Dois iortsaitn

Dois iortsaitn

Dedico esta crônica ao homem que não largou a mão da filha de 15 anos, mesmo depois de morta no grande terremoto que devastou Turquia e Síria.

Seu Salomão nasceu na Ucrânia profunda, ali onde Judas perdeu as botas e quase morreu de frio. Grande observador das coisas e gentes do seu tempo, criou uma obra, sempre escrita em ídish, que acabou ultrapassando a fronteira estreita das massas judaicas da Europa Oriental. Suas histórias eram lidas com grande interesse em círculos operários e ambientes populares. Com o tempo, começou a ser conhecido como o Mark Twain judeu.

Em 1906, mudou-se para os Estados Unidos e morou em New York. Ao morrer, em maio de 1916, seu funeral foi acompanhado no Bronx por uma enorme multidão. Falou-se em 250 mil pessoas. Salomão Rabinovitch, que adotou o pseudônimo de Scholem Aleichem (A paz esteja convosco), deixou um belíssimo testamento, publicado na íntegra pelo New York Times de 17 de maio de 1916.

Um dos dez itens do documento se refere à forma como ele gostaria de ser lembrado em cada iortsait (aniversário de falecimento). Dispensava honrarias e o Kadish, a oração dos Mortos. Preferia que aqueles que se reunissem para homenageá-lo escolhessem um de seus contos, de preferência entre os mais engraçados, e o lessem em voz alta. No idioma que lhes fosse mais confortável. Era melhor, dizia, ser lembrado com um sorriso. Posso entender. Conheceu a pobreza, a precariedade da vida no shtetl, o antissemitismo, os rostos endurecidos pela vida levada no fio da navalha. Queria violar a corrente de angústia e encontrou no humor uma ferramenta preciosa. Bel Kaufman, neta de Scholem Aleichem, diria, muitos anos depois da morte do avô, que “rir é resistir”.

Tive o privilégio de ler pequena parte da obra de Scholem Aleichem no original. Meu sogro, o jornalista David Markus, tinha domínio pleno do ídish e, através dos volumes de capa azul das Obras Selecionadas (Oisgueveilte Verke) do seu Salomão, me introduziu à cidade fictícia de Kasrilevque, a Menahem Mendl e sua esposa Sheine Shendl, a Tevie, o leiteiro, aos tipos que, com seus dramas e esperanças, vestiam e criavam uma tradição cultural/existencial riquíssima. Eram memoráveis as risadas que o David dava ao reler aquelas histórias, que, a rigor, faziam parte de sua própria trajetória de vida. Mesmo de forma bem modesta, incorporei esta herança.

Há pouco menos de duas semanas, lembrei o 28º iortsait da dona Lilia. Vivesse num mundo ideal e dela só lembraria os poucos colos e levezas. Tudo, no entanto, aconteceu como no trecho de uma letra do Ivan Lins. Seria necessário perdoar a cara amarrada, a falta de abraço, a falta de espaço, a falta de ar. Os dias foram assim. O silêncio, quando carecia o verbo. A porta fechada, quando o sinal implorava o verde. A distância, quando o toque dissolveria rancores. A casa cheia de portas fechadas que somos, como bem disse o escritor luso António Lobo Antunes, expandiu-se. Nenhum de nós saiu ileso disso, e, francamente, não merece celebração.

No entanto, embora não se possa mudar o passado, é possível entendê-lo com mais sutilezas, mais complexidade. Dona Lilia tomou muita pancada, literal e metaforicamente. De tiranos, de carne, osso e intolerâncias, e fantasmas. Essa foi sua escola e dela acabou prisioneira. Marcas no corpo e na alma. Aí, aconteceu um pulo do gato. Para libertar-se, concluiu uma faculdade e, desafiando o marido machista, entrou no mercado de trabalho. Enviuvou e, com o salário, garantiu sustento ao casal de filhos, que puderam estudar sem preocupações materiais. Essa mulher corajosa, sim, eu posso e devo homenagear.

Neste iortsait, repeti o exercício anual poetisado pelo Ivan Lins. Quando largar a mágoa, quando lavar a alma, quando lavar a água, posso também lavar meus olhos.

Dona Lilia Gruman. Minha mãe.

Abraço. E coragem.

