por Mauro Nadvorny | 15 jul, 2020 | Brasil, Crônica, Justiça, Mundo, Opinião, Política
Em meados do primeiro trimestre deste ano, viu-se de forma quase aturdida as ações de desprezo por parte do presidente e seus apoiadores pela vida dos brasileiros. Ao examinar jornais e fotos daquele mês, é possível detectar as ações das pessoas que participaram das passeatas no dia 15 de março. Postadas em redes sociais e em grupos de mídia de ampla abrangência, muitos desses atualmente investigados na CPI das Fake News, prestavam apoio incondicional ao seu líder. Saudosos à ditadura e a um militarismo a la república de bananas, bem como a pauta presente à época, e ainda hoje: a aclamação (in)popular pelo fechamento do Congresso e Supremo Tribunal Federal, viram suas ações desmoronar, até certo ponto.
Com o bloqueio e a extinção de vários sites que saíram de circulação, e também pelas imposições causadas pela pandemia, além da prisão de uma representante do grupo “300”, o qual raramente contou com mais de 20 pessoas, essas ações ficaram um tanto quanto adormecidas. Com isso, parece que paira uma certa latência no ar. Estariam os bolsonaristas fazendo um espécie de download existencial? Talvez. É possível que exista relação com o contundente envolvimento em corrupção pelos filhos do presidente, ou ainda, pela própria inoperância e incompetência com que o executivo tem lidado com a administração pública, ou mesmo pelo fato de que se vive a maior pandemia do século sem um ministro da saúde. As razões são infinitas.
O grande número de apoiadores surpreende. E com tudo que têm enfrentado os brasileiros, nestes 18 meses de governo, qualquer um questionaria se há algum traço que identifique tais pessoas (latentes) como anormais. No entanto, não há! Possivelmente, se fala em sujeitos que levam uma vida como a de qualquer outro ser humano que trabalha, estuda, cuida dos filhos, vai à feira, ao supermercado. Devem ser considerados cidadãos de bem. Pergunta-se, porém, o leitor, por qual razão empenham-se em uma cruzada rumo às trevas? Sem qualquer relação direta com o Estado Democrático de Direito?
Ao contrário, é observado um certo fervor em exaltar os anos de chumbo vividos neste país, bem como as múltiplas ações arbitrárias que vão de encontro à própria democracia e às liberdades individuais. Nem nos tempos da ditadura houve tantos militares em cargos políticos. Apontar que esses apoidores são contra a corrupção é uma forma rasa e simplista de tratar o assunto, visto que todos são contra a corrupção. O que gera aqui uma questão pragmática, pois ao falar em corrupção, é preciso dizer de quem, ou como, ou ainda, quando? Fala-se até em perdoar o PT, como se houvesse algo do tipo: “eu sei o que vocês fizeram no verão passado”, mas segue-se a máxima de que não há nada tão ruim que não possa piorar. No campo da educação, a exemplo das trocas com diversos ministros, bem como seus respectivos perfis “técnicos”, essa máxima é levada a níveis consideravelmente altos.
Esses mesmos cidadãos levantam a bandeira do que consideram política e o dito “politicamente correto”, no entanto, estão há anos-luz do pensamento crítico, o qual realmente leva as pessoas a pensarem de forma política, dentro de um contexto sócio-histórico e cultural. Isso, no Brasil, virou coisa de comunista. E é facilmente evidenciado quando empregam frases de efeito e sugestões de tomada do poder pela força, utilizando-se dos símbolos nacionais, para com isso, fortalecer uma ideia suprema de governo, de povo. Estão de fato não só fazendo apologia ao pensamento obscurantista, como à própria ignorância política, característica de quem vê em formas democráticas de poder, um problema a ser vencido. A esses, se lhes fosse dado o direito de escolher, não seriam brasileiros, mas Americanos, Canadenses, Alemães.
Obviamente que esses mesmos sujeitos encontram respaldo em manifestações de caráter neofascista, distorcendo informações e conhecimento, conforme suas orientações ideológicas e até religiosas. Atualmente o que se vê é uma onda negacionista, em parte alimentada por outra esfera altamente ideológica do governo, a ala evangélica. Fica nítido que a necessidade de se fazer presente, mesmo em um momento de pandemia, coloca a figura política (do presidente) e seus apoiadores, ainda com todos os riscos à saúde pública, e infringindo a própria constituição, em uma espécie de simbiose histérica.
