Samba Perdido – Capítulo 7 parte 1

Capítulo 07

 

“... choram
A nossa pátria mãe gentil,
Choram Marias e Clarices,
No solo do Brasil.”

Aldir Blanc   – O Bêbado e a Equilibrista 


Numa época em que Brasília ainda era um lugar onde ninguém queria morar e que São Paulo ainda estava se firmando como o pólo econômico do país, o Rio de Janeiro era de longe a cidade predileta dos expatriados no Brasil. Lá eles viviam muito bem nas margens da elite social carioca. Embora os dois grupos morassem e trabalhassem lado a lado, se vissem como equivalentes sociais, tivessem ambições parecidas e até os mesmos preconceitos, não se frequentavam, não eram sócios dos mesmos clubes, tinham interesses distintos e encaravam a vida de modos bem diferentes.

Talvez corretamente, a maioria se sentia num contexto colonialista. Porém, apesar das origens diversas, tinham em comum um olhar crítico vindo de realidades sociais e econômicas mais avançadas. Unanimamente achavam que, apesar dos esforços de modernização, a gritante desigualdade social caracterizava mais do que tudo o atraso do seu país de adoção.

O que mais os chocava era a atitude dos privilegiados perante o fosso medieval que os separava do povão e sua suposição de que isso fosse meritocrático e um fato imutável e natural. A contra gosto, ou em alguns casos com deleite, aprendiam logo que a única maneira de se conviver com essa disparidade era encarar os menos favorecidos como seres inferiores e facilmente exploráveis; tão ignorantes que nem conseguiam perceber, quanto menos entender, o óbvio.

A herança escravista, entranhada na formação do país e normalizada no seu cotidiano, criava uma ilusão de resignação cordial por parte da população humilde. Porém, observadores mais aguçados percebiam logo a resposta sutil porém onipresente. Ela vinha dissimulada na forma da malandragem; na falsa reverência, na palavra certa para se sair bem de uma situação difícil, no jeitinho, na desonestidade pequena o suficiente para não ser pego e no oportunismo. Apesar de não ser ódio de classe, apenas instinto de sobrevivência, essa atitude era um terreno fértil para a consciência de classe.

Confortáveis com esse teatro, Renée e Rafael mantiveram uma distância segura desse aspecto da vida brasileira. Caberia a minha irmã e a mim se adaptar sem orientação a esses códigos – ou à falta deles.

Meu despertar foi brusco.

*

O conhecidíssimo Clube de Regatas do Flamengo fazia parte de um enclave de vários clubes de classe média alta localizados no coração da Zona Sul carioca. Como os demais, ficava às margens da imunda, porém belíssima, lagoa Rodrigo de Freitas e próximo ao nosso próprio Paissandu, ao Clube dos Caiçaras, ao Clube Monte Líbano, à Associação Atlética Banco do Brasil, ao Clube Piraquê, ao Clube Militar, ao Jockey Club e à Sociedade Hípica Brasileira.

O Flamengo era o maior deles. Era popular não só por causa da imensa torcida do seu time de futebol mas também por ser o mais acessível financeira e socialmente na vizinhança. Apesar de não oferecer quadras de tênis nem áreas exclusivas, numa época sem academias de ginástica, ele era o único a possuir instalações esportivas de qualidade. Essas instalações incluíam um pequeno estádio de futebol – onde craques como Júnior e Zico treinavam – uma área dedicada ao remo, salas de musculação, saunas e duas piscinas olímpicas onde alguns dos melhores nadadores brasileiros haviam se formado. Era lá que tinha aulas de natação três vezes por semana.

Após as aulas, voltava a pé para o Paissandu que ficava no quarteirão de baixo. Apesar do tráfego constante e da caminhada ser curta, era considerada perigosa, propícia a assaltos. As calçadas eram desertas; não haviam lojas, escritórios ou qualquer tipo de vida pública ao redor, somente muros altos de concreto protegendo os clubes. Dito e feito, um dia no caminho vi três garotos que pareciam favelados se aproximando com a cara fechada. Pressenti o perigo, mas como não tinha para onde correr, olhei para baixo e fui em frente.

Quando a gente se cruzou, o mais alto e mais velho deles parou na minha frente, me olhou de cima e perguntou, “O que é que tu tem dentro dessa bolsa aí, playboy?”

“Nada, tô voltando da minha natação.” respondi preparado para o inevitável.

Sem se dar ao trabalho de me ouvir ele foi logo dizendo: “Me dá essa porra aqui!”

Ainda tentei segurar a bolsa, mas um dos outros dois me deu uma rasteira. Já no chão, vi os três desaparecendo na esquina com meus pertences.

Havia somente uma toalha molhada e uma sunga dentro, mas o sentimento de impotência por não ter sido forte ou corajoso o bastante para reagir foi traumático. Cheguei no clube em prantos. Quando minha mãe me viu, baixou o seu instinto de indignação britânica e fomos direto prestar queixa na delegacia de polícia que ficava do outro lado da rua.

Entramos lá, eu envergonhado de ter chorado e a Dona Renée exalando o seu ar de superioridade. Assim que entrou, exigiu que o recepcionista desinteressado nos levasse para falar com o delegado. Fomos com ele ao andar de cima e depois de uns minutos na sala do chefe, o auxiliar saiu e nos mandou entrar. Talvez em resposta à insistência arrogante da minha mãe, o delegado nem se deu ao trabalho de se levantar e pediu que a gente se sentasse para explicar o que estavamos fazendo ali. Sem esperar que terminássemos, quase nos ignorando através dos seus óculos escuros, o homem barrigudo, moreno e de bigode espesso deu um suspiro impaciente, abriu uma gaveta e atirou na nossa frente um álbum com fotos de bandidos perigosos para ver seu eu reconhecia algum.

Ele olhou debochado para a minha mãe e depois para mim. “Aqui tem fotos de assaltantes à mão armada. Reconhece algum?” Ele foi virando as páginas. “Este aqui a gente pegou num assalto no ano passado, mas soltaram ele há pouco tempo. Foi ele?”

Fiz que não com a cabeça.

“E este aqui? Assaltante de banco, reconhece?”

Depois da sessão de humilhação, com a desculpa de que tinha coisas importantes para fazer, o policial pediu para que a gente se retirasse sem sequer prometer que iria tentar fazer alguma coisa.

*

A delegacia era uma construção amarela desbotada que mais parecia uma casamata. Em cima da entrada, tinha uma insígnia com a inscrição “14ª Delegacia de Polícia” explicando a todos o que era aquele prédio destoante. Na sua calçada de terra batida sempre havia várias viaturas estacionadas. Do outro lado da rua, ficava uma igreja mal cuidada na esquina de um beco, a Cruzada São Sebastião. Nele se encontrava o único conjunto habitacional da vizinhança. Esse era, sem sombra de dúvida, o lugar mais perigoso do Leblon; para nós uma zona proibida.

Seus moradores eram remanescentes da favela da Praia do Pinto, que até meados dos anos 1960 ficava no meio de todos aqueles clubes requintados. Pouco depois do Golpe Militar de 1964, após tentativas “pacíficas” de remover os habitantes, as autoridades militares autorizaram que ateassem fogo aos barracos. Após a destruição, o terreno foi convenientemente repassado a empreiteiras camaradas limparem e aterrarem a área para depois construírem edifícios elegantes. As famílias que se mudariam para lá seriam na sua maioria de militares de médio escalão.

Os ex-favelados que se recusaram a mudar para subúrbios longínquos foram transferidos para o outro lado da rua onde, além da igreja, construíram aquele projeto social de prédios de oito andares. Suas novas acomodações rapidamente adquiriram um ar dilapidado que junto com a sua arquitetura minimalista, fizeram o lugar parecer um complexo penitenciário. A barra ali era pesada. Além dos locais, só camburões e outros veículos policiais se aventuravam beco a dentro.

Na calçada oposta às construções, havia um muro alto coroado por uma grade coberta por arame farpado. Ele separava aquele território de raiva engasgada de nosso campo de futebol de salão no Clube Paissandu.

