Faz alguns anos, deixei uma atividade em Sankt Gallen (Suiça), e aceitei Coordenar um Projeto de Direito na Amazônia, que pressupunha (para mim), entre outros objetivos, conhecer e reconhecer direitos indígenas, identificar ocupação ilegal das terras, promover a preservação da Floresta e dos recursos naturais, emitir relatório de garimpo ilegal e de derrubada de árvores, defender o direito de trabalhadores rurais etc…
Neste contexto, conheci, quase que por acaso, um jovem casal: Renata e Thiago. Desenvolveu-se, então, uma boa amizade, com direito a vários cafés, alguns pastéis de banana e boas conversas acerca do Judaísmo, Literatura e Direito (Renata era formada em Letras; Thiago era um jovem policial militar, com grande interesse em Judaísmo, e eu estava ali).
Ambos me contaram que viviam juntos havia alguns anos, mas sem um “casamento”, pois, isso lhes tinha sido negado pelas suas “autoridades” religiosas cristãs, por conta de uma gravidez durante o namoro. Para mim, estarem, ou não, casados, religiosa ou civilmente, dizia muito pouco (ou nada!), pois acredito em amor livre, mas eles sofriam muito com isso, especialmente ela, pois havia sido acusada pela mãe (cristã evangélica) de “fornicação” e, ainda, recebido a “maldição sobre a criança” gerada “em pecado”. Havia muito sofrimento ali…
Porém, passado algum tempo de encontros, cafés e boa amizade, manifestaram uma imensa vontade de realizarem o casamento. Perguntaram-me se eu o celebraria no modo judaico, já que os Cristãos haviam se recusado perversamente a lhes dar uma “bênção”. Respondi que sim, e se isso realmente fosse importante para eles, se isso pudesse lhes trazer alguma dignidade, realizaria a cerimônia com grande alegria e honra.
E, assim, o casamento foi realizado, em nome da dignidade da pessoa humana – não de qualquer religião, nem mesmo a Judaica.
Mas, os deuses da floresta amazônica estiveram presentes! A mãe da guria (noiva) também esteve presente e, ali mesmo, logo após a cerimônia com elementos judaicos, reataram a relação entre um perdão e outro, incluindo abraços, beijos, choro e o apreço pela netinha (que havia nascido, claro, sem qualquer maldição). Eis o milagre!
NOTA: Na cerimônia, usei para uma curtíssima prédica apenas o Livro SHIR HASHIRIM (Cântico dos Cânticos, de Salomão) e um texto acerca da FELICIDADE, de Epicuro. Era o tanto que bastava.
Salvo melhor juízo, o primeiro texto (ou um dois primeiríssimos) em Língua Portuguesa, defendendo o Casamento entre pessoas do mesmo sexo foi de minha autoria (publiquei-o em um Jornal paulista com o título “Do Casamento entre Homossexuais ou, da União entre Pessoas“. O texto, escrito em 1999, foi publicado em 2000. Nele, defendia o direito das pessoas se unirem, em nome do Afeto, considerando não poder haver discriminação de qualquer natureza!
Mesmo tendo reservas em relação ao Ato Jurídico (cartorário) Casamento para qualquer pessoa, de qualquer orientação sexual, considerei que o Casamento ou a União Estável entre Pessoas do mesmo sexo eram necessários a fim de tutelar juridicamente tais e quais relações. Esse reconhecimento, veio, depois, pouco a pouco, via Jurisprudencial, e firmou-se no STF mais de dez anos depois daquele referido texto.
Era difícil falar sobre isso nas Aulas de Direito Civil, mas eu falava! Os alunos e alunas tinham um problema qualquer (o problema não estava nos gays e lésbicas, mas nos que se consideravam “moralmente superiores”). Eu dizia, sempre, em Aula: “Se você vir duas pessoas do mesmo sexo se beijando ali no corredor, isso interessa a você em que sentido? E se não interessa, porque recrimina?”. À pergunta seguia-se sempre o silêncio dos asnos matriculados! Havia asnos, muitos asnos, também na Sala dos Professores!
Hoje, após 22 anos (22 anos!!!!) daquele texto, e mais de uma década da Decisão do STF, além de tudo mais, ainda continuo encontrando asnos matriculados, asnos docentes, asnos homofóbicos, asnos bíblicos, asnos reprimidos, asnos neopentecostais, asnos e mais asnos, enfim, gente de baixíssimo valor humanista, nenhuma dignidade afetiva, nenhuma inteligência e nenhum valor ético. Moralistas babacas!
