por Richard Klein | 27 fev, 2021 | Brasil, Comportamento, Conto, Livro
Aquela rotina foi demais para o sistema. No último dia de Carnaval estava totalmente acabado. Numa rajada de sanidade, resolvi dar uma volta pela cidade para desintoxicar. Eram umas onze da manhã, e fui curtir o sossego das vias coloniais mais afastadas, longe do carnaval. De short e sem camisa, saí explorando a cidade até chegar a uma rua que terminava na subida do viaduto que ligava Olinda a Recife. Não dava para continuar dali, não havia passagem para pedestres. Vendo aquilo como um desafio, alguma força maluca me levou a arriscar uma travessia pela amurada desprotegida.
Sem ter nada em que pudesse segurar, segui pelo concreto estreito que chegava a ficar a uns vinte metros de altura sobre uma avenida movimentada. Qualquer tropeço seria fatal. Nunca tive um bom senso de equilíbrio mas na hora isso não pareceu importar. Olhei em frente e, como um equilibrista numa corda bamba, cheguei ao outro lado. Não estava sob o efeito de nada e nunca consegui entender o que me levou a correr aquele risco. Seriam tendências suicidas? Estava tentando provar alguma coisa a mim mesmo? Excesso de autoconfiança? Ou simplesmente não estava nem aí? Devia havet moleques que faziam isso todo dia.
Cruzei o viaduto sem problemas e desci numa rua calma, também colonial. Na primeira janela aberta, deparei com uma mãe ajudando seu filho com o dever de casa, os dois alheios à minha confusão mental e ao barulho ensurdecedor do trânsito. Meio atonito, parei para olhar, os dois me viram, demos uma encarada intensa, eles talvez com medo do maluco parado na janela e eu tentando entender como aquela cena pacata e racional era possível. Segui em frente me perguntando se havia uma mensagem do universo naquela cena.
Voltei para Olinda de ônibus e assim que desci de volta aos braços do Carnaval que já estava pegando fogo. Fiz uma parada na casa VIP onde as pessoas estavam se preparando para sair num bloco famoso. Como era a saidera, a Australiana ruiva caprichou na tatuagem de verão e meu rosto ficou fantasiado do que estava sentindo. Todos prontos e calibrados, saímos para rua parecendo personagens surrealistas. A maioria foi para o bloco mas prefiri me aventurar sozinho. Não demorou muito para agarrar uma gostosa local e a levar para o parque onde os casais iam. Tinha tido varias, nenhuma tinha a magia quase inocente da Gê, mas deu para matar a saudade.
Quando caiu a noite, fui com ela a um bar encontrar seus amigos que acabei achando caretas demais. Depois que se foram, comecei a conversar com uns caras meio barra pesada da mesa do lado. O papo se tornou bizarro e os dois acabaram me convidando para viajar de graça de navio para Europa levando cocaína. Sentindo aquilo pesado demais, saí fora e voltei para a confusão das ruas onde cruzei com um colega de sala da faculdade. Felizes com a coincidência, saímos abraçados atrás de um bloco. Ficamos na farra até às quatro da manhã. Com as ruas esvaziando, fomos para um bar deserto onde ficamos batendo papo até ele ir embora.
Naquela altura, o céu já estava ameaçando clarear. Era a hora de dar por encerrado o carnaval. No caminho, cruzei com o Betinho, o filho do prefeito, acompanhado de amigos, subindo a ladeira que estava descendo.
Fiquei surpreso quando ele me chamou do outro lado da rua: “Fala carioca! Tu não é o amigo da Dinah?”
“Sou, e aí? Beleza?”
“Tu tinha um nome gringo, não é mesmo? Richard?”
Me aproximei. “Isso mesmo. E aí? Resolveu sair?”
“Pois é, meu irmão, ser anfitrião é um saco!” Deu para sentir que os amigos estavam a fim de me dispensar, mas para contrariar, ele me convidou “E aí? Bora fumar a saideira do Carnaval ali em cima no parque?”
Não ia perder a oportunidade. “Opa! Vambora!”
Pata irritar seus amigos, ele continuou conversando comigo. “E então, carioca, curtiste a festa? Gostaste do Carnaval de Olinda?”
O cansaço não tinha roubado o bom humor. “A parte que me lembro foi demais, a parte que não me lembro deve ter sido melhor ainda.”
Ele deu um sorriso. “Pois é rapaz, todo ano fazemos uma dessas. A gente abre a casa para os outros se divertirem e se diverte com eles.”
Um dos amigos emendou: “Essa festa é uma tradição do Carnaval de Olinda. Merecia entrar no calendário oficial!”
O Betinho, visivelmente cansado da bajulação, voltou a falar comigo. “Carioca, te garanto que tu vai fechar o Carnaval com chave de ouro.” Ele tirou do bolso uma muda ressacada. “Isto aqui é o famoso Manga-rosa. Tirado do pé faz nem uma semana. Meu primo ali me trouxe direto de Cabrobró. Já ouviste falar?”
“Caralho! Manga-rosa! Nunca pensei que fosse experimentar isso na vida!”
Ele passou para eu dar uma olhada. Um outro amigo falou: “Chega até a ser bonito. Dá uma cheirada para sentir. Não existe melhor!”
O cheiro era fortíssimo. “Isso cheira a bagulho bom!”
“E é! Made in Pernambuco!”
Chegamos no topo do parque e nos sentamos numa escadaria de pedra para esperar o sol nascer.
O primo quebrou o silêncio. “Passa aqui pra eu apertar.”
O cara era um artista, saiu perfeito. “Isso também é uma tradição. O Betinho sempre guarda um para agora.”
“É verdade, a gente faz isso desde moleque. Sempre fechamos o Carnaval com um desses para depois sair no Galo da Madrugada.” Tinha ouvido falar no bloco, era o último do Carnaval.
O primo do Betinho passou o baseado para ele acender. Quando chegou em mim, deu uma onda quase tão forte quanto os cogumelos alucinógenos de Mauá e – como toda boa maconha – dois pegas bastavam.
Ficamos ali, sozinhos com a cidade só para nós. Em pouco tempo o horizonte foi alaranjando até o sol aparecer como um círculo brilhante. Ele foi subindo iluminando de leve a natureza à nossa volta. As cores magníficas, o silêncio e a temperatura amena fizeram aquele momento ser perfeito. Relaxando depois de sorver tanta vida, não só no Carnaval mas no verão inteiro, fiquei em estado de graça.
Estávamos em transe quando, do nada, dois estranhos chegaram e se juntaram a nós. Eram mais velhos, nos seus trinta e poucos, um era louro, grande, de cabelos compridos e com ar de surfista e o outro era musculoso, de camiseta de malhador apertada e com um corte de cabelo estilo escovinha.
O cabeludo puxou conversa: “Barbaridade, que visual incrível!”
Estava na cara que ele era gaúcho só que ninguém estava a fim de papo. Ignoramos, mas eles insistiram.
O outro falou em um inglês com sotaque americano, meio agressivo “Diz para eles que a gente sabe que eles estão chapados, mas que estamos muito mais chapados que eles.”
O gaúcho traduziu e depois explicou: “Esse maluco é americano, não fala uma palavra de português.”
Depois de uma pausa, um dos amigos do Betinho respondeu.
“Não existe esta de estar mais ou menos chapado, estamos aqui curtindo a paz do visual.” E completou em inglês. “Aqui todo mundo aqui fala inglês, relaxa.”
O gaúcho continuou em português “Este americano é tri-louco, grudou em mim e agora que tomamos um ácido ele está mais louco ainda.”
Quando o gaúcho mencionou ácido olhamos em sincronia para os dois, mas a vontade de ficar em silêncio continuou. Talvez por se sentir na obrigação de fazer turistas se sentirem bem-vindos na sua cidade, Betinho se tornou nosso porta-voz.
