por Mauro Nadvorny | 21 abr, 2020 | Brasil, Comportamento, Política
Hoje pela manhã reli em algum lugar a famosa frase de Winston Churchill: “A democracia é o pior regime que há, à exceção de todos os outros.”
Também li no blog do Reinaldo Azevedo que o assim dito “presidente” do Brasil comete todos os dias inúmeros crimes, e que nada disso provoca o menor incômodo no Procurador Geral da República, Augusto Aras, único cidadão no mundo com atribuição legal para iniciar um processo judicial por tais atos.
Lembrei-me de uma preocupação que me acometeu há uns 17 anos atrás, quando era Chefe de Gabinete recém-nomeado, da Secretaria de Segurança do Paraná.
Surgiu uma denúncia de que o Delegado Geral da Polícia Civil do Estado apresentava à instituição notas fiscais frias, para ser “reembolsado” de despesas que não fizera. Foi encaminhada ao Corregedor Geral, que detinha competência exclusiva para abrir sindicância em face daquela autoridade.
Novato na área, descobri que o Corregedor era cargo de confiança do próprio chefe da polícia, o denunciado. Escolhido e nomeado por ele, e por ele demissível ad nutum (sumariamente, sem necessidade de qualquer justificativa).
Nunca fiquei sabendo se o cara era culpado ou inocente. Nem eu nem ninguém. O Corregedor, que não era bobo, obviamente engavetou o caso.
Volto ao início. Concordo que a democracia é o que há de melhor. Só tem um problema, meio esquecido. O que é, exatamente, essa tal de democracia?
Comecemos pelo próprio Churchill, seu arauto, um defensor empedernido da mais cruel e abjeta opressão imperial exercida por seu país sobre inúmeros povos ao redor do mundo. Democracia? Pra quem, cara-pálida?
Mas não para por aí. Debrucemo-nos sobre aquela que é chamada de a maior e mais sólida democracia do mundo, a dos Estados Unidos da América do Norte. Sério? Ela é governada no dia de hoje – nada menos do que no dia de hoje!! – por um cidadão que recebeu, nas urnas, menos votos do que sua concorrente! Irrelevante? Não acho. Chamar de democrático um regime em que a maioria não governa, pra mim, é uma contradição absoluta. Mas ok, vá lá.
Podemos concordar que um dos elementos que faz parte da essência da democracia é a diversidade? E que, do ponto de vista do exercício político dela, cada ramo tem uma visão de mundo e de País? E que a melhor maneira de implementar tal visão é chegando ao poder, e que o melhor caminho para isso é um partido político?
Bem. Nos Estados Unidos da América do Norte só existem dois partidos políticos reais. Todos os demais, somados, são de tal forma insignificantes, que ninguém deles sequer ouve falar. Ora, é possível acreditar que a esmagadora maioria dos zilhões de pessoas que habitam um país daquelas dimensões e complexidade tenha apenas dois pontos de vista sobre o mundo e o seu país? Tem quem ache que sim. Eu, não. Pra mim, o que determina isso responde pelo nome de dinheiro. Poder econômico. Em uma palavra, manda quem pode, obedece quem tem juízo. A antítese da democracia.
Tem mais. É democrático ser o país mais rico de todos os tempos, e tolerar a existência, em seu território, de milhões de miseráveis destituídos dos mais elementares direitos de cidadania? Ou privar uma pessoa de assistência médica porque não tem meios de pagar (e são também milhões, mesmo além dos miseráveis)? Tem quem ache. Eu, não.
Não chega? Tá bom. É democrático um país que, por séculos afora, intervém militarmente em qualquer lugar do mundo onde um povo ou um governo não seja de seu agrado, matando, no processo, outros tantos milhões de pessoas, sem distinção de sexo ou idade? Respeito quem acha que sim. Mas eu, não.
Pra mim, o nome disso é hipocrisia. Simplesmente hipocrisia. Olhar, ver e fingir que não viu. Ou, pior, admitir que viu mas não achar importante.
