Religião, estado e pandemia

O voto pelo perdão das dívidas das Igrejas no Brasil de parte do PT e pela totalidade da bancada do PCdoB, e o colapso na gerência da pandemia em Israel, tem muito mais a ver do que parece a primeira vista. É a política mostrando suas incoerências, ou coerências, dependendo da perspectiva de quem lê. É a religião se prosmicuindo com a política.

A nota o PCdoB, para explicar seu voto, entre outras coisas disse o seguinte: ”Para o PCdoB, a ação fiscal do Estado deve estar dirigida ao combate à fraude e ser direcionada prioritariamente aos grandes sonegadores, às pessoas físicas detentoras de grande patrimônio e não mirar ações sociais realizadas por instituições religiosas.”

Em outras palavras, o partido justifica o seu voto ao lado de todos os partidos de centro,  direita e extrema direita, com a justificativa de que não se deve cobrar imposto das igrejas, deve-se sim, cobrar dos grandes fraudadores.

Do outro lado do mundo, o governo israelense que havia se saído com mérito no combate a pandemia na primeira onda, se viu obrigado agora a impor um novo lockdown  de duas semanas no país depois de chegar a mais de 4500 infectados em um único dia desta semana.

Como é possível tal desastre? Aqui também existe o fator religioso. O Covid-19 impera principalmente nas localidades de judeus ultra-relogiosos e nas árabes. Em ambas, o uso de máscaras, luvas e evitar aglomerações é desrespeitado a luz do dia e a noite. Casamentos com milhares de convidados, desobedecendo as normas, vem sendo uma constante nestes lugares.

O governo tentou uma solução paliativa. Criou o sistema de cores por cidades e aldeias e tentou impor um lockdown nas localidades de cor vermelha. Os partidos religiosos se rebelaram e ameaçaram deixar o governo. Por fim, aceitaram um lockdown a noite, mesmo assim desrespeitado, e que todos sabiam, uma medida inócua.

Com o número de novos doentes diários subindo as alturas, não teve remédio, e a única opção, antes do colapso do sistema de saúde, foi o lockdown geral. Era o que ninguém queria, é o que todos vão ter. Infelizmente, a política da sobrevivência do governo foi imperativa. Se não é possível uma quarentena somente onde é mais necessário, vamos todos entrar nela.

Por trás destes dois eventos, está a relação religião e estado. O fato é que o PCdoB sabe perfeitamente que nem todo religioso é anticomunista e que boa parte do seu eleitorado é composto de crentes. Estas pessoas precisam dos seus templos abertos e, como explicam (sic), o governo não pode cobrar impostos de locais de culto. Nem vou falar da casa do Bispo Macedo.

Em Israel, os partidos religiosos há muito se tornaram partidos ideologicamente de direita. Seus 15 votos em média, são cruciais para a formação de um governo no sistema parlamentarista. Seu peso portanto extrapola em muito os cerca de 12,5% de representatividade que possuem. Mesmo assim, são cortejados e sabem do seu valor para literalmente chantagear o primeiro ministro com suas exigências. Por conta disso, o país inteiro vai parar durante 15 dias e terá enormes restrições nas duas semanas seguintes.

O fato é, que quando se trata de política, a separação dela do estado, vira uma obra de ficção. O estado em ambos os países, Brasil e Israel é laico no papel, na prática o que acontece é uma submissão as necessidades de cada um. Diante da necessidade de angariar votos, ou de formar um governo, é a religião quem dá a última palavra.

Não acredito que caiba uma discussão sobre as questões éticas e morais do que verdadeiramente acontece. Não existe uma solução democrática para isso. Onde ocorrem eleições democráticas, sempre vamos ter este problema. Uma discussão neste sentido não vai levar a lugar nenhum.

O que fica é aquela sensação de ironia no ar. No Brasil, comunistas votando junto com fascistas. Em Israel, uma coalizão formada para resolver o problema da pandemia, não podendo resolver coisa alguma, e portanto, podendo se dispersar e convocar novas eleições.

E assim caminha a humanidade.

Scarface e Queiroz: do Porto de Mariel a Mariel Mariscot

Se hoje a pergunta que não quer calar, dirigida ao presidente Jair Bolsonaro, é: Por que Fabrício Queiroz depositou 89.000 reais na conta de Michelle Bolsonaro, a que pululava nas redes sociais há dois meses era: Onde está Queiroz? A resposta chegou na bucólica manhã do dia 18 de junho, através de uma operação batizada singelamente de “Anjo”. O mistério do paradeiro do policial aposentado, um dos cabeças do esquema de rachadinha do gabinete de Flávio Bolsonaro, do qual foi assessor, foi elucidado.

Como é do conhecimento de todos, o advogado de Flávio e dublê do programa humorístico A praça é nossa, Frederico Wassef, escondeu esse senhor durante um ano numa propriedade sua, em Atibaia, alegando “motivos humanitários”.