Não anunciem a piada

Não anunciem a piada

“Eu não gosto de piada, não gosto que me contem piada”, disse o humorista Luiz Fernando Guimarães numa das entrevistas que deu ao Jô Soares. O Jô ficou surpreso, o público também, e os telespectadores, como eu, idem. Disse e ficou quieto, e o Jô, espantado, perguntou o porquê, e ele explicou que não conseguia rir de uma piada. Fica tenso quando alguém anuncia que irá contar uma piada, pois pode não achar graça. Essa entrevista me ajudou a pensar o tema do humor, da piada que vinha estudando e escrevendo. Quem define o que é uma piada? Quem conta sempre, mas na verdade quem define e quem escuta, pois se não entender como piada, não ri e não é piada. Por isso insisto que contém estória e se o público rir é piada como ocorre na interpretação ou pontuação, é o analisando quem define ao se sentir tocado pela palavra do analista ou a sua própria. Recebi uma lição do Luiz Fernando, e agora a partir de uma entrevista recente no Roda Viva, vi ele mais velho, mais sábio no seu livro recém lançado.
A história da piada não consta do livro autobiográfico “Eu sou uma série de 11 capítulos”, que indico aos depressivos e aos alegres, aos leitores mais sofisticados e aos simples e até aos que não gostam de ler. Autoajuda de verdade unida a conhecimento do ser humano. O livro é todo entremeado com depoimentos de amigas e amigos. Fernanda Torres faz o prefácio e conclui: “Eu amo, idolatro e venero o Luiz”. Regina Casé foi quem descobriu ele ao incluí-lo no Asdrúbal Trouxe o Trombone, em 1974 e só dele caminhar numa sala, disse, ao vê-lo: “É um gênio!”. Integrou o grupo TV Pirata que mudou o humor televisivo, fez filmes como “O que é isso companheiro?” no papel de motorista do carro que sequestrou o embaixador americano em 1969. Fez diversas séries como “Os Normais” com Fernanda Torres e depois fez dupla com Pedro Cardoso no Fantástico. Muitas peças de teatro, filmes, é ator há meio século.
No seu livro descreve sua mãe Yara como uma professora da vida. Esclarece que nunca saiu do armário, porque não entrou, sempre se viu como gay. Teve vários parceiros, alguns de longa duração, até conhecer o Adriano, há 25 anos. Há pouco tempo, adotaram duas crianças, são irmãos da Amazônia, são os pais afetivos. Um apaixonado por gente, daí amizades incríveis com Fernanda Montenegro, que adora telefonar para conversar com ele. Foi muito viciado em drogas, em especial no álcool, e chegou a ser internado, pois, como escreve, “nem tudo são flores”. Na internação ficou poucos dias e saiu, seguiu bebendo, mas se assustou com o que viu e mudou de terapeuta. Finalmente, conseguiu dominar o vício, parou com as bebedeiras.
Jô Soares e Miguel Falabella estão entre os amigos que escrevem depoimentos, assim como Gregório Duvivier com quem já trabalhou. Apaixonado por cães, hoje tem quinze num sítio que define como um paraíso. Festeiro, deu festas para cem, duzentas pessoas, é um acumulador de amigos. “Eles vão chegando e vão ficando. Gosto de conhecer novas pessoas.” Mais adiante: “A festa está dentro de nós, a solidão também”. Depoimento de Evandro Mesquita: “Com ele, o jogo fica bom, o frescobol teatral, ninguém vence, mas todos ganham!”. Escreve: “Não sou político…Pessoalmente, acho um horror a humanidade hoje em dia… mas não perco a fé na humanidade, não”. Luiz faz humor, não faz a guerra, é um ator de uma qualidade rara, aplaudido por todos públicos, amado por artistas, diretores, críticos. É uma unanimidade, nacional-menos os fanáticos-mas é de gente como ele que precisamos aqui e no mundo.
Coçando o invisível

Coçando o invisível

Eu sofro de mimfobia/Tenho medo de mim mesmo/Mas me enfrento todo dia. (Millôr Fernandes)

Naquele calorão de derreter concreto, quem pensaria em crise? Pois a caminhada na orla de Copacabana, banhada em suores torrenciais, foi interrompida por um folheto que prometia solução para A Crise. Assim mesmo, com iniciais em maiúsculo, para assustar ainda mais o distinto público. O papelzinho, oferecido por uma mocinha sorridente e patrocinado por uma igreja missionária, faz uma lista detalhada dos grandes problemas que nos atormentam. Como sempre acontece nestes casos, a solução proposta é simples. Basta seguir Cristo.