E o Brasil? Nem vou me estender muito pra falar de um país que em 520 anos de história conta, somados, com menos de 50 nos quais conviveu com alguns (poucos) elementos democráticos. Quero apenas, e para ficar em um fato atual e marcante, chamar a atenção para o que disse Reinaldo Azevedo. Como chamar democrático um sistema no qual a única pessoa que pode levar o chefe de estado às barras da justiça é nomeada por ele? Considere-se a quantidade de arranjos e conchavos necessários para se alcançar tal nomeação.
Alguém já disse – e com razão! – que, enquanto projeto, o ser humano é o maior e mais espetacular fracasso da história.
Como espécie, somos monstruosos em uma escala espantosa. Não é possível ignorar isso minimamente, se se olha qualquer aspecto de nossa aventura terrena, mesmo que com um mísero fiapo de boa-fé.
Como seríamos, então, capazes de criar um sistema político cujos pressupostos são escancaradamente o oposto absoluto daquilo que nos constitui biológica, mental e culturalmente?
Democracia implicaria, entre tantas outras coisas impossíveis para o homem, em respeito à diversidade, liberdade para todos, honestidade, solidariedade, espírito público e generosidade. Alguém pode citar uma única sociedade e/ou um único momento na história humana em que – digamos – ao menos três entre esses elementos conviveram por um tempo razoável?
Cartas para a redação.
Eu não posso. E olha que – embora amador – sou um estudioso insaciável de história.
Então, deixemos de hipocrisia. Democracia não há, e nem nunca houve, em lugar algum. Ela é uma contradição intransponível com a própria natureza humana.
Essa é uma verdade, para mim, clara e insofismável.
Resolvi escrever sobre isso hoje porque a leitura da frase do Winston Churchill, mais cedo, foi a gota que transbordou o copo da minha paciência.
Vivemos sob a ditadura das “narrativas”. Ao mundo global hiperconectado pouco importam os fatos ou sua análise. O que vale é a imagem que se consegue instalar deles na mente do maior número possível de pessoas.
Há miríades de exemplos contundentes. Mas o propósito deste texto é focar em um deles, a meu ver dos mais graves.
O que pretendem aqueles poucos que exercem o verdadeiro poder global, e que não por acaso são os grandes capitalistas é, utilizando-se dos infinitos meios de comunicação de massa hoje disponíveis, fazer com que a humanidade aceite a mentira de que democracia é sinônimo de capitalismo. Ou seja, que sob qualquer outro tipo de organização econômica, nenhuma sociedade será verdadeiramente livre.
Trata-se de um embuste de proporções gigantescas. A existência ou não de democracia independe do sistema econômico sob o qual funciona a respectiva sociedade.
Nenhuma delas, capitalista, socialista, ou qualquer outra, é genuinamente democrática. Nem mesmo a anarquista, pretensamente a mais libertária de todas.
Essa constatação, a meu juízo, desloca o eixo do debate para outra direção, mais realista em relação às limitações humanas.
Considerando que absolutamente todos os regimes do mundo são, em alguma medida, e inevitavelmente, autoritários, qual o critério comparativo que se deve adotar entre eles para um melhor julgamento de suas virtudes ou defeitos?
Simples: a justiça.
Sob qual sistema econômico são melhor e mais igualitariamente garantidos os direitos humanos elementares dos cidadãos em geral?
A resposta não é nada fácil. Eu tenho cá uma opinião e muitas dúvidas. Acho que para a grande maioria é difícil definir qual é tal sistema. Mas, de minha parte, tenho certeza absoluta de qual não é. Justamente o capitalismo. Basta olhar.
por Mauro Nadvorny | 16 abr, 2020 | Brasil, Comportamento, Política
É incrível como o tipo bolsonarista é espelho do seu “mito”: não tem nada de inteligente a dizer, é osmótico, assume-se como ignorante, cultua a violência, elogia ditaduras, e vê o mundo que esteja fora dessa sua coisa “miserável” como “comunista”. Ademais, demonstra uma falta de senso de civilidade, solidariedade e respeito pelo outro. Por exemplo, a insistência em não isolar-se neste momento de coronavírus é a mais expressiva demonstração de estupidez e desrespeito pelo próximo! Considerar que apenas “idosos” morrem disso (e isso não é problema), é perversidade e nazismo substancial!
