O discurso completo de Yuval Noah Harari nas manifestações pela democracia em Israel (09/07/2023)
Há 75 anos, a poucos quarteirões daqui, Ben Gurion anunciou o estabelecimento do Estado de Israel. Um amontoado de sobreviventes dos pogroms e farhuds, refugiados que fugiram da ditadura, do racismo e da guerra, declararam que iriam estabelecer um estado democrático e que buscaria a paz, que garantiria a liberdade e igualdade para todos, independentemente de religião, gênero ou raça.
Todos nós sabemos que a promessa não foi totalmente cumprida. O sonho israelense, como todos os grandes sonhos, não é uma realidade, mas um destino.
Durante décadas, nos aproximamos desse objetivo passo a passo e continuamos a sonhar que um dia o alcançaríamos.
Mas, nos últimos meses, o governo de Netanyahu vem tentando frustrar o sonho israelense.
Netanyahu, Ben Gvir, Pindrus, vocês pegam os valores nos quais o Estado de Israel foi fundado e os valores que o povo judeu cultivou por gerações e os esmagam.
Vocês nos prometem que Israel será eternamente um estado racista, ocupante e violento. Vocês nos prometem que Israel será eternamente um país que odeia mulheres e pessoas LGBTQIA+. Vocês nos prometem que Israel será para sempre um país obscuro e atrasado.Vocês nos prometem o pesadelo israelense.
Vocês não estão destruindo apenas o Estado de Israel, mas todo o povo judeu. Se você estabelecer uma ditadura racista aqui, toda comunidade judaica, de Nova York a Sydney, terá que decidir se permanece fiel aos valores de “amar o próximo como a si mesmo” ou se alinha com o novo e obscuro judaísmo que você está inventando, o judaísmo dos incendiários de Havarah.
Cada comunidade judaica, de Nova York a Sydney, será dividida em duas e sua busca pessoal por dinheiro, poder e respeito, causará uma ruptura histórica por gerações.
Quando no século 7 os árabes estabeleceram o estado muçulmano, uma crise política estourou lá, logo após a morte do profeta Maomé.
Começou como um conflito entre duas facções sobre a divisão de poder, mas rapidamente se transformou em um cisma religioso, e, embora mais de 1000 anos tenham se passado desde então, xiitas e sunitas ainda são hostis entre si e a ferida nunca cicatrizou. Algo semelhante pode acontecer conosco agora.
Grandes desastres históricos às vezes acontecem por causa de pequenas ambições pessoais. Netanyahu, Deri, Amsalem, vocês estão tão ocupados distribuindo cargos que vocês não percebem. Mas os olhos da história veem você! Parem com isso antes que seja tarde demais!
E se vocês não pararem, então nós vamos parar o pesadelo de vocês!
Há uma semana, eu estava em uma manifestação em Beit Shemesh,
E eu vi centenas de pessoas ali juntas, religiosos e seculares, mulheres e homens, heterossexuais e LGBTQIA+, ashkenazis e mizrahis e todas as outras pessoas.
Até vi uma placa de protesto em iídiche:
“Nosso shtetl está pegando fogo!”
Nossa cidade inteira está pegando fogo!
Unindo forças, até agora conseguimos desacelerar a campanha incendiária do governo e suspender a promulgação das leis do golpe de estado. Por um momento, pareceu que o governo havia caído em si, mas ele voltou a tentar incendiar o sonho israelense.
Os acontecimentos dos últimos dias provam que esse governo só mudou de tática, não de objetivo.
Netanyahu, Levin, Rothman, se vocês tivessem um pingo de responsabilidade para com o Estado de Israel, ou mesmo apenas com seus eleitores, vocês se concentrariam em resolver os principais problemas dos cidadãos, o custo de vida, o aumento da criminalidade e a ameaça iraniana. Mas é aqui que você se concentra: em remover toda a supervisão legal aos seus atos e tomar para você o poder ilimitado.
Você perdeu no comitê de seleção de juízes – então deseja acabar o comitê. Você perdeu na Ordem dos Advogados – então quer aboli-la. O que você fará quando perder as eleições do Knesset? Vai cancelar as eleições?
