por Mauro Nadvorny | 26 dez, 2020 | Brasil, Direitos Humanos, Justiça
Senhores e Senhoras, não foi assassinada uma Juíza (isso é equívoco, é mentira!), mas uma mulher que atuava como Juíza. Uma mulher foi morta por ser mulher, não por ser Juíza. No Brasil, a Constituição clama pela igualdade entre homens e mulheres, e há legislação sobre misoginia, porque o Brasil não é apenas machista, mas, sobretudo, misógino.
Do Judiciário, uma mulher foi morta e, dele, também, um Juiz (é preciso dizer seu nome: Rodrigo de Azevedo Costa), falando como homem, deixou claro seu desprezo pela Lei Maria da Penha. Ele, esse estúpido Juiz (cargo do qual é indigno), compõe o cenário de machistas ou de imbecis que preparam a antessala da misoginia.
Mulheres, que são putas, negras, brancas, religiosas, irreligiosas, profissionais, não profissionais, mães, filhas, Advogadas, Promotoras, Delegadas, Juízas, Médicas, Trabalhadoras Domésticas, Taxistas, Freiras, Judias, Católicas, Evangélicas, Muçulmanas, Candomblecistas, Umbandistas, Kardecistas, Atéias, Garçonetes, Recepcionistas, Psicólogas, Atrizes, Cantoras, Musicistas, Professoras, Estudantes, Comunistas, Capitalistas, Socialistas, Liberais, Anarquistas, ou em qualquer outra situação, são mortas. São mortas porque são mulheres. Em alguns casos, são assassinadas duas vezes: porque são mulheres e negras, porque são mulheres e comunistas…
No Brasil, os homens não apenas odeiam e matam mulheres, mas são capazes de eleger um machista, misógino, racista, preconceituoso e genocida como Presidente da República!
por Mauro Nadvorny | 9 dez, 2020 | Brasil, Comportamento, Direitos Humanos
Quando eu era pequeno, eu tinha uma babá. O nome dela era Maria, mas eu a chamava de Iaiá e o nome acabou pegando.
A foto da qual eu mais me lembro dos meus primeiros anos sou eu aos dois anos dentro do mar, acho que em Santos, o barrigão pra fora, um enorme sorriso malandro no rosto — e a Iaiá no fundo, de vestido, até os joelhos dentro do mar. Nessa idade, eu dividia o quarto com o meu irmão e lá só tinham as nossas duas camas. Quando eu ficava doente, a Iaiá deitava no chão pra me colocar pra dormir e estava lá caso eu chorasse no meio da noite.
Assim começou a prédica do último dia 4 do rabino Rogério Cukierman, da Congregação Israelita Paulista, um Racista em Desconstrução.
No sermão da sexta-feira à noite, início do Shabat, ele falou de si mesmo, ao lembrar que aos 5 anos de idade, em 1976, passou na televisão a novela “Escrava Isaura”, contando a história de uma escrava por quem o senhor da fazenda se apaixona. Isaura era branca, mas todos os outros escravos retratados na trama eram pretos; pretos assim como a Iaiá.
“Vendo aquela realidade e o que acontecia na minha casa, eu logo entendi qual era a regra do jogo. Fui conversar com a minha mãe e, muito sério, pedi pra ela que, quando chegasse a hora de dar a alforria pra Iaiá, ao invés disso, ela desse a Iaiá pra mim.”
O rabino confessa que a história da Iaiá o envergonha e que está ciente de que precisa assumí-la se quiser ter o direito de sonhar com um país diferente. “Eu conto essa história porque não quero mais me reconhecer na conduta daquele menino e para isso é necessário um profundo processo de t’shuvá.”
O termo quer dizer “retorno” e representa o esforço para retornarmos à melhor versão de nós mesmos, de corrigirmos nossas ações quando erramos, repararmos os erros que causamos e garantirmos que eles não voltem a acontecer. No começo de todo processo de t’shuvá está o reconhecimento do erro, que talvez seja a parte mais difícil.
O futuro rabino amava a Iaiá profundamente , mas ele se nega a se esconder atrás desse amor e dizer que ela era como se fosse da família, porque ela não era. “Quando íamos jantar fora, ela não ia; quando viajávamos, ela só era convidada se fosse para tomar conta de mim; quando eu ia soprar a velinha do bolo de aniversário, ela nunca esteve lá na frente, junto com meu pai e minha mãe. A Iaiá era uma babá querida, cuja subjetividade foi muitas vezes negada, que foi objetificada, mas esses erros nunca foram reconhecidos sob a desculpa de que ela ‘era quase da família’.”
