Samba Perdido – Capítulo 20 – Parte 01

Capítulo 20

 

“E vou cantar entre os cristais azuis do tempo e perceber

A terra longe, longe a se perder.”

Som Imaginário

 

O vestibular, a prova que definiria nosso futuro e o nosso valor para a sociedade, estava esperando na esquina. Esse rito de passagem preocupava até os mais inveterados membros da “esquadrilha da fumaça” do Colégio Andrews. Apesar do nervosismo na escola e em casa e além da obrigação de justificar o dinheiro gasto na nossa educação, nos perguntávamos onde iríamos parar depois que passássemos por aquele portal se passássemos. A sensação era que Molloch, o deus monstruoso do aparato militar industrial capitalista, retratado por Allen Ginsberg no seu genial poema Howl, estaria nos esperando do outro lado, vampiresco e impessoal, escravizador e envenenador de tudo e a todos com seu piche de enquadramento e resignação. 

Era como estivéssemos enjaulados aguardando ser soltos para um futuro de animais de elite adestrados, sangue novo num ciclo de oferecer força vital em troca de mercadorias desnecessárias. Como engolir a máxima arbeit macht frei – o trabalho constrói a liberdade – escrita nos portões de Auschwitz e enraizada no pensamento ocidental, martelada em nossas cabeças por professores, mídia, filmes e, acima de tudo, por nossos pais? 

Embora não fossem, de forma alguma, nazistas, nossos educadores acreditavam que a única maneira de escapar à injustiça inerente ao mundo era trabalhar duro para se tornar uma peça bem remunerada de Molloch. Como nas histórias de vampiros, sabíamos que no momento em que nos tornássemos “um deles”, não haveria volta e reproduziríamos o servilismo de dezenas de gerações passadas. Por mais que nos esforçássemos, o dinheiro ganho jamais compraria nem liberdade nem felicidade. Os únicos que teriam direito a isso seriam os que nem precisariam se esforçar ou se preocupar já que fortunas familiares lhes garantiriam blindagem.

Sem dúvida, num país onde o acesso às universidades era um privilégio de poucos, essas opiniões eram resultado de uma mistura de educação sofisticada com tempo disponível para ler e refletir. Contudo, esta situação confortável propiciava uma distância necessária para discernir claramente a máquina que movia o mundo. Ela estava ali nos esperando, sólida e impassível e mostraria suas garras assim que ingressássemos no mercado de trabalho. Embora o vestibular não fosse a parada final, era o portal para um posto avançado. A vida depois dali viraria séria, em outras palavras estaríamos seriamente ferrados. Isso se passássemos, se não passássemos, a humilhação da ineptitude para servir Molloch seria insuportável.

A versão oficial sobre o que estava do outro lado do portal, era a de um mundo desfrutando a vitória do bem sobre o mal, onde as forças democráticas e socialistas haviam esmagado o nazismo. Nele, a humanidade estava a caminho de um lugar melhor, livre, repleto de avanços tecnológicos que garantiriam prosperidade a todos, a despeito da indevida oposição do comunismo totalitário.

O que tentavam ocultar desse mundo era a locomotiva que o guiava; as grandes corporações. Estas eram as provedoras dos bens e dos serviços que o caracterizavam. Para que a máquina funcionasse a seu jeito, demandavam governos que lhes passassem um cheque em banco. Governos voltados para o bem-estar de todos não interessavam.

A despeito do sucesso econômico durante a reconstrução dos países arrasados pela guerra, teóricos liberais, os sacerdotes de Molloch, se rebelaram. Estes diziam que o estado estava se metendo demais na economia e impedindo que a locomotiva funcionasse direito. Eles se esforçavam – e ainda se esforçam – para provar que os interesses das grandes fortunas e os das populações eram a mesma coisa. Sua lógica de mão única afirmava que sucesso do capital privado era fundamental para o bem-estar da população. O inverso não era verdade; o bem estar “em excesso” da enorme maioria seria nocivo ao bom funcionamento da economia. Baseado nessa premissa, quando havia descontentamento ou quando grandes interesses eram contrariados, a ordem estabelecida, detentora exclusiva do direito à violência, recorria à força. Vista dessa ótica, a democracia liberal era uma ilusão onde todos achavam que tinham escolhido viver em submissão.