Estamos perto de Tisha B’Av. Em breve ouviremos muito sobre os perigos do ódio gratuito. Mas a verdade é que quase não há ódio gratuito em Israel hoje. O ódio que está tomando conta do nosso país,
é um ódio que foi comprado com muito dinheiro.
De graça? – Imagine quanto custa colocar no ar o Canal 14! (Canal alinhado com o governo e que propaga discurso do ódio e fake news).
Não dá para esperar por Tisha B’av e a destruição do Templo. A hora de parar o governo Netanyahu é agora!
Mas você não pode parar o ódio com ódio.Portanto, em vez de odiar, devemos pegar o que sentimos e direcioná-lo para outro lugar – para a raiva! É permitido ficar com raiva, mesmo com pessoas que amamos. Há momentos em que ficar com raiva é certo e ficar com raiva é importante. Porque a raiva motiva a ação. É permitido e necessário ficar com raiva pelo que o governo Netanyahu está fazendo com nosso país e o sonho israelense!
E se o governo Netanyahu não parar, ele aprenderá nos próximos dias o que acontece – quando nós – estamos com raiva!!!
As centenas de milhares aqui em Tel Aviv e em todo o Israel, comunicamos Biniamin Netanyahu e e a todos os membros do seu governo que ainda ousamos acreditar no sonho israelense e se você aprovar unilateralmente as leis do seu golpe de Estado, nos oporemos a você de qualquer maneira não violenta que conhecemos!
Não vamos mais te obedecer! E também não serviremos em seu exército!
Quem se recusa a obedecer à ditadura não é um desertor mas um herói!!!
Sim, sou de Esquerda, porque de Esquerda foram todos os meus patriarcas, de Esquerda foi Moisés, de Esquerda foram os Profetas, de Esquerda foram os maiores Pensadores do Judaísmo e de Esquerda foi aquela parte da minha família que viveu e sobreviveu em ghettos” no sul da Itália, contra todas as opressões, inclusive nazifascsitas.
Sim, sou Sionista, porque Sionistas foram todos os grandes homens e mulheres do Judaísmo por terem, em alto e profundo, uma relação direta de ancestralidade e comunhão com Eretz Israel. Sim, o meu Sionismo não é o mesmo sionismo dos “sionistas” que ocupam e esbulham as terras palestinas, porque o meu Sionismo é pleno de Judaísmo, e o sionismo deles, de ódio e antijudaísmo.
Sim, sou Sionista, e o meu Sionismo pressupõe defender Israel e sua integridade sempre e para sempre. Sim, é o Sionismo do “Am Yisrael Chai”, porque Israel é a melhor coisa que aconteceu nos últimos 2000 anos. Mas, o meu Sionismo não é islamofóbico nem anti-Palestino. É o Sionismo que respeita o Direito Internacional, as Resoluções da ONU e o direito inquestionável dos Palestinos de terem, também, seu Estado e sua independência soberana. Sim, sou Sionista e compreendo, em alto e profundo, que os Palestinos são filhos do mesmo patriarca Avraham.
Sim, sou Sionista, e sou Judeu, e sou de Esquerda, e amo a Torá, os Profetas, os Escritos, o Talmud, o Zohar e tudo aquilo que é fruto da alma e inteligência judias, da caminhada judaica e da experiência do Judaísmo no mundo – nos últimos 4.000 anos.
Semana passada memoramos o dia do Holocausto, ontem a noite e hoje memoramos Yom Hazikarom (o dia da memória), no qual lembramos os mortos caídos nas guerras e no conflito com os palestinos. Hoje a noite comemoraremos Yom Haatzmaut, o dia da Independência, da criação do Estado de Israel, sonho de 2000 mil anos do povo judeu. São dias de muita emoção e reflexão, uma práxis de minha caminhada pessoal e coletiva. Há 18 anos participo do Yom Hazikaron Alternativo, no qual memoramos os mortos judeus e palestinos caídos nas guerras e no conflito entre os dois povos. https://youtu.be/gxbkR9_ZTrw
Ao acordar hoje, como sempre, coloco músicas especiais de Yom Hazikaron. Cada uma das músicas me leva a um lugar no meu coração de tristeza, dor e esperança. Tristeza e dor pelos caídos, pelo medo de meus netos terem que continuar a servir, ou recusar a servir no exército de domínio a Palestina, antigo exército de defesa de Israel. Tristeza em pensar quantos mais terão que morrer…Bob Dylan. E ao escutar as músicas, dois pensamentos me vieram a mente.