Iaiá é o resultado do racismo estrutural em que vivemos e no qual fomos criados, em que as moças pretas que moravam em casa eram sujeitadas ao preconceito banalizado pela cultura.
A história de Iaiá e do rabino nos questiona e nos obriga.
Quem de nós, da classe média paulistana, não teve a sua Iaiá, na figura de uma babá ou de uma doméstica, que mais corretamente deveria ser chamada de escrava? Quem não viveu essa história e pode dizer que nunca tinha ouvido nada igual?
Eu tive a “minha” Cida, que entrou em casa ainda menina, menor de idade, e saiu depois de casada. Ela morava no andar de baixo, ao lado da área de serviço e do quintal, separada do resto por uma porta de vidro que devia ser trancada à noite. Dividia o quarto e o banheiro com a cozinheira. Tivemos várias, mas não me lembro dela ter sido consultada para dizer se a coabitação era satisfatória. Cida não reclamava, nunca.
Lembro-me da cena, quando ela pediu para ver minha mãe com o namorado, que já era conhecido da família. Os três foram à copa, sentaram-se em torno da mesa de fórmica vermelha e ele, nitidamente intimidado, pediu a mão da Cida à minha mãe. Como se ela fosse da família…
Sua mãe, a verdadeira e única, não estava sequer a par do pedido de casamento. Cida achava que a patroa sabia melhor que a própria mãe o que era melhor para ela.
Hoje, temos a chance de nos olharmos no espelho e vermos que o resultado nem sempre é satisfatório. Individualmente e como sociedade, a imagem que reflete é ruim, é feia, é a imagem da injustiça racial.
Se não formos ativamente antirracistas, estaremos sendo coniventes com a propagação do ódio, estaremos sendo racistas também.
Por isso eu, você e todos aqueles que conheceram Iaiá, Cida e suas histórias temos a obrigação de ser como rabino Cukierman, Racistas em Desconstrução.
Desculpas Iaiá, desculpas Cida.
por Mauro Nadvorny | 5 dez, 2020 | Brasil, Comportamento, Direitos Humanos
Um ano de Covid-19 e finalmente estamos prestes a receber a vacina. Tudo o que desejamos é ter de volta nossa vida de antes. Neste caso lamento informar, mas nada será como antes, nossas vidas mudaram e precisamos aceitar.
Uma das piores consequências da pandemia for ter transformado a vida de milhões de famílias comuns, normais, ativas em um inferno da noite para o dia. Algumas afetadas pela perda de entes queridos, outras pela falência de seus negócios e muitas pelo desemprego.
Muitas delas tiveram a sorte de serem acolhidas por seus familiares, mas existem aquelas que não tiveram esta sorte e não importam as razões para isso, mas o fato em si. Pessoas que de repente se viram sem nenhum provento. Como pagar o condomínio, como pagar a escola das crianças, a operadora da TV, a operadora da linha de celular, a gasolina do carro, etc. Como pagar a conta no supermercado para ter o que comer?
Esqueçam o cinema, comer fora, um sorvete, um vinho, um show, uma viagem, tudo acabou. Sem emprego, começaram a consumir as reservas, depois a venderem o que era possível vender, até que chegaram ao fim da linha. Não há mais por onde. Começaram a fazer dívidas e logo isto virou uma bola de neve. Logo estouraram os limites da conta no banco, do cartão de crédito e começaram a chegar as ligações dos cobradores.
Esta é a situação de milhares de pessoas que hoje precisam de ajuda. E por incrível que seja, algumas sequer sabem como pedir, ou pior, não conseguem superar a vergonha de fazê-lo, como se a culpa fosse delas. Acham que pedir ajuda é uma humilhação.
No mundo inteiro, milhares de empregos desapareceram. Tudo que está ligado ao Turismo e ao Entretenimento sofreu um golpe violento. As quarentenas acabaram com muitos negócios de rua e nos Shopping Centers. Nem todos tiveram como manter seus comércios permanecendo fechados por longos períodos. Terrível.
Mas existe um outro fenômeno que chegou com o Covid-19, o da solidariedade. Aqui também, milhares de pessoas se organizaram para montar grupos de ajuda, para recolher doações e as encaminhar para os mais necessitados. Sem esta ajuda, o mapa da fome não pararia de crescer.
Aqui se revela a face mais humana da nossa sociedade. Doar é uma ação de fórum íntimo. A maioria o faz no anonimato. Não importa o valor, se em dinheiro ou se em uma ação social, doar é um ato de altruísmo. Muitos dos que doam, são justamente os que recebem algum tipo de ajuda e as dividem com outros mais necessitados. Da mesma forma, muitos dos que recebem ajuda, nunca fizeram uma doação antes. São as lições da vida.
