Opinião do Jornal Haaretz: Netanyhau é o responsável (08/10/2023)

Opinião do Jornal Haaretz: Netanyhau é o responsável (08/10/2023)

A responsabilidade pelo desastre que assolou Israel na celebração da alegria da Torá é clara, e ela recai sobre Benjamin Netanyahu. O Primeiro-Ministro, que se orgulhava de sua vasta experiência política e de sua inteligência insubstituível em questões de segurança, falhou completamente ao identificar a ameaça que liderou o país quando estabeleceu um governo de anexação e alienação, quando nomeou Bezalel Smotrich e Itamar Ben Gvir para papéis-chave nele, e quando adotou uma política externa que negligenciou de forma arrogante a existência e os direitos dos palestinos.

Netanyahu certamente tentará se esquivar de sua responsabilidade e atribuir a culpa aos chefes do exército, ao Mossad e ao Shin Bet – que, como seus predecessores na véspera da Guerra do Yom Kippur, identificaram erroneamente a probabilidade de guerra como baixa e se prepararam de forma inadequada para um ataque do Hamas. Eles subestimaram o inimigo e suas capacidades militares. Nos próximos dias e semanas, à medida que se tornarem evidentes as deficiências nas Forças Armadas de Israel e na comunidade de inteligência, será justo exigir a substituição de seus líderes e uma investigação completa.

Entretanto, a negligência tanto na área de inteligência quanto no setor militar não isenta Netanyahu de sua responsabilidade abrangente pela crise, uma vez que ele é a autoridade máxima em questões de segurança e assuntos externos em Israel. Netanyahu não é um novato no cargo, como Ehud Olmert na Segunda Guerra do Líbano, nem é ignorante em questões militares, como Golda Meir afirmou em 1973 e Menachem Begin em 1982. Netanyahu moldou a política que também foi seguida nos breves dias do “Governo da Mudança” liderado por Naftali Bennett e Yair Lapid: uma estratégia multifacetada para enfraquecer o movimento nacional palestino em ambas as frentes, Gaza e Cisjordânia, a um custo que pareceria suportável para o público israelense.

No passado, Netanyahu se apresentava como um diplomata cauteloso, que evitava guerras e o aumento do número de mortos do lado israelense. No entanto, após sua vitória nas últimas eleições, ele mudou para uma política “à direita plena”: passos claros em direção à anexação da Cisjordânia, limpeza étnica nas áreas “C” de Hebron Hills e o Vale do Jordão, expansão substancial dos assentamentos, reforço da presença judaica no Monte do Templo (Al-Aqsa), a normalização ostensiva da relação com a Arábia Saudita, que não oferece nada aos palestinos, e discussões abertas na coalizão sobre uma “segunda retirada”. Como esperado, os sinais de erupção começaram na Cisjordânia, onde os palestinos sentiram o peso da mão opressora do ocupante israelense, e o Hamas aproveitou a oportunidade para lançar um ataque surpresa.

No entanto, acima de tudo, a advertência que pairou sobre Israel nos últimos anos se concretizou completamente: um Primeiro-Ministro envolvido em três casos de corrupção não pode cuidar dos assuntos do país, pois os interesses nacionais serão necessariamente subjugados à sua própria salvação e evitação de condenação. Essa é a razão pela qual surgiu o governo horrendo, o regime que Netanyahu está promovendo, e enfraquecimento dos líderes militares e de inteligência percebidos como opositores políticos. As vítimas da invasão do Neguev Ocidental pagaram o preço com os seus corpos.

Os seculares querem o Judaísmo, mas não este Judaísmo

Os seculares querem o Judaísmo, mas não este Judaísmo

O público secular está farto de o establishment rabínico e religioso estar completamente desconectado do modo de vida liberal, e parou de torcer o nariz para isso. Mas há uma solução para isto: o Judaísmo Israelita

Regev Ben David e Yael Golan | (Tradução Davi Windholz)

As cuspidas[1] nos peregrinos em Jerusalém, os confrontos em Tel Aviv no Yom Kippur[2] e a declaração do Rabino Chefe Yitzhak Yosef[3] de que os seculares são “pobres” e “não têm satisfação na vida” podem muito bem ecoar o sentimento de MK Moshe Gafni, de que ” estamos no meio de uma guerra religiosa” de um lado estão os ultraortodoxos e os nacionalistas religiosos e do outro lado os secularistas. Mas a verdade é que este não é realmente o caso. A maioria dos secularistas pode, e querem viver em paz com o seu Judaísmo – mas não com este Judaísmo.