Yamim Noraim (Days of Awe, dias de espanto) é o período de 10 dias entre Rosh Hashana (o primeiro dia do ano judaico) e Yom Kipur (o dia do perdão). São 10 dias nos quais o povo judeu pede slichot (perdão) e se reconcilia com Deus, mas principalmente e antes de tudo com os seres humanos. Vindo de uma família religiosa, Yom Kipur era um dia muito especial, de jejum, com uma áurea e energia especial, no qual rezamos uma reza na qual pedimos perdão por uma série de erros (no original pecados) que cometemos “lefaneicha” (na sua frente). Como criança e adolescente inquieto não entendia por que tenho que pedir perdão a Deus por algo que não cometi. Hoje, esta reza é a que mais me emociona, e que representa a minha metamorfose e o entendimento dela. Em primeiro lugar a reza não se dirige a Deus. Em nenhum momento está escrito “Al hachet she chatati lefaneicha elochim” (sobre o pecado que pequei em sua frente, Deus”. A Palavra Deus não consta no texto, somente “Lefaneicha” (na sua frente). חייב האדם לבקש מחילה מחברו ורק אחר כך מאלוהיו. O homem deve pedir perdão ao seu amigo e só então ao seu Deus. Sendo assim, “lefaneicha” é seu amigo, outro Ser Humano. E não só pedir perdão, mas o mais importante reconciliar. Em segundo lugar, eu sei quais foram os meus erros cometidos de proposito a outro ser humano, mas não sei se ofendi, machuquei, feri a um outro ser humano sem querer. Assim que pedir perdão específico é um sinal de humildade e de respeito pelas diferenças e pelos direitos humanos do OUTRO.
Como escrevi no artigo “Israel é importante demais para deixar somente nas mãos dos israelenses”, foram cometidos muitos erros, alguns premeditados e outros resultados da dinâmica do processo. O pior de todos a Nakba, a Desgraça, dos palestinos. 600 mil refugiados. O Segundo maior erro foi ficar com os territórios da Cisjordânia e de Gaza, conquistados na Guerra dos 6 dias em 1967. Não é hora de analisar quem é o culpado da Nakba, se os próprios palestinos, se Israel, se os lideres árabes dos países vizinhos. A Nakba é a desgraça do povo palestino, que se segue com a conquista dos territórios da Cisjordânia e de Gaza. Também não é o lugar para perguntar porque Egito e a Jordânia não incentivaram a criação do Estado Palestino nestes territórios entre 48 e 67, quando estavam em seu poder.
E, assim como em Yamim Noraim, me veio a ideia de que esta semana entre o Dia do Holocausto e Yom Hazikarom podíamos fazer um segundo Yamim Noraim, e pedir perdão aos palestinos e reconciliar-se com eles. Como em Yamim Noraim, não nos perguntamos sobre os erros (pecados) cometidos pelos outros, aqui também não questionamos os erros do outro lado, dos palestinos. O processo de perdão é um processo de introspeção, seja ela individual ou coletiva. O foco está em nossas ações, independente se foram motivados de forma premeditada, por que nos obrigaram a agir desta forma ou mesmo que não nos demos conta que estávamos fazendo mal ao outro. Desta forma quem sabe o outro lado agirá da mesma forma, criando a dinâmica da reconciliação.
O segundo pensamento surgiu já ontem a noite no Ato de Yom Hazikaron Alternativo. 10 mil pessoas presentes e outras centenas de milhares online, judeus e palestinos, escutamos a tragedia de judeus e palestinos que perderam seus entes queridos, pais, mães, irmãos, irmãs, filhos e filhas. Não existe tristeza maior ou menor, não existe dor maior ou menor. O luto é o mesmo, as memorias são as mesmas, de amor ao caído, apesar de que cada vida é uma vida individual, única.
