por Mauro Nadvorny | 21 abr, 2020 | Comportamento, Crônica
Madrugada. As nuvens pesadas prenunciam chuva. As ruas caladas por falta dos transeuntes davam a sensação de abandono. Apenas um uivo longe de um cachorro solitário espantando os medos. Marcos debruçado sob a máquina de escrever, que era de seu avô, tentava redigir a crônica do domingo para o Jornal do Povo. Uma inquietude o atormentava, pois seu texto, mesmo com humor e trocadilhos, iria mexer com a intimidade do homem mais importante daquelas paragens. Dono de um latifúndio e rede de farmácias e supermercados. O homem era excêntrico e sua vida era marcada por muitos mistérios. Vivia sozinho, apenas um serviçal e dois pequenos lagartos eram suas companhias. Usava sempre a mesma cor cinza. Até sua casa suntuosa tinha essa cor dando ao lugar um ar de solidão e tristeza. Só em alguns dias e noite especiais, como natal, páscoa e dia de todos os santos ele contratava as floriculturas da cidade para enfeitar todos os cantos e recantos do jardim e da casa. As boleiras e confeiteiras eram levadas para a grande cozinha que ficava ao fundo da mansão e passavam a manhã inteira a fazerem bolos, doces e iguarias deliciosas para serem servidas as crianças de toda a cidade e redondeza. A cidade ficava em festa. Os presentes para a criançada era escolhidos com esmero e parece que ele adivinhava cada desejo e sonho de cada uma. Era mágico aquilo. Ninguém sabia explicar o milagre das festas e o lúgubre tempo de silêncio da mansão. Quando as crianças entravam tudo era lindo: brinquedos, piscinas, as iguarias, tudo perfeito. O homem ficava de sua sacada olhando toda alegria e folia da meninada e seu olhar sempre sério e frio ficava doce e terno. Parecia que certa juventude tomava conta dele e por pequenas horas ele se tornava vivaz e fagueiro. Era algo lindo de se reparar. Os comentários perduravam por dias e dias e o homem voltava para o seu mundo desconhecido. Apenas falava com os homens de sua confiança de negócios e nada mais. Nenhuma palavra. Nenhuma revelação. Marcos queria escrever sobre um fato que ouvira em um dos bares da cidade sobre o misterioso dono do “mundo”. Era assim que o chamavam. Os homens entre um carteado e outro, comentavam sobre uma noite de chuva que o haviam visto se dirigindo para o bosque que cercava a cidade e ao voltar carregava algo como se fosse um corpo em seus braços. Com tantos carros ele andava a pé. Era isso que estranhava e fomentava os fuxicos daquele lugar. E os longos e profundos gritos de dor que se ouvia dos muros daquele lugar de estranheza. A crônica seria sobre o imaginário mundo dos ricos, e, por recorte, ele escreveria sobre as esdruxulas manias do homem em questão. Mas sabia que correria o risco de ser cruel e sarcástico com alguém que pouco sabia e aparentemente era inofensivo. Mas abana a cabeça e inicia a escrita como sempre. Um fato espantador… O homem guardava em um porão a alma de sua filhinha e precisava das crianças para senti-la viva e correndo pelo jardim, assim diziam os homens daquele bar e caiam na gargalhada já embriagados pela cachaça caseira. Marcos fumou mais um cigarro e sem reler o seu texto leva-o ao jornal para divertir e provocar a curiosidade das pessoas que o acompanhava domingueiramente as suas crônicas cheias de picardias e poucas verdades. Era a sua marca. Verdades absolutas só em seus escritos nunca publicados em que caminhos eram cruzados de dor e abandono.
Gigi Pedroza
por Mauro Nadvorny | 20 abr, 2020 | Brasil, Comportamento
Estamos entrando no dia da Lembrança do Holocausto, uma das maiores tragédias humanas conhecidas. Um genocídio que recebeu um nome específico para determinar um acontecimento inimaginável. Os nazistas criaram uma indústria de morte cuja organização e determinação, ceifou a vida de 6 milhões de judeus.
Nunca esquecer, e nunca perdoar. Estes dois mantras são repetidos por todos os que sobreviveram e por seus descendentes. Para se ter uma dimensão do que ocorreu, somente no ano passado o número de judeus no mundo se igualou ao número existente antes da Segunda Grande Guerra.