Talvez por aprenderem de primeira mão sobre a brutalidade que seus pais e avôs sofreram em duas guerras mundiais na luta pela liberdade e pelos ideais democráticos, talvez por presenciarem diretamente as escolhas decepcionantes feitas pelas lideranças vencedoras na reconstrução de seus países, a geração que se seguiu, a dos babyboomers, viu além da versão oficial. Contando com mais gente cursando ou formada em universidades do que qualquer outra geração anterior, ela carregou o bastão da luta pela democracia verdadeira. 

A luta agora era para prevenir que o triunfo dos aliados levasse no longo prazo a um servilismo sem questionamento, quase voluntário. Apesar do crescimento econômico forte durante a reconstrução, ficou claro onde os frutos mais suculentos iriam parar quando aquele ciclo terminasse: no andar de cima. No fundo, nada tinha mudado. Era preciso desmascarar a farsa e sacudir as estruturas para que um mundo realmente melhor viesse depois da carnificina das guerras. Para essa geração ficou claro que planeta inteiro sofria dos mesmos problemas. O mal ia muito além de ideologias, países ou raças pintados como adversários. O mal estava na maneira como a estrutura tinha sido montada e era gerida e nas manipulações que faziam com que a humanidade aceitasse, sem nenhum questionamento ou resistência, que uma ínfima minoria se impusesse.

Este questionamento se espalhou como fogo pela juventude educada. As possibilidades que eles vislumbravam nas suas preferências para reconstruir o mundo poderiam ser a rota de saída de um legado de guerras, ditaduras, perseguições, fome, genocídio e outras coisas horríveis deixado por múltiplas gerações. 

Na América Latina e em outros países do Terceiro Mundo a situação no pós guerra era mais complicada ainda. O discurso de que o triunfo dos aliados significou uma vitória contra a injustiça e a tirania, encorajou a luta contra o imperialismo, e revoltas populares como a Revolução Cubana. No entanto, ao sul do Equador, a contradição entre o discurso e a prática dos aliados criou vários absurdos onde as elites apoiavam ditaduras em nome do chamado “mundo livre”. 

Naquela nossa mistura de consciência com inocência acreditávamos que ainda era possível pegar a saída para o mundo descrito por John Lennon em sua música Imagine, onde todos viveriam em função do presente, sem fronteiras e sem diferenças. A saída apontando para o vestibular e o que seguiria depois era o portal para um pesadelo.

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O futuro tem vacina

As Fake News já se tornaram uma indústria. Podem ser encomendadas de acordo com a necessidade do cliente. Em breve vamos ter aplicativos que por um valor mensal, o cliente ganha o direito de utilizá-lo criando suas próprias notícias. Provavelmente até templates vão estar disponíveis, o que numa situação curiosa, será possível receber a mesma notícia falsa de campos ideológicos diferentes e em vários idiomas.

Esta semana, o presidente americano retuitou uma mensagem onde  informava que o Bin Laden, morto em maio de 2011, era um dublê e que naquela ação, Obama e Biden teriam escondido a morte de 6 Seals, uma tropa de elite da marinha estadunidense que de fato matou o verdadeiro Bin Laden sem nenhuma baixa.

A notícia é tão bizarra, que até mesmo os canais de mídia favoráveis a Trump se arrepiaram. O presidente, confrontado, disse que apenas retuitou e que cabe as pessoas decidirem se acreditam, ou não.

O papel aceita qualquer coisa, quem nunca escutou isto? Todo dia milhares de currículos são manipulados para terem mais peso. Quem faz isso cria uma informação falsa para maquiar sua vida pregressa. O fazem desde o mais simples dos cidadãos, passando por profissionais renomados chegando a nomeados para assumirem uma cadeira no STF. Seria o caso de as pessoas decidirem se acreditam ou não?