O bolsonarista não é Cristão, Judeu, Muçulmano, de matriz Africana, Kardecista, Ateu etc. Ele nada sabe dos valores INTRÍNSECOS do Cristianismo, Judaísmo, Islamismo, matriz Africana, Kardecista, Ateísmo… Ele repete isso, mas não é isso, pois apenas os valores ÉTICOS (dispenso os fundamentos teológicos ou ateológicos) de tais Culturas (Ateísmo também é uma cultura de resistência ao discurso teologizante) seria suficiente para criar um mundo são, alegre, solidário, proativo, criativo e de amor.
Amigos e Amigas, vejam os “empresários”, os “artistas”, os “filósofos”, os “políticos”, os “do povo”, os “juristas”, os “religiosos”, os “professores”, os “alunos” e outros “grupos” que falam em defesa de Bolsonaro. Vejam como se parecem, como são iguais. Podemos dizer que quase todos eles, e elas, têm a mesma cara: são rasos, falam em “deus” de modo doentio, não têm informações, são incultos, adoram “frases” (bíblicas ou não), odeiam o PT (mas, não fazem parte de qualquer agremiação política), odeiam (hoje!) o Dória, o Witzel (porque se afastaram do seu “capitão”), e a grande maioria é racista, anti-cotista, machista e sexualmente problemática.
Por fim, aqui dos Estados Unidos, tenho algo triste a informar sobre o Brasil. Esse país tem sido lembrado a toda hora nos Jornais e programas. Alguns ironizam-no; outros demonstram surpresa com a falta de civilidade, sobretudo, em relação ao combate e controle do coronavírus!
(Pietro Nardella-Dellova)
por Mauro Nadvorny | 4 abr, 2020 | Brasil, Imprensa, Política
por Jean Goldenbaum
Carxs amigxs, gostaria de relatar a vocês o interessante contato que tive a oportunidade de travar na última quarta-feira (01.03) com Eugênio Aragão, jurista e advogado, brevemente Ministro da Justiça de Dilma em 2016 e membro do Ministério Público Federal de 1987 a 2017. Este encontro se deu através de uma live realizada pelo coletivo ‘Deutsche Initiative Lula Livre’ (Iniciativa Alemã Lula Livre), do qual sou membro.
Em um papo descontraído e muito interessante, Aragão discorreu inicialmente sobre as possibilidades de afastamento do catastrófico atual presidente da república. Defendeu sob uma ótima jurídica o argumento de que o impeachment não seria o melhor caminho, nos explicando que pelo fato de o processo ser lento e duradouro, o atual presidente se utilizaria de todas as táticas sujas possíveis para boicotar o processo e manter-se no poder, como corrupção relativa a posicionamentos, subornos, chantagens etc. Ele não se portaria de maneira republicana e educada, como o fez Dilma. Concordo plenamente com Aragão.
Uma opção mais rápida e simples seria a renúncia. Esta, por sua vez, só se daria caso os militares “colocassem a faca na garganta” do cidadão e o obrigassem a renunciar, garantindo-lhe uma porção de vantagens pós-renúncia. Neste caso, muito provavelmente, uma ditadura militar estaria de fato instalada no Brasil. Todavia, Aragão acredita que isto não acontecerá, pois do jeito que o país se encontra em termos políticos, econômicos e sociais, nem mesmo o Exército deseja assumi-lo.
A terceira – e única realmente viável – possibilidade de nos livrarmos do presidente fascista, seria a concretização da denúncia-crime encaminhada pelo ministro do STF Marco Aurélio Mello (que, diga-se de passagem, está longe de ser um dos nossos). O “líder” do país seria então afastado por 180 dias e isso nos daria tempo e condições para arquitetar alguma maneira de impedir que ele retornasse. (É claro que também nessa situação Mourão assumiria, e teríamos de lidar com o militar… Mas, um coisa de cada vez.) Para a notícia-crime ser aprovada o caminho não é longo, mas encontra alguns obstáculos: cabe ao Procurador-Geral da República Augusto Aras dar seguimento ao processo. Mas este cidadão foi nomeado pelo próprio presidente, ou seja, eles são “amigos”. Nossa esperança é uma traição ou algo do tipo.
