por Mauro Nadvorny | 14 mar, 2020 | Brasil, Comportamento, Política
Então, vocês realmente acharam, como anencéfalos e pessoas desprovidas de senso crítico e democrático (inclusive, salivando nas ruas como cães doentes, e lambendo grandes bonecos infláveis como neuróticos), que o sr. Sérgio Moro, um cara reconhecidamente “sombrio” (não sóbrio), sem qualquer escrúpulo, sem qualquer princípio ético, sem qualquer respeito pela Magistratura e pelo Sistema Jurídico, sem qualquer respeito pelo devido Processo Legal, sem qualquer obediência à Constituição e, ainda, sem qualquer domínio da “própria” Língua Portuguesa ou do necessário raciocínio lógico para, ao menos, escrever e falar como jurista, com a ideia “a priori”, única e fixa (pleonasmo necessário, desculpem-me!) de perserguir e destruir um único político e um único Partido (1), em nada pior que os outros Partidos, era o grande e imbatível herói nacional?
Então, vocês pensaram que o sr. Sérgio Moro fosse o cara super digno, o verdadeiro “limpador” da corrupção, embora sabidamente responsável direto pela derrocada de várias empresas nacionais, pelo aumento do desemprego e pelo fortalecimento dos milicianos?
Finalmente, vocês assumiram desavergonhadamente que ele, Moro, é o “the best”, o cidadão mais elevado e comprometido com o “bom” futuro do país, ainda que sabendo (vocês sabendo!) que ele é o responsável direto por viabilizar e empossar, por vias democraticamente ilegítimas, posto que mentirosas,(2) na República, incluindo os vários Estados, os grupos mais abjetos, mais vis, mais canalhas, mais antissociais, mais antidemocráticos, mais anti-Constituição?
É isso? Vocês assumiram que ele desse poder para os tipos mais indignos, mais vagabundos, mais violentos, mais perigosos, mais assassinos, mais mentirosos, mais destrutivos, mais incivilizados, mais antiéticos, enfim, os piores dos piores, qualquer que seja a medida ou referência que usemos, ou seja, os piores e mais perigosos religiosos, os piores e mais atrasados economistas, os piores e mais incompetentes militares, os piores e mais rasos “adevogados”, os piores e assumidos violentadores da Língua Portuguesa, os piores “artistas”, os piores Cristãos, os piores Judeus, os piores Negros (piores, sim, porque desdenham e envergonham a tradição humanista do Cristianismo, libertária do Judaísmo e de resistência de toda Cultura e História Africanas!)?
Certo, vocês acharam, pensaram e assumiram, como cães salivantes, zumbis e gente sem cérebro nem criticidade, tudo isso, com sintomas de insanidade (e mais…). Realmente, o sr. Sérgio Moro, o boneco inflável (projeção do “id” de vocês), representa vocês e o caráter de vocês em todos os aspectos. Ele é, e faz, o que vocês são, e fazem, diuturnamente!
(Pietro Nardella-Dellova)
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NOTAS IMPORTANTES
1. Em que pese as duras críticas ao Lula e ao PT, que faço e escrevo desde 1991 (Folha de São Paulo, Blog Café & Direito, Z Mag., YouTube, Palestras, Aulas etc) ainda assim é o melhor Partido em comparação com o resto que aí está (minhas críticas continuam, assim como continua o resto, inferior so PT).
2. Fake news, falsa facada, demonização do PT etc.
por Mauro Nadvorny | 11 mar, 2020 | Brasil, Comportamento, Imprensa, Política
Uma das noções que desenvolvi durante o meu processo de percepção de fenômenos das mais variadas naturezas, mas em especial, nos fenômenos sociais e políticos, é que certas coisas não dão errado – ou voltam-se a uma natureza destrutiva – por acaso. Alguns fenômenos catastróficos só assim o são não pelo fortuito, pelo acaso, ou pela falha de projeto. Ao contrário, são frutos de meticuloso e vultoso planejamento.
Se examinarmos o conjunto de ataques que o sistema político brasileiro vem sofrendo desde o início do século XXI, e mais agudamente a partir das jornadas de 2013, passando pelo golpe de 2016 e culminando na eleição de Bolsonaro, não haverá que ser feito grande esforço intelectual ou analítico para se perceber que existe uma harmonia subjacente a todos esses processos. Uma gradual, crescente e contínua desconstrução do sentido das palavras, da lógica do raciocínio, dos fundamentos da informação, do conhecimento e da ciência em si mesmos.