O cara era um político nato. “Curtiram o Carnaval? Did you enjoy the Carnival of Olinda?”
Quem respondeu foi o Gaúcho “Eu venho todo ano passar o Carnaval com a minha irmã que mora em Recife. O Mark aqui está estacionado em uma base militar no Caribe e veio passar as férias.”
O americano ainda nao tinha entendido que todo mundo ali – talvez com a excessão do gaúcho – falava inglês. A palavra Caribe tinha pescado sua atenção ainda que continuasse a achar que não entendíamos o que estava dizendo.
“Caribbean yeah, Guantánamo! ” Bateu nos braços fortes “Sou um Marine, entende?! Adoro armas, combate e mulheres brasileiras. Fala para eles que eu estive no Vietnã! ”
A palavra Guantánamo tinha deixado todo mundo de orelha em pé. Mesmo assim, a presença deles e o papo eram tão fora de contexto que ficou difícil distinguir se aquilo era verdade ou alucinação. De qualquer forma ninguém estava a fim de rebater o cara em inglês naquela altura. Eu é que não ia me meter.
O gaúcho, sem perceber as nuances da situação continuou no papel de intérprete lisérgico: “Não estou dizendo que este americano é doido?! Agora ele inventou que lutou no Vietnã. ”
Pela idade era impossível, como também era muito pouco provável que estivesse estacionado em Guantánamo. Por outro lado, o físico, a atitude e o corte de cabelo pareciam confirmar que se tratasse de um Marine. Novamente, ninguém falou nada torcendo que eles descessem da nossa nuvem o mais rápido possível.
O americano continuou a nos desafiar, acenou com a cabeça, colocou dois dedos para cima e falou num português fraquíssimo: “Sim, dois anos, eu in Vietnam. ”
O gaúcho estava hiperativo. “Liga não, ele é maluco assim mesmo, faz cara feia, inventa histórias e volta e meia se mete em confusão. No fundo é gente boa, mas o melhor é ignorar a figura.”
Aquilo de absurdo virou chato. Deu vontade de ter um controle de televisão para trocar de canal ou uma tecla para baixar o volume ou fazer os dois desaparecerem. O americano finalmente se deu conta de que a gente não estava na mesma onda e disse ao gaúcho: “Hey buddy! Let’s go! ”
O gaúcho traduziu: “Moçada, a gente vai nessa.”
Os dois partiram da mesma maneira que chegaram e aliviaram o ambiente. Ficamos uns quinze minutos sem falar nada. Alguem acendeu o baseado de novo e quando chegou na vez do Betinho, ele interrompeu o silêncio. “Galera, daqui a pouco o Galo da Madrugada vai sair, vamos lá?”
Todo mundo foi, mas resolvi ficar, minha quota de Carnaval já estava pra lá de preenchida. Agradeci e a gente se despediu. Fiquei ali sozinho, apreciando a beleza de Olinda até a lombra passar. Aquelas loucas primeiras horas da manhã em uma cidade histórica no Nordeste brasileiro marcou a minha despedida de uma época especial; um período de minha vida do qual sempre sentirei saudades.
O Pedro, com quem cruzei apenas uma vez durante o Carnaval, tinha conseguido carona na caravana dos amigos da Carla e ia voltar com eles para o Rio. Voltei sozinho e tive sorte de pegar caronas longas. Quando cheguei em Campos, no Estado do Rio, me dei conta de que tinha gasto todo a grana. Como precisava chegar em casa a tempo do início das aulas, pela única vez na vida, pedi dinheiro a estranhos para completar o dinheiro da passagem de ônibus e para comer alguma coisa; uma situação bem distinta da que tinha rolado na casa do Betinho e uma lição importante de humildade.
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por Richard Klein | 14 fev, 2021 | Brasil, Conto, Crônica
Capítulo 29
“Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes acesas agora."
Tempo Perdido - Renato Russo
Acordamos e percebemos meio sem jeito que os gaúchos tinham voltado e tinham deixado a gente ficar com o quarto. Era cedo, todos estavam dormindo, digerindo a noitada boa. Tomando cuidado para não fazer barulho, continuamos onde tínhamos parado na noite anterior.
Revitalizados, saímos em silêncio e fomos para praia curtir a manhã. Só que na luz do dia, não rolou a felicidade prometida. Quando começamos a nos comunicar por meio de palavras, descobrimos que éramos incompatíveis. Para ela, eu era um garoto mimado da Zona Sul do Rio de Janeiro, perdido no meio de um exercício de autoconhecimento. Para mim ela era uma menina desinteressante de uma cidadezinha próxima, preocupada em voltar logo para casa porque sua mãe a queria na loja da família naquela tarde. Quando nos despedimos, sabíamos que o relacionamento tinha durado apenas aquela noite. No fim de semana seguinte, a vi andando de mãos dadas com um dos gaúchos. Não me importei. O momento havia sido meu, embora a garota não fosse mais.
Por sua vez, Pedro tinha deixado de ser de muitas e tinha arrumado uma namorada. Carla era uma lourona de farmácia de trinta e muitos anos e marchand no Rio. Junto com a entusiasmo inicial havia o encantamento com a turma dela, possíveis novos companheiros de viagem, que estavam subindo a costa nordestina em caravana. Era um pessoal mais velho, descolado, que trabalhava em jornalismo, publicidade e televisão.
Sem ter como me aproximar deles, sem muito saco para as gauchices dos gaúchos e cansado dos joguetes do Pedro, passei a andar com os músicos e a malucada do artesanato. Mas logo que percebi, tinha entrado num lugar estranho. Por conta de um elitismo que rolava mesmo entre os mochileiros, aquele grupo era tido como o letárgico “clube dos hippies perdedores”. Se tornar parte dele era como ser transferido para a área dos detentos difíceis num sistema penitenciário invisível.
A verdade é que quanto melhor conhecia a galera do circuito de mochileiros no Nordeste, mais percebia que ali não tinha nada de alternativo. Fora os discípulos teleguiados do Rajneesh, ninguém tinha nada a dizer. O negócio era tirar onda. A única diferença entre eles e os caretas de sempre, era a sua crença de que seus cortes de cabelo diferentes e suas roupas transadas os faziam melhores e mais legais do que o resto. Esses eram os anos oitenta, o início da era do individualismo exacerbado.
De repente isolado num território estranho, mesmo que maravilhoso, me vi inundado por um senso de estranhamento. Havia a contradição de que era para estar contente, aproveitando os melhores dias de minha vida talvez no melhor país do mundo para isso. Do lado de fora havia sol e curtição, mas do lado de dentro a coisa era muito diferente. A tempestade econômica, a carência afetiva, o isolamento, o beco existencial sem saída e o egoísmo como a matéria prima do tecido social faziam chover e às vezes trovejar.
Numa tarde, Pedro e eu nos sentamos na praia para conversar. Ele contou que a coisa estava indo bem entre ele e a Carla mas que não tinha lugar para ele na caravana. Sabiamos que cada um estava procurando coisas diferentes naquela viagem, mas chegamos à conclusão de que apesar daquilo estávamos juntos e seguiríamos com o plano original. Eu iria ter que aturar um hippie de araque se esforçando para parecer descolado para conseguir o que queria, enquanto ele iria ter que engolir com um cara que se julgava um hippie de verdade, mas que havia perdido a noção da realidade.
Dando sequência à aventura, depois de Canoa Quebrada iríamos começar a descer de volta para casa. O Carnaval estava chegando e íamos passá-lo em Olinda. A conversa fez a amizade voltar e depois das brincadeiras de sempre ficamos sem poder esperar pela hora de pular o frevo nas ruas coloniais.
*
Antes de voltar para a terra do melhor carnaval da minha vida, resolvemos parar por alguns dias em Natal. Três dias depois, lá estávamos nós na estrada de novo, mais bronzeados que nunca e de alma lavada depois de um mês e meio sob o sol do Nordeste. Foi muito bom sentir mais uma vez o vento e a liberdade dos caminhões na rodovia.