Em seu artigo “Like in America” publicado no “Yediot Ahronoth” na semana passada, Avi Shilon propôs conduzir a “Batalha pelo Judaísmo” não apenas de forma conflituosa, mas também para oferecer uma alternativa. Ele também apontou para a fonte de inspiração – os reformas  e conservadores nos EUA, e concluiu assim: “O público secular pode começar a desenvolver conteúdo para uma espécie de religião “reformista israelense”.

Shilon está absolutamente certo sobre a necessidade de apresentar uma resposta positiva juntamente com as críticas, mas perdeu completamente o tremendo desenvolvimento de um judaísmo israelita vivo e vibrante, do qual as massas já se consideram parte. A maioria do público israelita (55%, de acordo com a investigação de Rosner e Fox) vê tanto o  sionismo  como a tradição de forma positiva. Muitos deles são homens e mulheres israelitas que querem manter a sua identidade judaica, mas à sua maneira e de acordo com os seus valores – e podem certamente sentir-se confortáveis no movimento judaico israelita.

Aqui, ao mesmo tempo que os eventos na Praça Dizengoff, dezenas de milhares de pessoas em todo o país participaram em orações que tinham várias misturas de tradição e inovação: piyut antigo ao lado da poesia hebraica clássica ou contemporânea, lideradas conjuntamente por homens e mulheres, todos de acordo com os organizadores e o público. O Judaísmo Israelita é uma combinação de tradição com a nossa identidade moderna aqui, sionista, liberal, igualitária e cultural.

Não se engane, esta não é uma versão  parcial  de que  “façamos a tradição que gostamos   e os religiosos  o resto” O Judaísmo Israelita combina o Judaico e o democrático, orgulha-se do seu Judaísmo e orgulha-se da sua liberalidade. Ela acredita não apenas em “fazer o bem”, mas também em “fazer o mal” – isto é, em colocar linhas vermelhas em contextos de igualdade e exclusão, racismo ou separatismo.

No campo do judaísmo israelense, estruturas e programas educacionais para escolas, casas pluralistas de midrash, escolas preparatórias pré-militares, estruturas estudantis, grupos de reflexão, cerimônias de vida e muitas dezenas de diversas comunidades e casas de oração em todo o país cresceram em décadas recentes. Ao contrário de organizações como “Rosh Yehudi”, as organizações do Judaísmo Israelita não apelam a um públicoRosh Yehudi  secular e tentam mediar a tradição na sua versão iliberal-mas-com-um-sorriso, mas em vez disso oferecem um Judaísmo que verdadeiramente lhes convém, e ao longo do caminho constituem uma barra de conversação aprofundada e aprendida sobre questões judaicas, para as organizações Os religiosos não liberais .

Sem dúvida, os últimos meses trouxeram correntes subterrâneas à superfície. A maioria do público secular, que quase se acostumou com o sistema – o establishment rabínico e religioso está completamente desconectado do modo de vida liberal, mas é isso que é, vamos apenas fechar o nariz em relação ao nascimento, ao casamento, ao divórcio – está farto disso.

Este público precisa de um judaísmo que fale liberalmente. Por um Judaísmo igualitário, aberto, inclusivo, que saiba preservar o núcleo identitário sem deixar as mulheres de lado e sem tirar as pessoas LGBT do campo; por um Judaísmo que tenha uma atitude acolhedora mesmo com quem não lhe pertence, por um Judaísmo que valoriza as ideias sociais de justiça, garantia e santidade da vida.Na luta Sobre o surgimento do Estado – este é um elemento que não deve ser negligenciado na forma de moldar um Estado judeu, democrático e liberal .

 Comentário do tradutor:  Sem dúvida a diáspora pode ter um papel fundamental neste processo. Estas comunidades que estão surgindo precisarão de uma estrutura organizacional, precisarão de recursos, precisarão do apoio das comunidades reformas, conservadoras, laicas da diáspora.

(1) Conheçam essas organizações. Entrem em contato com elas e dialogando vejam como podem ajudar.