As teorias conspiratórias sempre existiram, não são nenhuma novidade, a Internet deu a elas a visibilidade que antes era restrita a poucos idiotas. Agora todos tem acesso a todo tipo de conspiração secreta, e quanto mais secreta, ou seja, não ser divulgada pela mídia tradicional, mais verdadeira ela se torna. Assim, o homem nunca pisou na Lua, a Terra é Plana, os Judeus dominam o mundo, Soros é dono do Partido Democrata Americano, os Maçons estão por trás de grandes eventos, os Templários existem até hoje e por aí vai.

Eu sou da época em que os primeiros computadores eram do tamanho de um elefante. Lembro da IBM, um símbolo da indústria de computadores que não acreditavam em computadores caseiros. Ken Olson que presidia a Digital Equipment Corp em 1977 dizia então “Não há nenhuma razão para alguém querer um computador em casa”. Ainda bem que alguns jovens usando a garagem de suas casas pensaram diferente.

Com a chegada dos computadores alguém teve a ideia de interligá-los e nascia a Internet. Agora era possível interagir com outras pessoas e receber de graça o que antes era pago: a informação. Quem desejava se manter informado precisava ler os jornais, agora não mais, a informação chegava em tempo real. O que antes era  somente possível pela TV ou pelo rádio, agora se tornava livre.

Junto com os computadores, chegaram os vírus de computador. É impressionante, mas a popularização da computação trouxe consigo uma nova maneira de prejudicar as pessoas. Os vírus de então simplesmente se multiplicavam ocupando todo o HD, acabando por travar a máquina. Era preciso chamar um técnico para “desinfetar” e ter de volta o espaço perdido. As pragas de então se proliferavam através de disquetes infectados que passavam de máquina para máquina. Logo surgiram os antivírus profissionais para ajudar a combater este mal, que se antes eram apenas uma diversão de alguns nerds, se tornou hoje uma indústria de extorsão. As Fake News de hoje são a nova praga da vez.

Tudo vem com preço. A informação, mais do que nunca, se tornou manipulável de acordo com os interesses de quem as divulga. E não se trata de perspectiva, quando um mesmo fato pode ser explicado de maneiras diferentes de acordo com a perspectiva de cada um. Se trata de intencionalmente distorcer, ou mesmo criar do zero, informações que vão se tornar notícias e viralizarem nas redes sociais. Usando inicialmente robôs, logo a seguir os idiotas de sempre, vão se propagando.

E elas são disseminadas até mesmo por presidentes de países como o Brasil e os EUA. Se um presidente está divulgando, deve ser verdade, afinal de contas um presidente é uma pessoa de conduta exemplar. E eles fazem isso quase que de maneira articulada. Desta maneira podemos a mesma notícia falsa de que a “oposição de esquerda” é composta de pedófilos, aqui, nos EUA, em Israel, na Hungria, na Polônia etc. É a universalização criminosa das Fake News vinda do mais alto escalão de cada país.

O custo desta nova indústria é coberto por figuras ligadas a extrema direita. Eles possuem bilhões de dólares a sua disposição e fazem uso deste capital com propósitos muito claros. Difamar,  demonizar a esquerda e abrir caminho para os  neoliberais se acomodarem, tomarem de assalto as grandes empresas nacionais pagando muito menos do que valem. Assim eles vão se “adonando”  do petróleo, da energia, das aposentadorias, da saúde, da educação e da água. O que antes era patrimônio do povo, agora é patrimônio de poucos.

A verdade é que o Covid-19 é uma criação deliberada dos neoliberais para estancarem as economias mundiais reduzindo o valor das empresas governamentais. Com a economia arrasada elas vão sendo adquiridas por valores irrisórios. Eles pagaram milhões de dólares para um laboratório chinês criar o vírus. De quebra, vão ganhar bilhões com a venda das vacinas.

Atenção: este parágrafo acima é uma Notícia Falsa! Mas é assim que eles as criam. Uma boa notícia falsa é composta de um fato verdadeiro, de uma meia verdade e da mensagem mentirosa que se deseja passar.

O Covid-19 está tirando vidas, mas os neoliberais com suas Fake News estão matando o futuro. A vacina é o voto na esquerda!