Natal se mostrou tranquila e maravilhosa. Sendo o ponto mais próximo entre a África e a América do Sul, sua localização era estratégica. A cidade tinha servido como base para navios e aviões americanos durante a segunda Guerra Mundial e ainda havia uma forte presença militar. Talvez por isso foi a cidade mais ordeira que visitamos. O albergue para estudantes foi também o melhor em que ficamos, com quartos modernos, limpos e amplos. Com suas ruas calmas, Natal mostrava o que o Brasil poderia ter sido caso “Ordem e Progresso”, o lema positivista da bandeira brasileira, tivesse sido seguido.
Após duas noites na Casa dos Estudantes fomos acampar na praia da Redinha, na época um lugar quase selvagem do outro lado do rio Potenji, que bordeia a cidade. A areia branca e fina de suas dunas enormes mais tarde faria de lá um dos melhores lugares do mundo para a prática do kitesurf e um cenário ideal para a gravação de vários comerciais de praia, nacionais e internacionais. Por ficar no ponto onde o continente Sul Americano se curva para o oeste, o vento na região era forte e as ondas eram de longe as melhores que vimos na costa nordestina. O problema era que a água era infestada de caravelas, um tipo de água-viva cujos tentáculos causavam uma ardência de dar febre; daí apesar de estarmos doidos para pegar jacaré preferimos ficar na praia bebendo cerveja.
Por causa de sua aura militar, Natal não era bem cotada no circuito mochileiro. Este porém ficou evidente na praia da Redinha onde fora os pescadores nativos e algumas famílias da capital que tinham casas de veraneio ali, não tinha mais ninguém. Apesar de lindíssimo, o agito do lugar era inexistente. De qualquer forma, a experiência deu uma ideia de como deve ter sido explorar a costa Nordestina em gerações anteriores.
*
Não aguentamos a calmaria e voltamos no dia seguinte. O bom daquela pausa foi que caiu como uma férias das férias. Quase não tínhamos se visto em Canoa Quebrada e aproveitamos para colocar as coisas em dia. Entre outros assuntos falamos sobre dinheiro e, para nossa surpresa, descobrimos que havíamos gastado bem menos do que o previsto. Como prêmio pela frugalidade, resolvemos nos dar de presente uma passagem de ônibus até o Recife.
Na manhã seguinte, num raro dia nublado acordei cedo e me ofereci para ir à rodoviária comprar as passagens. Como viajaríamos naquela mesma noite, levei a mochila para já deixá-la no guarda-volumes.
Saí pelas ruas semi desertas achando graça da sensação que causava pelo visual. Na rodoviária, na hora de pagar as passagens a atendente disse que não dava para comprar o bilhete do Pedro porque não estava com sua identidade. Irritado, insisti e ela acabou me aconselhando a tentar pegar uma autorização na delegacia de polícia da estação. Fui lá mas a porta estava trancada. Sem ter nada programado para aquele dia, fiquei esperando alguém chegar. Eram umas onze da manhã e por volta das onze e meia um homem magricelo, de barba por fazer e cabelos grisalhos de uns cinquenta e poucos anos apareceu.
Enquanto tirava as chaves do bolso, perguntei: “O senhor é o delegado da estação?”
O cara me olhou de cima a baixo e respondeu meio seco e estranho. “Sou sim, mas se o senhor quiser falar comigo vai ter que ser lá dentro.”
Pelo bafo dava para sentir que estava bêbado, a ponto de se esforçar para colocar a chave na fechadura. Depois de alguns segundos embaraçosos, finalmente conseguimos entrar. Antes que começasse a explicar o motivo de estar ali, ele me mandou colocar minha mochila na mesa e abrir.
“Abre esta merda agora.”
Sem acreditar no que ouvi e querendo sair logo com a autorização do Pedro concordei.
Enquanto o cara foi jogando as coisas no chão falei serenamente: “Depois que o senhor acabar a revista, posso pedir uma autorização de viagem para o meu amigo? Estou sem a carteira de identidade dele. Por isso vim aqui.”
“Autorização é o caralho, maconheiro!” O cara me empurrou de lado e começou a tirar as coisas, claro sem encontrar nada. Infelizmente – mas felizmente para a ocasião – o veneno de Maceió tinha acabado em Canoa Quebrada. Frustado e com um monte de roupa suja espalhada na mesa e no chão, o cara não desistiu.
“Cadê a porra da maconha?!”
“Eu não fumo isso. Pode procurar à vontade, o senhor não vai achar nada.”
“Ah, e isso daqui?” Ele tirou duas conchas enormes que tinha achado na praia e que ia dar de presente para minha mãe e para a Dona Isabel.
“Isso aí são conchas.” Já me segurando para não ridicularizar o cara.
Ele deu uma sacudida para ver se caia alguma coisa de dentro delas, mas nem um barulhinho.
“Agora a gente pode falar sobre a autorização de viagem?”
“Aqui não tem autorização de viagem nenhuma.” Ele me deu um olhar torto e desafiador. “Essas conchas estão apreendidas. Vão ficar aqui comigo!”
“Como assim? Aprendidas porquê? O senhor tirou elas da minha mochila, elas são minhas!”
O cara não gostou e começou a tremer de raiva. Aflito, abriu a gaveta para pegar uma coisa. Pensei que fosse minha a autorização, mas não, ele tirou um martelo e colocou a parte de metal próxima à minha orelha.
“Tu é um veado frouxo, ouviu? Eu falei que essas duas conchas são minhas. São ou não são !? ”
Com a adrenalina já jorrando, levantei o tom: “Meu irmão, se acontecer alguma coisa comigo nessa merda, tu tá fodido, meu pai é jornalista da Globo, já ouviu falar? Ele fode você e a polícia inteira dessa rodoviária. E tu vai preso ou no olho da rua! Abaixa essa porra agora e me devolve as conchas, entendeu?”
O cara comprou meu blefe e engolindo a raiva, colocou o martelo de volta na gaveta.
Levantei, coloquei minhas tralhas e as conchas de volta e saí sem nem perguntar como que aquilo ia ficar. Voltei para o guiche para perguntar e a moça era outra. Acabou que a polícia não podia dar a autorização que eu precisava, a primeira menina tinha mentido.
Comprei a minha passagem, voltei para o albergue e deixei que Pedro resolvesse o problema de sua passagem sozinho. Viajamos na mesma noite e chegamos em Recife dois dias antes do Carnaval. Quando descemos do ônibus, do nada encontramos o Mineiro, um amigo de Salvador. Foi uma feliz coincidência porque não tínhamos lugar para ficar e ele estava doido atrás de alguém para rachar o quarto que tinha conseguido em Olinda, algo que todo mundo dizia que era impossível durante aquela época do ano. Quando chegamos, percebemos o tamanho da sorte que demos; nosso quartel general seria a duas quadras da Praça do Carmo, o centro nevrálgico da folia.
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por Richard Klein | 7 fev, 2021 | Brasil, Conto, Opinião
Se os primos da Francesca suspeitavam que éramos gay, assim que o tio do Pedro botou o olho na gente, ele teve certeza. Depois que sua esposa nos mostrou o quarto com cama de casal de cara fechada, a hostilidade ficou clara quando nosso anfitrião jogou a comida no meu prato ao invés de me servir. Que eu lembre, nunca desmunhequei nem usei roupas de hippie fresco mas aos seus olhos eu era uma bicha comunista e maconheira levando o filho jovem e saudável do seu finado irmão para um caminho de subversão, drogas e perversão homossexual. Já imaginou o que ele faria se soubesse que além daquilo tudo ainda era judeu?
