por Richard Klein | 26 set, 2020 | Brasil, Crônica, Literatura
Muito antes da chegada dos hippies nos anos 70, Trancoso tinha sido uma missão para a conversão dos índios Pataxó. A modesta, porém charmosíssima, igreja voltada para o continente era testemunha daquele tempo. Junto com a formação geométrica do quadrado à sua frente ela remetia a uma ordem disciplinatória. A floresta cheia de vida que a rodeava, parte integrante do espírito da tribo, continuava intacta. Ela era o Éden de onde os portugueses tinham os expulsado. Garantidos por pólvora e chumbo, os missionários convenceram a tribo a trocar seu paraíso por outro imaginário onde só chegariam depois que morressem, sob condição que rejeitassem quem eram, a posse de suas terras – um conceito que não fazia sentido para eles – e aceitassem um status servil num novo mundo empurrado goela abaixo. As únicas coisas que tinham restado eram seus descendentes ocidentalizados que ainda viviam nas reservas espalhadas pela região e os filhos da miscigenação espalhados nos vilarejos. Por mais deprimente que fosse, a situação lá era melhor do que a dos grandes centros urbanos onde há muito tinham desaparecido.
Talvez refletindo o legado de missão ainda misturado com o espirito originário, talvez pela beleza mítica dos arredores, para o pessoal de fora, Trancoso, naquele verão, parecia um campus onde estavam aprendendo a viver. Essas pessoas ou eram fugidas das cidades grandes morando lá há um tempo, ou eram mochileiros e veranistas bem informados atrás de uma experiência especial. Não havia a onda de Gabeira – se ele tivesse parado lá, provavelmente não teria suportado ser considerado mais um, principalmente se descobrissem que por trás do auê se escondia um papel secundário na luta armada e muita sagacidade mercadológica. Um outro fator positivo do vilarejo era que, com a possível exceção do seu Manoel que tinha me acolhido, ainda não havia gente de cidades vizinhas explorando os visitantes e tirando vantagem em cima dos locais.
O dia a dia não era muito diferente do de Ajuda. As diferenças eram que o banho era com a água dos poços nas casas dos pescadores e que, fora o pessoal da terra, não havia um careta lá. O lugar onde nos reuníamos no fim do dia era igualmente atrás da igreja e de frente para o mar. Só que lá não havia roda de capoeira nem a necessidade de muita conversa. A energia e a harmonia já eram o suficiente.
O que tornava Trancoso em geral, e aquele ponto em específico, mais especial do que Ajuda era a sua simplicidade mágica. Não havia muros, cercas, bancos ou qualquer outra coisa para turistas. Entre nós e a praia deserta lá embaixo, havia apenas a grama bem cuidada que acabava no penhasco. Depois havia um trecho curto de mato, a areia e o oceano infinito se estendendo em frente. No cair da tarde e à noite, a parede caiada construída séculos atrás refletia a luz do sol e depois a da lua feito uma tela de cinema.
Com certeza, antes de serem convertidos à religião dos brancos das caravelas, os Pataxós deviam se reunir naquele mesmo lugar para cantar e dançar para seus deuses nos seus festivais. Aquele solo ainda guardava algo de sagrado, mesmo com uma igreja construída em cima como uma declaração de quem ia mandar dali em diante. Por causa do ar cristalino, o lugar dominava uma região de dezenas de quilômetros. Dali dava para ver a costa inteira para os dois lados. À noite, o único vestígio de civilização eram as luzes fracas de Porto Seguro, ligeiramente visíveis no canto mais longe do horizonte à esquerda.
Quando a lua cheia chegou, sabíamos que ela ofereceria um espetáculo único. Como sempre, ficamos no escuro à sua espera atrás da igreja curtindo o céu estrelado e as estrelas cadentes tão comuns na região. Cerca de duas horas depois do sol se pôr, ela apareceu como uma enorme bola prateada subindo no fim do oceano. Éramos em torno de dez pessoas e ninguém se atreveu a estragar o momento dizendo bobagens. Ficamos admirando a sua aparição com a reverência e o silêncio de quem presencia um sinfonia de primeira categoria. Seu reflexo era fortíssimo e foi criando uma faixa brilhante na água. Conforme a lua foi subindo por trás das nuvens flutuando na mesma altura que a gente, elas foram se iluminando, primeiro por de trás e depois por cima, fazendo com que lembrassem pequenos montes de algodão. Suas bases eram planas; parecia que um artista meticuloso as tivesse cortado. A poucos metros da água, lançavam sombras espessas sobre a claridade forte vinda do prateado lunar.
Enquanto contemplava aquela maravilha, o universo me trouxe a clareza de que a saúde, a água que bebemos, o ar que respiramos, as belezas do mundo, o amor e as amizades, enfim, a vida, eram presentes dados a nós sem que tivéssemos que dar nada em troca. Não estávamos em outro planeta, estávamos atrás de uma pequena igreja em Trancoso, perto de onde a colonização do Brasil começou. Aquele momento não era um sonho. Toda aquela abundância do aqui e do agora podia se perpetuar eternamente se apenas aprendêssemos a dar valor ao que temos em comum. Eu desejei que aquela clareza – certamente taxada de lunática pela maioria esmagadora dos habitantes do planeta – nunca passasse.
*
As últimas três semanas passaram num piscar de olhos. Depos que me familiarizei com a cabana, em pouco tempo tinha descoberto um atalho para a aldeia que evitava o rio e tudo ficou tranquilo. Não houve aventuras amorosas, não que faltassem beldades maravilhosas, mas a concorrência era com caras mais velhos, todos com profissões, mestrados e passados mais interessantes que o meu. Até o violão ficou meio calado; a gente levava uns sons, mas era para nós mesmos. As festas eram mais comedidas, o pessoal era mais reservado, em suma, não seria errado dizer que a turma de Trancoso era mais seleta. Ficar tocando demais para os outros nos faria parecer os bardos bobos da corte.
A hora de voltar para a realidade da vida urbana foi chegando. O dinheiro tinha praticamente acabado e não dava para a passagem de volta. As opções eram ou ligar para casa de Porto Seguro pedindo uma transferência emergencial ou voltar de carona. Por sorte, perguntando para o pessoal, consegui uma com uns caras que estavam voltando para São Paulo. De uma maneira inacreditável, tinham chegado em Trancoso num fusca por uma trilha pelo meio da floresta que nunca tinha ouvido falar.
No dia da volta, na despedida, todo mundo ficou dizendo que a gente era maluco de pegar aquele caminho. Depois de alguns minutos de conforto naquele Fusca insalubre, assim que entramos no mato, ficou claro que estavam certos e que a trilha não era destinada a carros. Toda hora tínhamos que descer e empurrar a bagaça através da lama ou guiar o Paulão, o motorista, para evitar buracos e raízes, ou tirar troncos caídos na frente.
“Aí não, Paulão, tem um puta buracão do meu lado, meu! Não tá vendo!”
“Caralho belo! É mesmo! Sai todo mundo do carro! Ampara ele deste lado aqui porque a gente está quase capotando.”
Foram horas aos trancos e barrancos até que a trilha evoluiu para algo que lembrasse uma estrada de chão. Gradualmente ela foi se tornando mais larga e gado, jegues e pequenos casebres começaram a aparecer dos dois lados. Finalmente, depois de passar por Ajuda, chegamos até a balsa para Porto Seguro. Lá, entramos numa pequena fila de carros e ficamos esperando para embarcar.
“Orra meu! Essa merda está civilizada demais. Vamos ali no mato ali fumar um!”
Quando nossa vez chegou, atravessamos em silêncio com um nó na garganta de estar indo embora daquele paraíso. Do outro lado do rio já havia asfalto e a estrada que nos levou em nossa longa jornada para casa.
Cheguei de volta ao Rio ainda sob o feitiço de Trancoso. Era difícil encarar o fato de que havia uma batalha crucial para passar no vestibular à espera. Havia uma outra que tinha me dado: queria me reconciliar com meus pais. Estava ciente de que a cada baseado, a cada levada de som, a cada nova amizade, mergulhava mais fundo num mundo que nem Rafael nem Renée podiam sequer começar a entender. Me perguntava se era possível reverter a situação.
Essa guerra de reconciliação nunca resolvida se provaria muito mais difícil do que a do vestibular. O jeito britânico era o de varrer tudo para baixo do tapete. A atitude judaica, mais pragmática, ignorava o lado poético da vida. A procura por uma verdade pessoal não fazia sentido – a solução era esquecer aquelas bobagens, baixar a cabeça e fazer a coisa certa: estudar. A batalha continuou, surda, muda, solitária e dolorida, deixando feridas e sequelas dos dois lados.
…
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por Richard Klein | 19 set, 2020 | Brasil, Crônica, Literatura
Capítulo 18
“Terra…
Por mais distante, o errante navegante,
Quem jamais te esqueceria?”