Eu administro um grupo no FB com cerca de 6000 membros. As consequências do desemprego também podem ser vistas lá. Sabemos que alguns membros deixaram o grupo em silêncio quando não puderam mais pagar a conta da Internet. Mas conseguimos identificar os que precisam de ajuda e montar um grupo voluntário de apoio.
Solicitamos doações e elas começaram a chegar. Cada um ajuda como pode, em dinheiro ou profissionalmente. Tudo se soma e esta ajuda vai chegando onde é preciso, aliviando assim, o sofrimento que até então era silencioso. Agora não mais, com muito respeito e com muita humildade é possível contribuir com o próximo.
Se você chegou até aqui, seja um doador. Procure quem está organizado e doe o que puder, sua ajuda vai ajudar a minimizar a situação de alguém e vai te fazer se sentir bem.
Doar é contagiante, um contágio do bem. Se deixe contagiar por este sentimento.
por Mauro Nadvorny | 31 out, 2020 | Brasil, Comportamento, Direitos Humanos
“Agora eu virei ‘boiola’. Igual maranhense, é isso?. Guaraná cor-de-rosa do Maranhão aí, quem toma esse guaraná aqui vira maranhense“.
Este é o presidente do Brasil fazendo o que mais sabe, emitir preconceitos na forma do que ele chama de “brincadeira”, algo para não se levar a sério. Sem o menor constrangimento ele segue sendo o que sempre foi e fazendo exatamente o que disse que faria como presidente, nenhuma novidade nisso.
Quando li a notícia, além da vergonha nacional e internacional que isso representa para mim como brasileiro vivendo no exterior, me lembrei das razões pelas quais limpei minha lista de amigos durante as eleições, incluídos nela parentes e conhecidos virtuais.
Tem gente que sempre fez este tipo de comentário, mas a gente achava que era só uma brincadeira, como diz o presidente, até que não mais. Houve um tempo para se perceber o quão errado e impróprio são estes comentários. Quem cresceu e percebeu isso, imediatamente parou de fazê-los. Quem continua não está mais fazendo uma “brincadeira”, está destilando ódio e preconceito contra as minorias. Não os quero próximos.
Nas últimas eleições, a despeito de todos os avisos e alarmes, a barbárie venceu a civilização. O Brasil vive um retrocesso civilizatório sem precedentes na sua história. Nem na ditadura o país teve um milico parecido com este presidente em termos de comportamento inconveniente. O único episódio do qual me recordo foi em 1978 quando o General Figueiredo que viria a se tornar presidente, disse preferir o cheiro de cavalo ao cheiro de povo. Na verdade o fato ocorreu assim: um repórter perguntou se o futuro presidente gostava do “cheiro do povo”, ao que ele respondeu “o cheirinho do cavalo é melhor (do que o do povo)”.
A barbárie social já assola o Brasil há tempos, o crime tomou conta das ruas. A fome voltou e milhares de brasileiros não tem o que comer. Se isso não fosse o suficiente, a pandemia deixou milhões desempregados. Milhares de pequenos negócios faliram.
Grupos supremacistas brancos, nazistas, os camisas verdes Integralistas e todo tipo de aberração racista vieram a público. Saíram do esgoto e agora andam a céu aberto propagando seu ódio sem serem molestados. O país conhecido pelo samba, futebol e seu povo hospitaleiro ficou na lembrança. Agora somos apontados como a terra do presidente idiota que permite a queima das florestas e que não acredita na existência do Covid-19.
Esta semana teremos eleições nos EUA, e talvez um dos maiores expoentes desta corrente fascista que chegou ao poder em muitos países, esteja sendo mandado para casa. Trump não deve se reeleger deixando órfão seu maior admirador no Brasil, o único presidente do mundo a bater continência saudando a bandeira americana.
Depois do México, a Argentina disse não ao neoliberalismo. Agora a Bolívia se recuperou do golpe e disse sim ao socialismo. Os chilenos disseram sim por uma nova constituinte e assim vão se livrar das leis draconianas que dividiram o povo em duas classes sociais, os muito ricos e os muito pobres.
Os regimes de exclusão social chegaram ao fim para estes irmãos latino-americanos. Quando é que este gigante chamado Brasil vai acordar? Quando é que esta família miliciana será escorraçada e devolvida para o inferno?