O estado de coisas em que nos encontramos, onde um presidente do Brasil mente diária compulsivamente, atenta continuamente contra as instituições, tensiona os campos políticos a limites jamais testados desde a redemocratização do país, diante de instituições paralíticas e de um sistema jornalístico que tenta dialogar pelo meio da única linguagem que conhecem, sem entretanto obter qualquer efeito no outro lado, que claramente fala outra língua, desorganiza o pensamento, tira qualquer questão fundamental do foco, e zomba grotescamente de qualquer conquista da civilização, retrata sim uma enorme construção com fundamentos e alicerces que escapam à percepção da imensa maioria.
Há certamente poderosos jogadores por trás desse tabuleiro. Uma união que engloba Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino, MBL, Vem-prá-Rua, Kim Kataguiri, Fernando Holliday, Partido Novo, Janaína Paschoal, o próprio presidente e sua família, Sérgio Moro, Abraham Weintraub, entre outros, definitivamente não vem do acaso. A sustentação de uma parcela da sociedade, ainda que minoritária, mas significativa, que sustenta o bolsonarismo apartando-se da sociedade em uma espécie de apartheid voluntário e obsessivo, não se sustenta por mero acaso.
Receio que ainda não estamos instrumentalizados para examinar todo esse complexo e identificar todos os processos que foram empregados para esta construção. Obviamente tudo aponta para Steve Bannon, o grande ideólogo da extrema direita mundial. Mas simplesmente apontar o dedo para o óbvio nada resolverá se não pudermos traçar todos os caminhos desta enorme conspiração sobre a qual eu tenho poucas dúvidas da existência. E logo eu, tradicionalmente avesso a teorias conspiratórias. Mas os fatos que presenciamos no momento, especialmente caracterizados pela paralisia das instituições do estado e dos órgãos de imprensa e instituições da sociedade, incluindo partidos políticos, revelam com clareza que estamos diante de um enorme desconhecido, uma espécie de matéria escura, que no momento predomina em força e preserva-se invisível.
Enquanto não desvendarmos esta estrutura, dificilmente sairemos desse buraco.
NELSON NISENBAUM.
por Richard Klein | 8 mar, 2020 | Brasil, Comportamento, Literatura, Mundo, Política, Trending
Eram 5:30 da manhã em meados de Novembro de 1955, trinta e cinco horas depois de decolar de Londres, parar por três horas em Lisboa, fazer o mesmo por quatro horas em Dakar, Senegal, atravessar o oceano Atlântico e ficar mais três horas no Recife, o voo da BOAC, BA0249, estava finalmente se aproximando do Rio de Janeiro.
O sol ameaçava se insinuar no céu estrelado quando um sinal aveludado nos alto-falantes acordou os passageiros. Em seguida, uma voz feminina, primeiro em inglês e depois em português, desejou a todos um bom dia e anunciou que estavam a uma hora da destinação.
As aeromoças acenderam as luzes e passaram a servir um generoso café da manhã. Para os ingleses, ovos estrelados com bacon, torrada, marmelada e chá, para os brasileiros, ovos mexidos, pão francês, queijo fresco, goiabada e café forte. Junto com a comida distribuiram formulários de imigração e da alfândega para quem precisasse.
Terminada a última refeição a bordo, loucos para descansar numa cama de verdade, os passageiros passaram a organizar a sua chegada. Do lado de fora, a claridade já revelava o mar no horizonte. Embaixo, as primeiras luzes estavam se acendendo na descida da serra para a Baixada Fluminense. Enquanto os primeiros carros e caminhões se aventuranvam na madrugada vazia a tripulação percorria o corredor recolhendo as bandejas.
Rafael e Renée estavam preenchendo os formulários. O casal chamava atenção por sua discreta bizarrice. Ele era baixo, olhos azuis espertos e frios, cinquenta e poucos anos, um tanto antipático e com um pesado sotaque do leste europeu. Em contraste, ela era uma londrina com sotaque chique, alta e exuberante, de cabelos curtos e castanhos e muito mais jovem que o marido.