Após este, perguntei a Aragão, a respeito da necessidade de uma frente ampla por parte da Esquerda, indagando o quão essencial é a união e a unidade da Oposição no combate ao Fascismo que tomou o país. Transcrevo abaixo alguns trechos de sua ampla resposta, que achei bastante rica.
Sobre as propostas da Esquerda:
Veja bem, a Esquerda está atuando. Eu mesmo ontem participei de uma videoconferência aqui com todas as bancadas do Senado e da Câmara do PT, juntamente com o Lula e outros, para justamente a gente começar a colocar as coisas nos trilhos. E temos várias propostas. O PT está cheio de propostas. De renda mínima, de fortalecimento da agricultura familiar, e essas coisas todas que vão aparecer.
E então sobre o problema que, pessoalmente muito me incomoda: o roubo do crédito de benfeitorias, por parte dos Fascistas. Aragão confirma o problema, vejam:
O problema hoje é que a esquerda sofre ainda um claro boicote. Pode ser que as bandeiras da esquerda sejam por oportunismo aproveitadas pelos conservadores, o que já está ocorrendo, e a Esquerda acabar ficando sem as suas bandeiras porque elas vão sendo absorvidas pelos conservadores.
Ele segue, a respeito do boicote da mídia sobre a Esquerda:
Fora isso, temos um boicote sistemático da mídia em relação às propostas da Esquerda. A mídia não fala nada. Tem muita coisa acontecendo entre os partidos de Esquerda, mas não há uma linha a respeito disso. É um silêncio combinado. Contra o PT principalmente, mas contra todas as forças de Esquerda. Ou seja, fizeram um “cala a boca”. Eles querem nesse momento que o Centrão seja o grande protagonista: Maia, Alcolumbre… “A Esquerda não tem nada a oferecer” – é essa a visão da grande mídia brasileira. Então há um problema de falta de espaço, de dificuldade de comunicar as suas ideias. A Esquerda acaba se fechando na sua própria bolha, entre os próprios esquerdistas e trocando mensagens entre eles, impedindo que a Esquerda vá para fora. E isso é algo, me parece, sistemático.
E finalmente sobre a questão de uma frente ampla, um trabalho em conjunto com os outros partidos de Esquerda:
Então não é uma questão de que a Esquerda esteja parada. Essa não é uma percepção real. A Esquerda está se mobilizando. E aliás tivemos nessa semana, na segunda-feira (30.03), um fato muito alvissareiro, que foi aquela declaração que saiu em conjunto, juntamente com Ciro Gomes, Haddad, Boulos, e com outras figuras proeminentes, mostrando uma tendência a voltar a conversar. E o Lula mesmo já deixou isso muito claro. Esquece as eleições de 2018. Vamos trabalhar daqui para frente. E o Lula é o primeiro a estar pregando isso. Precisamos da união das Esquerdas. Tanto é que, anteontem (30.03), nós tivemos também uma videoconferência com os presidentes de todos os partidos políticos de Esquerda – inclusive da Rede. Está todo mundo junto e foi esse movimento que permitiu a gente redigir aquela notícia-crime que foi subscrita por todos os partidos de Esquerda. Então há já essa tendência das forças de Esquerda a voltarem a conversar entre si. Não tem outra saída. Ou a Esquerda se organiza em bloco para enfrentar os conservadores – que vão fatalmente por oportunismo tomar as suas bandeiras –, ou a Esquerda desaparece do cenário político.
A parte mais interessante da fala de Aragão foi a final. Concordo plenamente com ele e espero que sua voz seja parte de muitas vozes do mundo da política que também pensem desta maneira:
Acho que ela (a Esquerda) tem que radicalizar o discurso. Tem que radicalizar porque ela não pode ficar dando tapinha nas costas de Rodrigo Maia, assim “o que nós queremos você também quer, então estamos agora no mesmo barco”. Não, nós não estamos no mesmo barco. Nós queremos uma renda mínima para as famílias, e 600 a 1200 é muito pouco. Nós queremos que as grandes fortunas sejam confiscadas pelo menos em 10% cada uma para vencer essa crise. (…) Nós queremos que o governo habilite novamente a agricultura familiar, como a do MST mesmo, que produz e produz muito. Que ela seja novamente capacitada a distribuir para a população necessitada alimentos. Nós precisamos distribuir alimentos.
