Lumumba, África, Congo, Brasil

Lumumba, África, Congo, Brasil

Angola, Congo, Benguela
Monjolo, Cabinda, Mina
Quiloa, Rebolo
Aqui onde estão os homens
Há um grande leilão
Dizem que nele há uma princesa à venda
Que veio junto com seus súditos
Acorrentados num carro de boi

Eu quero ver
Eu quero ver…

Angola, Congo, Benguela
Monjolo, Cabinda, Mina
Quiloa, Rebolo
Aqui onde estão os homens
De um lado cana-de-açúcar
De outro lado, o cafezal
Ao centro, os senhores sentados
Vendo a colheita do algodão branco
Sendo colhido por mãos negras

Eu quero ver
Eu quero ver

Quando Zumbi chegar
O que vai acontecer

Zumbi é o senhor das guerras
Senhor das demandas
Quando Zumbi chega
É Zumbi é quem manda

Era uma aula de História sobre a Conferência de Berlim e a repartição da África pelos europeus. A professora se deteve na ação infame belga no Congo, em 1885, quando o rei Leopoldo II transformou o extenso território em sua propriedade pessoal. Foi nessa mesma aula que ouvi a primeira vez o nome Patrice Lumumba. Hoje essa professora seria defenestrada, rotulada de doutrinadora e comunista, mas o que soube sobre esse homem, sobre seus ideais anti-imperialistas, do pan-africanismo, de uma África unida como continente, passando por cima das questões de etnias, cultura e gênero, nunca mais me esquecê-lo. Ao final, fui saber que foi traído, humilhado, torturado, antes de ser assassinado, visto que não interessava nem a Bélgica, as empresas estrangeiras que operavam extraindo recursos naturais do Congo (que são muitos) e aos EUA, um líder que queria um país democrático, independente e africanista. E sim, apesar de seus pedidos reincidentes por proteção, a ONU lavou as mãos. Da adolescente que fui, o que sinto mais saudade é da crença do “e se”. E se Lumumba tivesse sobrevivido e levado seus ideais a frente, teríamos uma outra África? Um dos desencantos de quando se chega à idade adulta é a certeza de que o “e se”” não existe. É com a realidade e sua crueldade inerente que temos que lidar.

È complexo falar sobre o Congo. Os portugueses, através de Diogo Cão, escudeiro da Casa de D. João II, de Portugal, fizeram duas grandes expedições na costa sudoeste africana, na busca do Cabo Da Boa Esperança. Tanto que ao chegar ao Rio Zaire, em 1482, acreditou ter alcançado o que almejava. Essa empreitada quem conseguiu foi Bartolomeu Dias, mas coube ao navegador estabelecer relações com o Reino que lá encontrou. O Congo era um reino forte, estruturado, cuja chefia maior cabia ao Mani Congo. Era um território extenso, que hoje corresponderia a Angola (incluindo Cabinda), República do Congo, Gabão e República Democrática do Congo.

A relação dos portugueses com o Reino do Congo é uma história longa e complexa, que envolve cristianização, lutas fratricidas e uma batalha luso-congolesa, em 1665, a de Ambuila, movida pelo interesse dos portugueses em controlar uma passagem para cobiçadas minas de ouro e de prata. O saldo: Milhares de congoleses mortos, entre eles muitos nobres, e o rei congolês Antônio I teve sua cabeça cortada e enterrada em Luanda, enquanto sua coroa e cetro, emblemas reais, foram mandados a Lisboa como troféus.

