O nome de nossa esplêndida recompensa por escrevermos não é o lucro. É outra coisa – chama-se liberdade (Ursula K. Le Guin, escritora sueca)
Na crônica da semana passada, mencionei, muito de passagem, minha ligação com Monteiro Lobato. Foi uma relação tão forte, libertadora, que resolvi elaborar um pouco melhor o que aconteceu lá atrás e me trouxe, com solavancos, ao que sou hoje.
Com a leitura, sem sabê-lo, percebi que podia ser outros, muitos, inclusive aqueles detestados pela maioria. O Menino sonhava com máscaras diferentes. Queria ser o Minotauro, enquanto os amigos sonhavam em ser Teseu. Preferia o capitão Nemo ao invés de Ned Land e Aronax. Transformava textos que lia, reelaborava enredos, começava a experimentar o fascínio da escrita. Hoje, sinto calafrios quando tentam censurar personagens, como faz pateticamente a bisneta de Lobato, enquadrando-os em esquemas “aceitáveis”. Não consigo imaginar o sítio do Pica-Pau Amarelo amputado da tia Nastácia como a concebeu Lobato. A maneira como agia e pensava representa uma época. O leitor não é esponja, receptor passivo de conteúdos. Do meu jeito, inconsciente, filtrei o que era necessário e aproveitei todas aquelas narrativas, integrais, desenvolvendo a vontade de contar minhas próprias histórias. Censura que começa em tia Nastácia, nos ensinam as ditaduras, termina em fogueira de livros.
Combinando a excitação da descoberta dos livros com uma curiosidade que chegava a doer, planejei um retiro no Parque Nacional de Teresópolis, acompanhado por uma pilha de volumes. Era época da faculdade, ia trancar matrícula, me entupir de conhecimento. Repaginação do fool on the hill. Ilusão de calouro. Conhecimento não existe sem a experiência vivida, e isso não se faz em isolamento. Os iogues discordarão. Desisti a tempo e fui à vida.
Livros são fundamentais para fazer as perguntas que importam, para assimilar experiências de gerações, produzir encantamento. Alberto Manguel, admirável intelectual argentino, diz que a leitura é subversiva, capaz de transformar quem lê. Eu diria que, junto com a memória, nos prepara para olhar o mundo. No entanto, é preciso cuidado. Acumular informação não garante nada. Especialmente não vacina contra arrogância, presunção, egoísmo, ressentimento, solidão. Fui contemporâneo, na faculdade, de um estudante que parecia uma enciclopédia. Tanto que intimidava os que se aproximavam. Conheci pouca gente tão solitária quanto ele. Terminou mal.
Ainda na trilha de Manguel. Mesmo sem ser místico, longe disso, ele afirma que, por razões misteriosas, enamoramo-nos por certos livros. “Em algum lugar da biblioteca, há uma página que foi escrita só para nós”, provoca. Já tive esta experiência. Não numa biblioteca, mas num sebo, onde procurava sei lá o quê. No meio de uma pilha mágica e empoeirada, lá estava a autobiografia de Louis Althusser. Por artes de berliques e berloques, levei para casa. Logo nas primeiras páginas, descobri que o grande pensador marxista gostaria que os pais o tivessem batizado como … Jacques! Meu xará! Teve um final de vida trágico, mas viveu intensamente seu tempo e pincei muitas semelhanças com minhas incertezas e ansiedades. Como se tivéssemos sido não apenas contemporâneos, mas amigos íntimos. O diálogo com a escrita é grávido deste tipo de surpresa.
Não é pouca gente que acha que a busca por conhecimento tem que se dar, necessariamente, num clima severo, de austeridade monástica. Não é verdade. A leitura, mesmo de certos textos densos, pode ser feita com leveza, espanto e alegria. Prazer. Quem disse que seriedade tem que ser mal-humorada? Uma sátira de Horácio em latim, citada por mestre Paulo Rónai, diz o seguinte (desculpem o pedantismo): Ridentem dicere verum quid vetat? Ou seja: Que é que poderia impedir aquele que ri de dizer a verdade? Taí uma boa dica.