O apocalipse trumpiano

O que poderia salvar Donald Trump do desastre eleitoral anunciado? Os analistas dos grandes jornais do mundo e universitários “experts” em política norte-americana tentam, nesta reta final, identificar um acontecimento extraordinário capaz de inclinar a balança a favor do presidente. Em vão. A diferença apontada nas mais recentes pesquisas, 12%,  é tal que só mesmo algo inimaginável poderia tirar a vitória de Joe Biden no próximo dia 3.

A situação seria diferente de 4 anos atrás, já que Trump é dado como perdedor no cômputo geral, mas também nos decisivos swing states. Numa eleição “normal”, diríamos que a sorte está lançada e que os democratas voltarão ao poder após os anos mais estranhos da história recente dos Estados Unidos, em que a democracia foi colocada em cheque como nunca e só não soçobrou graças à força das instituições e dos contra-poderes representados pela sociedade civil. Acontece que esta não é uma eleição “normal”.

Estamos diante de um fenômeno com uma carga passional quase patológica. Por isso, um pouco de prudência não faria mal a ninguém. Há 4 anos, sempre é bom lembrar, os analistas diziam que Hillary estava eleita. De qualquer forma, repito, esta não é uma eleição normal.

Como escreve Thomas B. Esdall no New York Times, “Em ambos os campos, muitos encaram estas eleições em termos apocalípticos: elas decidirão do sucesso ou do fracasso dos Estados Unidos. Para a extrema-esquerda, uma vitória de Trump abriria caminho a uma ascensão do fascismo. Para extrema-direita, a vitória de Biden e Kamala Harris significaria a “ascensão do comunismo e a anarquia.”

Na visão do historiador português José Pacheco Pereira, a fratura eleitoral mais aguda nos EUA nessas eleições de 2020 é a que separa os eleitores brancos sem escolaridade de todos os outros. Para os “deploráveis”, há aqui duas perdas: ser branco e já não ter os privilégios de o ser, face aos negros, aos latinos e a todos os “não americanos”; e ser trabalhador manual, não ter um diploma e por isso ser marginal na sociedade, estar fora da elite.

Eles, os brancos sem diploma e raiva de todos os demais, que formam o fiel eleitorado de Trump, são capazes de segui-lo cegamente na pior das aventuras.

Face ao cenário atual, o ocupante da Casa Branca se nega a descartar a opção do péssimo, a tentação de lançar o país no caos. Não é impossível que  na madrugada do dia 4 tenhamos  dois candidatos anunciando a vitória. Até agora Donald Trump agiu como um piromaníaco, recusando-se, ao contrário do seu adversário, a dizer se acatará o resultado das urnas e denunciando uma tentativa democrata de preparar uma enorme fraude eleitoral, através do voto por correspondência. Se perder, não garante uma transição pacífica.

Nesse tempo de pandemia, grande número de americanos prefere votar por correspondência, evitando assim a ida aos colégios eleitorais. A maioria destes, atualmente em quarentena, vota Biden. Por isso, ele imputa ao voto por correspondência a tentativa de fraude.

Uma abstenção recorde seria a derradeira esperança de Trump.

Não se deve descartar uma derradeira jogada de Trump, pois dele pode se esperar tudo, a começar pelo menos recomendável. Em caso de vitória democrata por pequena margem, ele poderá se autoproclamar vencedor, desacreditando a legitimidade da vitória de Biden, do processo eleitoral e da própria democracia americana.

“Se o vencedor não for imediatamente claro, o país mergulhará em semanas ou meses de incerteza”, prevê a revista Time, ao advertir: “Devemos estar preparados para um cenário de caos”.

O jornalista Barton Gellman escreveu um ensaio, publicado no jornal  The Atlantic, em que faz previsões apocalípticas:  “The election that could break América”  – A eleição que pode fraturar a América, em tradução livre.

Donald Trump sabia que para recuperar terreno precisaria evitar que o final da campanha ficasse centrado na pandemia; assim, ficaria de mãos livres para atacar seu adversário no terreno escorregadio das fake news. Mas foi o inverso que aconteceu. Após 215 mil mortos, ficou difícil negar sua responsabilidade na condução da guerra contra o coronavírus. Trump, é claro, não a reconheceu e, assim como seu grande amigo Bolsonaro, tentou jogar o fardo dos mortos sobre os ombros dos governadores. Mas a maioria dos americanos não engoliu a insistente minimização do risco.

