Salve-se do Hamas

Os foguetes
lançados pelo Hamas contra Israel são um crime de guerra. Eles são lançados a
esmo para onde caírem causarem morte e destruição dentro de suas
possibilidades, que todos sabem, são limitadíssimas.

O que Israel
está fazendo também é um crime de guerra. O número de civis mortos não para de
aumentar e já eram de ao menos 22 crianças pela última conta apresentada.
Por que
então o Hamas está se metendo numa batalha que sabe estar perdida? O próprio
Presidente Abbas fez a pergunta: O que vocês esperam ganhar com isso?

Existe muito
a ganhar, por mais paradoxal que possa soar.

O Hamas
colocou novamente a questão Palestina na agenda mundial. Toda atenção do mundo,
depois da final da Copa, vai estar voltada para Gaza. 
Todos vão
comentar sobre a desproporção do número de mortos e feridos. Próximo de 170
mortos em Gaza, e nenhum em Israel. Cerca de 700 feridos em Gaza e de 10
israelenses. Isto depois de mais de 700 foguetes lançados contra Israel. Isto
ocorre porque Israel dispõe de meios de proteção para sua população: sirenes de
alerta. abrigos e fronteiras abertas para quem quiser sair. Já em Gaza é outra
história. Sem sirenes de alerta, sem abrigos para proteção e fronteiras
fechadas.

Gaza vai se
tornando um baluarte da luta contra o imperialismo e a ocupação Israelense.
Apesar de ter retirado suas tropas e seus cidadãos de Gaza, Israel continua controlando
o território com mãos de ferro. Como uma prisão a céu aberto, nada entra e nada
sai sem minuciosa revista e autorização das autoridades israelenses, seja por
terra, ou pelo mar.

O Hamas vai
mostrando aos palestinos que é a única organização que luta por eles. Mesmo com
toda a repressão nos territórios ocupados desencadeada a partir do sequestro e
morte de três jovens israelenses, e o posterior sequestro e morte de um jovem
palestino, os territórios se mantiveram relativamente calmos com relação a
demonstrações de repúdio. Foram muito maiores nas cidades de maioria árabe
dentro de Israel e de parte do Hamas.

Não há
dúvidas de que a conta será cara. Israel está deixando não só mortos e feridos,
está destruindo centenas de casas, edifícios, mesquitas e agora escolas e
hospitais também são alvos militares. Nenhuma justificativa vai explicar isso.
Em termos de propaganda, Israel vai perder.

Se estes
ganhos parecem pequenos diante do preço a pagar, isto é o menos relevante. Um
cessar fogo acabará acontecendo. O que foi destruído e as vidas perdidas serão
recontadas. Pode-se reconstruir as perdas materiais, mas as vidas vão ser
contabilizadas na conta do custo pela libertação e criação do Estado Palestino.

Israel não
tem nada a ganhar com esta batalha. Perde amigos dia a dia e a cada divulgação
do número de mortos. Os cidadãos de Israel querem poder levar suas vidas em paz
sem precisarem correr para abrigos todos os dias. Uma trégua vai somente adiar
o inevitável dia de tudo isso recomeçar.

A solução é
a negociação, o fim da ocupação e a criação do Estado Palestino. Todos sabem
disso, ninguém quer escutar e as bombas a cair.