Era lá que jogávamos nossas peladas na mesma hora em que os meninos da Cruzada jogavam as deles. Dava para ouvi-los claramente. Volta e meia alguém exagerava numa bola dividida ou num chute forte sem pontaria e a  nossa bola ia parar do outro lado do muro. Quando isso acontecia, a gente dava a partida por encerrada já que a bola quase nunca voltava. Como revanche, o mesmo valia para as deles que a gente só devolvia se tivessem devolvido a nossa recentemente. Aconteciam ocasionais trocas de pedras e de palavrões e, às vezes, meninos mais atrevidos subiam no muro para nos ameaçar, porém quando faziam isso, se tornavam alvos fáceis para boladas.

*

Garotos como aqueles da Cruzada e como meus assaltantes trabalhavam no Paissandu como boleiros de tênis. Muitas vezes seus pais trabalhavam no clube também. Sem exceção, eram mais bem preparados fisicamente do que o mais forte e o mais bem preparado de todos nós. Às vezes combinávamos de jogar contra eles, mas era o mesmo que ficarmos sentados aprendendo com a sua magia futebolística legitimamente brasileira.

Apesar de, entre a gente, fazermos piadas do seu português errado, dos seus tênis furados e da sua ignorância, os respeitávamos em segredo. A verdade era que todo homem da classe média carioca tinha inveja do arquétipo do homem negro da favela, admirado por ser bom de bola, de briga e de samba, idealizado como viril, com um monte de gostosas de todas as cores e classes sociais correndo atrás deles. A única característica “positiva” que lhes faltava era, é claro, a nossa educação cara e a nossa pele branca.

Em nossa bolha, era fácil esquecer que aqueles que víamos como favelados eram a maioria absoluta da população carioca. Apesar disso, não tinham o mesmo grau de cidadania e somente adquiriam respeitabilidade como estrelas do futebol, artistas e mais tarde, para alguns, como traficantes. Senão, eram elementos secundários nos nossos lares, nos nossos clubes, nas nossas escolas, nos escritórios, nas repartições públicas e mesmo na praia, como vendedores ambulantes. Nas horas de lazer eram passistas de escolas de samba, frequentadores de praias longínquas, pedintes e assaltantes. Para alguns, quase todos eram marginais esperando para serem presos, fazendo por merecer o seu destino por serem preguiçosos, desonestos e depravados. A atitude parecia com a dos brancos para com a população negra na África do Sul durante o apartheid.

*

As empregadas domésticas – resquícios da época da escravidão, terminada apenas 74 anos antes de eu nascer – encarnavam a ligação entre os dois mundos. Todo mundo que conhecia tinha pelo menos uma. Todo apartamento, por mais modesto que fosse, vinha com uma área de serviço para elas. Uniformizadas, essas mulheres limpavam a nossa casa, lavavam a nossa roupa, cozinhavam a nossa comida e comiam nossas sobras. Quando chegava a noite, se isolavam nas áreas de serviço e iam dormir em quartos abafados e sem janelas tendo como confortos ventiladores pequenos, crucifixos na parede e rádios baratos. Do lado de fora, tábuas de passar, vassouras e roupas sujas as aguardavam para o dia seguinte.

Quando era pequeno, uma das várias domésticas que passaram por nossas vidas colocava seu emprego em risco trazendo seu filho em segredo para morar escondido em nosso apartamento nos dias de semana. De acordo com o rígido código de conduta, isso estava totalmente fora dos limites. Eu era novo demais para conhecer tais regras e me tornei o único da família a saber da presença do meu amigo secreto que me seguia por todo lado, mas que se escondia atrás das cortinas quando o resto da família estava em casa. Um dia Renée descobriu o garoto e não teve dúvidas nem tolerância: despediu a mulher no ato. Essa atitude severa estava de acordo com a ética da época e do lugar. Todos os vizinhos e amigos apoiaram a decisão.

Por outro lado, nossa última empregada, Dona Isabel, ficou conosco por mais de vinte anos. Ela era a versão brasileira da Mamãe Dois Sapatos, a doméstica do desenho animado Tom e Jerry – negra retinta, baixa e troncuda, com um traseiro gigantesco que balançava pesado em cima de suas pernas grossas e tortas. Por conta da convivência diária, era comum que surgissem laços afetivos entre as domésticas e gente da família e, certamente, esse foi o caso de Dona Isabel com a Sarah e eu. A considerávamos como uma segunda e mais compreensiva mãe. Mesmo assim, o reconhecimento tácito de sua condição estava sempre presente. Enquanto trabalhou com a gente nunca se sentou conosco na sala de estar como também nunca saímos juntos. Tudo o que sabíamos a respeito da sua vida particular é que vivia num subúrbio afastado com um “sobrinho”, que tinha crescido em uma fazenda em Minas Gerais, que encontrava consolo no Candomblé e que tinha trabalhado para o líder integralista Plínio Salgado. O engraçado é que apesar de não saber nem ler nem escrever, esperta, ela aprendeu a entender inglês e volta e meia nos surpreendia com frases na nossa língua.

*

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Samba Perdido – Capitulo 06, parte 02

Nietzsche, o filósofo anti-religioso alemão, escreveu que grandes mudanças entram em nossas vidas como pombos pisando leve ao entrar em uma catedral, ou talvez no caso uma sinagoga. Tudo começou com uma inocente partida de futebol. Todas as terças e quintas a Escola Britânica nos levava a um campo de futebol oficial em Botafogo. Tal como a confusão que estava por acontecer, tudo naquelas partidas era desproporcional: o campo era grande demais para meninos de dez anos e a distância entre as traves era grande demais para os goleiros. Quando driblávamos um adversário e olhávamos adiante, ainda parecia haver quilômetros para se chegar ao gol. Para os passes, quase não dava para ver os companheiros e as corridas eram exaustivas. Para piorar as coisas, o professor levava as nossas atuações a sério e parava tudo para marcar o menor dos erros.

Foi um alívio ouvir o apito final. Não via a hora de pegar o ônibus da escola que nos levaria ao clube Paissandu onde iria jogar uma nova partida muito mais agradável de futebol de salão. Quando entrei o motorista perguntou meu nome, olhou a lista e me mandou descer. Alguém na secretaria tinha se confundido e havia me colocado na lista das crianças que iam voltar para casa em vez das que iam ao clube. Em pânico, sem saber o que fazer e ansioso pela confusão que o erro ia causar, contei o problema ao professor mas ele disse que não podia fazer nada. Sem querer aceitar um não como resposta, pedi uma carona a um amigo que estava indo para o clube após sua aula de judô na escola. Ele disse que sim e o professor concordou, mas não deve ter contado para mais ninguém.

Voltamos para a escola onde todos, fora nós dois, pegaram seus ônibus para casa. Fiquei uma entediante hora e meia no pátio vazio assistindo o instrutor jogando o Martin para lá e para cá ao redor do tatame.

Depois da aula, quando sua mãe chegou e ouviu sobre a carona, deu uma bronca no filho dizendo que ele sabia que não ia ao clube depois do judô. Com pressa de voltar para um compromisso em casa não ia dar para me levar até o Leblon. Contudo, entendendo a situação que o filho tinha me colocado e sabendo que não tinha como me deixar sozinho na escola, ela se viu obrigada a me dar uma carona até Copacabana, que ficava mais à mão. A caminho de casa, fiquei pensando no tamanho do problema.

Quando não apareci no clube com o ônibus escolar, dona Renée telefonou a escola para perguntar o que havia acontecido. Alguém atendeu e deu a resposta inacreditável de que não ninguém sabia. Essa era uma época em que a guerrilha urbana sequestrava estrangeiros para trocá-los por camaradas na prisão. Obviamente não pertenciamos ao grupo de risco – diplomatas e altos executivos – mas a paranoia fez com que Renée saisse ligando para todo mundo.

Ao me ver chegar em casa, a empregada já enlouquecida pelos telefonemas incessantes da patroa, entrou em parafuso. Alguém teve a ideia de me colocar num táxi para ir ao clube. Ela e o porteiro, Zé, desceram na rua e chamaram o primeiro que apareceu. Da minha parte, aquilo era uma aventura eletrizante; ali estava eu, com dez anos de idade, andando de carro sozinho com um motorista desconhecido e me abaixando sempre que passávamos por policiais porque, na minha cabeça, aquilo era ilegal.