A tragédia humana do Holocausto é motivo de estudos antropológicos, sociológicos e existem milhares de livros sobre o assunto. Filmes, séries e tudo o mais que sirva para mostrar as novas gerações o que verdadeiramente aconteceu para que nunca mais voltasse a acontecer.
Infelizmente parece que os humanos não aprendem com seus erros. As guerras estão aí para mostrar do que somos capazes em termos de destruição e morte de civis. Não existe maneira de acabar com os conflitos e eles continuam pipocando mundo afora fazendo novas vítimas e aumentando o número de refugiados.
Se alguém quiser saber como foi possível que 6 milhões de pessoas fossem exterminadas por terem nascido judias, e achar que nenhum povo aceitaria uma coisa destas, saiba que aconteceu no país mais culto da Europa, na Alemanha. Hitler era um mané, um Zé ninguém. Sua pessoa em termos de importância social ou política, era zero. Os democratas achavam que ninguém com o mínimo de bom senso, aceitaria escutar o cara por mais de cinco minutos. Deu no que deu.
Bolsonaro não é diferente. Sua insignificância política é notória. Sua importância na sociedade era a mesma de uma ameba. O sujeito era uma caricatura de carne e osso. Usava de impropérios e disparates para se promover e dizia com todas as letras o que achava dos políticos, da democracia, das mulheres, dos gays, dos negros etc. Sua adoração a ditadura e a tortura são notórias. Deu no que deu.
O Brasil está nas mãos de um lunático inconsequente e os democratas se fazendo de sonsos achando que controlam o energúmeno. Sua maneira de lidar com a pandemia mundial do Covid-19 e motivo de apreensão no mundo civilizado, principalmente onde o vírus chegou com força e deixou milhares de mortos. Tirar este estrupício do poder é urgente e premente.
Todos estamos preocupados com a economia e o pleno emprego, mas mais preocupados ainda em salvar vidas. Não há dinheiro que pague uma vida humana. O vírus vai ser enfrentado pelos vivos e a economia será reconstruída pelos vivos. Precisamos preservar a vida a qualquer custo.
Ninguém esperava por um acontecimento desta magnitude. Ninguém estava preparado para isso. Não existem fórmulas prontas. Praticamente estamos enfrentando o Covid-19 na base do erro e do acerto. Medidas erradas são corrigidas e os acertos mantidos. Nem tudo que deu certo em um país, necessariamente dará certo em outros, no entanto é isso o que se deve fazer e uma das medidas que comprovadamente salvam vidas é o confinamento social.
No fim das contas este evento será um grande aprendizado para o que ainda está por vir. O Covid-20, 21 e assim por diante. Muitas lições serão tiradas do que estamos vivendo. Muita gente terá de explicar os erros cometidos e a falta de transparência. Temos sim vilões que vão enfrentar a justiça. Bolsonaro será um deles.
No dia da Lembrança do Holocausto, confesso que meu coração se enche de tristeza com tudo o que está acontecendo. Imagino que que para os sobreviventes, esta prova não era necessária e eles não precisavam passar por isso no estágio da vida em que chegaram. Lamentavelmente todos se encontram no grupo de maior risco pela idade avançada.
Minha mensagem neste dia é de que não se deixem enganar por soluções mirabolantes, por remédios e vacinas inexistentes. Não existe cura, não existe medicação e nem vacina ainda. Tudo isto vai chegar provavelmente no ano que vem.
Neste dia de memória as vítimas do Holocausto, vamos ascender mais uma vela pelas vítimas do Covid-19.
por Richard Klein | 18 abr, 2020 | Brasil, Comportamento, Literatura
Capítulo 04
"Todos juntos vamos,
Pra frente Brasil,
Brasil! Salve a seleção”
Hino da seleção - 1970
Em 1962, enquanto o mundo despertava para a década mais colorida do século vinte, Renée voltou do hospital com um filho, os Rolling Stones e os Beatles gravaram seus primeiros singles, o mundo quase começou uma Terceira Guerra Mundial, desta vez nuclear, por causa de mísseis soviéticos em Cuba, Adolf Eichman, o engenheiro do Holocausto, foi executado em Israel, João Gilberto e Tom Jobim fizeram a sua estreia americana no Carnegie Hall em Nova York e Marilyn Monroe morreu de overdose em Los Angeles.