Fora do espaço ao ar livre, no qual se realizou o ato, 20 extremistas gritavam com megafones “traidores”, cheios de odio a todos os que lá estavam, judeus e palestinos. Em meu livro “Psicopedagogia do amor”, descrevi que o mundo, hoje, se divide em dois. Àqueles que se apegam ao problema e àqueles que se apegam a solução. Os primeiros estão cheios de medo, odio e violência. Medo de perderem o poder, os valores do passado, que já não condizem com o mundo em que vivemos, com o sec. XXI. Enraizados em seus dogmas passados, desenvolvem um processo de desumanização do outro, definindo-os como traidores, ratos. Os segundos, estão cheios de amor e esperança, acreditando em um mundo melhor, no qual se pode perdoar, reconciliar e viver juntos.
O ato de ontem representa bem a sociedade israelense. Uma minoria de extremista, cheia de medo, odio e violência que por usarem “megafones”, sejam eles físicos ou virtuais, nos dá a impressão de que são a maioria. Mas, não. Não são a maioria. A maioria se cala, a maioria está confusa. A maioria não tem respostas, não tem caminho. Estão vivenciando o “bezerro de ouro” moderno, o consumo de bens materiais, o consumo das Mídias, o consumo da religião. Estes se calam, não vem e não escutam. Ou melhor não querem ver, não querem escutar para poder calar-se.
E, finalmente, os participantes do Ato. Cheios de amor e esperança, crescendo a cada dia. Me lembro que no primeiro ato havia algumas dezenas ou talvez centenas de participantes. Ano a ano fomos crescendo até tornarmos milhares, centenas de milhares a manifestar sua esperança à Paz, à reconciliação. Vemos isto também nas manifestações, que se iniciaram como protesto a futura possível ditadura, a favor da democracia judaica, da antiga ordem. Mas, assim como no Ato Alternativo, o número de pessoas e cartazes com os dizeres de “Não existe democracia com o domínio a Palestina”, “Fim do domínio, inicio da democracia” e outros foram crescendo de semana a semana, durante os últimos quatro meses.
Yuval Harari em seu livro Sapiens, escreve que uma narrativa passa a ser valida quando uma massa critica de pessoas passa a aceitá-la. Neste Yom Hatzmaut quero ser e ter esperança de que estamos caminhando para uma massa critica e que finalmente o povo de Israel entenda, através deste governo de extrema-direita e de sionistas messiânicos, de que a liberdade do povo judeu somente será quando o povo palestino tiver sua própria liberdade.
Que no ano que vem Jerusalém, em vez de ser repartida, seja compartida entre judeus e palestinos.
Existem hoje vários grupos de WhatsApp e Telegram que reúnem a resistência contra a implantação de uma ditadura em Israel. Um dos grupos dos quais eu participo se chama Bandeiras Negras Nacional. Meu grupo é o de número 357. Quando entrei, nos primeiros dias de protestos, ele reunia cerca de 200 membros, hoje passa de 1000.
Somos atualizados diariamente sobre as ações que estão sendo tomadas e os resultados delas. Muitas vezes recebemos pedidos de apoio imediato quando uma ação exige presença em um local onde está um parlamentar que apoia a ditadura. Isto aconteceu, por exemplo nesta quinta-feira que passou. Miri Regev a ministra dos transportes veio a um hotel na minha cidade, Hedera, que fica próximo da minha casa. Eu estava trabalhando de casa em respeito ao dia de paralizações. Imediatamente peguei minha bandeira e fui para o local.
Ao chegar lá haviam uns poucos manifestantes que enfrentavam a ira dos seguranças do hotel que queriam nos afastar a todo custo. Logo a polícia foi chamada e mais companheiros chegaram depois de receber a mensagem com pedido de apoio.
Membros do Likud apareceram para nos confrontar e a polícia teve muito trabalho para acalmar os ânimos que se exaltavam. No final Miri Regev teve que sair por trás do hotel, o que consideramos uma vitória. Eles não vão ter sossego onde quer que estejam.
Durante 12 semanas tivemos manifestações todos os sábados a noite e nas últimas semanas a quinta-feira foi incluída. Agora a resistência sobe de patamar. Será uma semana inteira de lutas. Mais de 200 pilotos reservistas voluntários da Força Aérea anunciaram que não vão mais comparecer para exercícios e não vão servir a um regime autoritário. A eles se somam 150 médicos e 180 membros da defesa Cyber. Isto representa a ponta do Iceberg do que está para acontecer. Sem eles, os reservistas voluntários, não existe força aérea, e o exército vai enfrentar muitos problemas.