No que respeita ao Ensino Jurídico, o meu Direito Civil foi, e é, sempre, e, sobretudo, Constitucional. Não reconheço qualquer outro modo de ensinar o Direito Civil que não seja em chave constitucional. E quando ensino Direito das Famílias, tenho, de um lado, a Constituição, e de outro, o conceito pleno e libertário de Afeto. Não ensino um Direito Civil que colabore com a burguesia tosca, rasa e exploradora, nem um Direito das Famílias que contribua com a opressão religiosa e moralista. Penso que um dia, ao olhar para trás, não sentirei vergonha de mim mesmo nem da minha ação docente por todo o período em que atuo!
Mas, o tema continua em maus espaços de discussão. E mantém-se a pergunta: o que é Família? É muita coisa (e pode ser muita coisa), menos o que a “comissão especial” (da Câmara dos Deputados) definiu, faz alguns anos, no Projeto de Lei n. 6583/2013 (Estatuto da Família).
Aliás, como eu já disse em outra ocasião, especialmente, em Entrevista para o Programa de Rádio, no Paraná (vide texto “Congresso Conservador Ameaça Direitos Conquistados“), o “parecer” da Comissão é um atraso, por si só, em relação ao Direito e, em especial, aos Núcleos Familiares. É um retrocesso ao século XIX. É atraso, muito atraso. Eis um dos retrógrados Artigos do Projeto de Lei n. 6583/2013, aprovado pela Comissão:
Para os fins desta Lei, define-se entidade familiar como o núcleo social formado a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou união estável, ou ainda por comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes.
Obviamente a definição da dita Comissão sequer pode prosperar (no processo legislativo), por várias razões socioeconômicas, mas, por duas legais, tanto de caráter constitucional quanto infraconstitucional, respectivamente, Artigo 5º, XXXVI da CF/88 e Artigo 6º da LINDB (apenas para citar os dispositivos mais expressivos):
A Lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada.
Pois bem, já está decidido pelo STF e, portanto, é “coisa julgada”, a união entre pessoas do mesmo sexo como Núcleo familiar (desprezado, agora, pela comissão parlamentar e pelo Projeto de Lei n. 6583/2013). Qualquer nova lei não pode repercutir sobre este fato (social e jurídico). É coisa julgada e, mais, estabelecida no Direito que, não entenderam os parlamentares, não pode ser modificada. Não se tiram direitos!
Além disso, o “projeto” passado pela Comissão não contempla outras famílias, como as recompostas, famílias afetivas (por exemplo, filhos de criação), uniões plúrimas, entre irmãos e, ainda, de uma pessoa só, com visíveis impactos, se aprovado o parecer da comissão, sobre o patrimônio, especialmente, no que respeita à Usucapião e Impenhorabilidade do Bem de Família. Cito apenas o mais básico na ordem patrimonial. Há mais, muito mais, pelo ângulo Previdenciário, Trabalhista, Tributário, Civil, Processual Civil, Penal, Processual Penal, entre outros e, repetindo, Constitucional!
Por outro lado, a “comissão” quer alterar (ou atentar contra) o texto da Constituição? Sim, pois sequer a CF/88, em seu Artigo 226, definiu que “família seja núcleo formado pela união entre homem e mulher”, aliás, nem casamento aparece na Constituição como “união entre homem e mulher”. O Constituinte de 1987 nem mesmo definiu família (e agiu bem, pois a ideia é aberta).
Poderia a lei modificar a Constituição? Na cabeça dos mais retrógrados parlamentares, sim, já que desconhecem a Carta Magna! Porém, a CF/88 tratou, acertadamente, a família como base da sociedade (Art. 226), pois é mesmo, sem dispor de como pode ser formada ou arranjada, já que o mencionado Artigo é aberto e já foi objeto de profunda hermenêutica pelo STF, especialmente no que concerne ao alcance de tantas possibilidades.
Família é um setor com o qual o legislador não deveria se (pre)ocupar, pois não se trata de matéria legal (ou que possa ser quadrificada pela lei), mas, ao contrário, para além do alcance legislativo, trata-se de relações de afeto de caráter horizontal e plural. Quando muito, o legislador deve se ocupar com questões patrimoniais, a fim de garantir que os bens sejam protegidos. Não pode o legislador estrangular os Núcleos familiares definindo “família”!