(2) Ao contribuir com o fundo comunitário exijam que a contribuição vá a essas comunidades e não ao stablishment ortodoxo e as hitnachaluiot (colônias nos territórios ocupados).

[1]  Os religiosos ultra ortodoxos cospem no chão ao passar por uma igreja ou por uma autoridade religiosa.

[2] A organização Rosh Yehudi organizou a reza de Kol Nidrei em lugar público em Tel Aviv com separação de homens e mulheres. A municipalidade proibiu separação física com tapumes. O STJ aprovou a proibição. Mesmo assim a organização realizou as rezas e causou uma revolta da população liberal.

[3]  Ele também comentou de quem não come Kasher tem uma “mente tonta, burra”

Midia mobilizada

Midia mobilizada

Na sexta-feira, 04/08/22, um jovem palestino de 19 anos foi assassinado por terroristas judeus colonos, que vieram com seu rebanho para  terras privadas da vila de Baraka para criar anarquia,  sabendo que haveria uma reação dos palestinos. Eles vieram com  armas de fogo,  como  parte da estratégia de tomar terras privadas palestinas.

No sábado, 05/08/22, um jovem judeu foi assassinado em Tel Aviv por um terrorista palestino que veio a Tel Aviv para criar anarquia e desafiar a existência de Israel.

Me interessa analisar como  a mídia “esquerdista ” (assim definida pela direita) reage a esses eventos. A  manchete principal  de um dos jornais dizia: Flores e elogios no local do ataque em Tel Aviv, o IDF invadiu a casa do terrorista, o comandante da unidade do falecido Chen Amir: “Ele era um amigo pessoal e próximo ,  incluindo uma descrição detalhada do incidente,   do comportamento heróico  do assassinado em salvar vidas e proteger Tel Aviv, um artigo sobre  a personalidade dele, sua família, seus amigos, sua contribuição para a comunidade e a defesa de Israel. O rádio e a televisão também dedicaram tempo significativo à sua vida. Ele merece. Merecemos saber quem ele é, e o que o conflito nos causa  na perda de pessoas queridas e amadas.  Jovens que sonham com o futuro, com viagens, profissão, casa, relacionamento, família. Jovens que têm pais, irmãos e famílias. É importante nos mostrar do que eles  (os palestinos) e nós (os judeus israelenses)  estamos perdendo.

Eu também esperaria que uma imprensa não mobilizada contasse a história do jovem palestino, sobre sua vida, sua família, seus sonhos, sua contribuição para a comunidade. Para saber quem ele é e o que o conflito está causando ao povo palestino – perda de pessoas amadas. Os jovens  que sonham com o futuro, com viagens, profissão, casa, relacionamento, família. Jovens que têm pais, irmãos e família. É importante nos mostrar o que nós (judeus israelenses) e eles (palestinos)  estamos perdendo.

Mas, não é assim. Nossa mídia de  “esquerda” está mobilizada. Um é um herói, o protetor de Israel. O outro é um  provocador  que veio perturbar os judeus que estavam pacificamente com  seus  rebanhos nas terras particulares dos palestinos. Um objeto palestino, sem personalidade, sem vida e sonhos para contar.  Sem família. Apenas um palestino

Se fosse um evento único, eu poderia perdoar a mídia esquerdista. Falhou. Mas essa narrativa se repete todos os dias. Cada vez que há um ataque terrorista em Israel por parte de um palestino, tudo para e muitas páginas, minutos e horas são dedicados ao assassinato e ao assassino, para provar o quanto somos heróis e nossa causa justa e o quanto eles são sanguinários e só querem a nossa destruição.

Mas, todos os dias há eventos nos territórios ocupados. Corte de  oliveiras, matança de  rebanhos, queima de  carros, profanação de  igrejas e mesquitas e ataques a palestinos inocentes, a ponto de queimar casas e matar. Procurei na imprensa, nos noticiários, em dezenas de conversas diárias de programas de rádio e televisão, em canais nas redes alguma referência a esses acontecimentos. Noticias.  Nada!

A mídia é mobilizada para o ethos israelense – sionista. Críticas de esquerda? Só até certo limite. Há um sinal vermelho pelo qual não pode passar. A comparação do assassinato de um israelense contra o “assassinato” de um palestino. Esta é a linha vermelha. Não compare a dor de um judeu ou judia com a dor, se é que existe, de um palestina  ou palestino.