Invadir a África e se apossar dela naqueles tempos era uma missão totalmente impossível. Por motivos geográficos, o destino da África foi o de viver atrás das barreiras das suas costas. Rios caudalosos de cursos desconcertantes, montanhas fenomenais, selvas misteriosas, extensos desertos, atribuem ao continente africano uma fisiografia hostil e, ouso dizer, fantástica. Sempre que leio os versos de Pessoa: “Eu, Diogo Cão, Navegador, deixei este padrão ao pé do areial moreno. E para diante naveguei”, que foi o marco da chegada dos lusitanos ao Cabo da Cruz (atual Namíbia), esse navegador que introduziu padrões pedra , em lugar de cruz de madeira, em torno de 3 metros e meio de altura, com o brasão português e a cruz marcando a reclamação de posse do território para Portugal, não lembro de poesia, nem da Mensagem, nem dos Lusíadas e sim da imagem que vi há anos captada por um cinegrafista da Nathional Geographic, na Costa do Esqueleto .região ao sul da Angola, na Namíbia, onde o deserto de mais de 50 quilômetros encontra o oceano. Um leão desorientado, pelo tempo da caminhada, se fartando ao chegar no mar devorando uma baleia encalhada. Uma baleia. Essa imagem me valeu mais que o Kilimanjaro, Hemingway que me perdoe.

Pelas dificuldades de invasão do interior do continente, o europeu se dispôs a colonizar a América primeiro e fazer da costa africana um ponto lucrativo de marfim, ouro e, em especial, negros. E aqui voltamos ao Brasil. Temos, segundo Pierre Verger, ciclos distintos. O primeiro, século XVI, o de Guiné. De diversas regiões da África, calcula-se que tenham entrado no país cerca de 20000 escravos. Já no século XVII, temos o de Angola e do Congo. Esse registrou a entrada de 205150 negros no país. Agora chegamos à historinha de carochinha do Sergio Camargo. O Reino do Congo tinha escravos? Sim, tinha. Uma outra tipologia. O Congo era um reino em expansão, com registro de guerras frequentes e havia sim uma população cativa. Não vou me ater ao tráfico de escravos, muito menos vou entrar na catimba de que os europeus não inventaram a escravidão porque os próprios africanos a faziam, porque quem lê meus textos tem o mínimo de conhecimento de que o trabalho compulsório existe desde a pré-história, de que no frigir dos ovos ele vai só variando suas formas ao longo do tempo. Ah Céu, está dizendo que servos da gleba e escravos são a mesma coisa. Não. Se não quiser reler Aristóteles eu trago mastigadinho: Servos e escravos passaram por situações terrivelmente opressivas. A diferença é que o escravo é A MERCADORIA. A originalidade no escravismo é que se institucionalizou em larga escala esse trabalho nas cidades e nos campos. Gregos e romanos foram os pioneiros na propulsão da escravidão como força de trabalho devidamente institucionalizada. Um sistema legitimado por leis, normas, justificações morais, E a Idade Moderna vai buscar no Direito Romano códigos aplicáveis a escravidão em larga escala. Os europeus que povoaram o Novo Mundo com escravos importados da África já tinham um sistema legal pronto, que adotaram quase em sua totalidade, alternando-os numa lentidão de lesma para se adaptar a condições novas.

E assim, na base da lei, entre 1502 e 1860, mais de nove milhões de escravos foram transportados para as Américas, figurando o Brasil como seu maior importador. Apesar de etnias diversas, o que se convencionou chamar de Reino do Congo, trazia uma característica: eram chamados de bantos porque é a palavra que designava o tronco linguístico do amplo leque de idiomas falado na África Central. Seus descendentes estão espalhados por todo o Brasil, do nordeste ao sudeste. Deve-se ao povo banto a criação das Irmandades do Rosário (mas aí já é outra história)

