Sérgio Porto ainda nem sonhava em ser Stanislaw Ponte Preta. Morava numa casa em Copacabana, roçando a areia da praia. Lá passou vinte e quatro anos felizes. O bairro, como tudo no Rio, entrou no radar da demolição impiedosa, da reconstrução sem alma, da memória desrespeitada.
Certo dia, já no prédio que substituiu a casa, abriu a gaveta da escrivaninha onde costumava guardar contas velhas, caixas de fósforos, caderninhos de telefones que já não valiam. Quinquilharias que vão ficando, mortos que se recusam a ser enterrados. No meio delas, um envelope amarelado com alguns retratos batidos no dia da mudança. Registro “dos cantos queridos daquela casa”.
Sérgio não gostou da descoberta. As imagens o deixaram melancólico. Não dava para pegar um bonde e voltar para a escada que rangia no quinto degrau, o banco de madeira do jardim, a sala de jantar, o quintal. Resolveu rasgar as fotos. “De que vale sofrer por um passado que demoliram com a casa?”. E concluía: “Como se precisássemos de máquina fotográfica para guardar na memória as coisas que nos são caras!”.
Tinha razão o Lalau. No entanto, há outra serventia para retratos. Certo, eles podem coçar a memória imediata, mas também desencadear lembranças adormecidas ou soterradas. A imagem original, então, acaba se multiplicando e leva a lugares não percebidos no primeiro olhar. É um processo indomável.
Recebi há duas semanas a versão digital de um livro do Henrique Veltman. Passageiro da Kombi onde se abriga a torcida do América, Henrique está exilado há muito tempo em Santos. Em meio a uma saraivada de memórias, ele recorda o Colégio Hebreu Brasileiro, onde ambos estudamos. Folheio em câmera lenta. De repente, a foto. De 1960. No pátio de cimento áspero, onde ralei joelhos e estraguei muitos Congas em peladas memoráveis, adultos estavam reunidos em torno de uma longa mesa para uma solenidade. Na cabeceira percebo a careca inconfundível, dessas que têm impressão digital e registro no cartório. Só podia ser ele. Tio Schula.
Salomão Rozental nasceu em Iedenitz, pequena aldeia na Bessarábia, no início do século passado. Chegou ao Rio em 1930, fugindo da pobreza e da falta de perspectivas. Como tantos outros emigrantes, trazia no bolso os endereços de parentes de amigos da aldeia natal, que o ajudaram nos primeiros e duros tempos. Conterrâneo do meu avô paterno, acabou se relacionando com os Gruman, que, àquela altura, moravam numa casa em São Cristovão.
Junto com um amigo, trabalhou no comércio de Angra dos Reis e Parati. Lá, conta a saga familiar, introduziu um sistema de crediário, inédito naquelas bandas. As visitas aos Gruman se intensificaram quando Schula percebeu o borogodó de Eva, irmã de meu pai. Dos primeiros passeios na Cinelândia e olhares sugestivos mútuos, acabou saindo o noivado, espécie de estágio probatório das antigas, e, em 1940, o casamento.
Voltando à foto no Hebreu. A presença de Schula revela nele um ativista, voluntário na administração do colégio. Era um sistema comum em escolas judaicas. Os pais formavam um coletivo e distribuíam as tarefas, que iam da contratação de professores à contabilidade geral. Meus primos estudavam naquele colégio e Schula não se limitava a acompanhar o desempenho escolar dos filhos. Dedicava parte do seu tempo ao bem comum, sacrificando lazer e convívio familiar.
Vejo em outra foto que Schula e meu pai participaram, juntos, da criação do primeiro clube judaico da Tijuca, o Monte Sinai, inaugurado em 1959, onde dei vazão à minha canhota formidável nos treinos de futebol de salão. As imagens confirmam um senso comunitário admirável e uma disponibilidade para o trabalho social que me orgulham. Gente modesta e inquieta, que tinha uma rotina desgastante mas não se omitiu e deixou uma herança agregadora fértil. Quantos podem dizer o mesmo?