Não demorou muito para a voz feminina retornar aos alto-falantes pedindo a todos que apagassem seus cigarros e apertassem os cintos de segurança. Do lado de fora a vista se tornou magnífica. O dia estava raiando sobre o Rio de Janeiro. O sol dourava o Cristo Redentor junto com a vegetação e as pedras gigantescas da Floresta da Tijuca em torno dele. As águas da Baia de Guanabara e as ilhas no mar aberto ja se misturavam da maresia. Aquele espetáculo foi bem-vindo após praticamente dois dias chacoalhando numa aeronave apertada ouvindo o ronco incessante das hélices. Rafael deu uma olhada no relógio, 6:15 da manhã, 45 minutos mais cedo do que o esperado.
O avião deu sua sacudida final quando tocou o solo em alta velocidade. Assim que se tornou controlável, os passageiros aplaudiram o piloto que passou a guiar a aeronave lentamente rumo ao terminal. Quando parou, a tripulação apagou os sinais de apertar os cintos e de parar de fumar e abriu a porta deixando ar fresco da madrugada entrar para ventilar a cabine claustrofóbica.
Com seus pertences prontos, Renée e Rafael se puseram na fila de saída. Na porta, depois de trocarem sorrisos cansados com a aeromoças, uma brisa tropical acariciou suas peles lhes dando boas-vindas. Com sua nova cidade à frente, desceram a precária escada e se dirigiram ao terminal com os outros passageiros.
A bruma espessa e seu calor húmido tiveram o efeito de evaporar o torpor da viagem na Renée. Eufórica com o início de sua aventura carioca, estava parecendo uma criança numa loja de doces tentando puxar conversas com o marido exausto e monosilabico.
“Deveríamos achar um apartamento perto da praia, não acha? A revista disse que perto da floresta há risco de malária.”
Entraram na fila fila da imigração e ela não parava. “Eu quero ir para praia ainda hoje. Copacabana deve estar explendida!”
Quando chegou sua vez, o policial acenou. Depois de mostrarem seus passaportes e de entregarem os formulários, receberam os carimbos requeridos. Dali em diante, estavam liberados para viver no Brasil.
Ao sair para o saguão de desembarque, talvez por estarem vindo para ficar desta vez, sentiram o desconforto de serem completos estrangeiros. Com exceção dos outros passageiros europeus, ninguém ali falava inglês ou qualquer outra língua que lhes fosse familiar. Além de have mais “não-brancos” do que estavam acostumados, a emoção e os abraços com que os locais recebiam seus familiares e amigos, realçava sensação de alienação. No fundo de suas mentes uma pergunta gritava em silênico: “Será que tomamos a decisão certa?”
*
No saguão do aeroporto carregadores uniformizados e educados apareceram se oferecendo para levar suas malas até a fila de táxis do lado de fora. Depois de se certificar que as bagagens estavam devidamente organizadas no porta-malas e de dispensar o seu primeiro dinheiro local na gorjeta, entraram no carro.
“Por favor”, disse Rafael antes de ler o papel com o endereço do hotel e ponunciá-lo em um português quebrado que duvidou que o motorista fosse entender. Ele finalizou o desconforto com um desajeitado “Obrigado”.
O motorista disse OK, mas pediu através de sinais para ver o pedaço de papel. Depois de dar uma lida, abriu um sorriso amigo e disse, “Hotel Miramar, Copacabana, yes mishterr!”
Assim que partiram, a estranheza que sentiram no aeroporto sumiu. O sol já estava a pino e fazia calor. Animados, colocaram seus óculos escuros e passaram a apreciar o cenário. Logo pegaram a Avenida Brasil, que estava apinhada de carros de fabricação americana, caminhões e ônibus de qualidade duvidosa, todos indo rumo ao centro da cidade. De repente, sentiram o mau cheiro vindo da favela beirando a estrada. O fedor forte passou quando chegaram na zona portuária. Apesar de mais primitiva que a de Londres, era charmosa com sua série interminável de armazéns coloridos com chaminés e mastros de navios aparecendo logo atrás.