Infectado, o candidato à reeleição não pode escapar do assunto e, como quase sempre quando pressionado, cometeu várias gafes monumentais ao encorajar a população: “Não tenham medo da covid.”

Como se o vírus pudesse ser combatido e derrotado pela simples determinação do doente, pela força da vontade. Quis vender a imagem de um herói invencível, passou a impressão de um sujeito desesperado e risível. Ficou refém da pandemia.

A imagem que deixou foi tragicômica. Falando para a sua “base”, Trump subiu à varanda da Casa Branca, num ato político retirou a máscara diante dos apoiadores e imitou a pose de Benito Mussolini com cara de imperador romano e ar de mau. Insensato, prometeu fornecer de graça aos velhos seu remédio milagroso. E para concluir, recusou-se a participar de um segundo debate online: “Não sou contagioso”; disse o charlatão, dando-se ares de especialista em corona.

Foi patético.

 

 

 

Quino Morreu, Viva Mafalda

Uma grande tristeza tomou conta de mim ao acordar nesta quarta-feira, último dia de setembro. Comigo, tendo a acreditar, boa parte da humanidade amanheceu cabisbaixa. Desapareceu um dos maiores gênios dos quadrinhos, um dos humores mais singelos e mordazes dos nossos tempos, ícone do politicamente incorreto: Quino, o criador de Mafalda, a menina que acompanhou minha geração pela vida.

A notícia me lembrou um episódio ocorrido há dois anos na Argentina. Em pleno debate sobre a descriminalização do aborto, sua imagem foi usada, sem a permissão de Quino, pelos fundamentalistas cristãos, atiçados pelas igrejas católica e pentecostais, em campanha contra a despenalização. Cartazes espalhados por Buenos Aires diziam: Mafalda é a favor da vida. Assinado, Quino.

Naquela altura se debatia a legalização da interrupção voluntária da gravidez, aprovada em primeira leitura da Câmara dos Deputados.

A declaração estampada nos outdoors do metrô portenho eram, evidentemente, falsas. Causaram estranheza. Apesar de seus 86 anos, tendo perdido a visão devido a um glaucoma, Quino reagiu illico presto: “Não autorizei o desenho, não reflete minha posição e peço que seja retirado”.

No Twiter e Facebook, Mafalda também se insurgiu: “Sempre e explicitamente defendi os direitos das mulheres”.

Procurado pelo El Pais, Diego Lavado, sobrinho e olhos de Quino, comentou que o desenhista sempre foi feminista, aliás o primeiro feminista que conheceu. Diego recebeu dele um comunicado, desejando sucesso às defensoras da descriminalização do aborto.

Na época, a Argentina só autorizava a interrupção da gravidez em casos excepcionais, como a violação e o risco de vida para a mulher – e, mesmo nestas circunstâncias, a interrupção da gravidez só podia ser feita depois da autorização de um juiz. Exatamente como em outros países da América Latina.

Mafalda, obviamente, não podia ser contra este direito fundamental das mulheres. Não era, não foi, nem nunca será. Por isso, junto com seu criador, festejou a legalização do aborto.

Ambos, certamente, teriam chorado de tristeza, dias atrás, ao olhar para cima do mapa da América Latina e constatar o que constatamos em terras fascistas: um governo pressionando uma criança estuprada a ir ao fim da gravidez, inclusive através de ameaças psicológicas e físicas.

Esta terra tem nome, que me envergonha pronunciar: Brasil.

Tirados os 40% que consideram o governo Bolsonaro bom ou ótimo,  os brasileiros que conservam um pingo de humanidade ficaram – espero -estarrecidos com a confirmação de que a pastora-ministra Damares, da pasta ironicamente denominada da Mulher, Família e Direitos Humanos, comandou a violenta campanha para impedir que uma criança de 10 anos abortasse após ter engravidado, vítima de estupros repetidos praticados pelo tio durante quatro anos. Não que  Damares Alves merecesse o benefício da dúvida já que, num primeiro momento, mentiu e afirmou sua inocência, mas pela enormidade da maldade e desfaçatez.

