por Mauro Nadvorny | 5 mar, 2020 | Israel, Oriente Médio, Política
Uma colheradinha sobre mídia israeli e politica, pra quem pensa que só no Brasil acontece.
Depois de passar mais de 2/3 de minha vida na minha amada “Entidade Sionista”, aprendi alguma coisa sobre eleições. Uma delas é não comemorar boca de urna. Você pode ir dormir com Peres e acordar com Bibi. (Veja 1996). Desde então, meus cabelos brancos sempre aumentam entre 91 e 100% da contagem. E um fator importantíssimo nesse momento seria receber analises comedidas, de bom senso e de quem? Da mídia, correto? Mas…
Infelizmente, a mídia israelense simplesmente não cumpre seu dever, ela é bajuladora e se encolhe, confusa e sem noção. Novamente. Começou já ontem com a promoção de uma consciência completamente equivocada, como se os resultados fossem uma “vitória arrebatadora” para Benjamin Netanyahu. Foi assim com os canais de TV, com jornalistas rinocerontes, e tambem na maioria dos sites de notícias e jornais. O problema é que isso é factualmente incorreto. O objetivo declarado de Likud e Netanyahu era chegar a 61 no bloco de direita para formar facilmente uma coalizão, mas isso provavelmente não acontece (supondo que a situação permaneça a mesma depois de contar os envelopes duplos e os votos dos soldados). Netanyahu fracassou nas pesquisas de opinião pública pela terceira vez em menos de um ano para alcançar a maioria da coalizão. Então, o que resta para ele nesse meio tempo? Assumir o controle da consciência do cidadão como se fosse vitorioso, e isso é feito através dos meios de comunicação, cuja grande maioria é submissa, hipnotizada, e serve a ele e à falsa consciência que ele difunde, como se fosse a Torá do Sinai.
O que vemos é obviamente um jogo de consciência e Bibi o joga com arte. Impossível não admirar sua genialidade midiática, funcionou até pra mim ontem, quando a mídia se apressou a afirmar que era uma vitória definitiva e “acachapante”.
Então, quando vi que não havia 61, me lembrei de quem se trata, uma pessoa que se apossa de todo “sucesso” seja relacionado a ele ou não, e todo fracasso ou, no caso aqui, lodo jogado sobre outros é derrota de outros, e ele simplesmente declara isso como fato.
Por exemplo, vimos dois dias antes da eleição, quando declarou que Galant não havia sido eleito chefe de gabinete por causa de Ashkenazi e Barak, para jogar lodo no adversário, quando de fato, o que aconteceu foi que ele não o nomeou por conta do relatório do controlador estatal, e claro, esqueceu-se de mencionar que quase não houve um oficial sequer do Tzahal, do Shaba”k ou do Mossad nos últimos vinte anos que não o criticasse de maneira aguda. Caramba, onde estava a mídia para contestá-lo e coloca-lo em seu lugar?
Quando ele vence a luta com o Kaholavan, “o povo disse o que tinha a dizer”, mas quando o Kaholavan teve maioria, foi “tentativa de derrubar o bloco da direita”. Entendem?
Tudo isso é um jogo que brinca com nossas mentes, e a mídia em seus programas de noticias o ajudam trazendo tudo quanto é groupie sem nenhuma formação jornalística e políticos que dirão que o povo decidiu que não há confiança no Sistema Judiciario, apesar de que por enquanto, de acordo aos resultados atuais,a maioria dos cidadãos decidiu que não quer presentear Bibi com a concessão de imunidade. E o MK Amsalem (likud) ainda declarou que a maioria do povo acredita em Bibi e que é claro que a maioria dos árabes serão contra Bibi, mas “quem se importa com o que eles pensam?”
Tudo uma perfeita produção de falsa consciência, com total apoio da mídia, inclusive de representantes da esquerda que ou cooperam com ele ou ele conseguiu que seus truques funcionassem sobre eles também até esgotá-los.
Porem – se a situação atual (Bibi 35 – Gantz 33 – bloco da direita 58) continuar, a direita e Netanyahu não conquistaram nenhuma vitória, nem mesmo pequena. Eles falharam pela terceira vez na urna e não têm nem maioria e nem governo. Nos países civilizados, os líderes já pagariam por isso com sua cadeira, principalmente se estivessem na situação legal de Netanyahu. Mas em Israel? Bibi é o rei. O rei está nu, mas todo mundo está sob hipnose e não vê nada. O principal é que “a mídia é de esquerda”. Acordem!
por Mauro Nadvorny | 29 fev, 2020 | Israel, Política
E Israel chega novamente as eleições com o mesmo impasse das duas anteriores. Nenhum bloco, segundo as pesquisas, tem chance de formar maioria no parlamento para constituir o governo. Em sendo este o caso, vamos para a quarta eleição dentro de alguns meses.