O Queiroz ali pego de surpresa em nada lembrava o policial militar conhecido por tocar o terror nas comunidades carentes, a ponto de as ruas ficarem vazias a sua passagem. Estava mais pra tiozão de boteco, daqueles que encostam a barriga no balcão e, entre um gole e outro de cerveja, fala dos saudosos tempos da ditadura. Um entre vários do Brasil.

Enquanto a polícia apreendia os celulares e outros objetos eletrônicos, um detalhe na casa me chamou a atenção. Ao lado de uma faixa exaltando o AI-5, sonho de dez entre dez bolsonaristas, três bonequinhos em miniatura do Tony Montana, o Scarface, ornavam a lareira. Por curiosidade, olhei na internet o preço desse inocente bibelô e concluí que, como os nerds que gastam pequenas fortunas em bonecos de Star Wars e os aficionados nos heróis Marvel que são capazes de vender um rim por um Batman que seja modelo raro de colecionador, Queiroz investiu nesses seus brinquedos, o que mostra a importância que dava ao personagem.

O generoso amigo da família Bolsonaro, aquele que deposita dinheiro na conta da primeira-dama por pura bondade, que paga as escolas das filhas de seu ex-chefe por amor, me revelou duas coisas importantes: Tem como herói esse personagem icônico e tem uma qualidade que deve ser ressaltada: amizade verdadeira se vê ali; meus amigos, quando muito, me pagam um chope. É uma cambada de pão-duro. Olho para a generosidade desse senhor para com seus diletos companheiros e caio na dura realidade: Meus amigos são todos uns fuleiros.

Voltando ao bonequinho de estimação do Queiroz: Scarface é um filme de 1983, roteirizado por Oliver Stone e dirigido por Brian de Palma. O Scarface, interpretado magistralmente por Al Pacino, tem esse apelido por conta de uma marca de navalhada na cara e é mais um dos cubanos que chega aos Estados Unidos em 1980, vindo naquele que ficou conhecido como um dos maiores êxodos migratórios do século XX: O êxodo de Mariel. O evento foi precipitado por uma recessão monstruosa na economia de Cuba, o que levou dez mil cubanos a pedirem asilo político na embaixada peruana. Fidel, num acordo com o então presidente americano Jimmy Carter, anunciou a abertura do porto de Mariel para que cubanos descontentes com o regime fossem viver o sonho americano. Centenas de barcos procedentes de Miami (a organização ficou a cargo dos cubanos exilados após a vitória da Revolução Cubana) ancoraram no porto para levar os insatisfeitos. Durante o período de sete meses (de abril a outubro de 1980), 125 mil cubanos saíram da ilha.

Não estamos falando de qualquer líder de nação, estamos falando de Fidel. Aquele dono de respostas certeiras que, ao ser perguntado por um jornalista argentino se as  universitárias de Cuba se prostituíam, respondeu: “Não, as prostitutas de Cuba tem nível universitário”. Querem os cubanos na Flórida? Ok.  Ardilosamente, ele despachou, junto aos cidadãos comuns, todos os presos , principalmente aqueles de alta periculosidade, a escória.

O dramático êxodo foi interrompido por Jimmy Carter, pois essa migração em massa teve repercussões inacreditáveis na política doméstica. A criminalidade em Miami cresceu terrivelmente e, com ela, problemas graves ligados à corrupção policial. Esses presos alteraram por completo a chamada “Magic City”. Violência e tráfico pesado de drogas imperavam.

O personagem Tony Montana foi um desses presentes bacanas de Fidel para os EUA. Criminoso comum, passava-se por preso político para conseguir seu lugar na Terra dos Sonhos. Mata sem remorsos, com a luxuosa ajuda de uma serra elétrica, compra uma esposa, roubando-a de outro gângster (Michelle Pfeiffer, lindíssima), constrói uma fortaleza que é um ode à cafonice, monta um império, cheira sem parar. Não vamos julgar Queiroz assim, sem provas. Talvez a admiração pelo personagem (cuja casa é bregaça, mas o terno é de uma estileira que até Álvaro Dias copiou o modelo nos benditos debates de 2018) tenha a ver com o fato de ele representar o imigrante que vence na vida, a tal da meritocracia, e de ser um anticomunista ferrenho. Tony Montana, o empreendedor.

O fato é que as rachadinhas são o mínimo. A proximidade da família Bolsonaro com o fã de Scarface remonta há mais de três décadas e vai muito além da relação profissional. Na realidade, ele era amigo mesmo do nosso presida. A ligação íntima entre Queiroz e o Capitão Adriano, morto na Bahia, também era a mais pura broderagem. Se existe alguma dúvida que a família de ogros é miliciana – tem gente que acha que são meros simpatizantes (não é mistério que o mandatário sempre elogiou a milícia e quis legalizá-la, como uma forma de segurança pública; talvez para ter uma SA pra chamar de sua) – lembrem que o finado Capitão Adriano, CEO do Escritório do Crime, e Queiroz eram amigos de fé  irmãos camaradas, tendo inclusive trabalhado no mesmo batalhão. Fabrício, com seu coração generoso, também ofereceu emprego para a sogra e para a ex-mulher do capitão miliciano no gabinete do 01 (a.k.a. Flavio Bolsonaro).