Então me parece que é isso que a Esquerda tem que fazer hoje. Ela vai ter que radicalizar seu discurso. Ela não pode ficar no mesmo barco do Centro, que vai tentar usar as bandeiras mais “moderadas” da Esquerda por oportunismo.
Perfeito. É hora de radicalizar e não de se irmanar aos “menos inimigos”. Maia não mesmo. E mais: ouvir um ex-Ministro da Justiça afirmar que as grandes fortunas devem ser confiscadas em pelo menos 10% é música para os meus ouvidos. Até quando aceitaremos os bilionários e multimilionários rindo ao assistir a população morrer de fome e doenças (seja em época de Corona ou não)? Precisamos já de confisco e impostos altíssimos sobre o topo da pirâmide que possui juntamente um valor que ultrapassa o trilhão de reais.
Por fim, Aragão tocou no assunto das longínquas eleições de 2022:
Então este é o cenário que estamos vivendo, mas estou achando até que essa crise está nos permitindo uma reaproximação, o que é bom, pois no pós-crise o cenário político vai ser outro. E o PT hoje tem plena consciência que em 2022 não necessariamente será o cabeça de chapa das eleições presidenciais. É tudo uma questão de se conversar. Por exemplo, o Dino, governador do Maranhão, é um excelente nome para candidato a presidente da república. Ninguém tem nada a opor. Mas a gente discute até o Ciro Gomes, se for o caso. Nesta altura o que você tem que fazer é viabilizar um discurso que saia deste ramerrame conservador fascista. É voltar fazer as forças políticas conversarem entre si. Nós não precisamos ter um presidente da república progressista, no sentido como nós entendemos. Porque ter um presidente da república progressista no próximo mandato, provavelmentee é a prorrogação dessa crise. Nós precisamos de um presidente da república que coloque novamente a política nos eixos. E pode ser até um “conservador progressista”, um centro-esquerda, pode ser. Não precisa ser um de nós. Provavelmente será mais efetivo em criar uma concertação do que nós. Então a gente tem que pensar, acho que todas as propostas estão abertas, mas a Esquerda está se conscientizando de que ela precisa se reorganizar.
Concordo com ele em alguns de seus pontos, como a questão de o PT não necessariamente ser cabeça de chapa. Mas discordo do argumento relativo à ideia de um presidente progressista. Acho que um presidente progressista seria perfeito a qualquer momento. Agora, em meio à luta contra o Neonazifascismo, mais ainda. Outra coisa: Dino, sim. Ciro… complicado. É provavelmente o cara menos confiável de todo este cenário. Com ele nunca sabemos onde de fato estamos pisando. Por isso sou contra tê-lo como candidato de Esquerda (se é que ele é de Esquerda…).
Além disso, não penso que devamos vislumbrar as eleições de 2022. Podemos mantê-las em mente, sim, mas estou convicto de que a prioridade agora é arrancarmos o alucinado presidente do poder. Em 15 meses de governo seu estrago já foi imenso. Quatro anos talvez seja inconsertavelmente destrutivo ao Brasil.
Enfim, quis trazer a vocês este bate-papo e algumas reflexões pessoais, afinal é sempre positivo conversarmos com os homens e as mulheres que estão diretamente envolvidxs com as pessoas que podem mudar o rumo do país. E nós, ativistas, militantes, civis, cidadãos, devemos nos aproximar o máximo possível deles e delas, perguntar, indagar, se envolver, afinal a história das mudanças das sociedades sempre passou por nós. E no século XXI nossa ação parece mais necessária do que nunca.
por Mauro Nadvorny | 3 abr, 2020 | Brasil, Economia, Política
Uma das coisas mais interessantes na crise do Coronavírus é a sensação de “novo” que ele causa. De fato, parece ser um dos vírus mais cruéis das últimas décadas, pelo fato de ele demandar o sistema de saúde em uma velocidade e proporção impressionantes e assustadoras. Em todos os países, com exceção da China, que há muito já tem isso como modelo, rapidamente notou-se a movimentação de todos os setores políticos e acadêmicos em prol do papel do estado como via de saída para a crise.