A tristeza não tem fim, diz um samba, por isso outro pede que a tristeza vá embora. Vá embora, mas não tanto, pois “para fazer um samba com beleza é preciso tristeza”. Tristeza para Espinosa é uma paixão negativa, ao contrário da alegria que ele define como uma paixão positiva. Desde o samba e a Psicanálise é possível ver o positivo da lágrima, pois ela é necessária no amor e no humor. Um sorriso entre lágrimas é uma definição do humor, um abraço entre a lágrima e o sorriso.
Hoje, a sombra da melancolia caiu sobre o Brasil mais uma vez. Na verdade, não faltaram na nossa história tempos tristes de crueldade. Foram três séculos e meio de escravidão, 36 anos de ditadura, racismo e violência sempre. A violência de hoje está na pandemia desprezada (“é só uma gripezinha”) que já contabiliza 175 mil mortos, 175 mil famílias enlutadas. Não há reais preocupações com a Covid-19, a fome, o desemprego, por parte dos poderes. Um Brasil frio, indiferente, sem norte, nessa longa quarta-feira de cinzas.
É difícil viver nas desgraças, mas os negros, na escravidão, quando caía a noite, cantavam e dançavam, para enfrentar a crueldade branca. É possível imaginar quantas tristezas já viveram os negros, os índios, ainda hoje atacados e mortos? As terras indígenas e as dos quilombos, reguladas por leis da democracia, estão sendo cobiçadas. Algumas já foram invadidas pelos brancos bilionários com apoio de todos os poderes, até o das Forças Desalmadas. Que saudades do Marechal Rondon que amou os indígenas e foi amado por eles.
São tempos tristes, tempos de insensibilidade, no distanciamento, o real agora é virtual. Teremos que reaprender o sabor do amor para recuperar o calor. Sim, estamos frios, distantes, sem conversas presenciais, sem teatro, sem cinema, sem esportes. Nesses tempos difíceis convém aprender com os que viveram e vivem os efeitos da escravidão. Aliás, escrevi aprender e logo associei que mal aprendi a História do Brasil. Não aprendi as origens africanas na formação deste país, nem dos maus-tratos aos negros pela Casa Grande. Após a abolição da escravatura não ensinam que os negros foram relegados, os arquivos da escravidão queimados. Os negros não receberam terras como os imigrantes e nem educação, foram marginalizados pela sociedade branca. Precisamos conhecer o Brasil que não está no retrato.
Conhecer, por exemplo, a incrível empregada doméstica, que fez faculdade, mestrado e doutorado e hoje é a escritora: Conceição Evaristo, autora desta poesia:
“Vozes-mulheres”
A voz de minha bisavó
ecoou criança
nos porões do navio
ecoou lamentos
de uma infância perdida.
A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.
A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e
fome.
A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.
Conceição começa com a voz da bisavó nos porões do navio, segue com a voz da avó na obediência aos brancos-donos de tudo, e vem a voz da mãe na favela, a voz dela em versos com rimas de sangue, e a voz de sua filha com o eco da vida-liberdade. Esse é um poema das vozes das mulheres negras, e já é mais do que na hora que as vozes brancas se somem às vozes negras e índias para um Brasil antirracista. Tempos tristes, tempos de luto e luta na recordação dos mil dias do assassinato de Marielle. Quem mandou executá-la?
Cuidado, não voa tão perto do Sol. Eles num ‘guenta te ver livre (Emicida, rapper)
Tipo do assunto que preferia conversar ao vivo, palavra puxando palavra. Como não dá, vou de dedos e teclas. Nestes dias de ira e ansiedade reprimida, o racismo, que às vezes se esconde atrás da cortina, voltou à tona. O assassinato brutal do soldador João Alberto Freitas, o Beto, reacendeu o debate sobre nosso racismo estrutural. Aquele que o antropólogo Roberto DaMatta definiu como “resíduo abjeto de um estilo senhorial e escravocrata de vida, que, pela chibata e pelo pelourinho, transformava negros em mercadorias, máquinas e animais”.