Foi pensando nesse lupanar que o Brasil se transformou (sem querer ofender as prostitutas, visto que qualquer puteiro é mais organizado que isso aqui) que me veio uma rememoração. Se você assistiu o horário eleitoral gratuito com apenas os retratinhos dos candidatos na TV, se enchia o baldinho de tatuí na praia, se usava o merthiolate que ardia de fazer chorar e se foi malandro o suficiente para não sufocar e morrer com uma bala soft, deve lembrar do que vou falar.

Meu pai comprava diariamente o jornal O Globo (para ver mentiras escancaradas: detalhe, o jornaleiro escondia O Pasquim dentro do jornal dos Marinho, para ficar acima de qualquer suspeita.), o Jornal do Brasil e O Dia. Esse último com uma pegada bem popular. Quando falo popular, faço uma ressalva. O Dia era enfeitado por fotos de pessoas que não faziam mais parte do nosso convívio e de como elas se retiraram, ou melhor, foram retiradas, do evento vida. Sim, também sou dada a eufemismos.

Claro que eu não tinha permissão para ler nada que fosse além das tirinhas de Charles Brown e seus amiguinhos. Meus pais liam os três jornais para buscar nas entrelinhas o que acontecia. Vivíamos sob forte censura. Ao folhearem O Dia porém, as palavras sempre, sempre, sempre proferidas pelos dois eram: ”Foi o Esquadrão da Morte”. Não sabia o que era, por quem era formado e, aos 7 anos, esse termo parecia quase uma entidade. Meu pai, numa daquelas maravilhosas aulas de educação infantil, certo dia mostrou o adesivo do carro na frente do nosso e disse: “Olha o Esquadrão da Morte aí”. Ver uma caveira e abaixo duas tíbias cruzadas foi o suficiente para gelar a alma. Após ver o símbolo, entendi sem saber que entendia.

O espírito da desobediência, porém, sempre habitou em mim. Esperava meu pai sair para futucar o Pasquim, não entendia nada, mas gostava dos desenhos do Henfil, mesmo que não soubesse o que era sarcasmo. O JB e o Globo não me interessavam, só as tirinhas. Mas a minha curiosidade mórbida me levava ao Dia. Ali, olhando a criatividade em prol da morte, cheguei a uma conclusão rodriguiana: de que a solidão nasce da convivência humana. O Dia era jornalismo popular, noticiava o que acontecia na periferia, na Baixada Fluminense. Morte de pretos, pobres, periféricos. Pessoas retalhadas, decepadas, muitos tiros na cara.

Quem fala que na ditadura militar não houve violência urbana, ou é jovem demais e repete o que ouve sem refletir ou não passa de um velho canalha. A partir do final da década de 1950, no Rio de Janeiro, ou melhor, nos grandes centros urbanos, começam os acirramentos de problemas devidos às contradições sociais, políticas, econômicas, tendo as cidades como uma de suas vitrines. Consequência direta da urbanização do país.

Nesse contexto, surge a Scuderie Le Cocq (embrião do Esquadrão da Morte). A primeira vítima foi o bandido Cara de Cavalo, em 1964. Sua história obedece a de tantos outros excluídos. Morador da Favela do Esqueleto, iniciou a vida criminosa vendendo maconha ainda criança. Isso faria a alegria de Bolsonaro, que vive enaltecendo o trabalho infantil. Com o tempo, tornou-se cafetão e se ligou ao jogo do bicho. O papel que tomou para si era achacar os pontos dos jogos, digamos, um trabalho quase suicida. Diante do abuso, um bicheiro procurou o detetive Le Cocq, ex-integrante da Guarda de Getúlio e primo do brigadeiro Eduardo Gomes. Le Cocq organizou um grupo clandestino de policiais para caçar o criminoso. A emboscada a Cara de Cavalo não deu certo, e o bandido acabou por matar a tiros o policial.

De bandidinho pé de chinelo, Cara de Cavalo passou a ser o criminoso mais procurado do Rio de Janeiro. Dois mil policiais em quatro estados foram à sua casa. Um mês depois foi encontrado, e o que se seguiu foi uma execução sumária, comandada pela turma da pesada. Foram mais de cem disparos. Enquanto os tiros eram dados, os algozes chupavam pirulito.

Cara de Cavalo (que recebeu homenagem póstuma do artista plástico Hélo Oiticica), foi o primeiro de muitos. A Scuderie Le Cocq tornou-se praticamente uma instituição. Recebeu o apoio extraoficial do governador do estado, Francisco Negrão de Lima, e o secretário de Segurança do Rio, Luis França, escolheu a dedo doze homens com o intuito de “promover uma faxina”, eufemismo para execuções sumárias de ladrões de carro, de táxi, assassinos, assaltantes e afins. Eram “Os Doze Homens de Ouro da Polícia Civil ”. Paralelo a polícia militar, esse esquadrão contava com financiamento de empresários e bicheiros e tinha a simpatia total do regime vigente. Com essa brigada paramilitar, novos tempos se anunciavam. Corpos de marginais torturados e mutilados começaram a pulular pelo Rio de Janeiro, com frequência com marcas de algemas, sem que houvesse o menor indício de que tivessem esboçado alguma reação. O presidente de honra era o jornalista David Nasser, de triste memória, notório apoiador da ditadura. José Gulherme Godinho, o Sivuca, eleito deputado estadual do Rio de Janeiro em 1990, pelo PSC, com o slogan Bandido Bom é Bandido Morto (Bozo que não cita os créditos né?), era um dos líderes mais atuantes. Esse chavão era o lema dos grupos de extermínio e, que surpresa, é uma das expressões preferidas do atual presidente da República.