Do porto, o motorista, agora concentrado num programa no rádio, seguiu para o Centro. Lá atravessaram sua mistura contrastante de igrejas coloniais, prédios públicos de estilo modernista e construções vistosas da Belle Époque. Ao fim da avenida elegante e arborizada, chegaram na Baía de Guanabara onde deram de cara com o Pão de Açúcar. Dali o motorista, ousado demais para seus gostos, continuou a viagem apressada beirando a baía. Lá passaram pelos bairros do Flamengo e de Botafogo antes de finalmente atravessar dois túneis e chegar em Copacabana. Fizeram aquela curta viajem com as janelas abertas, sentindo o vento no rosto, absortos pela beleza da cidade e relevando o programa de rádio incompreensivel e as barbeiragens do motorista.
*
A primeira coisa que fizeram depois que a bagagem chegou no quarto e que fecharam a porta, foi ligar para o Paulo. Ele havia dado a desculpa de que naquele dia tinha assuntos importantes a resolver e por isso não tinha dao para ir de madrugada recebê-los no aeroporto. Após uma conversa animada e piadas sobre o voo interminável marcaram de se encontrar no dia seguinte.
Paulo era um sujeito curioso. Além da sua personalidade fácil e de seu endereço exótico, possuía outra peculiaridade: era comunista. Esse tinha motivo original do seu exílio da Alemanha já nos meados dos trinta. Havia perigo de morte. Nunca soube dos detalhes dessa ameaça nem se continuou sua militância no Brasil, mas se tivesse, isso não teria sido pouca coisa no auge da ditadura de Vargas quando chegou.
Nos trópicos, a amizade entre os dois veteranos da loucura europeia floresceu. Apesar de antifascista, Rafael estava longe de ser de esquerda. De qualquer forma, os longos papos em iídiche trouxeram de volta as discussões políticas, tema central na vida judaica no leste europeu.
Durante uma dessas conversas, Paulo gabou-se de seu relógio produzido na comunista Alemanha Oriental ou RDA. “Está vendo este relógio aqui? Ele foi produzido livre da exploração capitalista. Pode ver! Ele funciona tão bem quanto qualquer relógio feito na América!”
Embora o relógio não fosse lá essas coisas, ao analisá-lo meu pai teve um “momento eureca”. Ele percebeu que tinha em mãos uma excelente oportunidade de negócios. Na cabeça dos brasileiros, alemão era sinônimo de confiável e, fabricados em um país comunista, seus preços seriam muito competitivos. A recém-criada classe média baixa brasileira iria, certamente, consumi-los como água.
Anos antes do golpe de 1964, com a ajuda dos contatos partidários do Paulo, Rafael atravessou o muro de Berlim, e foi se encontrar com o comissariado encarregado da fábrica de relógios. Com eles conseguiu um contrato para ser o representante exclusivo para o Brasil.
À primeira vista poderia parecer estranho que alguém com o seu passado fosse ganhar a vida vendendo produtos alemães e, pior ainda, comunistas. Seja como for, o rigor e a praticidade teutônica lhes eram reconfortantes. Adotando essa mesma objetividade fria, foi em frente sem deixar que sentimentalismos e ideologias interferissem nas suas decisões. Nisso, ele era igual à maioria de seus amigos judeus. Apesar de tudo o que eles e seus entes próximos haviam enfrentado durante a guerra, ainda guardavam respeito pelo pragmatismo e pela eficiência germânica. A subserviência ainda estava viva e, como a maioria dos sobreviventes europeus orientais, continuavam a ver a Alemanha como a liderança nata e incorruptível do seu mundo.
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por Mauro Nadvorny | 8 mar, 2020 | Comportamento, Política
Para inaugurar minha colaboração neste Blog, que tem como objetivo ser uma Voz da Esquerda Judaica, apresento meu primeiro Texto, na verdade, Notas introdutórias.
Começo por afirmar que o Anarquismo não se implanta!
Trata-se de um movimento crítico, emancipatório, libertário, constante, irresistível, que tem suas raízas no Judaísmo mais antigo. Tudo o que for unidimensional, autoritário ou perversamente dogmático fica, e ficará, para trás, seja de caráter religioso, econômico, jurídico ou político. O Anarquismo anda primordialmente de mãos dadas com Educação e Liberdade. Cito alguns bons autores anarquistas: Godwin, Proudhon, Bakunin, Tolstoi, Oscar Wilde, Emma Goldman, Martin Buber, Gustav Landauer, Paulo Freire, Noam Chomsky, entre outros…
O Anarquismo é pluridimensional, horizontal, solidário e, sobretudo, destaca o indivíduo em seu aspecto integral sem permitir, de modo algum, que se perca em um coletivismo destrutivo (usei aqui um pleonasmo expressivo!)