Não vou comentar as leviandades do general Mourão, que já se referiu a índio como “indolente”, a negro como “malandro” e exaltou o neto pelo “branqueamento da raça”. Também não vou analisar a pouca importância que se deu, por exemplo, à eleição das primeiras vereadoras negras de Curitiba e Joinville (esta última ameaçada de morte pela “ousadia” de ocupar “lugar de branco”). Quero levantar um aspecto desconfortável, negado, subestimado: o racista que lateja em cada um de nós, pequenos-burgueses bem formados, influentes, formalmente imunes aos achaques discriminatórios. Será que nos livramos mesmo da herança que aparta os negros com naturalidade, reservando a eles a marginalidade vitalícia? Não darei respostas categóricas, mas posso falar por mim.
Fui criado num ambiente sem negros. A vila de casas, na Tijuca, era habitada pela baixa classe média. Mesmo lá, fronteira fluida com a pobreza, os negros não tinham vez. Só entravam como domésticas e trabalhadores subalternos. O mesmo aconteceu na escola, todos nós filhos ou netos de imigrantes europeus. Imigrantes que, antes de desembarcar no Rio, só tinham visto negros, talvez, em anúncios de chocolate.
A uma das negras, o Menino ensinou rudimentos de ídish, idioma ancestral. Usou o livro escolar e a fez decorar as primeiras frases. Dos iz Serele, dos iz Berele. Esta é a Sarinha, este é o Bernardinho. Durante breves momentos criei um vínculo afetivo com aquela pessoa, sobre a qual desconhecia tudo: onde morava. o que fazia quando se liberava do trabalho. Os Grandes a consideravam uma invisível que varria a casa e lavava louça. Mais um item de móveis e utensílios, de quem ignoravam desejos e vida interna.
Cansei de ver, na televisão em preto e branco, desenhos animados estadunidenses que mostravam negros preguiçosos, parvos, submissos, enxovalhados. Nos livros de Monteiro Lobato, a quem devo o interesse pela leitura, a tia Nastácia não se diferenciava da empregada negra, gorda e sem rosto, que aparecia nos desenhos de Tom e Jerry. Retrato de uma época, com hierarquia engessada, onde, novamente citando DaMatta, “toneladas de privilégios neutralizavam todas as éticas”.
Mesmo inserido neste ambiente branqueado, não me tornei um racista militante. Longe disso. Acho, no entanto, que num nível inconsciente, foi impossível não me impregnar com tantos estereótipos. Isabela Figueiredo, escritora nascida em Moçambique de pais portugueses, narra como eles se referiam à população africana. Tenho vergonha até de reproduzir os termos. Eu, como ela, travamos uma luta diária para nos livrarmos desta influência viscosa. Somos, cada um à sua maneira, antirracistas em construção permanente. Como os dependentes químicos, não podemos relaxar. Os fantasmas de catacumbas ancestrais estão à espreita. Temos que nos colocar no lugar do Outro para compreender sua angústia e sua revolta. Não é fácil, como jamais será trivial imaginar como se sente um judeu que carrega gerações de pogroms e discriminações nas costas.
Tenho convicção de que, adaptando uma frase de Marx, a emancipação dos negros será obra dos próprios negros. With a little help from some friends, como aconteceu nos Estados Unidos, na África do Sul e nas colônias ultramarinas portuguesas. Gente como Joe Slovo, Mia Couto, Pepetela, Michael Schwerner e Andrew Goodman esteve na linha de frente nas lutas antiapartheid, anticolonialistas e pelos direitos civis. Brancos que ultrapassaram a cor da pele e mergulharam nas águas comuns da humanidade.
“Meus heróis morreram de overdoseMeus inimigos estão no poderIdeologia,Eu quero uma pra viver.”Cazuza – Ideologia
Pedro também caiu de paraquedas no curso de Economia da UFRJ. No vestibular, tinha dado a sorte de se sentar ao lado de um amigo de infância “Caxias”. Sem ter que insistir muito, o amigo deixou a sua folha de respostas a mostra e foi assim que ele entrou para o curso. Ele não era o cara típico de círculos acadêmicos. Morava fora da Zona Sul, tinha pele mais escura, cabelo enrolado e por ser da equipe de polo aquático do Fluminense, era sarado. Não demorou muito para que engatássemos numa firme amizade, comigo sendo seu passaporte para festas na Zona Sul e com ele me ajudando na cultura de rua.