Quando minha mãe descobriu o que havia ocorrido, ficou furiosa. As coisas pioraram quando ficou sabendo que o novo diretor, um ex-oficial disciplinador da Marinha Real, havia me culpado pelo incidente. Começaram a aparecer avisos nos murais dizendo que todos podiam fazer isso ou aquilo menos eu porque que era um irresponsável. Meus pais decidiram que a marcação era inaceitável.

Foi assim que deixei o casulo protetor da Escola Britânica para entrar no universo escolar brasileiro. Na verdade, o início da experiência não foi cem por cento brasileiro. Meus pais resolveram me colocar numa escola judaica, o Eliezer Steinbarg, uma aposta segura, até que soubessem o que fazer comigo. De minha parte, a mudança foi bem-vinda. O porém é havia obstáculos; as salas tinham pelo menos o triplo de alunos, as aulas eram em português, o currículo era mais avançado em ciências e em matemática e havia matérias que teria que começar do zero: o hebraico com seu alfabeto diferente, o iídiche e a história judaica. Quando a poeira baixou me dei conta de que, igual na Escola Britanica, era bem diferente dos meus colegas. Como era de se esperar, diante de minha situação social frágil havia novos inimigos a encarar.

*

Apesar da escolha da escola judaica e da herança cultual, meus pais – assim como todos seus amigos – se viam como ateus. No entanto, quando ficou patente que a estadia no Brasil era permanentemente, decidiram utilizar a religião para dar aos filhos um senso de identidade. Os rituais foram ficando mais presentes. Começamos a acender velas de Shabbat nas noites de sexta-feira e a observar os feriados religiosos mais importantes. Nos tornamos sócios de uma sinagoga, a ARI, a Associação Religiosa Israelita, uma congregação não-ortodoxa de judeus asquenazis – provenientes da Europa do Leste.

Embora fosse divertido encontrar amigos no templo, detestava a formalidade pretensiosa daquela congregação orgulhosamente pertencente à classe média alta. Nas datas importantes o lugar lotava. Igual a todos, íamos para marcar presença. Tinha que colocar minhas melhores roupas e ficava incomodado de ter que andar pelas ruas de Copacabana parecendo um principezinho boióla enquanto todos continuavam levando suas vidas normalmente.

No dia mais solene do calendário religioso, o Yom Kippur – o dia do perdão – a nação inteira jejuava por vinte e quatro horas e a vida girava em torno de súplicas pelo perdão divino. Na ARI, os adultos permaneciam dentro da Sinagoga se submetendo à uma maratona interminável de sessões de orações. Conforme o dia ia passando, lutavam contra suas culpas e contra a fome e a sede crescentes. Enquanto isso, meus amigos e eu ficávamos do lado de fora, de saco cheio sem ter o que fazer.

O ponto alto do feriado – e do calendário Judaico – era seu fechamento apoteótico. Concluídas as vinte quatro horas de jejum, rezas e meditações silenciosas, fechavam a arca que guardava os textos sagrados. Em seguida o rabino chamava um especialista para tocar o Shofar; um chifre de carneiro transformado em instrumento musical. Seu toque ritual soava como um trompete alto. Aquele som era como um chamado de um passado longínquo no deserto, conclamando o povo nômade a despertar para algo que ainda estava mais vivo que nunca.

*

O único milagre alcançado nessa, e em outras, datas importantes era o de nos sentirmos mais judeus. No entanto, acima das tradições religiosas e da memória do Holocausto, naquela época o que mais unia a nação era o Estado de Israel. O mundo havia ensinado à geração de meu pai que, se você fosse um judeu vivendo numa terra estrangeira o povo local podia atirar você e sua família numa câmara de gás por ódio e por preconceito. Fariam isso sem se importar no que você acreditasse ou como você fosse enquanto indivíduo. Tudo isso dentro da lei e com a benção do Estado. Para aquela geração, uma pátria judaica era a única forma de garantir a sobrevivência dos seus descendentes. O fato de que isso tivesse acontecendo na terra prometida ao seu povo na Bíblia era nada menos do que intervenção divina.

Com os triunfos militares, veio a transformação de uma nação de vítimas indefesas em uma potência militar. Uma febre eufórica varreu o mundo judaico e nossa casa não foi exceção. Rafael só lia livros escritos pelos líderes sionistas e fazia doações generosas à causa. Em nossos círculos, a mera menção dos palestinos era considerada traição. Mesmo assim, uma parte de mim não comprava aquele entusiasmo. Por toda a história da “terra prometida”, pouquíssimas partes envolvidas em seus inúmeros e infindáveis conflitos entenderam que estabilidade e segurança exigem compromissos. Uma agenda nacionalista de ateus usando a Bíblia como justificativa para tomar posse exclusiva de uma terra alheia considerada santa pelas três maiores religiões do mundo, lar de uma população que vivia lá a séculos, pronta para lutar para reaver o que era dela, acabaria certamente em tragédia.

Pude ter uma ideia clara sobre a vida em Israel por intermédio de um de meus melhores amigos, Uri. O pai dele, Ossi, cunhado do Paulo, trabalhava com meu pai. Quando jovem, serviu o exército de Israel na guerra da independência e veio para o Brasil logo depois. Nascido e criado na França, com um charme a lá Humphrey Bogart fazia sucesso com as brasileiras. Porém, como mandava a tradição, acabou se casando com uma belíssima ex-atriz israelense, mãe do Uri e do seu irmão mais novo, Dicki. O casamento acabou não dando certo e ela voltou para sua terra com os filhos

Os irmãos não queriam ir. Também não queria fossem, éramos como família. Pelo menos a amizade sobreviveu já que os dois passariam a vir todos os anos para o Rio a fim de passar as férias com o pai. os dois me fizeram ver como era difícil a vida na “Terra Prometida”. Israel era um país sitiado, sempre em pé de guerra, com alistamento obrigatório de três anos para todos os meninos e todas as meninas e com constantes ações e ameaças terroristas. Os irmãos  me fizeram reconhecer a sorte de estar crescendo no Rio. No entanto, o que mais chamava a atenção sobre a maneira deles encararem o conflito, era que enxergavam os palestinos como seres humanos, mesmo durante e depois de servirem o exército. Por outro lado, Rafael e seus amigos – que nunca teriam que enfrentar um inimigo armado em um campo de batalha – os enxergavam como sub-humanos e tinham opiniões muito mais agressivas. Eu via em Uri e em seu irmão uma forma mais saudável de ser judeu, livre da claustrofobia da comunidade judaica do Rio de Janeiro. Aquela perspectiva me ajudou a impedir que o antissemitismo, real ou imaginário, moldasse meu caráter.

*

Como é o caso com qualquer garoto “brimo”, quando fiz treze anos chegou a hora do meu Bar Mitzvá. Nessa cerimônia de iniciação seria convidado a ler das escrituras sagradas na frente da comunidade. O primeiro passo foi conseguir um professor. Nossa preferência era o cantor principal da sinagoga, o chasan Aaronson, um homem imponente com uma voz poderosa. Ao entoar as preces com sua voz ensurdecedora, balançava seu corpo freneticamente enquanto contorcia seu rosto. Inacreditavelmente, o cuspe que jorrava da sua boca acabava parando até em seus óculos fundo de garrafa. O problema era que suas aulas eram caras demais. Daí partimos para a segunda opção: um cantor baixinho e gorducho, também por volta dos 60 anos, que também usava óculos fundo de garrafa mas que cantava mais introspectivamente e usava uma indumentária menos dramática. Seu status era secundário, principalmente depois de caír em desgraça pelo de seu hábito de cochilar em frente à congregação em ocasiões importantes.

No começo fiquei fascinado pelas aulas. A parte da Torá que ia recitar versava sobre o ano sabático, algo que a partir dali consideraria um conceito utópico que, caso adotado, colocaria o mundo de volta nos trilhos. A lei ditava que a cada sétimo ano, todos os israelitas – bem como sua terra e seus servos – deveriam descansar por um ano inteiro. Ao fim de 49 anos, isto é, depois de sete sabáticos, quem quer que houvesse comprado terra nesse período, deveria devolver a propriedade aos donos originais para que, no final, ninguém se tornasse mais rico ou pobre que os demais.