A Ocupação

A ocupação dos territórios por Israel em 1967 depois da
Guerra dos Seis dias tornou-se uma doença altamente contagiosa. Uma geração
inteira de israelenses e de palestinos já nasceram com ela.
Falando de Israel esta doença solapou os pilares da criação
do Estado. Derrubou por terra o sonho dos que pensaram em uma lar judaico democrático
para um povo tão perseguido durante milênios e que deixou na Europa dominada
pelos nazistas seis milhões de seus filhos.
Existem os que desconhecem os fatos e aqueles que são mal
intencionados mesmo. A “saída” de Gaza nunca aconteceu. Israel mantém
o território fechado e jogou as chaves fora. Nada entra, ou sai de Gaza sem o
consentimento de Israel. Nada mesmo, seja por terra ou pelo mar. Nenhum
alimento, nenhum produto, nenhuma pessoa, nada está permitido. É com esta
realidade que 1,5 milhão de pessoas acordam todos os dias em busca de trabalho
e alimento. Parece ruim, calma que fica pior. Eles são governados pelo Hamas.
Um grupo terrorista como chama Israel, um partido político como se definem.
Eleições, o que é isto?
Do outro lado de Israel estão os chamados territórios
ocupados. Sim, estes estão literalmente ocupados por colonos que acreditam que
Deus nos deu toda a terra de Israel (o que englobaria a Jordânia, mas ela pode
esperar que sua hora vai chegar). Ocupam terras palestinas roubadas, ocupam
casas em Hebrom, uma das maiores cidades palestinas, tudo com uma única intenção:
tornar a vida deles tão difícil, infernal a ponto de fazê-los desistir e se
mudarem. A ocupação no que depende deles veio para ficar.
Imaginem que hoje o famoso Exército de Defesa de Israel,
aquele mesmo que lutou pela sobrevivência do país quando atacado no dia de sua
independência em 1948, em 1956, em 1967 (tudo bem atacou antes, mas foi perto)
e em 1973. Venceu todas aquelas guerras e é hoje a maior força policial dos
territórios ocupados. Sua presença se faz necessária para proteger os colonos e
para prevenir ataques terroristas. Para cumprir sua função não hesita em usar
de toda força necessária. Quando se trata de força isso inclui destruir casas
de suspeitos (eu disse suspeitos), prender crianças e qualquer um que interfira
em suas ações. Imaginem o que é dar este poder a jovens de 18 anos. Estes que
em breve vão voltar para casa e serem cidadãos, ou tentar ser. Fica mais fácil
de entender quem são estes cidadãos que não respeitam filas, pessoas mais
velhas, batem nas esposas e nos filhos depois de saírem do serviço militar,
entre outros problemas contraídos no serviço militar.
E a Palestina. Bem a Palestina ainda é um sonho que só vai
acontecer quando a doença da ocupação for vencida. Divididos politicamente
entre rivais eles tentam a todo custo manter uma certa unidade. O Hamas em Gaza
através da  força ainda delirando com
todo o território do mar ao rio Jordão como sendo a futura Palestina. E o Fatah
que é mais realista compreende que pode-se conviver com o vizinho dentro das
fronteiras de 1967.
Se a doença é conhecida, como tratá-la ainda não é. Existem remédios
paliativos. Tentativas de negociações de paz que terminam muito antes de
começar. Placebos para um paciente terminal.
Somente um ambiente destes pode fazer com que dois jovens
palestinos (é o que dizem por enquanto) sequestrem três jovens colonos
israelenses que residem nos territórios ocupados e os matem a sangue frio. E
neste mesmo ambiente, outros três jovens israelenses residentes em Jerusalém,
sequestram e matam um jovem árabe queimando ainda em vida.
Com o sequestro dos jovens israelenses, forças do exército,
aquelas que servem de policiais, rumaram para os territórios ocupados invadindo
centenas de casas, agredindo pessoas, destruindo móveis e utensílios na busca
de informações, detendo mais de 400 suspeitos de todas as idades, mas sobretudo,
matando civis inocentes, entre eles crianças.
De Gaza começam a chegar foguetes. Israel os chama de
mísseis. De toda maneira, artefatos explosivos que caem quando acaba o
combustível e explodem quando tocam o solo. Neste caso pode ser em terras
vazias como acontece na maioria das vezes, ma também sobre casas, carros,
escolas etc. E neste caso pode haver vítimas inocentes.
Israel começou a revidar, mais foguetes foram chegando, mais
ataques de Israel, mais foguetes e o saldo já passa de mais de 90 pessoas
mortas de um lado só: de Gaza. A maioria de civis, entre eles mulheres e
crianças.
Israel está preparada para abrigar toda sua população, mas
em Gaza não existem abrigos. Isto explica a diferença de 90 X 0 no número de
mortos até agora e estamos só começando. A invasão por terra vai fazer a festa
dos coveiros. Neste caso dos dois lados.
Tudo isso poderia ser evitado? Evidentemente que sim. Com
negociação, com decisões difíceis de serem tomadas, mas necessárias pode-se
chegar a um acordo de paz, convivência, coexistência com dois estados para os
dois povos. Parece simples, no entanto vai ficando cada vez mais difícil.
Aquela doença da qual eu falava sobrepõe a paixão sobre a
razão, cega os que enxergam longe, cria ouvidos mocos e alegra os corações dos
belicistas. Como vencer esta doença?
Não existe uma cura com uma única dose de remédios. Não
existe uma solução que satisfaça  a todos.
Não existe uma maneira de trazer de volta as vidas que se foram.
Para começar é preciso acabar com a violência. É preciso ser
forte o bastante para suportar as provocações e provações que surgem no
caminho. Tem que haver líderes dispostos a sacrificar seu futuro político em
nome do bem maior. Pessoas com visão para o futuro das próximas gerações sem
olhar para trás. Capaz de sobrepujar as diferenças, contentar-se com o que é
possível e ater-se ao que realmente importa: terminar com o ciclo de mortes e
começar a valorizar a vida. Todas elas.
Estes líderes existem. Só não aceitam a tarefa ainda.Cabe a
sociedade, aos dois povos exigir isso deles. Mostrar que não suportam mais
seguir por este caminho, dizendo não a guerra e sim a paz com justiça.
Esta é a cura: o fim da ocupação!