Caetano Veloso
O novo destino ficava a uma caminhada de duas horas e meia pelas praias desertas. Sob o sol escaldante, encarei aquilo com as tralhas nas costas. Esse era o único caminho possível, não havia estrada nem trilha, e só dava para ir na maré baixa, já que na alta um trecho ficava perigosamente submerso. Já integrado no ecossistema, sabia a que horas ir e me safei do apuro.
O fim da andada era uma estradinha sem sinalização que subia pelo meio do mato até um plateau. A aldeia, cercada pela floresta tropical, consistia de uma formação retangular de cabanas em torno de um campo de gramado enorme e bem tratado. No final do tapete verde em frente do mar, fechando o que todos chamavam de quadrado, havia uma igreja colonial caiada dominando a aldeia.
Foi amor à primeira vista. A tarde já estava começando a cair e as sombras das casinhas estavam começando a cobrir o gramado. O cheiro gostoso de pasto verde foi um refresco depois daquelas horas cansativas, secas e quentes ao lado da agua salgada. A beleza era impressionante, a pureza do ar conferia ao oceano lá embaixo uma tonalidade turquesa profunda que ficava maravilhosa ao refletir o azul marinho do céu. A sofisticação cênica daquela pequena comunidade parecia incompatível com seu isolamento.
Sem saber onde ia passar nem aquela nem as outras noites do resto do mês que planejava ficar ali, parei no único bar de Trancoso, localizado na também única esquina do quadrado, logo na entrada da aldeia. A construção era simples; um balcão estreito de frente para uma pista de dança ampla – certamente de lambada – onde havia algumas mesas espalhadas. O teto era seguro por troncos de madeira. Havia várias pessoas de fora bebendo cerveja e curtindo o fim de tarde ali. Quando viram um violão puxaram assunto na hora.
“E aí? Sai um som dessa viola?”
“Claro que sai! Mas agora não dá, acabei de chegar a pé de Ajuda, só dá para beber uma cerveja.” Não queria tocar mas também não dava para dar uma de antipático. Antes de ir pegar minha gelada e sentar para relaxar falei. “Se tem alguém aí que quiser tocar, à vontade.”
Um cabeludo mais velho sentado com uma estrangeira hiponga bonita, loura de olhos azuis, se levantou e perguntou: “Se importa?”
“Sem problema nenhum!”
Tirei o violão da capa e ele deu uma conferida enquanto fui pegar minha cerveja. “Um Del Vecchio antigo! Isso é artesanal! Tu é doido de trazer um violão desses para cá!”
“A viola está adorando o Sul da Bahia, não se preocupe com ela.”
Sem se impressionar com minha resposta, mas fascinado pelo instrumento o cabeludo intenso sentou num banco, posicionou o violão como quem sabia o que estava fazendo, deu uma verificada na afinação e saiu tocando uma das Bachianas do Villa-Lobos deixando todos de boca aberta.
Quando terminou, o cara que tinha me dado as boas vindas falou: “Caralho, mineiro, tu tava escondendo o jogo! Esmirilhou!”
“Tô meio enferrujado, tava precisando tocar. Esse violão é bom demais! Não resisti.”
Depois da primeira, vieram mais duas Bachianas, todas soando especiais naquele lugar. Quando terminou passou o violão de volta. Antes que tivesse que inventar uma desculpa para não ter que passar o vexame de tocar depois dele, ele perguntou:
“Como é teu nome?”
Disfarçando a pressa em colocar a viola de volta na capa respondi. “Rique.”
“Valeu, Rique, gostei do violão. Meu nome é Carlos, mas me chamam de Mineiro.” Ele olhou em volta como quem busca aprovação e continuou.” A gente está na concentração antes de bater uma pelada, os de fora contra os da terra, você pode jogar? Tá faltando um no nosso time.”
Com todos pressionando, não tinha como dizer não. “Vambora! Só que vou avisando logo: sou pereba ”
“Aqui só tem pereba, vamo nessa!”
Aquela resposta era típica de quem jogava bem e não deu outra. Quando o jogo começou senti o quanto as noitadas, a farra e a caminhada tinham me afetado. Estava numa forma vergonhosa e a cerveja antes do jogo não estava ajudando. A grama e as pedras estavam castigando as solas dos pés. Mesmo assim, tentando não dar vexame, fiquei na “banheira” quase o jogo inteiro e consegui marcar um gol. Contudo, mais competitivos por estar defendendo a honra da terra e bem mais em forma, os nativos venceram de goleada.
Depois do jogo voltamos para o bar para amargar a derrota com mais cervejas. Já estava escuro e menos intimidado pela habilidade do mineiro, mais solto pelo jogo e pelo recarregamento etílico, tirei a viola e comecei a tocar cedendo a pedidos insistentes. Como em Ajuda, não demorou muito para que outros músicos se juntassem e ajudassem a disfarçar minha perebagem musical. Para meu alívio, talvez horrorizado pela minha inabilidade, o mineiro saiu logo com sua estrangeira loira. O dono do bar acendeu a lamparina de querosene e nossa música ficou quebrando o silêncio do resto do vilarejo.
Conforme a noite foi avançando, as pessoas começaram a ir embora. Quando o bar já estava quase vazio, alguém me interrompeu. “E aí, carioca, vai ficar aonde hoje à noite?”
“Ainda não sei, se bobear acho um canto no gramado e estico o saco de dormir lá.”
“Que é isso?! Vai dormir que nem mendigo?! Aqui não tem disso não! A gente te arruma um lugar!” O cara virou para o dono do bar. “Seu Manoel, tem um quarto na aldeia aqui para o violeiro?”
Seu Manoel torceu a cara. “Tem não, nessa época do ano tá tudo tomado.”
“E na casa do Chileno? não tem um quarto sobrando?”
“Chegou um casal de gaúchos lá ontem à noite.”
“E aquelas irmãs de São Paulo, tomaram a casa do Sebastião toda?”
“Só pegaram um quarto. É, talvez lá tenha.” O seu Manoel virou para o filho sentado do lado. “Raimundo, dê um pulo na casa das meninas e pergunte se pode dormir mais um lá.”
Meio desconfortável com tanta cerimônia perguntei: “Para que tanto auê? Onde eu esticar o saco de dormir tá bom. Pode ser no quadrado ou até debaixo de um coqueiro na praia, não tem problema.”
“Fica tranquilo, carioca, a gente vai te descolar um lugar.”
Me lembrando da experiência com as brasilienses, fiquei vendo o moleque desaparecer no campo escuro e depois reaparecer do outro lado em frente às janelas iluminadas por velas e lâmpadas de querosene.
O seu Manoel já tinha simpatizado comigo. “Deixe o Raimundinho voltar, se as paulistas disserem que não, tenho uma ideia.”
Marquinhos, o cara que tinha me dado as boas vindas, falou: “Já sei, a cabana do Pará lá perto da praia!”
“Essa mesmo, e o rapaz vai poder ficar lá de graça. Acho que o Pará já arrumou comprador, faz umas duas semanas que ele sumiu.”
Não demorou muito para o filho do seu Manoel votar: “Elas disse que não quer mais genti na casa.”
“Esquenta não, carioca.” Marquinhos me deu uma olhada maliciosa. “A gente desconfia que elas não são irmãs coisa nenhuma, mas sim um casal de sapatonas, não iam querer um cara estragando a festa, né?!”
Um cara com um sotaque gaúcho que até então estava quieto deu uma risada e falou: “Aê violeiro, vai dizer que tu não ia querer ser o recheio daquele sanduíche?”
Achando a observação despropositada e constrangido pelo esforço do pessoal, não dei trela para a brincadeira e perguntei: “E essa casa do tal do Pará?”
O brincalhão respondeu: “O lugar é até melhor do que aqui em cima, o problema é que é um barraco de palha no meio do mato, não tem nada por perto. Chegar lá a noite vai ser coisa de Tarzã.”
O seu Manoel falou: “Não exagere, Gaúcho, o rapaz chega lá fácil.” Aí ele se voltou para mim. “Nem precisa de chave, é só chegar lá, abrir a tranca de madeira e empurrar a porta. Não se preocupe com bicho, é só deixar a casa fechada que eles num entra.”
“Que tipo de bicho!?”
O dono do bar, um sujeito moreno de meia idade com uma barriga respeitável, deu uma risada. “Aqui só dá galinha e porco, e volta e meia um jegue, não se aperreie!”
Mesmo que soasse roubada, não dava para recusar. Meio envergonhado, aceitei a generosidade e eles passaram a me explicar como chegar lá.
“Você desce a estrada da praia por onde você subiu, essa aqui do lado. Depois de uns trinta metros você vai ver uma trilha à direita. É só seguir toda vida que você vai dar na porta do barraco. Não tem erro.”
O Gaúcho, ainda achando graça, emendou: “Te prepara porque tem um rio no meio.”
De novo não dei muita atenção, mas por via das dúvidas perguntei: “Dá para deixar o violão aqui? Amanhã passo pra pegar.”