Segue a tradução livre da mensagem da resistência divulgada nesta sexta-feira dia 24/03/2023:
“Na próxima semana teremos a Semana Nacional da Paralisia que incluirá: dias de paralisação, ações de resistência contra membros da coalizão e uma grande manifestação em Jerusalém.
A luta está se intensificando.
Diante da tentativa de Netanyahu na próxima semana de realizar uma apropriação hostil da Suprema Corte, e de nomear juízes, em flagrante violação do acordo de conflito de interesses, da decisão do Supremo Tribunal de Justiça e da ordem do Provedor de Justiça, os líderes da resistência à ditadura declaram esta noite (sexta-feira) a próxima semana como semana de paralisação nacional.
Aos domingos e segundas estaremos onde quer que estejam os membros do Knesset (coalizão) e ministros do governo e silenciaremos sua agenda. Vamos alcançá-los em todos os lugares e deixar claro para eles que a ditadura não passará sob nossa vigilância.
Na terça-feira teremos um dia de paralisação generalizada em todo o país, o que representará um avanço em relação aos dias anteriores da resistência.
Na quarta-feira realizaremos eventos significativos de paralisação pela manhã e depois iremos a Jerusalém e realizaremos uma grande manifestação em frente ao Knesset israelense.
Na quinta-feira haverá eventos de protesto que não podemos revelar agora.
“Estamos entrando na semana fatídica da história do Estado de Israel. O governo destruidor de lares está destruindo o povo, desmantelando o exército e a economia israelense.
Diante da tentativa de transformar Israel em uma ditadura, milhões sairão às ruas e defenderão o Estado de Israel e a Declaração de Independência.
Todo cidadão que quiser viver em democracia deve sair às ruas, opor-se a todo custo à ditadura e paralisar o país. Não temos medo de um longo caminho, o povo de Israel vencerá – a democracia vencerá.”
O protesto das bandeiras negras.
Salvando a democracia.”
Sem dúvida esta será uma semana decisiva. O governo já anunciou que pretende aprovar a lei que vai permitir a ele nomear os ministros do supremo colocando uma maioria de políticos governamentais na comissão que nomeia os juízes. Netanihau anunciou antes de viajar a Londres que não vai parar o que ele chama de reforma do sistema jurídico.
O Ministro da Defesa, Galant quer fazer com que a coalizão pare a reforma. Tentou dizer isto em uma declaração pública, mas foi silenciado momentaneamente por Netanihau que pediu a eles alguns dias de trégua antes de viajar. Na volta da viagem,o demotiu desencadeando revolta na população que saiu num domingo a noite para protestar.
A Bolsa está caindo e o dólar subindo. A economia já dá mostras do que está por vir. Donos de restaurantes reclamam que os clientes sumiram, não há clima para sair de casa. Já vemos aqui o rompimento de amizades, de separação entre familiares, como aconteceu no Brasil.
Estamos próximos do Pessach, uma festa que reúne as famílias e amigos. Este ano não será igual aos anos anteriores.
Logo vem o Dia da Lembrança pelos caídos nas guerras de Israel centenas de famílias pediram para não receberem nenhuma mensagem do governo e que membros do governo e da coalizão não compareçam nos cemitérios neste dia.
E aí o Dia da Independência com o povo dividido por um governo inconsequente.
Felizmente somos a maioria e o fascismo está enfrentando uma resistência feroz, destemida e determinada a não permitir a implantação de um regime ditatorial em Israel. São homens e mulheres, laicos e religiosos, jovens e idosos, de esquerda e de direita com a Bandeira de Israel em mãos lutando para preservar a democracia.
Desde a criação do Estado, em 1948, uma boa parte da diáspora judaica, provavelmente a maioria, nunca se permitiu entrar nos assuntos internos de Israel, sob o argumento de que cabia aos seus cidadãos, aqueles lá nascidos ou que fizeram aliá, decidir o seu destino dentro das regras democráticas. Dispersos pelo mundo, esses judeus temiam reforçar o coro da crítica à Israel e colocar o foco sobre si, traumatizados pelo histórico de perseguições. O silêncio durou mais de 70 anos, precisamente até a formação do atual governo israelense, de longe o mais à direita que Israel já teve.