Economia e Administração de Empresas, Comunicação (Jornalismo e Publicidade) e Psicologia eram as três faculdades no campus da Praia Vermelha. Nosso curso era o mais prestigioso e ficava no prédio mais suntuoso, o que abrigava o famoso Teatro de Arena. O diretório central dos estudantes era lá e usava aquele anfiteatro como palco para bandas alternativas, muitas delas excelentes, como Premeditando o Breque, Diana Pequeno, Luli e Lucinha, entre outros.
Por essas e outras, os alunos de Economia se achavam um degrau acima, acreditando lidar com questões mais difíceis e importantes. Para nós, os estudantes dos outros cursos estudavam matérias fáceis e superficiais. Em contrapartida, ainda que impuséssemos um certo respeito, eles nos viam como riquinhos nerds metidos a besta.
Pedro e eu não estávamos interessados nesses estereótipos. Em vez disso, saímos explorando o campus, fazendo amizade com os estudantes de Comunicação – eles sabiam das melhores festas – e com os de Psicologia – a grande maioria era de mulheres, muitas delas bonitas e pareciam dispostas a experimentar coisas novas.
De qualquer forma, passamos a fazer parte de uma turma universitária mais madura que possuía vida social própria. As festas que começamos a frequentar refletiam esse novo status universitário. Nelas, além da nossa turma de calouros, havia estudantes de anos mais avançados, jovens professores, suas namoradas, esposas e seus amigos, todos inteligentes e muito mais sofisticados do que a maioria das pessoas com as quais estávamos acostumados a nos relacionar.
Minha habilidade no violão operava milagres e éramos convidados para as melhores festas, organizadas pelos membros mais conceituados do corpo acadêmico, muitas nos melhores endereços da cidade. A elite era de esquerda e vários chegariam a posições importantes em agências governamentais, nos negócios e mesmo na política. A maior parte vinha de famílias tradicionais e conceituadas, e alguns dos pais eram envolvidos nas cúpulas dos recém-legalizados partidos de oposição.
Num tempo de renascimento político esses círculos apreciavam a aura descontraída de um violonista, versado no estilo de vida alternativo encontrado em Visconde de Mauá e Trancoso. Durante um breve tempo, tanto Pedro como eu fomos cortejados pela elite estudantil, mas a novidade desbotou logo e nos deixaram de lado devido às notas baixas, o contexto familiar inadequado e a falta de base e de interesse nos assuntos sérios que todos deveriam estar focando.
A acolhida nos outros cursos foi mais durável. Choviam convites para festas e levadas de som. Conhecemos garotas sensacionais e fizemos boas amizades. Imersos na farra e com um status elevado em casa, foi fácil esquecer a realidade econômica sombria pairando sobre nossas cabeças, bem como os esforços requeridos por uma das melhores faculdades do país.
*
Com a contrarrevolução neoliberal veio a caça às bruxas. Pessoas que não haviam colhido os frutos do milagre econômico dos anos 1970 ou que não tinham participado da festa, quer por proibição dos pais, quer por dedicação aos estudos ou repúdio àquela postura, pareciam estar ajustando as contas e festejavam a desgraça do inimigo.
O que antes era curtição, passou a ser visto com maus olhos, o que havia sido revolucionário agora era considerado idiotice e o que antes era aproveitar a vida se tornou a causa de doenças sexuais e mentais. A jornada de uma geração que havia lutado contra uma ditadura e que mais tarde presenciou a volta da democracia foi relevada. O sentimento de irmandade que tinha surgido naqueles dias se dissipou. Tudo parecia de cabeça para baixo: o que o senso comum havia considerado até então como egoísta e detestável, agora era aplaudido como a coisa certa a fazer.