No entanto, para a grande maioria dos Brasileiros, o que mais marcou aquele ano foi o segundo campeonato mundial da sua seleção de futebol. Se alcançar a glória no esporte mais popular do planeta eletrizava países “desenvolvidos” como a Itália, a Alemanha e a França, é difícil imaginar a explosão de orgulho nacional e de pura alegria que tomou conta do país. Aquele time mulato, vindo das ruas, se impondo no cenário internacional pela segunda vez foi uma injeção insubstituível de autoestima e de otimismo.
Depois do apito final que selou a vitória brasileira de três a um na final contra a Checoslováquia, no Chile, as comemorações tomaram conta das ruas e só pararam nas primeiras horas da manhã do dia seguinte. Como seria de se esperar, as batucadas de rua foram a alma do Carnaval fora de estação. Sambistas desceram dos morros lembrando ao “asfalto” que suas proezas instrumentais eram irmãs das proezas futebolísticas dos craques que estavam trazendo o título para casa. As comitivas de batuqueiros contavam com mulatas espetaculares se requebrando ao ritmo irresistível dos tambores. Bem antes dos biquínis fio-dental aparecerem nas praias cariocas, seus trajes já deixavam quase tudo à mostra, realçando seus movimentos ousados e deixando a moçada com água na boca. Acompanhando o samba, torcedores de todas as raças, idades e classes sociais extravasavam sua alegria. Inebriados pela vitória e regados pela cerveja, recordavam os gols dos heróis daquela campanha – Garrincha, Didi, Vavá entre muitos outros. Pelé havia se contundido e tinha ficado de fora.
*
Oito anos depois, em 1970, depois de uma decepcionante campanha em 1966 na Inglaterra, onde o país de Renée tinha se sagrado campeão, o Brasil estava a caminho do México para tentar o seu terceiro título mundial. Dessa vez, além de um time repleto de craques, entre eles um Pelé superpreparado e consciente de que esta seria sua última Copa, havia uma novidade: as transmissões televisivas. Graças a elas, a nação inteira poderia ver seus craques jogando ao vivo no estrangeiro.
Aproveitando o casamento de um evento tão popular com a nova tecnologia, o regime militar, instaurado já há seis anos, resolveu investir pesado na seleção. Com problemas de popularidade devido à crescente polarização econômica e ao endurecimento da repressão política, os militares queriam assegurar uma aposta vital de que o país se sagraria campeão.
A ideia era unir a nação em torno do futebol e, por via de maquinações midiáticas, associar as conquistas dos atletas a uma imagem positiva do regime. Foi assim que o país se viu mergulhado numa febre de patriotismo, a chamada “corrente pra frente”.
Nos recantos mais remotos do país, milhares de vilarejos receberam seus primeiros televisores para que o povo pudesse fazer parte dos “noventa milhões em ação”, como dizia a canção oficial da seleção. Durante a Copa, seus moradores se amontoariam em torno desses únicos aparelhos, muitas vezes em praças de terra no meio do mato, para assistir o “escrete canarinho” em ação.
Pelo país inteiro, praticamente todo carro tinha uma fita verde e amarela amarrada à antena e todo estabelecimento ostentava pelo menos uma bandeira ou um cartaz da seleção, fosse de um jogador ou do time completo. Nossa rua, a Siqueira Campos, se juntou à comoção. Quase todo apartamento tinha uma bandeira pendurada da janela. Os moradores mais entusiasmados se deram ao trabalho de colocar milhares de bandeirolas coladas em fios que cruzavam de um lado a outro da rua, começando na praia e indo até seu final no morro da Saudade. O bairro todo fez igual e Copacabana se fantasiou para a Copa.
Ao mesmo tempo, em qualquer oportunidade, as estações de rádio e de televisão estimulavam o fervor futebolístico e o misturavam com mensagens pró-regime. Haviam adesivos colados por todos os lados com slogans como “Brasil: ame-o ou deixe-o” e “Deus é brasileiro”.