Eu faço a minha parte. Participo de grupos pacifistas,
compartilho suas ideias e ofereço as minhas para as pessoas do bem. Assim, de
um em um, vamos somando forças e mostrando que somos a maioria. 

Desculpem, mas eles sabiam o que estavam fazendo.

Por Mauro J. Nadvorny Desde a malfadada ação de Israel contra os barcos de ajuda humanitária que tenho ficado calado. Mesmo diante de sentimentos de perplexidade, tristeza, raiva e compaixão, permaneci quieto.Esperei até o dia de hoje aguardando que todos falassem e expusessem suas opiniões. Mais, esperei que a poeira baixasse aguardando por algum novo desdobramento, uma nova revelação. Esperei para ver estampado nos noticiários o material bélico que Israel mostraria haver encontrado em meio a ajuda humanitária. Uma prova qualquer irrefutável que pudesse minimamente justificar tamanha estupidez. Nada apareceu.Atacar um comboio humanitário da forma como foi planejado permite se falar em premeditação de mortes. Exércitos são treinados para matar, mesmo que sob o eufemismo de “exército de defesa”, todo soldado aprende que é melhor atirar antes e perguntar depois. Portanto enviar uma tropa treinada na arte de matar para atacar navios de civis sabidamente compostos de pacifistas rancorosos com Israel, foi premeditar o desastre da operação com a consequente morte de inocentes. Para completar o que já era terrível, foi realizá-la em águas internacionais.Dizer que os soldados foram atacados e atiraram para defender suas vidas é menosprezar nossa inteligência. Todas as cenas filmadas de dentro e de fora dos navios mostram tropas armadas atacando um barco com ajuda humanitária. Mostram soldados totalmente desorientados em confronto com civis. Homens sem nenhuma orientação tática de como enfrentar aquela situação. Manifestações de civis são contidas por tropas policiais treinadas neste tipo de trabalho. Muitas vezes os manifestantes fazem uso de paus, pedras e até coquetéis Molotov, nem por isso policiais fazem uso de armas de fogo. Qualquer investigação independente vai chegar a uma única conclusão: a tomada de navios com ajuda humanitária em águas internacionais agravada com a morte de inocentes, é um ato de pirataria.Sou obrigado a voltar no tempo para dizer que nada disso teria acontecido se não fosse mantido o bloqueio de Gaza. Uma ação sem sentido algum, ineficaz e totalmente imprópria sob a lei internacional que proíbe o castigo coletivo. Mas Israel é reincidente em matéria de desprezo as leis internacionais. O ataque recente a Gaza com o massacre de centenas de civis mostra que o atual governo do país acha que se encontra acima dos direitos e obrigações que todos os países democráticos impõe a si próprios.O governo de Israel conseguiu mais uma vez unir nossos inimigos e somar a eles nosso últimos amigos. O mundo não é povoado somente de anti-semitas. O mundo é cada vez mais formado por pessoas que se importam. Pessoas que desejam um mundo melhor para todos. Pessoas que não aceitam que um milhão e meio de pessoas permaneçam confinadas numa imensa prisão territorial sem ajuda alguma e impedidas de reconstruírem seus lares, seus hospitais, suas fábricas etc. São homens e mulheres que participam hora de uma luta para salvar um animal em extinção, hora para enviar ajuda para quem sente fome.Os jornais israelenses são unânimes em afirmar que o bloqueio não serviu para nada. Quer Israel goste, ou não o Hamas está lá para ficar. Por mais odiosos que possam ser para alguns, o regime do Hamas foi legitimamente eleito pelo povo palestino. Ganhou, mas não levou e deu no que deu.Em meio a toda esta situação ninguém lembrou de Gilad Shalit. O soldado esquecido. Uma vergonha nacional. Todos os esforços são feitos para impedir que ele seja libertado. Até mesmo os melhores negociadores de países amigos estão desistindo. Toda vez que se chega a um entendimento o governo de Israel impõe novas condições que impedem um desfecho feliz. Uma lição para os futuros soldados, não se deixe capturar vivo quando estiver servindo ao seu país, ou passe os melhores anos de sua vida numa prisão em terra estranha.Dias tristes para Israel e para todos nós, judeus humanistas que se importam com o caminho paranóico de enfrentamento que o atual governo impôs ao país. O primeiro-ministro foi a TV para anunciar o triunfo da operação que impediu que o Irã conseguisse abrir um porto de terrorismo em Gaza. Israel mais uma vez salvou o mundo! Quem não acreditar não acredita em Papei Noel, Coelhinho da Páscoa, e principalmente não credita em Nethanyau porque é um verdadeiro anti-semita.Ao menos em meio a tanta insensatez muitas vozes contra mais este ato de barbárie se fizeram escutar em Israel. Mais e mais israelenses estão colocando o dedo em suas consciências e percebendo que existem limites para quem deseja viver em paz no seio dos povos do mundo. Que nas próximas eleições, sejam a maioria.