O professor dava aulas em casa em Laranjeiras, um bairro para mim afastado. As lições eram num quarto abafado cheirando a mofo. Nelas, aprendia como cantarolar meu trecho em hebraico bíblico. Ficávamos repassando aquilo uma vez atrás da outra, sentados em cadeiras desconfortáveis e nos escorando numa velha mesa de madeira coberta de pilhas de livros religiosos. Depois da terceira ou quarta aula, a experiência passou a ser insuportável. Tinha que lutar para me manter acordado todas as vezes que aquelas páginas se abriam na minha frente.

Um dia, completamente do nada, senti – e depois vi – a mão gorda do meu mentor rastejando pela minha coxa e indo parar no meu “shlong” de treze anos de idade. Ele continuou a ler o livro e a agir como se nada estivesse acontecendo. Apesar de ter sido só uma apertadinha, fiquei completamente chocado e sem vontade nenhuma de voltar para aquela salinha.

Quando contei para meus pais o que havia acontecido e pedi para não ter mais que pegar aulas, acharam que a minha “história” era só mais uma desculpa. Para minha sorte, seguindo o plano de curso da sinagoga, aquelas aulas terminaram logo e passei para a próxima etapa; os ensaios finais no shul – ou sinagoga em iídiche. Com isso, de uma só tacada, me vi livre da chatice tortuosa e da bolinação. Porém, meu respeito pela religião organizada tinha sido abalado.

*

No dia da grande ocasião, a sinagoga estava cheia de rostos conhecidos; amigos do Rafael e da Renée, amigos de escola e do futebol. Até a Bibi tinha comparecido. Estava tão nervoso que fiquei com um tique no olho que durou semanas. Quando minha hora chegou, o jovem rabino de Nova York, ruivo com um bigode e óculos redondos – parecido com o Ned Flanders dos Simpsons – me chamou para ler a Torá. Quando acabei, deu um sermão constrangedor dizendo entre outras coisas supérfluas, que eu gostava de dançar rock e de fazer surfe.

Caso fosse um judeu ortodoxo, aquilo teria sido um rito de passagem. Daquele dia em diante seria responsável por meus atos em termos de punições e de recompensas divinas. Mas não foi nada daquilo. Para os meus pais tinha sido o prosseguimento de uma tradição obsoleta e uma oportunidade para provar seu status social. Para mim, tinha sido uma obrigação e uma desculpa para ganhar presentes caros.

Depois de tudo terminado, havia de fato passado para uma nova etapa de vida: meu cabelo estava crescendo ao mesmo tempo que os hormônios estavam modificando meu corpo e a minha voz. Minha iniciação para tinha acontecido na praia pegando ondas grandes e nas machanés. Passei a ver a sinagoga como um ponto de encontro para coroas que, sob a pretensão de serem religiosos, iam ali para cultivar contatos comerciais e profissionais. Aquele teatro e a pegadinha do professor nunca representariam o caminho para uma verdade superior.

Já que a norma adotada pelos judeus modernos era a de ser ateu, por que deveria perder meu tempo com aquilo? Se queriam usar tradições do Leste Europeu e o medo para me manter preso dentro de uma cerca, o plano não funcionaria no Rio de Janeiro dos anos setenta. Além disso, apelar para o sionismo como forma de me manter na comunidade era ridículo: se nossos pais haviam escolhido emigrar para o distante Brasil em vez de terem tido a coragem de lutar por Israel, que comprometimento podiam exigir de nós?

Um dia durante o jantar tentei conversar com meu pai em ídiche, que estava aprendendo mal e porcamente na escola. Ele ficou horrorizado ao me ver falar a sua língua natal e resolveu me tirar do Eliezer Steinberg. Vai entender…


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Samba Perdido – Capítulo 05

Capítulo 05

“Tabelou, driblou dois zagueiros,
Deu um toque driblou o goleiro,
Só não entrou com bola e tudo
Porque teve humildade e gol!!!”

Fio Maravilha – Jorge Ben

 

No auge do reinado brasileiro sobre o planeta futebol, mesmo que por um instante, o esporte produziu o que todo governo totalitário deseja: unir a nação como pessoas iguais. Quando o assunto era futebol não havia classe social, cor ou opinião política; todos eram iguais, salvo, é claro, as mulheres, os gays, os maconheiros e outras minorias.

Naquela realidade suspensa, os jogadores da seleção viraram os super-heróis da garotada. A forma para um menino fazer parte da saga era jogar bola e torcer para um time. Para mim essa fórmula fácil caiu como uma luva; a febre do futebol me ajudou a encaixar num país onde de outra forma seria considerado um completo estranho. Seguindo a cartilha, jogava futebol quase todo dia e virei Botafoguense fanático, talvez por Botafogo ser o bairro onde nasci ou por gostar do emblema.

Torcer era um negócio sério; além da escalação completa do meu time, tinha que saber a dos outros “quatro grandes” – Flamengo, Fluminense e Vasco – de cor. Por vício e obrigaçāo ouvia todas as partidas do “Fogão” no rádio e no dia seguinte, lia a pagina de esportes inteira no jornal para ficar a par de como os jornalistas tinham avaliado o desempenho de cada um dos jogadores. O mesmo valia para os jogadores relevantes dos outros times.

A Rádio Globo era de longe a melhor no futebol. Seu espetáculo auditivo era sem igual, e era a coisa mais emocionante que podia acessar dentro das paredes de nosso apartamento. O estilo circense dos seus apresentadores era irresistível. Quando um jogador fazia um drible de efeito e os narradores, Jorge Curi e Waldir Amaral, iam à loucura. Quando um outro marcava um gol, era um orgasmo. Quando um juiz falhava o comentarista de arbitragem, Mário Vianna interrompia a narração gritando zangado “Errou!!!”. Quando a bola batia na mão de um jogador ele mandava o seu “La mano!!!, cadê o eco?? La mano ôo-ôo-ôo!!!”. Nos casos de impedimento, ele gritava o seu famoso “Banheiiiiira!!!” Para os pênaltis, sempre fazia um comentário solene antes do veredito pesaroso: “Penalidade máxima”. Quando o gol valia ele era sacramentado pelo seu “Gol legal!”.

Depois da partida, era a hora do João Saldanha com suas análises pós-jogo imperdíveis. Elas duravam bem mais de uma hora mas nunca eram chatas. Com sua genialidade, recoloria o que tinha acabado de acontecer no estádio abusando do uso de alegorias inusitadas e metáforas como girafas namorando macacos e elefantes se casando com formigas.

Esses personagens, onipresentes no futebol carioca, faziam dos radinhos de pilha uma ferramenta essencial. Mesmo no Maracanã, todo torcedor tinha um colado ao ouvido. Nas partidas principais, haviam tantos que, dado haver um momento de silêncio, a chamada da rádio ecoava alto no estádio.

*

Com o tricampeonato no México ainda fresco, os dois torneios nos quais os times cariocas participavam – o estadual no primeiro semestre e o Brasileiro no segundo – adquiriram um sabor especial. Como a equipe da rádio Globo gostava de dizer, no Maracanã se jogava o melhor futebol do mundo no maior palco do planeta, uma verdade na época.

O “Maraca” era o templo maior desse culto. Todos os garotos que conhecia já tinham – ou pelo menos diziam que já tinham – ido lâ e eu precisava desse crédito. Meu problema era meus pais. Se imaginando aristocratas ingleses, nas cabeças da Renée e do Rafael o futebol era coisa de operário e da gentalha que vivia em botequins. Ir a um estádio e se misturar com aqueles tipos mancharia de alguma forma a sua posição social, especialmente no Brasil.

Minha sorte mudou no dia em que Peter, um amigo da roda deles, se ofereceu para me levar a uma partida junto com seus dois filhos. Apesar da Renée ser contra, Rafael acabou liberando. Peter era o aventureiro da turma: tinha cruzado a América Latina num jipe, era mais jovem que o resto, tinha menos dinheiro, fumava – um tabu em casa –, possuía um corpo definido e bronzeado, falava inglês com sotaque americano e além de tudo, para a minha alegria, era frequentador assíduo do Maracanã.