“Claro que dá, meu filho!”
Agradeci, botei a viola na capa e dei para ele guardar. Peguei a mochila, dei boa noite para o pessoal e fui encarar o caminho. Noites sem lua como aquela em particular eram excelentes para observar estrelas cadentes, mas faziam a visibilidade nula. Na estrada de terra ainda dava para enxergar alguma coisa, mas no mato estava um breu completo. Fui me guiando pelo barulho da água correndo ao longe, sentindo a areia com os pés e me escorando nos troncos das árvores com a mão.
A visibilidade voltou quando alcancei o rio. Na clareira, percebi que a outra margem ficava a uns seis metros de distância e pensei em desistir. Em vez disso, imaginei o mico que pagaria se voltasse dizendo que tinha ficado com medo e criei coragem e comecei a travessia no leito lamacento da água morna. Conforme a profundidade foi aumentando, barulhos de sapos e de outras criaturas da noite me fizeram pensar em cobras, animais estranhos e peixes carnívoros. Numa dada altura, a água chegou quase a altura do peito e a correnteza tornava difícil equilibrar as tralhas na cabeça.
Do outro lado avistei a porta da cabana no final da trilha de areia. Como o seu Manoel tinha dito, a tranca era fácil de abrir. A claridade criada pela porta aberta revelou uma vela colada numa mesa. Revistei a mochila e achei a caixa de fósforos e liguei a vela. A chama fraquinha iluminou as paredes de madeira com argila, o chão de areia e o telhado de palha. Os únicos móveis eram aquela mesa rústica e uma cadeira feita a mão do lado. Fiquei digerindo aquele cenário e o cheiro acre e úmido. O vento soprando do mar estava uivando alto. Ele tirava o abafado da casa mas fazia a porta, as janelas e as árvores em volta baterem balançarem em uma coreografia sinistra. Estranhamente, a luz da chama pareceu me proteger e fez com que a cabana se tornasse aconchegante. Ainda ensopado, abri meu saco de dormir, o estendi no chão e assim que deitei caí num sono profundo.
*
O sol entrando pelos buracos da janela me acordou de manhã cedo. Ainda dava para ouvir o vento que agora, mais suave, permitia escutar o canto dos pássaros e as ondas quebrando ao longe. Saí do barraco para ver como aquilo era de dia. Fora minhas pegadas deixadas na noite passada, a areia em torno da casa tinha apenas pegadas de caranguejos e de pássaros. A paisagem em volta era densa e estava colorida pelo sol ainda tímido filtrado pela maresia. Naquele momento, o mundo era apenas a cabana, o mato ao redor e a presença da praia ao longe. Aquela paz especial me levou mentalmente ao início dos tempos.
Naquele estado quase místico caminhei até a praia que não ficava longe. Assim que a mata abriu, cruzei a areia, mergulhei no mar e nadei por um bom tempo até chegar a uma distância boa da costa. Na água funda, com aquela paisagem só para mim e com o corpo recomposto pelo exercício matinal, fiquei boiando e apreciando aquele espetáculo. Aquele paraíso ficava a poucos quilômetros de Santa Cruz de Cabrália, onde os primeiros pés europeus haviam tocado o país-continente. Este era o lugar onde aquelas almas ocidentais plantaram as sementes de um novo país. Naquela hora e local ficou fácil imaginar a flotilha chegando. Será que alguém naqueles navios tinha pensado que havia algo a aprender naquela terra linda? Não teria sido uma oportunidade para começar algo novo e melhor? Talvez não fosse tarde demais. Apesar dos horrores que seguiram, a carta de Pero Vaz de Caminha descreve um encontro festivo de civilizações, quem sabe a saga ainda não pudesse terminar bem?
*
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por Richard Klein | 4 jul, 2020 | Brasil, Comportamento, Crônica, Literatura
Capítulo 11
“…Eu fico contente da vida
Em saber que a Bahia é Brasil.”
Francisco Alves – Bahia com H
Se para Rafael e Renée o sonho de levar uma vida idílica num paraíso exótico era difícil de encaixar com a responsabilidade de criar filhos, imagina lidar com um que tinha decidido ser diretor de cinema. Seu investimento pesado em educação era para gerar um herdeiro médico, engenheiro, advogado ou algo parecido, não um menino sonhador. Ansiosos pela escolha um tanto precoce e irrealista e sem saber nada sobre o assunto, os dois fizeram o melhor que podiam.
Após consultar um monte de “especialistas”, ou seja, amigos e familiares com as mesmas percepções e limitações, chegaram a uma conclusão. O mais aconselhável seria me mandar estudar na Inglaterra onde, na cabeça da dona Renée, seria treinado para ter meu nome em cartazes de filmes importantes.
Para tanto, minha vida acadêmica teria que mudar. Entrar para o sistema britânico dependia do sucesso nos O-levels, um teste difícil que todos tinham que fazer por volta dos dezesseis anos. Quem passava se qualificada para a próxima etapa, os A-levels, um teste mais direcionado e ainda mais puxado, que teria quando fizesse dezoito. Esse sim, servia de passaporte para as universidades britânicas.
O único curso no Rio que preparava para os O-levels não era outro senão a mesma Escola Britânica que havia praticamente me expulsado. Para os A-levels, não teria jeito, a única opção seria me mudar para a Inglaterra e meus pais começaram a ver as possibilidades.
A volta para a minha primeira escola era uma decisão arriscada e cara. Minha turma seria a primeira na escola a se preparar para aquela prova. Serviríamos de cobaias e seríamos os alunos mais velhos que já tinham tido.
Houve muitas discussões a portas fechadas, com minha mãe fantasiando sobre meu futuro de cineasta e meu pai preocupado não só com o custo, mas também com meu comprometimento e com as possibilidades nessa carreira. Isso era coisa de menino rico. Talvez essa condição não duraria para sempre e essa era uma clareza que só ele possuía em casa.
Contudo, resolveram correr o risco. O ano letivo começa fim de Agosto, espelhando o Britanico, e quando o momento chegou, lá estava eu, cinco anos mais velho, de novo num uniforme azul e cinza, pegando o ônibus, dessa vez sozinho, rumo ao mesmo lugar onde tinha visto a rainha entrando de Rolls Royce. Na minha cabeça esse era o primeiro passo para me tornar um diretor de cinema.
Em poucas semanas deu para sentir que a escolha talvez não tivesse sido a melhor. A escola não era mais a mesma. Além de estar ligeiramente dilapidada, o curso era desorganizado e, apesar de serem todos estrangeiros, os professores em sua maioria, pareciam aposentados ou donas de casa fazendo um bico.
O ex-oficial disciplinador da marinha que havia cismado comigo tinha há muito voltado para a Inglaterra. Agora, o diretor era o esquisitíssimo Mr. Lewis, um sujeito seboso, com óculos “fundo de garrafa”, baixinho e troncudo. Parecendo um ogro do Harry Potter sempre exalava um bafo poderoso das suas feições de buldogue bêbado. Além de ter vários tiques nervosos, era meio gago e falava com um sotaque exageradamente elegante do qual tirávamos sarro. Acima de tudo, o coitado não tinha a menor ideia de como impor respeito a adolescentes.
Por outro lado, apesar de em termos acadêmicos aquela ser a hora errada para se estudar alí, em questão de diversão a história era bem diferente. Com exceção de nosso professor de matemática, Mr. Bindley, um enorme ex-jogador de rúgbi do norte da Inglaterra, ninguém era capaz de controlar nossa turma. Isso nos permitiu criar um regime de terror e fazer tudo de errado que garotos entre 14 e 16 anos são capazes. A capetagem era horrível, enfiávamos nossas mãos não convidadas embaixo das saias das garotas, destruíamos os cadernos dos alunos certinhos no ventilador, dávamos descarga em peixinhos dourados e escapávamos da escola no horário do almoço para voltar embriagados para as aulas.
Ainda que o currículo fosse o mesmo que escolas similares no Reino Unido, nem eu nem os meus novos amigos, todos filhos de diplomatas e de executivos de alto escalão, jamais tiraríamos qualquer proveito daquelas aulas. No final do ano, tive que ser honesto e falar para o Rafael que ele estava jogando o seu dinheiro suado fora. Com toda aquela loucura, seria necessário um esforço sobre-humano para deixar a farra de lado e me focar no meu objetivo.
Mudar de atitude radicalmente para recuperar cinco anos passados no sistema brasileiro e passar naquela prova dificílima era uma tarefa pesada demais. É fácil criticar um menino privilegiado de 15 anos de idade, mas não tinha sido criado para aquilo. Também, apesar do sonho de ser cineasta continuar vivo, depois de conversar com os colegas e a entender a mentalidade Britânica melhor perdi motivação. A ideia de deixar a vida boa do Rio de Janeiro e me mudar para a dura realidade de ser um estrangeiro num colégio interno na Inglaterra passou a não ser convidativa. Lá, com certeza, os colegas e os professores ingleses fariam de tudo para colocar o estrangeiro novato “na linha”.