O que poucas pessoas sabiam é que o técnico do time, João Saldanha, apesar de um apaixonado pelo seu país e pelo talento dos seus jogadores, era um comunista dedicado que organizava reuniões do partido ilegal em sua casa. Porém, depois de Saldanha ter se negado a convocar Dario – o Dadá Maravilha –, um dos favoritos do presidente Médici, e de dar declarações políticas inconvenientes enquanto fazia a inspeção de um dos estádios onde o time ia jogar no México, os generais interviram. Eles ordenaram que Zagallo, um ex-jogador branco e de classe média que havia participado das campanhas vitoriosas de 1958 e 1962, o substituísse.
*
Graças às teorias conservadoras da minha mãe, eramos uma das poucas famílias no bairro sem um televisor. Para mim, com oito anos de idade e imerso até o pescoço na febre assolando todos os meninos brasileiros, aquela aversão à tecnologia era deseperadora. Já tinha perdido a oportunidade de ver o primeiro homem pisar na lua na casa de uns vizinhos porque era tarde demais. Porém me barrar de ver a Copa do Mundo seria cruel demais.
Rafael aliviou minha barra anunciando que iríamos assistir os jogos no apartamento do Paulo. Ainda que fosse um esquerdista convicto, seu amigo pertencia ao século vinte e possuía uma televisão, apesar da propaganda fascista, que na sua opinião, ela vomitava sem parar.
O primeiro jogo da Copa foi entre União Soviética e México. Todos consideravam esses dois times potentados menores do futebol mas, por alguma razão, assistir a cerimônia de abertura era uma obrigação para qualquer um que quisesse merecer o título de torcedor brasileiro.
No dia do jogo, para minha alegria e alívio, fomos lá. Depois da abertura espetacular, presenciamos o Paulo torcer para o time que levava estampada na frente da camisa a inscrição “CCCP” – a URSS, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Recusando-se a pronunciar a palavra “soviético” muito menos “socialista”, o locutor se atinha a chamar o time de “Rússia” e mesmo assim mencionava o nome o menos possível provocando alguns resmungos da parte de nosso amigável anfitrião. Depois que o jogo terminou, voltei para casa empolgado. A aguardada copa tinha começado e como o resto da nação não podia esperar pelas batalhas que estavam por vir.
O Brasil jogou sua primeira partida, contra a Checoslováquia, alguns dias depois. O jogo era à noite e em um dia de semana, muito tarde e um tanto incômodo para assistir na casa do Paulo. O jeito foi ouvir no rádio. Ignorando os protestos de minha irmã, meus pais permitiram que trouxesse meu radinho de pilhas para a mesa de jantar. Quando o jogo começou, liguei o aparelho coloquei o volume alto o suficiente para que pudesse ouvir e baixo o suficiente para que a Sarah aceitasse. Depois de uns dez minutos, para o desespero da nação verde e amarela, o adversário marcou o primeiro gol. As palavras secas do narrador cortaram o peito do Brasil como uma navalha. Lá fora o silêncio era tanto que parecia que o fim do mundo tinha chegado. A Sarah olhou para minha cara entristecida e debochou.
“Ha, ha, ha! Tomaram um gol, bem feito!”
Aquela provocação foi um erro. Xinguei ela de vaca e joguei minha coxa de frango na cara dela. Na hora meu pai me mandou para o quarto. Fui com o rádio feliz da vida, pelo menos lá, poderia ouvir o resto do jogo sem a interferência de uma menina. Logo depois, para alívio geral, o Brasil marcou seu primeiro gol, virou a partida e terminou ganhando por um convincente quatro a um.
*
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por Mauro Nadvorny | 16 abr, 2020 | Brasil, Comportamento, Política
É incrível como o tipo bolsonarista é espelho do seu “mito”: não tem nada de inteligente a dizer, é osmótico, assume-se como ignorante, cultua a violência, elogia ditaduras, e vê o mundo que esteja fora dessa sua coisa “miserável” como “comunista”. Ademais, demonstra uma falta de senso de civilidade, solidariedade e respeito pelo outro. Por exemplo, a insistência em não isolar-se neste momento de coronavírus é a mais expressiva demonstração de estupidez e desrespeito pelo próximo! Considerar que apenas “idosos” morrem disso (e isso não é problema), é perversidade e nazismo substancial!