Mas é apenas a dimensão do tempo – ou da velocidade dos acontecimentos – é que é nova neste momento. Nenhum dos problemas suscitados, dos que afligem as parcelas vulneráveis da sociedade e de sua economia, são de fato novos. O vírus vem apenas nos despertar a consciência perdida pela crônica diluição no tempo e no espaço do volume de pequenas tragédias localizadas e sistêmicas que se arrastam há tanto tempo e em intensidade “suportável” às autoridades e elites. O vírus nos desperta agora para um sem número de problemas que há muito foram naturalizados pela resiliência das camadas inferiores e invisíveis da população, que se forem “lambidas” pela epidemia representarão uma imensa ameaça involuntária nas esferas biológica, social e econômica, ao centro de uma economia cronicamente e excessivamente financeirizada e insustentável exatamente por esta característica.
Subitamente, descobriu-se que sem dinheiro ninguém vive, e que as desigualdades na distribuição desse dinheiro e seu fluxo, na ausência de um lastro patrimonial e funcional que realmente atenda as necessidades básicas de qualquer ser humano, pode nos levar à destruição. Pelo menos, daquilo que considerávamos até dez minutos atrás como sendo o método de vida definitivo e seguro.
E para completar o quadro com requintes de crueldade, no caso do Brasil, foram os estratos superiores da sociedade que trouxeram o vírus ao Brasil, certamente desinformados e desatentos ao que acontecia no mundo. Esses mesmos estratos que puseram no poder um governo absolutamente incapaz de lidar com a situação, aleijado em sua infraestrutura de saúde por decisões voluntárias e desorganizado em sua hierarquia pela intrusão na sua linha de comando e na sua rede de relações do vírus conspiracionista derivado do olavismo e da paranóia anticomunista e fascista.
Com esta última característica, fechamos o ciclo de compreensão desta barbaridade, que como disse, só é nova na escala do tempo. Nenhum dos problemas que enfrentaremos doravante são coisas novas. A diferença é que a vitrola estava em rotação 16, e então, veio a natureza virou a chave para 78. Se para nossa sorte ou azar, caberá a nós decidirmos.
NELSON NISENBAUM
por Mauro Nadvorny | 28 mar, 2020 | Israel, Política
Todos sabemos que política é a arte de engolir sapos. O inimigo de hoje pode vir a ser seu melhor amigo amanhã, e vice-versa. Tudo que for dito hoje por um político, pode ser desdito amanhã sem o menor constrangimento. Ideologias e compromissos têm seu tempo de validade e funcionam de acordo com os interesses do momento. Assim é no mundo inteiro.
Israel finalmente terá um governo depois de 3 eleições consecutivas, e o grande vitorioso é Benjamin Nathaniel, o Glorioso. Seu maior opositor, Benny Gantz, líder do Azul e Branco, sucumbiu ao canto da sereia e fará parte do governo dele. Gantz acabou com o partido Azul e Branco e com qualquer chance de acabar com a liderança de Bibi que já se tornou o homem que por mais tempo foi primeiro-ministro de Israel.
Todo crápula tem uma desculpa moral para uma traição. A de Gantz foi de que o país está atravessando uma grande crise por conta do Corona. Segundo ele, esta situação trará consequências inimagináveis que exigem a união das lideranças acima de seus interesses pessoais para tirar o país da crise econômica que se avista. Uma quarta eleição seria um caos neste momento.
Gantz foi a esperança de uma mudança política em Israel. Nele foram depositados os votos para que cumprisse o que disse a nação quando mostrou que Bibi era um criminoso que em breve iria para a cadeia pagar por seus crimes de corrupção. Dezenas de vezes, olhando nos olhos de cada israelense afirmou e reafirmou que jamais sentaria em um governo com ele.
Sua traição, para quem apenas está chegando no mundo da política, praticamente encerra sua carreira. Atos desta natureza dificilmente são perdoados pelo eleitor. A desculpa do Corona não encontra eco em quem deu seu voto para ele. e Gantz Traidor é o que mais se escuta desde ontem.