Ele os filhos torciam pelo Fluminense e o jogo era contra o Flamengo, um Fla x Flu. Isso não era o ideal para um botafoguense, mas como o time deles iria enfrentar o arqui-inimigo de todos, me senti mais confortável. No estádio, talvez gritaria “Nense!!! Nense!!! Nense!!!”, ao invés de “Fogo!!! Fogo!!! Fogo!!!”, o que, dadas as circunstâncias, era aceitável.

Os três vieram me pegar no início de uma tarde de domingo. Entrei no jipe feliz da vida, preparado para a aventura. Só que assim que cumprimentei seus filhos, Rob e Tony, me lembrei que não gostava deles. Entre outras coisas, toda vez que nos visitavam davam em cima da Sarah de uma forma estúpida o que a deixava chateada. De quebra, ficavam tirando onda com a minha cara por ser mais novo. Apesar dos esforços do Peter em ser simpático, os dois me deram o gelo de sempre, ocupados com seu habitual papo chato, competindo entre si acerca de conhecimentos de eletrônica e de mecânica, coisas que achava um porre. Fiquei sentado no banco da frente com o Peter olhando pela janela e ouvindo a Rádio Globo quando dava para escutar. O entusiasmo voltou quando começei a perceber que quanto mais perto do Maracanã a gente chegava, mais claro ficava que todos os outros carros estavam indo na mesma direção. Neles, torcedores do Flamengo e do Fluminense ou tiravam sarro ou aplaudiam uns aos outros aos gritos pela janela. No banco de trás, em vez de participar da festa, o Rob e o Tony faziam comentários antipáticos a cerca deles. Relevei a esquisitice e fiquei curtindo o momento em silêncio, já ensaiando o que ia dizer para os meus amigos.

*

Por fim chegamos. Assim que parou o carro, Peter foi negociar com o “flanelinha” quanto ia pagar pela vaga – “flanelinha” esse que, evidentemente, não estaria ali quando voltássemos. Enquanto isso, saí para dar uma olhada no Maracanã. Estávamos a uns três quarteirões, mas mesmo dali parecia colossal. O clima era frenético. Em torno de nós, milhares de torcedores, pouquíssimos da Zona Sul, iam apressados para o estádio. Dava para ouvir as batucadas e a barulheira saindo lá de dentro. Aquela eletricidade parecia estar atraindo a multidão como a luminária de um açougueiro atrai moscas.

Depois de se entender com o guardador de carros, Peter, preocupado por eu estar sozinho sem os seus filhos, acendeu um cigarro e veio falar comigo com um sorriso nervoso, “O que você está achando disso, Richard?”

Sem palavras, só consegui responder: “Muito legal.”

Ele teve um tique nervoso, deu uma baforada no cigarro e perguntou: “Você está nervoso?”

“Que nada, estou doido para ver o futebol!”

Depois de nova chacoalhada estranha da cabeça, ele me olhou sério “Richard, é fácil se perder num jogo de futebol, principalmente na entrada do estádio. Fique sempre perto da gente, entendeu?”

Engoli seco com a sua firmeza e respondi: “Claro!”

Ainda me ignorando, os filhos já estavam prontos do outro lado do carro. Peter os chamou e fomos, os quatro, nos juntar à multidão rumo às bilheterias. Os guichês já estavam lotados. Pedintes e bêbados vinham importunar os torcedores esperando sua vez nas filas entre separadas por barras enferujadas. Na calçada atrás da fila, camelôs gritavam a plenos pulmões tentando vender seu estoque de bandeiras, almofadas de espuma e camisas dos dois times.

Depois de uns vinte minutos chegou a nossa vez. Com os ingressos na mão, o próximo passo era entrar no estádio, uma tarefa complicada. Havia somente dois portões para as arquibancadas, um de cada lado do estádio. A massa se aglomerava em frente deles e ia se afunilando como areia numa ampulheta até alcançar as poucas roletas de acesso. As duas torcidas estavam misturadas, o clima estava tenso e cheio de testosterona. Esse não era um lugar para mulheres, crianças ou idosos.

Peter estava mais preocupado que nunca. Sem tique dessa vez, virou-se para mim e disse: “Segura na camisa do Toni e não larga!”. Depois se voltou para o Toni e mandou ele ficar de olho.

É claro que obedeci. Em meio à massa que empurrava para todos os lados, sob o olhar atento do Peter logo atrás, grudei na camisa e fui atrás tomando todo cuidado para não me distanciar nem cair e correr o risco de ser pisoteado por centenas de pés ansiosos.

O empurra-empurra demorou uns dez minutos. Foi um alívio quando chegamos nas catracas. Elas pareciam um oásis surreal de paz separando a loucura do lado de fora do estádio da insanidade que nos esperava do lado de dentro. Protegidos por guarda-costas gigantes e mal-encarados, frágeis empregados de meia-idade inspecionavam tranquilos os bilhetes um a um. Quando pegavam aqueles com igressos falsos ou aqueles tentando entrar sorrateiramente sem bilhete algum, os metidos a malandro eram obrigados a escolher entre dar meia-volta e encarar a multidão ou serem escoltados até a delegacia do estádio.

Quando isso acontecia, os funcionários perdiam a paciência. Pegaram um em uma catraca ao lado e o homem explodiu. “Não me interessa que você não tem dinheiro! Pelo amor de Deus, meu filho! Decide logo! Não está vendo a fila?”

Quando chegou a nossa vez, o moreno de cabelos grisalhos examinou nossos ingressos através de seus óculos. Com calma rasgou ao meio os finos papéis azuis, depositou sua metade em uma caixa e liberou a roleta. Já dentro, reagrupamos e saímos correndo com a multidão pela rampa comprida que dava acesso ao anel superior. Guardas com pastores alemães paravam bêbados e torcedores carregando objetos perigosos. Ao final da rampa, a massa se dividiu de acordo com seu time de coração. Nós pegamos o corredor à esquerda e seguimos os torcedores do Fluminense. Passamos rápido na frente de portas dos banheiros e bares sentindo o cheiro forte de urina misturado com cerveja derramada.

Havia entradas a cada trinta metros e Peter tinha que decidir rápido qual iríamos tomar. De repente ele nos empurrou por um corredor estreito onde silhuetas ocultavam a luz no fim do túnel. Subimos sentindo a imensa energia que emanava lá de dentro. Quando finalmente entramos na arena, percebi em extase o quanto o estádio era gigantesco – dava para entender claramente como cabiam 160 mil espectadores ali. As torcidas que já enchiam algumas partes, principalmente atras dos gols. Na parte central das arquibancadas havia a famosa tribuna de honra – a seção cercada onde ricos e convidados especiais ficavam. No resto do estádio, as grades nos parapeitos em frente às torcidas já estavam cobertas por faixas e bandeiras das torcidas organizadas. Embaixo, cercado por aquela construção colosal estava o gramado, o palco que captava os sonhos de toda uma nação.

Enquanto Peter decidia onde iríamos sentar, fiquei olhando para aquilo embasbacado. Dava para ver que o lugar mais animado era no meio das torcidas organizadas, todas começando a engossar dos dois lados. Esse era o lugar de onde vinham as batucadas e de onde emanava toda a vibração. Quando alguém da torcida começava a gritar um refrão, logo depois – como numa reação química – dezenas de milhares de pessoas passavam a gritar a mesma coisa. O problema era que também era ali que a maioria das brigas aconteciam. Não era o lugar certo para um adulto responsável levar três crianças. Por isso, acabamos indo mais para perto da zona neutra, entre as duas torcidas, do lado oposto à tribuna de honra. A pedidos do Rob e do Toni, acabamos num lugar ainda na torcida do Fluminense.

Pedindo licença, se equilibrando entre os torcedores e os degraus das arquibancadas, chegamos numa abertura para quatro pessoas. Sentamos, relaxamos e ficamos assistindo ao jogo preliminar entre as equipes juvenis dos dois clubes. Apesar das torcidas só estarem preocupadas a atração principal, comemoravam os gols dos novatos e ficavam em silêncio quando havia uma cobraça de pênalti.