Sobel, eu tenho uma opinião

Diante do lamentável fato ocorrido com o Sobel, vejo manifestações de todo tipo circularem pela Internet numa velocidade que só mesmo estes tempos de hoje podem permitir.

De um lado, o bom humor judaico e não judaico fazendo graça do ocorrido. De outro os antisemitas de sempre impondo a condição de ladrões a todo povo judeu em geral, e a Sobel em particular.

Acima de tudo vejo as correntes de solidariedade que vem de todas as direções e que fazem de Sobel uma das pessoas mais queridas da comunidade. E não faltam razões para isso, ao menos aparentemente.

Talvez o caso mais emblemático de todos seja o de Vladimir Herzog. Assassinado pela ditadura, Sobel não permitiu que ele fosse enterrado como suicida (versão dos assassinos), e literalmente peitou os milicos.

Sobel tem também a seu fazer um brilhante trabalho ecumênico, principalmente na aproximação da igreja católica com o judaísmo.

Tudo isso não apaga o fato de que ele furtou algumas gravatas de lojas em Miami. Para alguém como ele, a única explicação condizente será cleptomania. Como esta não é uma doença que se adquire da noite para o dia, me atrevo a dizer que a doença era de conhecimento de seus amigos mais próximos e nunca tratada com a devida importância.

Pessoalmente não guardo boas recordações de Sobel. Durante minha militância em movimento juvenil certa vez durante a ditadura, acompanhamos uma família que fazia Aliá cujos filhos eram nossos companheiros, até o aeroporto. Fomos com faixas e bandeiras de Israel para nos despedir. Lá estavam alguns proeminentes membros da comunidade que horrorizados com nossa festa queriam que enrolássemos as bandeiras de Israel. Passados poucos dias, Sobel veio ao estado fazer uma palestra. Lá estávamos nós para ver e escutar o grande rabino. Ao final o acontecido no aeroporto foi questionado e a resposta dele: porque não portar também bandeiras do Brasil? Contado de forma muita resumida e trazido para os dias de hoje, sem dúvida parece ter pouca importância, mas na época foi um balde de água fria numa juventude sionista.