Saberia o legislador (e sua comissão) o que é “domus”? Saberia o legislador o que é “famulus” (palavra que designa a origem patrimonial da família entre os romanos)? Saberia o legislador o que é família eclesiástica (medieval)? Saberia o legislador o que é família proletária? Saberia o legislador o que é família afetiva? Não! O legislador brasil(eiro) nada sabe disso ou daquilo, apenas quer estabelecer no país seus dogmas “religiosos”, “equivocados” e “inconstitucionais”.
Enfim, o desvario parlamentar (que parece não ter fim naquela – e nessa, legislatura) anda fazendo estragos no Direito. Por quê? Porque lê o Direito como capítulos e versículos, mas o Direito poucas vezes é “capítulo”, aliás, poucas vezes é lei. E nunca, nunca mesmo, é versículo!
Isso me fez lembrar uma situação acadêmica já antiga, do final dos anos 90.
Duas alunas foram “flagradas” se beijando (beijo de língua!) no corredor de uma Universidade administrada por uma ordem católica. O reitor, um franciscano, achou por bem me nomear para compor a “sindicância”, porque, segundo ele, sendo eu Judeu e, à época ter um Mestrado em Ciência da Religião (que não é Teologia!), assim como ser Professor de Direito Civil, poderia elaborar um parecer com fundamentos bíblicos e jurídicos, que embasasse sua decisão de expulsar as duas Alunas.
Acabei por fazer um parecer defendendo as Alunas e seu direito ao beijo! Claramente, o Reitor estava erradíssimo e bastante irritado (quem sabe, excitado!). Na reunião para apresentar meu parecer, após sua leitura, o Reitor não o compreendeu, aliás, não o aceitou, dizendo-se “frustrado” comigo. Respondi:
“O que Vossa “Eminência” não está entendendo, ainda, é que não há nada na Bíblia, de qualquer língua e credo, que autorize a expulsão destas alunas Lésbicas; não há nada, nem mesmo uma palavra, contra Lésbicas e sua Homossexualidade, mas, há, sim, todas contra o Vosso “Santo” Celibato e, mais ainda, contra a Vossa “Santa” Castidade”
As meninas não foram expulsas, mas pouco tempo depois perdi minhas aulas de Direito.
Enfim, só para não nos esquecermos, a questão sexual nunca foi um problema judaico. Nunca houve, por exemplo, um Judeu, adulto, celibatário ou que tivesse algum problema com relação sexual. Ao contrário, houve sim, Judeus formados em Shir HaShirim (Cântico dos Cânticos de Salomão), expressão literária do amor pleno e do prazer entre duas pessoas.
Não houve qualquer celibatário, e sequer o conceito de celibato foi debatido entre Judeus, pois isso é estranho à cultura judaica, aliás, ofensivo às primeiras palavras-princípio (Mitzvot). Muito diversamente do que se pensa, e se ensina, ao longo dos séculos, o amor e as relações sexuais entre pessoas, foram expressões caracteristicamente judaicas.
Mesmo aqueles “grandes” Judeus, muitos dos quais, Mestres, a quem, falsamente, se atribui algum celibato (não foram celibatários!), tiveram relações amorosas e sexuais, ao menos com duas ou três pessoas!
A questão sexual apresentou-se como problema apenas depois de Agostinho e Constantino (e para o grupo acorrentado a Agostinho e a Constantino) e todas as variações medievais, modernas e contemporâneas, ligadas a Agostinho, Constantino, Lutero e tais. Mesmo assim, nada tem a ver com o Judaísmo, pois o Judaísmo nada tem a ver com Agostinho, Constantino, Lutero ou suas variações e variáveis. Definitivamente, não existe essa coisa de cultura “judaico-cristã” ou uma “moral” cristã de base judaica sobre a vida sexual, sexualidade e orientação sexual!
Começo por afirmar que o Anarquismo não se implanta!