Assim que a partida secundária terminou, o Maracanã acordou. Já não havia partes vazias no estádio. Os torcedores começaram a agitar suas bandeiras enormes e a soltar foguetes. Os refrãos esquentaram dos dois lados. Em campo, fotógrafos com câmeras e lentes penduradas no pescoço disputavam posições atrás dos gols com repórteres portando microfones e fones de ouvido. Os gandulas uniformizados entraram e foram se sentando ao redor do campo enquanto policiais de óculos escuros segurando pastores alemães patrulhavam as bordas do gramado. Agora, só faltavam os jogadores.

Nas arquibancadas, era como estar no meio de uma festa de meninos levados. Os torcedores entoavam as mesmas musiquinhas provocadoras que nós ensinávamos uns aos outros na escola e jogavam copos descartáveis amassados nas cabeças de quem estava abaixo. Os carecas sofriam. A pior coisa que me lembro de ter visto foram uns caras mijando nos torcedores que ficavam na área inferior ao lado do gramado, a “geral”. Essa parte do estádio tinha os ingressos mais baratos. Lá embaixo, não havia lugar para sentar e o campo de visão era na altura dos pés dos jogadores. Os espectadores eram obrigados a assistir os jogos em pé em meio às brigas frequentes.

Um amigo me contou a história de um repórter que estava em uma das cabines de imprensa que ficava bem em cima da “geral”. Para fazer graça com os colegas, o repórter começou a xingar e a gozar o pessoal em baixo. Junto com os palavrões veio a dentadura. Mesmo com suas súplicas, os caras não pensaram duas vezes e pisotearam sem pena seus dentes falsos assim que aterrissaram.

*

Uma voz surpreendentemente formal e monótona saiu pelos alto-falantes anunciando a partida e o nome dos jogadores. Os torcedores fizeram silêncio, mas cada vez que mencionava um dos seus craques iam a loucura. Quando a apresentação terminou, o painel eletrônico acendeu e começou a mostrar o placar do jogo: “Flamengo 0 Fluminense 0”.

Sendo tradicionalmente o time da elite social branca, o símbolo do Fluminense era o pó de arroz. Em preparação para a chegada do seu time, membros da torcida tricolor circulavam com baldes cheio de saquinhos da coisa, os distribuindo como se fossem fazendeiros dando ração aos animais. Assim que o Fluminense entrasse em campo, todos rasgariam os sacos e atiraram o pó no ar criando uma espessa nuvem branca. Quando o ar clareasse, pareceria que tinham acabado de sair de uma tempestade no deserto.

Com o estádio completamente lotado, dava para ver que a torcida do Flamengo era bem maior, tomando quase dois terços do estádio. Por causa de suas cores: vermelho e preto, o símbolo do clube era um urubu. Em cada jogo, torcedores levavam um urubu de verdade. A tradição era amarrar uma bandeira do clube no pé do bicho e soltá-lo quando os jogadores entravam em campo. Se a mascote conseguisse voar para fora do estádio, aquilo era considerado como um bom presságio. Naquela situação, a ave desnorteada correria o risco de mudar de cor por causa da nuvem de pó de arroz e de ser confundida com uma águia branca quando retornasse ao ninho.

Os dois times entraram em campo juntos. Quem abriu o caminho foi o árbitro e seus auxiliares seguidos pelos jogadores em fila indiana, uns se aquecendo e outros subindo o túnel dando a mão aos mascotes dos times. Esses meninos ficariam livres para correr pelo campo depois que posassem junto com os atletas nas as fotos para a imprensa. Na manhã seguinte, aquelas imagens seriam estampadas nas últimas páginas de todos os jornais da cidade. Quem quer que tivesse ido ao jogo sentiria como se houvesse participado de um grande evento. Depois da foto, os jogadores se espalharam pelo campo e ficaram tocando a bola entre si, dando piques no gramado e chutando a gol para aquecer o goleiro. Enquanto isso, repórteres corriam atrás dos craques tentando fazer com que tecessem comentários sobre o jogo. Pegando carona nos rádios dos vizinhos, quando os astros do futebol falavam com um radialista, podíamos dar um rosto, mesmo que distante, às vozes que vínhamos acompanhando desde que saímos de casa.

O juiz mandou a polícia liberar o campo. Quando só ficaram ele e os jogadores, o árbitro chamou os dois capitães para o centro do gramado para decidir quem sairia com a bola e em que lado cada um dos times ia começar jogando. Com um barulho ensurdecedor nas arquibancadas, os jogadores tomaram suas posições, o homem de uniforme preto olhou para o seu relógio e deu o apito inicial. Uma estrela da seleção campeã, Gérson, se não me engano, passou a bola para trás dando início à partida. O estádio inteiro conseguia reconhecê-lo pela careca como também os demais jogadores por causa dos cortes de cabelo, dos números nas camisas e pelo seu estilo de jogar. Quando faziam algo de errado, as pessoas os criticavam em altos brados como se os conhecessem pessoalmente. Na hora que os atacantes estavam prestes a marcar um gol, todo mundo se levantava e quando o adversário oferecia algum risco, ficavam em silêncio enquanto a torcida rival festejava. No segundo tempo, o Fluminense marcou abrindo o placar. Ainda que não torcesse pelo time, não pude me conter e fui à loucura como se fosse tricolor de nascença.

*

Naquele tempo, a televisão ainda estava dando seus primeiros passos e raríssimos jogos eram transmitidos ao vivo. Nossos heróis da bola ainda não tinham empresários planejando suas carreiras milionárias nos campeonatos europeus. Ao contrário, seus horizontes começavam e terminavam dentro dos campeonatos estaduais e nacionais. Para a nata, havia a convocação para a seleção nacional e a fama internacional mas raríssimos iam jogar no estrangeiro. Por isso, jogavam para a torcida e faziam o que podiam todas as tardes de domingo para reafirmar sua condição de craques. O ali e o agora eram cruciais, o que tornava a qualidade daquelas partidas, sem dúvidas, a melhor do mundo. O Maracanã daqueles tempos traz memórias aos torcedores do Rio parecidas às que Woodstock traz para os amantes do rock. Houve momentos de pura magia, gols inesquecíveis, dribles, jogadas e delírios coletivos de outro planeta. Como deve ter sido no Coliseu em Roma, o clima daquelas partidas foi um fenômeno único e irrepetivel.

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Um pássaro na imensidão dos céus

Quero ser um pássaro livre, e voar nos céus, onde o oxigênio seja rarefeito.  Alto, muito longe do mundo dos homens, onde minhas asas comportem a eternidade, e meu alçar seja um círculo de sonhos perpetuados.
Quero me preocupar apenas com meus momentos de parada, em algum rochedo, aqui e ali, um descanso inevitável, um aprumo ao visualizar a paisagem, o azul do céu, cálido, ao oferecer o presente da imensidão sem fim.
Procurar minha companheira no momento certo, sem riscos e dores, pois o principio da espécie é feito de matéria e submissão mas, sobretudo, da força dos não resignados.
Voando, desvendarei terras, alcançarei mares, e gozarei da solidão dos que perpetuam a vida dos inocentes e não crédulos, porque o mundo é feito de angústias travadas dentro de nós mesmos, pássaros que somos, gaiolas em nossas existencias.
Abençoado o sonho das correntes que me desamarrem, e levem aos picos, onde emerjo em ritos de passagem, dançando por sobre vôos, entre as nuvens que me façam companhia.
Voe, dentro de mim, e me galguem as alturas, onde os céus são infinitos e não caibam as solidões de nenhum tempo, sem passado ou futuro, a se pensar ou sentir.
Firme-se num ponto distante, sólido e visível, que ainda me dê a esperança de que haja vida na imensidão de um oceano de azul, profundo e vasto, completamente adorado pelos meus sentidos.

Samba Perdido – Capítulo 04, parte 2

O próximo jogo era contra a Inglaterra. Torcendo em segredo pelo seu time mas sem entender nada do assunto, Renée e Rafael de repente se viram inundados por perguntas e comentários.

“Vocês vão torcer pelo inimigo!!??” A pergunta vinha amistosa, mas deixava claro que eram adversários. “Voces acham que vão vencer?! É?! De quanto? ”

“O que vocês acham dos jogadores ingleses? Dá para comparar Pelé com Bob Charlton?”