Levanta Brasil!
por Mauro Nadvorny | 4 out, 2020 | Comportamento, Direitos Humanos, Mundo
Insatisfeitos com o tamanho dos estragos feitos nos Estados Unidos e Brasil, os movimentos evangélicos pentecostais querem mais, exportar seu projeto de poder para o outro lado do Atlântico. Atacam-se à política portuguesa, apoiam e até financiam o partido de extrema-direita Chega, liderado pelo ex-comentarista esportivo André Ventura, que embora não se chame Messias como Bolsonaro considera-se o salvador da pátria lusa. Seu ego é desmedido. Já confessou que não ficaria descontente em ser chamado de mito.
Ficou claro, desde a fundação do partido, em 9 de abril de 2019, que várias igrejas militavam a favor de Ventura, tendo inclusive participado ativamente da campanha eleitoral que o levou ao Parlamento. O que se desconhecia até agora era a imbricação entre o seu projeto político e o financiamento do Chega pelas seitas evangélicas pentecostais, revelado pelo jornalista Miguel Carvalho, na revista Visão.
O artigo mostrou que o pastor reformado de Loures, Constantino Ferreira, encaminhou para o Chega os dados de mais de 4 mil contatos recebidos no seu site religioso, para engrossar as fileiras do partido neofascista. Constantino confessou, sem pudor, que se calcou no trabalho feito pelas igrejas do outro lado do Atlântico, onde os apoios de evangélicos a Bolsonaro foram fundamentais para conquistar a presidência do Brasil.
A reportagem cita Damares Silva, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do governo de Jair Bolsonaro e pastora evangélica: “É o momento da igreja ocupar a nação”.
As igrejas, algumas das quais consideradas seitas em Portugal, seguem também o exemplo dos EUA, onde foi lançado, no início de janeiro, o movimento “Evangélicos por Trump”, uma reafirmação do apoio de grupos evangélicos radicais ao atual presidente. A agenda extremista de Trump, similar à de Bolsonaro na resposta à pandemia, é aplaudida entusiasticamente por André Ventura. Vários analistas reconhecem que esse projeto de poder seria impossível sem o apoio dos grupos evangélicos extremados.
O sonho de conquista de poder em Portugal pelos evangélicos neopentecostais existe há muito. A primeira tentativa data de 1995, com o defunto Partido da Gente, criação da Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo. Seu símbolo, além da letra “G” em fundo azul, tinha uma sugestiva vassoura vermelha. Essa experiência fracassou com um resultado eleitoral minguado, apenas 0,14% dos votos, mas as intenções não desapareceram, apenas esperaram melhor oportunidade. Esse momento parece ter surgido com a entrada em cena de André Ventura.
Os evangélicos eram 0,3% da população portuguesa (10 milhões de habitantes) em 2012, 4% em 2017, ano da publicação do último estudo do gênero pelo Pew Researsh Center. Fala-se que em 2020 pode estar beirando os 10%.
Dentre os pastores, muitos vêm do Brasil. No início deste ano, as autoridades migratórias de Portugal prenderam três pastores evangélicos brasileiros por tráfico humano e auxílio à imigração ilegal.
O trio, dois homens e uma mulher, usava a estrutura da igreja para convencer brasileiros a se mudarem para Portugal com promessas de trabalho e de auxílio à regularização, que acabava não acontecendo.
Uma vez em território português, os imigrantes passavam a morar —mediante pagamento de aluguel de 300 euros (cerca de R$ 1.800) – em um alojamento anexo ao templo, localizado na região de Amadora, na Grande Lisboa, em condições precaríssimas. Além de pagarem para viver no espaço exíguo, caindo aos pedaços, amontoados uns sobre os outros, os brasileiros (incluindo crianças) também eram obrigados a contribuir com o dízimo.
De acordo com o Observatório de Tráfico de Seres Humanos, Portugal teve sinalizadas 168 vítimas deste crime em 2018, incluindo 29 menores de idade.
O professor de Sociologia da Religião da Universidade da Beira Interior, Donizete Rodrigues, relatou a Miguel Carvalho o resultado das suas pesquisas e as conclusões só surpreenderam quem não conhece o modus operandi dos evangélicos no Brasil e Estados Unidos: “É público que líderes e membros das igrejas [neopentecostais] financiam atividades partidárias” e, “como era de se esperar, o Chega faz parte desse esquema”. O mesmo pesquisador concluiu ainda que “muitos líderes e pastores evangélicos dirigem, nos cultos, grandes elogios ao partido fascista e ao seu líder. Na verdade, fazem campanha política aberta, o que ficou evidente na última eleição.”
Comenta-se que uma parte do dinheiro arrecadado nas missas das igrejas pentecostais engorda o caixa 2 do Chega.