O choque econômico também trouxe novidades na maneira de se “fazer a cabeça”. A cocaína passou a substituir a maconha. Não nos encontros dos radicais chiques de esquerda do curso de Economia onde muitos nem fumavam, mas nas outras rodas que frequentávamos. O comando do tráfico carioca percebeu que o pó branco era mais fácil de transportar, mais difícil de rastrear, mais viciante, mais caro e, enfim, muito mais lucrativo do que a herva, uma tradição de séculos. O submundo se profissionalizou em torno da novidade. Passaram a criar longos períodos de escassez de cannabis, enquanto o fornecimento de pó era abundante e barato. Logo, logo, os antigos maconheiros estavam caindo de napa nos espelhos do Rio de Janeiro. Muitos passaram a ver a maconha como uma lembrança ruim, um entretenimento para hippies fracassados e outros perdedores.
A Brizola – o nome do ex-exilado e futuro governador do Rio de Janeiro e por alguma razão o apelido da cocaína – era mais agressiva e mais nociva. Essa mudança de preferência era ilustrava bem o que estava acontecendo por causa do choque neoliberal. Ao invés de trazer a tona o lado contemplativo e artístico das pessoas, a cocaína deixava o raciocínio rápido e o ego inflado. Depois de se tornar popular, é claro que o tráfico aumentou o preço e fez com que seu consumo se tornasse um peso no orçamento. Por ser necessário consumir muito para manter a onda, em tempos de crise econômica muita gente acabou tomando caminhos à margem da lei para manter o hábito.
No começo, não gostava do clima superficial nem do egocentrismo que as linhas brancas traziam, mas a onda era tão forte que acabei entrando na onda junto com a galera mais chegada. A ilusão de autoconfiança conferida compensava as pancadas da recessão econômica. Àquela altura, a realidade lembrava um caminhão desgovernado vindo a toda em nossa direção mas com a Brizola tinhamos a impressão de correr mais rápido que ela.
No entanto, a implacável verdade era que o Brasil tinha se tornado um país assolado pela hiperinflação e pela recessão. Com uma crise à solta, havia muito desespero e mesmo suicídios, alguns próximos de nós. A saída era “cada um por si e Deus contra todos”, nas palavras de Mário de Andrade em seu livro Macunaíma. A válvula de escape para os abastados era a autodestruição através do excesso, para os mais pobres, era o crime e a violência. Histórias trágicas começaram a pipocar nos jornais; um aumento assustador no número de sequestros e assassinatos de um lado e justiceiros matando suspeitos do outro.
Dentro do meu círculo social o desânimo era generalizado. Na inocência de achar que resistíamos ao sistema, quando os dias ruins chegaram – algo que nunca imaginamos que pudesse acontecer – percebemos o quanto estávamos presos a tudo que achávamos que havia de errado no mundo. Moloch era muito maior que pensávamos. Ao contrário do que ditava a lógica, a crise o fortaleceu.
Todos sentiam que isso era apenas o começo de um longo caminho no escuro. Ao final de meu primeiro ano na universidade, os efeitos do caos eram profundos. A crise tinha pego todos de surpresa e ninguém sabia como reagir. Éramos como prisioneiros inocentes em estado de choque. Tentei me convencer de que podia lidar com o que viesse e de que era impossível que as coisas pudessem piorar. Estava errado.
Na madrugada da sexta-feira passada, dia 20 de novembro, tive um pesadelo. Despertei e anotei algumas frases para não esquecer: “Caminhava por um terreno difícil e percebi que havia avalanches de terra feitas com escavadeiras. Percebi que iria morrer, mas lutava para me salvar”. Foi um pesadelo, o sonho, guardião do sono, falhou na censura e passaram imagens assustadoras e acordei.
Logo pensei no dia anterior para buscar os restos diurnos, que é a porta de entrada para se interpretar um sonho. Escrevi sobre a abolição da escravatura, a queima dos arquivos, a vida cotidiana dos escravos negros. Os arquivos da escravidão foram queimados a mando de Ruy Barbosa, para esconder a violência dos brancos escravocratas. Lembrei também de uma cena da queda de uma barragem em Brumadinho da empresa Vale, matando centenas de pessoas.