Fiel entre os fiéis de Bolsonaro, ela enviou seus conselheiros para tentar dissuadir a menina de praticar um aborto legal, ou melhor dizendo, tentou impedí-la, mesmo sabendo que ela corria risco de vida.

O aborto é permitido no Brasil em três casos: gravidez decorrente de estupro, casos de risco à vida da mulher e fetos anencefálicos.

A pressão, coordenada pela pseudo pastora, tinha como objetivo transferir a criança de São Mateus (ES), onde vivia, para um hospital em Jacareí (SP), onde aguardaria a evolução da gestação e o nascimento do bebê. Sob o argumento de que se tratava de uma instituição de referência no atendimento de gravidez de risco, o Hospital São Francisco de Assis, de Jacareí, assumiria os cuidados médicos da menina, fazendo seu pré-natal até que ela estivesse pronta para o parto. Não por coincidência nem acaso, o hospital é parceiro da Igreja Quadrangular, cristã evangélica pentecostal de origem americana, que teve como expoente no Brasil o pastor Henrique Alves Sobrinho, pai de Damares.

Os representantes da ministra – Alinne Duarte de Andrade Santana, coordenadora geral de proteção à criança e ao adolescente da Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, Wendel Benevides Matos, coordenador geral da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, mais dois assessores e o deputado estadual Lorenzo Pazolini (Republicanos) – foram encarregados da execução da transferência (a palavra mais correta seria sequestro). De quebra, vazaram o nome da criança para Sara Giromini, aliás Sara Winter, a quem Damares chamou no passado de “minha filha”. Winter foi treinada nos campos militares neonazistas do grupo Azov, na Ucrânia, com o objetivo de fomentar atos terroristas no Brasil.

Damares e seus asseclas atentaram contra o Estatuto da Criança e do Adolescente e transformaram a família em alvo de ameaças. Após inúmeras agressões, a menina e a avó  entraram para o programa de proteção à testemunha e foram obrigadas a deixar a casa em que moravam.

Mas nada disso parece importar nesta terra arrasada em que se transformaram os direitos humanos no Brasil, com os procuradores a mando do Planalto preferindo investigar o médico encarregado do aborto à ministra criminosa de Jesus na goiabeira.

Damares, Bolsonaros e seus adoradores de bezerros de ouro aproveitam a ocasião para mais uma investida destinada a intimidar as mulheres decididas a interromper a gravidez.

O Ministério da Saúde, ocupado por um general que nunca fez um curativo sequer, publicou no último dia dia 28 uma portaria com novas regras para atendimento ao aborto legal. O texto obriga os médicos a avisarem a polícia quando atenderem pacientes que peçam para interromper uma gestação em razão de estupro. Assim, aborto vira caso de polícia…

As equipes de saúde também deverão informar à mulher a possibilidade de ver o feto em ultrassonografia, numa clara manobra para demovê-la da decisão de abortar. Enfim, o texto determina que as pacientes devem assinar um termo de consentimento, onde consta uma lista de possíveis complicações na intervenção. Uma forma ignóbil de jogar em cima da mulher violentada a responsabilidade de um eventual erro médico que a levaria à morte.

Se não tivessem perdido seus pais, agora Mafalda estaria questionando a sociopatia bolsonarista, enquanto o Fradinho do Henfil daria boas e sarcásticas gargalhadas: Fodi o Brasil; rs, rs, rs, rs, rs

Solução felina

Invejo minhas duas gatas, Ruby e Getty. Elas não sabem, nem precisam saber, o que é aquecimento global ou hecatombe ecológica, quem são o Trump e o Bolsonaro, não fazem parte de redes sociais, sempre viveram em isolamento e vão continuar a ter a sua comidinha não importa o que aconteça.

Infelizmente pertenço à raça humana e faço parte de uma mega estrutura de produção e de consumo da qual não consigo escapar. Preciso pagar contas, preciso comprar comida, preciso trabalhar e não tenho o luxo que elas têm. 