Às vésperas da eleição presidencial do início de 2021, com André Ventura em 3° lugar nas pesquisas, próximo dos 10% das intenções de voto, os jornais questionam se é realmente possível que o Chega seja financiado pelo movimento evangélico neopentecostal. Se isso acontece, lê-se no indignado Público, de Lisboa, o fato é gravíssimo, além de ilegal, pois a Constituição portuguesa impõe a separação entre a Igreja e o Estado e estabelece que Portugal é um país laico. André Ventura lava as mãos como Pilatos quando confrontado com essa possibilidade. “Pelas minhas mãos ou que eu conheça, não entrou dinheiro nas contas bancárias do Chega de forma abusiva”, diz o deputado, mas a palavra de Ventura vale tanto quanto a de Jair Bolsonaro ou Donald Trump. Ele havia prometido cumprir o mandato legislativo em exclusividade e acumula vários cargos no setor privado, garantia ser contra as subvenções vitalícias e depois trouxe Sousa Lara para o seu lado, o mesmo político que nunca abdicou do direito à subvenção vitalícia estatal.
A extrema-direita no mundo tem mostrado que não distingue a política dos negócios, não seria de estranhar portanto que seria diferente com André Ventura e o Chega. Os financiamentos de partidos “amigos” ou de movimentos internacionais da alt-right são recorrentes. Há meses eclodiu o escândalo dos pagamentos da Rússia e dos seus oligarcas para a extrema-direita francesa, austríaca e italiana.
Aliás, para André Ventura, a própria política é um negócio, como explica um dos dirigentes do Chega, ao reconhecer que muitas assinaturas para a legalização do partido foram colhidas por estudantes, que receberam um euro por cada uma, em dinheiro vivo.
por Mauro Nadvorny | 5 set, 2020 | Brasil, Direitos Humanos, Opinião
Se hoje a pergunta que não quer calar, dirigida ao presidente Jair Bolsonaro, é: Por que Fabrício Queiroz depositou 89.000 reais na conta de Michelle Bolsonaro, a que pululava nas redes sociais há dois meses era: Onde está Queiroz? A resposta chegou na bucólica manhã do dia 18 de junho, através de uma operação batizada singelamente de “Anjo”. O mistério do paradeiro do policial aposentado, um dos cabeças do esquema de rachadinha do gabinete de Flávio Bolsonaro, do qual foi assessor, foi elucidado.
Como é do conhecimento de todos, o advogado de Flávio e dublê do programa humorístico A praça é nossa, Frederico Wassef, escondeu esse senhor durante um ano numa propriedade sua, em Atibaia, alegando “motivos humanitários”.
O Queiroz ali pego de surpresa em nada lembrava o policial militar conhecido por tocar o terror nas comunidades carentes, a ponto de as ruas ficarem vazias a sua passagem. Estava mais pra tiozão de boteco, daqueles que encostam a barriga no balcão e, entre um gole e outro de cerveja, fala dos saudosos tempos da ditadura. Um entre vários do Brasil.
Enquanto a polícia apreendia os celulares e outros objetos eletrônicos, um detalhe na casa me chamou a atenção. Ao lado de uma faixa exaltando o AI-5, sonho de dez entre dez bolsonaristas, três bonequinhos em miniatura do Tony Montana, o Scarface, ornavam a lareira. Por curiosidade, olhei na internet o preço desse inocente bibelô e concluí que, como os nerds que gastam pequenas fortunas em bonecos de Star Wars e os aficionados nos heróis Marvel que são capazes de vender um rim por um Batman que seja modelo raro de colecionador, Queiroz investiu nesses seus brinquedos, o que mostra a importância que dava ao personagem.
O generoso amigo da família Bolsonaro, aquele que deposita dinheiro na conta da primeira-dama por pura bondade, que paga as escolas das filhas de seu ex-chefe por amor, me revelou duas coisas importantes: Tem como herói esse personagem icônico e tem uma qualidade que deve ser ressaltada: amizade verdadeira se vê ali; meus amigos, quando muito, me pagam um chope. É uma cambada de pão-duro. Olho para a generosidade desse senhor para com seus diletos companheiros e caio na dura realidade: Meus amigos são todos uns fuleiros.