A história só se repete como farsa, ou a farsa se repete como história, não importa. O fato é que o esquadrão e seus membros, assim como suas táticas dantescas de combate ao crime, recebiam apoio de boa parte da população. Esse é o momento em que temos a resposta para aquela pergunta: “De onde surgiram esses fascistas?”. Sempre existiram. Eis a prova.

A Scuderie Le Cocq (as letras E e M estavam no brasão e queriam dizer “esquadrão motorizado”, ao qual o detetive pertencia) chegou a comportar sete mil membros! Tendo sua origem na polícia, foi fundada no discurso moralista de defesa dos valores da sociedade, contra os elementos indesejáveis e a manutenção da ordem pública. Era apoiada pelo Exército e pela polícia, e seus membros eram considerados heróis. Desde o início, porém, estava ligada a corrupção, venda de proteção a traficantes, associação a grupos criminosos e ao jogo do bicho, prostituição, roubo de carros, furtos, tóxicos além de, obviamente, participação na repressão militar,

Um de seus integrantes permanece muito vivo na minha memória. Era praticamente um bandido celebridade, o famoso Mariel Mariscot. Mariel ingressou aos 17 anos na Divisão Aeroterrestre como paraquedista. Por meio de concurso público, foi ser salva-vidas no Corpo Marítimo de Salvamento. Seu maior desejo era sair de Bangu e morar em Copacabana, o que conseguiu alugando um pequeno apartamento no bairro. Mariscot sonhava com o glamour e tinha o firme propósito de se tornar rico. Foi leão de chácara de inferninho, segurança particular, passou para a Polícia Civil. Matou pela primeira vez um assaltante em flagrante e quando recebeu voz de prisão de um delegado pelo homicídio, rendeu-o com uma 45. Foi aí que recebeu o nome que o acompanharia pela vida “Ringo de Copacabana”.

A partir daí construiu sua trajetória de prisão de bandidos famosos. Boêmio, frequentador da noite, com fama de bonitão, Mariel arrebatou corações cobiçados, como o da atriz Darlene Glória, musa do cinema nacional, com quem teve um filho; a atriz em ascensão Elsa Castro; e a modelo e símbolo sexual Rosi de Primo. Teve também um tórrido romance com a travesti da família brasileira, a inigualável Rogéria. Sempre metido em falcatruas, acabou sendo preso e fugiu da cadeia com a ajuda da sua então esposa Elsa, indo passar um tempo no exterior. Conseguiu o inacreditável na década de 1970: ser expulso da Scuderie Le Cocq por mau comportamento. Mesmo perseguido, aparecia em estádios de futebol com jogos televisionados, ia a boates, se dava com celebridades da época, enfim…

Conseguiu redução de pena e, enquanto ficava albergado num presidio em Niterói, durante o dia trabalhava com o juiz Francisco Horta na Vara de Execuções Penais. Metido com jogo de bicho, Mariel ansiava chegar um dia à cúpula. Em outubro de 1981, ao sair do trabalho, dirigiu-se a uma reunião na fortaleza do contraventor Raul Capitão, onde se encontravam trinta bicheiros. Não chegou lá. Foi alvejado no caminho por oito tiros dentro do seu carro, nas imediações da Praça Mauá. O juiz Horta, seu protetor (e eterno presidente do Fluminense Futebol Clube), ao saber de sua morte, rezou um Pai Nosso com todos os membros do Conselho Carcerário e proferiu: “Foi assassinado aquele que, talvez, foi o maior policial que o Rio de Janeiro conheceu. Era um sacerdote”. Em entrevista posterior, comparou a emboscada que Mariel sofreu ao atentado vivido pelo Papa João Paulo II, na mesma época. Seu enterro foi acompanhado por muitas pessoas,  policiais choravam, e eu, menina de dez anos, assistia a tudo pela televisão.

O Esquadrão da Morte teve sua gênese no militarismo truculento de 1964, ódio aos direitos humanos, promoção da cultura de execução primária. Consentimento do Estado, financiamento empresarial, matadores profissionais (fardados ou não), ingredientes que se amalgamaram nos Anos de Chumbo e que renderam frutos. O que é a milícia de hoje senão um esquadrão da morte aprimorado? Nenhuma semelhança é mera coincidência.