Num verão quase apagado pelo tempo, eu, meu pai, tio Schula e seu filho David nos hospedamos num hotel barato em Angra dos Reis. À noite, David improvisou uma musiquinha em ídish que aludia às consequências, digamos, gasogênicas que o Toddy de todas as noites produzia no pai. A gente caía pra trás com a gozação, mas quem se esbaldava mesmo era o tio Schula. O careca da foto, o aeroporto de mosquitos bessarabiano, ajudou a construir quem sou. De alguma forma, quem somos.
Todos na família a chamavam de Bobe, tardei em saber que a palavra “bobe”, em ídiche, significa vó. Ela nasceu na Ucrânia, em 1885, veio casada e com filhos para o Brasil em 1919 e nunca se disse ucraniana. Era de Tolchin, cidade situada entre a capital Kiev e o porto de Odessa, um dos maiores do país invadido pela Rússia.
Minha avó, a Bobe, nunca queria falar do seu passado, pois dizia que tinha más recordações. Uma tia contou que os judeus viviam ameaçados pelos cossacos, que invadiam as aldeias para saquear e matar. Cansei de perguntar a Bobe sobre o passado e ela não se cansava de dizer que preferia não falar, seu silêncio sobre o passado foi impressionante. Essa mulher era forte, uma líder familiar, uma segunda mãe, pois vivia na nossa casa. Foi a única pessoa que se dizia judia e só judia, nunca se sentiu de outra nacionalidade; falava o português com dificuldade, preferia falar em ídiche. Quando, nos primeiros anos, não falei, todos se preocuparam, menos ela, que dizia: “Não fala mas escuta e entende o que se fala, logo irá falar”. Meus primeiros anos passei no colo dela, que cantava diante das fortes chuvas: “Chuva vai, chuva vem, chuva miúda não mata ninguém”. E eu me sentia seguro.
Tudo isso me vem à mente nos últimos dias devido à invasão da Ucrânia sob o comando de um verdadeiro czar da Rússia. A Bobe viveu a guerra entre a Rússia e o Japão em 1905 e depois a Primeira Guerra Mundial, nas quais seu esposo lutou, e cedo aprendeu a enfrentar a fome e a lutar pelo alimento dos filhos. Cansei de escutar histórias dos tios sobre sua coragem, a capacidade de superar o medo, enfrentar a guerra e os cossacos que atacavam as aldeias judaicas. A Bobe ucraniana que só se dizia judia sabia tirar as cartas para ler o futuro, aprendera com as ciganas ucranianas. Meu pai acreditava nela e jogava paciência, e eu gosto de escrever cartas.
perto de nós
Sempre me interessei pelos avós dos outros, já que só conheci uma avó. No livro As Palavras, do filósofo Jean-Paul Sartre, ele escreveu sobre seu avô, com quem aprendeu o amor aos livros. A função dos avós é da ordem das transmissões, e o legado que recebemos são metabolizados num processo de autonomia. Assim nos humanizamos e aprendemos, um pouco mais, quem é mesmo cada um, a história de cada um de nós. Aos poucos vão conhecendo o passado e trazendo ele para hoje em direção ao amanhã. A família se integra em cada pessoa desde duas perspectivas: uma a que se chama horizontal, que ocorre através das identificações na vida de cada um. O outro eixo é o vertical, que inscreve cada pessoa em várias gerações da história. Conviver com os avós enriquece a vida dos netos, dá uma visão histórica de sua família e rejuvenesce os avós.
Um exemplo desse passado é o local onde fica a torre de TV bombardeada por forças russas no dia 1º de março, justamente ao lado da praça onde ocorreu um dos maiores massacres judeus pelas forças alemãs. Durante a Segunda Guerra Mundial, nessa praça havia uma ravina – uma fenda profunda no solo devido a erosão – chamada Babi Yar. Nessa ravina, foram fuzilados 34 mil judeus em dois dias. Aliás, Kiev era um importante centro cultural e espiritual da vida judaica na Europa desde o século 18.