Longe de mim ridicularizar quem acredita nessa receita. Naquele momento, no entanto, minha maior crise era de hidratação. Meu reino na Terra por uma água de coco! Agradeci à simpática moçoila e segui adiante, com a pulga atrás da orelha. Será que chegamos numa fase tão difícil, parecida com a cena do Monty Python na Vida de Brian, onde se multiplicavam profetas de calibre variado, anunciando o Apocalipse ou desenhando paraísos improváveis? Estará a saída em espectros sobrenaturais?

Tenho uma relação afetuosa com o invisível. Começou nas ondas do rádio, com um programa escrito pelo Henrique Foréis Domingues, o Almirante, “a mais alta patente do rádio”. À noite, não muito tarde, uma voz entre cavernosa e imperativa perguntava: “Você não acredita no sobrenatural? Então ouça!”. Era o programa Incrível! Fantástico! Extraordinário!, que dramatizava histórias contadas por ouvintes. O recheio não variava muito. Almas do outro mundo, maldições, relógios anunciando a meia-noite, cemitérios pulsantes, sofrimentos na eternidade. O Menino acreditava naquilo e, tal como numa sátira dos argentinos Les Luthiers, temia e tremia. Quando o programa passou a ser transmitido nas tardes de domingo, antes das jornadas esportivas, o mistério definhou. A luz é implacável com o invisível.

Evoluí para os clássicos. Fiquei solidário com Boris Karloff, digo, Frankenstein, e sua aflitiva crise de identidade. Me compadeci do Bela Lugosi, digo, Conde Drácula, condenado a sugar vidas alheias e não ter vida própria. Diverti-me com a fileira de filmes B, estrelados por aranhas gigantes, monstros em lagos, metamorfoses zoófilas, alienígenas zumbis. Uma dica. Johnny Depp e Martin Landau protagonizaram uma homenagem delicada à Hollywood em preto-e-branco no filme Ed Wood (nome do que foi considerado o pior diretor de cinema de todos os tempos). Landau na pele de Lugosi é antológico.

Nada se compara com o terror apenas insinuado, sugerido. É o que acontece com o Bebê de Rosemary. Não há uma única cena com o bebê diabólico do título. A história deixa para a imaginação de cada um a aparência do Mal que nasce num útero inocente. Tive medo ao assistir o filme. O enredo convocou uma assembleia extraordinária dos meus fantasmas internos, que se agitaram como na Dança dos Vampiros. Pior. Não adiantaria agitar um crucifixo para acalmá-los. Por razões ancestrais, este símbolo seria impotente. Desculpe o plágio, Ioine!

Há muitos escroques que exploram o Medo para comercializar a fé. Outros, sob aparência menos vil, vendem soluções gerais para lidar com problemas complexos. E la nave va. A melhor forma de dialogar com o invisível é tirá-lo da escuridão. Fantasma não resiste a um facho de luz.

Pelo sim, pelo não, seguro morreu de velho. Não aceito o desafio de entrar num cemitério à meia-noite. Vai que aquelas pequenas chamas azuladas que costumam frequentá-los não são o que os cientistas chamam de fogo-fátuo (combustão espontânea de gases gerados por decomposição de matéria orgânica). Vai que, lá longe, de um horizonte indefinido, ecoa uma voz sorumbática perguntando: “Você acredita no sobrenatural?”. Eu, hein, Rosa! Pernas para que te quero!

Abraço. E coragem.

Jeitos do jeitinho

Jeitos do jeitinho

O Antônio Fagundes foi bulir em ninho de víboras. Em suas temporadas teatrais, avisa aos navegantes que não admite atrasos. As peças começam pontualmente e os espectadores que se atrasam não são admitidos na sala de espetáculos. A regra é divulgada com antecedência e clareza, não existem exceções.

Estava o Fagundes na temporada carioca da comédia Baixa terapia. Um grupo de cerca de 50 pessoas chegou pontualmente atrasado no teatro. Foram, claro, impedidas de entrar. Como sói acontecer com cariocas da gema, habituados a ignorar horários, sentiram-se ofendidos e parte deles passou a esmurrar a porta da casa. Gente fina. Baixou dona justa no recinto e o barraco terminou.