Trata-se de um movimento crítico, emancipatório, libertário, constante, irresistível, que tem suas raízas no Judaísmo mais antigo. Tudo o que for unidimensional, autoritário ou perversamente dogmático fica, e ficará, para trás, seja de caráter religioso, econômico, jurídico ou político. O Anarquismo anda primordialmente de mãos dadas com Educação e Liberdade. Cito alguns bons autores anarquistas: Godwin, Proudhon, Bakunin, Tolstoi, Oscar Wilde, Emma Goldman, Martin Buber, Gustav Landauer, Paulo Freire, Noam Chomsky, entre outros…
O Anarquismo é pluridimensional, horizontal, solidário e, sobretudo, destaca o indivíduo em seu aspecto integral sem permitir, de modo algum, que se perca em um coletivismo destrutivo (usei aqui um pleonasmo expressivo!)
O Anarquismo é, portanto, movimento – não sistema. Jamais haverá fim para o Movimento Anarquista, mas fases cada vez mais emancipatórias! Na filosofia de Gustav Landauer, judeu anarquista, e amigo próximo de Martin Buber, é o próprio espírito da “revolução”, não no modelo de uma diáletica comunista (ou marxiana, se quisermos), mas na dialética proudhoniana (Landauer era um leitor e estudioso profundo de Proudhon), ou seja, a relação constante entre utopia e topia nas pluralidades que coexistem.
Muitas das conquistas contemporâneas devem-se realmente ao Movimento Anarquista. Por exemplo, conquistas trabalhistas, sindicais, emancipação da mulher, divórcio, superação do gênero, liberdade sexual, reconhecimento dos vários núcleos familiares, inclusão, movimentos sociais emancipatórios, movimento de luta por terra e tantas outras experiências.
Uma questão que vem sendo debatida refere-se ao anarquismo capitalista ou, em outras palavras, “anarquismo de direita”. Não há de modo algum anarquismo de direita ou capitalista, exatamente porque o anarquismo é movimento emancipatório das prisões e alienações produzidas pela direita e pelo capitalismo. Por outro lado, não se pode confundir anarquismo com caos, bagunça, quebradeira, violência e assassinatos, pois estas são características capitalistas. Se houve na história alguém que praticou assassinatos em nome do anarquismo, fê-lo por conta própria, em seu próprio nome, não do movimento.
Em outras palavras, o anarquismo é libertário e, por isso mesmo, não pode ser de Direita. Libertário é muito diferente do conceito de liberal e, de modo abissal, diferente do neoliberal. Aliás, o anarquismo combate o neoliberalismo, mas pode dialogar com o Liberalismo, mas mantém-se irmão do Socialismo. Dialogar não é a mesma coisa de pertencer! O liberal pretende o Estado mínimo para seu proveito, sem se importar com o restante da sociedade, enquanto o libertário pretende uma sociedade emancipada, plural, não dirigida, não condicionada, em que o indivíduo se encontre com outro indivíduo em caráter solidário.
O anarquismo é, sim, individualista, e isso é um tópico inegociável. Entretanto, ele não é egoístico. É individualista no sentido de respeito ao indivíduo em sua integridade e singularidade. Por isso mesmo, o anarquismo combate o fascismo, o militarismo, a massificação, a coletivização e as ditaduras, sejam comunistas ou capitalistas.
O anarquismo defende e promove o amor livre – não a promiscuidade, embora não tenha regras morais. É importante que se diga: o anarquismo não é moralista, mas é, em tudo, ético. Ética e Moral são dois conceitos distintos no anarquismo! Porque a promiscuidade é capitalista, machista, dominadora e sexista. O anarquismo defende o amor e o amar em todas as suas formas (adultas e conscientes), menos o domínio patriarcal e fálico (coisas da Direita).
Enfim, não esperemos que um anarquista carregue uma bandeira nacional, ou a foto de um político e sequer um emblemático “A” tatuado em seu corpo. Anarquistas não pregam e não doutrinam, mas provocam, e muito, o debate crítico. O anarquismo é, em tudo, a raiz do pensamento crítico! Ademais, o anarquista não cultua, mas apenas tolera o Estado, desde que “essa coisa” esteja a serviço de todos e todas, não a serviço de alguns, sejam eles comunistas ou capitalistas. Por isso mesmo, o anarquista tende a dialogar com sociais democratas.
O Judaísmo nunca se permitiu à pregação do próprio Judaísmo, mas voltando-se para dentro, fez resistir aqueles dos quais era tirado tudo e, por isso mesmo, a luta pelo direito individual e social ganha aspectos de valor. A mesma coisa se diga dos constantes processos de extermínio de Judeus, dos quais o último (de proporções inimagináveis) foi o Holocausto.