O que impressiona a todos aqui, é de que mesmo diante do inicio do julgamento de Netanyahu em três casos criminais, entre eles a acusação de receber suborno, o Likud, liderado por ele, se mantém firme nas disputa empatado com seu maior adversário, Beny Gantz do partido Azul e Branco.
A Lista Árabe Unida, uma espécie de Frente Ampla dos árabes de Israel, pode chegar a 14 cadeiras, enquanto que Liberman, do partido Nossa Casa, majoritariamente formado por judeus russos, deve fazer de 7 a 8 cadeiras. Ele seria o fiel da balança para que a direita formasse o governo, mas sua ojeriza aos partidos religiosos que formam o bloco de Netanyahu, impede, hoje, que ele se junte a eles.
O bloco de centro-esquerda também tem um grande problema. A esquerda que entra unida como Emet (Verdade em Hebraico), chega a 8 cadeiras, segundo as pesquisas. Somados ao 34 do Azul e Branco, eles têm somente 42 cadeiras. Se a lista árabe os apoiar, mesmo de fora do governo, ainda assim chegariam só a 56 cadeiras. Sem Liberman, não conseguem formar governo. Neste caso a bronca dele é com a lista árabe que ele chama de Quinta Coluna. Não aceita fazer parte de um governo de minoria com o apoio dela de fora.
A polarização é muito grande aqui. Se escuta muito, Rak ló Bibi, menos o Bibi, (lembra algo no Brasil?), e acusações rasteiras contra o Gantz. Em política, quando se aproxima o dia das eleições, se abrem os esgotos. Isso acontece no mundo inteiro.
Talvez as pesquisas estejam enganadas. Talvez um dos blocos não faça o número de cadeiras que elas estão projetando. Isto costuma acontecer e até mesmo as pesquisas de boca de urna não são assertivas. Já teve muita festa de comemoração de vitória de um bloco partidário durante a noite que se transformou em velório na manhã do dia seguinte.
Todos aqui estão descontentes com este impasse. O país está paralisado a praticamente um ano e pode continuar assim por mais 6 meses, no entanto, quase a metade da população acredita que vamos ter sim uma quarta rodada.
Se isto acontecer, vamos ter um primeiro ministro, que continua no poder, sendo julgado pelo cometimento de vários crimes. Ele além de se governar, terá de lidar com a sua defesa. Não é pouca coisa. Ele está bastante enrolado e existe uma chance muito grande de que seja condenado a cumprir pena. Imaginem a situação.
Netanyahu sabe disso tudo. Não conseguiu aprovar imunidade, mas pode tentar passar a Lei Francesa, como é conhecida aqui, a lei que impede o julgamento de um primeiro ministro na função. É só o que resta a ele fazer para ganhar mais tempo. Para que isso aconteça, teria de ganhar as eleições e ter certeza de que dentro do seu bloco todos votariam a seu favor.
Por mais que se especule diante dos resultados apontados nas pesquisas, precisamos aguardar mais dois dias para saber o resultado das urnas. Vamos deixar elas falarem para termos certeza do que vai acontecer no dia seguinte.
Aqui em Israel existe todo um protocolo para formação do governo. O presidente dá esta incumbência para aquele que tiver o apoio de uma maioria, mesmo que não chegue a 61 cadeiras. Ele recebe a incumbência de tentar convencer outros partidos a entrarem no governo. Se não tiver sucesso, passa a tarefa para o segundo melhor colocado. Se ele também não tiver sucesso, qualquer parlamentar que apresentar uma lista de que possui o apoio de 61 congressistas, forma governo.