Saindo dessa história triste, porém nossa, volto a falar da República Democrática do Congo. E essa foi a segunda vez que ouvi falar em Lumumba. Quando Éramos Reis, meados dos anos 90, Estação Botafogo. Documentário de Leon Gast sobre a maior luta de boxe da história. Em 1974, Ali recém saído da prisão, por ter se recusado a lutar na Guerra do Vietnã, aos 32 anos e George Foreman, jovem, dono do Cinturão, na melhor forma, estavam no mesmo ringue. No Zaire (atual RDC) Ideia do controverso Don King, a luta foi bancada pelo ditador Mobutu Seso-Keko. O traidor que tomou o poder e nele ficou por décadas, acumulando muito dinheiro e assassinando por esporte. Leon Gast foi para registrar os momentos da luta e o dia a dia dos lutadores, mas o funcionário que pagaria pela montagem do filme, de Mobutu, diga-se de passagem, acabou sendo assassinado. Então com as imagens arquivadas e só conseguindo montar mais de vinte anos depois, eis o melhor filme da minha vida. Porque pessoas que estavam presentes ao evento como Norman Mailer, figuras que explicam todo o contexto racial daquele tempo, como Spike Lee, estão ali a comentar a importância dessa luta. Além disso, houve um festival de música enlouquecedor, com artistas negros, dando uma ideia da música voltando para sua verdadeira casa. É impossível não chorar ao som de BB King ou vibrar quando James Brown faz suas coreografias alucinadas e é acompanhado por danças tribais dos participantes. E a torcida dos congoleses por Ali, que representava a verdade, a negritude, o orgulho de sua história. Nada mais vou falar porque senão é spoiler que não acaba mais. Só para terminar, estava folheando um livro antigo cujo prefácio era do Gilberto Freyre. E ele dizia que os portugueses preferiam os bantos pela docilidade, sem se lembrar que O Quilombo dos Palmares foi formado por eles. Ganga Zumba e Zumbi eram congoleses. Moise querido, eu confio no senhor das demandas. Nós não iremos esquecer. Era só isso mesmo. Quanto ao Sergio Camargo, fica a resposta: VAGABUNDO É O CARALHO.

Bahia de São Salvador, 12 de fevereiro de 2022

 

Uma psicanalista revolucionária

Uma psicanalista revolucionária

No distante ano de 1936, a médica Marie Langer, estava em análise com o psicanalista Richard Sterba em Viena. Ao mesmo tempo, era uma militante comunista como tantos jovens à época, e numa manifestação política, Marie é presa. Na prisão conhece Max Langer, médico cirurgião, que a convida a se associar à legião dos médicos ingleses no apoio à República Espanhola. A guerra civil foi vivida como a oportunidade de interromper a ascensão do fascismo na Europa. A decisão arriscada do casal Langer foi um ato que salvou a vida deles, como disse Marie: “No melhor dos casos, me poupou de ter que fugir dois anos depois como judia perseguida pelos nazis. Pude abandonar minha pátria voluntariamente, salvando minha autoestima”. Em seu livro de memórias ainda escreveu: “Tinha muito medo de morrer, e se estou aqui é porque não fui nem a melhor nem a mais heroica”. Marie Langer foi uma mulher apaixonada pela justiça social, pelo feminismo e a psicanálise.
Em 1938, em função do crescimento do nazismo, emigra para o Uruguai, e em 1942 vai viver em Buenos Aires, onde com mais quatro psicanalistas formam a APA (Associación Psicoanalítica Argentina). Durante 29 anos desenvolve uma intensa vida institucional, chegando a ser presidente da sua instituição. Era considerada uma clínica com uma escuta sensível, e sua velocidade de raciocínio se pode perceber num diálogo que teve em Cuba com Fidel Castro:
FC: “Asi que tú eres la famosa psicoanalista vienesa prima de Freud, supongo”. Mimi (como também era conhecida) esclarece que, sim, nasceu em Viena, mas não era prima de Freud.
FC: Dime como se hace strudel de manzanas, com levadura o sin levadura?
Mimi começa a responder e de repente diz algo assim:
ML: “Comandante, yo tengo admiración por usted, pero soy esencialmente una mujer feminista y usted me está haciendo cocinar”.
Nasceu em 1910 na cidade de Viena em uma família judia assimilada, e muito cedo decidiu estudar na universidade, contrariando sua mãe, que sonhava para ela só um casamento. Lutou para ingressar numa escola que era feminista e marxista, na qual os filhos de ricos pagavam muito e os pobres não precisavam pagar. Na década de 1930, os nazistas fecharam essa escola e Marie Langer, já na sua maturidade, entendeu o quanto deveu sua formação a essa escola. Ingressou na faculdade de medicina aos 19 anos já casada, o que era inédito na Viena daquela época.
Aliás, sempre foi pioneira, como o fato de seu livro mais importante ter sido “Maternidad y sexo”, editado em 1952, antes do livro “Segundo sexo”, de Simone de Beauvoir. Em 1971, após 29 anos na APA, integra o grupo de esquerda Plataforma, que critica a atitude de neutralidade política da Associação Psicanalítica Internacional e dezenas de psicanalistas argentinos renunciam. Em 1972, formam o Centro de Docencia e Investigación, ligado à Coordinadora de Trabajadores en Salud Mental, à qual me integrei ao chegar à capital portenha.
No final de janeiro de 1974, entrevistei a Dra. Langer junto com o Marcos Faermann e a Marilza Tafarell, onde conheci uma mulher entusiasmada pela vida. Alguns meses depois, Marie Langer teve que deixar a cidade de Buenos Aires, no seu terceiro exílio, pois constava numa lista de ameaçados de vida por uma organização de extrema direita, a triple “A”, de ameaçados de morte. Viajou para o México e logo se integrou tanto a instituições psicanalíticas como liderou um importante trabalho de Saúde mental na Nicarágua Sandinista.
Morreu em 1987, vítima de um câncer, e numa das homenagens a ela, a sua filha Verônica selecionou algumas de suas frases cotidianas: “O que serve está na cabeça. Os bens podem desaparecer, o que está na cabeça, não”. “Não se economiza em educação e nos livros”. “Viver intensamente como colher cogumelos na chuva, banhar-se no mar”, logo diante do ditado em que os argentinos dizem que “la vida es corta e jodida”, Mimi dizia que “la vida es larga y feliz”.
O som ao redor