O bolsonarista não é Cristão, Judeu, Muçulmano, de matriz Africana, Kardecista, Ateu etc. Ele nada sabe dos valores INTRÍNSECOS do Cristianismo, Judaísmo, Islamismo, matriz Africana, Kardecista, Ateísmo… Ele repete isso, mas não é isso, pois apenas os valores ÉTICOS (dispenso os fundamentos teológicos ou ateológicos) de tais Culturas (Ateísmo também é uma cultura de resistência ao discurso teologizante) seria suficiente para criar um mundo são, alegre, solidário, proativo, criativo e de amor.
Amigos e Amigas, vejam os “empresários”, os “artistas”, os “filósofos”, os “políticos”, os “do povo”, os “juristas”, os “religiosos”, os “professores”, os “alunos” e outros “grupos” que falam em defesa de Bolsonaro. Vejam como se parecem, como são iguais. Podemos dizer que quase todos eles, e elas, têm a mesma cara: são rasos, falam em “deus” de modo doentio, não têm informações, são incultos, adoram “frases” (bíblicas ou não), odeiam o PT (mas, não fazem parte de qualquer agremiação política), odeiam (hoje!) o Dória, o Witzel (porque se afastaram do seu “capitão”), e a grande maioria é racista, anti-cotista, machista e sexualmente problemática.
Por fim, aqui dos Estados Unidos, tenho algo triste a informar sobre o Brasil. Esse país tem sido lembrado a toda hora nos Jornais e programas. Alguns ironizam-no; outros demonstram surpresa com a falta de civilidade, sobretudo, em relação ao combate e controle do coronavírus!
(Pietro Nardella-Dellova)
por Richard Klein | 11 abr, 2020 | Brasil, Comportamento, Literatura
Em termos de família, não estávamos sós no Rio de Janeiro. Embora isso nunca tivesse pesado na sua decisão de emigrar, Rafael, tinha uma prima distante morando em Copacabana. Duscha e o marido tinham se mudado da Alemanha para o Rio antes da guerra. Ao contrário dos meus pais que tiveram filhos numa idade avançada – Rafael tinha sessenta e dois e Renée quarenta e dois quando nasci– ela teve seus filhos jovem, logo que chegou. Portanto, nossos primos eram uns quinze ou vinte anos mais velhos.
Minha prima acabaria se tornando uma atriz e cantora famosa; Bibi Vogel. Com seu jeito frágil, seus olhos verdes penetrantes, seus lábios escuros e seu corte de cabelo hippie ela foi uma das musas de sua geração. No entanto, não foi só a beleza que a trouxe fama. Era uma excelente cantora, e com seu estilo parecido com o de Joan Baez, chegou a gravar álbuns de algum sucesso. Contudo, Bibi se tornou mais conhecida como atriz, mostrando seu talento cedo num dos papéis principais na versão brasileira de Hair, o ícone musical da contracultura dos anos 1960.
Quando eu era bebê, antes de virar famosa, Bibi se mudou para Nova York. Lá, tentou a sorte com a banda de bossa nova de uns amigos. Eles eram bons e aproveitando a popularidade da música brasileira, conseguiam lotar barzinhos, casas noturnas e até teatros. Depois de um ano ou dois, Bibi voltou para visitar os pais. No Brasil, ouviu “Mas Que Nada”, o sucesso de Jorge Ben (“ôôôô… Mariá aiôô, obá, obá, obá…”).
Encantada com seu balanço, quando voltou a Nova York, apresentou a canção à banda. Todos adoraram na hora. Depois de adotada, ela passou a ser uma das favoritas dos músicos e do público. Pouco depois, minha prima decidiu abandonar seus companheiros para ir atrás do namorado que estava de mudança para a Califórnia. Sem muita cerimônia Sérgio Mendes a substituiu por uma vocalista americana. Alguns meses mais tarde, conseguiram assinar um contrato com uma gravadora que trouxe o mega produtor Quincy Jones para ajudar. Quando o disco saiu, Sergio Mendes e o Brasil 66 transformaram o sucesso de Jorge Ben numa referência internacional.