O Anarquismo é, portanto, movimento – não sistema. Jamais haverá fim para o Movimento Anarquista, mas fases cada vez mais emancipatórias! Na filosofia de Gustav Landauer, judeu anarquista, e amigo próximo de Martin Buber, é o próprio espírito da “revolução”, não no modelo de uma dialética comunista (ou marxiana, se quisermos), mas na dialética proudhoniana (Landauer era um leitor e estudioso profundo de Proudhon), ou seja, a relação constante entre utopia e topia nas pluralidades que coexistem.
Muitas das conquistas contemporâneas devem-se realmente ao Movimento Anarquista. Por exemplo, conquistas trabalhistas, sindicais, emancipação da mulher, divórcio, superação do gênero, liberdade sexual, reconhecimento dos vários núcleos familiares, inclusão, movimentos sociais emancipatórios, movimento de luta por terra e tantas outras experiências.
Uma questão que vem sendo debatida refere-se ao anarquismo capitalista ou, em outras palavras, “anarquismo de direita”. Não há de modo algum anarquismo de direita ou capitalista, exatamente porque o anarquismo é movimento emancipatório das prisões e alienações produzidas pela direita e pelo capitalismo. Por outro lado, não se pode confundir anarquismo com caos, bagunça, quebradeira, violência e assassinatos, pois estas são características capitalistas. Se houve na história alguém que praticou assassinatos em nome do anarquismo, fê-lo por conta própria, em seu próprio nome, não do movimento.
Em outras palavras, o anarquismo é libertário e, por isso mesmo, não pode ser de Direita. Libertário é muito diferente do conceito de liberal e, de modo abissal, diferente do neoliberal. Aliás, o anarquismo combate o neoliberalismo, mas pode dialogar com o Liberalismo, mas mantém-se irmão do Socialismo. Dialogar não é a mesma coisa de pertencer! O liberal pretende o Estado mínimo para seu proveito, sem se importar com o restante da sociedade, enquanto o libertário pretende uma sociedade emancipada, plural, não dirigida, não condicionada, em que o indivíduo se encontre com outro indivíduo em caráter solidário.
O anarquismo é, sim, individualista, e isso é um tópico inegociável. Entretanto, ele não é egoístico. É individualista no sentido de respeito ao indivíduo em sua integridade e singularidade. Por isso mesmo, o anarquismo combate o fascismo, o militarismo, a massificação, a coletivização e as ditaduras, sejam comunistas ou capitalistas.
O anarquismo defende e promove o amor livre – não a promiscuidade, embora não tenha regras morais. É importante que se diga: o anarquismo não é moralista, mas é, em tudo, ético. Ética e Moral são dois conceitos distintos no anarquismo! Porque a promiscuidade é capitalista, machista, dominadora e sexista. O anarquismo defende o amor e o amar em todas as suas formas (adultas e conscientes), menos o domínio patriarcal e fálico (coisas da Direita).
Enfim, não esperemos que um anarquista carregue uma bandeira nacional, ou a foto de um político e sequer um emblemático “A” tatuado em seu corpo. Anarquistas não pregam e não doutrinam, mas provocam, e muito, o debate crítico. O anarquismo é, em tudo, a raiz do pensamento crítico! Ademais, o anarquista não cultua, mas apenas tolera o Estado, desde que “essa coisa” esteja a serviço de todos e todas, não a serviço de alguns, sejam eles comunistas ou capitalistas. Por isso mesmo, o anarquista tende a dialogar com sociais democratas.
(Pietro Nardella-Dellova)
por Mauro Nadvorny | 7 mar, 2020 | Israel, Política
Quem diria que Bibi, um político de primeira linha, conhecedor de todos os meandros desta nobre atividade, tenha comemorado uma vitória que não aconteceu. As pesquisas davam ao seu campo da direita, 60 cadeiras, o que com os votos itinerantes poderia fazer com que chegassem a 61, o número mágico para formar um governo. Teve festa da vitória durante a madrugada antes da contagem final dos votos.
Bem, as urnas foram abertas e o campo da direita chegou a 58 cadeiras. Nenhuma chance de formarem governo, nenhuma possibilidade de conseguirem convencer outro partido a se somar a eles. A direita perdeu as eleições pela terceira vez e a maioria dos israelenses disseram não a Bibi.