Aqui aparece algo mais a ser ensinado: tolerância, respeito, igualdade e, a partir da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, a solidariedade entre os povos. Porque era necessário um movimento de caráter internacional, como o das Nações Unidas, que promovesse convenções internacionais sobre direitos humanos para um novo significado da igualdade entre as pessoas, inclusive Judeus de todo mundo. (Bankier:1982, 11).
Uma igualdade que fosse real, econômica, inclusiva e plena de dignidade humana, e que, sobretudo, partisse do pressuposto de compreensão mútua universal, conforme explica Rehfeld, (Rehfeld: 2003, 279) o que significa não exclusão. O Judaísmo segue com seu monoteísmo compatível com quaisquer outras grandes religiões, e isso deve ser um pressuposto para a solidariedade e fraternidade universais.
O Judaísmo aprendeu em sua longa peregrinação com muitos povos e culturas e desenvolveu uma cultura multicultural, e nisso consiste uma experiência histórica de compreensão do outro. Não é preciso se tornar o que o outro é, por exemplo, Cristão, assim como não é necessário, e nem inteligente, transformar o mundo em um mundo judaico.
O mundo no qual cabe o Judaísmo é plural, e o Judeu deve ser pluralista. Mas, ser pluralista é, antes de tudo, compreender o mundo com sincera compreensão das diferenças e, além disso, saber que as diferenças formam a riqueza da humanidade. A não pluralidade leva à arrogância da única verdade, contra o que faço advertência. Conforme Bonder, essa arrogância da única verdade é violência à Torá, porque se constitui em idolatria. (Bonder: 2001, 167)
E a idolatria é tão contrária ao Judaísmo quanto o fascismo ou qualquer regime de força ou exclusão. Ser pluralista impõe uma atitude proativa a partir do Judaísmo que tem desde as peregrinações dos Patriarcas, uma inclinação pela luta em defesa dos mais fracos e, assim, em linguagem contemporânea, com a luta por direitos civis das minorias, porque esse preceito é central no Judaísmo, a partir da compreensão do amar o próximo, o estrangeiro e ajudar o inimigo (preceitos fundamentais da Torá).
A religião judaica não tem caráter contemplativo, como ensina Lemle, (Lemle: 1967, 151) mas concreto e, desse modo, aplica-se às situações cotidianas. Afirma ele, que o senso de justiça social é indissociável da convicção religiosa, porque o Judaísmo se identifica com a luta humana por direitos.
Sobre a injustiça e a solidariedade, Bernardo Kliksberg, (Kliksberg: 2001, 29) em seu livro A Justiça Social – Uma Visão Judaica, apresenta alguns pressupostos que demonstraram as afinidades eletivas entre Judaísmo e Direitos Humanos. Porque, segundo ele, o amor ao próximo exige que tenhamos um comportamento de fazer e realizar sobre o outro.
Além disso, é preceito fundamental da Torá que não haja pobres e, para isso, a mesma Torá exige atos de solidariedade e acolhimento. Por outro lado, constitui-se injustiça em face da Torá se alguém for excluído, direta ou indiretamente, dos frutos da terra e, mesmo que não haja culpa de uma pessoa, ela está obrigada a ajudar a fim de livrar as pessoas do peso que lhe enfraquece.
De modo resumido, ele os apresenta da seguinte forma:
O Judaísmo exige o compromisso com o outro e com a ação;
Para o Judaísmo, a pobreza não é inevitável;
O Judaísmo tem se preocupado com a injustiça desde as suas origens;
A sociedade deve intervir ativamente na solução dos problemas sociais;
Cada pessoa deve assumir responsabilidade frente aos problemas sociais;
O Judaísmo procura educar o coração para a solidariedade;
O Judaísmo tem uma proposta contra a pobreza e a desigualdade;
Por fim, Kliksberg destaca uma solidariedade ativa, proativa e combativa, conforme a tradição judaica e, em especial, dos antigos Profetas, (Nangeroni: 2000, 11) e, sintetiza esse movimento ao recordar – e completar, uma análise feita pelo historiador Edward Gibbon, segundo quem a história da humanidade não é mais do que uma série de crimes, de loucuras e de desastres cometidos por nossa espécie. Segundo Kliskberg, (p. 78) isso é verdade, mas não toda verdade, porque além do retrato feito por Gibbon, sempre houve luta para combater tais crimes, loucuras e desastres. É essa permanente luta e combate que amiúde torna-se o elemento caracterizador judaico na história da humanidade.