Depois da aventura americana, Bibi voltou ao Brasil e fez carreira como atriz na TV Globo. Contudo, a vida de artista pode ser dura e quando o bolso aperta, cada um se vira como pode. Ao me tornar adolescente, fiquei boquiaberto ao deparar com uma foto da minha prima seminua na capa da Status – a primeira revista “masculina” do Brasil. Mais chocante ainda, acabaria também vendo imagens da Bibi estampadas em cartazes de pornochanchadas. Esse era um estilo de filmes com elementos das chanchadas, comédias musicais dos anos 1950 com Oscarito e Grande Otelo, mas com um tempero soft-pornô. Embora péssimos, lotavam salas de cinemas com homens solitários da classe baixa e adolescentes da classe média com documentos falsificados dizendo que eram de idade. Os dois grupos gastavam suas economias para ver atrizes mostrando seus seios em situações sexuais.
Se só o fato de ter uma prima envolvida nisso era estranho, para tornar a coisa ainda mais bizarra, sua mãe, Duscha, era a cantora principal no coral da nossa sinagoga. Nos feriados importantes do calendário religioso judaico, ela agraciava a comunidade com a sua voz treinada e angelical.
O que mais me confundia era que, apesar das conquistas artísticas da Bibi e da sua imagem serem contrárias a tudo o que meus pais pregavam em casa, eles não conseguiam deixar de sentir orgulho dela. Como em qualquer família de classe média, sucesso era mais importante do que caracterizavam como virtude. Não concordava com esses conceitos e nunca deixei de ser fascinado pela minha prima mais velha que nos encantava contando e encenando histórias e nos lendo trechos das suas peças de teatro favoritas quando éramos pequenos. Além de ser muito culta, tinha uma personalidade que impunha respeito, foi uma das primeiras feministas do país e era enturmada com a nata artística da sua geração.
Não podia deixar de sair em sua defesa quando meus amigos faziam gracinhas a seu respeito.
“E aí, Rique! Está cobrando quanto pela meia hora com a tua prima?”
Para mim, Bibi foi uma inspiração importante: se alguém da minha família tinha conseguido se dar bem no meio artístico, por que não eu?
*
Em casa, na escola e nos círculos de amizade de meus pais, todos me consideravam “artístico”; algo que nunca soube dizer ao certo se era um elogio ou uma forma educada de dizer que era um caso perdido. Certos ou errados, gostava de desenhar e era vidrado em cinema e em livros; se a história me tocasse passava semanas fantasiando. Porém, acima de tudo, a música mexia comigo. Musicalidade era um gene que corria na família, não só do lado da Bibi mas, principalmente, do lado da minha mãe. Por décadas, meu tio, o maestro Sydney Torch – o primeiro da família do meu avô Alec a se mudar da Estonia para Londres – conduziu a orquestra de concertos da BBC. Duas gerações mais tarde, Ben Mandelson, meu primo de Liverpool, seria guitarrista do consagrado bardo da esquerda britânica, Billy Bragg, nos anos 1980.
Como minha mãe proibia qualquer tipo de gênero popular em casa, cresci ouvindo música clássica e era um apaixonado. Nos fins de semana, acordava cedo e aproveitava a sala vazia para ligar a vitrola e ficar conduzindo orquestras invisíveis com a minha caneta telescópica japonesa.
Apesar da falta de entusiasmo de Rafael, vendo uma promessa de talento, Renée providenciou aulas de música. O professor que a escola ofereceu era uma pessoa especial. Mr. Stansfield tinha vindo para o Rio por meio de uma instituição de caridade ligada à Igreja da Inglaterra. Ele sofria de paralisia cerebral e os sintomas eram severos – tinha uma completa falta de coordenação motora que tornava o simples ato de andar difícil. Contudo, isso não afetou sua habilidade de ensinar um menino de sete anos a tocar flauta doce.
Depois de vencer a dura batalha para conseguir tocar a minha primeira canção – Au Claire de la Lune – o instrumento passou de inimigo a meu melhor amigo. Descobri a magia de fazer e de criar música e passei a tocar quando e onde podia. Os sons e as frases que saíam da flauta me ligavam a uma energia sutil que parecia escapar à maioria das pessoas. Apesar de meus inimigos da escola encararem minha nova descoberta como mais um motivo para me atacar, vizinhos, professores, família e amigos me encorajavam.
“Ele traz vida à escola com a sua flauta”, disse uma professora à minha mãe, se referindo às minhas aventuras musicais explorando o eco dos corredores vazios enquanto esperava pelas aulas do Mr. Stansfield.