Para se ter uma ideia da capacidade de Bibi em se manter no poder, em uma semana ele conseguiu adiar o inicio de seu julgamento para o mês de Maio, acabou com o maior partido de oposição e está praticamente conseguindo terminar com o que já foi o maior partido de Israel, o Trabalhista. Seu atual líder estaria sendo cooptado também para fazer parte do governo. Sim, Amir Peretz foi mais um que diss,e em alto e bom tom, que jamais sentaria em um governo com Bibi.
A população, ainda atônita com o Corona, que hoje, enquanto escrevo estas linhas, já infectou cerca de 3500 israelenses com 12 óbitos, prestes a entrar em Isolamento total, tenta medir as consequências de tudo isso. De um lado, a inevitável crise econômica que o vírus vai deixar depois de passar por aqui junto com o rastro de mortes. De outro, a busca por um novo líder capaz de unir a oposição a Bibi e desafiar o novo governo que ele formou.
Não se sabe quanto tempo vai levar para recuperar a economia. Nunca tivemos uma situação como esta. São milhares de pessoas desempregadas e negócios que podem quebrar. Será preciso muito dinheiro e talento para equilibrar as contas. Pessoas físicas e jurídicas fazem suas contas e todos temem pelo pior. Um ponto de equilíbrio vai surgir em algum momento, a pergunta é qual será o custo e em quanto tempo vamos voltar à normalidade.
Quando a poeira baixar, também vamos saber com exatidão quem são os que se venderam a Bibi, e quem permaneceu na oposição. Seu tamanho e sua representatividade ainda são uma enorme dúvida. Só aí será possível uma avaliação das consequências da traição de Gantz e quais os passos a se tomar.
Na minha visão, este governo não vai durar os quatro anos de mandato na forma como está sendo concebido. Não acredito que a rotação entre Bibi e Gantz vai de fato acontecer. O partido de Gantz ficou reduzido a cerca de 15 deputados, sua força diminuiu muito e sua única carta na manga hoje, é a possibilidade de derrubar o governo no caso de uma saída do governo. Hoje, porque agora Bibi tem tempo para cooptar mais adeptos ao seu mantra deixando Gantz cada vez mais irrelevante.
Sempre chamei o Azul e Branco de um Likud Gourmet. Pelo visto não estava muito errado em defini-lo desta maneira, apesar de haver muitos membros de centro esquerda. No entanto, a ala Likud prevaleceu.
Atualmente somente Bibi e a Corona estão se dando bem em Israel.
por Mauro Nadvorny | 25 mar, 2020 | Brasil, Comportamento, Política
Existe um fato que situa o Brasil como um dos piores países do mundo hoje (quem fala isso não é um babaquinha que foge para a Flórida ou cospe no prato em que comeu, mas alguém que ama o Brasil e dedica anos de vida ao seu progresso e desenvolvimento). Tal fato não tem a ver com ideologias políticas, econômicas ou teses religiosas. Tudo isso tem algo de bom, ao menos para um bom debate.
O fato é que Jair Bolsonaro, que detém o Mandato Presidencial, conquistado, sim, democraticamente (no jogo democrático e em eleições legítimas), embora tenha um histórico asqueroso de vida familiar, militar e parlamentar, não reúne condições objetivas para presidir (que entre outras atribuições pressupõe a de união nacional).
Jair Bolsonaro cometeu inúmeros crimes de responsabilidade, já provados, e, tudo indica, tem algum grau acentuado de demência. Poderia ser interditado por demência, mas esse caminho exige perícia. Não seria fácil. Pode ser afastado pelo Impeachment. Esse é o caminho mais seguro.
E a pergunta é: por que afastar, pelo Impeachment, o Presidente Jair Bolsonaro? Resposta simples. Porque ele cometeu crimes de responsabilidade, e o país precisa enfrentar problemas econômicos, jurídicos, de segurança pública e, agora, de saúde pública. Jair Bolsonaro não está preparado para nada disso, aliás, é um obstáculo a qualquer ação, incluindo a dos governadores. Ademais, seus Ministros, especialmente, Moro e Guedes, já demonstraram incapacidade completa para os cargos que ocupam.
Falar em interdição é mosca branca. Falar em cassação é estupidez de quem delira. Impeachment é o caminho jurídico e político para reabilitar o país e reinserí-lo entre as grandes nações.
(Pietro Nardella-Dellova)