Em homenagem aos mortos, o poeta russo Yevgueni Yevtushenko escreveu em 1961 o poema Babi Yar como protesto contra as autoridades soviéticas que se recusavam a homenagear os judeus massacrados na ravina.
(*) Psicanalista e escritor, autor, entre outros livros, de “Imaginar o Amanhã” (com Edson Luiz André de Sousa, Diadorim Editora)
Babi Yar
De Yevgueni Yevtushenko, 1961. Tradução de Benjamin Okopnik
Nenhum monumento fica sobre Babi Yar.
Apenas um penhasco íngreme, como a lápide mais tosca.
Eu estou com medo.
Hoje, sou tão velho
quanto toda a raça judaica.
Eu me vejo como um antigo israelita.
Vagueio pelas estradas do antigo Egito
E aqui, na cruz, pereço, torturado
E mesmo agora, trago as marcas dos pregos.
Parece-me que Dreyfus sou eu mesmo.
Os filisteus me traíram – e agora julgam.
Estou em uma gaiola. Cercado e encurralado,
sou perseguido, cuspido, caluniado, e
As bonecas delicadas em seus babados de Bruxelas
Gritam, enquanto apunhalam guarda-chuvas no meu rosto.
Eu me vejo um menino em Belostok
Sangue se derrama, e corre pelo chão,
Os donos de bar se enfurecem desimpedidos
E cheiram a vodka e a cebola, meio a meio.
Sou jogado para trás por uma bota, não tenho mais forças,
Em vão imploro à ralé do pogrom,
Para zombarias de “Mate os judeus e salve nossa Rússia!”
Minha mãe está sendo espancada por um funcionário.
Ó Rússia do meu coração, eu sei que você
é internacional, por natureza interior.
Mas muitas vezes aqueles cujas mãos estão imersas em sujeira
Abusaram do seu nome mais puro, em nome do ódio.
Conheço a bondade da minha terra natal.
Que vil, que sem o menor tremor
Os antissemitas se proclamaram
A “União do Povo Russo!”
Parece-me que sou Anna Frank,
Transparente, como o ramo mais fino de abril,
E estou apaixonada, e não preciso de frases,
Mas apenas que nos olhemos nos olhos.
Quão pouco se pode ver, ou mesmo sentir!
As folhas são proibidas, o céu também,
Mas muito ainda é permitido – muito gentilmente
Em quartos escuros um ao outro para se abraçar.
“Eles vêm!”
“Não, não tema – são sons
da própria primavera. Ela volta logo.
Rápido, seus lábios!”
“Eles quebram a porta!”
“Não, o gelo do rio está quebrando…”
Grama selvagem farfalha sobre Babi Yar,
As árvores parecem severas, como se estivessem julgando.
Aqui, silenciosamente, todos os gritos, e, chapéu na mão,
Pouco a pouco o carnaval se transfere para Brasília. Brasília já tem, pelo menos, o maior bloco de sujos. (Millôr Fernandes)
Aproveito o carnaval e faço uma pequena pausa para meditação. A crônica de hoje vai ao ar semana que vem. Como a natureza, e queiramos ou não somos parte dela, detesta vazios, deixo aqui alguns pensamentos soltos sobre o que os antigos chamavam de tríduo momesco.
Os que me acompanham há algum tempo sabem. Detesto carnaval. Trata-se de sentimento longevo, desde quando adultos insensíveis vestiram o Menino com uma fantasia de Nero. Logo aquela criança nada piromaníaca, que só ensaiava incendiar a imaginação! Enquanto as chanchadas da Atlântida aqueciam os motores para a festa, fazendo desfiles na tela com Emilinha Borba, Marlene, Blecaute e as irmãs Batista, eu tentava saídas silenciosas para a agitação ao redor. Não era fácil. A excitação parecia lei federal. Os que a transgrediam estavam condenados à zombaria. Hoje diriam cancelamento.