Durante o caso Elwanger também não guardo boas recordações de Sobel. Ciente de todas as dificuldades que o Movimento Popular Anti-racismo enfrentava, nunca se envolveu. Lá estavam judeus e negros unidos contra um nazista e ainda tendo de lutar contra as forças da comunidade judaica que tentavam impedir uma ação contra o ressurgimento do neonazismo.

Mesmo depois de encerrado o caso, foi incapaz de se manifestar em defesa de uma organização não judaica que até hoje tem dois membros acionados na justiça a pagar custas de um processo que moveram em nome da honra.

A mim, sempre ficou a nítida impressão de um Sobel que gosta de holofotes, muito mais do que uma pessoa realmente comprometida com um mundo melhor. Um sujeito esquisito, egocêntrico cujo nome adquiriu muito mais respeito do que a importância de suas atitudes, até esta semana.

Contudo me permito ainda lamentar o que está acontecendo. Deixando de ser egoísta talvez, ou mesquinho, me rendo ao fato de que seu passado representou um marco importante pata a restauração da democracia no Brasil e para o diálogo judaico-cristão.

Não vou assinar nenhuma lista de solidariedade, esperando a compreensão de quem chegou até aqui, mas desejo a ele que se recupere plenamente tratando de seu distúrbio e que futuramente tenha um pouco mais de humildade para com todos que o cercam e admiram.

Não é minha atenção ferir suscetibilidades e tampouco abrir uma linha de discussão. Respeito a todas opiniões contrárias e peço apenas que tratem a minha como mais uma dada entre tantas.

O Líbano e eu com isso.

Como se posicionar diante do fato consumado que está acontecendo no Líbano, tem sido algo que me atormenta nos últimos dias. De um lado a paixão com toda minha solidariedade com amigos, parentes e concidadãos de Israel que estão sofrendo sob o impacto de centenas de mísseis que caem a toda hora no norte do país. De outro a razão que me faz pensar o que tudo isso significa.

Claro que Israel foi provocado. Teve seu território invadido, soldados mortos e dois seqüestrados para servirem de moeda de barganha numa futura troca de prisioneiros. Claro que Israel respondeu como qualquer estado soberano o faria, despejando toda sua força e capacidade militar para demonstrar que não aceitou o que ocorreu como uma ação isolada e inconseqüente.

Nenhuma das superpotências está em condições de condenar Israel. A Rússia por exemplo, que pede apenas que Israel se contenha um pouco mais, destruiu Grozny, a capital de Chechênia, quando invadiu aquela república em 1999, e deixou em ruínas o que restou do território. O que fez a França na Argélia não difere muito e poderia seguir enumerando um a um cada país e suas respectivas atitudes pouco civilizadas cometidas nos anos recentes

A crise do Líbano me faz recordar do imenso lamaçal que Israel se envolveu em 1992. O país é constituído por comunidades que praticamente vivem como estados dentro de um estado. Cada comunidade, xiita, cristã ou druza, além é claro dos refugiados palestinos, possui sua própria milícia e obedecem aos seus respectivos clãs antes de acatar ordens do governo central. Uns são pró-sírios, outros não. O sul de Beirute por exemplo, assim com o sul do Líbano é território do Hizbolláh. Nem a polícia e nem o exército libanês podem entrar lá sem autorização.

A guerra civil libanesa entre 1975 e 1990 esgotou o país e o submeteu ao jugo da Síria que ocupou militarmente a maior parte do país. Se de um lado conseguiu o fim das hostilidades, de outro subjugou o país como se fosse uma província sua.