Junto com todos os que carregam esse fardo, sei que estamos vivendo momentos extremamente inquietantes. Não dá para fugir. Não importa qual a corrente de pensamento, qual a religião, cor, nacionalidade ou mesmo classe social, estamos todos envolvidos. A desigualdade econômica explodiu e continua aumentando, os ecossistemas estão à beira do colapso, existe uma crise econômica seríssima, as novas tecnologias vão precisar cada vez menos da presença humana, uma pandemia nos pegou de surpresa e outras podem vir na sequência. 

O mais perigoso nisso tudo é que nossas lideranças, tanto regionais quanto mundiais, não estão à altura desses desafios cruciais. Muito pelo contrário, salvo raríssimas exceções, são negacionistas ou minimizadoras. Muitos tentam vender uma falsa promessa de conforto através de ficções baseadas em preconceitos, chavões e obscurantismos que visam manter um status quo insustentável. Mesmo lideranças nas oposições – novamente, salvo raras exceções – têm como prioridade vencer disputas eleitorais, algo natural em situações menos emergenciais mas que estão longe de resolver o gravíssimo quadro atual. Quando lideranças mais conscientes aparecem, os que se veem ameaçados, conseguem mantê-las longe da atenção do público para que o circo continue.

Tudo isso faz com que não haja nem estrutura, nem instituições, nem encorajamento, nem respostas, nem priorização para resolver os graves problemas postos na nossa frente. Para piorar as coisas, no geral, há pouquíssimo conhecimento da seriedade da situação. Há muita recusa em encarar a realidade. O que mais vemos são ansiedades em substituí-la por fantasias, sejam elas religiosas, ideológicas, étnicas ou nacionalistas. 

Os paralelos com o que aconteceu na época do nazi fascismo são inevitáveis. Quando sistemas econômicos e políticos aos quais somos umbilicalmente ligados colapsam, as grandes ideias e os líderes messiânicos entram em cena. Nosso reflexo de rebanho, aprendido em escolas, religiões, quartéis, culturas tradicionais e até em nossos lares nos impele a procurar alguém ou algo acima de nós que nos salve, seja como indivíduos ou seja como coletividade. 

Essa é uma hora muito perigosa, pois nos colocamos a mercê de indivíduos, de idéias, de projetos ou de organizações que se apresentam como resposta. A fachada visível e a realidade do seu funcionamento raramente coincidem. É nessa hora que nossa individualidade, nossa liberdade, nossa unicidade, nosso bom senso e o nosso futuro correm o maior perigo. É nessa hora que grandes erros são cometidos pois atribuímos poderes imaginários a seres humanos falíveis e muitas vezes predatórios. Esses erros, quando tomam vida própria, têm consequências imprevisíveis e frequentemente nefastas. 

O propósito dessas palavras não é apresentar soluções milagrosas nem se colocar a favor ou contra personalidades em destaque. O propósito é dizer que indivíduos supra humanos e soluções milagrosas simplesmente não existem. O propósito aqui é dizer que precisamos de instituições fortes, baseadas na racionalidade e voltadas para o bem comum. Precisamos muito mais de políticas do que de políticos. 

Políticos são, ou pelo menos deveriam ser, nossos representantes quando decisões importantes têm de ser tomadas. As instituições onde operam são, ou deveriam ser, as que nós os oferecemos para que trabalhem para a gente. Precisamos, por isso, de comunidades e indivíduos fortes que lutem para que seus interesses sejam atendidos e que escolham bem seus representantes.

Não é à toa que o maior alvo do neo-fascismo seja a democracia. 

Nesses tempos de crise precisamos apenas e sobre tudo que os problemas imensos que enfrentamos sejam resolvidos da melhor maneira possível e no interesse de todos. Não serão salvadores da pátria paternalistas que farão isto por nós. Ao contrário, temos que nos empoderar e nos engajar, onde e como pudermos, para reverter uma situação que está saindo fora de controle. Somos nós que temos que estar a altura dos desafios impostos. Não podemos deixar as coisas nas mãos de outros, sejam eles companhias, líderes religiosos ou políticos e esperar que eles tragam uma solução. 