Tudo muito bom, mas o campo oposto também não tem votos suficientes para formar governo, a menos que aceitassem compor com a Lista Árabe Unificada que chegou as incríveis 15 cadeiras e se tornaram a terceira força política do parlamento, atrás apenas do Likud e do Azul e Branco. O Azul e Branco não quer realmente formar um governo, não agora, prefere apostar suas fichas em outra manobra.
Agora começa o jogo político. Se todos os partidos contra Bibi indicarem o Azul e Branco para formar o governo, ele terá durante este período, força para mudar a presidência do parlamento e indicar uma maioria na comissão que pode criar uma nova lei. Pode-se chamar de Lei da Ética, da Moral e dos Bons Costumes, da Ficha Limpa como no Brasil, mas no final ela vai ser conhecida mesmo como Lei Bibi. Por esta lei nenhum parlamentar sendo processado criminalmente, poderá concorrer como indicado a primeiro ministro. Ele com três processos em andamento, no caso de novas e prováveis novas eleições, estaria impedido.
Todos os partidos anti-Bibi já apoiam a iniciativa e ela vai se tornando possível e muito provável. A direita diz que ela é antidemocrática. É o povo quem deve escolher o primeiro ministro. Que o povo é soberano. A voz do povo deve ser respeitada. Ninguém é culpado sem ter sido condenado com trânsito em julgado. Em outras palavras, vão gritar muito.
Sem Bibi, as eleições serão outras. Tudo muda dentro do campo da direita e já se escutam o rosnar das hienas políticas pela herança do seu legado. Candidatos não vão faltar, mas nenhum com o carisma dele. O Likud tende a perder cadeiras. A dúvida é se elas permanecem no campo da direita fluindo para os partidos acessórios, ou se revertem para o centro beneficiando assim o Azul e Branco.
Uma outra possibilidade que se abre é um governo formado pelos dois maiores partidos. Sem Bibi, o Azul e Branco já diz que aceita formar governo. Talvez sequer precisem dos partidos acessórios como os religiosos e a esquerda.
Não posso deixar de mencionar Liberman e seu partido Israel Nossa Casa. Fizeram somente 7 cadeiras, mas são eles que vão ajudar a jogar Bibi no ostracismo. Justamente o partido da direita que não compõe com Bibi. Chegaram a um ponto irreconciliável. E olha que Liberman foi o Ministro da Defesa dele.
Neste momento ele é a pá de cal do governo do Likud. Sem ele, não formam a maioria necessária para indicação de formação do governo pelo presidente. E se desta vez a Lista Árabe der todos os seus votos para indicarem Benny Gantz, a chapa de Bibi começa a esquentar.
A mídia aqui de Israel está dividida entre o Corona e a política. Neste momento parece que o vírus está mais famoso. Cancelamento de voos para diversos países, 20 pessoas oficialmente infectadas, 7 mil em quarentena, filas intermináveis nos supermercados para comprar alimentos. O Corona está liderando as manchetes.
Bibi, assim como o vírus é bastante resistente e sempre soube quando deveria mutar. Nada que a oposição tentou deu certo para tirá-lo do poder, agora tudo pode mudar. Nenhuma mutação vai melhorar a situação dele. Penso que a era Bibi pode estar chegando ao fim. Quando falarem deste momento, todos vão recordar que tudo aconteceu naquele ano antes da Páscoa quando Israel derrotou duas pragas ao mesmo tempo.
por Mauro Nadvorny | 5 mar, 2020 | Brasil, Política
As semanas se sucedem e a única coisa que muda é o roteiro do bestialógico presidencial. Temos de convir que a imaginação do ex-capitão é infinita e que a nossa (ou pelo menos a minha) capacidade de suportar já passou do limite. É inacreditável a faculdade de Bolsonaro de se prestar ao ridículo. Colocar um humorista de terceira classe, vestido da faixa presidencial, para distribuir bananas aos jornalistas e “responder” às perguntas sobre os medíocres resultados econômicos é um tapa na cara, não somente da imprensa como de todos os brasileiros, mesmo daqueles que votaram nele e aplaudem esse tipo de insulto. É usar um bobo da corte para divertir o povo, no caso os fanáticos apoiadores do presidente, que se sentem no direito de rir e proferir palavras de cunho sexual para os repórteres (aprenderam com o mito).