Cartas de leitores no jornal registraram “indignação com o rigor”. Um deles não chegou propriamente a mandar o artista pastar, mas sugeriu que ele voltasse pra São Paulo. O Rio, insinuou, não é lugar pra tanta formalidade. Há nas entrelinhas das mensagens uma proposta: por que não dar uma tolerância, digamos, de uns cinco minutos? Conhecendo meu terreiro, respondo. Porque a tolerância viraria, rapidamente, casa de tolerância. Se é que me entendem. Oferecidos os cinco minutos, logo apareceriam os descansadinhos que chegariam com sete minutos de atraso. Barrados, reclamariam da rigidez. O que são dois minutos além dos cinco de tolerância? E a roleta continuaria a girar, turbinada pelo jeitinho. É a cultura do deixa pra lá, do vamos que vamos, do tudo é festa.

Suponhamos que um dos boxeurs improvisados que esmurraram a porta do teatro na zona sul do Rio estivesse em Bayreuth, na Alemanha, para o festival wagneriano anual. O que aconteceria se chegasse, digamos, 30 segundos depois da hora limite para entrada no Festspielhaus? Barrado, o que faria? Ia reclamar com o bispo? Encarar um chucrute fardado e de maus bofes? Seria diferente se, em Viena, ousasse atrasar-se para ouvir Mozart no Musikverein? Por que tem que ser diferente no nosso quintal, vulgo Casa da Mãe Joana?

Nos anos 70, um amigo de faculdade foi fazer pós-graduação no interior da Alemanha. Extasiado, mandou-me uma carta dizendo como funcionava o transporte público na cidade. Em cada ponto de ônibus, havia uma placa indicando os horários exatos em que o veículo passaria por lá. Com precisão de minutos. O resultado é que a vida andava mais suave, sem alvoroços. Cada morador programava sua rotina sem susto ou interrogação. Não tinha essa de esperar o busão em hora incerta e desconhecida. Que tédio, hein?

Dois cariocas exprimiram muito bem esse desprezo radical pelos ponteiros. Falaram genericamente, mas a carapuça cabe à perfeição no Rio. Millôr Fernandes dizia que “a pontualidade é uma grande solidão”. Sou capaz de ouvir o barquinho vai, a tardinha cai, quando leio isso. Já o Leon Eliachar, na verdade cairota com sotaque e molejo cariocas, descobriu que a pontualidade é “coincidência de duas pessoas chegarem com o mesmo atraso”.

O maestro dessa balbúrdia é o celebrado jeitinho. Fernando Sabino, mineiro devidamente acariocado, contou o que se passou com dois brasileiros numa escala no Aeroporto de Lisboa. Tinham cerca de duas horas de intervalo e resolveram dar um bordejo pela cidade. Conversaram com o funcionário local, que lhes informou os caminhos para autorizar o tour. O primeiro seria passar por uma burocracia pesada, que tomaria praticamente todo o tempo de que dispunham. O segundo seria o “processo brasileiro”. E o que seria isso?, indagaram os amigos. “Bem, o “processo brasileiro” é ir saindo como quem não quer nada, tomar um táxi, ver a cidade e depois voltar”. Como história é divertido, mostra a malandragem em ação. Quando, porém, transporto esse tipo de comportamento para a vida em sociedade, não acho tanta graça.

O que começa com uma impontualidade de aparência inocente, espalha-se, numa cadeia de eventos desrespeitosos, para todas as áreas da cidade. Desde a ocupação descontrolada das calçadas por bares e restaurantes até o despejo de lixo em espaços públicos, passando pelas filas furadas e pela barulheira a qualquer hora e em todos os lugares. A regra geral é: não há regra. E, como se dizia, em outros tempos, esculhambatus est.

Ah, antes que me esqueça. O Fagundes tá certo.

Abraço. E coragem.