Em 2000, a Scuderie foi extinta. Voltou timidamente em 2015, com o nome (não riam, por favor): Associação Filantrópica Scuderie Detetive Le Cocq. Em 2018 eles estavam panfletando para o candidato deles. Possuem página na internet em que tratam o golpe de 64 como Revolução, e os matadores de Lamarca e afins como heróis. Roni Lessa, o assassino de Marielle, é membro de honra. Poderia ser apenas um fim melancólico. Infelizmente, é o recomeço de tudo.

Vida que segue, ainda bem

Todos os dias aprendemos novas lições. Quem pensa que já viu de tudo, está muito enganado. Muito ainda vai se surpreender.

Uma das muitas surpresas recentes, claro, foi o Covid-19. Um vírus que paralisou a humanidade. Mostrou que não importa onde estejamos, fomos reduzidos a nossa insignificância neste mundo. Ricos ou pobres, sadios ou doentes, jovens ou idosos, ele atacou a todos.

A esperança de que tudo se resolvesse em pouco tempo foi pura ilusão. Os meses foram passando e cada vez ficando mais claro que a solução não chegaria tão cedo, e ao que tudo indica, se a gente quiser estar seguro mesmo, só no ano que vem.

Claro que é possível conviver com o Covid-19 num mundo ideal, onde todos usassem máscara, saíssem a rua somente quando extremamente necessário respeitando o distanciamento social. Este mundo não existe.

Muita gente insiste em sair sem máscara, ou com ela caída sobre o queixo. Não respeitam o distanciamento, seja por opção, ou pura impossibilidade no local onde se encontram.

Festas são organizadas como se nada estivesse acontecendo. Praias e piscinas abertas. Restaurantes e bares abertos. Casas de espetáculos querendo abrir. E muita gente saindo para viajar.

É compreensível que as pessoas estejam no limite da paciência, que não aguentem mais ficar em casa, ou que necessitem voltar a trabalhar para sobreviver. O desejo de rever os amigos, os pais, os filhos, os netos, ou simplesmente tomar um café no bar, se tornam um desejo incontrolável.

Uma pena que sejam eles a engrossarem as estatísticas de infectados, doentes graves e casos fatais. Por conta deles, as medidas mais drásticas de lockdown se tornam imperativas.

Lamentavelmente, nenhum país pode dizer até o momento que é “Livre do Vírus”. Todos que acharam que haviam controlado a situação, estão sentindo a segunda ou terceira onda. Basta uma pequena abertura, e o Covid-19 retorna com força. Sua capacidade de contágio é impressionante.

Em meio a tudo isso, diversos países enfrentam um novo problema chamado eleições. A Nova Zelândia optou por adiar um mês. Os Estados Unidos confirmaram para novembro com o uso do voto pelos correios.  Outros países estão com o mesmo problema e ainda não tem uma solução.

O Covid-19 ataca a nossa saúde, a economia e agora a democracia. Como realizar eleições em meio a pandemia é a próxima lição que vamos aprender. Se teremos mais, ou menos fraude, ninguém pode prever. Mas certamente teremos menos gente se dispondo a ir votar.

Muitas soluções foram encontradas para manter a economia. Grande parte através do uso da Internet. Trabalho em regime de Home Office deixou de ser algo para poucos. Compras pelos sites se tornaram comuns. Nunca se leu tanto e se assistiu a filmes e séries como nestes últimos tempos.

Aplicativos como o Zoom e similares passaram a ser utilizados por escolas e universidades. Não só para as aulas, como também para as cerimônias de formaturas. Até as festas comemorativas receberam os convidados virtualmente.

Assim, aprendemos que é possível se poupar muitos gastos com a pandemia. Nossa felicidade não depende unicamente da presença física de quem apreciamos. Estar na tela do computador com os amigos, ou como parte de uma plateia, nos faz sentir parte de algo novo.

Claro que nada substitui um beijo e um abraço físico com o calor humano. Logo vamos poder voltar a isto também. Mas por enquanto, fiquemos próximos assim, lendo este texto e dando graças a vida.