Junto à sua claque, Bolsonaro dava gargalhadas escancaradas. Aquelas que fazem com que ele se pareça com um misto de Hitler e Joker.
Por seu lado Márvio Lúcio, aliás Carioca, gritava o nome do Posto Ipiranga – Guedes, Guedes!!! – para explicar o pibinho.
Não era para menos, pois é de conhecimento de todos que ali nem o falso nem o verdadeiro presidente sabe o que é o PIB.
Simultaneamente, nas redes sociais, jornalistas próximos do Palácio, na sua imensa má fé, minimizavam o resultado ruim da economia brasileira, ressaltando a conjuntura internacional desfavorável e aplaudindo o fato de que o Brasil fechou 2019 com um crescimento positivo pelo terceiro ano consecutivo.
Ora, com relação à conjuntura internacional, não há do que se orgulhar, é bom lembrar alguns números e comparar: os Estados Unidos cresceram 2,3% e o desemprego foi de 3,8%; a França registrou aumento de 1,2%, apesar dos coletes amarelos e da maior greve de transportes da história, que literalmente paralisou o país; a Inglaterra cresceu 1,2% em pleno Brexit; Portugal 2,2%; Canadá 1,5%.
Mas vale a pena lembrar que o que importa não é a honestidade intelectual, pois os bolsonaristas presentes nas redes estão dispostos a engolir tudo, desde que se fale bem do chefete. A verdade sobre o PIB é secundária. Eles aplaudem sempre, qualquer que seja o descalabro, até mesmo quando o anúncio do filhote 01 diz respeito à liberação de navios de cruzeiro e criação de zonas de pesca e recifes artificiais em Fernando de Noronha. Aplaude-se. A palavra de ordem é ser descerebrado.
Quanto a nós, que insistimos em pensar (algo tão fora de moda), está difícil navegar nesse mar de lama.
Dias atrás, lancei um modesto apelo à união de todos os democratas, ao meu ver a única forma de se opor de maneira eficiente ao populismo de ultradireita e se preparar para o momento em que pudermos, juntos, lutar para restabelecer a democracia. Na minha imensa ingenuidade, acreditei que esse fosse o caminho. Enganei-me. Líderes como FHC e Lula reagiram contra o ato anti-Congresso apoiado por Bolsonaro. O tucano de forma até mais contundente que o petista. Mas nem Lula, nem FHC, nem Ciro Gomes, nem ninguém parece disposto a deixar de lado as suas verdades e vaidades em nome da unidade das forças de oposição.
Em meio à crise, como se a manifestação do dia 15 fosse um episódio anódino, Lula veio à Paris, receber o título de cidadão honorário. Depois de um discurso chocho, em que pela enésima vez dedicou-se a atacar Moro por tê-lo colocado na prisão, deu entrevistas. Que decepção! Numa delas, Lula deu a entender que não havia razão para abrir um procedimento de impeachment ao encontro de Bolsonaro, pois “não podemos destituí-lo só porque não gostamos dele”. Só porque não gostamos dele??? Razões existem às pencas para destituí-lo; pode-se optar por levar a situação em banho-maria por motivos de estratégia política ou pragmatismo, já que não há maioria no Congresso para votar o impeachment. Mas daí a minimizar a quebra de decoro, as mil e uma violações da Constituição, os ataques reiterados à imprensa etc, etc, etc, pelo amor de deus! as palavras de Lula nos insultam, são uma desfeita àqueles que tentam no dia-a-dia brigar para salvar o Brasil da ditadura depois de terem conseguido tirar o ex-presidente provisoriamente da prisão.
Para o novo cidadão honorário de Paris, Bolsonaro tem todo o direito de permanecer os quatro anos de seu mandato no Planalto. Faça o que fizer. Eu respondo NÃO, a continuar nos tratando como palhaços ele deveria partir. Admito porém que não temos condições de destituí-lo. Então, baixemos a crista, mas continuemos a cantar de galo a cada investida presidencial contra a sensatez, a inteligência , o respeito e sobretudo a Constituição. É o nosso direito, é a nossa obrigação.
Em tempo, Lula: Maduro não é democrata, nem foi democraticamente eleito.
Milton Blay