Lembra inclusive o líder religioso Jim Jones, que motivado por questões religiosas, e uma loucura coletiva, levou 909 pessoas a cometerem suicídio. Aqui, os apoiadores agem como suicidas, mas também como assassinos indiretos. Uma pesquisa liderada pela FGV apontou que o comportamento do presidente está ligado a pelo menos 10% das mortes decorrentes de Corona Vírus no Brasil, que hoje conta com mais de 75 mil mortos, ocupando o segundo lugar em mortalidade, atrás apenas dos EUA. Isso corresponderia a mais de 7 mil mortes diretas. A pergunta que fica é: quanto ainda o Brasil caminhará para trás e pagará com vidas, por conta de um irresponsável e seus fanáticos seguidores, que têm causado um verdadeiro genocídio em nome de uma obsessão política inoperante?
por Mauro Nadvorny | 26 jun, 2020 | Comportamento, Opinião
Olavo de Carvalho, o guru da chamada “ala ideológica” do bolsonarismo é antissemita?
A pergunta não tem razão de ser, tão evidente é a resposta: SIM. Poucas pessoas foram a tal ponto explícitas no ódio aos judeus.
Num livro de 2012, intitulado “Os EUA e a nova ordem mundial”, uma compilação de um debate entre ele e o escritor neofascista russo Aleksander Dugin, Olavo de Carvalho denuncia uma organização judaico-globalista ( que ele denonima Consórcio) composta por “grandes capitalistas e banqueiros internacionais, empenhados em instaurar uma ditadura mundial socialista”.
A discriminação aos judeus vem no meio de um pacote de teorias da conspiração, num emaranhado paranoico que vai do terraplanismo ao marxismo cultural, passando pela Pepsi Cola, que usaria células de fetos para fabricar adoçantes.
Ao responder a uma provocação de Dugin sobre a presença de judeus no fantasioso Consórcio, Olavo afirma:
1) A presença de banqueiros judeus nos altos círculos do Consórcio;
2) A de militantes judeus na elite revolucionária que instaurou o bolchevismo na Rússia.
Para Olavo, é óbvio e patente que esses dois grupos de judeus – banqueiros e militantes comunistas – colaboraram entre si para a “desgraça do mundo”. Eles continuaram colaborando até na época em que Stálin desencadeou a perseguição geral aos judeus e a KGB começou a devolver a Hitler os refugiados judeus que vinham da Alemanha. A colaboração duraria até hoje.
3) O barão Rothschild é dono do Le Monde, o jornal mais esquerdista e anti-israelense da grande mídia européia, assim como a família judia Sulzberger é dona do diário americano que mais mente contra Israel. Enquanto George Soros, judeu que ajudou os nazistas a tomar as propriedades de outros judeus, financia tudo quanto é movimento anti-americano e anti-israelense do mundo.
Nessas quinze linhas, o guru da Virginia acumula fake news. Ele confunde o jornal Le Monde com Libération, que em 2005 teve capital da família Rotschild. Além do que Le Monde não é nem nunca foi um jornal esquerdista. Quanto a Soros, ele foi perseguido pelos nazistas durante a Segunda Guerra e ao final do conflito tinha apenas 15 anos de idade. Por pouco o pequeno George não foi enviado para os campos de extermínio.
Portanto, as acusações de Olavo de Carvalho aos judeus não passam de mentiras antissemitas tiradas dos “Protocolos dos Sábios de Sião”, dentre as quais a mais antiga e disseminada – a de que fazem parte de uma conspiração para dominar o mundo, controlando a economia e a mídia.
Quanto à relação entre os judeus e o bolchevismo revolucionário russo, só mesmo o antissemitismo explica. Afirmar que “militantes judeus” estavam por trás da revolução que instaurou o comunismo na Rússia em 1917 remonta a uma mentira utilizada pela propaganda do partido nazista para instigar o ódio contra seus dois principais inimigos: judeus e comunistas.
Se é verdade que alguns revolucionários russos, como Leon Trotsky e Grigorii Zinoviev, eram de fato judeus, a imensa maioria tinha origem cristã.
No mesmo texto, Olavo deixa ainda mais claro o seu preconceito: “Alguns judeus merecem proteção; enquanto outros, falsos e impuros, devem ser demonizados. Quando se trata desses, eu abraço o antissemitismo.
Dos textos antisemitas de Olavo, talvez o mais surpreendente tenha sido sua comparação entre judeus e nazistas.