Devemos escolher gente que nos represente em instituições que controlamos. Porém, dar carta branca a forças hierárquicas que nos veem como peões na esperança que elas resolvam por nós, jamais. Quem tem que ter poder sobre nossas vidas somos nós. 

Voltando às minhas gatas que não entendem nada de política ou de economia e que resolvem suas questões com miados; elas têm mais ciência e controle do mundo em que vivem do que eu do meu. Para elas sou um ser que navega alienado pelo mundo. Que inveja! 

 

O brasileiro fascista de esquerda

Fazem muitos anos que quando eu digo que sou israelense, o céu desaba sobre a minha cabeça. Invariavelmente as pessoas me acusam de racista, imperialista, de oprimir o povo palestino, assassino, nazista etc. É o preço a ser pago por quem vive sob um regime de extrema direita.

Isto já está acontecendo agora também com quem é brasileiro. Ao sermos identificados como tal, nos chamam de fascistas, de destruidores das florestas, de assassinos dos povos indígenas, de preconceituosos, misóginos etc. É o  preço a ser pago por quem vive sob o regime de Bolsonaro.

Eu tento argumentar que nem todo israelense é de direita. Que a maioria de nós é a favor da solução de dois estados para dois povos. Que eu, pessoalmente apoio esta solução há mais de 50 anos. Que milito nos movimentos pacifistas e sou contra o atual governo israelense.

Se isto me acontecia como israelense, agora já me acontece também como brasileiro e vai acontecer com vocês. Preparem-se para enfrentar o fogo amigo e terem de explicar que nem todo brasileiro votou em Bolsonaro. Que você é de esquerda e condena as queimadas, a destruição das florestas, o genocídio dos povos indígenas, que apoia as minorias e luta contra preconceitos, e que é contra o atual governo brasileiro.

O ser humano tende a ser generalista. Se Trump é um fascista, todo americano é fascista, seja ele um Chomsky ou um Beni Sanders. Temos uma tendência a simplificar as coisas e assim acabamos cometendo, de uma certa forma, o mesmo tipo de preconceito que tanto combatemos.

Assim como nem todo alemão foi um nazista, nem todo israelense ou brasileiro é um fascista. É bom que se diga que tanto em Israel, como no Brasil, os fascistas não representam a maioria do povo.

Mesmo que possamos pensar racionalmente e compreender o óbvio, não é isto o que acontece muitas vezes dentro das nossas próprias fileiras. Eu combato o antissemitismo na esquerda desde os meus 15 anos. Um antissemitismo muitas vezes disfarçado de antissionismo, mas que no fundo tem as mesmas raízes do antissemitismo da direita. Ambos acusam os judeus de quererem dominar o mundo e trazem como prova o apócrifo Protocolos dos Sábios do Sião.

Claro que acusar o atual governo de Israel de fascista é legítimo, assim como o atual governo brasileiro. Condenar as políticas de Bibi em relação aos palestinos, e de Bolsonaro em relação ao meio ambiente, é uma obrigação de quem é progressista. O deve ficar claro, é que estamos na mesma trincheira, do mesmo lado da história. Eu sou antifascista sempre.

Se algo de bom puder ser dito do governo Bolsonaro no futuro, é de que graças a ele a esquerda possa ter aprendido algumas lições. Uma elas é a de saber separar o joio do trigo em cada país. Mesmo naqueles governados por regimes de extrema direita, existem companheiros combatendo com todas as suas forças contra o regime. Estes merecem nosso apoio e nossa solidariedade, somos irmãos da mesma luta por um mundo melhor.

Basta de fogo amigo, chegou o momento de compartilharmos experiências de cada país. De aprender com nossos erros e nossos sucessos. A luta é a mesma, as batalhas são por um mesmo objetivo, derrubar o fascismo onde ele estiver.

Temos um logo caminho comum a ser percorrido. A pandemia, por exemplo, não escolhe lado, mas as políticas de como ser combatida, sim é uma questão política. Priorizar o ser humano, a vida é imperativo. Proteger os menos favorecidos, os mais atingidos pelo vírus é uma opção ideológica. Isto nos une a todos que estamos do mesmo lado e não soltamos a mão de ninguém.