Construir um inimigo

Construir um inimigo

Imaginem a reunião de um filósofo, um crítico literário, um midiólogo, um escritor e um conferencista. O produto de tantos é Umberto Eco: são cinco em um.
Quem não leu O Nome da Rosa, seu primeiro romance, tem sorte, pois é uma experiência inesquecível. Muitas das suas palestras começam com uma história, como a conversa com um taxista paquistanês numa de suas visitas a Nova York. Na viagem do aeroporto ao hotel se estabeleceu um papo animado entre os dois, até uma pergunta desconcertante do taxista ao italiano Eco:
– Quem são os inimigos?
Umberto Eco disse logo que a Itália não estava em guerra com ninguém, mas o motorista esclareceu que se referia sobre rivais históricos. Quando o autor de O Nome da Rosa desceu do táxi, ficou a pensar e terminou escrevendo sobre a presença real ou imaginária do inimigo.
A construção do inimigo é uma revisão histórica a partir da Bíblia, que tem como primeiro crime o assassinato de Abel por Caim. Logo Eco lembrou que Mussolini cresceu através do ódio e da guerra, assim como Hitler e Stalin. Os Estados Unidos construíram sua identidade com guerras imperialistas, contra o comunismo, contra o terror de Osama bin Laden, com a invasão do Afeganistão. Eco chega aos judeus, cuja história é repleta de perseguições por serem estranhos, primeiro pelo Deus invisível, depois pelos costumes, pela alimentação. Acrescento a importância de Lutero na construção do judeu como inimigo, figura importante na constituição do ódio, e assim se chega à Alemanha do século 19, sobre a qual o poeta Heinrich Heine advertiu: “Onde queimam livros acabam queimando pessoas”.
Em seguida, passeia pela história dos negros, que em 1798 eram descritos na Enciclopédia Britânica como estranhos, com muitos vícios, sem qualquer compaixão, um terrível exemplo de corrupção como homens. O racismo estrutural contra os negros tem uma trágica história no mundo, em especial nos Estados Unidos e no Brasil, onde jovens são assassinados até hoje pela polícia.
As mulheres foram maltratadas na história, perseguidas e mortas como bruxas e feiticeiras. Acrescento o que vivem as mulheres na maioria dos países islâmicos com as burcas e os maus-tratos que sofrem. Umberto Eco enfatiza o quanto não se pode prescindir do inimigo no processo civilizatório. Faz uma longa referência ao livro 1984, de George Orwell, símbolo da distopia ditatorial. Lembro agora de O Homem que Amava os Cachorros, romance do escritor cubano Leonardo Padura sobre o assassinato de Leon Trótski.
Umberto Eco não se perguntou por que as guerras, as rivalidades, as perseguições marcam toda a História da humanidade e quais são suas raízes. Muito já foi dito a respeito, e o próprio Freud escreveu, já em 1915, sobre a guerra, chocado com a crueldade da Primeira Guerra Mundial.
Essa guerra mudou a forma de ele pensar o ser humano a ponto de escrever uma nova teoria das pulsões, a partir de 1920. Introduziu a pulsão de morte, uma pulsão complexa que tem sua dimensão criativa do novo, e também a pulsão de destruição, derivada desta.
Outro caminho, sem excluir este último, apontou J. B. Pontalis, psicanalista e escritor francês, que insiste no tema do fratricídio, a rivalidade entre irmãos, a rivalidade edípica. Reflete sobre o tema das lutas fratricidas, das guerras civis, e dá um exemplo atual: lê o conflito entre israelenses e palestinos sob a ótica de que são dois irmãos que disputam a Terra Santa ou a Santa Mãe – “É minha, não é tua, é minha”.
Impossível, até agora, compartilhar uma mãe como indivisível. Para Pontalis, o fratricídio tem a mesma importância do parricídio ou do matricídio, mas ficou uma questão sem mencionar, a mesma que ficou em aberto no ensaio do Umberto Eco: o papel do poder, o poder de elites frias e arrogantes através da História.
O poder já foi medido em força bruta nos primórdios da civilização, passou ao poder das terras, do ouro, do dinheiro, dos valores, e aí sempre cresceu a importância das armas. Não por acaso a indústria das armas é das mais poderosas no mundo, aliás, o poder econômico sempre apoiou as guerras.
Duas questões finais. Uma é a do fanatismo, do ódio cego nas rivalidades. Na raiz desse ódio cego está o narcisismo das pequenas diferenças. Um narcisismo no qual as pequenas diferenças originam os fanatismos, pois o fanatismo é onipresente na tragédia humana. Temas para seguir a conversa, mas concluo com a outra questão, na verdade uma ideia: construir um amigo é uma construção mais lenta, mais amorosa, mais enriquecedora do que a de construir um inimigo
Caras bactérias

Caras bactérias

Final dos anos 40. Numa casa assobradada na rua Moura Brito, Tijuca, algumas adolescentes se movimentavam para criar o primeiro fã-clube do país. O Sinatra-Farney Fan Club reuniu, durante alguns anos, um público jovem que tinha em comum o gosto não apenas por Frank Sinatra e Dick Farney (nome artístico de Farnésio Dutra, criador de um estilo intimista e aveludado de cantar, emplacador de sucessos como Copacabana e Tenderly, e irmão do Cilênio, o Cyll Farney das chanchadas), mas por várias correntes do jazz. Certos frequentadores, mal saídos dos cueiros, como Johnny Alf e João Donato, seriam, não muito tempo depois, sócios importantes de um movimento que influencia ainda hoje músicos e apreciadores da boa música. A Bossa Nova.