Se tudo isso fracassar, como nas duas últimas eleições, uma quarta será marcada. Sim, o parlamentarismo tem seus problemas. A democracia não é um regime perfeito, ainda assim, é o melhor que existe.
por Mauro Nadvorny | 28 fev, 2020 | Brasil, Política
Qualquer pessoa com um mínimo de informação e bom senso sabe: o golpe está em marcha, o objetivo é passar da ditadura insidiosa que vivemos a uma ditadura institucionalizada, com leis de exceção e todo o aparato repressor. O clã Bolsonaro, os militares, evangélicos, mulheres que defendem a falocracia e outros fascistas que integram o governo, estão em plena campanha pelo endurecimento do regime, com apelos ao AI5, pouco importa qual seja o seu futuro nome, e o consequente fim do período democrático. Os sinais são claríssimos, transparentes.
Não foi por acaso que no Nordeste, região que não aderiu ao bolsonarismo, os policias militares, muitos dos quais encapuzados, escondendo o rosto de milicianos, entraram em greve, numa evidente violação da Constituição Federal. Foram além, passaram a não mais respeitar as autoridades estatais, referindo-se diretamente à Brasília, como se fossem subordinados diretos de Jair Bolsonaro. O movimento se alastrou e hoje engloba metade dos Estados brasileiros.
Não foi tampouco por acaso que nos últimos meses Bolsonaro trocou ministros e responsáveis civis do segundo escalão por militares, inclusive da ativa.
Ao reconhecer que o presidente da República flerta com os motivos legais de impeachment, o general Augusto Heleno decidiu agir, declarando guerra ao Congresso. Afinal, a segurança institucional é o seu setor. Inventou uma chantagem do Parlamento e concluiu com um sonoro “Foda-se”. Foi então que se articulou uma manifestação em defesa dos militares, contra os inimigos do Brasil que são o Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal. O general pôs fogo no circo, numa manobra muito bem preparada. As principais palavras de ordem, o fechamento do Parlamento e do STF, receberam o apoio do presidente da República, através do WhatsApp.
Vale sempre a pena lembrar: Quando o general Augusto Heleno era chefe da Minustah, as forças da ONU enviadas ao Haiti, os soldados sob seu comando cometeram inúmeros atos de violência ao encontro da população, milhares de mulheres foram estupradas, 70 favelados mortos, 20 desaparecidos e 300 feridos na maior operação militar no país. Os mortos foram assassinados com tiros na cabeça, à queima roupa. Mais de 23 mil cartuchos foram detonados. Demitido do cargo pelo então presidente, por exigência da ONU, o general passou a considerar Lula seu inimigo mortal.
Agora, Jair Bolsonaro e seus filhos, sob o estímulo original do general Heleno, pregam que os militares intervenham no Congresso e no Supremo.
Apesar do absurdo do apelo, não se pode dizer que haja surpresa nessa atitude abertamente antidemocrática, que por si só justificaria a abertura de um procedimento de impeachment. Há 20 anos, o então deputado declarou que se um dia chegasse à presidência fecharia o Congresso e mataria 30 mil, dentre os quais o chefe de Estado da época, Fernando Henrique Cardoso. Jair Bolsonaro, durante a campanha eleitoral, em 2018, reincidiu, ao dizer que “se caísse uma bomba H (de hidrogênio, muitas vezes mais potente que uma bomba atômica) no Parlamento, pode ter certeza, haveria festa no Brasil.” Agora, foi apoiado pelos filhotes 01, 02 e 03.
Dependendo do número de bolsonaristas presentes, a manifestação programada para 15 de março poderá ser o preâmbulo da instauração de uma nova ditadura, assim como a Marcha da Família com Deus pela Liberdade foi uma espécie de prólogo do golpe de 64. Diante dessa possibilidade, até mesmo alguns jornalistas ultradireitistas, mas que conservaram um mínimo de respeito à democracia, pedem que seus leitores não compareçam ao ato. Uma prova de responsabilidade tardia.
Quanto a nós, que sabíamos muito antes o que aconteceria caso o abominável fosse eleito – o pior, a hora é de esquecer as desavenças e formar uma compacta aliança democrática, congregando todos aqueles que são contra o autoritarismo fascista. Todos, sem exceção, a começar pelas lideranças políticas, que poderiam ou melhor deveriam esquecer por dois minutos a vaidade que os desune para elaborar um manifesto da Frente Unida pela Democracia. É o mínimo que se espera deles em nome da biografia. Caso contrário, amanhã, serão chamados, com razão, de cúmplices da barbárie.
por Mauro Nadvorny | 25 fev, 2020 | Comportamento, Mundo, Política
por Jean Goldenbaum
Amigxs, hoje venho dividir com vocês a tristeza que na semana passada pairou sobre a Alemanha, onde resido e residi praticamente toda a minha vida adulta. Na última quarta-feira (19/2/2020) ocorreu aqui o pior atentado terrorista dos últimos 24 anos realizado por um cidadão ou morador do país. Na cidade de Hanau, próxima a Frankfurt, um neonazista invadiu dois bares de narguilé e a tiros assassinou nove pessoas. Na verdade dez, pois a única mulher entre as vítimas, estava grávida. Todos os falecidos eram estrangeiros (nascidos no exterior ou de origem migratória): dois curdos, dois turcos, um afegão, um bósnio, um búlgaro, um romeno e uma sinti (cigana).