Naquele tempo, naquela parte do mundo, os mesmos caras que gastavam seu dinheiro com amantes, prostitutas e álcool e que batiam em suas esposas, consideravam a juventude do sul degenerada. Não podia deixar de pensar na sua reação se visse o Luiz de Vitória, saindo do quarto com a “Maysa” pendurada em seu pescoço e dizendo que havia perdido a virgindade. De qualquer forma, de um ponto de vista antropológico, a situação trouxe o entendimento de como as coisas eram para gerações anteriores em outras partes do mundo.
Aquele mundo claustrofobico, corrupto e canalha havia sido construído em torno da sua classe dominante ancestral. Além de controlar tudo e todos à sua volta desde o seu início, ela odiava qualquer novidade que ameaçasse seu domínio. Para qualquer pessoa com um cérebro funcional que proporcionasse visão crítica, a vida ali era opressiva. Se não pertencessem aos círculos tradicionais, pior ainda.
Apesar do clima pesado em casa, gostamos Fortaleza. Era uma das capitais mais ricas do Nordeste e tinha uma vibração cosmopolita. O clima quente e seco, as praias imensas, o vento e as largas avenidas faziam com que a cidade parecesse a capital de um país moderno no Oriente Médio, tal como Tel Aviv ou Beirute. Talvez a postura do tio de Pedro fosse uma exceção, já que os cearenses tinham a fama de serem espertos e engraçados, dando ao Brasil alguns de seus maiores humoristas, como Chico Anysio, Tom Cavalcanti e Renato Aragão.
*
Fortaleza foi o ponto mais ao norte da nossa excursão. Além da inexistente amenidade de ficar hospedado na casa de um parente do meu companheiro de viagem, o motivo para irmos tão longe era uma aldeia de pescadores chamada Canoa Quebrada, parada obrigatória no circuito neo-hippie. Depois de cinco dias, partimos para lá. Fomos de carona até Aracati e de lá pegamos uma Kombi até o pé de uma duna gigantesca. Subir aquela parede de areia fofa foi uma surpresa difícil, mas quando chegamos ao topo ficamos encantados. Já estava escuro mas à distância vimos um grupo de cabanas mal iluminadas que lembrava um lugar perdido entre o deserto e o mar.
Logo que recuperamos o fôlego, armamos a barraca fora do vilarejo e fomos conhecer Canoa Quebrada. Ela tinha um charme primitivo e a autenticidade que só lugares remotos conseguem ter. Os espaços entre os casebres rústicos castigados pelo vento e pelo sol criavam trilhas de areia que, em sua maioria, terminavam abruptamente numa falésia gigantesca. A praia lá em baixo era a mais larga de todas que visitamos.
Na areia dura havia jangadas por todo lado; estes barcos artesanais planos feitos de troncos de árvores secos, atados com cordas e um mastro seguramdo uma enorme vela triangular eram icônicos. Ao raiar do dia, os pescadores rolavam essas embarcações sobre troncos secos de coqueiro até a água. No mar, flutuavam leve e eram fáceis de manobrar. Sua elegância simples com suas velas desfraldadas pareciam parte integrante da paisagem.
*
Os locais sabiam como lidar com o calor e com o sol escaldante. O povo só se expunha de manhã bem cedo ou no final da tarde. Quando o sol estava a pino, os homens ficavam na sombra remendando suas redes, vendendo o que tinham pescado, comprando provisões ou simplesmente descansando. Enquanto isso, as mulheres ficavam em casa fazendo rendas. Sua técnica artesanal e seus produtos eram famosos em todo o Brasil.
Por outro lado, o mini exército de mochileiros que se aglomerava naquela aldeia no verão, ía para a praia na hora mais quente do dia, por volta das onze da manhã. Quando o calor ficava insuportável, nos abigavamos na sombra nos quiosques à beira da falésia para beber cerveja e ficar ouvindo os relatos das viagens uns dos outros. Nas conversas trocavamos dicas sobre lugares na rota costeira em meio a discussões político-existenciais. As garotas não participavam dessas conversas, mas ficavam sentadas em seu canto batendo seus papos e retribuindo nossos olhares.
*
No dia seguinte, alugamos por quase nada um quarto na cabana de um pescador. A família dormia em redes penduradas pela casa enquanto ficamos no único quarto separado ali dentro. As camas eram tapetes de praia de vime estendidos sobre o chão de areia. Uma lamparina de querosene iluminava a casa, a água vinha de um poço no quintal e a família cozinhava num fogão à lenha feito de tijolos. As paredes de pau a pique eram cheias de buracos que permitiam que o ar de fora refrescasse o ambiente. Esses e os buracos no telhado não eram problema algum, uma vez que raramente chovia. Apesar da acomodação ser para lá de modesta, caiu bem depois de ter que aturar a homofobia sem base do tio do Pedro.
Do lado de fora, os cachorros vadios, galinhas e patos que circulavam por todo canto, faziam com que toda hora pegássemos bicho de pé. No final da estadia já estava craque em tirá-los com uma agulha.
Seu Chico, o dono da casa, era o patriarca das três gerações que viviam sob aquele teto de palha. Apesar do cabelo grisalho, seu corpo ainda era forte graças aos anos passados no mar. Tranquilo e de poucas palavras, impunha respeito. Sua sabedoria não vinha de livros, mas dos seus sentidos aguçados por uma vida passada interagindo diariamente com a natureza. Gostei dele de cara e nas conversas que consegui puxar passei a apreciar sua visão de mundo que era, de várias formas, mais profunda do que a de muitos de meus professores na faculdade. Conforme os papos com o velho homem do mar foram acontecendo, fui aprendendo os hábitos de todos os peixes e dos bichos daquela região. Também aprendi como apanhá-los.
A curiosidade era mútua e suas perguntas sobre nosso estilo de vida eram interessantes.
“Mas se ocês faiz faculdade, porque ocês anda vestido que nem mendigo?”
“Não sei, seu Chico. Deve ser porque no fundo a gente não quer aquilo”, falei entre garfadas no meu feijão com arroz amalgamado por farinha que sua sua mulher tinha preparado. “Lá tem muito mais dinheiro que aqui, mas parece que falta alguma coisa.”
Ele apontou para o mar por trás do quintal olhou para o céu azul de fim de tarde. “Para eles falta isto daqui.”
Um grupo de aves estava cruzando o céu em formação. Quando desapareceram ele emendou: “Tudo é uma coisa só, quem entende isso num precisa de mais nada.”
Caso algum urbanóide desdenhasse dele por não saber ler ou escrever, seu Chico poderia retrucar fácil – e corretamente – que o sujeito não tinha nenhum conhecimento sobre o meio ambiente onde vivia, isso se ainda tivesse restado algum. Para os seguidores de Moloch, o elo homem-natureza estava perdido. Fora o dinheiro, nada era sagrado. Nós, gente da cidade, tínhamos a cabeça entupida de coisas inúteis mas éramos ignorantes sobre o mais importante; a natureza tanto fora quanto dentro da gente. Não era ele que precisava pagar psicólogos ou gurus de meia-tigela nos Estados Unidos para resolver os seus problemas existenciais, nem era ele que precisava viajar tão longe porque não gostava do mundo em que vivia.
*
No pôr do sol, a moçada se agrupava à margem da duna. No Rio – bem como em todos os estados em que havíamos passado– o sol se punha no lado direito da praia. Contudo, como o Ceará fica depois da curva que a costa do Nordeste faz, lá o sol se punha em terra. De cima daquela montanha de areia fina, que lembrava uma paisagem extra terrestre, ficávamos assistindo o espetáculo do sol se pondo por trás da mata de uma planície sem fim. Sons de pássaros se preparando para a noite ecoavam da natureza. Quando o sol estava quase desaparecendo, sua imensa bola brilhava na areia e nos rostos, criando um tom alaranjado inacreditável que contrastava com o céu azul escuro acima e atrás de nós. O vento era forte e por a região ser tão seca, mesmo no auge do verão ficava frio. Com tudo escurecendo e sem nenhuma luz elétrica nas redondezas, parecia que a terra tinha absorvido a claridade e o calor do dia, e estava oferecendo em troca um visual lunar junto com uma paz indescritível.