Meu pesadelo foi uma mortificação, um masoquismo, talvez tenha me identificado com os negros, pois aprendi ainda adolescente que judeus e negros eram vítimas de crueldades. Associei ao livro de Sartre cujo título, “Racismo”, associa os judeus e os negros como vítimas do ódio na História. As mortificações vividas no pesadelo se associam a sofrimentos na infância e na vida. Na verdade, todos somos masoquistas, uns mais, outros menos. Variações de intensidade, de qualidade, dependendo de muitos fatores, como as identificações. Às vezes, a gente não suporta a felicidade e sonha com sofrimentos sem fim, e ao se acordar, mesmo assustado, se alivia que foi só um pesadelo, bom para se pensar e aliviar o gozo masoquista.
Entretanto, assim como há sonhos e pesadelos noturnos, a vida mesma oscila entre sonhos e pesadelos no cotidiano. Na manhã do dia 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, fico sabendo do assassinato, por espancamento, do João Alberto Silveira Freitas, no Carrefour de Porto Alegre, na Volta do Guerino. O sadismo branco contra os negros integra a história brasileira no que se definiu como racismo estrutural da vida brasileira. O país ainda não acertou as contas com seu passado, ao contrário, pois 75 por cento dos assassinados pela polícia são negros.
É difícil articular o que ocorre com a pessoa por um lado e com a sociedade na qual se vive. Logo após a Primeira Guerra Mundial, na primavera de 1919, Freud pensou em como explicar a psicologia das massas seduzidas pela guerra. Já em fevereiro de 1920 começa a trabalhar esse tema, e um ano depois conclui a obra: “Psicologia das massas e análise do Eu”. No final do primeiro parágrafo, escreveu: “a psicologia individual é simultaneamente psicologia social em um sentido mais amplo, mas inteiramente legítimo”. A seguir define o caminho das identificações para articular o individual e o social através dos pais, irmãos, professores, o médico, os líderes ocorrem identificações. Freud, assim, reafirma o quanto uma pessoa é dependente da vida em sociedade na qual pode ser passivo diante de um líder, ou buscar a liberdade para viver.
A vida, em geral, oscila entre sonhos e pesadelos. Em 2020 vivemos pesadelos aqui e no mundo, com limitações da vida cultural, saudades de encontros presenciais com longas conversas. Diante das dores é bom sonhar que um dia seremos vacinados e voltaremos a conviver com mais alegria ainda. A luta contra o racismo crescerá graças à militância negra e dos brancos que se unem a essa luta. Se o sonho noturno é individual, o sonho social envolve as parcerias. Unir as vozes na luta antirracista creio ser um dever e uma honra para todos os humanistas. Na luta antirracista me vem à mente uma frase de Martin Luther King: “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons”. Pergunta talmúdica: Se não rompermos com os silêncios agora, quando será?
P.S. Hoje às 20,15 no Instagram da Editora Artes e Ecos estarei com o psicanalista Renato Mezan falando sobre a recente segunda edição do livro “Seria trágico… se não fosse cômico- Humor e Psicanálise. Espero, quem puder, na live que promete ser bem humorada.
Nós, quando moleques, fanáticos por futebol, crescemos com aquela interminável questão: quem é o melhor de todos os tempos? Pelé ou Maradona? Ah, para nós brasileiros era fácil: Pelé era incomparável. E já dizia algum “filósofo do futebol”, que ele era o número um e Maradona e era o número cinco, afinal números dois, três e quatro simplesmente não havia. Que orgulho era para nós assistir aos vídeos do Rei do Futebol, do Atleta do Século. Era um deleite para os olhos observar os gols que fez e também os que não fez, na Copa de 70. Até mesmo sua parceria musical com Jair Rodrigues nos soava tão bem aos ouvidos… É, o homem tinha três corações mesmo e nós tínhamos ele em nossos.
Em minha visão ingênua e pequena de menino era simples: Pelé era um ícone, um herói, e Maradona era um vilão, um cocainômano, alcoólatra e envolvido com a máfia napolitana. E ainda por cima havia trapaceado no gol de mão de 1986!