O som ao redor

Quando o apito/da fábrica de tecidos/vem ferir os meus ouvidos (Três apitos, Noel Rosa)

Meio-dia. O longo apito não falhava. Hora do almoço para os operários da fábrica da Brahma, que ocupava uma grande área nas imediações do rio Maracanã. Uma vez por semana, minha mãe aguardava aquele sinal sonoro, aproveitava o intervalo na jornada de trabalho e ia para o portão principal da fábrica receber sobras de levedo de cerveja. Na época, era um suplemento vitamínico popular e a mãe judia, preocupada com o aspecto tísico do Menino, reforçava as defesas do pequeno. Na batalha por um aspecto mais aceitável para os muito rigorosos padrões estéticos familiares. Sempre detestei cerveja, só bebo, pouquíssimo, nas chamadas ocasiões sociais. Associação inconsciente com aquela gororoba vitamínica? Será que alguém renunciou a um bolinho de bacalhau por ter tomado Emulsão de Scott na infância?

Associo o apito da Brahma com outros ruídos no meu painel afetivo-sonoro. A caminhonete do ferro-velho, ela mesma candidata a virar sucata. O carro da pamonha, quentinha! Os berros do garrafeiro português, empurrando o burro sem rabo e tamanqueando no chão duro. O trac-trac da matraca do baleiro, que vendia longos pirulitos cônicos de açúcar queimado e biscoitos de casquinha. Os gols comemorados na linha de passe. Eram ligeiras, quase gentis, quebras no silêncio dos dias.  A cidade parecia permitir o isolamento de quem precisava viajar para dentro de si.

Durante a fase mais dura da pandemia, comércio fechado, pessoas trancadas em casa, ganhamos de presente o silêncio, que jazia em fase terminal na cidade enlouquecida. Reaprendemos a olhar árvores e ouvir sinfonias do passaredo. À noite, foi possível curtir Erik Satie sem a interferência etílico-neurótica dos bebuns na esquina. Sei, sei, o custo disso foi alto. Medo da peste, isolamento dos amigos e familiares, insegurança sobre o futuro. No entanto, por um breve período, tive a dimensão do que se perde na convivência forçada com certos barulhos. Os de bares, por exemplo.