A harmonia daqueles crepúsculos era como a de Trancoso de dois anos atrás. Numa noite especial, o pessoal em volta me pediu para tocar violão. O clima estava tão bom que todos se levantaram e fomos juntos para um campo logo atrás da duna. Lá, o pessoal abriu um círculo ao meu redor e saí tocando. Aquela roda de umas trinta pessoas cantando e dançando em torno de mim sob o luar e as estrelas foi mágica, um momento de redenção e de promessa para as ansiedades que assolavam a todos.
*
Conforme fui relaxando e deixando aquela energia positiva tomar conta, minha sorte com o sexo oposto começou a mudar. Houve um momento maravilhoso, daqueles com que um cara comum como eu podia apenas sonhar. Estava em um bar com um amigo de São Paulo, quando percebi uma loura linda de olhos verdes e pele bronzeada olhando para mim.
Tomei coragem e me aproximei. “Oi gata, que olhos lindos.”
Ela deu uma risada linda e provocante. “Obrigada, me deixaste sem graça agora, nem sei o que dizer.”
“Se você não tem nada a dizer, vamos comigo até a praia dar uma olhada no visual?”
Ela aceitou o convite a queima roupa e fomos de mãos dadas pela trilha que descia a falésia. Nos deitamos com as ondas tocando nossos pés. Não precisei falar muito. Quando a encarei, ela me deu o olhar mais lindo e a partir dali ficamos nos beijando por um tempão, nos aconchegando um ao outro sob a luz da lua.
Tinha gente passeando por ali e sussurrei: “Quer vir comigo para um lugar mais tranquilo?” Ela não falou nada, mas me deu a mão e levantamos.
Fomos para a casa em construção onde adivinhem quem estava acampando? Os gaúchos da Praia do Francês. Quando chegamos, fui me certificar se havia alguém lá. Estava com sorte, os caras deviam ter saído para a farra e a construção estava vazia. Achamos um quarto desocupado, coberto, mas com a janela ainda por fazer e sem porta. Assim que nós nos acomodamos, fiquei sem falar nada, viajando em sua absoluta beleza e em seu cheiro delicioso. Depois da pausa, começamos a sentir a pele um do outro e se pegar apaixonadamente. Um furacão de prazer tomou conta e amor veio furioso. Quando acabamos, ficamos deitados abraçados absorvendo o que tinha acontecido e apreciando aquela noite sem nuvens. O vento sobre a vegetação seca do lado de fora, o barulho dos grãos de areia levantando voo e batendo nas paredes da casa e a luz da lua entrando pela janela eram como um sonho. De repente, senti algo que quase não lembrava que existia: a sensação de estar em paz com o mundo.
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por Richard Klein | 30 jan, 2021 | Brasil, Comportamento, Conto, Crônica, Livro
Capitulo 28
Todo dia o sol levanta
E a gente canta
Ao sol de todo dia.
Caetano Veloso - Canto Para o Povo de um Lugar
A próxima parada era João Pessoa, a capital da Paraíba. Dessa vez deixamos as caronas de lado e resolvemos ir de trem. Era quase de graça e a linha se afastava da costa e entrava pelo sertão à dentro. Dada a escassez de ferrovias no Brasil isso prometia uma viagem única e imperdível. Ela nos permitiria conhecer, mesmo que de relance, essa região tornada famosa em verso, prosa e música. Depois de saciar a fome, beber umas cervejas e dar uma volta pela belíssma Maceió, fomos para a estação. Na entrada, encontramos com os gaúchos da Praia do Francês que tinham gostado da ideia e tinham resolvido se juntar.
Assim que pusemos os pés dentro do terminal, causamos uma comoção. Para os passageiros locais, ver aquela galera estranha era como presenciar a entrada da versão moderna da gangue de Pat Garrett e Billy the Kid ou de uma banda de rock recém-saída do inferno. Só faltava a camera lenta e a musica de filmes de faroeste. Sob olhares constantes e mal disfarçados, compramos passagens para o próximo trem que partiria dentro de uma hora. Sem mais nada para fazer, ficamos vagando pela estação achando graça do pessoal boquiaberto.
Depois que o trem partiu, tomamos posse de um vagão vazio. Pela janela, ficamos curtindo ver o verde litorâneo ficando para trás e paisagem se tornando muito diferente da que tínhamos visto pelo nordeste afora até então. Primeiro, veio o cerrado com sua vegetação densa porém seca e espinhosa e uns vinte minutos depos entramos na aridez do sertão.
Essa região semi desértica era a mais pobre e atrasada do Brasil, a ponto de ser considerada por estudiosos como a região mais semelhante à Europa medieval no mundo. Nela, o povo profundamente católico e supersticioso tinha um relacionamento semifeudal com os donos da terra. A cultura era machista ao extremo e havia um altíssimo grau de analfabetismo. Mesmo sabendo que não interagiriamos com essa população, só o fato de estar ali mudou o clima no trem. Continuamos em silêncio cruzando a vegetação rala no ar quente e depois de um tempo começamos a atravessar e a parar em cidades.
As estações dilapidadas pareciam remanescentes de uma era quando havia uma promessa nunca cumprida de prosperidade. Quando o trem parava, uma pequena multidão chegava às nossas janelas para nos vender todo tipo de coisa, desde garrafas d’água de plástico até animais silvestres. Em todo vilarejo, o trem era o maior evento do dia e nós – os cabeludos estranhos – os destaques. O povo se amontoava em nossas janelas apontando para nós e rindo como se fossemos uma banda de rock de gays drogados.
Algumas vezes faziam piadas sobre nós.“O sulista! Isso aí é cabelo de homem?” A meninada ria.
“Por que, bonitão? Quer que o teu macho fique gato como eu?” A meninada ria mais ainda, mas alguns não gostavam e ameaçavam jogar coisas.
Atrás das estações, mercados mambembes alojavam lojas de roupas baratas, botequins, açougues mal cheirosos e lojas de discos que tocavam alto músicas que davam arrepios de tão brega que eram. Homens andavam a cavalo nas ruas de terra batida entre carros enferrujados, jumentos sonolentos e cães magrelos. Por todo lado crianças descalças corriam sob o sol escaldante.
Quando o trem saía das cidadezinhas, voltava àquela paisagem árida e desolada que lembrava as de faroestes italianos. A população, porém, não era de camponeses mexicanos, mas uma mistura de descendentes de índios, brancos e africanos vivendo em casebres de barro com cobertura de palha. Os pequenos lotes de terra nela, lutavam para parecer fazendas naquele calor insuportável. As plantações eram mínimas e o gado era tão magro que dava para contar as costelas.
Os vagões e sua locomotiva azuis e antigos estavam nas últimas e pareciam em harmonia com o que nos cercava. Por conta do horror dos outros passageiros em compartilhar seus assentos com gente “do demo”, acabamos ficando sozinhos em nosso vagão durante a viagem inteira. Vez por outra, funcionários do trem entravam para conferir o que estávamos fazendo e geravam um silêncio hostil. Apesar da extrema pobreza passando do lado de fora e do clima tenso do lado de dentro, todos concordamos que o passeio estava sendo uma “viagem”. Claro, apesar da vigilância apertada, conseguimos fumar nosso veneno com as cabeças para fora das janelas.
*
No Rio, “paraíba” era o termo pejorativo dado aos membros do seu enorme contingente de nordestinos, sem distinção de onde vinham. Eles preenchiam o papel que mexicanos exercem nos Estados Unidos, árabes na França e paquistaneses no Reino Unido. Igual aos preconceituosos dos países ricos, muitos cariocas tinham sentimentos contraditórios com relação ao Nordestinos. Junto com o fascínio pela sua cultura e da admiração pela suas belezas naturais vinha a rejeição de imigrantes pobres vindos de lá com legados diferentes.