Esta narrativa recebeu  apoio e aprovação do Ministério da Educação na semana passada, quando proibiu a Family Circle, organização de famílias enlutadas israelenses e palestinas, de realizar encontros nas escolas. “O assassinato de um judeu não deve ser comparado com o assassinato  de um palestino. A dor judia  com a dor palestina”.

Este governo encurralou ainda mais a mídia, com a tentativa de revolucionar a mídia e controlá-la. Este governo está nos levando, não a uma revolução constitucional, mas a uma mudança na narrativa judaico-sionista. A narrativa em que acreditamos há 75 anos

Trarei apenas três regras que estão a caminho. A primeira, já aprovada há vários anos, a lei da nacionalidade, que diz que há um cidadão de primeira classe – judeu e um cidadão de segunda classe – não judeu. Segunda lei, punição dupla pelo estupro de uma judia por motivos nacionalistas. Como provar que a violação foi de uma forma ou de outra, ou ainda mais grave, como provar que  em uma relação voluntária não houve  estupro, principalmente quando o Ministro da Segurança Nacional, Ben Gvir,  fazia parte da  Organização Lehava  que luta  contra relações de  casais de judeus e árabes, a ponto de ameaçar de assassinato? Terceira lei, uma pessoa pode escolher a quem prestar serviços, incluindo médicos. O dono de uma loja ou negócio, um profissional liberal ou até mesmo um funcionário público pode decidir não prestar serviço a um não judeu, a uma pessoa pertencente a um setor que julgue inadequado (como LGBT) ou, mulheres com roupas definidas por ele como não modestas.

Até o momento são mais de 100 leis que estão sendo encaminhadas ,voltadas para  setores vistos pelos partidos religiosos e pela extrema direita como ilegítimos – LGBT (proibição de adoção ); Mulheres em espaço público (separação de sexos em espaços públicos e praias); Movimento reformista e Conservativo ( Lei do Muro das Lamentações) e leis de proteção a populações judias ultra-ortodoxas, como a lei que compara o estudo da Tora com a convocação ao exército,

Leis que definem a supremacia do povo judeu, como povo escolhido e o único que tem o direito de viver nesta terra de acordo com as leis da Halachá. Leis que transformarão nosso sonho de ressurreição depois de dois mil anos na destruição  do “3º Estado”.

Se o povo judeu, vivendo em Israel e na diáspora (e aqui incluo os movimentos progressistas, o movimento reforma e conservativo, os movimentos juvenis, as organizações sionista clássicas, as representações de Meretz e Avoda, Shalom Achshav), não acordar, veremos o fim  do sionismo humanista, pluralista, democrático, que  criou  o Estado de Israel e o surgimento de um novo Israel, baseado no sionismo fascista, messiânico, no  Na-zi-onismo.

Será possível uma guerra civil em Israel?

Será possível uma guerra civil em Israel?

Escrevi esta primeira parte do artigo a uma semana atrás. Pensei em re-escrever, mas decidi deixar assim para o leitor poder ver a dinâmica e a velocidade dos acontecimentos em Israel.

19/07/2023

Quando pensamos se seria possível uma guerra civil em Israel, nossa imaginação nos leva a ver uma guerra entre judeus e árabes palestinos. Mas a realidade vai muito mais além de nossa imaginação.

A Guerra civil em Israel já existe. Ela iniciou-se em 4 de novembro de 1995, quando Igal Amir, sob influência de rabinos extremistas e da extrema direita, assassinou ao primeiro-ministro Itzhak Rabin.

A guerra civil vem se desenvolvendo desde lá com o apoio de judeus multimilionários americanos, que criaram a organização Kohelet, que define quais devem ser os passos para um “Novo Israel”, enterrando as origens do sionismo socialista laico humanista democrático e criando um Estado sionista messiânico, influenciado cada vez mais pelas leis da halacha e pela anexação dos territórios palestinos.

A guerra civil, com um só morto, foi comandada pela direita, durante os 13 anos do governo de Bibi Nataniahu, Likud e seus “parceiros naturais”, os partidos do sionismo messiânico, ultra ortodoxos e a extrema direita do Rabino Kahane.