“Que graça teu filho tocando música nesta idade”, diziam os vizinhos, opinião talvez suspeita por causa da etiqueta polida do prédio.
De qualquer forma, depois de mais ou menos um ano tendo que aguentar minhas intermináveis viagens musicais, todos os encolvidos ficaram secretamente aliviados quando decidi trocar a flauta por uma nova paixão mais silenciosa e mais ligada ao ar livre: o jacaré ou o bodyboarding.
Depois do estágio infantil de apostar corridas com a espuma d´água, passei a usar uma prancha de isopor e a me jogar na frente das ondas para que me levassem. O próximo passo foi me aventurar até onde elas quebravam e depois gradualmente aprender a cortá-las para os lados quando estavam arrebentando. Depois que aprendi a nadar fui ganhando confiança no mar e o tamanho das ondas foi aumentando. Entusiasta do esporte e morando a poucas quadras da praia, fui aprimorando minha técnica. Com o tempo as pranchas foram ficando menores, até que as deixei de lado e passei a usar somente as mãos com a ajuda de pés de pato. Quando percebi, já fazia parte fo grupo dos “casca grossas”.
Pegar jacaré passou a ser a melhor coisa do mundo. Lá longe, na água funda e despoluída, atrás da forte arrebentação, debaixo do sol quente, com os edifícios distantes, tudo era puro, simples e calmo. Havia apenas o corpo imerso no vasto oceano em harmonia com sua dinâmica incontrolável, seu sal e seus sons. Quando as ondas começavam a se formar no horizonte, era como estivessem nos desafiando. Para pegá-las, tínhamos que nos posicionar no lugar perfeito e começar a nadar para a frente na velocidade exata até que o mar nos permitisse fazer parte de sua parede de água. Depois disso, era só guiar nossos corpos, nos movendo ligeiramente para prolongar o êxtase o mais que possível.
As ondas grandes eram medonhas, mas também eram as mais divertidas. No auge de minha carreira de bodyboarder, dominava ondas de até dois metros e meio, quase do tamanho da parede de um quarto, que vistas por baixo pareciam enormes. Sempre havia um ponto de não retorno, quando ainda se podia olhar para baixo e pensar sobre o que se estava prestes a fazer. Nesse ponto, o cara tinha que ser meio doido para continuar, mas, em noventa por cento dos casos, o desafio mais que valia a pena.
O ponto alto de pegar jacaré era ficar envolto pelo tubo da onda, ou entubar. Esse é, com certeza, um dos melhores lugares para se estar no planeta: uma efêmera caverna d´água formada pela natureza num momento único. Para um menino, havia uma poética erótica, ainda que subliminar, de se estar ali com o corpo rígido deslizando pelo túnel de agua do cosmos.
Esse tipo de comunhão com a natureza era maior e melhor do que qualquer outra coisa que tinha aprendido em casa ou na escola. Ao desafiar o oceano me sentia forte, corajoso e acima de tudo harmonizado.
Talvez por noventa por cento do corpo ser composto de água – a energia do mar servia como um carregador de baterias natural. Depois dessas sessões, exausto mas energizado, andava pensativo de volta para casa na beira do mar. Era como se os passeios de madrugada na praia com meu pai retornassem num novo patamar. Embora sem a sua presença, as questões metafísicas e existenciais voltavam ainda mais fortes. Aquele bem-estar absoluto me levava a refletir sobre minha existência bizarra e meu destino de ter que conciliar mundos tão distintos. Ficava pensando que, apesar daquela complexidade insuportável, era apenas um cara como qualquer outro. Por que deveria ser o menino “especial”, solitário e estudioso, que meus pais esperavam que eu fosse? Em casa censurava aqueles pensamentos. Mesmo assim, quando contava minhas façanhas, elas eram acolhidas com apreensão; havia o medo que eu fosse seduzido por atividades socialmente questionáveis que acabariam por me desviar do futuro brilhante reservado a meninos como eu. Para Renée e Rafael, o culto ao físico e a coragem praieira eram coisas para os vândalos cabeludos e insolentes que estavam tomando conta das praias e das ruas cariocas. Para eles e seus amigos, surfistas e roqueiros estavam estragando não só o Rio, mas o mundo. As nuvens de um conflito estavam se formando.