Dezembro de 2020
Prof. Dr. Pietro Nardella-Dellova
Obs.:
O presente texto é parte da Tese de Doutorado JUDAÍSMO E DIREITOS HUMANOS: UM ESTUDO DAS CONTRIBUIÇÕES JUDAICAS NA TESSITURA DOS DIREITOS HUMANOS, apresentada, defendida e aprovada no Programa de Estudos Pós-graduados da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP, 2020;
Bibliografia Consultada
BANKIER, David (ed.). La Emancipacion Judia. Jerusalém: Publicaciones Monte Scopus, 1983;
BONDER, Nilton e SORJ, Bernardo. Judaísmo para o Século XXI. RJ: Zahar, 2001;
KLIKSBERG, Bernardo. A Justiça Social – A Visão Judaica. Trad. D. Mensch. SP: Maayanot, 2001;
LEMLE, Henrique. O Judeu e seu Mundo. RJ: Ed. B’nai B’rith, 1967;
NANGERONI, Alessandro. La Fisolofia Ebraica. Milano: Xenia Edizioni, 2000;
REHFELD, Walter I.. Nas Sendas do Judaismo (organização de J. Guinsburg e Margarida Goldsztajn). São Paulo: Perspectiva, 2003;
“Nada é impossível de mudar. Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar”, Bertolt Brecht
Terrorismo de estado é o que melhor define o que aconteceu no Jacarezinho. A polícia em nome do estado, executou 28 cidadãos, entre eles 3 que tinham contra si, mandados de prisão. Ao que parece, todos os demais foram vítimas de uma vingança pela morte de um policial no inicio da operação.
A operação levada a cabo, mesmo com as restrições impostas pela justiça durante a pandemia, mostram que no Brasil a lei não é igual para todos. Enquanto o presidente e o Véio da Havan podem passear de moto sem o uso obrigatório de capacetes se divertindo em meio as valas de mais de 400.000 brasileiros que perderam a vida pelo Covid, cidadãos são impunemente assassinados por quem deveria protegê-los em meio a uma operação policial. Enquanto a Casa Grande se diverte, o andar de baixo é massacrado.
O Brasil vai se desnudando e mostrando sua verdadeira face de uma bela República das Bananas. Este estereótipo de país Latino Americano, cujo termo foi criado pelo cronista americano O. Henry, data de 1904 e foi atribuído a Honduras, se refere a um país politicamente instável, submisso a um país rico e governado por um corrupto e opressor. Este é o Brasil de hoje.
Em qualquer país civilizado, onde vigora o estado de direito, os responsáveis pelo que aconteceu já estariam presos. Uma comissão externa da polícia estaria criada para investigar o que aconteceu e recomendar punições e formas de evitar sua repetição. Nenhuma sociedade civilizada pode aceitar menos do que isso.
Não existe justificativa para o ocorrido. Existe sim o exemplo de outros massacres policiais como o do Carandiru em 1992, que resultou na morte de 111 detentos. Aqui também ocorreu o Terrorismo de Estado, quando detentos sob a custódia do estado são mortos em uma verdadeira chacina.
O Brasil é hoje um dos locais para o qual a maioria dos países criou restrições de viagem, seja para receber brasileiros, seja de proibição de visitas por parte de seus cidadãos. A falta de enfrentamento da pandemia por parte do governo central, o descontrole geral com a vacinação, tornam o país um pária internacional.
Se não bastasse o mundo assiste, atônico, o presidente confrontar e hostilizar o maior parceiro econômico, a China, que por acaso também é o maior fornecedor dos insumos para as vacinas, o que mostra a intenção de manter o genocídio com a média de mais de 2.000 mortes por dia levando em breve a triste marca de meio milhão de mortos.
Agora a isto se somam as cenas chocantes do resultado de uma tragédia anunciada. No bastião do bolsonarismo, na terra das milícias, do maior número de governadores acusados por corrupção, vem a pior notícia. O Rio de Janeiro é terra sem lei e sem ordem.
Diante de tudo o que está acontecendo não deixa de ser interessante a postura da oposição e do povo em geral. A incapacidade de se organizar manifestações contra o governo, de exigir os merecidos cuidados com a vacinação e exigir a punição por um massacre destes, é surpreendente.