Em janeiro deste ano subiu ao poder, principalmente por um erro grave da esquerda, que não se uniu e assim 2 partidos minoritários não alcançaram a porcentagem mínima , perdendo de 3-5 bancas, dando assim o poder de mãos beijadas a direita e a extrema direita, partido do terrorista judeu de Bem Gvir (ministro da segurança nacional) e do racista Smotrich (ministro das finanças) –  a favor da imposição religiosa no pais (halacha), a favor da anexação dos territórios palestinos, homofônico, cuja plataforma política é o extermínio da comunidade LGTBQ+, contra igualdade de direitos a mulher, aos árabes e finalmente contra o pluralismo judaico e as correntes reforma e conservativa.

Mas, este governo abriu a caixa de Pandora, colocando todos os fantasmas temidos para fora. Mas, sem saber que junto com os fantasmas a caixa de Pandora também continha a Esperança. A reação a Guerra Civil da direita.

Prof. Yuval Noah Harari declarou há dois dias que “O Estado de Israel como o conhecíamos está morto. Este governo está determinado a avançar em apenas uma direção – a ditadura, mesmo à custa de quebrar o contrato israelense “.

O ex-primeiro-ministro Ehud Barak afirmou na quinta-feira que a política liderada pelo atual governo liderado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu levará a um levante dentro das IDF e do Shin Bet – “A agenda liderada pelo governo mais direitista da história de Israel causará uma revolta e resistência civil, e recusas de ordens por altos oficiais das IDF e pessoal do Shin Bet”.

“O contrato foi quebrado, não podemos continuar assim. Chegamos ao momento da verdade, a um ponto em que sentimos que é tudo ou nada”. Continua Yuval Harari.

Em 1980 foi criado o movimento “Yesh Gvul” (tem fronteira). Soldados da reserva se recusavam a servir além das fronteiras de 67. Eu também assinei a carta de Yesh Gvul. Meu filho nasceu em 1983. 18 anos mais tarde, em 2011 ele se recusou a servir no exército de opressão e domínio dos territórios palestinos. Com ele estava o sobrinho do Bibi Nataniahu. Ambos foram presos por 6 meses, até serem liberados. Naquela época éramos uma minoria, e a causa era o conflito com os palestinos. Ninguém poderia imaginar o que aconteceria 40 anos mais tarde.

Está claro para todos nós que este governo quer eliminar todos os freios e contrapesos do regime   democrático, obter poder ilimitado para si e, assim, transformar Israel em uma ditadura. A princípio o governo tentou fazer isso por meio de uma rápida blitz legislativa. Nós a paramos e esperamos que ela ficasse sóbria. Queríamos acreditar que o governo percebeu seu erro e abandonou seu plano destrutivo. Demos uma chance de negociação na casa do presidente, com muita desconfiança, mas também com muita esperança. Infelizmente, todas as suspeitas foram confirmadas e a esperança foi completamente destruída .

O contrato que manteve nosso país unido por 75 anos está morto . A extrema direita o matou em novembro de 1995 e o governo  de Netanyahu fez “vidui ariga” (comprovante de morte) [1] a partir de janeiro de 2023 e o  enterrou  em julho.

É preciso entender que não estamos falando só de revolução judiciaria, esvaziando o Supremo Tribunal, permitindo ao governo tomar decisões em contra das Leis Básicas de Israel [2] , demissão e admissão de funcionários públicos e contrato de serviços sem concursos, desconectando os ministérios dos assessores judiciais independentes dos ministérios.  O poder executivo já está totalmente conectado com o poder legislativo. O que quer este governo é conectar o poder judiciário ao executivo e assim ter o poder total das decisões no País. Desta forma poderá o governo, com 25 % de membros ultra-ortodoxos aprovar leis religiosas em base a halacha, lei que permita a não convocação ao exercito de “avrachim” (jovens que estudam em Yeshivot – no momento foram exentos 170 mil jovens), lutar contra a comunidade LGTBQ+, reduzir os espaços públicos de mulheres, eliminar os movimentos reforma e conservativo. Um Israel “à la Irã”. Por outro lado, os 2 partidos sionistas messiânicos, de extrema direita, 25% do governo, poderão anexar os territórios da Palestina, conquistados em 1967, transformando Israel em uma África do Sul, com uma população judia previlegiada e sem direito de voto aos palestinos.