Num artigo de 1995, publicado no livro “O imbecil coletivo”, ele critica Jeff Lesser, brasilianista que acabara de publicar uma pesquisa sobre o antissemitismo durante o Estado Novo:
“Ou aderem ao modernismo ateu, ou, quando se apegam à religião, é para rebaixá-la a um fundamentalismo rancoroso, fanático e assassino. Quanto a esta última alternativa, cabe lembrar: ninguém neste mundo está imunizado por garantia divina contra a contaminação de uma mentalidade nazifascista, muito menos aqueles que ontem foram vítimas dela. O homem perseguido, seviciado e traumatizado tende, por uma compulsão inconsciente quase irresistível, a incorporar os traços do seu perseguidor, disfarçando-os sob um discurso contrário.
Olavo de Carvalho foi ainda mais explícito numa crônica publicada em O Globo, em 1997:
“Entre o fim da 1° Guerra e a ascensão de Hitler, ninguém foi mais excluído e discriminado que os alemães — e vejam só a porcaria que depois eles fizeram a pretexto de enderechar entuertos. Os judeus copiam na Palestina a meleca germânica, e os pretos já começam a bater no peito com demonstrações ostensivas de orgulho racial, nostálgicos talvez do tempo em que, faraós no Egito, desciam o chicote no lombo semita.”
E dizer que ainda há judeus bolsonaristas …
por Mauro Nadvorny | 25 jun, 2020 | Brasil, Comportamento, Opinião, Política
Respeito quem acha que somos 70%, os que se opõe a Bolsonaro. Aí incluídos os que resistem desde antes da sua eleição e os que se arrependeram de ter votado nele. Entendo a posição de vocês de que devemos nos unir com aqueles que foram responsáveis por esta tragédia em nome do bem maior. Mas, me desculpem, eu estou fora.
Nestes dias, mais uma expoente da intelectualidade brasileira, a escritora Lya Luft, deu uma entrevista contando seu arrependimento em ter votado em Bolsonaro. Mais uma do grupo de arrependidos que deveria ser cumprimentada por se somar aos 70%. Eu postei na hora: “Não sei o que me causa mais asco, se a Lya Luft dizendo que votou no Bozo, ou explicando que se arrependeu.”
Eu posso compreender as razões que levaram a massa de manobra a votar em Bolsonaro. Entendo todas a tiazinhas do WhatsApp que tiveram certeza da existência do Kit Gay e da Mamadeira de Piroca. A falta de conhecimento, de bom senso, de estudo, de cultura, de condições financeiras, enfim, todos os componentes que levam algumas pessoas a acreditarem no que os amigos acreditam.
O que eu nunca vou aceitar é o grupo que ela representa ter votado nele. Os esclarecidos, os que estudaram, os que leram, os cultos, os de boas condições financeiras, os capazes de discernir entre o bem e o mal. Estes não merecem o meu perdão.
Se engana quem pensa que os Nazistas chegaram ao poder apoiados somente pela classe baixa alemã. Quem levou Hitler ao poder foram os intelectuais, os cultos, os letrados alemães que votaram nele e aproveitaram para lucrar com os despojos dos judeus.
Lya Luft representa a classe alta, branca, cristã, escritora, intelectual e boa mãe de família. Uma racista, homofóbica, misógena que apoiou um Fascista que enaltece torturadores. Como perdoar uma criatura destas? Existe algum perdão que faça com que ela se transforme em uma pessoa normal, humanista que respeite o próximo? Que mágica seria esta? Isso é pura fantasia. Ela é o que é, e a esta altura da vida, nunca vai mudar.
Ela é da mesma classe de alemães que sabiam o que estavam fazendo. Bolsonaro nunca escondeu o que era. Seu apoio aos torturadores e assassinos da ditadura eram repetidos a cada entrevista sua. Seu desprezo pelas minorias era sua marca registrada. Ela sabia disso e ainda assim escolheu votar nele a um professor. Que fosse em Amoedo, mas não no fascista. Que fosse em branco, mas nunca em um genocida.
Não tem perdão! Eu não perdoo, como não perdoo os nazistas. Ela tem o meu total desprezo por sua contribuição para levar uma família miliciana ao poder. Uma família que assiste as mortes diárias de brasileiros, vítimas do Covid-19, sem nenhuma comoção. Mais de mil mortes ao dia e o eleito por ela é incapaz de uma demostração de empatia e de ações de combate a pandemia.
Ela e os Lobões arrependidos, que aceitem o que são, será melhor assim. Vocês podem dizer agora que se arrependeram, mas o resultado é o mesmo. O mal que vocês causaram ainda está aí e nada do que vocês disserem vai mudar isso. O Brasil não precisa de vocês.