Ok. Ainda bem que este tempo em minha existência já passou. Diferentemente de Drummond que tinha saudades dos seus oito anos e da aurora de sua vida, e de Chico que cantava a saudade ingrata dos seus 12 anos, eu fico feliz por ter crescido. Não tenho saudades alguma daquelas épocas, mas isto é outra história. O que importa aqui é dizer que hoje me sinto feliz em ser consciente e sabedor de coisas. E também sabedor de que não sei muitíssimas coisas ainda. Ah, também cabe dizer que parei de assistir futebol há muito tempo, afinal a máquina capitalista simplesmente destroçou o antes saudável esporte, transformando-o em mero “entretenimento-pop-enlatado-multibilionário”.
Mas voltemos ao propósito deste breve artigo: Maradona, que hoje sei, é o verdadeiro ícone e herói, faleceu ontem e este texto é dedicado à sua memória. É dedicado à sua incontestável posição política socialista, à sua convicção ideológica e ao seu desejo de sempre externar tudo isto. É dedicado à sua camiseta de Che, à sua tatuagem de Fidel, à sua camisa da Seleção com o nome de Lula. E é também – por que não – uma celebração ao seu “gol roubado”, que gerou a melhor resposta da história dos esportes, quando o argentino foi perguntado se assumia que o tento foi feito com a mão. Sim, hermano de Lanús, foi mesmo com la mano de Dios.
Já Pelé, fui compreender depois, era a pessoa que aceitou com “imensa satisfação a honrosa missão de representar o ilustre governo” ditatorial brasileiro em 1970. Tais palavras estão contidas em uma carta do atleta ao militar Emílio Médici, ao qual ele se dirige como “muito digno Presidente” (história publicada em 2014 pelo jornalista Lúcio Castro no portal da ESPN Brasil).
Pelé era também a pessoa que não reconheceu sua falecida filha legítima, a vereadora Sandra Regina Machado. Como se justifica algo assim?…
Compreendi também que aquela fala aos prantos após seu milésimo gol no Maracanã, “Vamos proteger as criancinhas necessitadas”, era só demagogia mesmo. O tempo provou. Este sempre foi o caminho de Pelé: pensar somente nele mesmo e se alinhar àqueles que detêm o poder. Desde 1970, quando a famosa a foto erguendo a Jules Rimet ao lado de Médici foi tirada, só poderíamos esperar dele isso que vemos em 2020: o cidadão sujando a camisa do Santos Futebol Clube com o mais nefasto nome da história da política brasileira. Simplesmente asqueroso e vergonhoso, da mesma forma que provou ser o patético Neymar e tantos outros neymares que existem por aí.
Maradona, ao contrário, ao invés de falar à imprensa mainstream sobre “as criancinhas”, decidiu falar diretamente ao Papa João Paulo II, lembram-se? E que “enquadrada”, hein? Ele próprio depois explicou a discussão:
“Discuti com ele porque estava no Vaticano e vi todos aqueles tetos dourados e depois ouvi o Papa dizer que a Igreja estava preocupada com o bem-estar das crianças pobres. Venda seu teto, amigo, faça alguma coisa!”
Por fim, cabe ainda lembrar que Maradona se pronunciava sobre a causa do povo palestino, sobre o conflito das Malvinas e era muito consciente sobre as questões políticas em seu próprio país e na América Latina como um todo.
Infelizmente Maradona sofreu sempre com problemas de drogas e de alcoolismo e certamente isso contribuiu para que partisse muito antes da hora certa. Termino este breve tributo ao maior personagem da história do futebol com as palavras de quem dispensa apresentações, Presidente Lula:
“O Maradona, além de ser um grande futebolista, era um grande político. Falava de política, de soberania, de América Latina, em defesa dos pobres, em defesa da vida. O Maradona tinha palpite para quase todas as coisas que aconteciam no mundo que prejudicavam o povo trabalhador e o povo humilde. E quero dizer ao povo argentino: poucas vezes vi um jogador de bola parar de jogar e não parar. Porque Maradona parou, mas continuou jogando. Continuou jogando em pensamento, em suas opiniões políticas, em suas críticas, e continuou jogando para o povo pobre do mundo inteiro.”
Valeu, Pibe de Oro! Realmente você e Pelé são mesmo incomparáveis. Saudações da Resistência daqui da Terra aí ao Céu.