O governo não pensava que haveria uma resistência tão grande da população. Apesar de que receberam 64 cadeiras na Knesset, a maioria da população é contra a revolução judiciaria. Se houvesse eleições agora, a oposição receberia 64 cadeiras mais 5 do partido da Frente Árabe e o governo somente 51 cadeiras.

Mas, no momento, o governo caminha a toda velocidade e sem freios para mudar o País e implantar a ditadura. Mais ainda, agora que eles sabem que perderão as próximas eleições.

E quem vai se opor e resistir a esse golpe e revolução judiciaria? Será que as manifestações, que já vão a sua 30ª semana, são suficientes? Claro que não.

Cerca de 4.000 reservistas, oficiais e pilotos já declararam: Deixaremos de se voluntariar se a legislação unilateral continuar. O protesto nas FDI aprofunda-se e espalha-se por mais e mais unidades em todas as forças • A coligação continua a decretar a eliminação da lei da razoabilidade – e mais reservistas ameaçam abertamente que não se reportarão às suas unidades se a lei for aprovada. Reservistas pilotos e navegadores, Shaldag e Shayetet 13 a veteranos de oficiais do Corpo de Inteligência. A previsão do ex-primeiro-ministro Ehud Barak se concretiza.

O contragolpe virá de dentro do exército, dos serviços de segurança e informação, do setor de high tech, do sistema médico-hospitalar (mais de 400 médicos do sistema já declararam que se demitiram, caso as leis sejam aprovadas).

25/07/2023

Em apenas menos de uma semana, mais de 10 mil reservistas declararam que não servirão mais no exército. Há 3 dias atrás saiu de Tel Aviv a caminhada contra a reforma. Iniciou com 50 pessoas e chegou a 10 mil em Jerusalém. A ela se uniram mais de 150 mil pessoas. Entre elas, pela primeira vez, o setor religioso ortodoxo moderado, que até então não havia se manifestado. Em minha opinião elas são mais de 30% da população religiosa.

Durante o dia de domingo, o ex-chefe do serviço de informação fez uma declaração avisando do perigo da lei a ser aprovada. A Histadrut (Organização dos sindicatos) junto com a Organização das empresas particulares reuniu com representantes do governo, prevenindo pela centésima vez do perigo da quebra da economia de Israel. Entregaram uma proposta de mediação. Resistencia total.

Ontem, apesar das várias tentativas de mediação, com proposta de abrandar a Lei da razoabilidade, foi aprovada a lei em sua forma mais extremista, impedindo o Supremo tribunal de intervir e cancelar qualquer decisão do governo, seja de ordem política ou administrativa.  Pressionado pelo lado extremista do governo (Bem Gvir, Smotrich, Levin), que ameaçaram romper a coalisão, Bibi cedeu e permitiu que a lei fosse votada sem nenhuma mudança. 64 a favor, 0 contra. A oposição não votou à lei.

Desta forma, está aberto o caminho para a ditadura. Ontem mesmo, já houve atos de violência por parte da população mais extrema, atos que já se vem manifestando a tempo sem nenhuma resposta do exército ou da polícia – queima de cultivos agrícolas e corte de oliveiras em campos palestinos e queima de carros e casas em aldeias palestinas por extremistas nacionalistas, ataques a igrejas por extremistas religiosos ultra-ortodoxos.

A comemoração de vitória por parte dos partidos extremistas de direita e messiânicos, abre as portas, as populações extremistas de agirem.

A pergunta que para mim é a central, é como agirão as lideranças da oposição e a população que até agora saiu as ruas de forma pacífica. População que envolve extrema esquerda (uma minoria quase sem expressão), esquerda, centro (a grande maioria), os religiosos moderados e árabes.
Será que isto levará a um aumento de grupos de esquerda militantes? Será que isto levará a que a população que até agora soube brecar nos faróis vermelhos de atravessá-los? Será que a revolta civil pacifista até agora, tomará forma de violência?

Não acredito na resistência pela violência. Na revolta civil pacífica existe muito mais força e impacto. Recusar a servir no exército, deixar de pagar imposto, boicote, manifestações pacíficas, greves, etc. Ações que paralisam o país, mas não geram mais violência.