*
Depois de constatado o erro, Renée e Rafael ficaram sem saber o que fazer com o filho. Em meio ao caos, talvez visando me colocar de volta nos trilhos ou me fazer esquecer a carreira de ser cineasta, minha mãe sugeriu que aprendesse a tocar violão. Tinha levado jeito com a flauta quando criança, quem sabe se me tornasse bom com as cordas, minhas habilidades poderiam abrir as portas da popularidade com uma turma mais positiva. Em casa já havia um violão excelente, um Del Vecchio artesanal. Era da Sarah, mas ela nunca tinha conseguido aprender. Pelo menos daquela vez, o conselho materno acabou sendo um tiro na mosca e sem conseguir levar a escola a sério, popular ou não, mergulhei fundo no instrumento. Dali nasceu uma amizade que duraria para toda a vida.
O professor particular veio através de uma amiga de tênis da Renée. Romualdo tinha uns vinte e tantos anos, magro, testudo, óculos “fundo de garrafa” a frente de um rosto coberto de espinhas que não combinavam com suas feições africanas. Ele parecia, e se vestia, como um nerd mas no violão era inacreditável. Ele tinha sido roqueiro, mas – nunca descobri o porquê – havia se convertido para o fundamentalismo da bossa nova e era isso ensinava.
No início, não gostei. Queria tocar como Jimi Hendrix, enquanto ele só me ensinava o estilo conservador de João Gilberto. Os deveres de casa eram doloridos, tinha que me esforçar para fazer os acordes de jazz que forçavam os dedos a segurar as cordas em posições que pareciam com uma aranha.
Foi difícil, mas quando peguei o jeito e a mão esquerda começou a cumprir o seu papel enquanto a direita fazia a batida do samba, a magia musical começou a sair. Daquele momento em diante, descobri não só um estado de espírito que trazia harmonia, mas também algo que amava. É claro que a medida que o violão foi tomando um papel central no meu dia a dia, a escola e os deveres de casa foram ficando ainda mais distantes.
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Presos no conservadorismo da minha mãe, em casa só tínhamos discos de música clássica. Para avançar, precisava ter acesso à música que o Romualdo estava me ensinando. Não era só bossa nova, era também o que a nova geração da música popular brasileira estava fazendo. A saída foi a biblioteca do Ibeu, o Instituto Brasil-Estados Unidos. Armado na altura em que planejavam o golpe militar, o instituto tinha sido uma tentativa de relações públicas positiva. Ficava perto de nosso antigo apartamento em Copacabana. Além de oferecer cursos de inglês e de outros serviços, tinha uma biblioteca respeitável. Era isso que era o que interessava, em particular a sua coleção de discos.
Seu acervo era generoso. Além de LP’s dos óbvios: João Gilberto, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Jorge Ben, também havia discos de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Cartola, Elis Regina, Clementina de Jesus, Milton Nascimento, Paulinho da Viola, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Fagner, Walter Franco, Luiz Melodia, Os Mutantes, Raul Seixas entre muitos outros. Havia também uma respeitável coleção de títulos de rock internacional. Apesar de não ter nada das bandas principais; Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin, Pink Floyd, havia bastante coisa interessante como The Band, Bob Dylan, Focus e Ten Years After.
Os sócios podiam levar três discos de cada vez. Com tanta coisa para escolher não sabia por onde começar. Fui com sede ao pote, queria conhecer tudo. Esses sons passaram a ser uma presença constante no velho toca-discos do meu quarto e aos poucos, fizeram com que o mundo se tornasse um lugar maior.
*
O Ibeu passou a ser mais do que um portal de acesso a novas paisagens musicais; sua coleção de livros também ajudou a expandir os horizontes literários. Comecei com as coleções inteiras do Asterix e do Tintin. Agora, mais velho, descobri livros. Entre eles achei os de Jorge Amado. Meu primeiro livro foi Capitães de Areia. Suas páginas descreviam a vida de moleques de rua de Salvador enfrentando a pobreza, a ignorância e o preconceito racial bem antes de o “Novo Brasil” entrar em cena. Fascinado, acabei devorando a obra inteira do escritor baiano.
Como a maioria dos autores e intelectuais latino-americanos de sua geração, Jorge Amado era de esquerda, de fato comunista. Seus trabalhos mostravam como as chamadas massas eram sofisticadas e tinham vidas mais completas do que a dos novos ricos neuróticos, urbanos, moralistas e brancos. Suas estórias eram dramáticas e cheias de sensualidade e falavam do povão que via na rua todos os dias mas com quem não me relacionava.
Seus livros voltaram minha atenção para a enorme celebração da mistura de raças e de culturas, que é o Brasil e me fizeram dar vários passos adiante na aventura que meus pais começaram quando resolverem mudar de continentes. Descobri a Bahia pulsando no coração do país. Talvez por Salvador ter sido a primeira capital, a brasilidade ali era mais enraizada. Além de fornecer seu melhor escritor, o estado era o Delta do Mississipi do mundo lusófono e tinha dado ao país seus músicos mais talentosos: Dorival Caymmi, João Gilberto, Gilberto Gil e Caetano Veloso, todos agora devidamente presentes no meu toca-discos, e nas cordas do meu violão.
O Samba tinha nascido lá, bem como as religiões afro-brasileiras e a capoeira, criada nas batalhas dos escravos contra seu destino. Com exceção do Haiti, a Bahia era o lugar mais africano no planeta fora do próprio continente. Ao contrário da maioria dos negros espalhados pelo mundo, os baianos eram orgulhosos de suas origens e viviam de acordo com suas tradições, não como uma expressão da resistência política, mas por amor.
Não era o único fascinado pela Bahia nos anos 1970; a abundância de praias inexploradas, os talentos da terra e a aura afro-brasileira, transformaram aquela parte do Brasil no destino preferido de hippies do país inteiro. Havia algo que emanava daquela terra que permitia com que a juventude rejeitasse o sistema de uma maneira mais verdadeira do que a estilo californiano e exclusivista acontecendo nas praias cariocas. Talvez não coincidentemente foi por volta dessa época, que o maior mestre de capoeira do seu tempo, Mestre Camisa, discípulo do lendário Mestre Bimba, chegou de Salvador e popularizou o esporte na classe média carioca. Ele começou treinando um pequeno grupo de capoeiristas, Gato, Peixinho e Garrincha, que mais tarde se tornariam eles mesmos mestres. Juntos com seu mentor, formariam o grupo Senzala. Agora separado em diferentes subgrupos, o Senzala viria a dominar tanto o cenário brasileiro como o internacional da capoeira.
*
Um dia, fuçando a caixa de surpresas musicais do Ibeu me deparei com um disco novo. A capa era com um monte de hippies sorridentes posando para uma foto. Tirei ele da pilha para dar uma olhada. A contracapa era de uns pratos misturados com uns bules de café e panelas de alumínio amassado espalhados em círculo no chão de um barraco. O título do disco era Acabou Chorare e o nome da banda era Novos Baianos. Na fase que eu estava, tudo nele parecia dizer “por favor, me leve para ouvir em casa”.
Quando coloquei para tocar, reconheci de imediato uma música que tinha ouvido na rádio e que eu gostava muito, Preta Pretinha. Conforme fui ouvindo o resto do disco, fiquei consumido pela mistura bem-feita de rock com música brasileira e dos instrumentos elétricos com o som caseiro de instrumentos acústicos. Tudo tocando com harmonias e ritmos complexos porém cheios de vida. Ouvi o disco repetidamente até a hora do jantar e continuei depois. Fui dormir absorvido pela ginga musical e pela malandragem lisérgica das letras e acordei querendo mais. Foi assim que descobri o que, para mim, foi a melhor banda de todos os tempos.
O também baiano Tom Zé, o gênio musical da Tropicália foi quem juntou a banda em Salvador e os trouxe para o Rio. Lá, como os poetas gregos, não só cantaram mas também viveram o sonho hippie. Morando em comunidade num apartamento em Botafogo, se tornaram as abelhas-rainhas do enorme contingente de alienados na juventude carioca.
Eles tiveram sorte: junto com Milton Nascimento e seu “clube da esquina”, sua presença preencheu o vazio deixado para trás pelo exílio dos grandes nomes da música brasileira: Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso. Somado a isso, ainda no Brasil, João Gilberto, a expressão máxima da bossa nova, resolveu apadrinhar a banda. Trabalhando com eles, conseguiu lapidar seu talento bruto nos mais altos padrões de qualidade.
Com tanta energia positiva, a banda acabou conseguindo um contrato com a Som Livre, a gravadora das organizações Globo. Cientes de que o astral do grupo era fundamental e preocupados com os problemas que os seus excessos no apartamento em Botafogo poderiam trazer, a produção os mudou para um sitio em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio. Lá, a banda dividia seu tempo jogando bola, ensaiando, criando, comendo comida vegetariana, se chapando e fazendo filhos. O rancho se tornaria um ícone da época.