Quando o trem chegou em João Pessoa, a capital da Paraíba, assim que comecamos a circular pela cidade, descobrimos que, pelo contrário, a cidade tinha – pelo menos a nível arquitetônico – uma sofisticação clássica que comparava bem com a do Rio. Suas construções bem conservadas do século 19 e suas avenidas elegantes delimitadas por árvores exuberantes com postes de luz de estilo antigo faziam a cidade muito charmosa.
Porém, o principal motivo de estar contente por estar ali era que uma amiga da faculdade, Francesca, estava passando as férias com sua família Paraibana. Como muitos outros membros da elite local, eram descendentes de italianos. Loura de olhos azuis, era deslumbrante a ponto de uma revista carioca a ter eleito como a musa daquele verão. Apesar disto, o seu atributo mais atraente era seu espírito de moleque e a gente se dava muito bem.
Dessa vez íamos ficar na casa do estudante universitário e assim que chegamos, ligamos para ela. “Richard! Pedro! Seus malucos!!! Como que vocês chegaram até aqui!!?? De que?! De carona de caminhão?? Pegaram o trem pelo sertão?! Hahahaha! Vocês são muito loucos!”
Depois das piadas e de contar alguns “causos”, fui à pergunta inevitável: “E aí, Francesca? Vamos se encontrar?”
“Claro!!” Daí ela cochichou baixinho: “Mas nada de pãpãpã porque o pessoal daqui é caretasso!!”
“Beleza, claro que não, só que você vai perder o veneno que trouxemos de Maceió.”
Ela deu uma risada. “Vocês tão aonde?”
“Na casa do estudante universitário, conhece?”
“Claro! Daqui a pouco tô passando aí!”
Receando que fossemos conhecer alguém da sua família endinheirada, nos vestimos da melhor maneira possível. Na falta de outra opção, colocamos umas roupas hipongas metidas a chique compradas em Salvador. Não demorou muito e ela chegou com dois primos, ambos educadíssimos e com um visual super conservador, com certeza membros eminentes da elite local. Após as apresentações, levaram Pedro e eu num carro elegantíssimo com ar-condicionado para conhecer João Pessoa. Depois, nos convidaram para jantar num restaurante elegante. Foi um convite desconfortável, mas aceitamos por causa da insistência da Francesca.
Eles acabaram fazendo questão de pagar a conta da peixada maravilhosa. Mas diferente do jantar bizarro com dupla de mergulhadores em Vitória e suas “amigas”, não havia nenhum interesse escuso. Porém, descobririamos mais tarde entre risadas que nos confundiram com um casal gay. Não era para menos: nossas roupas neo-hippies, batas e calças floridas e soltas jamais poderiam ser classificadas como roupas para macho em qualquer cidade do mundo em qualquer tempo da história.
Na realidade, mesmo com a má impressão que causamos, tinha esperanças de, quem sabe, engatar uma aventura de verão com a Francesca. Apesar de ter um namorado no Rio, nas matadas de aula nos jardins da faculdade rolava um clima forte. Entretanto, com a família dela por perto – e eu parecendo um extraterrestre para eles – as chances de que algo acontecesse eram zero.
Além da inacessibilidade da Francesca e da elegante arquitetura de João Pessoa, não havia muito o que nos atraísse ou nos prendesse lá. Decepcionados, depois de tres dias ali seguimos rumo ao norte, para Fortaleza, a capital do estado do Ceará, onde ficaríamos com um tio de Pedro.
*
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por Richard Klein | 12 dez, 2020 | Brasil, Comportamento, Conto, Crônica, Livro
Ficamos sem entender nada e, meio envergonhados, os dois se levantaram para vir falar com a gente afastados da mesa.
“Pois é, meu irmão, os veados convidaram a gente para ir lá e falaram que vão pagar um jantar para nós quatro.”
Já eram dez da noite. Cansado da praia e da viagem, doido para dormir, falei: “Já comemos um hambúrguer, tamos na boa.” Cocei a cabeça e disse: “Aê, não dá para a gente dormir no quarto de empregada e deixar a chave com o porteiro amanhã de manhã?”
O Fernando respondeu: “Meu amigo, não me leve a mal, mas a gente mal conhece vocês, eu tô na responsabilidade do apartamento do meu tio e não dá para deixar vocês lá sozinhos.”
“Porra, mas a gente não está numa de comer veado.” O Pedro era menos diplomata que eu.
O Luiz já tinha entendido o problema. “Já falei com eles, vocês não precisam fazer nada, só precisam ir no restaurante e serem bem-educados. Depois a gente vai para o apartamento deles, vocês fazem uma salinha, vão dormir na sala de estar e a gente faz o resto. Já falei com eles. Pode ficar tranquilo, é só isso.”
O Fernando emendou: “Mesmo que vocês já tenham comido uns hambúrgueres, eles vão levar a gente para um restaurante de moqueca bonzão. Cês vão gostar.”
Me segurando para não fazer uma piada com comida, não acreditando que a gente estivesse naquela situação, me lembrei. “E amanhã? A gente vai ter que pegar as nossas coisas para pegar a estrada.”
O Fernando olhou para o Luiz também esperando uma resposta, dava para ver que ele estava menos entusiasmado com a coisa toda.
O Luiz respondeu: “Deixa comigo, vou convencer eles a passar em casa antes da gente ir para o reastaurante.” Ele deu um sorriso maroto e emendou. “Ainda por cima vou conseguir que te levem para a estrada amanhã, quer ver?”
Apesar de não gostar daquilo, naquela altura do campeonato não havia muita escolha. A barriga também estava interessada em experimentar a famosa moqueca capixaba. Saímos do passeio, nos apertamos dentro do carro das “amigas”. O Luiz explicou o problema e fomos todos ao apartamento para pegar nossas coisas. Quando viram o violão, “uma” virou para “outra” e disse.
“Nossa, que meninos talentosos, olha esse violão!”
“Ai, eu adoro cantar! Vocês vão fazer uma serenata pra gente?”
Respondi com um sorriso amarelo: “De repente… se rolar um clima.”
Esperando uma festa quentíssima mais tarde, a dupla gay levou todo mundo para o tal restaurante de moqueca. Bebemos vinho e a comida estava deliciosa, tudo por conta deles e em troca fomos educados e rimos das suas piadas. A “loura” era de fato muito engraçada.
“Tudo o que eu queria ser era o Papa. Aquela bicha é chiquérrima, não acham!? Eu ia me vestir toda de seda e ficar sentada naquele trono podre de chique mandando as bichas pobres limpar meus quadros.”
Após a sobremesa, o aperitivo e a conta, o próximo passo era ir para o ninho de amor. A “loura” morava num apartamento de dois quartos com varanda, mas sem vista. “Ela” era pintora e espírita e as paredes eram cheias de quadros da cara de um Jesus Cristo em cores gritantes e rodeado de pétalas.
“Essa é a entidade que me vem em sonhos para me proteger. Aposto que vocês não acreditam nessas coisas.”
A “morena”, que era mais recatada, mas que ria de tudo que a “loura” dizia, falou com orgulho. “Ela é muito talentosa, pintou todos estes quadros, não são lindos?”
O Luiz concordou: “Nossa, são lindos!”
A “loura” respondeu:“Obrigada, lindo, mas essa neguinha está sendo falsa, só gosta de quadros como aquele. ” Ele apontou para uma foto artística em preto e branco de um cara bem-dotado numa pose erótica. Daí ela se virou para mim.
“E você? Não vai tocar pra gente? Eu adoro bolero e música antiga. Aliás pode me chamar de Maysa.”