O dia em que Putin Bolsonarizou a esquerda

O impacto do discurso de Putin feito ao mundo anunciando o registro da vacina produzida em seu país contra o COVID-19 em grupos intelectuais da esquerda foi impressionante. Sempre tive em relação a Putin uma relação de respeito e temor. Respeito pois considero-o há pelo menos duas décadas o maior estrategista vivo neste recanto do Sistema Solar. Temor pois seu poder, inteligência e capacidade política têm efeitos hipnóticos sobre muitos de seus observadores, seguidores e admiradores.
Putin é um sujeito ambicioso que surfa na onda pós-soviética com uma prancha cheia dos charmes e da carga cultural do exército vermelho, da derrubada dos nazistas, da contraposição ao ocidente. Mas a Rússia de hoje é capitalista, tem um sistema de poder que cultiva um amor platônico com o fascismo, tem na sua estrutura política máfias que reduziriam Sérgio Moro ao nível molecular antes que conquistasse um mero rodapé de um jornaleco de bairro, e acima de tudo isso, a alma russa, apreciável em grande estilo na antológica cena de “Chernobyl” onde os operários da mina de carvão dão simpáticos tapinhas nos ombros do então ministro das minas soviético transformando seu vistoso terno de linho claro em uma bandeira de carbono. E para completar, no campo dos costumes, o governo Putin é uma vergonha.
Dito isto, quero deixar claro que tenho profunda admiração pela ciência russa, soviética e pós-soviética. Certamente há uma subvalorização das conquistas científicas daquele povo. Por exemplo, a tecnologia de invisibilidade de aviões americanos aos radares deriva de um físico russo. O foguete Próton-Soyuz que lançou Gagárin ao espaço está em operação até hoje e por décadas foi o método mais barato de se levar homens e equipamentos à órbita da Terra. Muito da cosmologia moderna deriva de contribuições russas à Relatividade Geral de Einstein. Na biotecnologia não é diferente. Dominam todas as tecnologias. São uma potência científica e cultural de primeira grandeza.
Assim, fica difícil acreditar que a atitude de Putin em anunciar algo que ainda não existe possa causar tanta comoção e comemoração por parte de pessoas que cultivam sentimentos anti-imperialistas, anticapitalistas, antiamericanas, quando o que ele faz e exatamente reproduzir o comportamento de alguém que está em uma mera competição por poder político e hegemonia científica. Por quê “não existe”? Porque uma vacina só existe quando foi minimamente testada em algumas milhares de pessoas, e para isso não basta dizer que “produziu imunidade persistente” porque anticorpos medidos 60 dias após o teste não permite dizer que a imunidade é persistente. E mais que isso, seu desempenho deve ser aprovado por autoridades de abrangência internacional. “Registrar” sua vacina na autoridade sanitária russa, que certamente sofre pressões políticas neste cenário, e anunciar isto ao mundo como conquista científica não passa de bazófia. Alguns argumentam que isto é preconceito contra “qualquer coisa que saia do establishment ocidental”. Não é. Pois nenhuma nação ou laboratório até o momento, mesmo os que estão em fases mais avançadas de testagem de vacinas de diferentes tipos, anunciaram ter o produto “vacina”. Não vemos Xi JinPing posando de herói da vacina, mas sim declarando que a vacina produzida lá será um bem público.
Uma das maiores críticas que a esquerda faz ao bolsonarismo é sobre a aversão à ciência desta corrente de “pensamento”. Da mesma forma, a esquerda demoniza a indústria farmacêutica acusando-a de desvios éticos de todas as naturezas, de projetos hegemônicos, de ocultação de dados, e outras indecências. Então, por quê estas mesmas pessoas rendem-se à idolatria em relação à Rússia e seu líder que anuncia a “primeira” vacina para a COVID-19, sendo que absolutamente nada de científico (em termos de números de testes, metodologias, etc) acompanhou este anúncio? Por quê esta súbita renúncia à argumentação racional que vem mostrando-se homogênea em relação a todos os potenciais produtores de uma vacina? Por quê esta confiança cega? Será só pelo fato de Putin catalisar em si mesmo a grande oposição ao ocidente e “equilíbrio de forças”, trazendo para si a carga moral das “forças do bem”, na avaliação de seus idólatras?
Torço pelo sucesso da vacina russa, da inglesa, da chinesa, da norteamericana, torço por todas. Mas não me sinto motivado a qualquer admiração especial por Putin ou a qualquer esperança adicional à sua vacina. Se ele quer o lugar de “pioneiro”, que apresente ao mundo um produto falando a linguagem do mundo, ou seja, com dados científicos. Alguém poderia questionar (e com certeza irá!) se os dados de outros fabricantes produzem dados confiáveis. Eu até poderia dizer que não há santos habitando a Terra. Mas a linguagem científica é um método sistemático de dificultação de fraudes e personalismos. E é para isso que a ciência existe, para impedir o monopólio do conhecimento e o dogma. Anunciar um feito sem dados é fraude, ainda que o anunciado venha a se confirmar à frente. Uma coisa é o fato, outra coisa é querer transformar em fato aquilo que ainda não é fato. Por isso, quando tomo algumas condutas com certos pacientes, explico: “o que estou fazendo resulta da minha experiência positiva nesta situação e não há estudo científico sobre esta situação, mas não estou fazendo nada que, diante do conhecimento prévio, represente risco.”
Seria mais honesto por parte de Putin dizer: “temos uma vacina muito promissora diante dos testes fase 1 já realizados em 76 pessoas, e vamos registrá-la em nossa autoridade sanitária e diante da emergência, vamos assumir riscos”. Se assim o fizesse, certamente seria também alvo de desconfianças. Mas seu ato foi meramente político, e parte de nossa esquerda abraçou o anúncio como uma vitória do anti-imperialismo ou como derrota de Trump, Bolsonaro e outros atores, políticos ou não. 
Em outros termos, gente da esquerda não está percebendo o quanto estão sendo “bolsonarescos” ao comprar Putin do jeito que estão fazendo. Daí o meu temor em relação a Putin. Este grande jogador conseguiu bolsonarizar antibolsonaristas.
E como conclusão, e de modo reverencial, digo: a ciência russa não merecia isto.

Não é censura!