Eu consigo me imaginar perdoando as massas de manobra. Aqueles que não tiveram capacidade de compreender o que estava acontecendo e, principalmente, as consequências de eleger Bolsonaro. Estes, na minha opinião, são os que vão ajudar a derrotar o fascismo, não a elite brasileira do Zé Carioca da Havan.
Desde já deixo claro que nada contra os companheiros da resistência que pensam diferente. Apenas o meu pedido de que aceitem a minha maneira de pensar e sigamos na luta.
por Mauro Nadvorny | 24 jun, 2020 | Brasil, Comportamento, Opinião, Política
O arrependimento público e publicado da escritora Lya Luft na “cuestão” de seu voto em 2018, que foi um dos votos que entre outros votos e outras omissões nos trouxe a esta quadra. “Não havia outras opções, e deu no que deu”, é a síntese de seus argumentos.
A publicação reacendeu com gasolina o debate sobre a outra questão, a dos arrependidos e a dos movimentos pró-democracia que se aglutinam no momento em torno de diversas figuras do mundo político às quais o ex-presidente Lula recusa-se (corretamente, ao meu ver) a aderir.
Importantes pensadores aos quais dedico a devida vênia classificam como prioritário o foco no combate ao fascismo e a este governo como forma de derrubá-lo e abrir o caminho para um mínimo retorno à ordem institucional democrática.
Outros, chegam a fazer uma crítica à visão moralista que setores da esquerda aplicam ao grupo dos arrependidos.
Mas, ao meu olhar clínico, temos um problema de diagnóstico diferencial. Por que o problema não é o governo atual. Insisto que a situação atual é uma resultante de múltiplos vetores que não obstante suas diferenças de orientação e intensidade tem algumas origens e destinos comuns: o antipetismo radical, o antiesquerdismo, o anticomunismo, o lavajatismo, a “venezualização” do debate político, a fobia propagada e contagiosa do tal “Foro de São Paulo”, o terraplanismo, o olavismo, e enfim, todo o extenso cardápio da direita fascista e ignorante que sufocou a sociedade com desinformação, mentiras, delírios e alucinações.
Assim, um arrependimento que não passe pelo reconhecimento de uma ignorância vultosa sobre a realidade brasileira (e global) e que não passe por um processo de extensa revisão dos mecanismos de avaliação da realidade não conduzirá o arrependido a um novo ponto de vista do qual consiga vislumbrar com mínima clareza que as melhores verdades para o nosso país passam por um amplo espectro de abordagens, objetivos e meios. Por que a primeira coisa que esta pretensa coalizão democrática que pretende aglutinar FHC, Huck, Sérgio Moro, Dória, entre outros fará, é jogar a parte “esquerda” do pacto ao mar, na primeira oportunidade, e trabalhará arduamente para reagrupar o pacto da direita em torno do projeto neoliberal que não saiu da pauta.
Como sempre digo (e é o que deu título ao meu primeiro livro publicado), o meu diagnóstico segue as doutrinas clínicas, e o diagnóstico etiológico é fundamental para o tratamento e eventual cura para qualquer doença. A etiologia do processo que levou Bolsonaro ao poder continua bem viva como a bola na marca do pênalti. A parte que não deu certo no grande golpe e sua continuidade foi apenas o surfista da onda, que como tudo no nosso capitalismo, é descartável.
Até prova em contrário, robusta e incontestável, os arrependidos não são confiáveis. Eles apenas admitem que Bolsonaro foi um erro. E nada mais. E Bolsonaro é apenas um acidente de trajeto. É mais do que certo, a não se mobilizarem em um grande esforço intelectual, que também, na primeira oportunidade, arrumarão outro diabo que os carregue.
por Mauro Nadvorny | 20 jun, 2020 | Brasil, Opinião, Política
Flávio Bolsonaro está em apuros, isso é inegável. Ele sabe que o cerco está se fechando e acha que seus problemas se devem a eleição de seu pai para presidente. Em postagem recente no Twitter afirmou “ Encaro com tranquilidade os acontecimentos de hoje (se referindo a prisão de Fabrício Queiroz). A verdade prevalecerá! Mais uma peça foi movimentada no tabuleiro para atacar Bolsonaro. Em 16 anos como deputado no Rio nunca houve uma vírgula contra mim. Bastou o Presidente Bolsonaro se eleger para mudar tudo! O jogo é bruto!”