O afã daquela geração em aproveitar a vida, se distanciando da toxicidade dos caretas e de suas caretices, podia ser resumida na pergunta que faziam em seu bem-humorado samba, Besta é Tu: “Por que não viver este mundo se não há outro mundo?”
Os Novos Baianos personificaram o que os hippies brasileiros foram durante a ditadura: uma força da natureza. Com uma repressão assassina à solta, a resistência tinha virado existencial, quase espiritual, daí talvez mais saudável do que a política convencional. Seu caminho buscava resistir sendo não urbano, tentando achar uma nova maneira de se relacionar com o mundo, tendo a cabeça aberta, mas ao mesmo tempo preservando integridade consigo mesmo e com os outros.
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por Richard Klein | 27 jun, 2020 | Brasil, Comportamento, Crônica, Literatura, Livro
Quando garotos chegavam à puberdade, depois de passarem pela introdução visual e manual trancados no quarto ou no banheiro, seguiam a tradição de serem iniciados no sexo ou por uma doméstica ou por uma profissional. De uma hora para outra, parecia que todos já haviam transado menos eu e os amigos mais chegados. Como nenhum de nós tinha empregadas gostosas e disponíveis, o jeito seria recorrer às profissionais. Dada a nossa limitação orçamentária, todos os dedos apontavam para a mesma direção: a famosa Casa Rosa.
Em famílias locais tradicionais, os pais levavam os filhos para o evento ou pelo menos patrocinavam a excursão. Esse certamente não seria o meu caso. Com Rafael já na casa dos 75 anos, sexo não era provavelmente praticado muito menos discutido em casa, nem mesmo em piadas. Para ele, a libertinagem era uma coisa para domésticas e favelados promíscuos. Nunca aceitei isso, mas não pude deixar de assimilar parte da ideia de que o sexo era algo intrinsecamente sujo e que deveria ser ocultado da sociedade educada. Mesmo assim, já enjoado da minha mão, não via a hora de ser iniciado. Com isso em mente, eu e meus amigos ficamos meses juntando dinheiro para uma ida à Casa Rosa.
Finalmente o grande dia chegou. Numa tarde de sábado, marcamos de nos encontrar após o almoço para ir a nossa expedição erótica. Só que na última hora, quando estava preparando para sair recebi um telefonema do Maurício, meu melhor amigo e comparsa mor nessa aventura. “O Roberto me ligou dizendo que vai ao cinema hoje à tarde.”
“Para o cinema?! Como?! Já não tava tudo marcado!?”
“Pois é, ele disse que tinha esquecido. Que babaca né?”
“Esqueceu o caralho!! O veadinho amarelou!”, respondi com raiva. “E agora? Estou com a grana aqui. Como é que a gente faz? Vamo lá de qualquer maneira!”
“Olha, falei com meu pai e ele disse que só me deixa ir se for com o Roberto.” Maurício era medroso.
“Foda-se teu pai, Maurício! A gente pega um táxi e vai lá. Como é que ele vai saber? Se perguntar sobre a grana, fala que a gente foi no cinema e depois você me emprestou também. Sei lá, inventa!”
“Não dá, Rique. Já falei com o Jaime, com o Mário e com o Leo e ninguém vai. Se você está com tanta vontade, vai sozinho.”
A resposta mesquinha matou o papo. Não tinha coragem para ir pela primeira vez a uma zona sozinho. Mais tarde fiquei sabendo que até o pai do Roberto tinha ficado zangado com ele.
Algumas semanas mais tarde, consegui convencer os outros a ir sem um “guia”. Os pais deles liberaram e partimos para a Casa Rosa. Pegamos um táxi da casa do Léo em Copacabana sem saber ao certo como chegar lá, mas quando o motorista escutou “Rua Alice”, sabia exatamente onde era e o propósito daquela corrida.
Na ida, ficamos discutindo se deveríamos mentir sobre a nossa idade. Jaime, um cara mais ajuizado, porém cagão, falou: “Não sei se vão deixar menores de idade entrar lá, é melhor a gente dizer que tem dezoito anos.”
“Está maluco?! Você acha que a gente tem cara de dezoito anos? Olha só para a cara do Léo? Dezoito anos nem fodendo!”
“Tá bom, a gente diz que tem dezessete.”
Maurício, que gostava de ser o conciliador da turma, concordou. “Dezessete é um bom número, é quase dezoito e vai trazer mais respeito com as putas.”
Eu, que já estava me perguntando o que é que estava fazendo no táxi com aqueles panacas, intercedi. “Cara, se a gente falar que tem dezessete anos, a vamos parecer mais retardados do que a gente já parece. Vamos fazer o seguinte, cada um fala a idade que quiser.”
“Mas e se não deixarem a gente entrar?”
“Você já viu puteiro recusar cliente?”
A gente já estava em Laranjeiras. O motorista, que tinha ficado quieto durante a discussão mas que devia estar rindo por dentro, subiu uma ladeira e parou em frente a um casarão.
“É aqui.”
Depois de fazer a “vaquinha” para pagar o taxista, a gente saiu. A Rua Alice era bonita, arborizada e tranquila. O casarão chamava atenção com seu glamour desbotado de épocas gloriosas de um prostibulo de luxo e ficava atrás de um muro. Os dois eram de fato pintados de rosa. Assim que o táxi partiu, percebemos um carro de polícia estacionado logo depois da curva, o que fez com que o Jaime quisesse desistir.
“Quer ficar calmo, Jaime? Puta não morde!”
Quando estávamos para tocar a campainha, a porta se abriu e um grupo de policiais, uns ainda ajeitando o uniforme, saiu e nos cumprimentou com sorrisos cúmplices. Uma velhinha com cara de mafiosa apareceu logo atrás, deu boas vindas, nos levou até a recepção e desapareceu para dentro do casarão. Fomos sentar ao redor de uma mesa de madeira perto de uma pista de dança vazia e ficamos esperando. O silêncio nervoso era quebrado pelo show de samba que estava passando numa TV preto e branco. Ao lado havia luzes piscantes que subiam uma escadaria em cima de um balcão. Nele havia duas tabelas de preços penduradas: uma para bebidas e outra para programas.
Uma a uma, as garotas vieram descendo para a matinê. Nem de longe elas lembravam as beldades inacessíveis que enchiam nossa boca de água nas praias e nas revistas, mas pelo menos eram mais jovens e mais bonitas que nossas empregadas. A madame veio logo atrás, apontou para nós e disse:
“Está na hora do leite das crianças.”
Estavamos tão apavorados que elas nos escolheram, não o inverso. Quase sem dizer nada, nos levaram de volta para seus quartos. Quando a ação estava para começar, ouvi alguém bater o joelho contra a cama. A julgar pela reação, dava para sentir que tinha doído. Deu para ouvir a voz do Maurício gemendo através da parede fina de madeira e ele pulando de dor. Deu vontade de rir, mas, como todos, estava tenso demais para saber o que fazer.
Minha garota era mais bonita, branca, magra e nova que as outras e tentou me acalmar. “É a tua primeira vez aqui?”
Pensei em mentir, mas respondi que sim com o coração disparado.
Ela continuou. “Você me lembra um menino que esteve aqui na semana passada.”
Enquanto falava ela foi tirando a blusa e depois o sutiã e exibindo seus seios. Talvez pela minha cara hipnotizada ela deu uma risada. “Fica calmo, pode tirar a roupa também.”
Meio desconfortável, fui me despindo enquanto admirava seu corpo já nu. A situação me fez lembrar as cenas de abertura desengonçadas dos filmes pornôs. Quando estava pronto, me recostei no travesseiro e ela veio se deitar do meu lado. O colchão era duro e áspero.
“Meu nome é Lu e o teu”
“Rique.”
“Que nome bonito. É Rique de Henrique?”
“Não, de Richard.”
“Nossa, nome de lorde!” Ela deu outra risada e, vendo que ainda estava sem jeito, olhou para os seios depois para mim e me convidou: “Pode tocar se quiser.”
Nunca tinha visto peitos nus ao vivo antes, muito menos tocado. Coloquei as mãos e gostei. Depois, tomei coragem e comecei a explorar seu corpo, sem fazer a festa que tinha planejado, mas curtindo mais do que tinha imaginado. Sua pele nua era macia, morna e muito gostosa. Me sentindo ousado, coloquei minha boca nos bicos, ela pareceu gostar e depois de uma sessão mais intensa de bolinagem, já estava pronto. Ela se posicionou, me olhou nos olhos e disse.
“Vem, menino!”
O ato foi rápido e decepcionante, mas pelo menos contou como minha iniciação de “amante latino”. Não fui o primeiro a aparecer no andar de baixo, o que me fez sentir melhor. Depois de todos pagarem, descemos a ladeira tirando sarro do joelho e do orgulho dolorido do Maurício.