Nos EUA a morte de um cidadão negro pela polícia resulta em manifestações que duram semanas. Na Colômbia a tentativa de criar uma lei que prejudicaria as classes menos favorecidas levou o povo as ruas em todo o país. Nenhum povo pode se acovardar diante de uma injustiça.
Infelizmente o brasileiro é atualmente um povo de plastas. Se sujeita a todo tipo de exploração, de espoliação, de subjugação e de injustiças, sem se indignar. Quando muito se dá o trabalho de dizer o que pensa em suas redes sociais.
As ruas por enquanto são daqueles que no dia do trabalhador, afrontam a democracia exigindo uma ditadura militar com Bolsonaro. Eles são a voz do Brasil de hoje, os únicos que se organizam e se manifestam.
É deles o brado que um dia foi nosso combatendo a ditadura, “Longe vá temor servil, ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil”. Neste caso, livre de nós que somos seu temor.
Se Esquerda for a defesa de um Estado laico, sou de Esquerda. Se Esquerda for a defesa de direitos sociais, culturais, ambientais e econômicos, sou de Esquerda. Se Esquerda for a defesa do indivíduo ser indivíduo (com senso de sociedade) no contexto de uma sociedade livre, igualitária, solidária e constitucional, sou de Esquerda.
Se Esquerda for a defesa da liberdade sexual, da diversidade sexual, igualdade de gênero e apoio ao movimento LGBT+, sou de Esquerda. Se Esquerda for a defesa de direitos dos vários núcleos familiares, sou de Esquerda. Se Esquerda for a luta constante e diuturna contra o machismo, misoginia, homofobia e racismo, sou de Esquerda. Se Esquerda for a defesa dos direitos integrais da criança, adolescente, jovem e idoso, sou de Esquerda.
Se Esquerda for a defesa da pluralidade religiosa, assim como dos ateus serem ateus, sou de Esquerda.
Se Esquerda for a defesa dos direitos individuais, coletivos e previdenciários dos trabalhadores juntamente com a defesa dos direitos dos empresários (como duas faces necessárias da Economia), sou de Esquerda.
Se Esquerda for a defesa da Reforma Agrária, contínua e cooperativa, sou de Esquerda. Se Esquerda for a defesa da Agricultura familiar, sem que isso seja a destruição da grande produção agrícola e pecuária, sou de Esquerda. Se Esquerda for a defesa do direito à moradia para todos e todas, sou de Esquerda. Se Esquerda for a restrição e fiscalização na atuação bancária, sou de Esquerda. Se Esquerda for a defesa dos povos, línguas e culturas indígenas, sou de Esquerda. Se Esquerda for a defesa dos povos, línguas e culturas de origem africana, sou de Esquerda.
Se Esquerda for a defesa da Escola e Universidade públicas, universais e gratuitas, sou de Esquerda. Se Esquerda for a defesa da Saúde pública, universal e gratuita, sou de Esquerda. Se Esquerda for a defesa de Cotas para o estabelecimento de igualdade de acessos e condições, sou de Esquerda. Se Esquerda for a humanização do sistema prisional, sou de Esquerda.
Se Esquerda for a luta ininterrupta contra o fascismo, nazismo, nazifascismo, stalinismo, teocracia, monarquia, ditadura, financeirização, bolsonarismo, trumpismo, mussolinismo, hitlerismo, antissemitismo, islamofobia, supremacistas brancos e outras bestas, sou de Esquerda.
Se Esquerda for a defesa de sistemas políticos como o chinês, norte-coreano, venezuelano, iraniano, saudita, russo e sírio, não sou de Esquerda (e isso não me faz de Direita!). Se Esquerda for a defesa da destruição de Israel e a defesa do Hamás, Hezbollah, Talibã, Al Qaeda, Boko Haram, ISIS, não sou de Esquerda (e isso não me faz de Direita!). Mas, se Esquerda for a defesa da coexistência de dois Estados: Israel e Palestina, sou de Esquerda.
Sou de Esquerda, dentro e a partir das Constituições (burguesas), especialmente dentro e a partir dos Direitos Fundamentais (sim, burgueses), porque nunca houve Esquerda antes da burguesia, e a Esquerda que sou não exclui os bons direitos alcançados pela burguesia, nem tampouco os considera suficientes (como querem os burgueses). Sou de Esquerda, não imbecil, porque ser de Esquerda é lutar contra a imbecilidade!