Voltando ao bonequinho de estimação do Queiroz: Scarface é um filme de 1983, roteirizado por Oliver Stone e dirigido por Brian de Palma. O Scarface, interpretado magistralmente por Al Pacino, tem esse apelido por conta de uma marca de navalhada na cara e é mais um dos cubanos que chega aos Estados Unidos em 1980, vindo naquele que ficou conhecido como um dos maiores êxodos migratórios do século XX: O êxodo de Mariel. O evento foi precipitado por uma recessão monstruosa na economia de Cuba, o que levou dez mil cubanos a pedirem asilo político na embaixada peruana. Fidel, num acordo com o então presidente americano Jimmy Carter, anunciou a abertura do porto de Mariel para que cubanos descontentes com o regime fossem viver o sonho americano. Centenas de barcos procedentes de Miami (a organização ficou a cargo dos cubanos exilados após a vitória da Revolução Cubana) ancoraram no porto para levar os insatisfeitos. Durante o período de sete meses (de abril a outubro de 1980), 125 mil cubanos saíram da ilha.
Não estamos falando de qualquer líder de nação, estamos falando de Fidel. Aquele dono de respostas certeiras que, ao ser perguntado por um jornalista argentino se as universitárias de Cuba se prostituíam, respondeu: “Não, as prostitutas de Cuba tem nível universitário”. Querem os cubanos na Flórida? Ok. Ardilosamente, ele despachou, junto aos cidadãos comuns, todos os presos , principalmente aqueles de alta periculosidade, a escória.
O dramático êxodo foi interrompido por Jimmy Carter, pois essa migração em massa teve repercussões inacreditáveis na política doméstica. A criminalidade em Miami cresceu terrivelmente e, com ela, problemas graves ligados à corrupção policial. Esses presos alteraram por completo a chamada “Magic City”. Violência e tráfico pesado de drogas imperavam.
O personagem Tony Montana foi um desses presentes bacanas de Fidel para os EUA. Criminoso comum, passava-se por preso político para conseguir seu lugar na Terra dos Sonhos. Mata sem remorsos, com a luxuosa ajuda de uma serra elétrica, compra uma esposa, roubando-a de outro gângster (Michelle Pfeiffer, lindíssima), constrói uma fortaleza que é um ode à cafonice, monta um império, cheira sem parar. Não vamos julgar Queiroz assim, sem provas. Talvez a admiração pelo personagem (cuja casa é bregaça, mas o terno é de uma estileira que até Álvaro Dias copiou o modelo nos benditos debates de 2018) tenha a ver com o fato de ele representar o imigrante que vence na vida, a tal da meritocracia, e de ser um anticomunista ferrenho. Tony Montana, o empreendedor.
O fato é que as rachadinhas são o mínimo. A proximidade da família Bolsonaro com o fã de Scarface remonta há mais de três décadas e vai muito além da relação profissional. Na realidade, ele era amigo mesmo do nosso presida. A ligação íntima entre Queiroz e o Capitão Adriano, morto na Bahia, também era a mais pura broderagem. Se existe alguma dúvida que a família de ogros é miliciana – tem gente que acha que são meros simpatizantes (não é mistério que o mandatário sempre elogiou a milícia e quis legalizá-la, como uma forma de segurança pública; talvez para ter uma SA pra chamar de sua) – lembrem que o finado Capitão Adriano, CEO do Escritório do Crime, e Queiroz eram amigos de fé irmãos camaradas, tendo inclusive trabalhado no mesmo batalhão. Fabrício, com seu coração generoso, também ofereceu emprego para a sogra e para a ex-mulher do capitão miliciano no gabinete do 01 (a.k.a. Flavio Bolsonaro).
Foi pensando nesse lupanar que o Brasil se transformou (sem querer ofender as prostitutas, visto que qualquer puteiro é mais organizado que isso aqui) que me veio uma rememoração. Se você assistiu o horário eleitoral gratuito com apenas os retratinhos dos candidatos na TV, se enchia o baldinho de tatuí na praia, se usava o merthiolate que ardia de fazer chorar e se foi malandro o suficiente para não sufocar e morrer com uma bala soft, deve lembrar do que vou falar.
Meu pai comprava diariamente o jornal O Globo (para ver mentiras escancaradas: detalhe, o jornaleiro escondia O Pasquim dentro do jornal dos Marinho, para ficar acima de qualquer suspeita.), o Jornal do Brasil e O Dia. Esse último com uma pegada bem popular. Quando falo popular, faço uma ressalva. O Dia era enfeitado por fotos de pessoas que não faziam mais parte do nosso convívio e de como elas se retiraram, ou melhor, foram retiradas, do evento vida. Sim, também sou dada a eufemismos.