Naquela época, era muito difícil ter acesso a discos importados, essenciais para atualização do que se produzia no jazz e na carreira do Frank. Em grande parte, os discos ainda eram gravados em 78 rpm, em material frágil, quebrável, que dificultava o transporte sem o perigo de danificar o bolachão redondo. O jeito, ou melhor, o jeitinho, era apelar para amigos que viajavam. Apelar para as asas amigas da Varig ou da Panair do Brasil. Bom trânsito com comissários de bordo, pilotos e aeromoças renderam, ao longo do tempo, bolachas saindo do forno com o som de Miles, Gillespie, Monk, Brubeck, Mingus, Ellington, Desmond, Blakey, Coltrane, Adderley e mesmo do insuportável Dolphy.

A dificuldade de importar valorizou um ofício. A turma do high society e os donos de boates e inferninhos tinham seus contrabandistas preferidos, que encontravam caminhos desimpedidos para trazer uísques escoceses. No Centro da cidade, não era difícil encontrar camelôs gritando “ingresa, ingresa, ingresa!”. Era assim que apregoavam, antes da chegada dos rapas, as caixinhas acinzentadas com a gilete inglesa Wilkinson. Nunca descobri se eram realmente melhores do que as nossas legítimas blue blade, com as quais penei para aparar as primeiras penugens e apontar lápis. Será que alguém ainda usa lápis?

O fascínio pelo made in USA desidratou aos poucos com a multinacionalização das fábricas. Já não se encomenda pasta Crest aos que viajam para a Disney. Por isso, fiquei surpreso quando minha neta pediu à tia, que mora no Grande Irmão do Norte, um microscópio. Era, aliás, uma surpresa múltipla. Para que diabos ela queria xeretar o mundo invisível? Será que não temos por aqui um aparelhinho de boa qualidade? Na minha meninice, existia um jogo, o Polyopticon, que permitia montar pequenos binóculos, lunetas e microscópios. Era sofisticado e, oh, inacessível aos bolsos anêmicos.

Pequena pausa. Na idade dela, eu pedi um globo terrestre de metal como presente de aniversário. Os amigos caçoaram à tripa forra. Por que não uma bola Pelé (“com ela você ainda vai ser um campeão”), um jogo de futebol totó, um Banco Imobiliário (ninguém podia antecipar, àquela altura, a bolha especulativa norte-americana de 2008), um revólver de espoleta da Estrela, botões de galalite ou bolas de gude? A única resposta que tenho é que meu corpo frágil já tinha sido abduzido pela adultice.

Sem querer, a netinha foi vanguardista. Dias depois da chegada do microscópio, um jornal noticiou que somos, os humanos, 50% bactérias. Um microbiologista afirmou que temos cerca de 23 mil genes humanos. Entretanto, nossos micróbios, os que habitam nossas fronteiras mais íntimas, podem abrigar cerca de três milhões de genes. Entre esses microorganismos, que vagam livres dentro do nosso corpo, as bactérias são o grupo mais comum. Como se não bastasse saber que a vida nasceu de acasos, caldos orgânicos acumulados em milhões de anos e poeiras estelares, agora tomamos ciência de que nada mais somos do que pilhas de matéria viva invisível a olho nu. Ser arrogante, quem há de?

O pingo de gente, cada vez menos pingo e mais nascente de inteligência aguda, vai ter acesso a esse universo em perpétuo movimento e que, à sua maneira, nos constrói e define. Penso em agendar um horário para que ela descubra mais sobre minhas entranhas. Estarão meus micróbios felizes, em crise existencial, reivindicantes? Planejarão um ataque coordenado aos meus Três Poderes ou aceitarão, democraticamente, minhas inseguranças e desrazões? Diga lá, meu querido oráculo da microscopia.

Abraço. E coragem.