Após a chacina, o ofensor retornou à sua casa, assassinou sua mãe de 72 anos, e se suicidou. Antes disso, publicou na internet um bizarro “manifesto” de 24 páginas através do qual escancara toda a sua alucinação mesclada com ódio. Neste documento ele expressa seu desejo de aniquilação de estrangeiros, ideias sobre eugenia, frustrações sobre sua incapacidade de ter uma vida amorosa com uma mulher, e outras teorias da conspiração envolvendo até mesmo o sociopata presidente norte-americano Donald Trump.
Este ataque confirma mais uma vez a estatística já bem conhecida nas últimas três décadas na Alemanha: a maioria absoluta dos ataques de ódio no país é realizada pela extrema-direita. Não por estrangeiros, não por islâmicos, não por esquerdistas. O último ataque tão “bem-sucedido” como este havia ocorrido em 1996 em Lübeck, quando neonazistas incendiaram um lar de asilados, matando dez pessoas e ferindo mais de 50.
Cabe também lembrar de outros dois episódios, este mais recentes: o de 2016, em que um neonazista de Munique com uma pistola assassinou nove estrangeiros e feriu diversas outras pessoas; e o de 2019, em que o criminoso atirou na porta da Sinagoga de Halle e tentou invadi-la, e depois assassinou duas pessoas em um restaurante turco.
É importante também registrar aqui que, desde a queda do muro de Berlim, o único grande ataque terrorista (12 mortes) que ocorreu por responsabilidade de um muçulmano, foi realizado em 2016 por um membro do Estado Islâmico, que se infiltrou ilegalmente no país, e não possuía status de asilado ou visto algum. Ou seja, era um criminoso internacional, procurado por variadas polícias e possuidor de diversas cidadanias falsas, e não um cidadão que fazia parte do – em minha opinião maravilhoso – programa de aceitação de refugiados da Alemanha.
O partido de extrema-direita na Alemanha, o AfD, fundado em 2013, teve sua ascensão em 2015 justamente através da propagação da teoria de que os milhões de refugiados que Angela Merkel permitiu que entrassem na Alemnha transformariam rapidamente o país em uma espécie de califado europeu. Incitando ódio, racismo e violência todos os dias, o partido reúne e organiza o que há de pior na sociedade alemã. Este, que nada mais é do que o partido nazista alemão com uma roupagem contemporânea e adaptada ao século XXI, hoje ocupa o segundo escalão político do país, com um eleitorado que varia entre cerca de 10 e 15% dos votantes. Assim, desde 2015 – pasmem, amigxs leitorxs, – mais de 100 ataques da extrema-direita a alvos estrangeiros variados (islâmicos, judaicos, entre outros) já foram documentados. E o AfD, assim como os republicanos trumpistas, e assim como toda a corja ultradireitista brasileira faz, continua a estimular e legitimar todo o ódio. (Ah sim, uma “curiosidade”: este que foi o único partido alemão a parabenizar o monstruoso presidente brasileiro por sua eleição. Que surpresa, não?…)
Pois bem, culpar o AfD não é somente a minha opinião, mas a da maioria dos alemães. Uma recente pesquisa (veja a referência abaixo) evidenciou que 60% dos alemães atribuem ao AfD responsabilidade pela violência da extrema-direita (26% não atribuem e 14% não sabem). A pesquisa também aponta que a maioria, 49%, considera os neonazistas a maior ameaça de terrorismo na Alemanha (27% considera os muçulmanos e 6% considera a Esquerda, enquanto 18% não sabem.)
Dentro do mundo político, tivemos a importante declaração do político Norbert Röttgen do CDU (maior partido alemão e de Angela Merkel). Röttgen, que é cotado para assumir a liderança do partido após a aposentadoria de Merkel, externou com todas as letras: “Você não pode ver a ação isoladamente. Temos que combater o veneno que o AfD e outros carregam em nossa sociedade”.