Para evitar um incremento de violência necessitamos também do apoio de fora. Do governo americano e das diásporas. É hora do Levante diaspórico. Deixar de contribuir com o Fundo Comunitário, enviar manifestos de apoio a revolta civil, boicotar Israel. Sim, boicotar àqueles setores extremistas nacionalistas e religiosos.  Manifestar-se em atos contra o atual governo e as medidas tomadas por eles. E não, não é uma questão só dos israelenses. E sim, sim a diáspora tem o direito de interferir. Ela já está interferindo a anos através da Organização Kohelet e outras organizações ultra-religiosas, que querem mudar o rumo do Estado de Israel. É hora dos judeus progressistas se levantarem e gritarem “Dai”, chega. Manifestar em frente da embaixada de Israel. Juntar-se a nós, lembrando que estamos há dois dias de 9 de Av, estamos diante de um “déjà vu” histórico de extremistas assumindo o poder e instigando o ódio gratuito – os principais motivos da destruição do 1º e 2º templo e da autonomia judaica em Israel.

[1] no exercito depois de atirar em um “terrorista” o soldado se aproxima e atira mais uma vez para comprovar a morte

[2] Israel não tem constituição, mas uma série de leis básicas que resguardam os direitos humanos e a declaração da independência, na qual está escrito que todos são iguais perante a lei, independente de sua religião, cor, sexo e raça.

Desafios da Democracia em Israel: A Luta pelo Poder Judiciário

Desafios da Democracia em Israel: A Luta pelo Poder Judiciário

Viver em sociedade significa muitas coisas, mas uma delas é obedecer às leis. As leis são como regras que nos dizem o que podemos ou não fazer. Muitas pessoas gostariam de viver como se não houvesse outras pessoas ao redor, mas isso seria um caos, com cada um fazendo o que quisesse.

Mesmo com todas as leis, ainda existem algumas pessoas que pensam que elas valem apenas para os outros, não para elas. Nessas situações, a justiça entra em ação para decidir o que fazer quando alguém desobedece a lei. Mas e quando é o próprio governo que desobedece a lei?

Alguns líderes eleitos que estão no poder desejam se tornar ditadores, porque o poder pode ser algo muito sedutor. Para evitar que isso aconteça, existe o poder judiciário, que é como um freio para o governo. Imagina só se o poder judiciário não pudesse dizer ao governante o que é certo ou errado? Seria como viver numa ditadura, mesmo que ela não parecesse tão severa.

Em Israel, não há uma constituição como a gente tem em outros países. O poder executivo e legislativo são quase a mesma coisa. O judiciário é como um freio para o governo, e quando ele é impedido por lei de intervir nas decisões do governo, as minorias ficam sem nenhuma proteção. Olhe o que aconteceu em outros lugares, como na Polônia, na Hungria e na Rússia, por exemplo.

Agora, em Israel, quem está no poder é uma união de diferentes grupos: a direita, os partidos religiosos e a extrema direita. Cada grupo tem seus próprios interesses. Os religiosos querem dinheiro para suas causas religiosas, a extrema direita quer poder para transformar Israel numa nação que se estende até o rio Jordão e, depois, até a Jordânia. E, por fim, a direita, representada pelo Likud, quer o poder só por ter o poder.

Essa união de grupos é forte, mas também é frágil. É forte porque cada grupo está no governo para conseguir o que quer. Mas é frágil porque, se um deles se sentir prejudicado, o governo pode cair. Se o dinheiro para os religiosos acabar, o governo pode cair. Se enfrentarem os radicais da extrema direita, o governo pode cair.

O tribunal supremo de justiça de Israel é chamado de Bagatz. Eles costumavam usar algo chamado de “Lei do Bom Senso”, quando não havia leis básicas específicas. Essa lei permitia que o Bagatz cancelasse decisões do governo que não pareciam fazer sentido. Não era porque existisse uma lei que dissesse que certas coisas não podiam ser feitas, mas era uma questão de senso comum. Isso incomodava muito o governo.

Ontem, 24/07/2022, o governo atacou o poder judiciário e tirou o poder do Bagatz de usar o “Bom Senso” para questionar as ações do governo. Agora, eles podem fazer o que quiserem sem ninguém questionar. Por exemplo, eles querem que as mulheres sentem nos últimos assentos nos transportes públicos e não permitem que casais gays se deem as mãos em lugares públicos, assim será e ninguém poderá impedir.

Além disso, o governo quer poder escolher os ministros do Bagatz. Atualmente, uma comissão composta por representantes do governo, da oposição, dos advogados e dos juízes é responsável por escolher os membros do tribunal supremo. O problema é que nem todos os escolhidos apoiam tudo o que o governo deseja.