Embora nenhum dos dois soubesse responder a essas perguntas e fossem desinteressados por futebol, haviam motivos suficientes para que assistissem à partida. Fora o meu estado exaltado, queriam manter sua discreta pose de atuais campeões mundiais. Além disso, por coincidência, o árbitro seria o israelense Avraham Klein: o nosso sobrenome!

*

O jogo caiu numa tarde ensolarada de domingo. Os fogos de artifício que começaram a pipocar nas primeiras horas da manhã pareciam sinos de igrejas lembrando a todos que esse era um dia da maior importância. A Rádio Globo, minha fonte indispensável de notícias futebolísticas, estava fervilhando. Os apresentadores não falavam sobre outra coisa. A todo momento interrompiam o que estivessem falando para dar lugar às transmissões ao vivo de repórteres que haviam conseguido qualquer informação nova vinda do México.

Como de costume, a família saiu para o Clube Paissandu por volta das dez da manhã. Fanático, vestindo minha camisa canarinho, assim que o carro saiu da garagem, abri a janela e coloquei para fora minha bandeira verde e amarela que tinha amarrado num cabo de vassoura. Quando cruzávamos com alguém com a mesma camisa, sacudia meus punhos de fora do carro e gritava, “Brasil!!!”. As respostas ecoavam de volta com a mesma euforia.

A Sarah não veio. Sortuda e acometida de vergonha alheia pelo meu entusiasmo, ela tinha sido convidada para ver o jogo na casa de uma vizinha amiga e ia passar o dia lá.

No clube, fomos direto para a piscina onde fiquei chocado ao deparar com o que era, talvez, a única bandeira inglesa flamulando no céu do Rio de Janeiro. Ela estava dependurada entre dois coqueiros sobre um grupo de homens pálidos de meia idade bebendo whisky e olhando a todos com ar de gozação. Do outro lado, no bar coberto, os outros garotos, o pessoal do serviço e eu, em cochichos, ficamos questionando a masculinidade daqueles indivíduos, bem como as virtudes de suas mães.

Havia uma roda amontoada em torno do rádio do salva-vidas. Alguns de nós saíamos para dar um mergulho, mas voltávamos logo para aquele grupo que mais parecia um enxame de abelhas nervosas. Ávidos por informações e tentando ouvir o radinho melhor, faziamos silêncio quando um repórter conseguia entrevistar um de nossos craques.

Por volta da hora do almoço, o aumento no número de rojões avisou a todos que a hora do pontapé inicial estava chegando. A televisão começou a transmitir ao vivo de Guadalajara e as ruas se esvaziaram.

Para poder pegar o início do jogo, tinhamos comido mais cedo no restaurante do clube. A caminho do apartamento do Paulo, passamos por aglomerações em frente às lojas de eletrodomésticos se preparando para assistir o jogo nos televisores que tinham deixado ligados para a ocasião. Quase todos os torcedores na rua seguravam um radinho de pilha no ouvido, da mesma maneira que as pessoas hoje se agarram a seus telefones celulares. No carro, consegui convencer minha mãe a ligar o rádio na Rádio Globo. Tinha que ouvir o que João Saldanha, agora um comentarista, estava falando sobre o iminente jogo. Quando começou com sua voz lenta e grave, me esqueci da bandeira e me concentrei em cada palavra que dizia.

Paulo morava na Rua Barata Ribeiro, num apartamento modesto em frente ao nosso açougueiro que ficava do lado de um ponto de ônibus. Chegamos dez minutos antes do início​ da partida. A televisão já estava ligada e enquanto os adultos se cumprimentavam, fui logo me acomodando e consegui ver os jogadores entrarem em campo, se perfilarem e cantarem seus hinos nacionais. Pouco depois, com todos em seus lugares, o juiz apitou dando início ao jogo. Os nomes dos jogadores que logo entrariam para o panteão do futebol mundial, ressoavam da televisão: “Jair pra Pelé, Pelé com a bola, para Tostão… Gérson… para Rivelino”.

Copacabana inteira estava em silêncio torcendo pela seleção nacional. As ruas estavam desertas: lojas, delegacias, hospitais, corpo de bombeiros – tudo estava fechado. Caso você tivesse um ataque cardíaco, se seu apartamento pegasse fogo ou se você estivesse prestes a dar à luz, o azar seria seu.

O início foi nervoso e defensivo. O estilo chato tinha uma razão; a tática de Zagallo era segurar seu time atrás no primeiro tempo. Confiando na melhor forma física e no talento natural dos seus jogadores, ele esperava seus adversários cansar para depois líquida-los no final da partida. No entanto, nada estava garantido. Todos estavam tensos e o adversário era difícil. No segundo tempo, os ingleses começaram a sofrer com o calor e a exaustão tomou conta. O Brasil passou a dominar e o goleiro inglês, Gordon Banks, estava fazendo milagres para manter a partida no zero a zero. Dava para sentir que a seleção estava prestes a marcar – não era uma questão de se, mas de quando – ainda assim a espera era angustiante. Naquela altura, até Rafael e Paulo estavam totalmente concentrados na partida. Quando o ataque brasileiro finalmente conseguiu superar a defesa da Inglaterra e Jairzinho marcou, brasileiro nenhum conseguiu conter sua emoção e todas as casas explodiram em gritos selvagens.

Não podia deixar de ir à loucura e fazer com que os adultos – todos na sala menos eu – achassem graça da minha espontâneidade. O apartamento de Paulo destoava furor do lado de fora. Para já, minha mãe, decepcionada com o  placar, apesar de estar quase na faixa dos cinquenta, era a mais jovem do grupo. Quando o jogo terminou e a transmissão retornou para os estúdios no Rio de Janeiro, não houve cerveja ou nem mesmo uma taça de vinho para comemorar. Enquanto os adultos se voltaram para assuntos mais sérios, sobretudo Israel, peguei uma tigela de bolachas, uma Coca-Cola na geladeira e mudei para o canal onde passava Tarzan. Fiquei horas curtindo a liberdade de ter uma TV à minha disposição. Enquanto isso, meus pais ficaram esperando que o Carnaval fervoroso dos “selvagens” acalmasse na rua antes de ir para casa.

Conforme o Brasil foi progredindo, as comemorações foram durando mais e o samba foi ficando mais intenso. Entre um jogo e outro, a combinação da exposição exagerada da seleção com o verdadeiro show de bola que seus craques estavam dando no México, fez com que um estado de espírito especial tomasse conta do quotidiano. Artificial ou não, dava para sentir a tal “corrente pra frente” a toda hora e em todos os lugares.

Depois da vitória contra a Inglaterra, até a Sarah acabou imersa na febre do futebol. Ela passou a vestir uma camisa canarinho nos dias de jogo e a torcer pelo Brasil na casa da vizinha. Por ser cinco anos mais velha e por ter a escolta dos irmãos mais velhos da sua amiga, meus pais permitiram que fosse à rua para participar das comemorações. Isto me fez questionar a justiça divina pela primeira vez na vida.

*

Na final, o Brasil derrotou a Itália por quatro a um em um dos mais famosos jogos da história do futebol. A campanha terminou com Pelé passando a bola para Carlos Alberto Torres que deu um chute cinematográfico de fora da grande área estufando a rede italiana. O triunfo deu início à uma catarse nacional e proporcionou ao país uma autoconfiança que duraria anos. Por ser seu terceiro campeonato mundial, a taça Jules Rimet veio para o Brasil de vez, selando a glória. A vitória também significou um sucesso para a máquina de relações públicas do governo militar. Agora os generais se sentiriam ainda mais legitimados para expandir seu domínio político-policial.

Ninguém chegou a perceber que essa foi a maneira grandiosa que a época de ouro de Copacabana havia encontrado para se despedir. Dentro de poucos anos, o charme desse bairro à beira-mar começaria a desbotar. Pessoas de círculos sociais alheios começariam a substituir a elite carioca em seus prédios hollywoodianos. A classe alta migraria para as áreas requintadas de Ipanema e do Leblon, e para bairros mais afastados como São Conrado e Barra da Tijuca. Enquanto isso, à noite, o calçadão da Avenida Atlântica acabaria se transformando no maior bordel a céu aberto do mundo.

Quanto a mim, aquela Copa do Mundo selou minha identidade como Brasileiro. A partir dali, a Inglaterra passou a ser o país de onde meus pais vieram, só isso.