…
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por Mauro Nadvorny | 9 abr, 2020 | Comportamento
Angústia é a reação frente ao perigo. A situação de perigo é percebida, recordada, provocada pelo desamparo. Portanto, a angústia é a reação originária frente ao desamparo. O desamparo primordial ocorre no nascimento, devido à dependência absoluta do bebe ao outro, em geral a mãe. Ao longo da vida ocorrem sentimentos de desamparo de caráter psicológico, nos conflitos, nas separações, na solidão, na carência de amor. O desamparo pode ser imaginado como um grito desesperado de ajuda em direção ao outro. E se o grito não é escutado, o desamparo torna-se desespero. O desamparo está no centro da condição humana, hoje ainda mais.
Há anos, há muitos anos, a humanidade não se sentia tão desamparada como agora. A pandemia do Covid-19 está na vida das crianças que falam nele, o vírus está na vida de todos como ameaça. O inesperado da vida hoje é um trauma, há um sentimento de vulnerabilidade com muitas incertezas.O vírus invisível se espalha em alta velocidade no mundo. Mundo que está vivendo uma metamorfose, uma transformação diante do inesperado, do imprevisível. Que mundo está nascendo agora, que mundo será ainda não se sabe. Recém começa a imaginação do futuro a partir do presente onde crescem a cada dia as redes sociais no trabalho e na convivência social. O desamparo nos defronta hoje com uma situação em que se evidencia a vulnerabilidade da condição humana. Definitivamente, fica provado o quanto não somos os donos da Terra, o quanto a arrogância é ameaçada diante de um vírus invisível.
Buscam aqui diminuir o poder do inimigo que adoece e mata, julgam saber o que não sabem. A onipotência não suporta a incerteza, não tolera sentir-se ignorante diante de uma mudança na realidade. Negam, sustentam que rezar, fazer política, é mais importante que as ciências nessa guerra. Esse é um destino funesto diante do desamparo que leva a mais mortes, pois dividem na hora que é preciso somar. É como se o técnico de um time atacasse o capitão do time, o que fragiliza o grupo, abrindo assim as portas à derrota. Outro destino funesto são os que seguem atacando a solidariedade, onde uns precisam dos outros e a sociedade dos desiguais precisa ser mais justa. É provável que no mundo pós-vírus a crueldade se manterá, são os enlouquecidos pelos lucros e o poder a qualquer custo. Felizmente, diante o desamparo, também há os destinos criativos que não são poucos.
Há as ciências essenciais, assim como as artes, a natureza que precisa ser protegida, o amor e o humor. O humor é um dom precioso nesse clima meio depressivo. A magia do humor movimenta a realidade, seu encanto diminui o desencanto, sua graça alivia a desgraça, é o entusiasmo de brincar que aumenta a potência de viver. Potência que dá brilho ao mundo visto agora sob um novo ponto de vista, outra lógica. Charles Chaplin afirmava que a leveza do humor deveria estar a favor dos mais fracos e não dos poderosos. Um dia perguntaram ao Millôr Fernandes por que ele sempre criticava os donos do poder. Disse: “Eles são fortes o suficiente e não precisam de defensores”. O humor goza a arrogância dos ricos como revela esta história: “Numa sinagoga, um judeu muito rico reza ao lado de um homem bem pobre. O rico diz: ‘Diante do Senhor Todo-Poderoso, eu não sou nada”. O pobre repete em seguida: “Também eu, diante do Senhor Todo-Poderoso, não sou nada”. Ao que retruca o judeu rico: “Veja só, Senhor, quem pretende ser nada!”.
Hoje cada um se confronta, ainda mais, com seu desamparo, e se num certo nível é preciso desenvolver a autonomia, por outro lado é indispensável o apoio das redes solidárias, as redes de proteção. São as pontes de contato, de aprendizado, de imaginação, de ruptura da solidão. Pontes que levam palavras e trazem palavras, levam afetos e trazem carinhos, assim os conhecimentos vão e vêm. Vão e vêm, vêm e vão num balanço de incertezas, com amor e humor. Hoje mais que nunca está indicado:
“DESAMPARADOS DO MUNDO, UNI-VOS.”