Para não dizer que não falei de flores, digo, de exceções, cito dois casos. O Bloco do Eu Sozinho, invenção foliona de fundo chapliniano, sempre me fascinou. Pessoas que, sem medo da fantasia de Solidão, não precisam mais do que uma expressão intraduzível e um estandarte modesto para se transportar, por breves dias, para um universo paralelo. Twilight zone com confete, serpentina e lança-perfume. É neste universo que habita meu segundo caso.
Nos anos 80, trabalhei no BNDES. Acompanhava projetos industriais financiados pelo banco. Estava em Recife, reunido com o executivo de uma empresa. Terno bem cortado, gravata discreta, cabelo bem comportado, fala mansa e articulada. No intervalo para café, descontraiu-se. Contou que tinha um acordo com a mulher. Na sexta-feira pré-carnaval, ele arrumava uma pequena valise e sumia para destino ignorado. Só reaparecia na quarta-feira de cinzas, depois do desfile do Bacalhau do Batata. Pelo acordo, não se faziam perguntas sobre os quatro dias sumidos do mapa, findos os quais voltava a valer, levemente alterada, a velha música do Chico: todo dia ele faz tudo sempre igual… Ouvindo a história, flutuei em muitas fantasias, da ala das piranhas de algum frevo suburbano ao bacanal à moda do baile no Iate Clube do Rio de Janeiro, todo mundo pelado na piscina. Por momentos, valiam para o ilustre pernambucano todas as máscaras. A segunda sombra, poética ou selvagem, a que se refere um personagem do Mia Couto.
Há 100 anos, Careca e Freire Junior satirizaram Artur Bernardes, então candidato a presidente da República, com a marchinha carnavalesca Aí, seu Mé. O povo cantava: Aí, seu Mé!/Aí, seu Mé!/Lá no Palácio das Águias, olé/Não hás de pôr o pé. Bernardes, que não gostou da brincadeira, chegou a convocar forças militares para reprimir a cantoria. Desde cedo, já se vê, o mau humor oficial e o ânimo censório espichavam olho gordo nas crônicas musicais.
Será que hoje é diferente? As marchinhas praticamente desapareceram, outras entraram na mira revisionista dos que “problematizam” o deboche carnavalesco. João Roberto Kelly (Cabeleira do Zezé) e Lamartine Babo (O teu cabelo não nega) são vítimas tardias dos discípulos de dona Solange Hernandes. Carnaval, ouço dizer, é hoje território de sertanejos, sofrências e pancadões, bem ao gosto da cultura das celebridades. Momo virou meme.
No mais, este ano, com o carnaval de rua abolido no Rio (alguém acredita que é para valer?), ao menos estarei protegido das nuvens de gafanhotos, popularmente conhecidos como blocos, que deixam atrás de si uma paisagem peculiar: ilhas de lixo, jardins vandalizados e rios de urina, com afluentes, pororocas e vazões impressionantes. Ureia no poder! Coisa que me faz lembrar uma cena aterradora do filme O iluminado, do Kubrick. Das paredes do hotel fantasmagórico fluía um mar de sangue, com ondas e correntes portentosas. O horror, o horror, ao gosto de Joseph Conrad.
Para quem gosta da monarquia momesca, bom proveito. As “festas particulares” custam R$ 700 ou mais. De brinde, perdigotos enriquecidos com doses variáveis de coronavírus.
Há poucos dias, pensei no passado a partir de uma música que escutei quando criança. Recuar na idade é entrar num mundo imaginário, tempos de cenas plenas de espanto. E a primeira cena que veio à mente, para minha surpresa, foi a do barco no pátio, um barco para grandes viagens. Dentro do barco eu viajei por mares do mundo, mas o barco só aparecia nos dias de chuva. O pátio alagava e a mesa, de ponta cabeça, virava um barco, ficava boiando e se deslocava ao vento sem precisar velas. Eu olhava o barco por horas, ainda que não soubesse o que significava a palavra hora. Gostava de imaginar viagens, era marinheiro, até capitão, vivia aventuras, sem compartir isso com a família ou com os amigos. O barco no pátio, a mesa de cabeça para baixo, num belo dia tomei a decisão de que não precisava mais do barco.