O Pedro e eu não aguentamos e caímos na gargalhada, me recompus e respondi: “Sabe o que é? A viola está desafinada.”
“Então afina ela, menino!”
Todo mundo, até o Pedro me pressionou.
“Beleza então.” Tirei a viola, que já estava afinada. “E então, Maysa, conhece essa? A noite do meu bem?”
A “Maysa” só faltou me agarrar. Ela até que cantava bem. Toquei essa e mais duas e depois guardei o violão.
“Muito bem carioca! A gente adorou!” O Luiz estava a ponto de soltar a franga também.
Dava para ver que ele ia ficar com a “Maysa” e o Fernando com a “morena”. O papo foi ficando tenso e depois de uma sessão de insinuações e evasivas, chegou a hora do vamos ver. Conforme combinado, cada um dos mergulhadores foi para um quarto com suas respectivas, enquanto a gente foi para a sala de estar para tentar dormir um pouco.
As luzes se apagaram, os casais fecharam suas portas e nós ficamos na sala, deitados em camas improvisadas e rindo feito dois idiotas.
“O Luiz deve estar perguntando para o barbudinho; você pinta como eu pinto?”
“Barbudinho! Hahahaha! ”
“Cara, ri mais baixo senão os caras não vão conseguir se concentrar.” Estava inspirado para falar besteira. “Tu reparou que o moreno é a cara do Little Richard. Brincadeira! O Fernando vai mandar ele abaixar para amarrar os sapatos e ficar só no wop bop a loo bop a lop ba!”
“Hahahahaha!”
Cerca de uma hora depois, uma das portas se abriu e fingimos estar dormindo. O Fernando estava para sair do apartamento e ouvimos ele dizer: “Desculpa, mas não estava inspirado essa noite.” Quase me levantei para perguntar se a gente podia ir junto, mas não deu tempo.
Depois que saiu, o apartamento ficou em silêncio, mas a porta do quarto permaneceu aberta e a luz acesa. Dava para sentir a energia inquieta do moreno. Alguns minutos depois ouvimos passos vindo em nossa direção. Com meus olhos fechados, comecei a pensar comigo mesmo: “Xiii, vai dar merda!”
Aí ouvi o Pedro dizer: “Meu irmão, tira a mão daí porra!!!”
Após alguns segundos, o mesmo aconteceu comigo e dispensei o cara e a sua mão boba. Depois disso, o moreno baixinho saiu do apartamento batendo a porta e dizendo:
“Seus brochas mal-agradecidos, vocês deveriam estar dormindo na rua!”
No dia seguinte, o outro casal nos acordou num astral muito melhor. A “Maysa” estava felicíssima vestindo um robe de seda lilás já bastante maquiada. Agarrada no pescoço do Luiz, ela disse: “Bom dia, meninos”. Daí olhou com carinho para a cara do Luiz, ainda meio sem graça com a gente. “Esse bruto roubou minha virgindade ontem à noite, vocês acreditam?”
Sentamos para conversar em volta da mesa e acabamos descobrindo que a “morena” insatisfeita era o vizinho de cima. Ele era o dono do carro que a gente tinha andado e que possivelmente ia nos levar até a BR. Ficamos conversando, esperando que descesse para o café. Quando chegou, estava mal-humorada e, por vingança, disse:
“Olha, o carro está sem gasolina e tenho um monte de coisas para fazer hoje de manhã, não vai dar para ir até a estrada.”
A “Maysa” estava do nosso lado.
“Deixa de ser amarga, neguinha, hoje é um dia novo e você vai achar um lindinho tão gostoso como esse para você. E não seja mentirosa, enchi o tanque do teu carro ontem e o salão está fechado hoje.”
O outro tentou protestar, mas a nossa ”amiga” emendou: “Somos duas moças de família e vamos fazer o que prometemos para esses cariocas, depois vamos dar uma volta com esse bofe.”
Tomamos café juntos e não demorou muito para o moreno melhorar seu humor. De barriga cheia, fomos os cinco até um posto de gasolina fora da cidade. Ainda meio atordoados por conta daquela primeira noite maluca, agradecemos e nos despedimos.
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por Richard Klein | 31 out, 2020 | Comportamento, Conto
Haviam mais contradições. Em alguns finais de semana, deixava de lado a pretensão hippie, arrumava o cabelo, colocava uma camisa com colarinho, sapatos de couro brilhantes, cinto e calça social para ir às gafieiras. Resquícios dos dias de glória do samba nos anos 1930 e 1940, a maioria ficava em torno da Praça Tirandentes, na Lapa. Não era apenas a arquitetura que permanecia intacta, as orquestras de samba que tocavam ali também. Elas eram autênticas, lideradas por sambistas da antiga encantados por estar virando moda de novo tanto na Zona Norte quanto na Zona Sul.
Ainda mantinha a amizade com o Davi e com a galera “brima” e ia com eles. Mas quem dizia que ia lá pela dança ou pela experiência autêntica estava mentindo. Para nós, a atração maior era o monte de mulheres bonitas provenientes do lado “errado” da Floresta da Tijuca, algumas novas na cidade, interessadas em jovens do lado “certo” da cadeia de montanhas. Depois das danças de rosto colado sob luzes imitando as de discotecas havia as cervejas, os beijos introdutórios e as trocas de números de telefones. Vindos de mundos diferentes, o anonimato protegia ambos os lados e permitia casos rápidos sem a pressão dos círculos sociais mais chegados. Era raro sair de lá sem resultados. Seguindo a mentalidade da época, estávamos fazendo o que se esperava de machos latino-americanos e por mais frio que possa parecer, era isso que as atraía.
Apesar dasses sucessos, ser tímido com as garotas que interessavam e corajoso com as que não, nunca levaria a uma vida afetiva saudável. O esforço para criar uma aura bacana na esperança de atrair uma garota à altura dos meus sonhos não estava dando certo. Talvez por não ser sincero o bastante, não ter a familia suficientemente rica ou por ser esquisito demais, ou talvez por pura impaciência, o que eu queria não se materializava. Ainda por cima, havia um demônio subversivo me dizendo que a felicidade num relacionamento resultando em casamento e familia era uma fantasia que só existia na cabeça de burgueses.
*
A pressão em torno do vestibular estava aumentando exponencialmente. A um mês da prova, a música e as festas teriam que ficar em segundo plano. Se não colocasse trabalho duro na equação, nada de universidade boa nem de tolerância em casa. Isso pedia medidas radicais e por isso fui para Teresópolis para passar duas semanas me preparando isolado.
No dia da primeira prova, acordei de madrugada. Sem conseguir pegar de novo no sono, fui para a praia para me acalmar. O nascer do sol estava espetacular e o mar estava calmo e convidativo. Mergulhei, nadei, peguei umas ondas e relaxei. Quando saí, percebi um homem na passarela olhando para mim. Parecia um Zé Pilintra vestindo um terno de linho branco, chapéu. Ele era alto, usava um bigode curto, e na hora me veio em mente Alec, meu avô por parte de mãe. Aquele encontro bizarro me deu calafrios na espinha, mas o encarei como um bom presságio.
Fui para casa, tomei banho e café da manhã e saí para pegar o ônibus rumo a uma velha escola primária no final do Leblon. Quando saltei me juntei às centenas de outros estudantes esperando no portão. depois de uns dez minutos, funcionários vestidos em jalecos vieram para nos deixar entrar. O primeiro passo era ver a sala onde deveríamos ir em um quadro de avisos. Achei a minha, entrei e fui me sentar no fundo numa cadeira escolar com braço dobrável, a parte de baixo cravejada de velhos pedaços de chiclete.
Quando deu nove horas, os portões fecharam e os inspetores, todos na faixa dos vinte anos, passaram pelas carteiras nos entregando lápis e borracha. Um pouco depois, alguém mais graduado entrou, fez a chamada e nos colocou a par das regras: nada de cola, nada de conversa e quando dissessem que o tempo acabou todos teriam que entregar as provas imediatamente. Depois disso, nos deram grossos envelopes de tamanho A4 contendo as provas e um cartão onde deveríamos marcar as respostas de múltipla escolha.