No Rio, os bares voltaram ao batente. São vistos pela mitologia urbana como símbolo da carioquice. Alegres, descontraídos, convidativos. Em nome dessas virtudes, espalham terror nas áreas densamente habitadas onde funcionam. Ninguém pretende que os frequentadores se comuniquem por sussurros. No entanto, a aglomeração, obrigatória, favorece uma elevação descontrolada de decibéis, abastecida por quantidades industriais de álcool. O resultado, para a vizinhança, é o Inferno de Dante. Ah, mas é em nome da carioquice, da extroversão de um povo que se diverte e gosta de bater papo! Será a mesma que levou ao trucidamento do congolês Moïse Mugenyi Kabagambe? Existirá mesmo uma carioquice? Adiante.

Para piorar a situação, gravita em torno das mesas festivas toda sorte de “músicos”, em geral medíocres sopradores de trombone, espancadores de pandeiros, assassinos de atabaques, violões e repertórios. Não respeitam volumes e horários. Sem qualquer limite, já começam a amplificar sua obra corrosiva com caixas de som obscenas. Os bares, claro, preferem fingir que nada está acontecendo. Se o faturamento vai bem, nada mais interessa. São sócios do caos. Vizinhos? Ora direis, para que pensar nos vizinhos? Em nome da carioquice. Sei.

No dia 13 de outubro de 1985, foi publicada a crônica A extraordinária musicalidade do povo brasileiro, do João Ubaldo Ribeiro. Com a tradicional ironia cortante, Ubaldo rogava todas as pragas contra os que violentavam a paz e o silêncio em lugares que pediam moderação e introspecção. Chegou a mudar de emprego por não suportar um carro de som que lhe atazanava, diariamente, o juízo. Ao final, perguntava: “Qual será a pena para quem for pegado destruindo caixas de som a tiros de rifle?”. Não vou, claro, pegar em armas, nem convocar uma cruzada contra a metástase barista. No entanto, posso me juntar ao ectoplama do itaparicano e inventar diariamente pragas pesadas e impublicáveis contra os estupradores de silêncios em lugares públicos. Crime de lesa-sensibilidade.

Ao reivindicar um pouco de sossego, posso estar sendo radical. Há artigos que vão se tornando naturalmente obsoletos. Quem ainda manda cartões postais? Ou leva radinho de pilha para o Maracanã? Existirá alguém que ainda tome as Pílulas de Vida do dr. Ross? Algum peladeiro insiste em passar sebo na sua bola de couro? Bem, é possível que paz e silêncio na cidade já estejam na categoria de animais em fase acelerada de extinção. Talvez o que reste a fazer seja repetir Bandeira: tocar um tango argentino. Bem baixinho. Para não cair em contradição.

Abraço. E coragem.