A decisão do Min.Alexandre de Moraes, do STF, que mandou o Twitter e o Facebook suspenderem as contas de 16 bolsonaristas gerou diversas reações na sociedade, vindas predominantemente de entendimentos de que a medida caracteriza censura prévia, o que ao meu ver, constitui equívoco raso pelo mau ou não entendimento do contexto.
Basilarmente, trata a nossa Carta Magna de vedar a censura prévia à expressão livre do pensamento e da opinião. Mas trata também a nossa carta de proteger outros bens dos indivíduos e da sociedade, que de forma ainda muito diferente e grave do que era em 1988, pode ser ofendidos pela difusão rápida e exponencial potencializada pelas mídias sociais e internet. Exemplo claro é a atividade dos “antivaccers”, grupos internacionais de difusão de fake news sobre vacinas, que são culpados pelo ressurgimento do sarampo, da coqueluche e talvez outros agravos que ameaçam a vida de pessoas e a economia de nações. Mas o pior aspecto desse tipo de fake news é que ele vem sem assinatura. Constróem-se narrativas complexas, recheadas de pseudodocumentos científicos caprichosamente elaborados com fotos, citações, ilustrações e outros adereços que inspiram confiança nos incautos ou mal instruídos que assim são arregimentados para a visão tosca e cruel de transtornados mentais e mal-intencionados.
Tipicamente, esse difusores de falsas notícias são covardes e dissimulados. Não assinam o que escrevem, colocando-se apenas como difusores daquilo em que acreditam ou daquilo que sirva aos seus torpes interesses. Fossem essas iniciativas acrescidas da assertiva “isto representa a minha opinião” ou “isto representa o meu desejo pessoal”, talvez o alcance da lei maior fosse mais restrito, pois estaria o leitor alertado da individualidade do pensamento e posição. Mas os difusores de fake news não agem assim, usando de todos os recursos para que seja não percebida a pessoalidade da posição ideológica e argumentativa.
No campo puramente das ideias e iniciativas, bem mostrou um certo filme da série “007” que uma informação falsa disponibilizada em massa tem o potencial de desencadear uma guerra mundial, e isto, nos dias de hoje, não está razoavelmente tão distante.
No caso em tela, tratou o Min. Alexandre, sabiamente, ao meu ver, e também legalmente, de proteger bens difusos de nossa sociedade. Não se tratou a medida de impedir a livre manifestação do pensamento, pois os investigados não têm apenas no Facebook e no Twitter as suas vias de expressão.
Novamente, como argumento, voltemos a 1988, sem internet e sem mídias sociais. Nossa fonte de informação e muitas vezes de expressão, eram os jornais e revistas. Pergunto ao leitor que já era socialmente emancipado à época: quantas cartas que vocês enviaram aos jornais foram publicadas? Pelas minhas, posso responder: pouquíssimas. Ora, que tipo de poder era esse que as mídias da época exerciam sobre a opinião ou expressão individual? Obviamente era uma forma “fisiológica” de censura! Absolutamente ninguém àquela época, excetuando-se os grandes proprietários dos grupos de mídia exerciam livremente a liberdade total de expressão, o que analisando-se à luz dos tempos atuais, soa como absurdo. Neste ponto, as mídias sociais cumprem um papel democratizante da expressão, ressalvando-se, claro, as atividades dos algoritmos que direcionam as postagens de forma calculada a certos públicos.
O território da internet muitas vezes dá a impressão de pretender ser uma verdadeira terra sem lei, demanda daqueles que tem um entendimento radical do princípio da liberdade de expressão. Mas, como já dissemos antes, as instituições democráticas devem cuidar de todos os bens fundamentais abrigados pela Constituição, entre eles, o direito do cidadão de receber informação qualificada e que não seja voltada a atacar os mecanismos de proteção da democracia e à própria democracia. Se as próprias mídias sociais tem suas regras internas, e com certa frequência bloqueiam ou censuram certas postagens, por quê não haveria o STF, que tutela os bens fundamentais da nação, de julgar certas atividades entendidas pelo magistrado como propagadoras do mal, do desentendimento, da ofensa, da calúnia, da difamação, sistematicamente praticados por um grupo de pessoas, que no contexto do inquérito em curso revelam evidências de articulação criminosa e ameaçadora aos bens democráticos, sob financiamento por verbas escusas e ocultas, e com evidências de uso de patrimônio público e verba pública?
Ao incauto e precipitado, junto aos quais observei alguns juristas, jornalistas e ativistas, parece mesmo uma iniciativa de mera censura. Mas não é. Não se trata de limitar a liberdade de expressão de pessoas, mas sim, o de prevenir a continuidade de uma prática já caracterizada no âmbito do inquérito judicial como criminosa contra a democracia e a sociedade. As pessoas envolvidas continuam livres para manifestarem-se individualmente em outros fóruns e eventualmente no palanque público, em entrevistas, textos e todo o tipo de matéria em outras mídias. Seus eventuais partidos, continuam livres para manifestarem-se pelas suas plataformas partidárias oficiais, com nome e assinatura.
Em um curtíssimo espaço de tempo a sociedade vem observando o risco e os danos causados pela má informação alavancada por ferramentas eletrônicas, perfis falsos, robôs e outras transgressões. A catástrofe da pandemia da COVID-19 é um verdadeiro genocídio que entre outras causas tem a atividade desses grupos, capitaneados pelo Presidente da República, que desde o início disseminou mentiras, falsos remédios e desinformação à sociedade sobre os riscos e dimensões da pandemia.
Não há mais tempo para o silêncio. Felizmente, o Min. Alexandre de Moraes falou nos autos. E disse, na minha interpretação: “não se trata de liberdade de opinião, e sim da liberdade para o cometimento de crimes contra a sociedade e a democracia, e esta liberdade não existe.”