Hoje, face ao perigo que pesa sobre a democracia, judeus, de Israel e de fora, se manifestam. No país, em gigantescos protestos, os maiores jamais registrados, reunindo em todas as cidades centenas de milhares de pessoas. Fora de Israel, a diáspora se solidariza. No Brasil, grupos como os Judeus pela Democracia, Judias e Judeus Sionistas de Esquerda, o movimento Paz Agora e outros tomam partido.
Numa carta aberta publicada no Times of Israel, três jornalistas israelo-americanos disseram: “Os judeus da diáspora têm simultaneamente o direito e a responsabilidade de dizer não ao governo que destrói os fundamentos da sociedade israelense e a ética democrática.”
Nas últimas semanas, manifestantes foram detidos e a violência policial levou um manifestante ao hospital com ferimento grave em uma orelha, atingido por uma granada de atordoamento.
A causa que mobiliza o país é uma reforma proposta pelo governo, que permitiria ao governo nomear os juízes da Suprema Corte e à Knesset derrubar decisões da Suprema Corte com maioria simples, além de dar ao Parlamento o direito de adotar leis impossíveis de serem modificadas pelos juízes, mesmo em caso de flagrante ilegalidade. Em outras palavras, visto que Israel não tem Constituição e que se trata de um regime parlamentarista, o país estaria totalmente nas mãos do governo. Não existiria nenhum contrapeso institucional capaz de evitar um regime autocrático e teocrático. Ou seja, o primeiro-ministro teria superpoderes absolutos, ilimitados. Enquanto o Judiciário perderia sua independência, minando o Estado de Direito.
Nas democracias modernas existem três poderes, executivo, legislativo e judiciário. Todos têm suas atribuições definidas e convivem em harmonia. No sistema parlamentarista israelense, executivo e legislativo são o mesmo. Todos os membros do governo são também parlamentares, inclusive o primeiro-ministro. O único poder que garante um contrapeso é o Judiciário. Se ele perder seu peso, teremos uma ditadura.
Os judeus deixariam então de se orgulhar do fato de Israel ser a única democracia do Oriente Médio.
Bibi, como o premiê é conhecido, argumenta que a mudança é necessária para tirar a Justiça das mãos de “magistrados elitistas e tendenciosos”.
Nada disto é por acaso: o primeiro-ministro estava na iminência de ser julgado por corrupção. Eis porque nomeou ministros com ficha suja, que, como ele próprio, se verão livres da Justiça graças ao novo texto legal. Um escandaloso toma lá, dá cá.
Como obteve apenas 32 dos 120 assentos no Parlamento, Netanyahu formou uma coligação de seis partidos, liderada pelo Likud, nos quais encontramos três de extrema-direita e duas forças representativas dos setores ultra-ortodoxos. O que decorre disto é evidente: a gestão de áreas sensíveis entre as mãos de partidos que de humanismo, democracia, laicidade e honestidade nada têm.
No entanto, alguns poucos judeus da diáspora continuam defendendo o silêncio. É inegável que quem tem a última palavra sobre a política israelense são os seus cidadãos, mas também é verdade que Israel conta – e muito – para todo o povo judeu, mesmo para aqueles que não têm a intenção de emigrar para Israel, dentre os quais me incluo. Israel é uma espécie de seguro de vida, de porto seguro para todos nós, judeus sul-americanos, europeus, americanos, africanos, asiáticos, vítimas frequentes do antissemitismo, de direita como de esquerda.
Também por isso, não somos indiferentes ao que se passa em Israel. Temos, quase todos, familiares no país e, para além disso, foi naquela terra que nasceu o povo judeu, onde forjou a sua identidade espiritual, ética, religiosa, ideológica e nacional. Uma terra cuja Declaração de Independência, de 1948, e leis sucessivas, garantiram o seu carácter democrático, a liberdade religiosa e onde os direitos cívicos são assegurados pela independência do Poder Judiciário e sua rigorosa separação do poder político.
Pois é exatamente este Israel que está em perigo com o governo de coalizão liderado por Benjamin Netanyahu, com participação de partidos ortodoxos de ultradireita, racistas, homofóbicos, misóginos, que a socióloga franco-israelense Eva Iliouz não hesita em taxar abertamente de fascistas.