“E aí Mauricio? Qual era o tamanho do pau com que ela te bateu? “
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por Richard Klein | 20 jun, 2020 | Brasil, Comportamento, Crônica, Literatura, Livro
Capítulo 10
“... naturalmente minha mãe dizia,
Ele é uma criança não entende nada,
Por dentro eu ria satisfeito e mudo
Eu era um homem que entendia tudo.”
Erasmo Carlos – Não Entendo Nada
Segunda geração de Brasil, bem mais novo que Rafael, Daniel, o pai do meu amigo Avi, não teve a mesma sorte com a queda da bolsa de valores. Junto com a manada, perdeu muito dinheiro e talvez por isso morassem em um apartamento abafado em Copacabana.
Gostava dele. Por trás das feições duras, bigode espesso e olhar frio, havia uma personalidade simpática e generosa. Ele estimulava a amizade com seu filho gorducho por me considerar uma influência saudável. Mesmo sendo magro que nem um bicho-pau, em vez de passar o dia todo assistindo televisão e me entupindo de doces, jogava bola direto e ia para a praia fazer bodyboard.
Por isso, nossa amizade girava em torno de esportes. Nos fins de semana ou ele vinha comigo ao clube, ou íamos praticar alguma atividade ao ar livre com Daniel. As opções eram caminhadas na Floresta da Tijuca ou piqueniques em praias distantes. A tarde, como compensação pelos esforços matutinos, acabávamos em um dos muitos parques de diversões que viviam abrindo e logo depois fechando em terrenos baldios nos arredores e pela Zona Sul afora.
Depois que descobrimos o skate, nosso lugar favorito passou a ser o Aterro do Flamengo. Esse era um parque enorme ao longo da Baía de Guanabara, construído durante o governo Juscelino Kubitschek como uma forma de compensar o Rio de Janeiro por ter perdido seu status de capital nacional. A despeito do custo gigantesco de aterrar a baía e da decoração do melhor paisagista do país, Burle Marx, o que a cidade acabou recebendo foi um tremendo monumento à chatice.
Apesar de seus vários campos de futebol viverem cheios, as “atrações” do parque enorme incluíam o Museu de Arte Moderna que raramente tinha trabalhos empolgantes para um adolescente, uma área para se voar aeromodelos de brinquedo, um lago para barcos em miniatura, um memorial para os soldados brasileiros mortos na 2ª Guerra Mundial, playgrounds de concreto para crianças e um avião antigo para pessoas que nunca tinha entrado em um entrarem para ver como é que era. Mesmo assim, o cimento liso do seu passeio público e com várias rampas suaves eram ideais para skatistas iniciantes.
Nós dois tínhamos o mesmo skate: o horroroso Torlay, fabricado no Brasil. Era uma tábua dura de madeira com dois pares de rodas de borracha vagabunda presos embaixo. Eles quebravam toda hora e faziam a gente passar vergonha quando apareciam outros meninos andando em skates importados com rodas de poliuretano semitransparentes e com shapes de fibra de vidro. Além disso, para falar a verdade, a gente era ruim demais, típicos nerds tentando tirar onda. Os caras da gangue da minha rua – que de alguma forma também arrumavam skates importados – davam de mil na gente, isso sem falar dos californianos que apareciam na revista Skateboarder realizando manobras impressionantes em piscinas vazias.
Um dia, talvez para levantar nosso moral, o pai do Avi levou sua câmera Super 8 para filmar nossas performances. Eu nunca tinha visto um aparelho daqueles antes na vida e, percebendo minha curiosidade, Daniel me perguntou se queria dar uma olhada.
“Quer ver como funciona? É fácil. Você olha por este visor aqui, aponta a câmera e foca com esta rodela aqui.” Por estar sempre mexendo com a câmera dos meus pais, entendi na hora. “Para filmar é só apertar este botão aqui. Quer experimentar?”
Ele colocou a caixinha futurística na minha mão e, depois de explicar tudo de novo e de se certificar que tinha entendido, me liberou o aparelho. “Só filma quando você tiver certeza de que está tudo em foco e de que você sabe o que vai filmar, senão vai gastar filme à toa.”
Falei que estava tudo bem, esperei o Avi começar, mirei a câmera e consegui gravá-lo descendo e passando pela nossa frente. Quando parei, o Daniel pegou o aparelho de volta para examinar um mostrador na lateral do aparelho
“Filmou! Parabens! Ainda faltam mais trinta segundos.Ele me olhou meio confuso. “Vou guardar porque a gente ainda tem que gravar a visita na casa da tia do Avi na semana que vem.”
Depois, guardou o aparelho sem me perguntar se também queria ser filmado. “Quando revelar a gente te convida para dar uma olhada, tá bem?”
Ninguém notou o quanto tinha ficado embasbacado com aquilo. Aquele aparelho de capturar tempo, cheio de botões de controle e com luzinhas futurísticas piscando no visor era a coisa mais incrível que já tinha tocado. Fantástico demais para se traduzir em palavras. Depois daquela manhã o interesse pelo skate evaporou. Quando me convidarem para ver o resultado, o entusiasmo aumentou e não conseguia pensar em outra coisa. Aquilo era magia em estado puro, tecnologia de ponta, quase igual ao aparelho utilizado para fazer o 007 e os faroestes de John Wayne.
Minha obsessão fez com que pedisse uma câmera Super 8 e um projetor como presente de Bar Mitzvá. Esse pedido era quase um mandamento divino para um pais judeu. Tive a sorte dele poder ter me atendido. Com um equipamento meu, a obsessão só aumentou. Minha mesada ia toda para comprar filmes com os quais registrava férias, idas à praia, passeios na Floresta da Tijuca, surfistas pegando onda, gente jogando futebol, festas e qualquer outra coisa que desse na cabeça. Quando os cartuchos de três minutos e meio acabavam, mandava para revelar. Quando voltavam, reunia amigos e a família no escuro do quarto e projetava o filme na parede branca.
As estréias eram grandes eventos. Antes da apresentação, passava dias editando cuidadosamente as cenas com um cortador de película, colando os pedaços com cola especial e revisando os cortes em um precário retroprojetor. Meu quarto cheirava à cola química e havia tiras de filme penduradas por todo lado. Mas como dizem, me sentia feliz como um pinto no lixo.
*
Esse interesse ganhou uma nova dimensão durante uma viagem de férias da família a Bariloche, uma pequena cidade turística nos Andes argentinos com uma atmosfera europeia que dava a visitantes brasileiros – e aos nazistas escondidos ali – a impressão de estar no Velho Continente.
Um dia, saímos de barco numa excursão para uma ilha no enorme lago Nahuel Huapi. O lugar era tão bonito que artistas de Walt Disney tinham viajado até ali em busca de inspiração para criar os cenários do filme Bambi. No entanto, não demorou para a viagem se tornar chata. Não conseguindo aguentar as piadas forçadas e as conversas sobre meu futuro, saí da cabine e fui me juntar a um grupo que estava jogando pão às gaivotas lá fora.
Cerca de meia hora depois, meu pai também saiu, aparentemente para acabar com a festa. O vento estava forte. “Richard, o que você está fazendo sozinho aí? Não está com frio?”
“Não. Pai, olha só que legal essas gaivotas mergulhando para pegar o pão.” Joguei um pedaço e uma das aves planando sobre o barco mergulhou a toda velocidade e conseguiu pegar a comida antes que caísse na água.
Rafael me deu um sorriso. “Vamos entrar para um chocolate quente?” Vendo que não tinha me convencido, emendou. “A gente conheceu um senhor inglês lá dentro que tenho certeza de que você vai gostar.”
“Por quê?”
“Porque ele é diretor de cinema.”
Bill era um cara grande nos seus cinquenta anos, largado, barba mal feita, olhos verdes e vivos e com um papo de bon-vivant. Se deleitando num copo de whisky, me contou que estava na América Latina fazendo um documentário para a BBC sobre um explorador que no século 19 havia viajado a cavalo desde a Argentina até os Estados Unidos. Quando explicou aquilo, achei que era a coisa mais incrível que alguém jamais poderia fazer – não ficar meses a fio andando a cavalo – mas viajar para rodar um filme. Decidi naquele momento que essa era a profissão que queria seguir quando crescesse.
*
De volta ao Rio, fiz um curso de Super 8 onde acabei escrevendo um roteiro e dirigindo um curta-metragem. O filme, “Cheque Mate”, combinava duas histórias paralelas: a de um homem jogando xadrez com uma pessoa que ninguém via, e o romance do mesmo personagem com um manequim feminino que tinha roubado de uma loja. Ao final do filme, ficava-se sabendo que o protagonista estava jogando contra a manequim de plástico. Ele joga o tabuleiro para o ar dizendo numa voz lenta e melancólica “Minha vida foi um jogo de xadrez.”
