinagoga estava cheia de rostos conhecidos; amigos do Rafael e da Renée, amigos de escola e do futebol. Até a Bibi tinha comparecido. Estava tão nervoso que fiquei com um tique no olho que durou semanas. Quando minha hora chegou, o jovem rabino de Nova York, ruivo com um bigode e óculos redondos – parecido com o Ned Flanders dos Simpsons – me chamou para ler a Torá. Quando acabei, deu um sermão constrangedor dizendo entre outras coisas supérfluas, que eu gostava de dançar rock e de fazer surfe.

Caso fosse um judeu ortodoxo, aquilo teria sido um rito de passagem. Daquele dia em diante seria responsável por meus atos em termos de punições e de recompensas divinas. Mas não foi nada daquilo. Para os meus pais tinha sido o prosseguimento de uma tradição obsoleta e uma oportunidade para provar seu status social. Para mim, tinha sido uma obrigação e uma desculpa para ganhar presentes caros.

Depois de tudo terminado, havia de fato passado para uma nova etapa de vida: meu cabelo estava crescendo ao mesmo tempo que os hormônios estavam modificando meu corpo e a minha voz. Minha iniciação para tinha acontecido na praia pegando ondas grandes e nas machanés. Passei a ver a sinagoga como um ponto de encontro para coroas que, sob a pretensão de serem religiosos, iam ali para cultivar contatos comerciais e profissionais. Aquele teatro e a pegadinha do professor nunca representariam o caminho para uma verdade superior.

Já que a norma adotada pelos judeus modernos era a de ser ateu, por que deveria perder meu tempo com aquilo? Se queriam usar tradições do Leste Europeu e o medo para me manter preso dentro de uma cerca, o plano não funcionaria no Rio de Janeiro dos anos setenta. Além disso, apelar para o sionismo como forma de me manter na comunidade era ridículo: se nossos pais haviam escolhido emigrar para o distante Brasil em vez de terem tido a coragem de lutar por Israel, que comprometimento podiam exigir de nós?

Um dia durante o jantar tentei conversar com meu pai em ídiche, que estava aprendendo mal e porcamente na escola. Ele ficou horrorizado ao me ver falar a sua língua natal e resolveu me tirar do Eliezer Steinberg. Vai entender…


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