Esta coligação governamental coloca em risco não apenas os alicerces do Estado como ataca o judaísmo laico, que permitiu a nossa sobrevivência, mesmo após o extermínio de um terço dentre nós. De acordo com uma pesquisa recente, 41% dos judeus israelenses são laicos e, em toda a população judaica, apenas 30% afirmam confiar no “Grão Rabinato”.
O escritor marxista norte-americano David Horowitz, fundador do movimento Nova Esquerda, nos Estados Unidos, qualifica o que se passa em Israel como um “golpe de Estado constitucional”. Outros comparam Israel aos regimes iliberais da Hungria, Polônia, Itália.
Um dos objetivos da coligação é impor a discriminação religiosa, que permite à extrema-direita ultra-ortodoxa até mesmo determinar quem é e quem não é judeu à luz da sua árvore genealógica e de sua tendência ideológica. O partido Shas apresentou um projeto de lei considerando passível de sanções a oração mista de homens e mulheres e as vestes “impudicas” no Muro das Lamentações. Enquanto Itamar Ben Gvir, ministro da Segurança Nacional, condenado por racismo e próximo do Kahanismo terrorista, defende a separação entre homens e mulheres nas escolas, hospitais e outros lugares públicos.
Como se não bastasse, vários partidos da coalizão estão empenhados na anexação da totalidade da Cisjordânia, o que enterraria qualquer possibilidade de negociação futura, bem como a criação de um Estado Palestino. Gvir vai além, já defendeu no passado a deportação de todos os árabes, inclusive dos territórios palestinos, uma vez anexados. Assim, Israel ganharia um lugar definitivo no banco dos réus da comunidade internacional, dando razão àqueles que o acusam de ser um país colonizador, racista, onde reina a apartheid. Na melhor das hipóteses, palestinos e árabes israelenses passariam então a ser “oficialmente” cidadãos de terceira classe, uma vez que de segunda já o são. A paz seria para todo o sempre uma palavra vã.
A manter-se no poder, a coalizão poderá destruir a coesão da sociedade israelense, assim como os fundamentos da sua identidade democrática. 66% da população são contra a reforma em curso e quase 20% ameaçam retirar os seus capitais do país, enquanto outros se preparam para deixar Israel.
Yuval Noah Harari, um dos grandes pensadores contemporâneos, autor de Sapiens: uma breve história da humanidade, já avisou: se o projeto de lei for aprovado, irá para outro país. Harari denuncia um golpe de estado em andamento.
Aparentemente, Bibi se mostra indiferente à insatisfação geral, pensando unicamente na permanência no poder e desta forma evitar a prisão; tanto assim que o projeto de lei tramita normalmente no Knesset, que já aprovou um artigo transferindo à maioria parlamentar a indicação dos magistrados da Corte Suprema. Reforma que o presidente israelense, Isaac Herzog, qualificou de “uma marcha para o abismo”.
Caso o projeto de lei seja adotado, o jornal Haaretz prevê uma guerra sem fim, que in extremis poderá destruir o próprio Estado de Israel.
Após o violento motim pogrom levado a cabo por numerosos colonos contra a cidade palestina de Huwara, na Cisjordânia, em resposta ao assassinato de dois irmãos judeus naquela cidade, o deputado de extrema-direita Zvika Vogel, presidente da Comissão de Segurança Nacional do Parlamento israelense, não hesitou: “Quero ver Huwara cercada e queimada.”
Bezalel Smotrich, outro membro extremista do governo, disse em entrevista que Israel deveria eliminar a cidade de Huwara e adotar uma solução radical que implicaria na morte de 7.000 habitantes. Palavras que até o Departamento de Estado norte-americano qualificou de “irresponsáveis e repugnantes”. Foi obrigado a se desculpar, alegando ter sido mal interpretado. A eliminação de populações rima com “solução final”.
Os judeus democratas, todos os judeus democratas, do mundo inteiro, têm a obrigação de apelar para o fim de uma coalizão que ameaça a democracia, o judaísmo progressista, o sonho de paz. No ar, ouve-se um grito de alerta contra o fascismo judaico que está destruindo Israel, depois de destruir os palestinos.