Claro que eu não tinha permissão para ler nada que fosse além das tirinhas de Charles Brown e seus amiguinhos. Meus pais liam os três jornais para buscar nas entrelinhas o que acontecia. Vivíamos sob forte censura. Ao folhearem O Dia porém, as palavras sempre, sempre, sempre proferidas pelos dois eram: ”Foi o Esquadrão da Morte”. Não sabia o que era, por quem era formado e, aos 7 anos, esse termo parecia quase uma entidade. Meu pai, numa daquelas maravilhosas aulas de educação infantil, certo dia mostrou o adesivo do carro na frente do nosso e disse: “Olha o Esquadrão da Morte aí”. Ver uma caveira e abaixo duas tíbias cruzadas foi o suficiente para gelar a alma. Após ver o símbolo, entendi sem saber que entendia.
O espírito da desobediência, porém, sempre habitou em mim. Esperava meu pai sair para futucar o Pasquim, não entendia nada, mas gostava dos desenhos do Henfil, mesmo que não soubesse o que era sarcasmo. O JB e o Globo não me interessavam, só as tirinhas. Mas a minha curiosidade mórbida me levava ao Dia. Ali, olhando a criatividade em prol da morte, cheguei a uma conclusão rodriguiana: de que a solidão nasce da convivência humana. O Dia era jornalismo popular, noticiava o que acontecia na periferia, na Baixada Fluminense. Morte de pretos, pobres, periféricos. Pessoas retalhadas, decepadas, muitos tiros na cara.
Quem fala que na ditadura militar não houve violência urbana, ou é jovem demais e repete o que ouve sem refletir ou não passa de um velho canalha. A partir do final da década de 1950, no Rio de Janeiro, ou melhor, nos grandes centros urbanos, começam os acirramentos de problemas devidos às contradições sociais, políticas, econômicas, tendo as cidades como uma de suas vitrines. Consequência direta da urbanização do país.
Nesse contexto, surge a Scuderie Le Cocq (embrião do Esquadrão da Morte). A primeira vítima foi o bandido Cara de Cavalo, em 1964. Sua história obedece a de tantos outros excluídos. Morador da Favela do Esqueleto, iniciou a vida criminosa vendendo maconha ainda criança. Isso faria a alegria de Bolsonaro, que vive enaltecendo o trabalho infantil. Com o tempo, tornou-se cafetão e se ligou ao jogo do bicho. O papel que tomou para si era achacar os pontos dos jogos, digamos, um trabalho quase suicida. Diante do abuso, um bicheiro procurou o detetive Le Cocq, ex-integrante da Guarda de Getúlio e primo do brigadeiro Eduardo Gomes. Le Cocq organizou um grupo clandestino de policiais para caçar o criminoso. A emboscada a Cara de Cavalo não deu certo, e o bandido acabou por matar a tiros o policial.
De bandidinho pé de chinelo, Cara de Cavalo passou a ser o criminoso mais procurado do Rio de Janeiro. Dois mil policiais em quatro estados foram à sua casa. Um mês depois foi encontrado, e o que se seguiu foi uma execução sumária, comandada pela turma da pesada. Foram mais de cem disparos. Enquanto os tiros eram dados, os algozes chupavam pirulito.
Cara de Cavalo (que recebeu homenagem póstuma do artista plástico Hélo Oiticica), foi o primeiro de muitos. A Scuderie Le Cocq tornou-se praticamente uma instituição. Recebeu o apoio extraoficial do governador do estado, Francisco Negrão de Lima, e o secretário de Segurança do Rio, Luis França, escolheu a dedo doze homens com o intuito de “promover uma faxina”, eufemismo para execuções sumárias de ladrões de carro, de táxi, assassinos, assaltantes e afins. Eram “Os Doze Homens de Ouro da Polícia Civil ”. Paralelo a polícia militar, esse esquadrão contava com financiamento de empresários e bicheiros e tinha a simpatia total do regime vigente. Com essa brigada paramilitar, novos tempos se anunciavam. Corpos de marginais torturados e mutilados começaram a pulular pelo Rio de Janeiro, com frequência com marcas de algemas, sem que houvesse o menor indício de que tivessem esboçado alguma reação. O presidente de honra era o jornalista David Nasser, de triste memória, notório apoiador da ditadura. José Gulherme Godinho, o Sivuca, eleito deputado estadual do Rio de Janeiro em 1990, pelo PSC, com o slogan Bandido Bom é Bandido Morto (Bozo que não cita os créditos né?), era um dos líderes mais atuantes. Esse chavão era o lema dos grupos de extermínio e, que surpresa, é uma das expressões preferidas do atual presidente da República.