Antes de comentar sobre isso, gostaria de mostrar alguns dados sobre a Alerj. Até janeiro de 2019 o número de cargos vinculados aos gabinetes dos deputados era de 20 vagas que podiam ser desmembradas em até 63 postos de trabalho. Agora o desmembramento poderá chegar a “apenas” 40 vagas.
O fenômeno da “rachadinha” é um velho conhecido da política brasileira. Basicamente consiste na divisão do salário do assessor com o parlamentar que o contratou. Ela é considerada comum em outras casas legislativas, tais como Câmaras de Vereadores, Assembléias Legislativas e até no Congresso Nacional, e resultou em várias denúncias contra parlamentares no Supremo Tribunal Federal (STF) por configurar crime de peculato.
Esses crimes são de difícil apuração, porque geralmente envolvem saques de baixas quantias em dinheiro, com o objetivo de não alertar os órgãos de controle, e pagamentos em dinheiro vivo. Os órgãos de investigação conseguem avançar nas suspeitas quando algum ex-funcionário decide contar o que sabe, o que raramente acontece. Na maioria das vezes o benefício é mútuo.
Na Alerj o salário de um assessor parlamentar parte de uma salário mínimo e com os acréscimos de todos os penduricalhos permitidos legalmente, pode chagar a mais de R$ 20.000,00. Como se pode ver, a “rachadinha” aumenta o rendimento do parlamentar em muito. Normalmente este retorno acontece em dinheiro vivo e paga as contas do parlamentar e de seus familiares. Como as movimentações acontecem com baixos valores, não chamam atenção. Assim, ele foi flagrado fazendo 48 depósitos de R$ 2.000,00 em um Caixa Eletrônico.
Por exemplo, posso citar a Assessora Parlamentar Aparecida Santos Dias Braga que recebe R$ 21.724,50 reais líquidos. A fonte é a Folha de Pagamentos de Abril 2020, disponibilizada no Portal da Transparência.
Com este artifício, Flávio Bolsonaro conviveu por 16 anos na Alerj, tendo como seu principal assessor Fabrício Queiroz, que se encarregava de receber a “rachadinha” dos funcionários e administrar o “fundo de reserva” do patrão.
Fabrício Queiroz pode ser a bola da vez, mas é preciso deixar claro que existem inúmeros casos iguais acontecendo todo final de mês por todo o Brasil. A maioria das “rachadinhas” acontece com pessoas amigas ou conhecidas que recebem este dinheiro como um bônus a mais em suas vidas. Na realidade, sequer batem ponto no gabinete do parlamentar. Não há do que reclamar.
Flávio Bolsonaro vai fazer o possível para atribuir a investigação sobre ele a perseguição jurídica e política que seu pai está sofrendo. O choro é livre. De fato, caso sua família tivesse permanecido na sua insignificância e mediocridade política, nada disso estaria acontecendo. No entanto a ganância falou mais alto, e eles vão pagar caro por isso. Não, ele não está tranquilo e se a verdade vier a tona, vai estar acabado.
Se Queiroz abrir o bico e disser tudo o que sabe, Flávio Bolsonaro pode estar com seus dias contados como Senador, provavelmente abrindo também o caminho para o Impeachment de seu pai. As relações criminosas da família podem vir a tona através de seu mais fiel funcionário.
O jogo é bruto!
por Mauro Nadvorny | 16 jun, 2020 | Brasil, Opinião, Política
Ainda há aqueles que, como o presidente do PSDB (outrora um partido respeitável) defenda o diálogo com o capitão, em nome da concórdia. Como se isso fosse possível. Conversar seriamente com Bolsonaro é o mesmo que negociar com o Estado Islâmico, como havia proposto Dilma Rousseff, na tribuna da ONU.
O presidente é a encarnação do mal, pelo que faz, pelo que não faz, pelo que diz, pelo que silencia.
O papel do presidente da República não é apenas propor reformas através da lei. Longe disso.
Todos os líderes populistas atuais, de Trump a Bolsonaro, passando por Modi, Orban, Salvini, Le Pen, não se comunicam pelas regras clássicas. Ignoram os canais tradicionais para se dirigir diretamente ao povo, ou melhor ao seu eleitorado, sobretudo através das redes sociais. E pior, dizem tudo o que lhes vêm à cabeça. E temos aí um problema seríssimo. Por que? esqueçamos por um minuto Bolsonaro. Falemos de Trump. O presidente dos USA, tempos atrás, lançou uma ideia que lhe veio à cabeça no meio de uma coletiva de imprensa: injetar desinfetante no corpo para limpar os pulmões do coronavírus. Dois dias depois, vendo que a loucura que disse afetava a sua campanha eleitoral, voltou à público dizer que se tratava de “sarcasmo”. Pois bem, nesse meio tempo, muitos americanos, acreditando no presidente, tomaram desinfetante; houve muitas internações em hospitais (que já estavam abarrotados) para salvar os seguidores cegos de Trump.