O governo argumenta que eles têm maioria no parlamento e que, por isso, têm o direito de implementar suas políticas, já que foram eleitos com base nessas ideias. Isso é meio verdade, pois eles têm a maioria, mas tudo tem um limite, ou pelo menos tinha até ontem. Ninguém esperava que, uma vez eleitos, eles iriam atacar o judiciário dessa forma.

Pesquisas mostram que a maioria das pessoas é contra o que o governo está fazendo e que, se as eleições fossem hoje, eles não conseguiriam formar um governo novamente.

A primeira batalha já foi perdida, e o governo conseguiu aprovar a revogação do uso da “Lei do Bom Senso” para suas ações, com 64 votos a favor e nenhum contra. A oposição saiu do plenário depois que todas as tentativas de chegar a um acordo foram negadas. Milhares de israelenses que vem protestando nas ruas não desistiram da luta e precisam de todo o apoio possível.

A próxima batalha será no próprio Bagatz. Várias organizações da sociedade civil estão apelando ao tribunal supremo para que, ironicamente, eles usem o “Bom Senso” para invalidar a decisão do governo de revogar essa lei. Agora cabe ao Bagatz decidir se intervém para salvar a democracia ou se acaba com o que um dia foi chamado de a única democracia do Oriente Médio.

Sim, sou Sionista (histórico) e sou Judeu (daquele Judaísmo)

Sim, sou Sionista (histórico) e sou Judeu (daquele Judaísmo)

Faz alguns anos eu até discutia “academicamente” os conceitos de antissemitismo e antissionismo como diferentes em vários aspectos. Atualmente, porém, foco, não no conceito, mas na pessoa ANTISSIONISTA e, vejo que 99,9% das vezes trata-se de uma pessoa ANTISSEMITA.
 
O termo SEMITA (embora possa se referir aos povos semitas) foi cunhado para o JUDEU, e, assim, o ANTISSEMITA e ANTISSEMITISMO designam, independentemente do seu étimo, apenas um ANTIJUDEU e um ANTIJUDAÍSMO!
 
O termo SIONISMO jamais poderia ser utilizado no singular, pois há vários movimentos sionistas que vão da Esquerda anarquista e originalmente kibutziana, até a ortodoxia religiosa ou simplesmente um modus político. O antissionismo é, não apenas uma oposição ao Estado de Israel, mas uma oposição ao POVO DE ISRAEL e seu legítimo direito de ter e manter um Estado.
 
NOTAS:
 
1. Defender Israel não é, e nunca será, defender o governo de Israel, muito menos, o de Netanyahu e seu grupo schifoso!
 
2. Defender Israel não é, e nunca será, pretender esmagar Palestinos. Os Palestinos têm igual direito a um Estado!
 
3. Ser sionista legítimo, histórico e digno, é buscar a construção de uma Pátria para Judeus. Isso nunca pressupôs destruir Árabes ou, hoje, Palestinos. Há outros “sionismos”, inclusive “evangélicos”, absolutamente desprezíveis.
 
4. O sionismo HISTÓRICO se fortaleceu exatamente para se opor ao ANTISSEMITISMO e ganhou energia e foco na luta ANTINAZISTA e ANTIFASCISTA (nazismo e fascismo são regimes de EXTREMA-DIREITA).
5. Assim, quando um grupo de políticos Israelenses (tendo Netanyahu à testa) adota o modus da extrema-direita são eles que se tornam realmente “antissionistas” e, em boa medida, também, “antissemitas”. No primeiro caso, se colocam contra o sionismo histórico; no segundo, contra o Judaísmo essencial. Por quê? Porque o Sionismo histórico e o Judaísmo não têm nada a ver com extrema-direita.
 
6. Sigo sendo SIONISTA (HISTÓRICO!!!!). Sigo sendo JUDEU (daquele Judaísmo dos Patriarcas, de Moisés, dos Profetas, de Hilel, de Luzzatto, de Landauer, de Buber, de Primo Levi, de Heschel etc). Sigo sendo sionista histórico, judeu e defensor de DOIS ESTADOS para DOIS POVOS: ISRAEL E PALESTINA!
 
(Pietro Nardella-Dellova)