Na verdade, tive outra ideia para aquela mesa, ela foi levada para junto a um muro, o barco voltou a ser não uma mesa, mas um ponto de apoio para subir no muro. O muro nos fundos do pátio fazia divisória com a escola, logo, nos recreios eu podia dar um pulo em casa, era só pular o muro e a aí a mesa servia de apoio. Foram dois anos que fiz isso, pois depois a escola se mudou para longe, eu tendo até que viajar de bonde com várias paradas e muita gente.
O pátio tinha também um galinheiro e eu acompanhava a vida dos pintos, seu crescimento, a vida dos galos e das galinhas. Volta e meia havia brigas, algumas feias, com muito cocorocó, mas ninguém morria, não havia armas. Um dia, no almoço, fiquei sabendo que um pequeno galo que vi crescer de pequeninho tinha sido morto, cozinhado e estava na mesa para o almoço. Ali, naquele dia, começou minha rebeldia, pois não comi nada do pobre galinho. Foi um ato silencioso, mas creio que foi meu primeiro protesto. O galo pequeno não ficou sabendo, mas naquele dia respeitei sua morte, pois eu, vendo os pintos crescerem, nunca desejava que fossem mortos. Ah, faz anos que não como galetos, ou qualquer carne de galinha, e desconfio que essa decisão esteja ligada ao galinheiro desse pátio. Um dia, até escrevi a orelha de um livro de charges sobre as galinhas, feito pelo humorista Máucio, de Santa Maria. Minha primeira frase foi: “Sempre torci pelas galinhas”.
Um dia minha família mudou-se de casa fomos morar num apartamento, e aí perdi o pátio, perdi o galinheiro, a mesa (o que foi feito dela não sei), mas comecei outra vida. Vida de rua, jogos sem fim como futebol, bolinha de gude, brincar de pegar, pião e tantos mais. O pátio ficou no passado, mas agora, ao escrever e trazê-lo para o presente, percebo que foi o maior e melhor pátio que já tive, e foi nele que vivi algumas grandes aventuras. Viajei muito, e meu barco quase afundou nas ondas gigantes dos sete mares. A tripulação do barco foi heroica, sempre lutou com bravura para não afundar, e presto a todos minha homenagem. Escrevendo agora, vi o barco, olhei bem pela janela e lá estava ele, mais uma vez, flutuando livremente.
Às vezes pego o bonde atrasado. Caso das polêmicas que surgiram em torno do youtuber Monark. Não opinei de imediato, mas as reações que se seguiram à defesa que ele fez da criação de um partido nazista no Brasil me incomodaram. Todas se concentraram em um aspecto do nazismo, a saber, o racismo em geral e o antissemitismo em particular. Claro que a dimensão destes preconceitos na construção e desenvolvimento do 3º Reich não foi nada desprezível. Eles, no entanto, são insuficientes para explicar o nazismo e, especialmente, como foi capaz de arrastar boa parte do mundo para a guerra mais sangrenta de que se tem notícia.
Antes de seguir adiante, breves observações sobre Bruno Aiub, o Monark. Não dá para ignorar um cidadão que foi carro-chefe do canal Flow Podcast, com 3,6 milhões de seguidores. Multiplique-se pela capilaridade das redes sociais e se terá uma noção da encrenca. Para não depender das impressões de terceiros, resolvi assistir um programa do youtuber. Experiência intrigante. O rapaz passa o tempo todo provocando, interrompe os interlocutores a toda hora (inviabilizando qualquer diálogo), é incapaz de articular argumentos consistentes (fica numa espuma oca, escorada em clichês, repetidos à exaustão). Seu suposto carisma, bem ao gosto dos tempos bolsonaros, conduz apenas a caminhos diversionistas, sem a menor intenção de amadurecer ideias e refletir sobre a realidade. Vale apenas o histrionismo, a estridência, distrações que alvoroçam os descerebrados. Ouvir Monark é dar razão ao que disse Umberto Eco, em 2015: “As redes sociais dão o direito à palavra a uma legião de imbecis que antes falavam apenas em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade (…) O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”.