A história só se repete como farsa, ou a farsa se repete como história, não importa. O fato é que o esquadrão e seus membros, assim como suas táticas dantescas de combate ao crime, recebiam apoio de boa parte da população. Esse é o momento em que temos a resposta para aquela pergunta: “De onde surgiram esses fascistas?”. Sempre existiram. Eis a prova.
A Scuderie Le Cocq (as letras E e M estavam no brasão e queriam dizer “esquadrão motorizado”, ao qual o detetive pertencia) chegou a comportar sete mil membros! Tendo sua origem na polícia, foi fundada no discurso moralista de defesa dos valores da sociedade, contra os elementos indesejáveis e a manutenção da ordem pública. Era apoiada pelo Exército e pela polícia, e seus membros eram considerados heróis. Desde o início, porém, estava ligada a corrupção, venda de proteção a traficantes, associação a grupos criminosos e ao jogo do bicho, prostituição, roubo de carros, furtos, tóxicos além de, obviamente, participação na repressão militar,
Um de seus integrantes permanece muito vivo na minha memória. Era praticamente um bandido celebridade, o famoso Mariel Mariscot. Mariel ingressou aos 17 anos na Divisão Aeroterrestre como paraquedista. Por meio de concurso público, foi ser salva-vidas no Corpo Marítimo de Salvamento. Seu maior desejo era sair de Bangu e morar em Copacabana, o que conseguiu alugando um pequeno apartamento no bairro. Mariscot sonhava com o glamour e tinha o firme propósito de se tornar rico. Foi leão de chácara de inferninho, segurança particular, passou para a Polícia Civil. Matou pela primeira vez um assaltante em flagrante e quando recebeu voz de prisão de um delegado pelo homicídio, rendeu-o com uma 45. Foi aí que recebeu o nome que o acompanharia pela vida “Ringo de Copacabana”.
A partir daí construiu sua trajetória de prisão de bandidos famosos. Boêmio, frequentador da noite, com fama de bonitão, Mariel arrebatou corações cobiçados, como o da atriz Darlene Glória, musa do cinema nacional, com quem teve um filho; a atriz em ascensão Elsa Castro; e a modelo e símbolo sexual Rosi de Primo. Teve também um tórrido romance com a travesti da família brasileira, a inigualável Rogéria. Sempre metido em falcatruas, acabou sendo preso e fugiu da cadeia com a ajuda da sua então esposa Elsa, indo passar um tempo no exterior. Conseguiu o inacreditável na década de 1970: ser expulso da Scuderie Le Cocq por mau comportamento. Mesmo perseguido, aparecia em estádios de futebol com jogos televisionados, ia a boates, se dava com celebridades da época, enfim…
Conseguiu redução de pena e, enquanto ficava albergado num presidio em Niterói, durante o dia trabalhava com o juiz Francisco Horta na Vara de Execuções Penais. Metido com jogo de bicho, Mariel ansiava chegar um dia à cúpula. Em outubro de 1981, ao sair do trabalho, dirigiu-se a uma reunião na fortaleza do contraventor Raul Capitão, onde se encontravam trinta bicheiros. Não chegou lá. Foi alvejado no caminho por oito tiros dentro do seu carro, nas imediações da Praça Mauá. O juiz Horta, seu protetor (e eterno presidente do Fluminense Futebol Clube), ao saber de sua morte, rezou um Pai Nosso com todos os membros do Conselho Carcerário e proferiu: “Foi assassinado aquele que, talvez, foi o maior policial que o Rio de Janeiro conheceu. Era um sacerdote”. Em entrevista posterior, comparou a emboscada que Mariel sofreu ao atentado vivido pelo Papa João Paulo II, na mesma época. Seu enterro foi acompanhado por muitas pessoas, policiais choravam, e eu, menina de dez anos, assistia a tudo pela televisão.
O Esquadrão da Morte teve sua gênese no militarismo truculento de 1964, ódio aos direitos humanos, promoção da cultura de execução primária. Consentimento do Estado, financiamento empresarial, matadores profissionais (fardados ou não), ingredientes que se amalgamaram nos Anos de Chumbo e que renderam frutos. O que é a milícia de hoje senão um esquadrão da morte aprimorado? Nenhuma semelhança é mera coincidência.
Em 2000, a Scuderie foi extinta. Voltou timidamente em 2015, com o nome (não riam, por favor): Associação Filantrópica Scuderie Detetive Le Cocq. Em 2018 eles estavam panfletando para o candidato deles. Possuem página na internet em que tratam o golpe de 64 como Revolução, e os matadores de Lamarca e afins como heróis. Roni Lessa, o assassino de Marielle, é membro de honra. Poderia ser apenas um fim melancólico. Infelizmente, é o recomeço de tudo.