Dia dois de fevereiro

Dia dois de fevereiro

Cada dia tem sua luz, cada dia ocorrem novas histórias, os dias não são iguais sabem as crianças. Quando tudo parece igual, repetitivo, tedioso, há uma música tristonha tocando. Há, como escreveu o poeta, a eterna novidade do mundo, há o espanto de ver as formigas trabalhando, as alegrias das árvores, as brincadeiras cotidianas. Hoje é dia de festejar o dois de fevereiro, dia de festa no ar e no mar.
Uma das músicas que mais escutei na adolescência começa assim: “Dia dois de fevereiro, dia de festa no mar, eu quero ser o primeiro a saudar Iemanjá”, de Dorival Caymmi. Alguns anos antes, ainda guri, ia com meu pai, cedinho da manhã, todo dia dois de fevereiro, caminhar na praia de Tramandaí. Íamos ver os grupos vestidos de branco em roda cantando e fazendo oferendas a Iemanjá. E também foi num dia dois de fevereiro do distante ano de 1979 que retornei de Buenos Aires para Porto Alegre após sete anos de vida portenha. Fui só para a famosa capital dos “hermanos” e voltei casado e com a primeira filha. Na chegada ao velho aeroporto, uma surpresa inesquecível foi a presença do Carlinhos Zaslavski, amigo da faculdade que veio nos receber.
A querida Tia Maria, a mais culta das suas irmãs, disse que antes de voltar à cidade natal eu havia mandado a sorte na frente. Gostei da frase otimista, dessa que foi uma das tias que abriram as portas de sua casa, do seu coração. Uma conversa com ela sempre era boa, e até hoje tenho um quadro que ela bordou de uma mulher na janela que era ela.
Todo dia dois de fevereiro recordo Iemanjá e minha volta à cidade onde nasci. Entretanto, os primeiros anos de Porto Alegre foram difíceis, pois compará-la com Buenos Aires era deprimente, além do que me sentia um estranho no ninho. Perdido, tinha perdido os amigos argentinos e os daqui, pois não consegui restabelecer as amizades do passado, sete anos nos haviam mudado. Era um estranho, e ser estranho tem suas vantagens, dá uma visão diferente de tudo, e esse é talvez um dos motivos por que gosto da psicanálise. Pensar o inconsciente é se conectar a um mundo estranho, um mundo que aparece através dos sonhos, dos enganos e das piadas. Além do que, cada um pode perceber o quanto há de estranho na vida, o quanto a gente se conhece, mas também se desconhece. Nada na Terra é tão estranho como o ser humano, criativo e destrutivo, capaz tanto de cuidar como de destruir.
Dia dois de fevereiro, dia de festa no mar, também revela nosso passado, pois esse orixá é o nome de um rio na Nigéria. Foram os antepassados negros que trouxeram para o Brasil nomes como Oxum, Iemanjá, a música, as danças, o ritmo. Mais da metade de nossa população é de origem negra, há toda uma cultura, uma vida que ainda é pouco conhecida e valorizada. Este é um país que sempre tratou mal os negros, índios e pobres, reproduzindo a velha Casa Grande e a Senzala.
Já no dia dois de fevereiro de 1922, há cem anos, era lançado o livro “Ulisses”, principal obra de James Joyce. Esse dia foi escolhido pela editora Silvia Beach porque o escritor completava quarenta anos. “Ulisses” revolucionou o romance moderno, pelos jogos de linguagem, fluxo de consciência, monólogo interior, influência de Freud. Os personagens centrais são: Molly Bloom, esposa do herói, corresponde a Penélope da Odisseia, Stephen Dedalus corresponde a Telêmaco, e Leopold Bloom, que corresponde a Ulisses de Homero. O mundo labiríntico está nessa obra e mais ainda em “Finnegans Wake” (tradução ao português do nosso Donaldo Schüler, que dirigiu um grupo, do qual fiz parte, que estudou anos esse livro).
Dia dois de fevereiro, dia de festa no mar, eu quero ser o primeiro a saudar Iemanjá, saudar Joyce, e saudar neste ano de 2022 o desejo da volta do melhor Brasil. Não sei, mas, se não ocorrer algum golpe baixo, como em 2018, o nosso país voltará a ser da maioria do povo brasileiro… pelo menos por um tempo.
Pequenas memórias

Pequenas memórias

Leo Aversa é dos bons cronistas da nova geração. Dois de seus últimos textos falam de perdas dolorosas. Em ambos, Leo não se deixa dominar pela melancolia. No desta semana, dialoga com uma mãe traumatizada pela perda de um filho num acidente. Ele, como eu, acredita no poder de certas memórias para aliviar a ausência definitiva, elaborar o luto necessário, superar, parcialmente que seja, o corte. Não são as lembranças de datas protocolares, registradas em fotos idem. São os pequenos gestos, o encanto inesperado, o cafuné na hora certa.

Quando quero lembrar da família original, faço um grande esforço. Com raras exceções, ela era parcimoniosa no riso. Esta seriedade deixou marcas. Em dois momentos especiais, no entanto, encontramo-nos no afeto e na muda compreensão dos nossos olhares. A Tia Sorridente tinha uma pequena estante repleta de livros. Quando a visitava, eu flertava com aquelas lombadas coloridas, onde reinavam Narizinho e meus sonhos. Pois ela, alma leve, me abriu a porta daquele móvel antigo e permitiu que levasse tudo o que quisesse, sem prazo para devolver. Mergulhei no paraíso lobatiano e até hoje tento reencontrar a mesma sensação.