Os exames eram divididos em quatro dias. Confesso que nas provas de física e química, fui com algumas fórmulas importantes anotadas na parte de baixo das minhas calças, mas nas outras, português, matemática, línguas, história, biologia e geografia, joguei limpo.
*
Com medo do pior, no fim de semana quando os resultados seriam anunciados nos jornais, Kristoff e eu fugimos para Mauá. Acampamos perto da Maromba onde a única ligação com o mundo exterior era o telefone pago de uma pousada. No domingo que saíram os resultados, seria mais seguro ficar sabendo da notícia à distância. O plano era ligar para a Sarah que tinha passado pelo mesmo processo e não me julgaria tanto caso tivesse me dado mal.
Quando atendeu o telefone, ela já tinha procurado por meu nome. Para a absoluta surpresa de todos, eu havia passado para a UFRJ, a Universidade Federal do Rio de Janeiro, no primeiro semestre do seu conceituado curso de Economia, considerado o melhor do Rio e um dos melhores do país. A teoria de ser contra tudo que o vestibular representava evaporou na hora.
“Caralho, mana! Tu tá falando sério!? UFRJ, primeiro semestre??!!!”
“É, seu cagão, e ainda vai ter a moleza de estudar na Urca. ” Ela tinha cursado a mesma universidade mas no Fundão do lado do aeroporto. Mas na hora aquilo não importava, ela tinha deixado de lado sua distancia e estava contente.
“E os velhos?”
“Estão nas nuvens. Não acreditaram também. Tu é muito sortudo, mano! Um dia você ainda vai me explicar como você conseguiu essa façanha depois de tanta vagabundagem.”
“Ah, quem tem os genes da Dona Renée consegue qualquer coisa, ela nunca te contou?”
A gente riu um pouquinho. “Eles saíram para Teresópolis faz uma meia hora, ficaram esperando você ligar, mas acabaram desistindo.”
“Foi o que eu calculei.” Demos mais risadas. “Obrigadão mana, um beijo.”
“Um beijo e parabéns mano. Pode curtir à vontade aí e aguarde uma recepção de gala na volta.”
Antes de desligar, o Kristoff me deu uma cutucada e me lembrei: “Você também procurou pelo nome do Kristoff?”
“Procurei, passa o telefone para ele que eu quero dar a notícia eu mesma.”
Ele tirou o telefone da minha mão apressadamente, “Fala Sarah, tudo bem?”
A reação dele foi uma risada alta. “Ha, ha, ha, nem dá para acreditar!” Ele tinha passado para biologia para a mesma UFRJ, um dos cursos mais difíceis de se entrar, com 20 estudantes por vaga.
*
Depois daquele telefonema estávamos os dois nas nuvens. Para comemorar a ocasião especial, a gente resolveu experimentar a mais recente coqueluche alucinógena da galera: chá de cogumelos. Mauá era conhecida por tê-los e o clima estava perfeito para que brotassem, ensolarado após alguns dias de chuva pesada.
Corremos para as pastagens próximas, mas não encontramos nada. Nossas esperanças se reascenderam quando alguém nos disse que certamente encontraríamos alguns nas pastagens de Campo Alegre, um vilarejo a 40km. O problema era que o nosso único meio de transporte era nossos pés, mas tínhamos bastante obstinação para sair numa caminhada de quase um dia inteiro para colher nossos fungos dourados.
Fomos na hora. A caminhada exaustiva valeu a pena: encontramos um campo cheio deles e colhemos o que conseguimos sob o olhar ameaçador do touro dono do pedaço. Tínhamos que ser cuidadosos: havia duas espécies parecidas de cogumelos nas pastagens. Os dois eram do mesmo tamanho e com o mesmo formato. O que queríamos tinha listas pretas na parte de baixo, o outro tinha listas brancas e era venenoso. Quando terminamos, depois de um momento de euforia, caímos na real e lembramos de que ainda tínhamos a longa caminhada de volta pela frente.
De volta ao acampamento, cansados, aproveitamos os últimos minutos de sol para um mergulho merecido no rio. Quando estávamos prontos para a noitada, resolvemos não fazer um chá já que daria trabalho demais, simplesmente abrimos a bolsa, dividimos a colheita, três para cada um, e os comemos. Eram parecidos com cogumelos comuns só que tinham um sabor mais marcante. Contudo, naquela altura o aspecto culinário era irrelevante.
Já estava escuro quando voltamos para a estrada, dessa vez com os instrumentos debaixo do braço. Tivemos sorte de pegar uma carona. O dono do carro era um casal mais velho de paulistas procurando uma pousada depois da Maromba. Eles estavam ansiosos para saber se tinhamos dicas de bons restaurantes bons e lugares para conhecer na área. No banco de trás, olhando pela janela, tentando responder suas perguntas, comecei a sentir a cabeça ficar leve. Quando saímos e vimos as luzes do carro se distanciar no escuro da estrada de terra, já nos encontrávamos em território psicodélico.
Estávamos na praça da Maromba – um quadrado de terra delineado por poucas casas, um armazém, um bar e uma igreja. Para não sair numa tangente incontrolável, tivemos o bom senso de ir ao bar. Sendo o único nas redondezas, era o lugar onde a malucada se encontrava à noite para levar um som. As únicas outras luzes ao redor vinham do armazém no outro lado do terreno baldio. O pessoal da terra se reunia lá para beber bebida barata em torno de uma mesa de sinuca. Os dois grupos respeitavam o espaço do outro. Uns completamente chapados de um lado e os outros igualmente passados por uma mistura fatal de cachaça com o famoso mel da região do outro.
Já havia dois caras sentados na mesa principal do nosso bar dedilhando alguma coisa no violão. Perguntamos se podíamos afinar com eles e saímos tocando. Com quatro pessoas tocando o pessoal foi chegando. Depois de um tempo, Leandro, a estrela musical da nossa turma, que mais tarde se tornaria o guitarrista predileto do Cazuza e que chegou a tocar com Roberto Carlos, apareceu e fez o som decolar para as alturas. Mais tarde, autointitulado padrinho dos músicos de Mauá, o lendário e veterano Serginho do Mel, também apareceu do nada pedindo para gente fazer uma levada de blues. Mais pessoas foram se juntando e no final, deveria ter uns sete ou oito músicos captando o que os espíritos tinham a dizer sobre a beleza das montanhas e o que a lua prateada e as estrelas acima dela estavam achando daquela noite.
A população de doidos da Maromba acabou comparecendo em peso e, eufórica, se juntou participando com o que quer que pudesse aumentar a energia – cantando versos improvisados, batendo palmas, batucando nas mesas e nas paredes frágeis do bar ou simplesmente dançando. Como num quadro louco de Van Gogh, a música, o lugar e as pessoas se misturaram num transe que durou horas.
Não me lembro como aquela explosão de psicodelismo terminou e nem onde dormi. Só sei que de manhã, quando fomos tomar nossa dose diária de leite tirado da vaca e quase todos da noite passada estavam lá na fila. Enquanto esperávamos a coitada da vaca dar seu leite para aquela malucada, todos comentavam o quanto o som tinha sido bom. Aos poucos fomos descobrindo que todos os músicos tinham comido cogumelos, mas não sabiam que os outros também tinham e isso virou a piada da cidade.
Passamos o resto do dia curando nossas ressacas no escorrega, um tobogã aquático natural que ficava depois da Maromba, se espatifando na água gelada depois de pegar velocidade nas pedras. Aqueles choques térmicos nos trouxeram de volta à vida normal e à lembrança de que tínhamos deixado o pesadelo do vestibular para trás com uma vitória.
…
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