Como qualquer diretor moderno da época, nunca vou saber o significado de meu filme. Anos depois, fiquei lisonjeado ao ver um filme de Ingmar Bergman, O Sétimo Selo, e perceber estarrecido que tinha um enredo parecido ao meu. A diferença sendo que era um longa-metragem aclamado no mundo inteiro e o herói jogava xadrez com a morte.
Os organizadores do curso gostaram do resultado e acabaram levando o filme para vários festivais latino-americanos de cinema feitos por jovens, o que me encheu de esperança e de orgulho.
*
Quando entrei na fase mais hormonal da adolescência, meus amigos e eu começamos a usar o projetor para um tipo muito menos pretensioso de filme. Qualquer um que conheça do assunto vai concordar que os anos 1970 foram a era de ouro dos filmes pornôs: a depravação era autêntica e deixava garotos como a gente enlouquecidos. Havia centenas de filmes Super 8 suecos saindo clandestinamente das bancas de revista e indo para o fundo de nossos guarda-roupas. Por causa disto, meu projetor se tornou um equipamento raro e cobiçado na turma. Acabei tendo a ideia de emprestar o aparelho em troca de poder ficar com os filmes por alguns dias. Essa atividade secreta acabou sendo o começo do fim do meu sonho nunca concretizado de me tornar cineasta. Sem ninguém para compartilhar minha paixão, a carência de cursos decentes e a falta de encorajamento por parte de meus pais, meu interesse, embora sempre presente, acabaria se dissipando na psicose tropical.
*
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por Richard Klein | 30 maio, 2020 | Brasil, Crônica, Literatura
O presidente recém eleito, Jânio Quadros, lembrava o primeiro-ministro britânico do pré-guerra, Neville Chamberlain na aparência e na bizarrice, mas compartilhava com Churchill a fama de amante da garrafa. As massas o adoravam mas, apesar de servir seus interesses, a elite o ridicularizava pelos seus trejeitos exagerados e por sua inteligência medíocre.
Quando assumiu, o ciclo de crescimento econômico iniciado pelo seu antecessor, o carismático Juscelino Kubistchek, estava dando sinais de cansaço. Depois da euforia veio a ressaca econômica e com ela o descontentamento das classes que mais tinham se beneficiado dos anos de vacas gordas: os trabalhadores e a classe média emergente.
A freada no ritmo da melhoria da qualidade de vida dos brasileiros causou uma guinada à esquerda na preferência ideológica do país. Havia uma influência cada vez maior de sindicatos e de organizações trabalhistas na vida pública. Esses novos elementos fizeram com que as elites ficassem nervosas.
Talvez Jânio não fosse o melhor presidente para lidar com a situação. Ele tentou, à sua maneira, conciliar a crescente divisão política proibindo biquínis nas praias para agradar os conservadores de direita e reconhecendo a Cuba Castrista para agradar a esquerda. Essa decisão ousada foi fatal; além de fazê-lo perder o apoio da bancada direitista, em especial da UDN, a União Democrática Nacional, responsável pela sua chegada na presidência, o gesto chamou a atenção dos Estados Unidos.
Pressionado para fazer reformas populistas de um lado e para freá-las do outro, sem apoio no congresso, em 1961, Jânio renunciou na esperança de que o país se unisse para exigir o seu retorno. Isso nunca aconteceu e seu vice-presidente João Goulart tomou posse. Jango, como era conhecido, tinha fortes ligações com movimentos sindicais e com governadores de esquerda, como Miguel Arraes em Pernambuco e Leonel Brizola no Rio Grande do Sul. Contrariando interesses poderosos tanto fora quanto dentro do Brasil, assim que assumiu, deu início a um projeto de nacionalização de setores importantes da economia, apostou na educação das camadas menos privilegiadas e contemplou políticas abrangentes para melhorar a distribuição de renda.
No pano de fundo estava a ainda muito recente Revolução Cubana. Confrontando a hegemonia dos Estados Unidos na a América Latina, o levante trouxe a Guerra Fria para o continente. Na opinião da esquerda, Cuba havia demonstrado que a região tinha a capacidade de gerir o seu próprio destino. Em contrapartida, para as potências dominantes, países governados por revolucionários rejeitando a sua tutelagem e focados em cooperação ao invés dos lucros de uma minoria eram inaceitáveis. Washington fez tudo para esmagar o exemplo, impondo um embargo comercial, ajudando exilados numa invasão fracassada e tentando assassinar seu líder. O único resultado dessa tática foi o de empurrar os cubanos cada vez mais para perto da União Soviética e essa aliança tornou uma América Latina socialista – ou mesmo comunista – uma possibilidade assustadora, porém bastante real.
Situações parecidas com a qual o governo de Jango ameaçava não eram novidade e haviam sido revertidas por golpes de estado. Os primeiros apareceram no Irã no início dos anos 1950 e no Iraque quando estes resolveram nacionalizar suas reservas de petróleo. Pouco depois, Colômbia, Venezuela, Guatemala, Síria e Nigéria entre outros países, sofreram o mesmo quando resolveram enfrentar a ordem econômica estabelecida. O que todos tinham em comum eram pactos entre elites locais e potências mundiais interessadas nas riquesas naturais dos países em questão.
No caso brasileiro, os Estados Unidos estavam determinados a manter o maior país da América do Sul “livre”. Com apoio americano, os poderosos iniciaram uma conspiração para garantir sua permanência no comando do país. Para tanto, seguiram a mesma receita que Rafael tinha presenciado na Alemanha nos anos 1930. O primeiro passo foi conquistar a opinião pública. Distorcendo a verdade e apostando nos preconceitos dos leitores, a imprensa envolvida passou a retratar uma crise profunda na economia e uma ruptura nos valores tradicionais da sociedade. Em paralelo, começaram a “denunciar” a desonestidade dos dirigentes e sua inabilidade em restaurar a ordem. Pessoas comuns passaram a acreditar na imagem contraditória de uma liderança ao mesmo tempo corrupta e disposta a impor uma ideologia totalitária, destruidora da propriedade privada e nociva à herança cultural e religiosa do país. Os “cidadãos de bem”; sensatos, trabalhadores e honestos passaram a ver o governo de Jango como um inimigo. Agora, precisavam de um salvador da pátria acima do sistema político viciado e corrupto demais para resolver os gravíssimos problemas. Em 1964, esse “salvador” seria o exército.
No início de Abril, tropas e tanques foram para as ruas das principais cidades do país, onde os militares “revolucionários” não encontraram qualquer resistência organizada que os desafiasse. Ainda que os líderes do “movimento” declarassem que seu objetivo fosse restaurar a democracia livrando o Brasil do comunismo, o país precisaria de mais de duas décadas para voltar à normalidade política.
Assim que tomou posse, o novo regime exilou o presidente Goulart e seus aliados, além de perseguir e prender personalidades públicas e ativistas de esquerda. Como é comum em golpes de estado, enquanto a atenção se voltava ao drama político, passaram uma legislação revertendo os direitos dos assalariados e privilegiando os interesses dos grandes grupos econômicos que patrocinaram a mudança de regime.
Apesar da indignação de intelectuais e de pessoas mais esclarecidas houve, no início, uma indiferença geral dentro da classe trabalhadora. Por outro lado, os militares encantaram a comunidade dos negócios, inclusive Rafael. Para eles, o Brasil precisava se modernizar, imitar os americanos e alcançar o seu potencial econômico: o gigante tinha que acordar. Com os militares, amigos do “mercado”, no poder e com a orientação e a simpatia do Tio Sam – que na época financiava prosperidade como uma arma para enfrentar os avanços da esquerda – haveria um final feliz onde todos iriam enriquecer.
*
Por suas mudanças terem beneficiado apenas os muito abastados, por não terem cumprido com a palavra de restaurar a democracia e pela corrupção ter aumentado em vez de ter diminuído depois do golpe, quatro anos mais tarde, em 1968, a sociedade civil brasileira se levantou em oposição ao regime.
Os protestos partiram de movimentos universitários inspirados na explosão do espírito revolucionário pelo mundo afora. Na mesma época, em pontos tão diversos como Paris, Chicago e Praga, a juventude estava tomando as ruas para reivindicar um mundo mais justo e mais livre. Embora a maioria silenciosa os considerasse sonhadores inconsequentes, as autoridades os levavam a sério. Tendo em conta o sucesso de vários movimentos revolucionários acontecendo na época, obcecados com a ameaça comunista e ouvindo ecos da Guerra Civil Espanhola, da Revolução Chinesa, da Revolução Russa e mesmo da Francesa, o complexo financeiro, industrial e militar acionou suas defesas.
No Rio de Janeiro a tensão estava borbulhando. Depois que a polícia baleou e matou um estudante, uma passeata 100 mil pessoas, incluindo artistas e intelectuais de peso, tomou conta da avenida Rio Branco no centro da cidade. Esta foi a maior manifestação contra um governo já vista no Brasil. A oposição se alastrou tão rapidamente que mesmo alguns deputados no congresso, agora tutelado pelos militares, passaram a criticar abertamente o governo.