O Líbano é um legítimo saco de gatos, sem nenhuma intenção depreciativa. O que podemos esperar de um país que não tem forças sequer para impor a lei na sua própria capital? Este é o fato importante. Não adianta se dizer que o Hizbolláh faz parte do governo, que o ataque partiu do território soberano libanês etc. Tudo isto é pura falácia. O governo libanês mal governa a si mesmo. Presidente pró-sírio não se entende com o primeiro ministro anti-sírio. O parlamento pende de um lado para o outro. E enquanto isso políticos são assassinados por agentes sírios sem que ninguém, seja preso ou acusado. Esta é a realidade.

A resposta israelense ao ataque sofrido se voltou contra todo o Líbano. Em minha opinião, má estratégia, mas quem sou eu para discutir isso com os generais? As bombas estão vitimando membros do Hizbolláh, simpatizantes e até mesmo seus inimigos históricos. Alguém deve saber o está fazendo. E talvez um dia eu seja obrigado a reconhecer que tinha razão, mas por enquanto acho que algo está errado.

Vamos supor que minha cegueira pacifista não seja capaz de compreender que esta brilhante estratégia de destruir toda a infra-estrutura do país a fim de esmagar os terroristas esteja correta, e digamos que dentro de algum tempo, depois de milhares de baixas e duas economias em ruínas, o exército israelense consiga acabar com o último terrorista e liquidar com todo o seu armamento até a última bala. Quanto tempo vai levar para que a Síria e o Irã reponham tudo isso? Um mês? Um ano? Não importa, eles vão repor e tudo vai voltar ao que era antes. Com uma diferença, as vidas perdidas nunca mais vão receber uma nova chance.

Quando leio artigo de Amos Oz a favor da guerra, vejo o Shalom Hachshav (Paz Agora) paralisado, percebo que alguma coisa diferente aconteceu. A honra militar, a dignidade do exército foi ferida com aquele ataque palestino que seqüestrou um soldado e se cobriu de vergonha e raiva incontrolada quando outros dois foram seqüestrados pelo Hizbolláh. Foi a gota d’água que fez derramar uma avalanche de ataques e contra ataques sem fim aparente.

Tomemos como exemplo por alguns instantes o que está ocorrendo em Gaza. Israel prendeu parlamentares do Hamas, militantes de todas as facções, vem bombardeando e matando militantes e civis, arrasando com o que restava da infra-estrutura civil, dividindo a região e ainda assim não trouxe o soldado de volta para casa. Por que seria lógico imaginar que no Líbano seria diferente?

Esta parece que vai ser mais uma guerra daquelas em que todos saem perdendo. Perdem as famílias que tem seus filhos entregues em caixões. Perdem aquelas que são atingidas por disparos, ou que perdem seus locais de trabalho, ou que são obrigadas a abandonar suas casas. Perdem os dois países com a destruição e a perda econômica com o custo dia da guerra.Todos perdem tudo até mesmo a razão quando se olhar para trás e se perceber que nenhum dos objetivos foi alcançado.

Resta portanto responder ao que todos os que chegaram até aqui estão se perguntando: o que deveria ter sido feito? Esta é uma pergunta cuja resposta se torna totalmente irrelevante. A grande questão é o que pode ser feito agora. Para esta questão eu tenho a dizer que devemos apoiar as iniciativas diplomáticas exeqüíveis, ou sejam, aquelas que levam em conta a realidade dos acontecimentos. Neste sentido um cessar fogo ainda não é plausível.

Acredito que a solução passa por uma ação de compromisso entre os dois países e forças estrangeiras sob o auspício da ONU ou da OTAM. Uma força capaz de impor a lei e a ordem no sul do Líbano precisa ser composta com capacidade de usar a força necessária para isso, até que o governo libanês tenha as condições políticas para ocupar a região e desarmar o Hizbolláh. Síria e Irã precisam ser responsabilizados pelo imediato retorno dos soldados seqüestrados e Israel precisa fazer um gesto de boa vontade libertando prisioneiros libaneses.

Infelizmente vamos seguir assistindo a guerra pela televisão por mais algum tempo. A razão demora a prevalecer sobre a paixão. Muita dor e muito sofrimento vão ser necessários até que se calem ar armas. Algumas vozes já se fazem ouvir. Muitas mais vão ser necessárias. Eu já estou começando a gritar.