Meu pai e meu tio foram sócios de uma pequena loja de móveis em Angra dos Reis, quando ali era pouco mais do que uma colônia de pescadores. Ambos viajavam para lá mensalmente, numa rodovia acidentada. Certa vez, eu e um primo acompanhamos nossos pais. Tinha chovido muito, a estrada ficou interrompida por uma barreira e voltamos para o Rio. O jeito era ir até Mangaratiba e lá pegar um barco até Angra. Nessa volta, saí completamente da rotina. Dormi na casa dos tios num estado de tal excitação que parecia flutuar na cama. Dia seguinte, embarcamos em Mangaratiba. O mar estava agitado, como se quisesse abraçar-me do seu jeito. O barco sacolejava, vi gente pálida, verde, assustada. Fechei os olhos, vesti-me da coragem de intrépido pirata. Sorri, imaginei mãos dadas com adultos sisudos que, por breve e líquido momento, também sorriam. O Menino que desembarcou em Angra já não era eu.

Entre os prejudicados pela pandemia, tenho especial sintonia com o drama de uma geração de estudantes forçada a ter aulas à distância por dois anos e privada do contato com amigos e familiares. Impossível contabilizar o estrago afetivo e de desenvolvimento emocional. As memórias que criam redes de sustentação psicológica, encurtadas pelo estreitamento das fronteiras cotidianas, não saem ilesas de toda essa encrenca. De qualquer forma, algo se cria. Capenga, parcial, um tanto empobrecido. Logo no início da pandemia, todos trancados dentro de casa por meses, meu neto mais novo, tiquinho de gente, pegou um banquinho, subiu nele e, próximo à janela, disse que queria “ver a cidade”. Para ele, os galhos das árvores, os telhados das casas, o movimento de carros e gente, eram “a cidade” possível. O “mundo” em miniatura.

Quando a situação permitiu, com duas doses de vacina no braço, fomos buscá-lo na escola. Sem avisar. Ao sair, de máscara, como nós, levou um tempo para perceber quem éramos. Finalmente reconhecidos, foi literalmente uma explosão. O alvoroço da bemquerença. Correu em nossa direção, abraçou, tentacular, nossos joelhos, falou para o pessoal da escola “meus avós!” e saiu correndo pela calçada, indo e voltando. Tinha muitas formas de expressar o sentimento represado por tanto tempo. A “cidade” se materializava ali, se completava, e, suspeito, se transformava num fiapo de memória que não desaparecerá.

O neto mais velho não mora no Rio. Sei que também sofreu as consequências do isolamento, início de adolescência é pedreira. De que se lembrará ao pensar no avô? Houve um momento especial, e aconteceu já na cidade onde mora hoje. Antes da pandemia, visitávamos a família e ele me pediu que fossemos a um lugar para comer um cachorro-quente “especial”. Fomos. No caminho, abraçados, abriu um enorme sorriso e disse que aquele “era o dia mais feliz da minha vida”. Vejam vocês o poder sedutor de uma salsicha! Comeu o sanduíche como quem devora um banquete pantagruélico. Voltamos merecidamente satisfeitos.

Fragmentos antigos e nem tanto, que me dão forma e aproximam de quem quero. Apagam sombras e ajudam a dar sentidos para a vida.

Abraço. E coragem.

Fecundando histórias

Fecundando histórias

Me deixou com os braços pendurados no ar, abraço implodido. Foi direto para minha poltrona predileta, ajeitou-se como imperatriz solene e apontou-me o sofá ao lado. Senta aí, vovô. Resignado, fui ouvir o que a neta querida tinha para trocarmos. Sim, gostamos de trocar, tricotar sensações, medir humores, contar novidades. Naquele dia, veio armada com folhas em branco e uma pasta amarela que parecia vazia. Leitora voraz desde cedo, ela já ensaia suas próprias histórias.