Isso mostra o grau de responsabilidade que tem um presidente da República. Ele não é um cidadão comum, não tem o direito de dizer o que lhe vem à cabeça, sua palavra não tem o mesmo peso da palavra dos polemistas de mesa de bar. Sua palavra, como os seus atos, têm enorme valor simbólico. Governa-se através deles.
Em outras palavras, um presidente da República não pode colocar nas redes sociais um vídeo de “golden shower”. Não é que ele não deva, ele não pode, não tem esse direito. Não tem o direito de dizer que para combater o aquecimento climático vamos fazer cocô um em cada dois dias. Ele não pode mandar publicar no Diário Oficial uma assinatura que não seja a sua. Ele não pode dar banana para os jornalistas, mandar a imprensa calar a boca, dizer que tal jornalista é gay, fazer brincadeira de cunho sexual com uma jornalista, nem colocar os jornalistas num cercadinho disputando a palavra com os seus apoiadores. Simplesmente não pode, pois agindo dessa maneira desrespeita uma instituição – a imprensa – sem a qual a democracia não existe. Um presidente não pode escolher quais os veículos que participam das coletivas. Isso é, sim, violação da liberdade de imprensa.
Não pode atacar o Congresso nem a Corte Suprema, a quem deve respeito e até obediência.
O presidente não pode dizer que a facada que levou deve ser investigada e a morte da Marielle não; não tem o direito de defender milicianos, cuja atividade é ilegal; não pode nomear um nazifascista para ministro da Cultura; não pode tecer elogios rasgados ao general Pinochet, Alfredo Stroessner, nem a Carlos Brilhante Ustra. A apologia à ditadura militar é crime no Brasil, previsto na famigerada Lei de Segurança Nacional (Lei 7.170/83), na Lei dos Crimes de Responsabilidade (Lei 1.079/50) e no próprio Código Penal (artigo 287).
O presidente não pode responder E daí, quando escolhe para diretor geral da PF um amigo do filho que está sendo investigado, nem para comemorar as vítimas da Covid-19; não pode dizer que a pandemia é um resfriadinho, porque o seu apoiador incondicional desrespeita o isolamento e corre solto rumo ao risco de morte. Ele não pode se negar a apresentar o resultado do teste do coronavírus, o que faz até hoje com o teste realizado pela Fiocruz. Ele não pode mostrar desprezo para com os mortos da Covid-19.
Esses e centenas de outros atos e palavras de Bolsonaro têm enorme influência na vida das pessoas, na forma delas pensarem e agirem. Isso também é governar. Ele cometeu e comete diariamente atos de violação à Constituição. O exemplo que dá é o pior possível, menosprezando a exemplaridade, que faz parte da governança. Assim como os ritos, que foram jogados na lata do lixo.
Por que o problema, meu amigo, é que milhões de pessoas acreditam nele, se identificam com ele e saem por aí, em nome dele desrespeitando a lei, promovendo a desobediência civil, o Estado de Direito e as regras básicas da vida em sociedade. Essas pessoas dizem – e com certa razão – Se o presidente pode, eu posso. Se o ministro da Educação pode ser racista, eu também posso.
Acontece que o capitão comete crimes cotidianos, até agora impunidos. Enquanto o cidadão comum corre o risco de ser seriamente sancionado.
Bolsonaro considera que só tem de prestar contas ao seu eleitorado cativo. Também acredita que membros nomeados de seu governo, servidores públicos, deputados e senadores eleitos em sua esteira devem lealdade a ele, e não ao país.
Hoje temos no Brasil uma situação de quase guerra civil: de um lado fanatismo e ódio, de outro angústia e desespero. Perdemos a racionalidade. Estamos num vale-tudo, que pode nos levar para o abismo. Nesse Brasil enclausurado só há uma porta, que indica a saída, o mais rapidamente possível, desse fascista descerebrado chamado Jair Messias Bolsonaro que, apesar do nome, como ele próprio indicou, não faz milagres. Pouco importa que seja pela via do impeachment, pela condenação da chapa pelo TSE, ou pelos crimes comuns que correm no STF. O importante é que vá embora o quanto antes e que assim possamos tentar salvar a democracia.