Enfim, acho importante trazer ao público brasileiro fatos de um país que é chave no mundo em termos políticos, econômicos e sociais. E a história do nazismo na Alemanha traz um peso maior a qualquer acontecimento que ocorra relacionado a este tema.
Por fim, é justo dizer que tirando o câncer nazista, racista, xenófobo, da sociedade alemã, o país vêm, ao meu modo de ver, combatendo muito bem a ascensão do Neonazifascismo. O AfD está controlado, e prevejo que de agora em diante a tendência é que comece a perder pontos percentuais, estabilizando-se como um partido secundário que não terá chances de assumir nenhum nível governamental. O partido que mais cresce é o Verde – inclusive aqui em Hannover elegemos recentemente o primeiro prefeito deste partido, que além do mais é muçulmano e de ascendência turca, ou seja, uma grande vitória para a diversidade. Dadas as atuais tenebrosas conjunturas do mundo (Trump, Brexit, Brasil, etc), a Alemanha é um muito bom lugar para se viver, e espero que se consolide mais e mais como uma capital de combate ao extremismo no mundo.
Quanto às vítimas de Hanau, que já se foram, nos cabe somente rezar um Kaddish por suas almas – e sei que os judeus bons e humanistas o fizeram. Aos que ficaram, segue a luta de alemães e estrangeiros, judeus, muçulmanos e cristãos, por um mundo que – ao menos minimamente – mereça receber as crianças de amanhã.
Fonte da pesquisa:
https://www.rga.de/politik/hanau-anschlag-video-opfer-taeter-schiesserei-attentat-hessen-arena-bar-news-zr-13549464.html
por Mauro Nadvorny | 25 fev, 2020 | Brasil, Política
(do Face do autor)
Uma eleição como a que alavancou e instalou no poder a Jair Bolsonaro e seu desgoverno neo fascista, fato apenas possível sob a nefasta batuta das fake news – filhas bastardas da informática a serviço do mal – é suficiente para que um golpe sem sangue mas cheio de Megabytes carregados de persuasivas mentiras bem ao estilo Goebbels, transforme uma democracia ainda que imperfeita em uma ditadura, porque esses golpes ocorrem em pequenos ou grandes computadores e com muito poucos atores, mas os efeitos de uma ditadura como essa requerem uma geração ou mais para desaparecer, porque suas metástases malignas adoecem quase todo o corpo social, instalando a falsa verdade única na cabeça de suas vítimas.
Enquanto o mal é reversível, devemos agir para erradicar do corpo social qualquer vestigio, antes que seja dolorosamente irreversível.
Não esqueço que o impeachment antes de dois anos da eleição abre as portas para uma nova eleição sem que assuma o vice, que é fruta da mesma árvore .
Bruno Kampel
Nota do rodapé: Aqueles que votaram nele como um voto contra o PT, que aprendam a lição para evitar que o remédio seja pior que a doença.
por Richard Klein | 22 fev, 2020 | Brasil, Comportamento, Literatura, Mundo, Política
Capítulo 01
“No início Deus criou os céus e a terra.” Torá – Bereishit
Como tudo que envolve o destino, o caminho de Rafael para o Brasil foi conturbado. Tudo começou nos anos 1930 quando ele mal sabia onde o país ficava. Uma explosão de irracionalidade estava varrendo a Europa e criaria, entre outros horrores, a “solução final” proposta por Adolph Hitler para a sua gente. Essa ideia devastaria sua família no sonolento interior da Polônia. Dois terços dela – seu pai e sua mãe inclusive – acabariam, sem culpa nem compreensão, vítimas do delírio supremacista.
Antes disso, pouco depois do fim da Primeira Grande Guerra, Rafael saiu do seu vilarejo, Krosno na Galícia Polonesa, para tentar a vida em Berlim, na Alemanha. Enquanto os vitoriosos impunham sanções humilhantes aos vencidos e os bolcheviques se instalavam no comando da Rússia prometendo revolução pelo mundo afora, ele testemunhou o nazismo se rastejar para dentro da alma do povo a sua volta. Nos meados da década a situação piorou. Os comícios do racista histérico de bigode retilineo passaram a atrair milhões. Com o apoio da população, os mais radicais passaram a atacar judeus nas ruas e a pintar estrelas de Davi nas vitrines das suas lojas. Em Berlim, o olho do furacão, o ódio se institucionalizou e as autoridades passaram a criar leis excluindo “inimigos do Reich” da vida pública. No seu caso, o absurdo era mais óbvio porque sendo louro de olhos azuis e um sujeito altivo que gostava de andar alinhado, era confundido toda hora com um ariano legítimo.