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Samba Perdido – Capítulo 04, parte 1

Capítulo 04

 "Todos juntos vamos, 
Pra frente Brasil, 
Brasil! Salve a seleção” 

Hino da seleção - 1970

Em 1962, enquanto o mundo despertava para a década mais colorida do século vinte, Renée voltou do hospital com um filho, os Rolling Stones e os Beatles gravaram seus primeiros singles, o mundo quase começou uma Terceira Guerra Mundial, desta vez nuclear, por causa de mísseis soviéticos em Cuba, Adolf Eichman, o engenheiro do Holocausto, foi executado em Israel, João Gilberto e Tom Jobim fizeram a sua estreia americana no Carnegie Hall em Nova York e Marilyn Monroe morreu de overdose em Los Angeles.

No entanto, para a grande maioria dos Brasileiros, o que mais marcou aquele ano foi o segundo campeonato mundial da sua seleção de futebol. Se alcançar a glória no esporte mais popular do planeta eletrizava países “desenvolvidos” como a Itália, a Alemanha e a França, é difícil imaginar a explosão de orgulho nacional e de pura alegria que tomou conta do país. Aquele time mulato, vindo das ruas, se impondo no cenário internacional pela segunda vez foi uma injeção insubstituível de autoestima e de otimismo.

Depois do apito final que selou a vitória brasileira de três a um na final contra a Checoslováquia, no Chile, as comemorações tomaram conta das ruas e só pararam nas primeiras horas da manhã do dia seguinte. Como seria de se esperar, as batucadas de rua foram a alma do Carnaval fora de estação. Sambistas desceram dos morros lembrando ao “asfalto” que suas proezas instrumentais eram irmãs das proezas futebolísticas dos craques que estavam trazendo o título para casa. As comitivas de batuqueiros contavam com mulatas espetaculares se requebrando ao ritmo irresistível dos tambores. Bem antes dos biquínis fio-dental aparecerem nas praias cariocas, seus trajes já deixavam quase tudo à mostra, realçando seus movimentos ousados e deixando a moçada com água na boca. Acompanhando o samba, torcedores de todas as raças, idades e classes sociais extravasavam sua alegria. Inebriados pela vitória e regados pela cerveja, recordavam os gols dos heróis daquela campanha – Garrincha, Didi, Vavá entre muitos outros. Pelé havia se contundido e tinha ficado de fora.

*

Oito anos depois, em 1970, depois de uma decepcionante campanha em 1966 na Inglaterra, onde o país de Renée tinha se sagrado campeão, o Brasil estava a caminho do México para tentar o seu terceiro título mundial. Dessa vez, além de um time repleto de craques, entre eles um Pelé superpreparado e consciente de que esta seria sua última Copa, havia uma novidade: as transmissões televisivas. Graças a elas, a nação inteira poderia ver seus craques jogando ao vivo no estrangeiro.

Aproveitando o casamento de um evento tão popular com a nova tecnologia, o regime militar, instaurado já há seis anos, resolveu investir pesado na seleção. Com problemas de popularidade devido à crescente polarização econômica e ao endurecimento da repressão política, os militares queriam assegurar uma aposta vital de que o país se sagraria campeão.

A ideia era unir a nação em torno do futebol e, por via de maquinações midiáticas, associar as conquistas dos atletas a uma imagem positiva do regime. Foi assim que o país se viu mergulhado  numa febre de patriotismo, a chamada “corrente pra frente”.

Nos recantos mais remotos do país, milhares de vilarejos receberam seus primeiros televisores para que o povo pudesse fazer parte dos “noventa milhões em ação”, como dizia a canção oficial da seleção. Durante a Copa, seus moradores se amontoariam em torno desses únicos aparelhos, muitas vezes em praças de terra no meio do mato, para assistir o “escrete canarinho” em ação.

Pelo país inteiro, praticamente todo carro tinha uma fita verde e amarela amarrada à antena e todo estabelecimento ostentava pelo menos uma bandeira ou um cartaz da seleção, fosse de um jogador ou do time completo. Nossa rua, a Siqueira Campos, se juntou à comoção. Quase todo apartamento tinha uma bandeira pendurada da janela. Os moradores mais entusiasmados se deram ao trabalho de colocar milhares de bandeirolas coladas em fios que cruzavam de um lado a outro da rua, começando na praia e indo até seu final no morro da Saudade. O bairro todo fez igual e Copacabana se fantasiou para a Copa.

Ao mesmo tempo, em qualquer oportunidade, as estações de rádio e de televisão estimulavam o fervor futebolístico e o misturavam com mensagens pró-regime. Haviam adesivos colados por todos os lados com slogans como “Brasil: ame-o ou deixe-o” e “Deus é brasileiro”.

O que poucas pessoas sabiam é que o técnico do time, João Saldanha, apesar de um apaixonado pelo seu país e pelo talento dos seus jogadores, era um comunista dedicado que organizava reuniões do partido ilegal em sua casa. Porém, depois de Saldanha ter se negado a convocar Dario – o Dadá Maravilha –, um dos favoritos do presidente Médici, e de dar declarações políticas inconvenientes enquanto fazia a inspeção de um dos estádios onde o time ia jogar no México, os generais interviram. Eles ordenaram que Zagallo, um ex-jogador branco e de classe média que havia participado das campanhas vitoriosas de 1958 e 1962, o substituísse.

*

Graças às teorias conservadoras da minha mãe, eramos uma das poucas famílias no bairro sem um televisor. Para mim, com oito anos de idade e imerso até o pescoço na febre assolando todos os meninos brasileiros, aquela aversão à tecnologia era deseperadora. Já tinha perdido a oportunidade de ver o primeiro homem pisar na lua na casa de uns vizinhos porque era tarde demais. Porém me barrar de ver a Copa do Mundo seria cruel demais.

Rafael aliviou minha barra anunciando que iríamos assistir os jogos no apartamento do Paulo. Ainda que fosse um esquerdista convicto, seu amigo pertencia ao século vinte e possuía uma televisão, apesar da propaganda fascista, que na sua opinião, ela vomitava sem parar.

O primeiro jogo da Copa foi entre União Soviética e México. Todos consideravam esses dois times potentados menores do futebol mas, por alguma razão, assistir a cerimônia de abertura era uma obrigação para qualquer um que quisesse merecer o título de torcedor brasileiro.

No dia do jogo, para minha alegria e alívio, fomos lá. Depois da abertura espetacular, presenciamos o Paulo torcer para o time que levava estampada na frente da camisa a inscrição “CCCP” – a URSS, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Recusando-se a pronunciar a palavra “soviético” muito menos “socialista”, o locutor se atinha a chamar o time de “Rússia” e mesmo assim mencionava o nome o menos possível provocando alguns resmungos da parte de nosso amigável anfitrião. Depois que o jogo terminou, voltei para casa empolgado.  A aguardada copa tinha começado e como o resto da nação não podia esperar pelas batalhas que estavam por vir.

O Brasil jogou sua primeira partida, contra a Checoslováquia, alguns dias depois. O jogo era à noite e em um dia de semana, muito tarde e um tanto incômodo para assistir na casa do Paulo. O jeito foi ouvir no rádio. Ignorando os protestos de minha irmã, meus pais permitiram que trouxesse meu radinho de pilhas para a mesa de jantar. Quando o jogo começou, liguei o aparelho coloquei o volume alto o suficiente para que pudesse ouvir e baixo o suficiente para que a Sarah aceitasse. Depois de uns dez minutos, para o desespero da nação verde e amarela, o adversário marcou o primeiro gol. As palavras secas do narrador cortaram o peito do Brasil como uma navalha. Lá fora o silêncio era tanto que parecia que o fim do mundo tinha chegado. A Sarah olhou para minha cara entristecida e debochou.

“Ha, ha, ha! Tomaram um gol, bem feito!”

Aquela provocação foi um erro. Xinguei ela de vaca e joguei minha coxa de frango na cara dela. Na hora meu pai me mandou para o quarto. Fui com o rádio feliz da vida, pelo menos lá, poderia ouvir o resto do jogo sem a interferência de uma menina. Logo depois, para alívio geral, o Brasil marcou seu primeiro gol, virou a partida e terminou ganhando por um convincente quatro a um.

*

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