Voltando ao nazismo. Com a derrota na Segunda Guerra Mundial, ele assumiu para muitos o status de xingamento ou, na melhor das hipóteses, de patologia, febre maligna, que acometeu povos e nações. Um acontecimento efêmero que seria varrido pela “civilização”. Isolando-o nesses territórios, abre-se mão do imperativo de analisá-lo como fruto da História, das lutas de classes, dos conflitos entre Estados e impérios. Acho muito importante fugir da armadilha idealista e mergulhar no ecossistema sócio-econômico-político que gerou o nacional-socialismo. Só assim seremos capazes de projetá-lo no tempo e avaliar se ele faz sentido nos dias que correm.
O nazismo foi clara e vitalmente nutrido pelo medo ao socialismo. Da revolução bolchevique à Espanha republicana, passando pelas tentativas de revolta na Alemanha e na Hungria e pelo crescimento das lutas sindicais na Europa, o nazismo identificou o inimigo de classe e administrou os interesses da classe dominante. Não à toa, a aliança Alemanha-Japão-Itália foi chamada de Pacto Anti-Komintern. A burguesia alemã, pressionada pelo imperialismo inglês e debilitada pelas consequências da 1ª Guerra Mundial, aliou-se formalmente a Hitler numa conferência realizada em 4 de janeiro de 1933. Empossado na Chancelaria neste mesmo ano, o ex-cabo austríaco iniciou a escalada de repressão contra a esquerda e os “untermenschn” (judeus, portadores de doenças mentais/deficiências e outros), trajetória que desembocaria na 2ª Guerra Mundial. Sei que simplifico bastante, mas a coluna vertebral está aí.
Como acentuou corretamente Roney Cytrynowicz, “o nazismo não era uma ideologia irracional; o nazismo trabalhava, mais que outras ideologias, o componente irracional das pessoas”. O antissemitismo genocida, o racismo irredutível, se enquadravam nesta lógica de criar elementos de unidade no povo alemão, alquebrado pelo desemprego maciço, humilhado pelo Tratado de Versalhes, vasto lumpen assustado com a inquietação social. Nada melhor do que imaginar o inimigo comum, alimentar a farsa do “judeu internacional”, comparado na propaganda oficial a ratos, polir o mito da “raça superior”. Isso foi levado às últimas consequências. Mesmo recuando no front oriental, pressionados pelo Exército Vermelho, os nazistas mobilizaram recursos para acelerar a Solução Final para os judeus. Ainda Cytrynowicz: “Já na invasão da Polônia, em setembro de 1939, estava presente a visão racista, no caso antieslava, pois junto à conquista militar do país, uma das prioridades era exterminar todas as lideranças civis, padres e intelectuais. A Alemanha nazista tinha planos, nunca executados, de castração em massa das populações do Leste europeu e chegou a sequestrar crianças consideradas de tipo ariano para levá-las para a Alemanha”.
No Brasil, calcula-se que existam cerca de 350 células de inspiração nazista. Desconheço se têm alicerce em programas comuns de ação. Tudo indica que não, a organicidade implicaria numa etapa superior de organização que não ficaria invisível. Não há qualquer semelhança das conjunturas interna e externa do Brasil que espelhem os acontecimentos dos anos 20 e 30 na Alemanha. A burguesia brasileira, embora certamente conservadora, não precisa de fumaças nazistas para manter seu poder no país. A conciliação por cima sempre lhe vestiu bem. O socialismo está muito distante de representar a ameaça concreta e imediata que se visualizava na alvorada nazista. Que sentido, portanto, teria um partido nazista no Brasil? Existe racismo e antissemitismo por aqui? Claro que sim, não são nada inocentes e devem ser duramente combatidos. No entanto, racistas e antissemitas não são necessariamente nazistas. Não vejo base material e/ou subjetiva para a criação de um partido nazista no Brasil, com intenções públicas e projeto de poder. O que Monark sugeriu não passa de uma de suas patetices.