Com voz afetuosa, mas firme, ordenou: me dê uma ideia para escrever um livro. Surpreso, ela mesma é uma usina permanente de boas ideias, tentei entender. Escute lá, se você quer mesmo escrever um livro, a ideia tem que ser sua. Senão, não vai ter a menor graça. Não se perturbou. Então, vamos combinar o seguinte. Eu escrevo, mas você faz os desenhos. Eu, um ilustrador! Tudo bem, sempre rabisquei umas coisinhas, mas daí a dar forma gráfica a personagens e situações…

Aos poucos, fui percebendo, maravilhado, o bastidor daquela conversa. Minha pequena está apaixonada pelo jeito com que se transformam palavras em páginas impressas, com capa expressiva e, sobretudo, o nome do escritor bem destacado. Ela está ansiosa para ser sócia deste clube. Mas tem que ser “livro de verdade”, não servem versões espiraladas. Encontrar alguém que, tão precocemente, demonstra curiosidade pelo processo de produção de um livro, candidatando-se ao vício permanente da leitura, não é fácil.

Que tempo viverá minha neta para usar seu claro talento literário? Como em qualquer época, haverá assombros e chiliques, fantasias e pesadelos. Agora mesmo, estamos testemunhando o nascimento de uma era revolucionária na medicina. Um homem acaba de receber um coração de porco, depois de uma recauchutagem inédita no órgão do animal. Até aqui, tudo está correndo bem, o receptor ainda não grunhiu, nem pediu para mergulhar no lamaçal da esquina ou fazer figuração num desenho da Pepa. Trata-se de mais uma importante ajuda suína à saúde humana. Válvulas cardíacas de porcos há muito habitam corações danificados de homens apaixonados. Insulina proveniente de pâncreas suíno é a mais semelhante à produzida pelo corpo humano. Pele de porco tem sido usada como enxerto em pacientes queimados.

Essa proximidade benigna com nossos irmãos de quatro patas questiona a imagem que fazemos deles. Quando queremos dizer que algum aparelho, por exemplo, é de má qualidade, como o chamamos? Bela porcaria! Injustiça número um. Se uma pessoa, pelo simples prazer de contrariar, contesta tudo, como a chamamos? Espírito de porco! Injustiça número dois. Quem George Orwell usou para metaforizar tendências totalitárias na Revolução dos bichos? Os porcos! Injustiça número três.

Você, minha neta, poderá viajar muito para ouvir as histórias que o humano profundo guarda em lugares improváveis. Certa vez, mochila nas costas e grana pouca no bolso, fui indo até a fronteira de Pernambuco com a Bahia. Era o rio São Francisco. De um lado, Petrolina, do outro, Juazeiro. Andei, andei, infelizmente pouco conversei. A gente que circulava por lá devia me achar meio esquisito, um riponga fora de lugar. Fotografei tudo nas retinas, mas faltou conversa. Talvez algum dia, querida neta, você descubra que a viagem principal é aquela que a gente faz para dentro de si. Nessa aí se aprende a respeitar silêncios e a contar com a poesia para desvendar os mistérios que importam.

Jamais se preocupe com cobranças excessivas. Se a sua maneira de estar no mundo for, sobretudo, através da palavra, apenas obedeça este dom. O universo conspirará a teu favor. Existiu, nos Estados Unidos, um grande artista popular. Ele se chamava Woody Guthrie e deixou uma obra que vale a pena conhecer. Num de seus poemas, ele reflete sobre os rumos da vida. Alguns pedaços (sem tradução): Well I’m gonna work in this world/The best I can if I can/I’m gonna clean up this world/The best I can if I can/I am gonna talk in this world/The best I can if I can. Siga a trilha do velho Woody.

Enquanto ainda estamos aqui, nessa mui desleal cidade de São Sebastião (copyright Antônio Maria, um pernambucano cardisplicente que um dia você ainda vai conhecer), fique à vontade. Compartilho minha poltrona predileta, meus achados desimportantes, meu espírito que está avariado mas, garanto, não é de porco.

Abraço. E coragem.