Israel perdeu a alma.
Está na hora de deixar as coisas claras, nos seus devidos lugares. E o de Netanyahu é no tribunal e não à frente do governo.
Israel está vivendo um verdadeiro caos político. Manifestações que reúnem cerca de 400 mil pessoas por todo o país ocorrem todos os sábados a noite. Hoje não será diferente, mesmo depois do atentado ocorrido na quinta-feira. A luta pela democracia está levando o país a um ponto de ruptura.
Aqui não existe uma constituição. O sistema é parlamentarista, mas o poder executivo e legislativo são um só. Os ministros do governo e até mesmo o primeiro ministro são membros do parlamento. Parece que só agora se deram conta do que isto significa.
O terceiro poder, ou o segundo como o conhecemos aqui é a suprema corte. Ela é quem impede as leis que ferem os direitos humanos, quem protege as minorias e revoga decisões do governo que vão de encontro as leis básicas.
O novo governo depois das eleições foi formado entre a direita, religiosos e a extrema direita. Gente sem a menos condição e experiência de governar recebeu um ministério e se tornou “ministro”, alguns deles já cumpriram pena de prisão.
Para evitar ao máximo que o governo crie embaraços para si mesmo, existe a figura da procuradoria geral. Quando o governo quer propor uma nova lei, ela é quem diz se a lei é legal, ou se fere algum princípio. Se o governo quer apontar alguém para determinado cargo, ela pode ir contra e apresentar suas razões. Normalmente o governo acata os pareceres, mas não este governo.
Com a proposta de melhorar o balanço de poder entre o governo (executivo + legislativo) e a justiça (Suprema Corte), eles propuseram passar uma série de leis que tira da justiça qualquer poder de conter o governo quando ele ultrapassa os limites da razoabilidade. É o caminho clássico para uma ditadura.
São propostas de cunho fascistas, que visam dar ao governo o poder que faltava, o de fazer justiça. Desta maneira eles seriam responsáveis pelo executivo, legislativo e justiça. Poder absoluto capaz até mesmo para decidir que não é preciso mais eleições.
É por conta disto que a cada sábado mais e mais pessoas aderem as manifestações. Somam-se aos dias de resistência com diversas ações de luta por todo o país. O tráfego de veículos é interrompido em diversos pontos, manifestações em entroncamentos, paralização do trabalho etc.
Hoje será o décimo sábado seguido de manifestações nacionais. Nem mesmo o atentado de quinta-feira em Tel-Aviv, depois de um dia de resistência impedirá que saiamos as ruas.
Até o momento a situação é de total impasse, onde nem mesmo o presidente consegue acalmar os ânimos. Isto deve-se a duas razões. A primeira de que as manifestações são lideradas por dezenas de organizações civis, sem a participação dos partidos políticos. A segunda de que a oposição política não aceita negociar enquanto o governo não congelar o andamento de suas propostas, o que se negam a fazer.
Também já começam a surgir a separação de amizades, problemas dentro das famílias a exemplo do que aconteceu no Brasil entre bolsonaristas e não bolsonaristas. É uma bola de neve descendo a montanha.
Em meio a este caos social e político, o Ministro do Interior, o palhaço do Tik-Tok como é chamado o extremista de direita Bem Gvir, determinou quinta-feira passada, que o chefe de polícia de Tel-Aviv fosse transferido para um cargo subalterno, em razão de não ter empregado força suficiente contra os manifestantes na cidade. O chefe de polícia geral obedeceu. A procuradora determinou que o ato não era válido e ficava suspenso até que fosse verificado sua legalidade, e assim um novo imbróglio surgiu.
Enquanto isto a Arábia Saudita e o Iran reataram relações diplomáticas depois de vários meses de discussões intermediadas pela China. O atual governo culpa o anterior, e vice-versa. Para os israelenses o que realmente importa é se vamos poder continuar usando o espaço aéreo dos sauditas para voar para o Oriente.
O país está fervendo. Atentados semanais, colonos realizando pogroms, população nas ruas lutando para preservar a democracia e o primeiro ministro viajou por 3 dias para Roma. Foi conhecer a nova primeira-ministra italiana em um encontro de uma hora. Sim aquela com um passado fascista e um presente ainda incerto.