A resposta do regime foi brutal; ignorando a constituição, publicaram o infame AI-5 – Ato Institucional Número Cinco – dissolvendo o congresso e o senado e dando total autoridade executiva e judicial ao presidente. Logo em seguida prenderam membros da oposição, líderes estudantis e jornalistas. A tortura tornou-se prática comum e quem pôde fugiu para o exílio.
Acuados, alguns estudantes passaram à clandestinidade e se juntaram às guerrilhas urbanas. Nelas, treinados em Cuba e em outros satélites soviéticos, organizaram bem-sucedidos assaltos a bancos e sequestros. Em 1969, depois do sequestro do embaixador americano no Rio e de ataques a bomba em quartéis militares, as autoridades intensificaram a repressão. Pessoas começaram a desaparecer, incluindo o filho do nosso médico de família. Por outro lado, núcleos embrionários de milícias revolucionárias partiram para o campo tentando emular a Revolução Cubana. Em uma ocasião, no começo dos anos 1970, o exército brasileiro enviou uma divisão de cerca de 10.000 soldados para capturar uns vinte jovens maoístas na remota região do rio Araguaia. As forças armadas acabariam por executar a maioria dos militantes capturados.
Esses eram tempos obscuros em que tudo era censurado: livros, peças de teatro, filmes e músicas. Os regime também controlava com rédea curta o conteúdo dos jornais e das estações de rádio e de televisão. Intuindo a tensão mas sem ter informações, as pessoas fantasiavam. Havia todo tipo de teorias circulando sobre o alcance do poder dos guerrilheiros, possíveis alianças militares com Cuba, China e União Soviética, ligas de camponeses prestes a invadir as cidades trazendo desapropriações e pelotões de fuzilamento para os ricos.
Como tudo na vida, quando a imaginação substitui a realidade nada de bom vem à tona. Nesse caso, tanto os militantes quanto seus repressores superestimaram o que minúsculos grupos de extremistas poderiam alcançar num país tão grande e tão complexo como o Brasil. Juntos, jogaram o país num período de trevas. A polícia e o exército montaram departamentos com amplos poderes para espionar a população e para coibir qualquer tipo de oposição. Entre eles estavam o SNI, o Serviço Nacional de Informações e o Destacamento de Operações Internas, DOI-Codi, em cujas dependências presos eram torturados, alguns até à morte. Também reativaram o DOPS, Departamento de Ordem Pública e Social, criado por Getúlio Vargas para esmagar seus adversários e agora utilizado para aterrorizar qualquer atividade contrária à ditadura.
*
O final dos anos 1960 foi um tempo politicamente intenso não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Havia uma forte consciência social, revoluções, guerras e guerrilhas pela liberdade e pela igualdade e um aprofundamento da guerra fria no planeta inteiro. Paradoxalmente, este foi o período de maior prosperidade econômica que o ocidente conheceu. Essa bonanza veio acompanhada de uma redistribuição de renda inédita e uma consequente ampliação gigantesca do mercado consumidor. Foi nesse contexto que o mercado jovem nasceu. Esta leva de novos consumidores abastados, filhos da vitória contra o nazi-fascismo, sem vínculos com o passado e ávidos por novidades, sacudiriam as bases dos valores tradicionais e inaugurariam o uso de inúmeras novas tecnologias.
A efervescência daqueles tempos afetaria a todos de uma maneira ou de outra. As novas gerações se veriam obrigadas a escolher entre serem agentes das mudanças ou serem defensores da situação. Muitos se esbaldariam na explosão de drogas ilícitas e no sexo livre facilitado pelo aparecimento da pílula anticoncepcional.
No Brasil, com a impossibilidade de se resolver as coisas pela via política, a contracultura surgiria como talvez a única alternativa de se manter vivo o germe da resistência fosse através da arte ou de atitudes. O slogan que sintetizaria aquele tempo foi “Seja marginal, seja herói!” do artista plástico Hélio Oiticica.
Considerada inofensiva pela repressão por não representar nenhuma organização política, a contracultura, além de conseguir manter uma certa distância da censura, tinha atrativos comerciais. Apesar do tempero subversivo, gravadoras e outros empreendedores da área cultural não hesitaram em explorar as oportunidades oferecidas por seu forte apelo, tanto artístico quanto ideológico, junto ao lucrativo mercado jovem. Essa aliança forçada entre revolução e lucro proporcionaria uma explosão de talento que daria luz a um dos períodos culturais mais criativos e pungentes da história, tanto nacional quanto internacional.
Apesar da repressão brasileira ter sido vitoriosa em abafar uma possível reviravolta política com censura, exílio, tortura e prisão, ela não contava com um porém; as ideologias de revolução tinham se tornaram dominantes na cultura jovem do mundo “desenvolvido”. Vindas dos mesmos países que patrocinaram o golpe, elas eram parte do pacote cultural apresentado à juventude privilegiada pela ditadura. Não dava para tapar o sol com a peneira. No país inteiro, qualquer pessoa munida com um dicionário tinha acesso às vozes dos contemporâneos estrangeiros, fosse em discos, livros, em revistas ou mesmo em filmes que conseguiam driblar a censura.
Embora a América fosse a maior responsável pela derrubada da democracia brasileira, sua juventude estava na vanguarda dessa rebelião. Eles tinham sofrido o seu próprio golpe com os assassinatos mal explicados do presidente John Kennedy, do seu irmão Bob Kennedy e do reverendo Martin Luther King, todos defensores de uma América mais próxima dos ideais libertários e progressistas dos seus fundadores. Isso, junto com a possibilidade de serem mandados para a Guerra do Vietnã – um conflito que visava tão somente manter os interesses americanos na região – criou um enorme contingente de jovens inconformados.
A manifestação maior dessa onda contestatória aconteceu na música, mais especificamente o rock, que na época tinha um forte caráter revolucionário. O paradoxo de protestos nas ruas gerando uma demanda comercial por vozes subversivas, abriu espaço para ícones tais como Bob Dylan, Arlo Guthrie e Joan Baez. No Reino Unido, as superestrelas dos Beatles e dos Rolling Stones interessadas em atingir esse novo público e a dizer alguma coisa mais profunda do que canções românticas, juntaram forças com a rebelião. Ajudados por estratégias de marketing modernas e orçamentos milionários, expuseram a contestação no coração do sistema, num palco muito maior do que qualquer revolucionário de outrora jamais teria sonhado.
Talvez seja difícil de entender no cínico mundo de hoje que no auge das suas carreiras aqueles roqueiros genuinamente acreditavam que suas criações faziam parte de um movimento mais amplo para derrubar o status quo. A presença de novas tecnologias em sua música reforçou sua imagem de catalisadores de grandes mudanças. As possibilidades sonoras inéditas permitiram que o espírito revolucionário fosse espalhado nas guitarras distorcidas de gênios musicais como Jimi Hendrix, Jimi Page e David Gilmour, cujos solos forneceram uma trilha sonora – e mesmo um lado espiritual – a esse momento excepcional.
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Essa foi a educação musical da minha geração. Eu tinha oito anos quando os Beatles se separaram; Led Zeppelin lançou Stairway to Heaven quando tinha nove; os Rolling Stones lançaram Exile on Main Street quando tinha dez e o álbum Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, foi lançado quando tinha onze. Para alguém de origem judaica tradicional crescendo numa uma ditadura militar, esses foram mísseis aterrissando no meu toca-discos. No entanto, igual aos programas matutinos do Haroldo de Andrade que ouvia quando criança, ninguém da família, nem a maioria dos meus amigos, conseguia entender como alguém poderia gostar daquele “barulho”. Dessa vez, nem a empregada estava do meu lado.
Apesar da incompreensão, era como se um circo mágico musical tivesse parado na esquina de casa. Queria fugir com ele. Não estava sozinho nessa busca, milhões de outros jovens pelo mundo afora também estavam sintonizados nessas mudanças. Muitos acabariam mais próximos uns dos outros do que das suas próprias famílias.
Trancados no quarto, ouvindo rock, se sentindo oprimidos por nossos pais e professores, meus irmãos de geração digeriam as palavras de ordem nos seus postos avançados. A mensagem era clara: resistir aos caretas, lutar para sermos nós mesmos e subverter os planos que o sistema tinha reservado tanto para nosso futuro quanto para o futuro do planeta.
No Brasil, a repressão acabaria percebendo que havia algo no ar mas não conseguia dizer ao certo o que era, muito menos sabia como lidar com aquilo. Podiam prender um hippie por fumar maconha, um militante por suas ações ou pelos seus livros, mas não dava para acabar com a insatisfação com a pequenez do mundo. Como nossos pais, torciam para que fosse fase de adolescente e que depois nos juntassemos docilmente ao rebanho.
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