Uma vacina, por favor

Ao que tudo indica, até termos uma vacina, nossas vidas vão continuar sendo o inferno do Covid-19. Um vírus que já tem seu nome inscrito na história humana. Um acontecimento que vai determinar muitas referências históricas, como antes de 2020, e depois de 2020.

Eu não passo um dia sequer sem desejar “meus sentimentos” a amigos nas redes sociais que perderam um parente próximo para o vírus. Junte-se a eles os que são anunciados pelas mídias e temos um quadro do tamanho da catástrofe que se abate sobre nós.

O Brasil vai passar a marca dos 100.000 mortos em breve. A falta de gerenciamento da crise pelo governo federal nos aproxima cada vez mais deste número. Infelizmente vamos ultrapassá-lo em muito. Sem diretrizes mínimas nacionais, o vírus vai tomando vidas. Já são quase 750.000 mortos no mundo.

Para os que ficam, as perspectivas de vida também não são nada promissoras. Salvo os ricos que vão ficando mais ricos, a maioria da população sofre os efeitos na economia. Negócios foram a falência, empregos foram perdidos. A economia sucumbe diante dos efeitos das quarentenas e do medo da população em sair de casa, mesmo de máscara.

Setores como o do turismo e da cultura enfrentam a maior crise de sua história. Com as fronteiras fechadas, o turismo se restringe a população interna, onde é permitido. Com as casas de espetáculos e cinemas fechados artistas e toda a estrutura ao seu redor mínguam.

Restaurantes e bares sofrem com as restrições e ordens de fechamento. Mesmo fechados precisam seguir pagando alugueis e impostos. Difícil resistir até poderem reabrir e ter de volta seus cliente. Boa parte estão encerrando suas atividades definitivamente.

Com as engrenagens da economia travadas, o dinheiro não circula. Desta maneira, profissionais liberais também são prejudicados. A população sem salário, vivendo de economias, algumas necessidades precisam ser adiadas. As reservas são finitas e nem todas as despesas podem ser cortadas. A inadimplência bate a porta de muitos lares.

As escolas e universidades particulares vão ter uma enorme evasão de alunos. Parte deles vão para as públicas e outra parte vai abandonar os estudos. O país vai sentir este efeito na próxima geração.

Prestadores de serviço, como as TVs a cabo, por exemplo já veem o número de clientes despencar em milhares. Uma despesa que já não se encaixa quando se entra no modo sobrevivência. Planos de saúde passam pelo mesmo problema. O SUS vai ser a boia salva-vidas.

O número de suicídios é outra consequência de toda esta situação. Um tabu do qual ninguém gosta de falar, e com códigos de ética respeitados pelas mídias, são números  alarmantes que ficam a margem da toda esta tragédia.

As vacinas vão chegar em alguns meses. Não vão ser baratas. As grandes farmacêuticas estão investindo bilhões para chegarem antes ao mercado e vão querer obter lucros. A produção será incapaz de inocular todo mundo. Vai levar anos para se chegar neste patamar.

Quando estiverem disponíveis, quem vai bancar os custos? Os governos vão adquirir e vacinar a população? Quem terá direito? Quem serão os primeiros? Vai se poder comprar para furar a fila? Vamos ter mercado negro de vacinas? Afinal de contas, quanto vai custar uma dose e por quanto tempo ela será válida?

Alguns laboratórios já tem um bom caminho andado e já testam suas vacinas em seres humanos. Provavelmente até o final do ano, o mais tardar no início de 2021, as primeiras vacinas funcionais vão estar disponíveis. A pergunta final é: disponível para quem?

As vacinas vão nos permitir retomar nossas vidas. Mas será preciso destravar a economia, fazer as engrenagens rodarem novamente. Complicado de se fazer algum prognóstico neste sentido. Cada país se encontra em uma situação diferente e o Brasil já estava em uma crise econômica antes da pandemia.

O mundo já passou por problemas maiores do que este e sobrevivemos. As grande guerras são um exemplo disso. Temos capacidade de superação e será preciso muita paciência e perseverança para seguirmos em frente. Não tenho dúvida da nossa capacidade para isso.

Uma grande lição que fica é que nos países onde impera o neoliberalismo, onde se encontram os mais odiados representantes deste sistema perverso, a crise é muito maior. Tomara posam os povos, nestes países, incluindo o Brasil, se libertarem deles junto com o Covid-19.