Para o Homo sapiens era essencial viver em grupo para sobreviver, daí a horda, o clã, a tribo. Durante milhares de anos o homem não podia ficar só, para não ser presa fácil de qualquer animal carnívoro. Até mesmo os deuses formavam uma sociedade organizada, daí o mundo divino ser politeísta. Já na civilização greco-romana, se alguém fosse excluído dos templos, da pólis, exilado, ele não era mais nada. Sócrates, diante da condenação ao exílio, prefere a morte. Já na Bíblia está a famosa frase “Não é bom que o homem esteja só” (Gênesis 2,18), mas há momentos em que a solidão é obrigatória, como a de Moisés na subida do Monte Sinai e a do profeta Jeremias que devia firmar sua vocação. Portanto, o direito à solidão, existir não só como membro de uma comunidade, é um luxo pois aparece tardiamente na História.
A solidão não deixa ninguém indiferente, tem a ver com todo ser humano, ela é múltipla, pode tanto ser benéfica ou não. Indispensável na criatividade do artista, do cientista, na capacidade de estar só e bem acompanhado de si, como também pode a solidão ser fonte de sofrimentos e desamparos. A solidão envolve como se pensa e se vive, há os que a idealizam, como Nietzsche em “Assim falava Zaratustra”: “Foge, meu amigo, refugia-te na solidão!”. Muito antes Sófocles na Grécia cria personagens solitários heroicos e trágicos como Édipo e Antígona. Nos últimos dois mil anos, pouco mais, há os que descrevem os encantos do retiro dourado, pois desprezam as conversas fúteis. Já Sêneca escreve como se podem conciliar os solitários com a sociedade, e será esse caminho que se abre a uma nova existência.
Para não ser só e sentir-se desamparado, a gente depende das relações amorosas, que nos expõe aos sofrimentos afetivos; mas quando perdemos esses vínculos nos sentimos desamparados. A gente vive entre o tesão e a tensão, entre e as graças e as desgraças de viver. Albert Camus faz tanto o elogio da solidão em sua peça de teatro “Calígula” como a defesa do que tira o homem da solidão, que seria a revolta. Em “O homem revoltado” escreve como, para se revoltar, é preciso substituir o “eu” pelo “nós”, e daí nasce a solidariedade. Há outros caminhos para escapar da solidão, como é o caso das religiões, e da psicologia das massas, que nasce com o século XX.
A Psicanálise é marcada, desde os primórdios, como uma busca de liberdade, da construção de um sentido novo, livre da submissão ao desejo dos outros. Portanto, uma análise leva a uma ampliação do campo da liberdade em que convivem tanto o desencanto como o canto. Nesse sentido, é difícil imaginar uma psicanálise ou algum psicanalista encantado com o autoritarismo. Se for assim, há um descompasso entre o amor, a liberdade e a servidão voluntária.
A experiência da solidão pode ser sofrida, a companhia da gente nem sempre é agradável, mas às vezes também é bom se desentender com os sintomas. Se algum dia eu falar sobre a solidão, contarei minhas experiências solitárias escutando tango sábado à noite. Não por acaso, a música que sempre cantei aos filhos e netos é assim: “Um passarinho me ensinou uma canção feliz/ e quando solitário estou, mais triste do que triste sou./ Recordo que ele me ensinou uma canção que diz:/ Eu passo a vida cantando/ Ai Lili, ai Lili, ai lou/ Por isso sempre contente estou/ o que passou, passou./ O mundo gira depressa, e nessas voltas eu vou/ Cantando a canção tão feliz que diz: Ai Lili, ai Lili, ai lou”.
Enfim é hora de recordar a segunda pergunta de Hilel “Se for apenas por mim, que será de mim?” ou seja: precisamos aprender que o verdadeiro luxo da solidão é a união pela vida, pela construção, aprender a ser por nós, aprender a solidariedade.