Quando a situação se tornou irreversível, ele e seus dois irmãos se mudaram para a Holanda. Em Amsterdã, como na história dos três porquinhos, nosso já não tão jovem herói assumiu o papel do irmão trabalhador enquanto o mais velho, Ziesch, arrumou um bom casamento e o mais novo, Heimish, caiu na esbórnia. Porém, em maio de 1940, com a neutra Holanda prestes a ser invadida pelos exércitos nazistas, o turbilhão voltou ao seu encalço.
Rafael sabia bem que a SS não estava para brincadeira. Um ano antes, os alemães haviam conquistado sua terra natal. Temendo o pior, ele passou pela experiência dolorosa de ter que cruzar a Europa livre para ver seus pais, agora impedidos de sair do país pela administração nazista, talvez pela última vez. No posto de fronteira, dos dois lados, soldados nervosos patrulhavam o arame farpado em meio à neve num clima de pré-guerra, Sem a possibilidade de atravessar, Rafael teve que se contentar talvez se despedir de Toni e de Wolf de longe e acenar.
Sua premonição se provaria correta. Algumas semanas mais tarde seus pais foram isolados do mundo. Primeiro, foram deportados e trancados num gueto e mais tarde transportados como gado para um campo de concentração, Auschwitz, de onde só sairiam como cinzas flutuando no ar.
*
De volta à Holanda, na véspera da invasão, Rafael conseguiu comprar passagens para um navio com destino à segurança da Inglaterra. Na hora H, com aviões dando rasantes por cima das casas, sons de sirenes rasgando o ar e o rugido do assalto à cidade se aproximando, os dois irmãos se deram conta de que Heimish, o terciero, tinha sumido. Em vez de correr para o porto, saíram feito loucos atrás dele. Quando perceberam que não havia como encontrá-lo, o navio já tinha partido.
Desesperados, foram para o cais, agora a única possibilidade de fuga. Lá, em meio ao caos, Rafael deu um jeito de comprar um bote de pesca. Naquela frágil embarcação de madeira, ele e a família do irmão sairam remando para o alto-mar. Já distantes, pararam para assistir, incrédulos, a vida que sempre conheceram desaparecer em explosões no horizonte. Sem saber se tinham dado azar ou sorte de terem conseguido fugir, partiram em silêncio sabendo que dali em diante estariam entregues ao destino. O cálculo era que na debandada, um barco maior os recolhesse. No entanto, dez longos dias e noites se passaram sem comida ou bebida a bordo e nada de outra embarcação nem de algum sinal de vida no vazio do mar do Norte.
A noção de onde estavam e para onde iam dependia de Eli, o filho de quatorze anos de Ziesch. Tido como o malandro da família, principalmente depois que um vizinho veio reclamar que o menino tinha deflorado sua filha adolescente, ele havia aprendido nos escoteiros a se orientar pelas estrelas. Apesar daquele conforto inútil, o clima era de ansiedade, fome, sede e desorientação. Resignado com o inevitável, Rafael gravou seu nome na madeira para que soubessem de quem seria o corpo quando o encontrassem. Na décima manhã, a esperança apareceu na forma de um avião militar. Esperto, o garoto teve a ideia de usar um espelho para refletir a luz do sol nos olhos do piloto. Funcionou. A aeronave fez um círculo em torno do barco. Por sorte, era britânica.
O piloto apontou para a direção que tinham que seguir e deve ter avisado seu comando porque a marinha real enviou um navio para o resgate. Usando o que restava das suas forças, os naufragos voltaram a remar rumo à sobrevivência. Não tardou para que vissem um pequeno ponto no horizonte. A bordo do navio de guerra, a tripulação teve que agir rápido pois estavam próximo de um campo minado. Um atraso de algumas horas teria impossibilitado o resgate e teria significado a morte em alto-mar, quer por explosão, quer por inanição. Durante a operação, aviões alemães atacaram o navio matando alguns marinheiros. Devemos agradecer e admirar esses heróis anônimos. Sem o seu sacrifício e sem a humanidade da tripulação essa história nunca teria acontecido.
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prefácio